domingo, 14 de maio de 2017

A ESCROTIDÃO BRASILIS, OU O REALISMO MÁGICO TUPINIQUIM

feicibuqui do Francisco Costa


Franscisco Costa

Nascido no início do século passado, o chamado Realismo Mágico, ou Realismo Fantástico, é um estilo literário situado entre o realismo e o surrealismo, se me permitem classificar assim os teóricos da literatura, onde o leitor ora se sente num sonho, ora num pesadelo.

No chamado Período de Chumbo, quando praticamente toda a América Latina foi dominada por Ditaduras Militares, implantadas, orientadas e sustentadas pelos Estados Unidos, para fugir da forte censura imposta a qualquer forma de pensamento mais elaborado, os escritores latino-americanos ressuscitaram este estilo, que reinou absoluto na segunda metade do século passado.

Temos Gabriel Garcia Márquez, colombiano (Cem Anos de Solidão, Ninguém Escreve ao Coronel, Crônica de Uma Morte Anunciada, O Outono do Patriarca...), Julio Cortázar, argentino (O Jogo da Amarelinha, Os Reis, Bestiário, As Armas Secretas...), Manuel Scorza, peruano (Bom Dia Para os Defuntos; Garabombo, o Invisível, Tumba do Relâmpago, Cavaleiro Insone...), Alejo Carpentier, cubano (O Reino Deste Mundo, A Música em Cuba...), Jorge Luiz Borges, argentino (Aleph, A História Universal da Infâmia, O Livro dos Seres Imaginários...), e outros mais: Ustra Pietri, venezuelano; Miguel Angel Astúrias, guatemalteco; Carlos Fuentes, mexicano...

No Brasil tivemos dezenas de autores nesse estilo: J. J. Veiga (Os Cavalinhos de Platiplanto, a Máquina Extraviada, O Professor Burim e as Quatro Calamidades...), Murilo Rubião (O Pirotécnico Zacarias, A Casa do Girassol Vermelho, Estrela Vermelha, Os Dragões e Outros Contos...), Dias Gomes, que levou o realismo mágico para a televisão, na novela Saramandaia)...

Devorei, avidamente, tudo isso, na época, e até ousei escreve e publicar os meus continhos mágicos também.

Nesse estilo misturam-se realidade e fantasia, o tempo não conta, passado e presente se confundem e a redação busca a realização do poema em prosa.

Eu só não pensei que viveria o bastante para assistir a uma realidade mágica, onde os personagens que estão fazendo a história parecem saídos de sonhos, uns, e pesadelos, outros, onde o Judiciário brasileiro é o expoente máximo dessa surreal magia.

Vejamos: temos um ministro, no STF, que conspirou e deu as condições para um golpe de estado reunindo-se na casa de um réu, hoje condenado e preso; outro ministro, também do STF, ex-advogado da maior e mais poderosa facção criminosa do país; um país onde há provas concretas e insofismáveis de que o presidente é corrupto; onde sete dos seus ministros são investigados por corrupção; onde os líderes da Câmara e do Senado, ambos, são investigados por corrupção; onde, a ser corrupto, um ex-presidente, sob ameaça de prisão, tem contra si a acusação de ter subtraído o menor valor entre todos, inclusive os seus acusadores.

Um país onde corruptos ativos estão presos e os seus beneficiários, soltos, por estarem no governo, ou os beneficiários presos, mas os corruptos ativos, soltos, por serem do governo.
Um país onde o réu dá um esporro de meia hora, no juiz, em plena audiência, com o juiz gaguejando e calando, diante da argumentação do réu, sólida e consistente, desmontando a farsa de um processo.
Um país onde o principal promotor do Ministério Público não aparece na audiência por medo, porque não tem como sustentar as próprias mentiras.

Um país onde um delator teve as provas roubadas; o outro destruiu as provas a mando do réu, do delatado; onde a principal prova é um e-mail, só que criado no dia seguinte em que foi anunciado como prova; onde o advogado de defesa de um réu é irmão do promotor que o acusa; onde a única prova material é um contrato de compra e venda sem as assinaturas do comprador e do vendedor, onde um juiz manda fechar uma instituição particular, afirmando que atendendo a pedido do Ministério Público e é desmentido pelo próprio Ministério Público...

Um país onde juízes, promotores públicos e delegados da polícia federal vestem-se de verde e amarelo, pintam as caras e vão para as passeatas, para pedirem a prisão do réu que estão investigando.

Onde juiz dá autógrafos, entrevistas na televisão, manifesta-se fora dos autos, condenando previamente em cadeia nacional de tevê e é premiado por isso.

Um país onde a mídia é a locomotiva de todas as instituições, manobrando-as como quer, levando-as para onde quer.

Um país onde o governo acaba com a aposentadoria, fecha postos de trabalho, congela salários... Sob os aplausos de boa parcela dos trabalhadores.

Um país onde é motivo de orgulho ser iletrado e ter ojeriza a livros, o que faz de todos uns sábios nas redes sociais, opinando sobre tudo e sempre com razão.

Um país onde as redes sociais bloqueiam usuários por textos e foto que continuam a ser postadas por outros usuários, escondendo a censura.

Um país onde, se a cada vez que um parlamentar em discurso cometesse um erro de pronúncia, concordância ou vício de linguagem, uma moedinha fosse para o cofre de um pobre, a pobreza e a miséria estariam definitivamente erradicadas.

Isto nos atos e atitudes, iniciativas, porque se partimos para a observação direta, o presidente parece um personagem saído de um conto de terror de Edgard Allan Poe; uma primeira dama ex-miss, o que bem diz do intelecto; um deputado que parece um sapo desenhado para ilustrar livros infantis; já o outro imita os trejeitos de Hitler e se orgulha disso... Cada qual mais caricato que o outro.

Ora isto é a concretização do realismo mágico, e de maneira tão radical que já beira o surrealismo, onde nada faz sentido.

Entenderam agora o porque dos meus personagens simiescos, Stradivárius Silva, Hermenegilda Dadivosa, Aristeu Pirócales?

Antigamente, para criarmos um romance, um conto ou uma crônica, tínhamos que sair da realidade e criar uma realidade mágica, ficcional. Hoje basta observar a realidade.


Quem melhor definiu o triste Brasil desses novos tempos foi o filósofo Romero Jucá, o Caju da Odebrecht: uma suruba.

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