quarta-feira, 24 de maio de 2017

Lava Jato e dois destinos, o juiz e o jornalista, Asmodeus e Gabriel

Sanguessugado do GGN


Luis Nassif


Mefistófeles ouviu as queixas do jornalista. Era o mais talentoso da sua geração e nunca tivera oportunidades no ambiente burocrático das redações. Era o mais inteligente da escola, mas nunca tivera a habilidade para ser sociável e reconhecido apenas pelos seus méritos.

Ele queria o poder e Mefistófeles concedeu. Você será o primeiro, se aceitar comandar as forças das trevas, ser o arauto do ódio e da intolerância, o chefe dos templários, o espírito de Átila e a voz dos hunos, o verdugo incumbido de executar os inimigos feridos no campo de batalha. Em troca eu lhe darei séquitos de bárbaros, legiões de criaturas das sombras, o comando do mercado da intolerância, que revistas, jornais, rádios e TVs ambicionam.

E assim foi feito. Mergulhou no mais profundo do esgoto humano, armou-se da retórica mais tenebrosa, espalhou ódio, intolerância, executou inimigos e foi compensado. Seu discurso foi agasalhado pelo segundo maior partido político, a mídia se abriu para o seu reinado e ele foi transportado para os píncaros do jornalismo de esgoto, como o porta-voz máximo da intolerância.


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Chegando ao topo, sentiu que faltava algo. As chamas do ódio espalhavam-se por todos os poros da nação e as fogueiras da inquisição passaram a queimar os seus. E, aos seus pés, via como seguidores o populacho mais selvagem, babando ódio, dividindo suas atenções com artistas pornôs, youtubers de terceira, uma turba vociferante e desqualificada.

Olhou então para o juiz que construíra sua reputação colocando tijolos de jurisprudência no edifício da civilização, o trabalho lento e pertinaz de trazer a luz. E o invejou.

Procurou então Mefistófeles e lhe propôs: agora que tenho o poder, eu quero o respeito. Não quero mais ser o capanga: quero ser o conselheiro.

Mefistófeles refugou: isso não estava no combinado. E o jornalista decidiu percorrer o novo caminho por conta própria. Por algum tempo revestiu-se de seriedade, combateu o ódio que ele próprio disseminara, as fogueiras que ele espalhara, com um senso de lealdade para com os seus e de coragem raros entre os súditos de Mefistofeles.

Porém, quando se despiu da capa vermelha flamejante da ambição e colocou o manto dos conceitos, Mefisto considerou o trato desfeito e o jogou do alto do penhasco.

Enquanto caía, cruzou com o juiz que subia, com beca de Ministro do Supremo.

O juiz nascera tímido. Faltava-lhe coragem e destemor para as grandes batalhas. Por isso, fez carreira semeando o bem e tentando a unanimidade, conquistando o respeito, sendo o pai dos desassistidos, o jurista dos vulneráveis, a alma boa dividida entre grandes questões morais e o escritório de advocacia das causas menores, que também não era de ferro.

Reconhecido, entrou para o Olimpo do direito. E de lá contemplava com olhos úmidos o gozo de prazer dos poderosos. Via o jornalista espirrando ódio por todos os poros, cavalgando a intolerância, e infundindo temor. E o invejou.

Procurou Mefistófeles e lhe propôs: eu tenho o respeito, agora quero o poder. Não quero mais o papel do bonzinho que, no colégio, se intimidava com o grupo dos valentões, cuja timidez encobria o gozo pela violência. Quero comandar os valentões, ser aceito por eles. Além disso, sem a aliança com as legiões das sombras, corria o risco de ter sua vida devassada, sua reputação colocada em dúvida, o sucesso do escritório ameaçado.

E Mefistófeles topou na hora. Imediatamente, o juiz trocou o manto da sobriedade pela capa flamejante do poder e fechou um pacto de sangue com as sombras. Com os olhos rútilos de sangue, passou a autorizar todos os esbirros do poder, todos os desrespeitos aos direitos. Tornou-se temido e poderoso.

Até o dia em que liberou 2.040 gravações de conversas sem interesse jornalístico e deu o empurrão final no poder do jornalista, vazando uma conversa irrelevante com uma fonte.

Foi quando Mefistófeles surgiu na sua frente:

- Imprudente! Não se contentou com todo o poder que lhe dei? Como ousa afrontar um dos tabus do centro do meu poder, a mídia, vazando a conversa de um jornalista com a fonte?       


E o sacrifício do jornalista ajudou a conter as ameaças contra o jornalismo e a abrir os olhos da mídia e do país para o Asmodeus que fugiu ao controle.

O tenentismo togado e a crise total: estamos às portas de uma anti-Revolução de 1930

Sanguessugado do Escrevinhador

O tenentismo togado (promotores, juízes e Lava-Jato) propõe a demolição do Estado e das forças produtivas que o Brasil foi capaz de construir ao longo de mais de 80 anos.
 Estão na mira: Petrobras, BNDES, construção pesada, agro-indústria. É uma crise sem precedentes. Uma crise de regime. Uma espécie de anti-Revolução de 1930.

Rodrigo Vianna

“Estamos às portas de uma crise que já não é de governo, mas de regime”. A frase é de Marco Aurélio Garcia, ex-assessor internacional de Lula e Dilma, que além de ter atuado nos bastidores dos dois governos é historiador e observador da cena política.

Ao contrário do que se imaginava, a Lava-Jato e o movimento comandado por procuradores, juízes e delegados federais não tinham como objetivo apenas derrubar o governo Dilma, nem destruir o “lulo-petismo” – como davam a entender colunistas e políticos ligados ao tucanato.

Este blogueiro, desde 2015, lembra que a Lava-Jato tinha, sim, um claro viés antipetista; mas sempre foi muito mais que isso.

Enganava-se quem via na atuação de Moro, Janot e outros togados um projeto “tucano”. O MPF e o juiz das camisas negras fizeram uma aliança puramente “tática” com o PSDB e setores de centro-direita para atacar Lula e derrubar Dilma. Mas a Lava-Jato jamais esteve “a serviço” do PSDB – como os próprios jornalistas tucanos chegaram a acreditar.

Um analista entrevistado pela BBC usou uma definição interessante para a ação dos procuradores e juízes: seria uma espécie de “tenentismo togado” (clique aqui para ler mais). O paralelo que se traça é com o movimento militar de jovens e impetuosos oficiais, que se levantou contra a República Velha, num longo enfrentamento que teve como desfecho a Revolução de 1930 comandada por Getúlio Vargas:

Não parece haver um recorte específico no sentido de poupar os demais partidos. No fundo, o que os “tenentes togados” fazem é o processo da vida política brasileira como um todo: “querem, em nome da ética jurídica, dos “valores republicanos”, erradicar a “politicagem” da cena brasileira. Mas é inegável que existe também um viés antipetista, às vezes por questão de classe, às vezes por perceberem a mistura de socialismo com corrupção como satânica ou herética” (Christian Edward Cyrill Lynch, doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ).

O tenentismo teve o papel de ajudar a demolir a velha ordem. Alguns tenentes foram levados ao governo de Vargas pós-1930, na qualidade de interventores estaduais. Outros caminharam para o prestismo que depois comandaria o PCB (Partido Comunista do Brasil) durante cinco décadas. Mas o tenentismo, ótimo para demolir a velha ordem, não tinha um projeto para colocar no lugar da Velha República. Na última hora, um político advindo da velha ordem (Getúlio Vargas, que fora ministro de Washington Luiz, último presidente da República Velha) assumiu o poder e lentamente construiu uma nova ordem.

O paralelo termina aqui. Está claro que, ao contrário dos tenentes (que eram ingênuos e sem projeto, mas lutavam pela modernização do país), os procuradores/delegados/juízes do século XXI não têm um sentido de construção nacional. Mas de demolição pura e simples.

Estamos diante de uma crise de regime, sim. Que, se chegar ao ápice, pode levar à destruição não só do “lulo-petismo”, mas de toda a ordem democrática implantada desde a Constituição de 88. E mais que isso: em certo sentido, pode levar à destruição do longo projeto de Estado Nacional iniciado em 1930.

O sentido de tudo que aconteceu de 1930 para cá foi: o Brasil pode ser um Estado autônomo, pode incluir as massas no desenvolvimento (com mais ou menos direitos, mais ou menos liberdade), e o governo cumpre papel central no desenvolvimento, dada a incapacidade da burguesia de liderar qualquer projeto nacional.

Os militares de 64 não ousaram confrontar a herança varguista de Estado. Collor tentou, e caiu. FHC anunciou que enterraria a Era Vargas, mas não conseguiu – seja porque dentro do PSDB ainda havia setores que seguraram a onda ultraliberal, seja porque na oposição o bloco PT/CUT/movimentossociais/partidos de esquerda foi capaz de resistir ao desmonte.

O tenentismo togado, agora, propõe (talvez sem a devida clareza, mas por ações práticas) uma demolição do Estado e das forças produtivas que o Brasil foi capaz de construir ao longo de mais de 80 anos. Estão na mira: Petrobras, BNDES, construção pesada, agro-indústria. É uma crise sem precedentes. Uma crise de regime. Uma espécie de anti-Revolução de 1930.

Assim como os tenentes não tinham projeto, mas apenas a energia renovadora, os togados não parecem ter outra função que não seja demolir tudo. Mas o poder, como sabemos, não admite vácuo. Alguém ocupará espaços. Se o tenentismo togado cumpre a tarefa de implodir o sistema político e de minar a própria ideia de um Estado forte, com vistas ao desenvolvimento, sobra o que?

Provavelmente, uma nova ordem baseada em “iniciativa privada, visão gerencial privatista, abertura do país”.

Muita gente se pergunta: por que a Globo foi com tanta sede ao pote na direção de destituir Temer?Ora, porque a Globo pretende se safar do naufrágio, pretende estar do outro lado do balcão se, e quando, a crise de regime levar de roldão PT/PSDB/PMDB e as agências federais de desenvolvimento – como BNDES, Petrobras e toda a longa e bem sucedida construção varguista do Estado.

A Globo é a organizadora do projeto privatista, do novo regime que já nos espreita na esquina da história.

Mas nem a Globo pode se salvar, se as delações de Ricardo Teixeira arrastarem para a fogueira da destruição os direitos de transmissão esportivas e os esquemas de lavagem de dinheiro já denunciados aqui – https://vimeo.com/album/2146619.

Até 2 ou 3 meses atrás, setores mais responsáveis do centro democrático emitiam sinais de que era preciso “salvar a política” do avanço destrutivo representado pelo tenentismo togado. Lula era visto como o nome que, de dentro do sistema político, poderia comandar a necessária resistência. Nelson Jobim e Renan, além do próprio FHC, chegaram a vocalizar essa estratégia.

Mas o tempo pode ter passado. A crise de regime pode arrastar a todos, sem exceção.

Em 1930, brotou na última hora uma solução autoritária (Vargas) que deu sentido para a demolição da República Velha. Um sentido nacional, de desenvolvimento.

Minha impressão (e espero estar errado) é que vai surgir nos próximos meses uma liderança autoritária, que ofereça um sentido para a destruição promovida pelo tenentismo togado. Mas agora um sentido regressivo, de recolonização do Brasil.


A anti-revolução de 1930 avança, e me parece que nem Lula teria força agora para deter a onda que se avoluma no horizonte.

5 segredos da felicidade, segundo o 'homem mais feliz do mundo'

Via BBC

O monge budista Matthieu Ricard é a "pessoa mais feliz do mundo".

Esse título foi dado por cientistas da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, que estudaram seu cérebro.

Eles descobriram que Ricard produz um nível de ondas cerebrais de gama sem precedentes na literatura científica.

Essas ondas estão ligadas à capacidade de atenção, consciência, aprendizado e memória.

Além disso, Ricard manifesta um nível de atividade no seu córtex pré-frontal esquerdo bem acima do direito, o que reduz sua propensão à negatividade, explicaram os pesquisadores.

“Felicidade não é a busca infinita por uma série de experiências prazerosas. Isso é uma receita para a exaustão”, diz o monge tibetano.

Mas qual é, na visão dele, o segredo para tanta felicidade? Aos 70 anos, Ricard dá cinco conselhos.

1. Defina o que é felicidade
“Felicidade é um jeito de ser. É um estado mental ótimo, excepcionalmente saudável, que dá a você os recursos para lidar com os altos e baixos da vida.”

2. Seja paciente
“Não seja como uma criança que faz pirraça. ‘Eu quero ser feliz agora’, isso não funciona. A fruta amadurece com paciência e vira uma fruta e uma geleia deliciosas. Você não pode fazer isso com uma fruta verde. Leva tempo cultivar todas aquelas qualidades humanas fundamentais que geram bem-estar.”

3. Saiba que você pode treinar sua mente

“O que você fizer vai mudar seu cérebro. Se você aprender malabarismo, a mergulhar ou a esquiar, seu cérebro vai mudar. Da mesma forma, se você treinar sua concentração, se você treinar para ter mais compaixão, se você treinar para ser mais altruísta, seu cérebro vai mudar, você será uma pessoa diferente. Todas essas habilidades podem ser aprendidas, assim como tocar piano ou jogar xadrez.”
4. Pratique pouco e com frequência

“É como quando você rega as plantas no seu apartamento. Você precisa regar um pouco todos os dias. Se você derramar um balde uma vez por mês, a planta vai morrer. É melhor fazer sessões curtas de meditação com frequência do que uma muito longa de tempos em tempos, porque o processo de neuroplasticidade não será ativado ou mantido.”

5. Não deixe o tédio desencorajá-lo


“Devemos perseverar, porque, às vezes, quando está chato é que uma mudança de verdade ocorre. A regularidade é uma das grandes dicas de meditação e treinamento mental para se tornar uma pessoa melhor, mais feliz e mais altruísta.”

domingo, 21 de maio de 2017

O CALIFADO DE CURITIBA, CAI JUNTO COM AÉCIO

Sanguessugado do   LUIZ MÜLLER


Moro investigado

Carlos Henrique Machado Freitas

 A questão de Aécio ser presidente do PSDB, faz da afirmativa de Dallagnol de não investigar tucanos por que não faziam parte do governo Lula e Dilma, algo extremamente grave.

Primeiro porque as inclinações e simpatias de muitos agentes da força tarefa, já tinham revelado uma tendencia apressada e adesista com os tucanos.

Segundo porque essa preferência política, foi vital para a República de Curitiba passar para a opinião pública, não só que o PT, era partido de corruptos, mas o PSDB a estaca do republicanismo ético.
Mas o que estamos assistindo agora,não é nada disso.

Se de um lado, por mais que Moro e cia, junto com a mídia, buscam alguma forma de provar crimes de Lula, Dilma e o PT, não conseguem. Já o PSDB por mais blindado que tenha sido pela mesma Lava Jato de Curitiba, foi detonado quando a operação fugiu ao controle de Moro, Dallagnol e cia.


Esta nova realidade, mostra plenamente quais eram os objetivos reais e quem representava a força tarefa da Lava Jato do califado de Curitiba.

MORO, VOCÊ NOS DEVE EXPLICAÇÕES

feicibuqui do Francisco Costa

Três anos de Lava Jato e você não chamou nenhum tucano sequer para depor, exceto FHC, como testemunha do Lula, com você tratando-o com simpática deferência, quase tietagem explícita.

Em palestra, nos Estados Unidos, acusado de proteger tucanos, você se defendeu afirmando não ter recebido denúncias envolvendo tucanos, o que todo brasileiro sabe que não é verdade, Aécio Neves está mais citado na Lava Jato do que Jesus no Novo Testamento. Michel Temer e muitos dos dele estão mais citados que Alá no Alcorão.


A dois metros dos seus ouvidos Cerveró afirmou ter dado cento e cinqüenta milhões a FHC, como comissão sobre uma refinaria argentina.

Em outra ocasião, também nos Estados Unidos, você disse que os tucanos não teriam como se envolver em ilícitos porque não eram governo.

E vieram as suas fotos ao lado de Aécio Neves e Michel Temer, compartilhando água mineral e muitos sorrisos, em intimidade explícita, o Aécio Neves que alguns conhecem parte da biografia que logo se tornará pública, incapaz de dignificar a quem quer que seja.

Agora, a partir da sistematização de informações e da análise feitas por Teori Zavascki, o que talvez tenha lhe custado a vida, e continuado por Edson Fachin e Rodrigo Janot, sem Power Point, vazamentos seletivos de depoimentos, conduções coercitivas, seguidas coletivas de procuradores do Ministério Público, manifestações fora dos autos, declarações bombásticas, condenações prévias... Em tempo recorde pegaram um tucano de alta extirpe e o Presidente da República.

Excetuando-se as informações obtidas a partir da arapuca montada pela Polícia Federal, todas as informações restantes passaram, antes, pela Décima Terceira Vara da Justiça Federal de Curitiba, de sua responsabilidade, e custo a acreditar que ao lado dos que estão sendo descobertos e têm foro privilegiado não haja outros sem essa prerrogativa, e que até agora não apareceram.

O ex-deputado Eduardo Cunha vem tendo tratamento diferenciado na prisão, sua esposa e filha não foram presas e, já que em Curitiba convicção tem peso similar à prova material, conforme o Ministério Público daí, uma boa parcela de brasileiros têm convicção do porque.

Apresentado como testemunha de defesa do agora apenado, Michel Temer teria que responder a 41 perguntas apresentadas pelo então réu, sendo que você indeferiu 21, mais da metade, sob a alegação de que eram para intimidar e chantagear Temer, e agora, refeitas ou não, essas perguntas estão sendo respondidas nas gravações feitas com autorização judicial, ressalte-se.

Já se tornaram célebres as suas interferências nos depoimentos: “isso não vem ao caso”, “não foi isso o que lhe perguntei”, “limite-se a responder o perguntado”... Sempre que um depoimento se aproxima da perigosa zona dos protegidos.

Você vetou perguntas do advogado de defesa de Eduardo Cunha, feitas a Cerveró, sobre Michel Temer, e que agora serão respondidas no inquérito no STF.

Em telefonema grampeado, sempre com ordem judicial, reitero, o Senador Aécio Neves, afastado do cargo, também por determinação judicial, foi flagrado afirmando que manobra com delegados da Polícia Federal, para permanecer impune, o que realmente acontece, quando percebemos a quantidade de acusações que há contra ele, sem conseqüências; quando o depoimento do ex-presidente Lula demora cinco horas e a de Aécio, menos de meia hora, soando como ação entre amigos; quando o depoimento do ex-presidente merece alarde e o de Aécio acontece quase que secretamente, sem que saibamos o que foi perguntado e o que foi respondido.

Observando-se os nomes dos delegados e policiais federais que investigaram o ex-presidente e outros, do mesmo partido, percebemos que a maioria vazou informações, algumas delas caluniosas, e que uma boa parcela deles fez postagens nas redes sociais com ofensas à ex-presidenta e ao ex-presidente, sem esconder a posição política, de maneira raivosa e revanchista, alguns mesmo trabalhando como cabos eleitorais, pedindo votos para Aécio, nas redes sociais, por ocasião das últimas eleições.

Tivemos até o caso de um Juiz, de Brasília, que fotografado em uma passeata, com camisa da CBF e o rosto pintado de verde e amarelo, saiu da passeata direto para o seu gabinete e em dezoito minutos redigiu e protocolou um pedido de prisão do ex-presidente, contra quem protestou na passeata, o que mais que ferir a Ciência do Direito, fere a moral, a ética e a decência.

Há até um Procurador da República preso, por favorecimento a investigados.

E se há necessidade de provar tudo isso, a prova foi apresentada no momento em que o Sr. Rodrigo Janot nomeou um delegado de sua estrita confiança para conduzir as investigações, para evitar a intromissão externa sobre a Polícia Federal e o Judiciário, prática que se tornou corriqueira no Brasil, em todos os estados e na capital federal.

Moro, a Lava Jato nasceu respeitada, com crédito no que apurou, a ponto de considerarmos o ex-presidente Lula liquidado politicamente, amargando 20% da preferência do eleitorado, mas na medida em que todos os atos que narrei vieram a público, criou-se no país a impressão, para uns, e a convicção, com força de prova, em Curitiba, repito, para outros, de que a Operação Lava Jato é um tribunal político travestido de jurídico, com você funcionando como advogado de defesa de uma parcela de políticos e promotor para os que lhes são opositores, e o resultado está nos 47% de intenções de votos em Lula.

Esta idéia está corroborada por muitos colegas seus, juízes também, aqui e no exterior, onde se incluem desembargadores, professores de Direito e pessoas de notório saber jurídico.

Plagiando um grande poeta, digo-lhe que o seu silêncio nos atordoa. Diante dos últimos acontecimentos, você, que é tão pródigo em declarações, entrevistas e manifestações, permanece calado.

Repare que o tratei por você quando quero e deveria tratá-lo por Senhor, Doutor e Excelência, mas é que o vejo como político e não como juiz, uma visão que cada vez mais ganha corpo no país.

Diante de todo o exposto, e que considero a exposição de milhões de brasileiros, enquanto funcionário público você nos deve explicações.

sábado, 20 de maio de 2017

TIREM A FUMAÇA DOS OLHOS. GLOBO PREPARA O “IPPON”. TEM O COMANDO E CARTAS NA MANGA. CRIME PERFEITO EM CURSO. HAVERÁ FORÇA PARA UM CONTRAGOLPE?


Ricardo Cappelli

Por que o jornalista Lauro Jardim teve o “privilégio” de dar “o furo do século”? Por que a Globo resolveu exigir a saída de Temer e colocar a família de Aécio no presídio no JN? Teria a família Marinho dado uma súbita guinada à esquerda? Seria Lauro Jardim o mais competente jornalista de todo hemisfério sul?

 Por que Meireles anunciou ontem ao mercado que, seja qual for o presidente, ele e sua equipe permanecerão? Quem lhe deu esta segurança?

Por que foram feitas sonoras com alguns Ministros do STF defendendo a manutenção das atuais regras constitucionais (indiretas)?

As revelações “exclusivas” da Globo são mais um capítulo da parceria de sucesso entre a emissora e setores da burocracia estatal de caráter antinacional que começou com o impeachment de Dilma e pode acabar instaurando uma “democracia de fachada” no país. São eles que estão no comando. O “furo”, ou o vazamento, como queiram, foi milimetricamente planejado no jogo em curso. Temer e Aécio foram a “manga do kimono” dada de caso pensado. Querem utilizar a “força da suposta imparcialidade” para o grande golpe final.

Após o enfrentamento Lula x Moro ficou evidente a fragilidade de um contrato em branco para decretar a prisão de alguém. A partir daí foi colocada em curso a estratégia final. Do lado do mercado foi ficando claro também a dificuldade de Temer aprovar as reformas. A saída foi a “Operação Patmos (Apocalipse)”. Obviamente que aparecerá munição pesada contra os governos Lula e Dilma em seguida. As cartas estão com eles e serão usadas no momento certo.

Afastado Temer e destruído o PSDB, ninguém se levantará contra uma prisão “parcial” de Lula e outros da esquerda. Está em curso o Apocalipse do sistema político brasileiro.

Alguém lembra o que fazia Meireles até o ano passado? Acertou quem respondeu que ele era um dos principais executivos do grupo....JBS, isto mesmo. Joesley está agora no seu apartamento de 45 milhões de dólares nos EUA, pelo acordo com “eles” não será preso nem usará tornozeleira eletrônica, é o segundo maior anunciante da..........Globo, e seu principal executivo (Meireles), garantido pelo Globo, continuará a comandar a economia do país sem os políticos com quem antes tinha que negociar. Existe crime perfeito só em filme?

Parece que não.

A sanha da Globo por uma queda rápida de Temer reside no medo de que, se arrastando, possa levantar a população por Diretas, o que bagunçaria toda sua estratégia. Os jornais de hoje são categóricos. Folha e Estadão pedem prudência, equilíbrio e racionalidade, o Globo fuzila.

As manifestações de ontem foram importantes, mas foram pão com mortadela. Nós com nós mesmos. Se não ampliarmos rapidamente, a Aliança do Coliseu, formada pela Globo e setores da burocracia estatal de caráter antinacional, nomeará o biônico pelo Congresso. Parte da esquerda se ilude com uma saída mediada no congresso. Com Rodrigo Maia no alvo e munição de sobra para ele e para seus deputados, dificilmente não ficarão de cócoras para a Globo. Teremos um governo biônico com a política de joelhos, um arremedo de democracia.

Conseguir colocar a população na rua parece o único caminho para tentar impor eleições Diretas, mas não será tarefa fácil. A população está anestesiada. Hora é de muita amplitude e mobilização. Haverá força para um contragolpe? Dias difíceis pela frente. Infelizmente, o jogo é bruto, e vai piorar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Na República do Moro e Dallagnol, Aécio e Temer eram tratados como anjinhos

Feicibuqui do Jeferson Miola






A revelação em detalhes cinematográficos dos crimes do Aécio Neves e Michel Temer deixa os integrantes de Curitiba da força-tarefa da Lava Jato numa situação desconfortável.

Ao longo dos últimos meses, Aécio e Temer foram citados em dezenas de depoimentos de réus, delatores e investigados da Lava Jato. Os dois também apareceram em conversas gravadas pelos operadores dos esquemas de propinas na Petrobrás, Furnas, CEF e em outras estatais.

Apesar disso, o braço curitibano da Lava Jato nunca encontrou motivos para investigá-los.

As gravações do tucano-peemedebista Sérgio Machado, publicadas em maio de 2016, são memoráveis. Nelas, Jucá explicou que o objetivo da camarilha integrada por ele próprio com Temer, Cunha, Padilha, Geddel e Moreira Franco – todos com apelidos nas planilhas de propinas da Odebrecht – era derrubar a Presidente Dilma para estancar a Lava Jato.

O juiz Moro, para justificar a fotografia em que ele e Aécio gargalham como hienas em evento da revista IstoÉ de dezembro de 2016 que reuniu Temer e a nata política e empresarial do golpe [7 meses após as gravações de Sérgio Machado virem a público], disse: “Foi um evento público, e o senador não está sob investigação da Justiça Federal de Curitiba. Foi uma foto infeliz, mas não há nenhum caso envolvendo ele”.

Em entrevista em março passado, o procurador Dallagnol tentou explicar da seguinte maneira os motivos para não investigar os políticos do PSDB: “Não tem como achar na Petrobrás corrupção de um diretor ou presidente [tucano] até porque não existia diretores do PSDB”.

Detalhe: o autor do power point infame contra Lula conhecia, há muito tempo, as denúncias de que US$ 23 milhões roubados por José Serra foram depositados na Suíça, e que Aécio teria recebido R$ 50 milhões de propinas da Odebrecht.

Moro praticou o que poderia ser considerado “camaradagem processual” ao impugnar 21 das 41 perguntas que Eduardo Cunha encaminhou para Temer responder como testemunha. Através das perguntas, que denotavam conhecimento íntimo, por Cunha e Temer, do funcionamento da organização criminosa, Cunha mandava recados e subliminarmente fazia chantagens – como, por exemplo, continuar participando da distribuição do butim abocanhado pela camarilha, mesmo preso [aquilo que, sabe-se agora, Temer confirmou a Joesley Batista: “Temos que manter isso, viu?”].

Moro agiu como advogado de defesa do Temer, não como juiz de direito. No despacho de novembro de 2016, apesar da profusão de delações da Odebrechet e das inúmeras menções ao papel do Temer nos esquemas de corrupção, Moro escreveu que “não há qualquer notícia do envolvimento do Exmo. Sr. Presidente da República nos crimes que constituem objeto desta ação penal”. Em entrevista em fevereiro passado, Moro considerou o roteiro das perguntas elaboradas um “episódio reprovável” de “tentativa de intimidação da Presidência da República”.

Depois do escândalo que levará Temer à renúncia ou ao afastamento, um Moro cara de pau sustenta que “não havia, na época da decisão, qualquer notícia do envolvimento [sic] de Temer nos crimes que constituem o objeto daquela ação penal” [18/5/2017].

Como se observa, na República de exceção do juiz e dos procuradores de Curitiba, os corruptos e criminosos Michel Temer e Aécio Neves eram tratados como anjinhos, como santidades inocentes beneficiárias de uma elástica interpretação do princípio da presunção da inocência.

A revelação dos crimes mais recentes que Aécio e Temer continuaram cometendo, de assalto ao Estado, só teve o alcance merecido porque a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista não passou por Curitiba. Por isso, não puderam ser seletivamente escondidos.

Os fatos autorizam pensar que o braço curitibano da Lava Jato Moro protegia Aécio e Temer, que tem o efeito de proteger o golpe e a oligarquia golpista. No mínimo, é testemunho da parcialidade e da seletividade da Lava Jato.

Para negociar salvação futura, presidente rejeita solução rápida via renúncia e chama as Forças Armadas contra as ruas


Temer vai para a guerra

André Barrocal

Para negociar salvação futura, presidente rejeita solução rápida via renúncia e chama as Forças Armadas contra as ruas
"Não renunciarei": Temer mostra os dentes e insinua merecer gratidão do poder econômico

Michel Temer foi muito pressionado a renunciar após a notícia de que teria endossado um cala-boca em Eduardo Cunha, mas garantiu: “Não renunciarei”. Sair do cargo por conta própria seria apressar o desfecho da crise. Retardar as coisas é o trunfo para negociar sua salvação futura com as forças políticas e econômicas que apoiaram o impeachment.

Com disposição para esticar a corda, o presidente chamou os chefes das Forças Armadas ao Palácio do Planalto nesta sexta-feira 19. Parece preparar-se para enfrentar as ruas, de onde pode vir pressão por um imediato “Fora Temer”. Na véspera, houve protestos em várias capitais e um deles, no Rio, teve confrontos entre black blocs e policiais. No domingo 21, haverá mais manifestações.

A própria retórica presidencial e palaciana tornou-se algo belicosa. No pronunciamento do “Não renunciarei”, viu-se um Temer inusual, como um discurso duro, expressão guerreira. Seus assessores no Planalto têm dito a jornalistas que a ordem do presidente é ir para o “enfrentamento” e mostrar que o governo segue firme. Por quanto tempo seguirá firme?

As alternativas para tirar Temer contra a vontade dele levam tempo. O pedido de impeachment de Dilma Rousseff foi aceito em dezembro de 2015, e a petista só deixou o cargo em maio de 2016. A deposição final levaria mais três meses. Como Temer tem apoio parlamentar maior, e este ainda não evaporou, apesar de certas defecções nas últimas horas, talvez conseguisse arrastar o caso até mais.

A cassação da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem julgamento marcado para 6 de junho, mas não há garantia de que a sentença sairá nesse mesmo dia. O presidente acaba de nomear dois ministros para a Corte, Admar Gonzaga e Tarcisio Vieira, e a dupla tem o direito regimental de pedir vistas do processo, o que adiaria a decisão, sabe-se lá para quando.

E mesmo que o TSE condene a chapa, Temer poderá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) e protelar um desfecho. Antes do impeachment, os advogados de Dilma diziam que iriam ao STF se perdessem no TSE, para questionar se um tribunal de sete pessoas teria legitimidade para anular o resultado de uma eleição de 100 milhões de votos.

Um dos ministros do STF comentou certa vez, de forma reservada, ter a impressão de que a maioria de seus colegas não endossaria uma cassação da chapa pelo TSE.

Sem uma solução rápida e com um Temer moribundo, o País tende a ver paralisia no Congresso e na economia. As impopulares reformas trabalhista e da Previdência, sonho do poder econômico que apoiou a queda de Dilma, por ora estão em banho-maria, já avisaram seus respectivos relatores, senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e deputado Arthur Maia (PPS-BA).

No “mercado”, reduto de fãs da agenda radical do governo, uma tradicional consultoria, a LCA, mandou a clientes na quinta-feira 18 uma análise a prognosticar maus presságios para as reformas enquanto Temer ficar. “Podem ser retomadas mais adiante? É bastante incerto. Pode acontecer, mas somente após a saída de Temer, a depender de quando e como a sucessão transcorrer”, diz o texto.

A agonia com a paralisia do País foi expressa por um peso-pesado da economia, Walter Schalka, presidente da Suzano, em entrevista ao Estadão no mesmo dia. Para ele, renúncia, cassação no TSE e impeachment são as melhores saídas neste momento. “A quarta e pior alternativa é a permanência do Michel Temer sem legitimidade e credibilidade”, afirmou.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso seguiu a mesma toada no Facebook. “Se as alegações de defesa não forem convincentes, e não basta argumentar, são necessárias evidências, os implicados terão o dever moral de facilitar a solução, ainda que com gestos de renúncia. O País tem pressa. Não para salvar alguém ou estancar investigações.”

Se o País tem pressa, Temer não tem. Ao contrário. Quanto mais rápido deixar o cargo, mais perto estará de um acerto de contas na Justiça.

O presidente foi citado em duas delações da Odebrecht. Uma diz que em 2014 ele achacou 10 milhões de reais em grana suja em um jantar com Marcelo Odebrecht no Palácio do Jaburu, sua residência oficial desde 2011. Outra, que abençoou em 2010 em seu escritório político em São Paulo uma tramoia de 40 milhões de dólares a envolver fraude em um contrato da Petrobras.

Temer só não é investigado nesses episódios por serem fatos praticados antes de assumir a Presidência. Na visão da Procuradoria-Geral da República, a Constituição proíbe investigar o presidente por atos anteriores ao mandato, embora haja quem tenha interpretação distinta, a entender que a proibição seria para apenas para denunciar à Justiça, não para apurar. No dia em que deixar o poder, no entanto, estará desprotegido e poderá ser investigado.

O caso que agora deixa o peemedebista à beira da forca, a delação e as gravações da JBS, é diferente. Trata de atos presidenciais de Temer. Por essa razão, a Procuradoria pediu a abertura de um inquérito contra ele, e o juiz Edson Fachin, do Supremo, autorizou.

Quer dizer, Temer está enrolado até o pescoço. Se perder os poderes de presidente, estará mais fragilizado perante a Justiça. Para se salvar e negociar seu futuro, o presidente mostra os dentes (“Não renunciarei. Repito: não renunciarei”) ao mesmo tempo em que insinua merecer gratidão da turma do poder econômico que apoiou o impeachment. Uma insinuação em tom de chantagem.

"Os indicadores de queda da inflação, os números de retorno ao crescimento da economia e os dados de geração de empregos criaram esperança de dias melhores. O otimismo retornava e as reformas avançavam no Congresso”, disse Temer no pronunciamento da quinta-feira 18. "Ontem, contudo, a revelação de conversa gravada clandestinamente trouxe de volta o fantasma de crise política de proporção ainda não dimensionada. Portanto, todo um imenso esforço de retirar o País de sua maior recessão pode se tornar inútil."


O sutil argumento de Temer de que a saída de alguém do poder trará o caos econômico funcionou com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) no fim de 2016, quando o Supremo primeiro assistiu ao senador ignorar uma liminar e continuar na Presidência do Senado e, depois, revogou a liminar, em flagrante contradição com o que tinha feito com Eduardo Cunha. Funcionará agora?

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O gari e o desembargador

Juremir Machado colaboração de Renzo Bassanetti

Juremir Machado da Silva

Porto Alegre, pelos dados do PNUD, é a cidade brasileira com a maior desigualdade entre brancos e negros levando em consideração o IDHM, indicador de qualidade de vida de renda, saúde e educação.

Eu fico perplexo.

Que lugar é este em que os garis são empreendedores cooperativados sem décimo-terceiro nem férias pagas de um mês enquanto os desembargadores, como no resto do país, recebem auxílio-moradia?

O limpador de rua é um trabalhador local sem vínculo empregatício. Uma espécie de empresário.

O magistrado é um funcionário cheio de proteções. Um proletário sob a proteção do Estado.

O dinheiro, claro, sai sempre do bolso dos contribuintes.

Daí o meu pesadelo.

*

Sonho sueco



      Dormir de barriga para cima me faz ter sonhos estranhos. Eu viro de lado, o sonho para. Volto a dormir de barriga para cima, o sonho retorna. Foi assim com esse sonho bizarro em que me vi sueco. O sonho foi assim: eu acordava no meio da noite transformado em sueco. Sem qualquer mudança física. Mas com outro nome: Gunnar Larsson. Vivi um dia de sonho nesse sonho como morador de Estocolmo. Trabalhava numa empresa dedicada ao comércio exterior. O sonho caiu justamente no dia de receber meu salário. Feitos todos os descontos, incluindo impostos, sobraram cerca de 40%. Conversei com meus colegas para saber se havia um erro ou se pretendiam fazer alguma manifestação contra esse abuso.

– Abuso?

– Do Estado?

– Como assim?

– Não é isso?

– Estamos muito satisfeitos com o que pagamos de impostos.

Em me belisquei no sonho para ver se não estava dormindo. Procurei um impostômetro e não achei. Perguntei se havia um dia da gasolina sem impostos. Riram. Um colega fez sinal de que era louco. Ouvi um casal discutindo como dividiriam os 16 meses de licença parental a que tinham direito. Fiquei tão perplexo que exclamei:

– Quem paga essa conta?

– A sociedade, as empresas, o sistema econômico.

– Os empresários não se mobilizam para acabar com isso, essa farra?

– Farra? Eles respeitam a lei e também têm filhos.

Visitei uma creche, uma escola de ensino fundamental e uma universidade. A merenda escolar é totalmente gratuita. O Estado subsidia as instituições privadas. A educação zela pela paridade de gêneros. Até estudantes estrangeiros são subsidiados pelo governo.

– Quem paga todas essas boquinhas?

– Nós, os contribuintes. É muito bom que seja assim.

– Mas isso não vai quebrar o país?

– É função do Estado dar boas condições de vida às pessoas.

Comecei a achar que estavam me zoando no sonho. Resolvi falar de aposentadoria. Minha colega Arne fechou a cara e soltou o verbo.

– Precisamos melhorar muito nesse campo. Temos sérios problemas. Hoje, a idade mínima para aposentadoria é 61 anos. A gente não vem ao mundo só para trabalhar. Precisamos ter tempo e condições de viver bem.

Tentei acordar. Não consegui. Um sueco gigante discursava:

– Nossas universidades são gratuitas. Não temos mensalidades escolares até o ensino médio. Garantimos uma renda a cada pessoa do nascimento aos 16 anos. Damos seguro-desemprego de 300 dias. Tratamento dentário para jovens é de graça. Óculos também. Temos férias de cinco semanas. Se adoecemos nas férias, podemos recuperar esses dias perdidos.

– Que loucura!

– Não sabia disso?

– Na verdade, sou brasileiro.

– Não leu a Cláudia Wallin?

– Essa parte, não.


Acordei. Que pesadelo ser um sueco tão reacionário!

São Paulo, sua história política e seus profetas da dignidade




Nos anos 30, São Paulo não aceitava a pobreza. Com a política do café com leite, tentou fazer a revolução para se separar do Brasil.

Quando se fala de São Paulo, não se fala dos paulistas. Se fala do poder econômico que São Paulo sempre deteve contra os interesses da população brasileira. A ponto de, naquele momento, ser o grande estado agrícola produtor de café e criador de gado com o sul de Minas Gerais. Diziam que a pobreza atrapalhava os ricos de São Paulo.

Esses ricos não sobreviveram. Criaram outros ricos com a estrutura de pedra da Fiesp do pato. Nunca aceitaram o trabalhismo de Getúlio Vargas. O PTB nunca teve força em São Paulo. A corrupção de Ademar de Barros levou aquele homem a ser o jocoso "rouba mas faz".

Em seguida, com a mania de querer moralizar os desmoralizados, determinados "segmentos empresariais" lançaram o famoso Jânio Quadros. Sua filha e seu neto buscam até hoje o dinheiro que deixou em bancos suíços. Só Eloá sabia. Tendo sofrido um derrame, sua filha e seus netos nunca conseguiram encontrar o que ele, demenciado, não conseguia dizer onde estava.

Nos anos da ditadura, uma primeira-dama patrocinou Paulo Maluf para presidente da Caixa e depois para prefeito de São Paulo. Em seguida, passou a ser um dos homens mais procurados pela Interpol, sem poder viajar ao exterior. No Brasil, afirma que nunca roubou.

Na abertura, o senador pobre Orestes Quércia se transforma, depois de ser governador, num biliardário empresário. Aos curiosos que duvidarem, basta procurar na Justiça de São Paulo seu inventário.

Celso Pitta, Jânio, Maluf, até políticos que foram no passado comunistas, motoristas de grandes ações de guerrilha, hoje são defensores do capitalismo paulista, não brasileiro.

A crueldade é tão grande que um ministro paulista fez uma legislação que atinge estados produtores de petróleo e energia, prejudicando fundamentalmente o Rio de Janeiro no âmbito dos impostos.

E agora, de novo os empresários de São Paulo, com o pato, se proclamam profetas da dignidade.


São Paulo volta a ter o comportamento que sempre teve.

PREVARICAÇÃO É CRIME

GilsonSampaio

Aébrio Neves comparece na Lava-Jato como campeão de delações, mas, porém, todavia, contudo, isso não vem ao caso, alguém providenciou uma cobertura teflon. Foram pelo menos 7(sete) as delações e nenhuma delas colou. Todas escorreram para o assento do justiceiro do Paraná e lá permaneceram até ontem.

Recorrendo ao dicionário, temos:

PREVARICAÇÃO
substantivo feminino
1. ato ou efeito de prevaricar.
2. crime cometido por funcionário público quando, indevidamente, este retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal.



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Autos de fé e a metamorfose do pusilânime

Sanguessugado do Nocaute


Carlos Alberto Dória*

A fé é a única forma de conhecimento que não necessita amparo nos fatos. Os que defendiam a honra como um valor, e por isso não entregavam ninguém, perderam a parada para os que têm fé no pecado. A confissão ao pé da fogueira é a comprovação da culpa. Trata-se da pentecostalização da esfera pública onde o Ministério Público tornou-se uma espécie de supremo sacerdote na televangelização.



 montagem-caras


Judas, Calabar e Cabo Anselmo são alguns entre tantos personagens pusilânimes da história. Os heróis, mesmo os “heróis bandidos” (ver Hobsbawm, Rebeldes primitivos), seriam invencíveis se não fossem os traidores. Jesus, Marighella, Lampião. Daí o valor moral de “não entregar” ninguém. Corisco só se “entregou na morte” de parabellum na mão.

A honra é privilégio daqueles que estão mais próximos de deus ou seu representante (o rei). Essa hierarquia se estabelece no campo de batalha. O código da cavalaria resulta em honra e desonra, hierarquizando os homens através da luta (ver Montesquieu, O espírito das leis). A honra não é estável: pode-se perdê-la e recupera-la através da luta, ao contrário da virtude que por ser nata só se pode perder. A virtude é a “honra” feminina e por ser irrecuperável precisa estar sob proteção e vigilância permanente dos homens da família (pai, irmãos), pois a perda da virtude significa que os homens falharam na sua defesa, desonrando-se. Assim era na sociedade de cortes.

Modernamente entre nós é a Corte Suprema que distribui a honra entre os homens. E a batalha se transferiu para o terreno jurídico. Mas os brasileiros criaram um mecanismo estranho de sua administração. Na Constituição de 1988 instituíram o Ministério Público que, por ser independente, isto é, não prestar contas a ninguém, tem um poder de imposição inédito em qualquer matéria normativa. Administra do meio ambiente à “honra” das pessoas. Faz, é claro, suas alianças para isso. Do Ibama ao judiciário. E assim produziu uma revolução de costumes.

Como a delação, essa coisa abjeta, que nos faz até hoje lembrar de Judas ou do cabo Anselmo, pode ser “premiada”? Como pode o poder público promover a desonra conferindo valor positivo à traição? O pusilânime vive o seu momento de glória diante das TVs. E a grande questão deixou de ser quem será o próximo comprovadamente culpado para ser quem será o próximo pusilânime.

Certamente houve uma reviravolta moral na sociedade ao aplaudir a delação e o seu prêmio, acolher seus resultados mesmo que não se consiga reunir provas visto que, como na inquisição, a confissão é o suficiente para livrar o sujeito que tinha o corpo tomado pelo demônio do fogo purificador. Os mesmos valores justificavam a tortura, como hoje a prisão indefinida sem julgamento, como forma de “auxiliar” a vítima na sua confissão. Espera-se, no fim da confissão-delação a verdade. E tudo o que aparece nesse momento recebe o status de verdade.

A fé é a única forma de conhecimento que não necessita amparo nos fatos. Os que defendiam a honra como um valor, e por isso não entregavam ninguém, perderam a parada para os que têm fé no pecado. A confissão ao pé da fogueira é a comprovação da culpa. Trata-se da pentecostalização da esfera pública onde o Ministério Público tornou-se uma espécie de supremo sacerdote na televangelização.

Ter estado com o demônio, ou ter seu número de telefone no arquivo do celular, basta para incriminar quem seja. Qualquer reunião é um Aquelarre potencial. Suspeitíssimo. Os mesmos liberais que apoiam os autos de fé promovidos em Curitiba silenciam diante desse totalitarismo que avança sobre a vida pública.

Mas não nos iludamos. Enquanto os brasileiros não abandonarem a fé, que propiciaria a volta da razão, o futuro continuará um inferno e a vida do simples mortal um purgatório.


(*) Carlos Alberto Dória é Doutor em Sociologia pela Unicamp e colaborador do Nocaute

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Lula: a visão de uma anarquista



Dora Incontri

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Nunca votei no Lula. Também não votei em Dilma. Nem em Fernando Henrique, nem em Collor. Não votei, porque sou anarquista. O que é ser anarquista? É ter consciência de que os sistemas de governo – todos, incluindo a democracia e incluindo os sistemas pretensamente socialistas que tivemos na história recente – estão sempre a serviço de alguma classe, de alguns privilegiados. O Estado é mantido pela violência militar e policial, que pode ser usada a qualquer momento contra o próprio povo ou contra outros povos. E sempre a serviço de interesses de grupos. No caso da democracia atual, ela está a serviço dos bancos, das corporações, dos lobbies, das elites locais e das elites internacionais. Em momentos menos ruins, sobram alguns direitos a mais para o povo. Em algumas tradições de construção estatal, com mais tempo sob influência de ideias sociais e igualitárias, como alguns países da Europa, houve maior oportunidade para o povo adquirir mais educação e um tanto mais de direitos – mas que agora estão sendo retirados em toda parte.

Em todas as democracias do planeta, é o dinheiro do capital que financia os políticos que, portanto, estão a serviço do capital. Se aqui temos uma Odebrecht, nos EUA, temos por exemplo uma indústria bélica, com que os governos “eleitos democraticamente” estão comprometidos até o pescoço. Já o grande anarquista norte-americano Henry Thoreau, no século XIX, negava-se a pagar impostos, porque o dinheiro seria usado para armamentos e guerras expansionistas, que desde aquela época era a política externa do seu país.

Para entrar no jogo político, portanto, ser eleito, governar e fazer acordos, usa-se dinheiro. O dinheiro corrompe princípios, compra pessoas, atende a interesses de grupos e não aos interesses da coletividade.

Assim, nunca me iludi que o PT pudesse manter uma pureza de vestal, ao entrar no jogo do poder e realmente governar. Por isso, nunca votei no PT.

Mas, dentro dessa realidade de como funciona a democracia, por que se escolheu agora fazer uma cruzada inquisitorial, para varrer a corrupção na política? Por que se derrubou o governo Dilma e se persegue com voracidade a pessoa do Lula? Por que Lula está sendo acusado (ainda sem nenhuma prova e com uma orquestração odienta da mídia em peso) de ter um apartamento triplex no Guarujá e Fernando Henrique, sob cujo governo havia os mesmos esquemas de corrupção endêmica no Brasil, não está sendo investigado por seu apartamento em Paris?

Por que há uma multidão no Brasil espumando de ódio contra um homem de 70 anos, querendo sua prisão, como fanáticos inquisidores queriam eliminar as bruxas? Por que se cuspiu na dignidade de uma mulher como Dilma, que não teve até agora nenhum crime comprovado – quando o congresso nacional e esse governo ilegítimo estão tomados de corruptos já mencionados em todas as investigações em curso?

Por três motivos principais:

1) Porque por mais que os governos do PT tivessem adotado a famosa governabilidade – que significa a composição com as forças econômicas e políticas que desde sempre comandam o país, ainda havia nesses governos uma preocupação com o social e um impedimento de se implementar plenamente o programa neoliberal selvagem a que estamos sendo submetidos desde o golpe. Acabar com todos os direitos trabalhistas, esvaziar ainda mais a já combalida educação pública, arrancar dinheiro da saúde, da previdência e da educação, sem mexer um milímetro com os juros exorbitantes dos bancos e com os impostos devidos pelos ricos… Isso só poderia ser feito por um governo que não foi eleito e que está a serviço desse projeto de neoliberalismo selvagem, que aliás é um projeto internacional.

2) Porque enquanto esses direitos são tirados do povo, a mídia, alimentada em primeira mão pela republiqueta de Curitiba e em conluio com ela, montou um circo inquisitorial, em que o principal bode expiatório é o Lula, com seu suposto e patético triplex. Oferece-se alguém ou um grupo para se odiar, com linchamentos públicos diários, e o povo deixa vir à tona seus instintos mais primitivos, enquanto lhe surrupiam os direitos e a nação. Técnica muito conhecida pelos nazistas e descrita por George Orwell em 1984! Não por acaso, nesse livro é que aparece a figura mediática do Grande Irmão (Big Brother)… Lembra alguma coisa?

3) Porque o Brasil era uma economia ascendente – participante do Brics (grupo composto pelas chamadas economias emergentes, Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) e economias emergentes devem ser cortadas pela raiz pelo Império dominante no planeta. Gera-se então uma crise artificial, produz-se descontentamento popular e faz-se cair o governo que causa incômodo àqueles que de fato mandam no mundo. E mais, o Brasil, com seus recursos naturais de petróleo e água, não pode crescer com seus recursos. Eles devem ser transferidos aos donos do mundo. Entre as primeiras ações do governo golpista foi a de entregar o pré-sal ao capital estrangeiro.

E toda essa trama que parece maquiavélica e é maquiavélica sim (aliás, uma leitura esclarecedora é O Príncipe de Maquiavel, para vermos como o poder se comporta em todos os tempos) é possível pela alienação do povo e por seu desejo de odiar alguém, em que pode depositar suas frustrações e sua agressividade. Lula é o objeto perfeito para esse ódio, porque muita gente jamais aceitou que um operário, um “analfabeto”, chegasse ao poder…. Por isso tantos acham normal Fernando Henrique ter um apartamento em Paris, mas babam de raiva com um suposto triplex de Lula no Guarujá. Esse menino nordestino saiu do lugar da senzala a que são destinados os de sua classe social. E não vi ninguém espumando contra a Odebrecht, que participou da corrupção de todos os governos….

E por fim, como anarquista e como espírita e cristã, não me apraz ver ninguém, nem Lula, nem qualquer outro político, de qualquer partido, seja José Dirceu, Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha (de quem tinha verdadeiro horror quando comandava o Congresso), nenhum ser humano, seja criminoso ou não, ser humilhado, com sua dignidade arrancada. Esse sistema de suposta justiça que temos no mundo, e ainda mais no Brasil com seu sistema carcerário indecente, é na verdade um sistema de vingança social. Não se quer consertar a ação maléfica e melhorar quem a praticou, mas punir sadicamente o indivíduo, satisfazendo um anseio de extermínio do outro. Pessoas diante de um tribunal, culpadas ou não, e pessoas encarceradas, em prisões decentes ou não, me causam compaixão e empatia e não satisfação.

Por tudo isso e mais um pouco, digo o seguinte:


Nunca votei no Lula e nunca votei em nenhum presidente. Mas se esse homem, que cresceu aos meus olhos, pela perseguição implacável que vem sofrendo, conseguir sobreviver ao massacre e se levantar de novo como candidato em 2018, terá finalmente meu voto.

Historinha sob o regime de trabalho intermitente

GilsonSampaio

23hs. 

Você está no maior clima love com a mulher amada e o celular toca(pode ser sertanojo ou axe ou pagode).

- É o Deiveclerbeson?

- Sim.

- Tô precisando de você agora pra dar cobertura naquela empresa Nó em Pingo d'Água. O Máiquissom deixou furo pela segunda vez. Ele tá fora. E vai ser difícil pra ele arrumar emprego porque vou sujar ele com as outras empresas.

- Mas.. chefe, eu tô no maior love. Num dá pra arrumar outro não?


- Dá não. Guarda esse tesão que é só por duas horas. Fala pra patroa que depois você compensa.

* * *

- Num vem não, Deive. Desse jeito tá foda. Agora você vive em função dessa desgraça de emprego intermitente. O folgado lá estala o dedo e lá vai você que nem cachorrinho amestrado pra trabalhar o quanto ele precisa. Você sempre está de plantão. Você não percebe? Você não tem tempo pra mim, não tem tempo pras crianças. Nem pros amigos você está tendo tempo. É só tocar o celular e lá vai você trabalhar 2 ou 3 horas pra ganhar uma merreca e praticamente sem direitos.

- Mas bem, não é que eu não procure. É que emprego fixo quase já não existe mais. Esses filhos da puta que deram golpe acabaram com o trabalhador. Se arrependimento matasse, eu já tava morto por ter acreditado na grobo e ter pintado a cara e vestido a camisa da seleção pra tirar a Dilma.

Em queda livre pelo 5º andar: por enquanto está tudo bem.

Jânio de Freitas


Brasileirinhas

1- Bela manchete: "Inflação é a menor em 10 anos". E o desemprego é o maior.

2- Obra anual de Meirelles-Temer: a inflação acumulada nos 12 meses até abril ficou em 4,08%. No mesmo período, os preços de saúde e gastos pessoais subiram 8,91%. Os preços da educação, 8,12%. Ambos mais do dobro da inflação.


3- Em indireta com má pontaria, o ministro Gilmar Mendes disse haver pessoas que "ao envelhecerem passaram de velhos a velhacos". Sem esquecer, por favor, os que assim abordam a velhice porque assim já eram.

domingo, 14 de maio de 2017

A ESCROTIDÃO BRASILIS, OU O REALISMO MÁGICO TUPINIQUIM

feicibuqui do Francisco Costa


Franscisco Costa

Nascido no início do século passado, o chamado Realismo Mágico, ou Realismo Fantástico, é um estilo literário situado entre o realismo e o surrealismo, se me permitem classificar assim os teóricos da literatura, onde o leitor ora se sente num sonho, ora num pesadelo.

No chamado Período de Chumbo, quando praticamente toda a América Latina foi dominada por Ditaduras Militares, implantadas, orientadas e sustentadas pelos Estados Unidos, para fugir da forte censura imposta a qualquer forma de pensamento mais elaborado, os escritores latino-americanos ressuscitaram este estilo, que reinou absoluto na segunda metade do século passado.

Temos Gabriel Garcia Márquez, colombiano (Cem Anos de Solidão, Ninguém Escreve ao Coronel, Crônica de Uma Morte Anunciada, O Outono do Patriarca...), Julio Cortázar, argentino (O Jogo da Amarelinha, Os Reis, Bestiário, As Armas Secretas...), Manuel Scorza, peruano (Bom Dia Para os Defuntos; Garabombo, o Invisível, Tumba do Relâmpago, Cavaleiro Insone...), Alejo Carpentier, cubano (O Reino Deste Mundo, A Música em Cuba...), Jorge Luiz Borges, argentino (Aleph, A História Universal da Infâmia, O Livro dos Seres Imaginários...), e outros mais: Ustra Pietri, venezuelano; Miguel Angel Astúrias, guatemalteco; Carlos Fuentes, mexicano...

No Brasil tivemos dezenas de autores nesse estilo: J. J. Veiga (Os Cavalinhos de Platiplanto, a Máquina Extraviada, O Professor Burim e as Quatro Calamidades...), Murilo Rubião (O Pirotécnico Zacarias, A Casa do Girassol Vermelho, Estrela Vermelha, Os Dragões e Outros Contos...), Dias Gomes, que levou o realismo mágico para a televisão, na novela Saramandaia)...

Devorei, avidamente, tudo isso, na época, e até ousei escreve e publicar os meus continhos mágicos também.

Nesse estilo misturam-se realidade e fantasia, o tempo não conta, passado e presente se confundem e a redação busca a realização do poema em prosa.

Eu só não pensei que viveria o bastante para assistir a uma realidade mágica, onde os personagens que estão fazendo a história parecem saídos de sonhos, uns, e pesadelos, outros, onde o Judiciário brasileiro é o expoente máximo dessa surreal magia.

Vejamos: temos um ministro, no STF, que conspirou e deu as condições para um golpe de estado reunindo-se na casa de um réu, hoje condenado e preso; outro ministro, também do STF, ex-advogado da maior e mais poderosa facção criminosa do país; um país onde há provas concretas e insofismáveis de que o presidente é corrupto; onde sete dos seus ministros são investigados por corrupção; onde os líderes da Câmara e do Senado, ambos, são investigados por corrupção; onde, a ser corrupto, um ex-presidente, sob ameaça de prisão, tem contra si a acusação de ter subtraído o menor valor entre todos, inclusive os seus acusadores.

Um país onde corruptos ativos estão presos e os seus beneficiários, soltos, por estarem no governo, ou os beneficiários presos, mas os corruptos ativos, soltos, por serem do governo.
Um país onde o réu dá um esporro de meia hora, no juiz, em plena audiência, com o juiz gaguejando e calando, diante da argumentação do réu, sólida e consistente, desmontando a farsa de um processo.
Um país onde o principal promotor do Ministério Público não aparece na audiência por medo, porque não tem como sustentar as próprias mentiras.

Um país onde um delator teve as provas roubadas; o outro destruiu as provas a mando do réu, do delatado; onde a principal prova é um e-mail, só que criado no dia seguinte em que foi anunciado como prova; onde o advogado de defesa de um réu é irmão do promotor que o acusa; onde a única prova material é um contrato de compra e venda sem as assinaturas do comprador e do vendedor, onde um juiz manda fechar uma instituição particular, afirmando que atendendo a pedido do Ministério Público e é desmentido pelo próprio Ministério Público...

Um país onde juízes, promotores públicos e delegados da polícia federal vestem-se de verde e amarelo, pintam as caras e vão para as passeatas, para pedirem a prisão do réu que estão investigando.

Onde juiz dá autógrafos, entrevistas na televisão, manifesta-se fora dos autos, condenando previamente em cadeia nacional de tevê e é premiado por isso.

Um país onde a mídia é a locomotiva de todas as instituições, manobrando-as como quer, levando-as para onde quer.

Um país onde o governo acaba com a aposentadoria, fecha postos de trabalho, congela salários... Sob os aplausos de boa parcela dos trabalhadores.

Um país onde é motivo de orgulho ser iletrado e ter ojeriza a livros, o que faz de todos uns sábios nas redes sociais, opinando sobre tudo e sempre com razão.

Um país onde as redes sociais bloqueiam usuários por textos e foto que continuam a ser postadas por outros usuários, escondendo a censura.

Um país onde, se a cada vez que um parlamentar em discurso cometesse um erro de pronúncia, concordância ou vício de linguagem, uma moedinha fosse para o cofre de um pobre, a pobreza e a miséria estariam definitivamente erradicadas.

Isto nos atos e atitudes, iniciativas, porque se partimos para a observação direta, o presidente parece um personagem saído de um conto de terror de Edgard Allan Poe; uma primeira dama ex-miss, o que bem diz do intelecto; um deputado que parece um sapo desenhado para ilustrar livros infantis; já o outro imita os trejeitos de Hitler e se orgulha disso... Cada qual mais caricato que o outro.

Ora isto é a concretização do realismo mágico, e de maneira tão radical que já beira o surrealismo, onde nada faz sentido.

Entenderam agora o porque dos meus personagens simiescos, Stradivárius Silva, Hermenegilda Dadivosa, Aristeu Pirócales?

Antigamente, para criarmos um romance, um conto ou uma crônica, tínhamos que sair da realidade e criar uma realidade mágica, ficcional. Hoje basta observar a realidade.


Quem melhor definiu o triste Brasil desses novos tempos foi o filósofo Romero Jucá, o Caju da Odebrecht: uma suruba.

sábado, 13 de maio de 2017

De Eugênio Aragão a Rodrigo Janot: “Amigo não trai, amigo é crítico sem machucar, amigo é solidário”

Sanguessugado do Marcelo Auler

Marcelo Auler

aragão versus janot

Crítico dos métodos que são utilizados pela Operação Lava Jato e da maneira como o procurador-geral da República Rodrigo Janot lida com o assunto, o subprocurador da República Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Rousseff e outrora amigo pessoal de Janot, “vestiu a carapuça” (usando sua própria expressão) diante do discurso que o chefe da PGR fez no Supremo Tribunal Federal (STF) durante a posse da ministra Carmem Lúcia na presidência daquela corte.

A resposta ao ex-amigo, veio em forma de Carta Aberta que Aragão repassou com exclusividade ao nosso Blog. Para muitos, pode ser entendido como uma lavagem de roupa suja. Mas, quem perceber direito, verificará que se trata de um documento Histórico, com H maiúsculo.

Uma carta corajosa, na qual Aragão, sem medo das incompreensões que deverá sofrer, relata fatos que vivenciou ou protagonizou na nossa jovem democracia. Ele faz revelações importantes, como os almoços e jantares que Janot ofereceu,em sua casa, a José Genoino, com quem mantinha afinidade nas conversas e no trato.

Revela as críticas que seu colega, antes de chegar ao cargo de procurador-geral da República, fazia aos seus antecessores, principalmente pelo comportamento durante o chamado processo do Mensalão.  Conta as articulações que fez para conseguir a nomeação do amigo, entendendo que ele seria

“um chefe do ministério público enérgico e conhecedor de todas as mazelas da instituição. Sim, tinha-o como o colega no MPF que melhor conhecia a política interna, não só pelos cargos que ocupara, mas sobretudo pelo seu jeitão mineiro e bonachão de conversar com todos, sem deixar de ter lado e ser direto, sincero, às vezes até demais”.

Mas também relata, sem entrar em juízo de val,ores e explicar causas, a transformação que teria ocorrido com o colega e chefe, a ponto dele aconselhar a vice-procuradora Ella Wiecko Volkmer de Castilho – que depois Janot demitiu – a não comparecer na posse de Aragão como ministro da Justiça. Ou omitir-se diante do processo de impeachment de Dilma Rousseff sem que o Ministério Público Federal exercesse seu papel de defensor maior do regime democrático (art. 127 da CF) .

A carta, que o blog se orgulha de publicar com Exclusividade, fala por si. A ela.

Sobre a honestidade de quem critica a Lava Jato

Eugênio Aragão

“Praecepta iuris sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique  tribuere” (Ulpiano)
“Os preceitos do direitos são estes: viver honestamente, não lesar a outrem, dar a cada um o que é seu.” (Ulpiano)

“Disse o Senhor Procurador-Geral da República por ocasião da posse da nova presidente do STF, Ministra Carmen Lúcia, que se tem “observado diuturnamente um trabalho desonesto de desconstrução da imagem de investigadores e de juízes. Atos midiáticos buscam ainda conspurcar o trabalho sério e isento desenvolvido nas investigações da Lava Jato”.

Aragão sobre Barbosa: "forma estra
Aragão sobre Barbosa: “Batuta Freisleriana”, de Roland Freisler, presidente estridente do Volksgerichtshof de Hitler, que condenou centenas à morte. Ele gritava e xingava nas sessões. Humilhava os réus.



Visto a carapuça, Doutor Rodrigo Janot. E lhe respondo publicamente, por ser esse o único meio que me resta para defender a honestidade de meu trabalho, posta em dúvida, também publicamente, pelo Senhor, numa ocasião solene, na qual jamais alcançaria o direito de resposta.

O Senhor sabe o quanto tenho sido ostensivamente crítico da forma de agir estrambólica dos agentes do Estado, perceptível, em maior grau, desde a Ação Penal 470, sob a batuta freisleriana do Ministro Joaquim Barbosa.

Aliás, antes de ser procurador-geral, o Senhor compartilhava comigo, em várias conversas pessoais, minha crítica, dirigida, até mesmo, ao Procurador-Geral da República de então, Doutor Gurgel. Lembro-me bem de suas opiniões sobre a falta de noção de oportunidade de Sua Excelência, quando denunciou o Senador Renan Calheiros em plena campanha à presidência do Senado.


No relato de Aragão, Janot criticava a falta de noção de oportunidade de Gurgel ao denunciar Renan Calheiros em plena campanha para eleição da presidência do Senado.

Lembro-me, também, de nossa inconformação solidária contra as injustiças perpetradas na Ação Penal 470 contra NOSSO (grifo do original) amigo José Genoíno.

“Não foi uma só vez que o Senhor contou que seus antecessores sabiam da inocência de Genoíno, mas não o retiraram da ação penal porque colocaria em risco o castelo teórico do “Mensalão”, como empreitada de uma quadrilha, da qual esse nosso amigo tinha que fazer parte, para completar o número”.

Por sinal, conheci José Genoíno em seu apartamento, na Asa Sul, quando o Senhor e eu dirigíamos em parceria a Escola Superior do Ministério Público da União. Àquela ocasião, já era investigado, senão denunciado, por Doutor Antônio Fernando.

jose Genoino

Janot, conforme explica Aragão na carta, tinha consciência da inocência de José Genoino com quem conversava e até oferecia almoços e jantares que o próprio Janot cozinhava em sua casa.

Admirei a sua coragem, Doutor Rodrigo, de não se deixar intimidar pelos arroubos midiáticos e jurisdicionais vindas do Excelso Sodalício. Com José Genoíno travamos interessantes debates sobre o futuro do País, sobre a necessidade de construção de um pensamento estratégico com a parceria do ministério público.

Tornou-se, esse político, então, mais do que um parceiro, um amigo, digno de ser recebido reiteradamente em seu lar, para se deliciar com sua arte culinária. De minha parte, como não sou tão bom cozinheiro quanto o Senhor, preferia encontrar, com frequência, Genoíno, com muito gosto e admiração pela pessoa simples e reta que se me revelava cada vez mais, no restaurante árabe do Hotel das Nações, onde ele se hospedava. Era nosso point.

Cá para nós, Doutor Rodrigo Janot, o Senhor jamais poderia se surpreender com meu modo de pensar e de agir, para chamá-lo de desonesto. O Senhor me conhece há alguns anos e até me confere o irônico apelido de “Arengão”, por saber que não fujo ao conflito quando pressinto injustiça no ar. Compartilhei esse pressentimento de injustiça com o Senhor, já quando era procurador-geral e eu seu vice, no Tribunal Superior Eleitoral.

Compartilhei meus receios sobre os desastrosos efeitos da Lava Jato sobre a economia do País e sobre a destruição inevitável de setores estratégicos que detinham insubstituível ativo tecnológico para o desenvolvimento do Brasil. Da última vez que o abordei sobre esse assunto, em sua casa, o Senhor desqualificou qualquer esforço para salvar a indústria da construção civil, sugerindo-me que não deveria me meter nisso, porque a Lava Jato era “muito maior” do que nós.

Mas continuemos no flash-back.

Tinha-o como um amigo, companheiro, camarada. Amigo não trai, amigo é crítico sem machucar, amigo é solidário e sempre tem um ouvido para as angústias do outro.

Lutamos juntos, em 2009, para que Lula indicasse Wagner Gonçalves procurador-geral, cada um com seus meios. Os meus eram os contatos sólidos que tinha no governo pelo meu modo de pensar, muito próximo ao projeto nacional que se desenvolvia e que fui conhecendo em profundidade quando coordenador da 5ª Câmara de Coordenação e Revisão da PGR, que cuidava da defesa do patrimônio público.

Antônio Fernando de Souza (foto Abr) e Eduardo Cunha (foto Luiz Macedo/Agência Câmara)
Aragão e Janot frustraram-se quando Lula reconduziu Antônio Fernando à frente da PGR. Depois do mandato, o ex-procurador-geral advogou para Eduardo Cunha.

Ficamos frustrados quando, de última hora, Lula, seguindo conselhos equivocados, decidiu reconduzir o Doutor Antônio Fernando.

Em 2011, tentamos de novo, desta vez com sua candidatura contra Gurgel para PGR.

Na verdade, sabíamos que se tratava apenas de um laboratório de ensaio, pois, com o clamor público induzido pelos arroubos da mídia e os chiliques televisivos do relator da Ação Penal 470, poucas seriam as chances de, agora Dilma, deixar de indicar o Doutor Gurgel, candidato de Antônio Fernando, ao cargo de procurador-geral.

Ainda assim, levei a missão a sério. Fui atrás de meus contatos no Planalto, defendi seu nome com todo meu ardor e consegui, até, convencer alguns, mas não suficientes para virar o jogo.

Mas, vamos em frente.

Aragão pediu ajuda ao amigo -"irmão há 30 anos" - Sigmaringa Seixas para que Janot fosse nomeado procurador-geral da República.
Aragão pediu ajuda ao “amigo-irmão há 30 anos” – Sigmaringa Seixas para que Janot fosse nomeado procurador-geral da República.

Em 2013, quando o Senhor se encontrava meio que no ostracismo funcional porque ousara concorrer com o Doutor Gurgel, disse-me que voltaria a concorrer para PGR e, desta vez, para valer.

Era, eu, Corregedor-Geral do MPF e, com muito cuidado, me meti na empreitada. Procurei o Doutor Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, meu amigo-irmão há quase trinta anos, e pedi seu apoio a sua causa.

Procurei conhecidos do PT em São Paulo, conversei com ministros do STF com quem tinha contatos pessoais. Enquanto isso, o Senhor foi fazendo sua campanha Brasil afora, contando com o apoio de um grupo de procuradores e procuradoras que, diga-se de passagem, na disputa com Gurgel tinham ficado, em sua maioria, com ele.

Incluía, até mesmo, o pai da importação xinguelingue ( Gíria paulista: produto barato que vem da China, geralmente de baixíssima qualidade) da teoria do domínio do fato, elaborado por Claus Roxin no seu original, mas completamente deturpada na Pindorama, para se transmutar em teoria de responsabilidade penal objetiva.

Achava essa mistura de apoiadores um tanto estranha, pois eu, que fazia o trabalho de viabilizar externamente seu nome, nada tinha em comum com essa turma em termos de visão sobre o ministério público.

Como o Senhor sabe, no início de 2012, publiquei, numa obra em “homenagem” ao então Vice-Presidente da República, Michel Temer, um artigo extremamente polêmico sobre as mutações disfuncionais por que o ministério público vinha passando.

Esse artigo, reproduzido no Congresso em Foco, com o título “Ministério Público na Encruzilhada: Parceiro entre Sociedade e Estado ou Adversário implacável da Governabilidade?”, quando tornado público, foi alvo de síncopes corporativas na rede de discussão @Membros.

Faltaram querer me linchar, porque nossa casa não é democrática. Ela se rege por um princípio de omertà muito próprio das sociedades secretas. Mas não me deixei intimidar.

Depois, ainda em 2013, publiquei outro artigo, em crítica feroz ao movimento corporativo-rueiro contra a PEC 37, também no Congresso em Foco, com o título “Derrota da PEC 37: a apropriação corporativa dos movimentos de rua no Brasil”.

(N.R. A PEC 37, derrotada na Câmara em junho de 2013, determinava que o poder de investigação criminal seria exclusivo das polícias federal e civis, retirando esta atribuição de alguns órgãos e, sobretudo, do Ministério Público (MP).

Lula e Dilma
Aragão sobre a escolha do procurador-geral em lista tríplice: “Sempre achei esse método de escolha do chefe da instituição um grande equívoco dos governos Lula e Dilma”

Sua turma de apoio me qualificou de insano, por escrever isso em plena campanha eleitoral do Senhor. Só que se esqueceram que meu compromisso nunca foi com eles e com o esforço corporativo de indicar o Procurador-Geral da República por lista tríplice.Sempre achei esse método de escolha do chefe da instituição um grande equívoco dos governos Lula e Dilma.

Meu compromisso era com sua indicação para o cargo, porque acreditava na sua liderança na casa, para mudar a cultura do risco exibicionista de muitos colegas, que afetava enormemente a qualidade de governança do País.

No seu caso, pensava, a coincidência de poder ser o mais votado pela corporação e de ter a qualidade da sensibilidade para com a política extra-institucional, era conveniente, até porque a seu lado, poderia colaborar para manter um ambiente de parceria com o governo e os atores políticos.

Aragão: a indicação de Ella Wiecko como vice-procuradora-geral da República "foi um conselho meu que o senhor acatou, ainda na campanha".
Aragão: a indicação de Ella Wiecko como vice-procuradora-geral da República “foi um conselho meu que o senhor acatou, ainda na campanha”.

Não foi por outro motivo que, quando me deu a opção, preferi ocupar a Vice-Procuradoria-Geral Eleitoral a ocupar a Vice-Procuradoria-Geral da República que, a meu ver, tinha que ser destinada à Doutora Ela Wiecko Volkmer de Castilho, por deter, também, expressiva liderança na casa e contar com boa articulação com o movimento das mulheres. Este foi um conselho meu que o Senhor prontamente atendeu, ainda antes de ser escolhido.

Naqueles dias, a escolha da Presidenta da República para o cargo de procurador-geral estava entre o Senhor e a Doutora Ela, pendendo mais para a segunda, por ser mulher e ter tido contato pessoal com a Presidenta, que a admirava e continua admirando muito.

Ademais, Doutora Ela contava com o apoio do Advogado-Geral da União, Doutor Luís Inácio Adams. Brigando pelo Senhor estávamos nós, atuando sobre o então Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo e o amigo Luiz Carlos Sigmaringa Seixas.

José Eduardo Cardozo, Wellington César Lima e Silva e Ricardo Lewandowski - foto: Gil Ferreira/Agência CNJ
Aragão buscou o apoio de José Eduardo Cardozo e Ricardo Lewandowski para a nomeação da Janot por Dilma.  – foto: Gil Ferreira/Agência CNJ

Quando ouvimos boatos de que a mensagem ao Senado, com a indicação da Doutora Ela, estava já na Casa Civil para ser assinada, imediatamente agi, procurando o Ministro Ricardo Lewandowski, que, após recebê-lo, contatou a Presidenta para recomendar seu nome.

No dia em que o Senhor foi chamado para conversar com a Presidenta, fui consultado pelo Ministro da Justiça e pelo Advogado-Geral da União, pedindo que confirmasse, ou não, que seu nome era o melhor. Confirmei, em ambos os contatos telefônicos.

Na verdade, para se tornar Procurador-Geral da República, o Senhor teve que fazer alianças contraditórias, já que não aceitaria ser nomeado fora do método de escolha corporativista.
Acendeu velas para dois demônios que não tinham qualquer afinidade entre si: a corporação e eu.

Da primeira precisou de suporte para receber seus estrondosos 800 e tantos votos e, de mim, para se viabilizar num mundo em que o Senhor era um estranho. Diante do meu receio de que essa química poderia não funcionar, o Senhor me acalmou, dizendo que nós nos consultaríamos em tudo, inclusive no que se tinha a fazer na execução do julgado da Ação Penal 470, que, a essa altura, já estava prestes a transitar.

Dilma Roussef na posse de Rodrigo Janot como procurador-geral da República, em 17/09/2013.  Na mesa, Aragão. Foto:Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Roussef na posse de Rodrigo Janot como procurador-geral da República, em 17/09/2013. Foto:Roberto Stuckert Filho/PR

O dia de sua posse foi, para mim, um momento de vitória. Não uma vitória pessoal, mas uma vitória do Estado Democrático de Direito que, agora, teria um chefe do ministério público enérgico e conhecedor de todas as mazelas da instituição. Sim, tinha-o como o colega no MPF que melhor conhecia a política interna, não só pelos cargos que ocupara, mas sobretudo pelo seu jeitão mineiro e bonachão de conversar com todos, sem deixar de ter lado e ser direto, sincero, às vezes até demais.

Seu déficit em conhecimento do ambiente externo seria suprido com o exercício do cargo e poderia, eu, se chamado, auxiliá-lo, assim como Wagner Gonçalves ou Claudio Fonteles.

Meu susto se deu já no primeiro mês de seu exercício como procurador-geral. Pediu, sem qualquer explicação ou conversa prévia com o parceiro de que tanto precisou para chegar lá, a prisão de José Genoíno. E isso poucos meses depois de ele ter estado com o Senhor como amigo in pectore.
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Aragão a Janot: “como José Genoino foi reiteradamente comensal em sua casa, nada custava, em último caso, dar-se por suspeito e transferir a tarefa do pedido a outro colega menos vinculado afetivamente, não acha?”

Eu não tenho medo de assumir que participei desses contatos. Sempre afirmei publicamente a extrema injustiça do processo do “Mensalão” no que toca aos atores políticos do PT. Sempre deixei claro para o Senhor e para o Ministro Joaquim Barbosa que não aceitava esse método de exposição de investigados e réus e da adoção de uma transmutação jabuticaba da teoria do domínio do fato.

Defendi José Genoíno sempre, porque, para mim, não tem essa de  abrir seu coração (e no seu caso, a sua casa) a um amigo e depois tratá-lo como um fora da lei, sabendo-o inocente.

Tentei superar o choque, mas confesso que nunca engoli essa iniciativa do Senhor.

Acaso achasse necessário fazê-lo, deveria ter buscado convencer as pessoas às quais, antes, expressou posição oposta. E, depois, como José Genoino foi reiteradamente comensal em sua casa, nada custava, em último caso, dar-se por suspeito e transferir a tarefa do pedido a outro colega menos vinculado afetivamente, não acha?

Como nosso projeto para o País era maior do que minha dor pela injustiça, busquei assimilar a punhalada e seguir em frente, sabendo que, para terceiros, o Senhor se referia a mim como pessoa que não podia ser envolvida nesse caso, por não ter isenção.

E não seria mesmo envolvido. Nunca quis herdar a condução da Ação Penal 470, para mim viciada ab ovo, e nunca sonhei com seu cargo. Sempre fui de uma lealdade canina para com o Senhor e insistia em convencer, a mim mesmo, que sua atitude foi por imposição das circunstâncias. Uma situação de “duress”, como diriam os juristas anglo-saxônicos.

Mas chegou o ano 2014 e, com ele, a operação Lava Jato e a campanha eleitoral. Dois enormes desafios. Enquanto, por lealdade e subordinação, nenhuma posição processual relevante era deixada de lhe ser comunicada no âmbito do ministério público eleitoral, no que diz respeito à Lava Jato nada me diziam, nem era consultado.

O Senhor preferiu formar uma dupla com seu chefe de gabinete, Eduardo Pelella, que tudo sabia e em tudo se metia e, por isso, chamado carinhosamente de “Posto Ipiranga”. Era seu direito e, também por isso, jamais o questionei a respeito, ainda que me lembrasse das conversas ante-officium de que sempre nos consultaríamos sobre o que era estratégico para a casa.

Passei a perceber, aos poucos, que minha distância, sediado que estava fora do prédio, no Tribunal Superior Eleitoral, era conveniente para o Senhor e para seu grupo que tomava todas as decisões no tocante à guerra política que se avizinhava.

Não quis, contudo, constrangê-lo. Tinha uma excelente equipe no TSE. Fazia um time de primeira com os colegas Luiz Carlos Santos Gonçalves, João Heliofar, Ana Paula Mantovani Siqueira e Ângelo Goulart e o apoio inestimável de Roberto Alcântara, como chefe de gabinete. Não faltavam problemas a serem resolvidos numa das campanhas mais agressivas da história política do Brasil. Entendi que meu papel era garantir que ninguém fosse crucificado perante o eleitorado com ajuda do ministério público e, daí, resolvemos, de comum acordo, que minha atuação seria de intervenção mínima, afim de garantir o princípio da par conditio candidatorum.

Gilmar Mendes. que assumirá a presidência do TSE, já articula para julgar as contas de Temer separadamente das de Dilma.. Novo golpe?  Foto: Dorivan Marinho/SCO/ST

Gilmar Mendes. que assumirá a presidência do TSE, já articula para julgar as contas de Temer separadamente das de Dilma.. Novo golpe?  Foto: Dorivan Marinho/SCO/ST
Aragão a Janot, sem citar Gilmar Mendes: “Tive que enfrentar sozinho a ira desmedida do vice-presidente do tribunal contra o PT e sua candidata, questionando, sempre por escrito, eventuais atos que pudessem indicar assimetria de tratamento”. Foto: Dorivan Marinho/SCO/ST


Quando alguma posição a ser tomada era controversa, sempre a submeti ao Senhor e lhe pedi reiteradamente que tivesse mais presença nesse cenário. Fiquei plantado em Brasília o tempo todo, na posição de bombeiro, evitando que o fogo da campanha chegasse ao judiciário e incendiasse a corte e o MPE. As estatísticas são claras. Não houve nenhum ponto fora da curva no tratamento dos contendentes.

Diferentemente do que o Senhor me afirmou, nunca tive briga pessoal com o então vice-presidente do TSE. Minha postura de rejeição de atitudes que não dignificavam a magistratura era institucional.

E, agora, que Sua Excelência vem publicamente admoestá-lo na condução das investigações da Lava Jato, imagino, suas duras reações na mídia também não revelam um conflito pessoal, mas, sim, institucional. Estou certo? Portanto, nisso estamos no mesmo barco, ainda que por razões diferentes.

Passada a eleição, abrindo-se o “terceiro turno”, com o processo de prestação de contas da Presidenta Dilma Rousseff que não queria e continua não querendo transitar em julgado apesar de aprovado à unanimidade pelo TSE e com as ações de investigação judicial e de impugnação de mandato eleitoral manejadas pelo PSDB, comecei, pela primeira vez, a sentir falta de apoio.

Debitava essa circunstância, contudo, à crise da Lava Jato que o Senhor tinha que dominar. As vezes que fui chamado a assinar documentos dessas investigações, em sua ausência, o fiz quase cegamente. Lembrava-me da frase do querido Ministro Marco Aurélio de Mello, “cauda não abana cachorro”.

 Marcelo OdebrechtSó não aceitei assinar o parecer do habeas corpus impetrado em favor de Marcelo Odebrecht com as terríveis adjetivações da redação de sua equipe. E o avisei disso. Não tolero adjetivações de qualquer espécie na atuação ministerial contra pessoas sujeitas à jurisdição penal.

Não me acho mais santo do que ninguém para jogar pedra em quem quer que seja. Meu trabalho persecutório se resume à subsunção de fatos à hipótese legal e não à desqualificação de Fulano ou Beltrano, que estão passando por uma provação do destino pelo qual não tive que passar e, por conseguinte, não estou em condições de julgar espiritualmente.

Faço um esforço de me colocar mentalmente no lugar deles, para tentar entender melhor sua conduta e especular sobre como eu teria agido. Talvez nem sempre mais virtuosamente e algumas vezes, quiçá, mais viciadamente.

Investigados e réus não são troféus a serem expostos e não são “meliantes” a serem conduzidos pelas ruas da vila “de baraço e pregão” (apud Livro V das Ordenações Filipinas). São cidadãos, com defeitos e qualidades, que erraram ao ultrapassar os limites do permissivo legal. E nem por isso deixo de respeitá-los.

Janot recomendou à vice-procuradora-geral, Ella Wiecko a não comparecer à posse de Aragão como ministro da Justiça. Foto Palácio do Planalto


Fui surpreendido, em março deste ano, com o honroso convite da senhora Presidenta democraticamente eleita pelos brasileiros, Dilma Vana Rousseff, para ocupar o cargo de Ministro de Estado da Justiça.

Imagino que o Senhor não ficou muito feliz e até recomendou à Doutora Ela Wiecko a não comparecer a minha posse. Aliás, não colocou nenhum esquema do cerimonial de seu gabinete para apoiar os colegas que quisessem participar do ato. Os poucos (e sinceros amigos) que vieram tiveram que se misturar à multidão.

A esta altura, nosso contato já era parco e não tinha porque fazer “mimimi” para exigir mais sua atenção. Já estava sentindo que nenhum de nossos compromissos anteriores a sua posse como procurador-geral estavam mais valendo.

O Senhor estava só monologando com sua equipe de inquisidores ministeriais ferozes. Essa é a razão, meu caro amigo Rodrigo Janot, porque não mais o procurei como ministro de forma rotineira. Estive com o Senhor duas vezes apenas, para tratar de assuntos de interesse interinstitucional.


Aragão: “nas críticas à Lava Jato tenho sido honesto… com posições claras… contra o abuso da coerção processual pelo juiz Sérgio Moro,” 
E quando voltei ao Ministério Público Federal, Doutor Rodrigo Janot, não quis mais fazer parte de sua equipe, seja atuando no STF, seja como coordenador de Câmara, como me convidou. Prontamente rejeitei esses convites, porque não tenho afinidade nenhuma com o que está fazendo à frente da Lava Jato e mesmo dentro da instituição, beneficiando um grupo de colaboradores em detrimento da grande maioria de colegas e rezando pela cartilha corporativista ao garantir a universalidade do auxilio moradia concedida por decisão liminar precária.

Na crítica à Lava Jato, entretanto, tenho sido franco e assumido, com risco pessoal de rejeição interna e externa, posições públicas claras contra métodos de extração de informação utilizados, contra vazamentos ilegais de informações e gravações, principalmente em momentos extremamente sensíveis para a sobrevida do governo do qual eu fazia parte, contra o abuso da coerção processual pelo juiz Sérgio Moro, contra o uso da mídia para exposição de pessoas e contra o populismo da campanha pelas 10 medidas, muitas à margem da constituição, propostas por um grupo de procuradores midiáticos que as transformaram, sem qualquer necessidade de forma, em “iniciativa popular”.

Nossa instituição exibe-se, assim, sob a sua liderança, surfando na crise para adquirir musculatura, mesmo que isso custe caro ao Brasil e aos brasileiros.

procuradores da Lava Jato
Aragão se posiciona “contra o populismo da campanha pelas 10 medidas, muitas à margem da constituição, propostas por um grupo de procuradores midiáticos que as transformaram, sem qualquer necessidade de forma, em “iniciativa popular”.” Foto reprodução.

Vamos falar sobre honestidade, Senhor Procurador-Geral da República.

A palavra consta do brocardo citado no título desta carta aberta.

O Senhor não concorda e não precisa mais concordar com minhas posições críticas à atuação do MPF.

Nem tem necessidade de uma aproximação dialógica. Já não lhe sirvo para mais nada quando se inicia o último ano de seu mandato.

Mas , depois de tudo que lhe disse aqui para refrescar a memória, o Senhor pode até me acusar de sincericídio, mas não mais, pois a honestidade (honestitas), que vem da raiz romana honor, honoris, esta, meu pai, do Sertão do Pajeú, me ensinou a ter desde pequeno. Nunca me omiti e não me omitirei quando minha cidadania exige ação.

Procuro viver com honra e, por isto, honestamente, educando seis filhos a comer em pratos Duralex, usando talheres Tramontina e bebendo em copo de requeijão, para serem brasileiros honrados, dando valor à vida simples.

Diferentemente do Senhor, não fiquei calado diante das diatribes políticas do Senhor Eduardo Cunha e de seus ex-asseclas, que assaltaram a democracia, expropriando o voto de 54 milhões de brasileiros, pisoteando-os com seus sapatinhos de couro alemão importado. Não fui eu que assisti uma Presidenta inocente ser enxovalhada publicamente como criminosa, não porque cometeu qualquer crime, mas pelo que representa de avanço social e, também, por ser mulher.

O Senhor ficou silente, apesar de tudo que conversamos antes de ser chamado a ser PGR. E ficou aceitando a pilha da turma que incendiava o País com uma investigação de coleta de prova de controvertido valor.

Eu sou o que sempre fui, desde menino que militou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro. E o Senhor? Se o Senhor era o que está sendo hoje, sinto-me lesado na minha boa fé (alterum non laedere, como fica?). Se não era, o que aconteceu?

“A Lava Jato é maior que nós”?

Esta não pode ser sua desculpa. Tamanho, Senhor Procurador-Geral da República, é muito relativo. A Lava Jato pode ser enorme para quem é pequeno, mas não é para o Senhor, como espero conhecê-lo. Nem pode ser para o seu cargo, que lhe dá a responsabilidade de ser o defensor maior do regime democrático (art. 127 da CF) e, devo-lhe dizer, senti falta de sua atuação questionando a aberta sabotagem à democracia. Por isso o comparei a Pilatos. Não foi para ofendê-lo, mas porque preferiu, como ele, lavar as mãos.

Mas fico por aqui. Enquanto trabalhei consigo, dei-lhe o que lhe era de direito e o que me era de dever: lealdade, subordinação e confiança (suum cuique tribuere, não é?). E, a mim, o Senhor parece também ter dado o que entende ser meu: a acusação de agir desonestamente. Não fico mais triste. A vida nos ensina a aceitar a dor como ensinamento. Mas isso lhe prometo: não vou calar minha crítica e, depois de tudo o que o Senhor conhece de mim, durma com essa.

Um abraço sincero daquele que esteve anos a fio a seu lado, acreditando consigo num projeto de um Brasil inclusivo, desenvolvido, economicamente forte e respeitado no seio das nações, com o ministério público como ativo parceiro nessa empreitada.