terça-feira, 15 de agosto de 2017

São Paulo: a origem

GilsonSampaio

Talvez esteja aí nessa história revista a explicação do, digamos, conservadorismo paulista.
Inconsciente coletivo? Atavismo?

youtube Eduardo Bueno



Um país que perdeu o medo do ridículo

Sanguessugado do GGN

Luis Nassif


Em São Paulo, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima discorre sobre história do Brasil. Fala dos degredados que incutiram nos brasileiros a malandragem atávica, poupando apenas os procuradores.

Em algum lugar do Brasil, o Ministro Luís Roberto Barroso cita Faoro e Buarque e o grande pensador Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo, para discorrer sobre reforma trabalhista.

No Twitter, o procurador Hélio Telho rebate o economista Paulo Rabello de Castro e diz que ele (Telho) precisa ensinar capitalismo de verdade a esses capitalistas de compadrio.

Seu colega goiano, Ailton Benedito, da Procuradoria dos Direitos do Cidadão, afirma, no Twitter, que os nazistas eram socialistas, porque seu partido se chamava Nacional Socialismo e em que breve os socialistas-nazistas brasileiros matarão os cidadãos nacionais.

Não bastassem os atentados ao estado de direito, a invasão da política, esses gênios do data vênia resolvem agora enveredar por todos os campos do conhecimento, com mesma desenvoltura de um Romário, de Neimar falando platitudes. Tornaram-se celebridades e se sentiram no direito de falar bobagens e não serem cobrados, como fazem as celebridades, que são inimputáveis.

Onde se vai parar esse exibicionismo maluco? Daqui a pouco estarão discorrendo sobre a Teoria da Relatividade, como Ayres Britto. Quando a imprensa terá coragem de dizer para esses gênios que o espaço dado a eles é apenas utilitarista, porque ajudam no seu jogo político e que sua militância intelectual é ridícula e expõe o próprio poder ao qual pertencem?

Esse mundo de faz-de-conta da mídia criou egos tão monumentais, que, além de discorrer sobre os degredados portugueses, Carlos Fernando se viu com o poder de puxar a orelha da futura Procuradora Geral da República! E tudo isso do alto da autoridade conferida por uma cobertura displicente, que não consegue diferenciar o canto da cotovia do zurrar de um jumento.

Dia desses, um desses procuradores estava indignado porque a Polícia Federal tomou medidas internas sem pedir sua opinião.

Ontem anunciou-se que o bravo Ministério Público Federal está proporcionando cursos de Twitter para o procurador que quiser se aventurar. Para quê? Para que exercitem uma militância nociva, politizando as discussões, agindo como partido político com militantes de egos exacerbados?

Para prestar apenas contas de seus atos, não será, porque senão não se permitiria a Dallagnol e outros militantes o uso do Twitter para ataques ao Congresso, por pior que seja, aos advogados e aos críticos da Lava Jato.


É um pesadelo sem fim. Quando se envereda pelo caminho do ridículo, com a sem-cerimônia dos néscios, é porque se chegou ao fim da linha.

domingo, 13 de agosto de 2017

Fascismo em marcha: PM ocupa audiência pública em universidade e intimida alunos e professores

Sanguessugado do Forum


O caso aconteceu na Unifesp da Baixada Santista, em São Paulo. Policiais militares, com placas de “Bolsonaro 2018”, compareceram em peso na audiência pública sobre o Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos para aprovar pautas que retiram conceitos de direitos humanos da educação. Alunos e professores foram ameaçados e intimidados

 

Alunos e professores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) do campus Baixada Santista (SP) estão assustados com o que aconteceu na última sexta-feira (11).  Foi realizada na universidade, sem muita divulgação, uma audiência pública, convocada pelo Conselho Estadual da Condição Humana, para discutir o texto do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo. A comunidade acadêmica, de acordo com relatos, foi surpreendida por uma presença massiva de policiais militares – eram cerca de 100 agentes, entre fardados e à paisana.

Segundo professores e alunos, muitos desses policias portavam placas com os dizeres “Bolsonaro 2018” e “Direitos humanos para humanos direitos”. Intrigados, estudantes e docentes resolveram participar da audiência e, então, constataram que os policiais estavam ali, na verdade, para aprovar pautas no plano que limitam o conceito de direitos humanos na educação. Entre as propostas dos policiais, estava “mudar a nomenclatura Ditadura Militar de 1964 para Revolução de 1964”, “retirar a discussão de gênero nas escolas”, entre outras medidas.


De acordo com a Associação dos Docentes da Unifesp (ADUNIFESP), que divulgou nota de repúdio sobre o caso, os policiais não queriam deixar os docentes e estudantes participarem da audiência sob o argumento de que eles não estavam lá desde o início. Como a comunidade acadêmica protestou, os PMs teriam começado a desferir xingamentos como “vagabundos” e fazer intimidações e ameaças, como filmá-los. Ainda mais grave, teriam disparado frases como “Depois morre e não sabe o porquê!” ou “Quando precisarem da polícia, chamem o Batman”.

A reportagem da Fórum entrou em contato com a secretaria de Segurança Pública, responsável pela Polícia Militar, para que se posicionasse quanto às denúncias aqui apresentadas mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

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Confira, abaixo, a nota da ADUNIFESP detalhando o episódio.

Manifestamos nosso mais profundo repúdio ao que ocorreu na Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista, na noite de 11 de agosto de 2017, durante a Audiência Pública convocada pelo Conselho Estadual da Condição Humana para discutir o texto do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo.

Desde às 18h o campus foi ocupado por policiais, muitos fardados e inicialmente armados (foi exigido que guardassem as armas). A calçada do portão principal ficou abarrotada de viaturas da Polícia Militar. A comunidade acadêmica que ali se encontrava para as atividades diárias tinha pouca informação a respeito e ficou estarrecida quando soube que se tratava de uma audiência em que seriam definidos os rumos da educação em direitos humanos e, mais ainda, quando compreendeu que os policiais militares (que a esta altura chegavam a quase cem) defendiam a proposta de eliminar conteúdos fundamentais à educação pública. Estes bradavam por “direitos humanos aos humanos direitos”, “mudar a nomenclatura Ditadura Militar de 1964 para Revolução de 1964”, “retirar a discussão de gênero nas escolas”, etc

Professores, técnicos e estudantes que estavam no campus, após tomarem conhecimento do que ocorria, decidiram participar da audiência e foram hostilizados pela tropa, que tentou impedir que votassem, sob o argumento de que não estavam lá desde o início. Houve até gritos de “vagabundos”. Se fazem isso contra quem estava no próprio espaço de trabalho e estudo (muitos descendo da sala de aula), o que não farão com pessoas mais vulneráveis em um país com cerca de treze milhões de desempregados?

Estudantes e professores que se manifestaram pacificamente com cartazes em defesa da Escola Pública e dos Diretos Humanos também foram hostilizados. Ouviram-se frase macabras, como “Depois morre e não sabe o porquê!” ou “Quando precisarem da polícia, chamem o Batman”. Além disso, um grupo de militares e seus apoiadores começou a fazer cartazes com “Bolsonaro 2018”, “Liberdade sem libertinagem”, “Pode confiar #”. Situação preocupante em que os que defendem a “escola sem partido” partidarizam sua atuação portando as vestes e as insígnias de uma corporação militar. Ainda mais lamentável: a alta patente fardada nada fez para controlar seus subordinados que, aliás, quase agrediram fisicamente algumas docentes e estudantes.

Feita a leitura do texto-base do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo, começou a “votação”. O que se viu foi um verdadeiro espetáculo de horror. Depois de perderem uma proposta, militares agrediram verbalmente professores e estudantes, chamando-os – mais uma vez – de “vagabundos”. Nas votações subsequentes, intimidaram-nos fazendo pessoalmente a contagem dos votos e filmando, fotografando e olhando de modo ameaçador cada um que votava contra a posição deles. Ao longo da noite, a comunidade acadêmica correu sérios riscos.

Foi aprovada a supressão de qualquer referência a direitos humanos no plano estadual; foi eliminado o item que obrigava o Estado a garantir a permanência e combater a evasão escolar das minorias; foi suprimida a obrigação de formar agentes de segurança pública com base nos princípios dos direitos humanos.

Apesar do temor, a comunidade acadêmica resistiu pacificamente. Externamos nossa forte preocupação com quem pretende, na base do grito, se sobrepor à produção de conhecimentos, à liberdade de pesquisa, à democracia e à autonomia universitária.
A Adunifesp-SSind entende que este ato abusivo e autoritário se insere num movimento maior de ataques à democracia e aos direitos humanos em curso em nosso país. Também o fato de que ele tenha ocorrido dentro da Unifesp escancara o processo de demonização e ataque às Universidades Públicas que é impetrado hoje em dia por setores reacionários da sociedade.
Por fim, repudiamos veementemente o modo como ocorreu a votação e solicitamos que o Conselho Estadual da Condição Humana desconsidere o resultado desta “consulta”.

Queremos esclarecimentos sobre a utilização do espaço da Universidade Federal de São Paulo para episódios desta natureza. Manifestamos nossa preocupação com a integridade física dos professores, técnicos e estudantes que ali defendiam o ensino público e de qualidade, a escola sem mordaça, a permanência dos direitos humanos como princípio norteador da educação. Exigimos que as chamadas autoridades competentes manifestem posição urgente e clara sobre o ocorrido, especialmente no tocante às relações entre disciplina da tropa e Estado de direito.

ADUNIFESP – SSind


Foto: Reprodução/Rádio da Juventude

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Inês é morta?

 feicibuqui do Fernando Horta

Na prática, com a política sendo quase uma questão de herança, o Distritão aprovado, o parlamentarismo e a quantidade de ricos e bilionários podendo bancar suas campanhas seremos governados pelas mesmas pessoas (seus filhos e netos) para sempre. Estão construindo uma "casta" imutável de governantes sustentados com dinheiro do Estado, como já fizeram os juízes (que ganham até auxílio-escola para filho até os 22 anos).

Nasceu filho de político vai viver neste círculo e reproduzir ele com ajuda do dinheiro público. Nasceu filho de juiz, vai ter muita ajuda do Estado para estudar nas melhores escolas (e os currículos agora são diferentes, lembrem-se) reproduzindo o status que recebeu do nascimento.

Filho de pobre não terá nenhuma alternativa a não ser continuar pobre e trabalhador (poderá piorar como mostraram as medidas do Temer)

Estão virtualmente acabando com a mobilidade social além de acabar com a democracia. Tudo numa tacada só.


Isto não é mais um golpe, é um atropelamento seguido de soterramento por carga tóxica.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

AS FRONTEIRAS DA SUBALTERNIDADE ou au au au au au

Sanguessugado do Mauro Santayana

No Brasil de hoje, parece que no trato com os gringos, estamos agindo como se estivéssemos quase sempre, despudoradamente, em permanente consulta proctológica.


Celso Lafer tirou os sapatos e escancarou a subserviência da elite deste País.

Enquanto os EUA suspendem a isenção de vistos para 38 países e o número de brasileiros barrados em aeroportos europeus - principalmente os espanhóis - aumenta em quase 10% - foram 923 apenas no primeiro trimestre - ainda há sujeitos que, no primeiro escalão do governo, defendem a isenção unilateral de vistos para países ditos "desenvolvidos", como se tivéssemos que assumir, na "nova ordem" mundial, a condição de cidadãos de segunda classe.
 
O "trade" turístico que nos desculpe, mas o diabo está nos "detalhes".

O excitatório frenesi dos vira-latas - que, junto ao entreguismo mais abjeto,  não consegue se refrear neste governo - precisa entender que, nas relações internacionais, o limite para o pragmatismo e o déficit de dignidade é o critério de reciprocidade.

Não se deve assegurar ao outro o que ele faz questão - de forma aberta e oficial - de negar-nos.

Especialmente quando somos a quinta maior nação do mundo em território e população e, por mais que a contrainformação fascista e midiática faça questão de ignorar, com  mais de 250 bilhões de dólares emprestados, o quarto maior credor individual externo dos EUA, por exemplo.

Uma condição que se deve, justamente, à atuação de governos que estão sendo goebbelslianamente acusados de terem assaltado e quebrado o país.

Como diriam nossos antepassados, quem muito se abaixa acaba mostrando as nádegas.


No Brasil de hoje, parece que no trato com os gringos, estamos agindo como se estivéssemos quase sempre, despudoradamente, em permanente consulta proctológica.

GOERING FICARIA ORGULHOSO: CONTINUAM OS VIOLENTOS ATAQUES DA EMPIRICUS A LULA NOS MEIOS "EMPRESARIAIS".

Sanguessugado do Mauro Santayana


Um dos fenômenos mais impactantes do processo histórico vivido pelo país neste momento, é a extensão, profundidade e complexidade alcançadas pelo amplo esquema de contrainformação fascista montado nos últimos anos.

Voltado para atingir não apenas o público geral, mas também segmentos específicos da opinião pública, como a juventude, as igrejas (católicas e evangélicas) os ruralistas e os empresários urbanos, ele tem operado, desde 2013, praticamente sem contestação.

Na ausência de planejamento tático, estratégia, determinação ou articulação, a esquerda, que poderia servir de alternativa a esse discurso, reage, junto com o campo nacionalista e democrático, de uma forma tão lamentável e errática, que as derrotas vão se sucedendo, umas sobre as outras, com grande rapidez e facilidade, como ocorreu com o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016.

Não há no Brasil uma frente pela democracia.

Não existe, no país, um comitê estratégico de comunicação, que pudesse, ao menos em parte, suprir a ausência dessa frente, ou transformar-se no seu braço mais atuante, em defesa da Verdade, da Liberdade, do Estado de Direito e da Constituição.

Nem uma coordenação jurídica nacionalista e desenvolvimentista, que possa restabelecer minimamente a justiça e fazer frente  ao verdadeiro tsunami de calúnias produzido de forma mendaz pelo sistema de manipulação entreguista e fascista, em seus moinhos, ininterruptamente ligados, de ódio, mentira e hipocrisia.

E nem sequer grupos de monitoramento dignos desse nome, para ao menos mapear o que está ocorrendo nesse contexto, na internet e nos meios tradicionais de comunicação.

A cada 24 horas, no âmbito econômico e no institucional,  da desculpa da busca de austeridade - agora ridicularizada pelos mais de 3 bilhões em emendas parlamentares aprovados pelo governo - que disfarça e sustenta a entrega da nação aos estrangeiros, à suposta defesa da honestidade que justifica, por meio do discurso de combate à corrupção, a destruição do Brasil, de programas e projetos no valor de centenas de bilhões de reais, são gerados, livre e maciçamente - na mídia, nos organismos de controle, justiça e segurança da República, nos intestinos de uma plutoburocracia sem nenhuma visão geopolítica ou um mínimo de sensibilidade estratégica para com a dimensão e a história do país que está irresponsavelmente arrebentando - centenas de ataques (milhares, se somarmos as redes sociais) ao Estado, à Democracia e à Política.
Às principais  empresas nacionais e aos nossos bancos públicos - que poderiam nos servir de instrumento para enfrentar a crise em que nos meteram a propaganda, a conspiração e a sabotagem golpista desde a época da Copa do Mundo - distorcendo descaradamente a verdade, invertendo a realidade dos fatos, criando mitos tão mendazes quanto absurdos.

Disseminam-se, como sementes de ódio que brotam assim que atingem o solo - e tivéssemos sido tomados por um cego, orgásmico e orgiático viralatismo - falsos paradigmas que estão chegando - pela constante repetição, no incansável "pós venda" da "pós-verdade" - a milhões de brasileiros, nos mais diferentes nichos da sociedade e regiões do país, cumprindo sua missão de enfraquecer e destruir o Estado, desnacionalizar a economia e nossos principais  instrumentos de desenvolvimento, e de ajudar a entregar, quem sabe definitivamente, o país ao fascismo, com embrulho de presente e tudo, nas próximas eleições.

Para fazer isso, a  aliança entre direita "light", o anticomunismo tosco e anacrônico e o entreguismo mais abjeto, que encontraram no território brasileiro, nos últimos anos, um campo fértil, adubado com o preconceito e a ignorância, não utilizam apenas a mídia de massa - a ponta mais visível do iceberg que está afundando o país.
Mas também os mais insidiosos métodos e instrumentos, desenvolvendo estratégias específicas para cada tipo de público, por meio de instituições ligadas a interesses estrangeiros, vide as ligações entre o MBL e os irmãos Koch, por exemplo.

Há palestras e cursos de formação de "liderança" promovidos e financiados por consulados e embaixadas estrangeiras, de países que nos espionaram ainda nesta década.

Há "seminários" organizados por institutos e fundações de "defesa" da "justiça" e da "democracia", que não apenas levam nossos jovens para  outros países, facilitando por meio de "bolsas" suas viagens e estudos, como depois também promovem e premiam, com plaquinhas, diplomas, medalhas, espelhinhos, festinhas, diplomas e miçangas e palestras remuneradas, sua fiel, abjeta e prestimosa "cooperação", quando alcançam algum poder em suas carreiras.

Há centenas de sites  sofisticados, sem fontes de financiamento claras, e também empresas de "consultoria" e  "research" que, a pretexto de prestar  informações ao mercado e a investidores, fazem o mais descarado proselitismo político e antinacional.

Isso, sem serem incomodadas  ou impedidas, na maioria das vezes,  nem pelas autoridades, nem por quem está sendo por elas impiedosa e constantemente caluniado.

Usando, para pescar otários no oceano dos brasileiros comuns, saturantes- e caríssimas - campanhas de mídia dirigida, que, por sua extensão e capilaridade, devem envolver, principalmente na internet, milhões de reais.

Ora, todo mundo com um mínimo de conhecimento histórico sabe que, desde o início dos tempos, a mentira e o medo são as duas principais muletas do fascismo.

Que as utiliza para percorrer a trilha, pavimentada pela desinformação e o analfabetismo político, que costuma conduzí-lo ao poder, para finalmente calçar, sem abandoná-las como apoio para equilibrar-se, as pesadas botas do terror e do autoritarismo.

Quando na oposição, a falsidade e o preconceito servem ao fascismo para incentivar o golpismo.

Quando na situação, para impedir que ascendam novamente ao poder forças que possam se opor a ele.

Em fevereiro de 2015, denunciamos, em um texto para o qual recomendaríamos novamente a leitura, publicado na "Revista do Brasil", com o título de "O "FIM" DO BRASIL", a realização, na linha do "tenho medo", lembram-se? - de uma ampla campanha de mídia, dirigida principalmente para os meios empresariais, disfarçada como a venda de relatório de conjuntura, que afirmava - dentro da estratégia de  disseminação e justificação do golpismo - que o Brasil iria "quebrar" naquele ano.

Por trás dela, estava uma empresa de "consultoria" cuja principal missão tem sido, nos últimos anos, a de explorar e apoiar abertamente o anticomunismo e o antipetismo no Brasil, adotando o sensacionalismo mais vulgar e o mais descarado terrorismo econômico, mesma estratégia que adota  em outros "mercados", como Portugal, por exemplo.

Não apenas negando as eventuais conquistas que o país obteve na última década, mas, principalmente, assustando um público ignorante em economia, suscetível e contaminado ideologicamente pelo discurso conservador, privatista, entreguista e antibrasileiro vigente.

Ameaçando-o com a perspectiva da volta ao poder de um governo nacionalista, capaz de recolocar o país, por meio de um programa desenvolvimentista, em uma situação minimamente soberana e digna diante do mundo.

Agora, com a mesma estratégia, já denunciada, entre  outros, por Fernando Brito, Tereza Cruvinel e Denise Assis - a de apresentar um discurso escarradamente político, em sua forma e consequências, como peça de propaganda de uma pseudo "análise exclusiva" - essa mesma empresa, a EMPIRICUS - sócia do site Antagonista e da Agora.inc, dos EUA, e já processada pela CVM e o MP de São Paulo - está promovendo outra campanha milionária, que, no lugar de "O FIM DO BRASIL" traz como apelo o alerta "A AMEAÇA QUE PODE ARRUINAR COM O PATRIMÔNIO DE SUA FAMÍLIA".

Nela, ela usa como principal gancho o retorno de Lula - que tirou o Brasil da decima-terceira economia do mundo e levou para sexta, hoje, ainda, nona posição, pagou a dívida com o FMI, triplicou o PIB, e multiplicou por 10, para 340 bilhões de dólares, as reservas internacionais - à Presidência da República e também defende, em outra peça de propaganda, a condenação definitiva do ex-presidente como um fator de melhora da situação para os investidores.

Em homenagem a Goering (Goebbels era mais sofisticado) vale a pena ler, na íntegra, o fac-símile dessa pilantragem:



 




























Agora, resta saber o que o PT poderia fazer a respeito disso.

O leitor escolha, nas alternativas abaixo, como nas provas do Ministério Público:

a) Chamar alguns economistas sérios e incentivar a montagem de uma consultoria para concorrer - ao menos institucionalmente - com a Empiricus, que possa finalmente explicar aos investidores - e a parte da opinião pública - o que realmente ocorreu com a economia  brasileira desde 2002.

b) Mandar alguém fazer um estudo criterioso dos "relatórios" da EMPIRICUS nos últimos anos e mostrar que, entre os alegados 1.6 milhão de "leitores" que a seguem, muita gente jogou dinheiro fora - como no caso das ações da Petrobras - ao se deixar contaminar ideologicamente e indo atrás da conversa fiada deles.  

c) Processar - como já fez no passado - essa pseudo consultoria junto ao TSE por propaganda (ou contra informação) eleitoral antecipada.


d) Não fazer absolutamente nada, porque trata-se  de um caso típico de liberdade de expressão, ou porque "isso não vem ao caso", como diz certo  juiz "imparcial" de Curitiba.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Quantos Allendes devem morrer para o povo latino perder a vergonha de se defender?


Almir Felitte



Em 1973, o clima de agitação nas ruas chilenas demonstrava que algo estava para acontecer. Enormes manifestações de apoio ao governo popular de Allende eram contraste às grandes marchas organizadas por seus opositores de direita. O cenário, que culminaria em um golpe militar, alçando o ditador Pinochet ao poder, é magistralmente retratado no premiado documentário “A Batalha do Chile”, do então jovem Patricio Guzmán. E, assistindo às cenas, é impossível não fazer uma ligação com os fatos que ocorrem na Venezuela de hoje.

As gravações se iniciam no dia das eleições parlamentares chilenas, em 1973, sob o governo de Allende, eleito em 1970 pela Unidade Popular (UP), coalizão esquerdista. O país passava por uma grave crise econômica que resultava em desabastecimento e era amplamente explorada pela imprensa e pelos oposicionistas de direita do Partido Democrata Cristão (PDC) e do Partido Nacional (PN). Manifestantes da oposição saíam às ruas bradando contra o “marxismo que destruía o país”. Do outro lado, trabalhadores organizados faziam coro em defesa da UP, que, no governo, propunha reformas de base e uma verdadeira revolução popular.


Trabalhadores chilenos marcham em apoio a Salvador Allende.

O PN e o PDC não escondiam seu objetivo. Queriam, naquele dia, conquistar 2/3 das cadeiras do Parlamento, o que lhes daria poder para destituir Allende. E antes mesmo da divulgação dos resultados, a imprensa já noticiava a vitória da direita, que logo saiu às ruas em comemoração. Mas o resultado final fica aquém do esperado, a esquerdista Unidade Popular conquista mais de 43% dos votos e mela o plano da oposição. No mesmo dia, mesmo com a maioria simples conquistada, PN e PDC passam a alegar fraude eleitoral, inflando os protestos oposicionistas nas ruas, que se tornam violentos.

A partir daí, a oposição adota uma nova postura: não deixaria Allende governar. E intensifica o terrorismo comercial, criando um desabastecimento artificial cada vez maior. Em resposta, o governo fortalece as Juntas de Abastecimento e Preço (JAP), responsáveis por fiscalizar a distribuição de produtos básicos e denunciar especuladores. Tais órgãos descobrem imensas quantidades de estoque desses insumos escondidas em estabelecimentos comerciais, servindo à especulação e ao mercado negro, e os redistribuem entre a população, que forma filas imensas para compra-los.

No âmbito político, parlamentares eleitos do PN e do PDC levam à frente sua promessa de não deixar a UP governar. Usando sua maioria simples, passam a perseguir Ministros e outras autoridades do Governo, como o Ministro da Economia, responsável por gerir as JAP, que distribuíam comida para a população. Nessa caça às bruxas, sem maiores provas, conseguem destituir 2 autoridades e 7 Ministros em apenas 3 meses. A oposição só sossegaria quando, ao propor a destituição de todos os Ministros do governo, teve de lidar com uma imensa manifestação popular convocada pela CUT chilena.

Mas o boicote ao governo não parava aí. Visando a acabar com a crise de desabastecimento artificialmente criada pela oposição e pelos donos dos meios de produção, Allende expropria 49 indústrias que boicotavam a própria produção. O Congresso prontamente reage, aprovando uma reforma que invalida as expropriações e retira o direito de veto do Presidente do país. Amparado nos trabalhadores que reclamavam das práticas patronais e apoiavam a medida, Allende recorre ao Tribunal Constitucional sem sucesso.

Leia mais: Apesar da crise, Venezuela deve seguir pelo caminho bolivariano

Durante os 6 meses que antecederam o golpe, a oposição parlamentar ainda barraria vários outros projeto da UP. Sem apresentar qualquer outro plano alternativo de governo, PN e PDC barrariam a lei que puniria os crimes econômicos que causavam o desabastecimento do país, a lei que garantiria a participação de operários em fábricas e tornaria as empresas autogestionárias, a criação de dois Ministérios e o reajuste de salários.

Ao mesmo tempo, nas ruas, surgia o grupo fascista “Patria y Libertad” que, portando escudos e capacetes e contando com a participação de estudantes da Universidad Católica (os “filhos da burguesia”), agiria para causar distúrbios e criar instabilidade através da violência. Eram patrocinados por entidades patronais como a Sociedade Nacional da Agricultura e a de Fomento Fabril. Tinham o apoio de ex-agentes da CIA e do Departamento de Estado dos EUA. Aliás, o próprio governo americano já liberou documentos que confessam a participação dos EUA no golpe chileno.

Nesse cenário, os ânimos se acirram. Estudantes contrários à reforma educacional, muitos deles da Universidad Católica, juntam-se à oposição. Por outro lado, trabalhadores saem às ruas em defesa de Allende. Em 27 de abril, em um ato convocado pela CUT, ao passar em frente à sede do PDC, a multidão sofre um ataque com armas de fogo onde um trabalhador morre.

Nesse período de organização de trabalhadores em torno de sindicatos e em defesa do governo, as organizações patronais reagem. Donos de ônibus decretam greve indeterminada, enquanto operários respondem usando caminhões de suas fábricas para trabalharem. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas enviam carta pública ao presidente para avisa-lo de que agiriam de forma autônoma se ele desrespeitasse a Constituição.

O movimento de oposição se intensificaria, então, com a greve dos trabalhadores da mina de cobre de El Teniente. Foi a primeira grande participação de um setor proletário na oposição, em uma mina que era responsável por 20% das divisas do Chile. Vale lembrar que, até hoje, a extração de cobre é a principal atividade das finanças chilenas e que, dois anos antes, em 1971, o cobre tinha sido nacionalizado pelo governo de Allende. A greve, porém, tinha adesão de uma minoria, sendo que pelo menos 60% dos mineradores continuaram trabalhando durante ela. Apesar disso, a imprensa inflava o movimento grevista e ignorava que a maioria dos mineradores apoiava o governo.

A greve não se expandiu para outras minas importantes do país e, apesar de receber apoio e adesão de comerciantes e donos de transportadoras, perdeu força e se encerrou em junho. Nas cidades os conflitos aumentavam, mas o trabalhadores organizados em torno da UP e em defesa do governo popular de Allende se somavam. Da mesma forma, as manifestações oposicionistas que partiam da PDC tinham boa adesão.

Após esgotar todas as formas de impedir que Allende governasse, com lock-outs patronais, o boicote parlamentar, o uso das mídias tradicionais para propagar desinformações e o desabastecimento artificial, a oposição finalmente lançaria mão de seu último recurso. No fim de junho, faria uma tentativa frustrada de golpe ao tentar atacar o Palácio de La Moneda. Na ocasião, as Forças Armadas ainda não tinham firmado uma posição golpista, e a tentativa falhou.

Seguiram-se mais de dois meses de uma iminente guerra civil, quando trabalhadores discutiam seriamente a hipótese de pegar em armas para defender o governo, até que a direita desse sua cartada final. Com amplo apoio das Forças Armadas, em 11 de setembro de 1973, a direita chilena bombardeia o Palácio de La Moneda, causa a morte de Allende e finalmente concretiza o golpe militar que, em poucos meses, colocaria o ditador Pinochet no poder.



Todos sabemos as consequências desse golpe, não muito diferentes das ocorridas no Brasil na mesma época. Entreguismo, endividamento, inflação e um colapso econômico ao fim do regime. Hoje, também é possível olhar para trás e perceber que confiar em instituições da democracia liberal foi um grande erro tático da Unidade Popular. Quando a primeira tentativa de golpe militar ocorreu, mostrando que tais instituições não desistiriam de minar o poder popular, Allende deveria ter seguido o conselho do povo de dissolver o Parlamento e armar os cordões e as comunas populares. Não o fez por medo de ver o radicalismo legitimar a intervenção, mas o golpe aconteceu mesmo assim.

Guardadas alguma peculiaridades, causa espanto, mesmo, as semelhanças que esse cenário pré-golpe chileno traz com o caso atual da Venezuela.

Assim como o Chile, que nacionalizou o cobre em 1971, a Venezuela também passou por um processo de nacionalização do petróleo. Ambos os países possuem, respectivamente, grandes quantidades desses produtos, e suas economias são centradas em suas explorações. Na Venezuela, essa estatização, inclusive, impulsionou a direita a uma tentativa de golpe violenta e frustrada em 2002.

Em ambos os casos, a medida atraiu a atenção do governo dos EUA, que já admitiu, por meio da liberação de documentos, a interferência da CIA no golpe chileno e, hoje, financia abertamente grupos da direita venezuelana.

A Venezuela, em 2015, viu os partidos de direita conquistarem uma maioria no Parlamento e, como no Chile de 73, essa oposição jurou publicamente, desde as eleições, que tinha o único objetivo de derrubar o presidente. Como no Chile, os venezuelanos também passam por uma grave crise econômica e de desabastecimento, para muitos, causada artificialmente pelo empresariado opositor.

Talvez inspirado nas JAP’s de Allende, Maduro criou os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP’s) para combater o problema. Alguns desses Comitês, inclusive, já sofreram atentados pela direita onde foram queimadas toneladas de alimentos.

A situação venezuelana também se assemelha à chilena quando analisamos a organização popular nas manifestações. Nos últimos anos, na Venezuela, formaram-se grupos de direita, que as vezes utilizam até armas de fogo, para dar um tom mais violento aos protestos contra o governo, assim como fazia o “Patria y Libertad” no Chile. Por outro lado, ao exemplo chileno, há uma imensa quantidade de organizações comunais e trabalhistas dispostas a defender o bolivarianismo venezuelano.

Tanto no Chile de 73 quanto na Venezuela de hoje, a situação não é simples como a mídia tradicional tenta demonstrar.

Um país é formado por uma série de correlações de forças e, como o exemplo chileno já mostrou, nem sempre um Presidente representa o lado mais forte. Na Venezuela, a oposição tem os donos dos meios de produção, o capital financeiro e o apoio americano, e vem recusado todos os chamados ao diálogo que existiram por parte do governo.

Como no Chile pré-golpe, políticos da direita venezuelana são donos dos principais veículos de mídia do país e, desde a vitória de Chávez, os usaram para difundir informações falsas e denunciar fraudes eleitorais que nunca existiram. Tudo indica que o interesse popular, porém, continua do lado bolivariano, que concentra, principalmente, as camadas mais pobres e de trabalhadores do país.

No Brasil, triste mesmo é acompanhar que parte da nossa esquerda não aprendeu com antigos erros e parece se amedrontar ao ouvir a primeira crítica de um grande jornalão.

Como disse Gilberto Maringoni, não há nuances na Venezuela, nem um muro em que se possa ficar em cima de modo confortável. Há, sim, a iminência de uma guerra civil e de uma intervenção externa imperialista as quais a oposição venezuelana deseja desde que se viu incapaz de retornar ao poder.

A esquerda brasileira deve se organizar em torno de projetos populares, não de espantalhos que nada constroem. Devem também reconhecer que enxergar terceiras vias onde elas não existem significa apenas dar-se o privilégio do conformismo e do distanciamento. Sua fragmentação e sua obediência a regras criadas pelo capital sempre levaram a sua derrota.

Que a morte de Allende não esteja fadada a se repetir eternamente na história latina.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.


*Artigo baseado no documentário “A Batalha do Chile”, de Patrício Guzman, e no vídeo produzido pela QuatroV.

O choro de Alexandre - AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA

Sanguessugado do Viomundo
   


Marco Aurélio Mello

Imagina uma cena corriqueira, dessas em que uma pessoa pede a ajuda de outra. A situação serviu de ponto de partida para uma reflexão delicada, tocante. Entrei em contato com o autor, o Alexandre, um psicólogo. Ele autorizou a publicação. O relato que se segue é de encher o coração de esperança.

“Uma senhora me parou hoje, na fila do supermercado. Trajava roupas quentes, mas o olhar portava a frieza dura dos sofrimentos em série. Tinha pele negra – a característica que transforma tudo, neste país, quase sempre para pior. Suas mãos eram dadas a uma criança chorosa de quatro anos, com uma tristeza nas retinas que me entortaram as vísceras. Ela me pediu para acrescentar à minha compra um litro de leite, um quilo de açúcar, meio quilo de café e três pães de sal.

Uma pergunta como esta é o que me remete imediatamente à belíssima expressão cunhada por Eliane Brum para falar de privilégios de toda sorte numa sociedade estratificadamente excludente como a nossa: uma existência violenta. A senhora me fez um pedido com um tom entre a humilhação e a vergonha, e eu me senti imediatamente existindo violentamente. Eu, homem branco, cisgênero, heterossexual, classe média, superior completo, profissional liberal, e tantas outras palavras que, em seu conjunto, me afastam da existência violentada daquela senhora. Eu, a existência violenta. Ela, a existência violentada. Entre nós, um mundo que decreta, já no nascimento, que nós sempre seremos diferentes. Eu, do lado de quem pode pagar um carrinho cheio de supermercado. Ela, do lado de quem tem que guardar a humilhação e a vergonha atrás da palavra que precisa pedir a um estranho que lhe pague leite, pão, café e açúcar.

Os microssegundos que teimavam em passar, entre a pergunta dela e o meu “sim, claro!”, foram suficientes para sentir tudo isso. Talvez meu espanto e minha tristeza precisassem de mais tempo, mas a fome é a dona da urgência. Eu a convidei para tomar um lanche comigo. Quem respondeu foi o neto, “eu quero”, antes dela ter condição de dizer qualquer “não precisa, meu filho, você já está me ajudando demais”. Não é uma relação de ajuda, senhora. Esta é uma cena de lamento histórico, de chaga nacional, de tragédia humana. Não cabe a palavra ajuda. Cabe apenas o inominável.

Ela aceitou meu convite, e fomos à lanchonete a poucos passos do caixa. Eu empurrei meu constrangimento naquele carrinho abarrotado de carnes, frutas de todas as cores e saúde a ser promovida para minha família. Ela trazia alguma novidade nos olhos que eu imaginava ser a mistura entre o alívio temporário e a certeza de que a vida voltaria a envergar-lhe a paz à medida em que a fome ganhasse o protagonismo da cena novamente.

Sentamos. Ela me contou que tinha sido mãe de dois filhos, ambos assassinados pela polícia ou pelo tráfico. “Nem sei qual deles matou meus filhos, um depois o outro”. Enquanto eu tratava de chorar algum oxigênio para minha alma travada por testemunhar a cicatriz do genocídio da população negra, o neto pedia três pães de queijo. Comeu-os numa rapidez que me mortificou. Mas isto não era nada diante da minha existência violenta. Eu sentia que precisava escutar aquela história, muito mais do que ela precisava falar.

Durante vinte minutos estivemos ali, eu sendo abraçado por aquela senhora em luto profundo, mas tendo que abster-se de sofrer em silêncio e solidão e tendo que ir a um caixa de supermercado, à pé, levando o neto faminto ao seu lado. A fome é mister nestas horas, é hiper exigente e faz do luto um luxo. A vergonha e a humilhação não valem nada para uma mulher preta, pobre e mãe de dois números que não contam para ninguém, além de serem estatísticas sombrias de quem na verdade somos como nação.

No final da conversa, eu pedi um abraço. Eu estava trêmulo, triste, sem lugar. “Não fique assim, o senhor já me deu demais”. E, com esta frase, faz de mim uma pergunta boquiaberta, um lamento que não cessa. Não é ajuda. Eu não sou uma entidade bondosa por ofertar-lhe aquele espaço. Somos uma nação que funciona como pai abandonador, negligente e abusivo, que escolhe alguns de seus filhos para chamar de seus, e aniquila a existência de outros. E nós, os filhos preferidos, preferimos também não ver que não vemos a exclusão, para não corrermos o risco de questionar aquilo que acreditamos que é nosso mérito, mas que é privilégio forjado através de uma violência que nos constitui. Ao sermos filhos da violência, somos parte de um tecido injusto que, de quando em vez, vai se aproximar de nossa paz privilegiada para lembrar-nos sobre a amnésia que construímos para nos defendermos do horror que está ao lado, dentro e fora de nossas verdades perfeitas.”


Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, palestrante e coordenador de Grupos Terapêuticos e Cursos Livres no Instituto Rodaviva. Alguém que é capaz de compreender nosso lugar, ao fazer algo absolutamente simples: colocar-se no lugar do outro.

Oração fúnebre para o Brasil - Aldo Fornazieri



Aldo Fornazieri

No último dia dois de agosto de 2017 assistimos, paralisados, a morte moral do Brasil. Pela primeira vez na história, um presidente da República foi flagrado cometendo crimes e os falsos representantes do povo decidiram dar-lhe aval para que ele siga impune no exercício da mas alta magistratura do país sem que a tenha recebido da vontade do povo. Pelo contrário, deixaram-no no cargo contra a vontade da esmagadora maioria do povo. De lá para cá, o país sangra sem dignidade e o pavilhão auriverde tremula com as manchas cinzentas da vergonha.
A morte moral do Brasil não foi acompanhada pelo tinir de batalhas nas ruas e nas praças, por gritos de indignação, e pelo rufar de tambores da guerra. Com exceção de uma escaramuça aqui, outra acolá, o povo assistiu cabisbaixo a morte da dignidade nacional. O que se ouviu foram lamentos de desesperança de uma sociedade fraca que se afunda em sua fraqueza, de um povo desanimado, incapaz de qualquer ato de virilidade combativa.

O que se viu foi um povo cativeiro de sua própria impotência, sequer comparável aos hebreus escravizados no Egito, porque aqui não há um Moisés libertador, capaz de conduzi-lo a uma Terra Prometida qualquer. Os nossos políticos são valentes em seus gabinetes, são combativos em sua vaidade, são espalhafatosos em suas inconsequências e são heróis de sua própria covardia. Não, aqui o povo está cativo em sua própria terra, sem um líder que o convoque para a luta, que possa servir-lhe de exemplo, de inspiração.

O assassinato moral do Brasil não deixou viúvas vingativas, filhas revoltadas, filhos, parentes e amigos desensarilhando armas para o combate. Silêncio, fastio, recolhimento, desalento e resignação são os entes que acompanham o triste féretro por onde passa o corpo insepulto deste país apunhalado em sua inglória trajetória, extraviada nos tempos.

O povo bestializado que viu nascer a República - no dizer de Aristides Logo - proclamada por um marechal monarquista, sem saber o que estava acontecendo, é o mesmo povo bestializado de hoje que viu Temer ser salvo porque a vida é assim, porque os políticos são assim, porque o Brasil é assim e porque nada importa. Tanto fez, como tanto faz. Resignação e indiferença parecem ser os melhores remédios quando não há ânimo no espírito, quando não há virtudes cívicas, quando não há coragem e disposição para a luta, quando não há líderes autênticos. Resignação e indiferença é a melhor maneira de enfrentar a trágica normalidade, porque nada muda numa realidade pacata, violentamente pacata, que sempre foi assim e sempre será assim.

Os políticos de Brasília, os operadores do mercado financeiro, os grandes capitalistas, os empresários da Fiesp que nunca pagam o pato, não choram por este  Brasil moralmente decapitado. Não choram pelos 60 mil mortos anuais que acompanham esse corpo de um Brasil saqueado; não choram pelas mães e pelas viúvas de jovens assassinados; não choram pelos milhares de corpos mutilados no trânsito; não choram pelo choro das crianças baleadas no ventre das mães, da meninas abatidas pelas balas perdidas; não choram pelos doentes amontoados nos corredores dos hospitais públicos; não choram pelas crianças que não têm leite, pelo trabalhador que não dorme, pela empregada doméstica humilhada e pelas famílias que não têm  lar. Os políticos choram pelo teu voto, pela propina dos empresários, pelo cargo público para os apadrinhados, pelo enriquecimento privado.

Não há sentido de grandeza nas ações dos nossos políticos, nem honra em servir o bem público, nem ambição de conquistar a glória imorredoura dos grandes feitos construídos pelo espírito heróico do desprendimento sacrificante da doação pessoal pelo país. Os nossos políticos almejam a reputação dos mesquinhos, as pequenas manobras dos espertalhões, as palavras lustrosas dos demagogos, os atos teatrais dos charlatões.

Os historiadores nos descreverão em cinza sobre cinza

Os historiadores do futuro haverão de descrever o nosso tempo em páginas cinzentas com letras cinzentas, pois nada de dignificante e glorioso há o que se relatar. Há que se relatar os andrajos morais de um país sem dignidade, uma época de covardias de gentes indisponíveis para a luta. Há que se relatar uma tenebrosa noite de incertezas, de rostos deprimidos pela desesperança. Há que se relatar um tempo de políticos que engrandeceram os bolsos para empobrecer a pátria, de empresários que compraram políticos para se apoderar dos cofres públicos, de inconfidentes contra a Constituição que deveriam ser seus próprios guardiões.

Há que se relatar um tempo em que o país foi assaltado por políticos velhacos e quadrilheiros, cuja competição não era para inscrever nas páginas da história as vitórias triunfais na construção de um país grandioso, mas para ver quem se apossava mais do botim do tesouro público, para ver quem era o melhor amigo dos empresários para solicitar-lhe a propina em troca de favores escusos.

As gerações futuras sentirão vergonha do nosso tempo, sentirão desprezo pela nossa covardia e pela nossa prostração. Serão justas se não sentirem nenhuma magnanimidade compreensiva, pois não a merecemos. Não mereceremos a benevolência do perdão porque estamos legando a elas uma herança trágica, de um país que se arraigou à sua desigualdade, à sua incultura, à sua indignidade e à sua falta de coragem.

As gerações futuras nos condenarão a nós e a nossos inimigos. A nós porque fracassamos de livrar o Brasil de seu opróbrio; não fomos capazes de enfrentar os inimigos do povo com a astúcia virtuosa do bom combate; nos enredamos nas auto-justificativas pueris dos nossos próprios fracassos; não tivemos princípios de conduta disciplinadores; não nutrimos traços de caráter intransigentes com as injustiças e com as desigualdades; não fomos inconformados com os nossos próprios erros e fracassos; não tivemos a virtù guerreira para proteger e liderar os mais fracos e arrancar dos poderosos os frutos de suas rapinas.

Os nossos inimigos serão condenados pela encarnação histórica do mal que sempre foi feito desde que o Brasil é Brasil. São a continuação dos massacres contra os índios, dos açoites e dos grilhões contra os negros, do sangue derramado dos camponeses nos campos vastos do Brasil, do cansaço, suor e lágrimas dos trabalhadores explorados. São a continuação da violência sexual, moral e laboral contra as mulheres.

Michel Temer e seu governo são uma síntese de toda essa perversidade criminosa que cobre o Brasil de sangue, de vergonha e de indignidade. Quando as forças terríveis do Hades tragarem Temer para as profundezas dos abissais, não lhes será erguida nenhuma estátua para que fique na memória do país. Essas forças o arrastarão para os campos do esquecimento eterno. E se alguém encontrar a sua sepultura em tempos remotos do futuro haverá de ler: "aqui jaz um corrupto que destruiu o Brasil para salvar o seu mandato ilegítimo".


Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

domingo, 6 de agosto de 2017

Síndrome de Pânico para familiares e amigos


Síndrome do Pânico, medos que te abraçam sem piedade

Simone Guerra

Se o doutor não acredita no medo do medo, imagina nossas famílias, nossos amigos, nossos colegas que vivem nos socorrendo. O que as pessoas não entendem, é que a síndrome do pânico são medos que nos abraçam sem piedade, sem explicações para o mundo.

De repente, um medo e uma coleção de pavores se instalam. Depois de instalado, a Síndrome do Pânico dá um jeito de ficar entre as rotinas dos nossos dias nos fragilizando. Ficamos em estado de alerta após as primeiras crises. O cérebro se condiciona ao pânico e nos dita a hora de sentirmos em doses ordinárias, o medo. Nos sentimos frágeis, tristes, e em constantes expectativas ruins que todos os sintomas aparecerão mais uma vez...

Se desencadeia a síndrome do pânico devido a vida turbulenta e acontecimentos inesperados, trágicos. Pode estar ligado a depressão ou ao estresse. Pode acontecer após a perda de alguém ou algum trauma. Pode ser decorrente de outras doenças e pode aparecer do nada.

Esse tal medo vem acompanhado de tremores, medo eminente da morte, medo de enlouquecer ou perder o controle, taquicardia, sudorese, sensação de flutuação (como se o espírito estivesse saindo do corpo), formigamento e dormência pelo corpo ou partes dele. Uma dor no peito que parece infarto, perdemos o ar e a respiração fica ofegante. O pânico é tão covarde, que precisa do nosso corpo para se fazer em sintomas de pavores, nos faz vulneráveis e pessoas à nossa volta não entendem. O medo de morrer, de enlouquecer, talvez, sejam os piores deles.

Depois das crises, podem aparecer choros. E o medo do medo, olha para nós, confrontando nossa rotina com aquele sadismo de "até a próxima vez". O medo nos faz reféns e pode nos trancar dentro de casa por algum tempo, por anos. Ele devasta os nossos risos em troca de tensões.

Pode parecer loucura. Pode não ser entendido por muitos. Pode ser falta de serviço. Pode ser patético. Pode ser desculpas para encarar a realidade. Pode ser... Rótulos que carregamos porque não temos como explicar o que é uma crise de pânico, apenas quando o sentimos instalado em nós. As más informações acerca da doença, que não é "piti", causa indiferença, consternação ou preocupação entre nós e o outro.

O medo do medo, não presta, não vale nada. O medo nos castiga, nos joga na lama e nos faz sentirmos impotentes. A crise aparece em qualquer lugar, e quem nos socorre, pensa que somos loucos, problemáticos. Somos levados para o pronto socorro muitas vezes, fazemos todos os exames e nunca se tem diagnósticos.

Tudo no nosso corpo está bem, mas estamos doentes com tantos sintomas estranhos ao mesmo tempo, até que algum médico nos aconselha a procurarmos um psiquiatra ou um neurologista. E alguns médicos, mesmo conhecendo a doença, nos olham com dúvidas, nos observam com aquele olhar que nos diz: frescura, chatice, essa pessoa aqui de novo, isso não existe. Se o doutor não acredita no medo do medo, imagina nossas famílias, nossos amigos, nossos colegas que vivem nos socorrendo. O que as pessoas não entendem, é que a síndrome do pânico são medos que nos abraçam sem piedade, sem explicações para o mundo.

Temos que ser fortes, respirar fundo em cada crise, experimentar vários remédios, até que algum deles faça o efeito necessário. Medicação, terapia e terapias alternativas, eis a grande ajuda para muitos. Ficamos limitados, dependentes de remédios e nos fechamos no nosso mundo paralelo.

A ansiedade, o estresse, a depressão e outras doenças que nos dão de presente a síndrome do pânico, são impiedosas e não se preocupam em nos atirar no precipício dos medos. E, por desespero, algumas pessoas ainda procuram ajudas espirituais com gurus, médiuns, curandeiros, ou viverão até que uma cura instantânea possa resgatá-los daquela armadilha.

A síndrome do pânico não tem idade, identidade, apenas atiça o inferno nos cotidianos, querendo se autoafirmar na fragilidade das pessoas. Não tem como explicar tais sintomas, apenas quando se vive. Pode parecer sem explicação... E daí? Se há coisas íntimas gostosas de se sentir e não temos como explicar, por que deveríamos ter explicações para o pânico que é covarde e mau caráter?

O mundo contemporâneo, tão apressado, cheio de contradições, com agendas lotadas, muitos afazeres, nos fazem máquinas, e quando nos explodimos em medos, percebemos que o nosso humano precisa daquele conserto de paz e alívio.

Esses medos... Os outros medos... Todos os medos,  nos colocam contra o muro da realidade em se viver melhor, é verdade! A fuga? Vai ser individual, porque cada pessoa vai, aos poucos, descobrindo qual o melhor remédio, a melhor alternativa para que o tratamento seja mais eficaz. Quando se desencadeia a primeira vez, carregamos o medo em segredo nos pensamentos, quem sabe, uma vida toda. Para quem conseguiu sobreviver e vencer os malditos sintomas, por favor, viva melhor a cada dia.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O sentimento de exílio e a metástase que se espalha pelo Brasil

Via Rsurgente


Marco Aurélio Weissheimer



La vuelta del exilio, de Rafael Arozarena. (Reprodução)

No início deste ano, em um debate realizado no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, Flavio Koutzii falou do retorno de alguns sentimentos incômodos vivenciados no período pós-golpe de 64 no Brasil: o sentimento de sentir-se exilado dentro do próprio país e o de um profundo estranhamento em relação ao que nos cerca. A palavra “cerca” aqui tem um duplo sentido: o que nos rodeia e o que nos prende a um pequeno espaço, como se fosse a ante-sala de um matadouro.

O nível de degradação, cinismo, mentira e corrosão de qualquer coisa que possa ser chamada de estado de direito e de justiça hoje no país parece alimentar esses sentimentos de exílio e estranhamento nos corações e mentes de muita gente. A sensação de estranhamento em relação aos cenários para os quais fomos empurrados nos últimos meses é crescente. Há cenários e personagens bizarros circulando com uma naturalidade tal que parece configurar a invasão de uma realidade paralela, uma versão tupiniquim do clássico “Invasores de Corpos”.

O que se viu na Câmara dos Deputados hoje foi mais um capítulo dessa bizarrice. Nada surpreendente. Tudo previsível. E é por isso mesmo que parece mais grave. Muito se falou hoje da apatia da população em relação ao que acontecia no Congresso. Talvez não tenha sido apatia, mas uma desistência mais profunda em relação aquele ambiente pútrido protegido por uma polícia militar que, cada vez mais, assume a função de guarda pretoriana dos destruidores da democracia e do país. Um tímido protesto ocorreu no final da tarde e início da noite. Os zelosos policiais lá estavam, para evitar que os invasores de corpos fossem perturbados. Cercar o Congresso hoje significaria o que mesmo?


A perda progressiva do sentido de pertencimento a uma nação, o crescimento dos sentimentos de exílio e de desistência são sintomas da metástase que vai tomando conta do Brasil. Na Itália, o resultado da Operação Mãos Limpas foi a ascensão de Berlusconi ao poder. Aqui, a Operação Lava Jato e suas ramificações políticas, jurídicas e midiáticas podem superar essa marca e transformar o Brasil numa grande Líbia.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Midia e Ministério Público

Sanguessugado do O Cafezinho


O Cafezinho tem a honra de apresentar o primeiro conteúdo da sua nova coluna Monopólio da Violência, editada pelo jornalista brasiliense Ribamar Monteiro. A coluna irá cobrir, principalmente, assuntos relacionados ao Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário.

A primeira coluna traz uma entrevista exclusiva com Eugênio Aragão, no qual ele fala sobre os mais diversos temas pertinentes à conjuntura política atual.


É uma entrevista de 40 minutos, que vamos publicando por aqui em partes. Segue a primeira parte, com 9 minutos e meio, na qual o ministro fala do relação do ministério público com a mídia.


Bob Fernandes: O Brasil segue se suicidando ... e segue a Farsa




O Brasil segue se suicidando. Ou sendo suicidado. Há um ano, em nome do combate à corrupção, corruptos tomaram o Poder. Foi, como se viu, se vê e se vive, uma Farsa.

Não se duvide das boas intenções de muitos que à época manifestaram. Mas não se duvide, também, da ingenuidade. E da hipocrisia e cinismo.

Resta agora ressentimento, perplexidade, desencanto... E silêncio. Por constrangimento, vergonha, ou cumplicidade.

Na quarta-feira, 2, a Câmara tem denúncia para julgar, contra Temer. Que, para tentar salvar-se, só com deputados e emendas já torrou R$ 4 bilhões.

Seguem manchetes e comemorações sobre Lava Jato e combate à corrupção -a passada. E seguem governo e ministros - do presente - atolados em denúncias de corrupção.

Um ano depois do impeachment, três anos de Lava Jato, e o procurador Carlos Fernando, candidamente, admite e diz:

-Muitos queriam o fim do governo Dilma, e não da corrupção...

...Isso enquanto a Polícia Federal cobra: falhas nas delações da Odebrecht, acordo esse feito por procuradores, dificultam a obtenção de provas.

Provas têm sido vistas como mero detalhe. À Folha o juiz Moro defendeu o uso de “provas indiretas” no caso Lula. Leia-se: condenação sem a existência de prova cabal.

Isso enquanto o silêncio vai enterrando notícia cabal: quatro meses depois de já ser ministro da Fazenda, Meirelles recebeu R$ 50 milhões em contas no exterior.

Parte disso pagos por Joesley Batista.Temer, Chefe de Meirelles, diz que Joesley é “bandido notório”. Joesley diz que Temer é Chefe de “organização criminosa”.
Via TV Gazeta
https://www.youtube.com/watch?v=_-3gSHt1lv0
O Brasil segue se suicidando. Ou sendo suicidado. Há um ano, em nome do combate à corrupção, corruptos tomaram o Poder. Foi, como se viu, se vê e se vive, uma Farsa.

Não se duvide das boas intenções de muitos que à época manifestaram. Mas não se duvide, também, da ingenuidade. E da hipocrisia e cinismo.

Resta agora ressentimento, perplexidade, desencanto... E silêncio. Por constrangimento, vergonha, ou cumplicidade.

Na quarta-feira, 2, a Câmara tem denúncia para julgar, contra Temer. Que, para tentar salvar-se, só com deputados e emendas já torrou R$ 4 bilhões.

Seguem manchetes e comemorações sobre Lava Jato e combate à corrupção -a passada. E seguem governo e ministros - do presente - atolados em denúncias de corrupção.

Um ano depois do impeachment, três anos de Lava Jato, e o procurador Carlos Fernando, candidamente, admite e diz:

-Muitos queriam o fim do governo Dilma, e não da corrupção...

...Isso enquanto a Polícia Federal cobra: falhas nas delações da Odebrecht, acordo esse feito por procuradores, dificultam a obtenção de provas.

Provas têm sido vistas como mero detalhe. À Folha o juiz Moro defendeu o uso de “provas indiretas” no caso Lula. Leia-se: condenação sem a existência de prova cabal.

Isso enquanto o silêncio vai enterrando notícia cabal: quatro meses depois de já ser ministro da Fazenda, Meirelles recebeu R$ 50 milhões em contas no exterior.

Parte disso pagos por Joesley Batista.Temer, Chefe de Meirelles, diz que Joesley é “bandido notório”. Joesley diz que Temer é Chefe de “organização criminosa”.

E segue o silêncio... Porque o tal “Mercado”, suas vozes, porta-vozes e manchetes não querem riscos para o dinheiro grande.

Só 10 das empresas citadas na Lava Jato demitiram mais de 600 mil funcionários ou terceirizados. Na chamada “cadeia de petróleo e gás” sumiram 3 milhões de empregos...

...Mas qualquer observação a respeito será vista como “oposição à Lava Jato”.


Os que tomaram o Poder precisam mantê-lo, a a qualquer custo, após 2018. Eleição ainda sem regras. E sem projeto algum para o país, que segue sendo suicidado.

domingo, 30 de julho de 2017

Mauro Santayana: Banco do Brasil a caminho da caçapa

Sanguessugado do Mauro Santayana

 PROCUREM O CONCORRENTE, POR FAVOR!


Um amigo, recém-retornado ao Brasil depois de muitos anos  trabalhando no exterior, resolveu abrir, outro dia, com parte de suas economias, uma conta na agência Styllus do Banco do Brasil do Setor Sudoeste, em Brasília, e não conseguiu.

A justificativa, citada pela atendente - que não quis nem saber sequer quanto ele tinha para depositar e aplicar, foi "tout court", "superlotação", como se tratasse não de uma agência bancária top de linha, mas de uma vulgar - e desumana - cela de prisão.

A verdadeira razão da recusa?

A apressada e repentina decisão do governo Temer, tomada a toque de caixa, com menos de seis meses de governo e sem discussão com a sociedade, de fechar ou transformar em postos de atendimento centenas de agências do BB, apesar de o Banco do Brasil não ter tido um centavo de prejuízo nos ultimos 15 anos e dos seus funcionários já estarem atendendo, em média, mais de 400 contas por cabeça quando a medida entrou em vigor.

Orientado, em nova agência, a tentar abrir sua conta pela internet, ele tentou várias vezes, mas também não conseguiu, embora o governo tenha feito paradoxalmente há alguns meses campanhas na  televisão sobre apps do banco, em seu esforço de tentar molhar a pata de veículos que - com seus próprios interesses em vista e decepcionados com a baixíssima popularidade de Temer - agora mordem a sua mão.

Conversando com outro funcionário, na porta do estabelecimento, foi lhe explicado, diretamente e sem subterfúgios, que, com a desculpa de "modernizar" o banco, se está sabotando  deliberadamente o Banco do Brasil - como se fez no governo FHC - com a intenção de privatizá-lo, de forma fatiada, a médio prazo.

Na verdade, esse é um movimento que já começou, com a venda de ações do Banco do Brasil do Fundo Soberano, que fará cair a participação do governo para apenas 50,7% do total.

Enquanto isso, entrega-se, diminuindo a qualidade do atendimento ao consumidor, parcelas cada vez maiores do seu público e de seu mercado aos bancos privados, corrigindo o "crime" perpretado por Lula e Dilma, de terem fortalecido - da Caixa Econômica federal ao BNDES - o papel dos bancos públicos e aumentado o percentual de sua participação no mercado financeiro e na economia nacionais. 

As perguntas que ficam agora são as seguintes:

Quantos clientes do Banco do Brasil, ou potenciais  clientes, como esse, se passaram, nos últimos meses - irritados com a queda de qualidade do atendimento - para bancos particulares, ou pior, para bancos particulares estrangeiros - como o Santander, que em plena pressão pela Reforma da Previdência, acaba de ter 338 milhões de reais em multa perdoados pelo CARF -  desde que começou, no BB, essa pilantragem chamada genericamente de "restruturação"?

A quem interessa arrebentar com os nossos bancos públicos - a Caixa e o BNDES também estão sob insuportável pressão - indiscutíveis e estratégicos instrumentos para o desenvolvimento nacional?

Por que os sindicatos não entram - ou não entraram - na justiça para contestar essas medidas?


Por que o extremamente bem sucedido Ministro da Fazenda de um governo sem voto, que ganhou de fontes privadas mais de 200 milhões de reais em "consultoria" nos últimos quatro anos - de um país de uma justiça absurda, no qual tem gente que está se arriscando a ser preso e ter seus direitos políticos cassados por ser "dono" de um apto do qual não possui escritura, cujas chaves nunca recebeu - não tenta aplicar, para mostrar confiança na nação - pelo menos uma parte dessa "merreca" no Banco do Brasil?