quarta-feira, 17 de maio de 2017

Autos de fé e a metamorfose do pusilânime

Sanguessugado do Nocaute


Carlos Alberto Dória*

A fé é a única forma de conhecimento que não necessita amparo nos fatos. Os que defendiam a honra como um valor, e por isso não entregavam ninguém, perderam a parada para os que têm fé no pecado. A confissão ao pé da fogueira é a comprovação da culpa. Trata-se da pentecostalização da esfera pública onde o Ministério Público tornou-se uma espécie de supremo sacerdote na televangelização.



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Judas, Calabar e Cabo Anselmo são alguns entre tantos personagens pusilânimes da história. Os heróis, mesmo os “heróis bandidos” (ver Hobsbawm, Rebeldes primitivos), seriam invencíveis se não fossem os traidores. Jesus, Marighella, Lampião. Daí o valor moral de “não entregar” ninguém. Corisco só se “entregou na morte” de parabellum na mão.

A honra é privilégio daqueles que estão mais próximos de deus ou seu representante (o rei). Essa hierarquia se estabelece no campo de batalha. O código da cavalaria resulta em honra e desonra, hierarquizando os homens através da luta (ver Montesquieu, O espírito das leis). A honra não é estável: pode-se perdê-la e recupera-la através da luta, ao contrário da virtude que por ser nata só se pode perder. A virtude é a “honra” feminina e por ser irrecuperável precisa estar sob proteção e vigilância permanente dos homens da família (pai, irmãos), pois a perda da virtude significa que os homens falharam na sua defesa, desonrando-se. Assim era na sociedade de cortes.

Modernamente entre nós é a Corte Suprema que distribui a honra entre os homens. E a batalha se transferiu para o terreno jurídico. Mas os brasileiros criaram um mecanismo estranho de sua administração. Na Constituição de 1988 instituíram o Ministério Público que, por ser independente, isto é, não prestar contas a ninguém, tem um poder de imposição inédito em qualquer matéria normativa. Administra do meio ambiente à “honra” das pessoas. Faz, é claro, suas alianças para isso. Do Ibama ao judiciário. E assim produziu uma revolução de costumes.

Como a delação, essa coisa abjeta, que nos faz até hoje lembrar de Judas ou do cabo Anselmo, pode ser “premiada”? Como pode o poder público promover a desonra conferindo valor positivo à traição? O pusilânime vive o seu momento de glória diante das TVs. E a grande questão deixou de ser quem será o próximo comprovadamente culpado para ser quem será o próximo pusilânime.

Certamente houve uma reviravolta moral na sociedade ao aplaudir a delação e o seu prêmio, acolher seus resultados mesmo que não se consiga reunir provas visto que, como na inquisição, a confissão é o suficiente para livrar o sujeito que tinha o corpo tomado pelo demônio do fogo purificador. Os mesmos valores justificavam a tortura, como hoje a prisão indefinida sem julgamento, como forma de “auxiliar” a vítima na sua confissão. Espera-se, no fim da confissão-delação a verdade. E tudo o que aparece nesse momento recebe o status de verdade.

A fé é a única forma de conhecimento que não necessita amparo nos fatos. Os que defendiam a honra como um valor, e por isso não entregavam ninguém, perderam a parada para os que têm fé no pecado. A confissão ao pé da fogueira é a comprovação da culpa. Trata-se da pentecostalização da esfera pública onde o Ministério Público tornou-se uma espécie de supremo sacerdote na televangelização.

Ter estado com o demônio, ou ter seu número de telefone no arquivo do celular, basta para incriminar quem seja. Qualquer reunião é um Aquelarre potencial. Suspeitíssimo. Os mesmos liberais que apoiam os autos de fé promovidos em Curitiba silenciam diante desse totalitarismo que avança sobre a vida pública.

Mas não nos iludamos. Enquanto os brasileiros não abandonarem a fé, que propiciaria a volta da razão, o futuro continuará um inferno e a vida do simples mortal um purgatório.


(*) Carlos Alberto Dória é Doutor em Sociologia pela Unicamp e colaborador do Nocaute

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