quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Golpe consumado, surpresa nenhuma.

feicibuqui do Alexandre Périgo

Todavia permito-me cinco breves reflexões.

A primeira, quanto a valentia, altivez e grandeza de Dilma; uma pena que esse seu espírito adormecido de estadista tenha despertado tão tardiamente, quando tudo já estava inexoravelmente arranjado para sua saída. Ainda assim há um lugar de honra na história exclusivamente reservado à primeira mulher a comandar o país e cujo segundo mandato foi abortado por um golpe parlamentar, orquestrado por crápulas conspiradores sem moral alguma - ainda mais quando comparados à indubitável honestidade da presidente. E vale aqui breve nota de agradecimento à minúscula base parlamentar do governo deposto, que agiu com bravura até o fim deste putrefato processo.

A segunda, em relação àqueles alienados que hoje, sem qualquer consciência de sua posição social, comemoram tal qual marionetes dos poderosos a saída de Dilma como sendo legítimo "impeachment", simplesmente por não aprovarem o governo petista: estes sequer se dão conta que lhes foi suprimido o direito de voto - um dos poucos disfarces da democracia burguesa tropical que funcionava ininterruptamente desde 1989.

A terceira, reservada especialmente aos que, com ares de inteligência, debocham do uso do termo "golpe": parecem ainda estes viverem no século XX, quando deposições de presidentes eram executadas com armas e tanques nas ruas; não percebem, portanto, as sutilezas deste golpe parlamentar-midiático moderno, cujas armas sem pólvora foram grampos federais estadunidenses, poderes legislativo e judiciário recheados de bandidos fáceis de serem comprados, um pré-sal bilionário pronto para ser repartido entre os poderosos, uma imprensa classista lobotomizadora, uma classe dominante ávida por exercer seu ódio de classe, a potencialização das fraquezas dos adversários e, principalmente, o seguimento de ritos pseudo-republicanos usados como camuflagem institucional e legal. E assim, com a aplicação de todo esse arsenal, esconde-se o mais simples: não houve qualquer crime de responsabilidade que validasse a deposição de Dilma.

A quarta, sobre o futuro do Brasil - agora de fato e sem disfarces nas mãos dos grandes falcões capitalistas, sem haver sequer o PT como tímido intermediário: será inevitavelmente sombrio. Perder-se-ão (essa mesóclise é homenagem ao golpista-mor) em meses todas as conquistas sociais e trabalhistas obtidas com décadas de lutas.


A última, brevíssima. é direcionada a todos que não aceitamos essa vergonha e que pensamos preocupados no futuro de nossos filhos e netos: chegou a hora de agir. Seremos nós e nossas ações a partir de agora a decidir o quão fácil será, para os repugnantes bandidos que tomaram o governo, retroceder o Brasil ao pais semi-escravagista de antes de Lula.

Coxinha alienado, isso é soberania

GilsonSampaio

Coxinha alienado, Moro, aquele seu herói treinado pelo império terrorista, destruiu as empreiteiras brasileiras e travou a economia do país, fez descer vários degraus o desenvolvimento do país com a paralisação, por exemplo, da construção do submarino nuclear, do desmantelamento da indústria naval, e, por aí, vai.

Acredite, nunca houve intenção em acabar com a corrupção, o golpe sempre foi o alvo - a recolonização pelo EE.UU, também.

Veja o vídeo da mídia mais anti-Brasil, mais anti-povo brasileiro, onde o conceito de soberania é demonstrado na prática. Obama e congresso unidos em defesa da Apple.

Tenha certeza, a dor da sua decepção será muito maior do que a minha dor pelo golpe.

Requião para Aécio, Anastasia e Temer: “Canalha, canalha, canalha!”; assista ao vídeo

Sanguessugado do Esmael








O senador Roberto Requião (PMDB-PR), em seu último pronunciamento na farsa do impeachment, nesta terça (30), fitou os golpistas nos olhos e os chamou sem nominá-los: “canalhas, canalha, canalha!”.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O troglodita da toga suja não é invencível. Nassif fere Gilmar.

Sanguessugado do GGN

O que mereceria uma ação de improbidade é o fato de um Ministro do STF ser dono de um Instituto que é patrocinado por empresas com interesses amplos no STF em ações que estão sujeitas a serem julgadas por ele. Dentre elas, a Ambev, Light, Febraban, Bunge, Cetip, empresas e entidades com interesses no STF.

Luis Nassif

 Por que decidi processar Gilmar Mendes

O Ministro Gilmar Mendes me processou, um daqueles processos montados apenas para roubar tempo e recursos do denunciado. Eu poderia ter ficado na resposta bem elaborada do meu competente advogado Percival Maricatto.

Mas resolvi ir além.

Recorri ao que em Direito se chama de "reconvenção", o direito de processar quem me processa.

A razão foram ofensas graves feitas por ele na sessão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na qual não conseguiu levar adiante a tentativa canhestra de golpe paraguaio, através da rejeição das contas de campanha de Dilma Rousseff.

Todo o percurso anterior foi na direção da rejeição, inclusive os pareceres absurdos dos técnicos do TSE tratando como falta grave até a inclusão de trituradores de papel na categoria de bens não duráveis.

Não conseguiu atingir seu propósito graças ao recuo do Ministro Luiz Fux, que não aceitou avalizar sua manobra. Ele despejou sua ira impotente sobre mim, valendo-se de um espaço público nobre: a tribuna do TSE.

 “Certamente quem lucrou foram os blogs sujos, que ficaram prestando um tamanho desserviço. Há um caso que foi demitido da Folha de S. Paulo, em um caso conhecido porque era esperto demais, que criou uma coluna 'dinheiro vivo', certamente movida a dinheiro (...) Profissional da chantagem, da locupletação financiado por dinheiro público, meu, seu e nosso! Precisa ser contado isso para que se envergonhe. Um blog criado para atacar adversários e inimigos políticos! Mereceria do Ministério Público uma ação de improbidade, não solidariedade”.

O que mereceria uma ação de improbidade é o fato de um Ministro do STF ser dono de um Instituto que é patrocinado por empresas com interesses amplos no STF em ações que estão sujeitas a serem julgadas por ele. Dentre elas, a Ambev, Light, Febraban, Bunge, Cetip, empresas e entidades com interesses no STF.

Não foi o primeiro ato condenável na carreira de Gilmar. Seu facciosismo, a maneira como participou de alguns dos mais deploráveis factoides jornalísticos, a sem-cerimônia com que senta em processos, deveriam ser motivo de vergonha para todos os que apostam na construção de um Brasil moderno. Gilmar é uma ofensa à noção de país civilizado, tanto quanto Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal.

A intenção do processo foi responder às suas ofensas. Mais que isso: colocar à prova a crença de que não existem mais intocáveis no país. É um cidadão acreditando na independência de um poder, apostando ser possível a um juiz de primeira instância em plena capital federal não se curvar à influência de um Ministro do STF vingativo e sem limites.

Na resposta, Gilmar nega ter se referido a mim. Recua de forma pusilânime.

“o Reconvindo sequer faz referência ao nome do Reconvinte, sendo certo que as declarações foram direcionadas contra informações difamatórias usualmente disseminadas por setores da mídia, dentro dos quais o Reconvinte espontaneamente se inclui”.

Como se houvesse outro blog de um jornalista que trabalhou na Folha, tem uma empresa de nome Agência Dinheiro Vivo e denunciou o golpe paraguaio que pretendeu aplicar na democracia brasileira.

A avaliação do dano não depende apenas da dimensão da vítima, mas também do agressor. E quando o agressor é um Ministro do Supremo Tribunal Federal, que pratica a agressão em uma tribuna pública - o Tribunal Superior Eleitoral - em uma cerimônia transmitida para todo o país por emissoras de televisão, na verdade, ele deveria ser alvo de um processo maior, do servidor que utiliza a esfera pública para benefício pessoal.

HERR SCHIEMER E O FUTURO DO BRASIL

Sanguessugado do   Mauro Santayana



 

Imaginem o que ocorreria se um executivo de uma multinacional brasileira, como a WEG, desse, por hipótese, uma entrevista para um jornal alemão, o Handelsblatt, por exemplo, afirmando que  é preciso decidir que tipo de Alemanha "queremos" para o futuro, comparando-a, digamos, com  a Ucrânia.

Pretendendo dar lições ao país em que está instalada a empresa para quem trabalha, o Presidente da Mercedes Benz no Brasil, senhor Phillipp Schiemer, em plena semana de julgamento do impeachment da Presidente da República, declarou, em entrevista ao Valor Econômico da sexta-feira passada, amplamente repercutida por sites de direita, que a ela pretenderam dar um cunho ideológico, que é preciso decidir "se queremos um Brasil como a Venezuela ou um Brasil inserido no novo mundo", como se, neste humilde, e, quem sabe, paralelo universo em que nos coube viver, cada vez mais desafiado pelo avanço da física quântica e de outras intrigantes descobertas, não tivéssemos mais alternativas que a submissão ou o caos - no caso  venezuelano fortemente induzido por pressões internas e externas - ou dependêssemos da opinião de cidadãos estrangeiros para decidir o futuro que queremos ter como Nação.

Ora, com todo respeito por Herr Shiemer e pelos problemas que assolam o povo venezuelano, o Brasil está longe de ser uma Venezuela. 

O Brasil é a nona economia e o terceiro maior fabricante de aviões do mundo. A Venezuela não o é. O Brasil é detentor das sextas maiores reservas internacionais do planeta, de 374 bilhões de dólares, e o quarto maior credor individual externo dos EUA. A Venezuela não o é. 

O Brasil tem uma indústria que se encontra, em parte, em crise, mas que é disseminada e diversificada, o que não é também o caso da Venezuela, que tem, historicamente, uma excessiva dependência do petróleo, commoditie cujo preço derreteu nos últimos 3 anos, fato que deve estar ligado, certamente, à atual escassez de reservas que assola avassaladoramente a economia desse país sul-americano.

Por outro lado, resta saber, também, a que "novo mundo" o Sr. Phillip Schiemer estaria se referindo em sua fala.

Ao mesmo velho mundo da época do Império persa ou do romano, que se consolidou com o advento do mercantilismo, em que as diferentes colônias ou países tinham que acomodar seus mercados e seus sistemas produtivos aos interesses de grupos econômicos estrangeiros?

Ao mundo de empresas como a então Companhia das Índias Ocidentais, ou, hoje,  a Mercedes Benz, em que nações tem que adaptar os preços cobrados de seus consumidores e os salários pagos a seus operários da forma mais adequada a maximizar o lucro obtido por multinacionais que operam,  em todo o mundo, muitas delas pressionando e eventualmente chantageando os governos e as nações em que estão instaladas?

Ou ao novo mundo da China, quem sabe, em que um país historicamente explorado volta a levantar a cabeça e dita suas normas aos seus antigos invasores e controladores, transformando-se no maior credor do planeta ou na segunda economia do mundo, sem ceder um centímetro de seus interesses?

Se fôssemos obrigados - o que não é o caso -  a uma escolha, há, com certeza,  brasileiros - e não são poucos - que prefeririam, do ponto de vista da soberania nacional, o modelo chinês àquele que o senhor Phillipp Schiemer nos está propondo.

O modelo chinês, mesmo que distante,  porque, por lá, pelo menos, do ponto de vista de vergonha na cara, a situação é outra, completamente diferente.

Pequim investe diretamente em tudo que envolve tecnologia - incluída a produção de automóveis - melhora as condições de vida e de consumo da população - (o mercado automobilístico chinês já é o maior do mundo e crescerá em média, 5% por ano até 2020) e por lá as multinacionais se adaptam aos interesses do governo e do país, ou caem fora, sem que executivos de empresas estrangeiras, como é o caso dos representantes da Mercedes Benz na China, ousem  dar pitacos de ordem política em assuntos de interesse nacional.

Com todo o respeito, também, pelo democrático e sagrado direito  à liberdade de expressão, e pelos 14 anos de trabalho passados, em diferentes ocasiões, pelo ex-presidente mundial de marketing da Mercedes Benz em nosso país, assim como  pelos problemas e desafios que sua empresa está enfrentando no Brasil neste momento, que não são poucos, com uma brutal queda na venda de caminhões e a demissão de centenas de trabalhadores, manda a boa educação que os hóspedes - e o Sr. Phillip Schiemer é um hóspede no Brasil - se abstenham de meter a colher nos assuntos da casa.

Ou que se comportem com certo comedimento, mantendo-se no terreno econômico sem invadir a seara da política, para evitar dar a impressão de que estão se imiscuindo em assuntos internos, principalmente em momentos decisivos, de grande efervescência e radicalização político-partidária.

Há formas e formas de se ver e de se dizer as coisas.

Primeiro, porque se fôssemos ver a realidade apenas  do ponto de vista macroeconômico, por exemplo, em certos aspectos, como dívida pública com relação ao PIB e reservas internacionais mesmo (71% e 200 bilhões de dólares) alguns poderiam dizer que a situação do país do Sr. Shiemer é pior do que a nossa.


E em segundo lugar, porque, como cidadão alemão, Herr Schiemer provavelmente não gostaria, por mais improvável que seja,  que um executivo chinês ou um dirigente de empresa russo, por exemplo,  falasse da mesma forma que ele fez no Brasil, com relação à Alemanha.

domingo, 28 de agosto de 2016

Veríssimo: Ri, palhaço ou Só termina quando a gorda cantar.


Ri, palhaço

Luiz Fernando Veríssimo


Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha, o herói do impeachment

Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa pagina interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.

A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.

O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!

Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:

— Só termina quando a gorda cantar.

Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.

Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós.




Nossa democracia nem conseguiu tornar-se balzaquiana.

O Povo via feicibuqui da CamileClaudel

Sandra Helena de Souza

Professora de Filosofia da Unifor; membro do Instituto Latino-Americano de Estudos em Política, Direito e Democracia (ILAEDPD)

 A tristeza é senhora

Eu gostaria de ser de algum partido de esquerda como amiúde me acusam os adversários de debate. Se o fosse, estaria agora pragmaticamente envolvida no pleito municipal, dando por favas contadas o ‘impeachment’ e fazendo as contas de como retornar ao poder em futuro próximo, encontrando desculpas rotas para justificar minha ausência ou nula presença na dura luta contra o golpe; ou às voltas com alianças estapafúrdias com golpistas em nome de sabe-se lá o quê.


Mas não sou e, como eu, tantos e tantas militantes das boas causas país afora, estamos tomados por uma tristeza assombrosa que percorre dias e noites insones e faz nos arrastarmos como zumbis, cumprindo as tarefas do cotidiano sem paixão, acometidos de melancolia política. De uns tempos para cá, ficou cada vez mais claro que esses difíceis dias de consumação do golpe chegariam e teríamos de atravessá-los, mas nem toda preparação foi suficiente para evitar-me as lágrimas teimosas que me acompanham no carro na ida e volta do trabalho.


É claro que não há saída política que não passe pelas urnas, mas também é claríssimo que não há como negar o tom de farsa das eleições vindouras. Simplesmente não há mais normalidade democrática no País e todo o esforço para lustrar o processo com a aparência do jurídico perfeito não resiste a uma ou duas perguntas bem formuladas. Em ambientes acadêmicos como o meu, a omissão e o silêncio atordoante diante do crime político de lesa-democracia põem a nu toda a vanidade do conhecimento desacoplado dos valores civilizatórios fundamentais. Os defensores da Escola sem Partido já podem ir se considerando com meia-partida ganha.


As recentes revelações no julgamento do Senado, com a testemunha de acusação revelando que formulou a peça que ele mesmo julgou, apenas conferem ao teatro do absurdo mais um toque burlesco. Nada mais parece capaz de reverter o infortúnio pessoal de Dilma Rousseff, cassada de seu mandato legítimo, tornada inelegível e impedida de exercer quaisquer funções públicas por anos, um feito do qual nos envergonharemos e muitos daqueles que hoje já começam a se mostrar ‘surpresos’ com as medidas tomadas pelo conglomerado que tomou de assalto o poder terão razões de sobra para suas pantomimas de ocasião.


Nossa democracia nem conseguiu tornar-se balzaquiana. A minha geração nascida sob a mais violenta das ditaduras não se imaginou viver um golpe em tão curto espaço de tempo. Fosse apenas Dilma a apeada como foi o caso Collor e poderíamos, sem incômodo, fazer coro às inúmeras críticas à sua persona política. Mas é também um projeto de país, construído desde a redemocratização aos trancos e barrancos, desmoronando, diante de nós, o futuro de milhões e milhões de jovens novamente comprometido, a criminalização da política em ponto ômega, as esquerdas atônitas e aquém de seu papel, a hipocrisia, o ressentimento, o ódio, o autoritarismo de volta.



Os inimigos estão no poder. É hora de admitir isso e reinventar a luta. Para que o futuro não tarde 21 anos. Vida longa a Dilma Rousseff.

sábado, 27 de agosto de 2016

Editorial do Le Monde: é Golpe ou farsa!

 Le Monde via Uol



Le Monde
Editorial: Queda de Dilma ou é golpe de Estado ou é farsa

"Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.”

Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, está vivendo seus últimos dias no comando do Estado. Praticamente não há mais dúvidas sobre o resultado do julgamento de sua destituição, iniciado na quinta-feira (25) no Senado. A menos que aconteça uma reviravolta, a sucessora do adorado presidente Lula (2003-2010), que foi afastada do cargo em maio, será tirada definitivamente do poder no dia 30 ou 31 de agosto.

Dilma Rousseff cometeu erros políticos, econômicos e estratégicos. Mas sua expulsão, motivada por peripécias contábeis às quais ela recorreu bem como muitos outros presidentes, não ficará para a posteridade como um episódio glorioso da jovem democracia brasileira.

Para descrever o processo em andamento, seus partidários dizem que esse foi um "crime perfeito". O impeachment, previsto pela Constituição brasileira, tem toda a roupagem da legitimidade. De fato, ninguém veio tirar Dilma Rousseff, reeleita em 2014, usando baionetas. A própria ex-guerrilheira usou de todos os recursos legais para se defender, em vão.

Impopular e desajeitada, Dilma Rousseff acredita estar sendo vítima de um "golpe de Estado" fomentado por seus adversários, pela mídia, e em especial pela rede Globo de televisão, que atende a uma elite econômica preocupada em preservar seus interesses supostamente ameaçados pela sede de igualitarismo de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).

Inimiga número um de parte dos brasileiros

Essa guerra de poder aconteceu tendo como pano de fundo uma revolta social. Após os "anos felizes" de prosperidade econômica, de avanços sociais e de recuo da pobreza durante os dois mandatos de Lula, em 2013 veio o tempo das reivindicações da população. O acesso ao consumo, a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas não conseguiam mais satisfazer o "povo", que queria mais do que "pão e circo". Ele queria escolas, hospitais e uma polícia confiável.

O escândalo de corrupção em grande escala ligado ao grupo petroleiro Petrobras foi a gota d'água para um país maltratado por uma crise econômica sem precedentes. Profundamente angustiados, parte dos brasileiros fizeram do juiz Sérgio Moro, encarregado da operação "Lava Jato", seu herói, e da presidente sua inimiga número um.

A ironia quis que a corrupção fizesse milhões de brasileiros saírem para as ruas nos últimos meses, mas que não fosse ela a causa da queda de Dilma Rousseff. Pior: os próprios arquitetos de sua derrocada não são santos.

O homem que deu início ao processo de impeachment, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. A presidente do Brasil está sendo julgada por um Senado que tem um terço de seus representantes, segundo o site Congresso em Foco, como alvos de processos criminais. Ela será substituída por seu vice-presidente, Michel Temer, embora este seja considerado inelegível durante oito anos por ter ultrapassado o limite permitido de doações de campanha.

O braço direito de Temer, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento do governo interino, foi desmascarado em maio por uma escuta telefônica feita em março na qual ele defendia explicitamente uma "mudança de governo" para barrar a operação "Lava Jato".

Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.


Tradutor: UOL

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Fodeu a boca da égua: o ovo da serpente chocou e dele saiu o caos

Sanguessugado do Tijolaço

República de Curitiba peita Janot e Gilmar e vaza mais da “delação que não existe” da OAS 

Fernando Brito

vejapeita

A República de Curitiba tomou o freio nos dentes, como se diz dos cavalos que já não obedecem às rédeas.

A capa da Veja que vai às bancas é um desafio aberto ao Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e ao Ministro Gilmar Mendes.

Deram uma no cravo – açulando o indiciamento de Lula pela Polícia Federal – e desceram o malho na ferradura: o comando (se é que se pode ainda chamar assim)  da PGR e sobre Gilmar Mendes, que havia se insurgido contra o vazamento de uma insinuação infamante contra o também Ministro do STF Dias Tóffoli.

Desta vez não foi um vazamento, foi uma enxurrada de lama, uma espécie de estouro da barragem da Samarco, atirando lama sobre Lula, Dilma, mas também Aécio e Serra.

Janot disse publicamente que “nunca entraram” na Procuradoria os “anexos” da delação que a revista – ainda não tenho o texto – anuncia aos magotes em sua capa.

Popularmente, “jogaram no ventilador”.

Não “toparam” a amenizada de Gilmar, desde ontem.

E, de novo, a Veja é o veículo que mais se presta a publicar, com escândalo, o que lhes serve politicamente.

Quando se tiver acesso ao conteúdo, a partir do que ocorreu na edição anterior, é provável que se veja que muito – ou tudo, como na semana passada – sejam alegações sem prova.

Suposição que o “jornalismo” da revista há muito justifica.

Vai ficando completamente evidente que a Força Tarefa  joga no caos, quem sabe esperando que dos escombros da República surja “A lenda” para reinar sobre as ruínas.


Deixo à criativa imaginação do leitor imaginar quem seja.

Barraco na casta judiciária: virou zona

Sanguessugado do Tijolaço

O “todo poder ao Moro” instituiu a anarquia judiciária no Brasil

Fernando Brito

anarquia

É que nossa imprensa e os nossos conservadores são muito, perdão da palavra, avacalhados.

Não há um país no mundo onde pudesse estar havendo um combate aberto entre um ministro do Supremo Tribunal Federal e uma associação que representa a corporação de juízes.

Você consegue imaginar, nos EUA, uma liga de juízes de condado e -mais ainda – uma Liga de Juízes de Condado que entre em guerra com um juiz da Suprema Corte?

Evidente que não.

Como chegamos a este ponto?

Coices de Gilmar Mendes nunca foram propriamente uma novidade.

Mas eram uma estupidez isolada, geralmente minoritária no Supremo.

Desde que a Lava Jato se tornou o cavalo de batalha da mídia contra o PT, com o endeusamento de Moro e seus rapazes do MP, a corporação judicial sentiu a oportunidade de abocanhar poder.

As associações de juízes passaram a fazer uma militância política, para além de meros interesses corporativos.

E como era uma militância anti-esquerda e anti-PT, todos a aceitaram.

Apoiar Moro, fortalecer Moro, endeusar Moro era apoiarem, fortalecerem e endeusarem a si mesmos, como indivíduos e corporação.

Concederem-se, portanto, mais poder, bem como assim foi com o Ministério Público.

Enquanto se batiam contra pessoas que tinham a moderação que a liturgia dos cargos obriga – e que levavam esta moderação, cada vez mais, para o tereno do avassalamento, o que não se confunde com o respeito democrático à Justiça – nada aconteceu.

Agora, bateram no espinhoso Mendes.

E a troca de ofensas chegou ao inimaginável.

Ele diz que os imorais auxílios rebebidos pelos juízes e promotores são “seu pequenos assaltos” ( no meu dicionário, que assalta é assaltante) e que suas remunerações se compõem de “gambiarras institucionais”.

Os juízes rebatem, dizendo com todas as letras o que pensam das atividades de Mendes com sua “faculdade” de Direito, o Instituto de Direito Público (Público, privado, convém frisar) dizendo que sua ideia de Magistratura é de juiz  “que não exerce atividades empresariais, que respeita as instituições e, principalmente, que recebe somente remuneração oriunda do Estado”.

Sérgio Moro, que é o comandante simbólico da sublevação da magistratura não vai entrar diretamente nesta briga. Vai reagir nos autos, onde faz e desfaz com pouca reação dos tribunais superiores que já passaram da intimidação para a adesão, à medida em que se perderam os pruridos das garantias do cidadão.

Os gaúchos, no interior, têm um ditado: cachorro que comeu ovelha, só matando.


Sem morticínios, como é do civilizado, não é imaginável onde esta “briga de rua” vai parar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ensaio geral: o Melô da Melação na Lava Jato, veja com Gilmar e Janot

Via TV Gazeta

Bob Fernandes





A revista Veja noticiou: Dias Toffoli, ministro do Supremo, teria sido citado em pré-delação por Leo Pinheiro, da OAS.

A OAS, a pedido, identificou infiltração na casa de Toffoli. O ministro contratou uma empresa e pagou pelo conserto.

O ministro Gilmar Mendes acusou procuradores de vazarem esse enredo contra Toffoli. E atacou: procuradores se acham "o ó do borogodó" por terem "atenção" da Mídia.

Gilmar acrescentou: "Esses falsos heróis vão encher cemitérios". E cobrou:

-Estão (procuradores) possuídos por teoria absolutista, de combate ao crime a qualquer preço (...) Não se combate o crime cometendo crime.

Para Gilmar, quem defende validar provas ilegais desde que "obtidas de boa fé" é "cretino absoluto".

O juíz Moro defendeu tal tese no Congresso, assim como procuradores.

Na Teologia, Poder Infinito, Perfeito e Divino, quem tem é Deus. No céu.

Na Terra, a resposta do Procurador Janot para Gilmar é confissão para a História:

-A gente vaza aquilo que tem. Se não tem informação, não vaza.

No "Petrolão", no "Mensalão", tudo vazou e vaza. Sobre tanto, silêncio quase absoluto do ministro Gilmar... Até agora.

Dilma e Lula tiveram parte de conversa gravada ilegalmente, e vazada. Teori e Marco Aurélio Mello, ministros, criticaram o juiz Moro. E...seguiu o enterro.

Gilmar Mendes disse, então, que importante era discutir "o conteúdo", não o grampo e vazamento ilegais.

Claro. Porque ali se buscava, como no filme Casablanca, prender "os suspeitos de sempre".

"Tríplex do Lula". Meses de vazamentos. Manchetes estrondosas em telejornais, revistas, rádios, jornais... Lembram?

Bem, a Polícia Federal conclui inquérito e não incriminou, não indiciou Lula. E dai? Daí, serviço feito. O "Inimigo Número 1" que se dane.

Por ora, cancelada a delação da OAS; além dos "suspeitos de sempre", tem citação de doações ilegais para campanhas de Temer, Aécio, Serra, Marina...

Reveladora pergunta e resposta de Janot sobre esse Melô da Melação na Lava Jato:


-A quem e por que a Lava Jato está incomodando tanto? Essas reações nos últimos dias me fizeram pensar muito.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Carta a Jô Soares, por J. Carlos de Assis

Sanguessugado do GGN






Aliança pelo Brasil

Um procurador messiânico e um apresentador de boa fé

J. Carlos de Assis

Carta a Jô Soares:

Vi a gravação de sua entrevista com o procurador-chefe da força tarefa da Lava Jato, Dalton Dallagnol. Decidi procurá-la na rede depois que, em entrevista posterior, você apresentou uma carta do advogado de Lula protestando contra o uso de provas ilegítimas em processo penal. Voce desqualificou o advogado subscrevendo integralmente os conceitos do procurador, dados na véspera, segundo os quais provas obtidas ilicitamente poderiam ser aceitas no processo desde que produzidas de “boa fé”.

Argumento idêntico já havia sido adotado pelo juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, numa de suas palestras sensacionais. Neste caso, tratava-se de legítima defesa da audácia dado que o magistrado pretendia obviamente legitimar o uso judicial da gravação de Lula com a Presidenta Dilma, que ele liberou para a imprensa ilegalmente, agora incluída no processo de suposta obstrução da justiça. Temos agora três instâncias da legitimação da prova ilícita: o juiz, o procurador e a imprensa, esta representada por você, Jô Soares, em seu candente editorial. Poder-se-ia dizer que isso retrata uma conspiração para a obstrução não da justiça, mas da lei.

Não somos juristas. Sou jornalista, economista, doutor em Engenharia de Produção, hoje quase totalmente dedicado à economia política. Você é um dos homens sabidamente mais cultos do país. Entretanto, somos iguais num ponto: pertencemos a um mesmo ambiente histórico cujas raízes estão cravadas no início da era moderna da qual a característica mais marcante, no processo de construção de cidadanias, foi a consagração absoluta dos princípios jurídicos do habeas corpus, da presunção de inocência e do devido processo legal. Era a forma do cidadão escapar do sufocamento do Rei ou do Estado.

Não é difícil identificar no devido processo legal o imperativo inescapável da legalidade da prova. Isso não é Direito. Isso é civilização. O contrário seria deixar ao arbítrio do juiz, e na dependência de sua “boa fé”, aquilo que é a base factual dos julgamentos, ou seja, a prova material inequívoca. O juiz Moro e o procurador Dalton, e agora você, Jô, se tiverem realmente boa fé, devem à sociedade brasileira um esclarecimento franco sobre o que entendem por boa fé, e quem a determina num processo penal.

Sua explicação para acolher o argumento do promotor foi a imensa audiência que seu programa alcançou na data do programa. Trata-se de uma tautologia. Sua audiência lhe devolveu o que você deu a ela. Foram seus conceitos, e os conceitos expostos pelo procurador sem qualquer questionamento de sua parte, que refletiram na plateia e na tevê e lhe voltaram na forma de uma ovação geral. Pusesse você alguém de menos boa fé, que a sua, para entrevistar o procurador, alguém que não fosse dessa grande mídia sórdida, e ele seria massacrado.

Vou lhe dar apenas um exemplo da simplicidade idiota desse procurador de ares messiânicos. Ele disse ter estudado pós-graduação em Harvard e ali aprendeu métodos eficientes de combater a corrupção. Bom, terá ele aprendido em Harvard alguma coisa dos processos movidos, depois da crise de 2008, contra os fraudulentos Bank of America e o Citigroup, os maiores bancos norte-americanos? Acaso foi preso algum dos dirigentes desses maiores bancos americanos pelos golpes dados no mercado de subprime?

Bom, para que esse procurador, ou você mesmo não digam de novo que o escândalo da Petrobrás é o maior do mundo, vou lhe dar alguns dados que a grande imprensa omite: os dois bancos citados, para livrar seus executivos da cadeia, pagaram, cada um, cerca de R$ 70 bilhões, ou um total de R$ 140 bilhões em multas. Não é só isso. Ninguém pagou pela fraude da Libor, administrada pelos 14 maiores bancos do mundo, a despeito de bilhões e bilhões de dólares em prejuízos. Ninguém pagou pelas fraudes do Deutsche Bank e o UBS nos mercados mundiais de câmbio, também representando quantias bilionárias.

Se você me perguntasse se gostaria de ver esses bancos quebrarem da noite para o dia por causa da corrupção eu diria que você está louco. O grau de sofrimento no mundo seria intolerável. Aqui, entretanto, esses promotores messiânicos, movidos sobretudo por vaidade e nenhum escrúpulo social, não tomaram qualquer providência para salvar a parte sadia das empresas de engenharia, com centenas de milhares de empregos, envolvidas no escândalo. Ao contrário, embaraçaram como puderam os acordos de leniência. Que fizessem o que os americanos fazem: punam os executivos e salvem as empresas. De fato, eles salvam as empresas e sequer punem os executivos, que se safam com multas.

Seu procurador, Jô, não passa de um vaidoso. Ele se vê em vestes messiânicas para salvar o Brasil da corrupção. Sua entrevista é do tipo que agrada, pois ele se coloca na situação de um puro, um justo, um incorruptível e, sobretudo, como alguém que está sempre e absolutamente certo, combatendo os absolutamente maus com perfeita maestria. Você se revelou surpreendido com a audiência. Você se surpreenderia também, se estivesse lá, com Hitlter e Mussolni, ambos anunciando a grande solução para a Alemanha e Itália. Não passavam, como seu procurador messiânico, de demagogos ingênuos, talvez demagogos de boa fé.

Talvez as partes mais extraordinárias da entrevista, você se deve lembrar, foram aquelas em que o procurador se descreveu como alguém que não tem poder econômico ou poder político, e justamente por isso a forma que encontrou para avançar nas investigações foi uma aliança com a imprensa. Você percebeu o que isso significa? Fora nas ditaduras, onde no mundo o processo judicial se inicia com uma aliança entre a promotoria e a imprensa? É justamente isso que nos leva à investigação-espetáculo, em muitos casos configurando a mais abjeta violação de direitos humanos. É esta aliança a matriz da exibição pública de simples suspeitos, destruindo injustamente reputações, assim como a escolha “científica e democrática” entre as grandes mídias dos documentos e depoimentos que serão vazados, a isso se chamando liberdade de imprensa.

Jô, se pessoas, com seu alto nível cultural, não sabem distinguir o que é avanço e o que é regresso de civilização, estamos em maus lençóis. Vivemos uma situação mundial de crise aguda, com guerras em andamento, fricções entre grandes potências, dramas de refugiados. No nosso caso, vivemos um quadro legislativo podre, uma presidência ilegítima e virtual ditadura judicial que ignora o sistema econômico combalido – 8% de contração em dois anos, 13% de taxa média de desemprego -, e até mesmo o avanço sobre o pré-sal pondo em risco a nossa própria soberania. Sabe-se como começam as revoluções. Nunca como terminam. Para que ninguém se sinta impune ao abusar de autoridade, lembrem-se da experiência turca recente: em face de um golpe judicial instigado pelos americanos, promoveu-se um contragolpe que acabou com mais de 2 mil juízes e promotores na cadeia, sob risco de pena de morte por alta traição.


J. Carlos de Assis - Jornalista, economista, professor, doutor em Engenharia de Produção, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira.

Psicanálise: O Brasil e a “alucinação negativa”

Sanguessugado do Boitempo

goebbels secretary

Brunhilde Pomsel, ex-secretária de Joseph Goebbels.
Flávio Aguiar.

Nestes tempo de golpe de estado no Brasil as conversas podem ficar muito difíceis. Amizades podem virar pó de uma hora para outra. Conheço inúmeros casos.

Comigo também se passou algo parecido. Um amigo – ou ex-amigo, nesta altura – virou um anti-petista ferrenho, o que é, convenhamos, um direito dele. Ele já era de direita, o que também é um direito dele. Mas extrapolou.

Acontece que diante de afirmações como a de que “mas durante os governos de Lula e Dilma a situação dos pobres melhorou, a miséria diminuiu, o padrão de vida dos trabalhadores assalariados subiu, etc.”, ele passou a reagir raivosamente: “é tudo mentira”. “Nada disto aconteceu”.

Um dos problemas aí é que tal reação chama de mentirosos não só Lula, Dilma, o PT, os petistas, e eu de quebra, mas também a ONU, a OEA, a OIT, a UNESCO, a FAO, boa parte da União Europeia, a Itália, que recentemente adotou um projeto do tipo Bolsa Família, economistas indianos, a OCDE, além do IBGE, naturalmente, e etc.

O outro problema é que isto é repetido ad nauseam pelo exército de coxinhas e paneleiras(os) que infesta as ruas e nossos ouvidos de vez em quando (andam mais discretos, aliás…), além dos arautos do antipetismo distribuídos pela mídia conservadora, quando não estão ocupados em obter os vazamentos seletivos de quanta operação seja urdida por promotores que se arvoram a juízes, juízes que se adoram promotores e policiais federais que se arvoram a promotores e juízes.

Mutatis mutandis, isto me lembra o comportamento de gente que até hoje nega o Holocausto, por exemplo. Ou então a entrevista recente dada pela ex-secretária de Joseph Goebbels, hoje com 105 anos (!) e a única sobrevivente do círculo próximo do Führer. Nela, a entrevistada afirma , sobre os crimes genocidas dos nazistas, que “não sabia de nada”, que só datilografava o tempo inteiro. A provecta senhora que me desculpe, com todo o respeito, mas é mais fácil acreditar que ela simplesmente não queria saber de nada desde sempre. Posto que ela até se recorda do estranho sumiço de amiga judia. Sé depois da guerra ela ficou sabendo que esta pessoa fora levada para Auschwitz. O mesmo aconteceu e acontece com gente que até hoje nega que tenha havido tortura no Brasil durante o regime civil-militar de 1964. Ou os que o querem de volta, embora haja os que querem que ele volte com tortura e tudo.

Curioso, perguntei a um outro amigo meu, psicanalista, como se poderia chamar esta atitude de negação contumaz da realidade. Ele me disse que há uma qualificação clássica na psicanálise que se chama de “alucinação negativa”, em que as pessoas que dela são objetos se negam a ver uma coisa – até mesmo objetos concretos, por vezes, ou a ouvir algo que não querem admitir. Pesquisando mais um pouco, deparei com experiências mostrando que esta “alucinação negativa” pode ser induzida até por hipnose que, no fundo, é o que a nossa mídia tradicional costuma praticar, seguindo a orientação famosa daquele mesmo Goebbels acima lembrado, de se mentir tanto até que a mentira vire verdade. É claro que é necessário um tipo de consentimento por parte do objeto de tal manipulação.

Tudo isto vem na esteira do esforço de aleijar e alijar a esquerda na história não só futura – mas também do passado. Os governos de esquerda é que são os responsáveis pelo desarrazoado do mundo e das economias – da brasileira e da mundial. Eles nada fizeram senão cometer erros e mais erros; tudo não passou de uma “ilusão”. A “mentira” do meu amigo lá de cima.

O curioso é que existe também muito intelectual e analista de esquerda que pensa assim, inclusive aqui na Europa. Pululam os intelectuais que pregam que tudo o que a esquerda latino-americana, não só a brasileira, fez nos últimos anos foi só uma ilusão. E que eles, estes intelectuais e analistas, é que sabem o que nós, os latino-americanos, deveríamos ter feito, fazer e vir a fazer. Esquecem (será também uma alucinação negativa?) que aqui na Europa só há dois governos de esquerda: o de Portugal, com uma frente tripla reunindo o PS, os comunistas e verdes (hoje um partido só) e o movimento Bloco de Esquerda, e o do Vaticano, com o Papa mais à esquerda da história da Santa Madre. Nem na Espanha o Podemos e o PSOE conseguiram se juntar, ao invés de se bicar, para formar um governo. França, Alemanha, Itália, nem pensar. O governo de extrema-esquerda na Grécia foi dobrado a golpes de retórica. E aplicou o programa do Banco Central Europeu mais o Banco Central Alemão e o chanceler Wolfgang Schäuble, tão mau quanto Meirelles. A esquerda, aqui, virou um nicho universitário, em 95% dos casos.

Mas eles, os intelectuais europeus, é que sabem o que é melhor para o mundo.

***


Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A Besta da Mooca



Sociólogo Marcelo Zero diz que chamar documento da Corte de "besta e malfeito" é o cúmulo da diplomacia de asno



Marcelo Zero

Brasil 247

Zero lembra que, em 1998, o Brasil passou a reconhecer, como obrigatórias e vinculantes, as sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos 



A especialidade do ministério Temer é a destruição. Como um bando de hunos, dedica-se a pilhar o Estado e a implodir tudo o que foi feito com anos de trabalhos duro.

Ciência sem Fronteiras, FIES [Fundo de Financiamento Estudantil], Prouni [Programa Universidade Para Todos], Minha Casa Minha Vida, SUS [Sistema Único de Saúde], Cultura, etc., tudo está sendo "revisto", reduzido ou simplesmente destruído, de modo a que sobre dinheiro para pagar juros e a conta fisiológica do golpe. No ínterim, dedicam-se também a perseguir os que defendem a democracia ou os que tinham algum laço com o governo anterior. Afinal, os hunos, além de violentos, eram mesquinhos.

Nesse festival macabro de destruição de políticas e programas, há um ministério que tem destaque: o Itamaraty. Chefiado com mão de ferro pelo exuberante Barão da Mooca, o nosso MRE [Ministério das Relações Exteriores] dedica-se com afinco a destruir a política externa altiva e ativa que foi decisiva para superação da nossa vulnerabilidade externa e a elevação do nosso protagonismo internacional.

Quiçá tentando se converter numa espécie de Theodore Roosevelt tupiniquim, em apenas 100 dias nosso chanceler já distribuiu golpes de seu "grande porrete" para tudo quanto é lado.

Agrediu a Nicarágua e El Salvador por questionarem o golpe. Promoveu assaltos verbais contra a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] pelo mesmo motivo. Ameaçou o Caribe e a África com fechamentos de embaixadas, ofendendo países amigos que também abriram embaixadas no Brasil. Distribuiu pródigos coices contra o Mercosul e a integração regional, sem esconder seu desprezo por nossos vizinhos e sua intenção de recolocar o Brasil na órbita estratégica dos EUA.

Esse grande diplomata, um talento nato, conseguiu a fantástica proeza de brigar com o pequenino Uruguai, pois foi até Montevidéu tentar comprar o voto dos uruguaios para excluir a Venezuela do Mercosul.

Seus porretaços e coices são complementados com adequados zurros. Assim, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) criticaram a transformação da Controladoria-Geral da União (CGU) em ministério e a troca de comando da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Barão da Mooca afirmou que: "Isso não tem pé nem cabeça, nem importância. A maioria não sabe sobre o que está falando". A ONU e a OEA não sabem o que estão falando. Mas ele sabe.

Sabe tanto que, na sua visita ao México, ofendeu em público a chanceler mexicana com uma piadinha misógina. Sabe tudo de diplomacia o nosso Roosevelt.

Agora, entretanto, o Roosevelt tupiniquim se superou. Após receber documento oficial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA pedindo informações sobre o processo do impeachment sem crime, ele afirmou, com grande tato, que o documento é "besta e malfeito" e que "o Brasil não tem que responder nada".

O zurro surpreendeu pelos decibéis e pela ignorância em assuntos comezinhos de política externa.

A Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos da OEA, mais conhecida como Pacto de San José, foi promulgada na nossa ordem jurídica interna em 6 de novembro de 1992. Portanto, desde aquela data, ela tem força de lei no país. Além disso, em 1998, mediante a Mensagem nº 1070, enviada ao Congresso em regime urgência, o Brasil passou a reconhecer, como obrigatórias e vinculantes, as sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que é o órgão judicial que protege os direitos previstos na citada convenção. Saliente-se que os Estados que fazem parte da Convenção não são obrigados a reconhecer tais sentenças. Tal reconhecimento é facultativo. Assim, foi o governo tucano ao qual Serra serviu que tomou a decisão de reconhecer, como obrigatórias, tais sentenças.

Se a Corte decidir que houve violação aos direitos protegidos pela Convenção, ela determinará, através de sentença, "que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados". Ademais, a Corte poderá exigir dos Estados Partes a reparação das consequências ou o pagamento de indenizações às vítimas.

Portanto, a Corte da OEA pode, sim, pedir explicações ao Brasil. E o Brasil, graças a uma decisão tomada no antigo governo do nosso chanceler, está obrigado a responder. Mais: o Brasil está obrigado a cumprir as sentenças da Corte.

Observe-se que, pelo artigo 48 da Convenção, a solicitação de informações tem de ser enviada ao Governo do Estado, que será o responsável pela resposta.

É inacreditável que a diplomacia brasileira tenha caído tão baixo em tão pouco tempo. Mesmo para o folclórico ministério do governo golpista, trata-se de um recorde de inabilidade e incompetência. Como agravante, Serra agora terá de lidar com a greve dos servidores do MRE, agredidos em seus direitos trabalhistas.

Chamar o documento da Corte da OEA de "besta e malfeito" é o cúmulo da diplomacia asinina do coice.

Malfeita, muito malfeita, foi a sua nomeação para o Itamaraty. Trata-se de um caso clássico de "o homem errado no lugar errado".

E o documento da Corte da OEA não é "besta". Besta é ele.


*Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

"Contudo, diante da inominável deterioração moral em que estão mergulhados, o meu cuspe seria inócuo; não lavaria nada."

Via 247

Subprocurador-geral da República durante o governo FHC e AGU no governo Lula, Álvaro Ribeiro Costa escreve uma carta com críticas duríssimas aos golpistas que agem para derrubar a presidente Dilma Rousseff; "A História não esquecerá nem apagará o nome de vocês do rol das iniquidades e das vergonhas. E não adianta fingir que não há golpe; todo mundo já sabe", diz ele; para Costa, hoje procurador da República aposentado, "não importa se o arrombador dos pilares da ordem democrática possa eventualmente se valer de uma maioria parlamentar corrompida e mal-cheirosa ou de juízes parciais e desacreditados. Quando a injustiça e a corrupção se fantasiam de direito e moralidade, a justa indignação e a resistência se tornam obrigação"; ele faz, ainda, "uma brevíssima oração: que Deus não os perdoe; vocês sabem muito bem o que fazem!"

Carta a personagens imaginários

:

Álvaro Augusto Ribeiro Costa



Em primeiro lugar, por favor, ninguém pense que estou falando com seres reais, nem se considere ofendido em sua honra. É que, como meros e ocasionais personagens de uma extraordinária farsa que se desenrola num lugar também imaginário, não poderiam ter existência própria nem honra que se lhes pudesse atribuir.

Quem seria o autor de tão assombrosa tragicomédia? É difícil saber, até mesmo porque os atores trocam de papéis a cada momento, numa volúpia que uma única mente, por mais delirantemente criativa, não poderia conceber. De cúmplices ou co-autores de supostos delitos, passam de repente a acusadores, transmudam-se em seguida em juízes ou jurados, sob a fantasia da isenção ou integrando a claque dos que se aplaudem uns aos outros, cada um mais convencido da excelência de suas múltiplas e medíocres representações. Um de cada vez ou em grupos, todos muito cientes dos torpes proveitos que almejam.

Cabe, porém, oportuna advertência. Quando as buscas e apreensões invadirem de surpresa seus lares e as conduções coercitivas os expuserem com ou sem razão à volúpia sádica das multidões insufladas pela mesma mídia que hoje os incensa e amanhã os vilipendiarão, não invoquem a presunção de inocência nem o direito de saber do que são acusados; não peçam que lhes seja assegurado o direito de defesa e do contraditório, nem supliquem pela presença de um juiz imparcial. Mas antes que isso ocorra, não percam tempo nem gastem dinheiro promovendo a operação lava-memória. A História não esquecerá nem apagará o nome de vocês do rol das iniqüidades e das vergonhas. E não adianta fingir que não há golpe; todo mundo já sabe.

Penitencio-me por não haver percebido antes quão distante me acho de vocês. A rotina das chamadas boas maneiras esconde a essência das pessoas. De uma coisa, porém, não tenham medo. Não cuspirei em vocês. Não é que não lhes tenha nojo. Compartilho, quanto a isso, do mesmo sentimento que Ulisses Guimarães pronunciou e prenunciou em relação àqueles a quem se dirigiu em mensagem que as ondas do Atlântico ainda hoje – e com mais força agora – repercutem. Contudo, diante da inominável deterioração moral em que estão mergulhados, o meu cuspe seria inócuo; não lavaria nada.

Devo admitir, entretanto, que me fizeram um grande favor: o de me propiciarem vê-los e ouvi-los como realmente são: preconceituosos, convencidos ou convincentes propagadores do ódio e da mentira. Em suma, cúmplices entusiasmados do que há de pior no lastimável cenário escancarado ao mundo desde a tragicômica encenação do último 17 de abril e na farsa que dali para frente cada vez mais se desenvolveu como uma enxurrada de iniquidades.

Caiu a máscara dessa gente que lhes faz companhia, cujos rostos não conseguem ocultar a mais repugnante feiúra moral. Juntando-se ao painel de mentecaptos que a televisão sem qualquer sombra de pudor ou recato revelou para assombro, vergonha ou riso de brasileiros e outros povos do mundo, vocês estarão para sempre ligados. E dessa memória pegajosa nada os livrará.

Não me digam que estão surpresos com os termos desta carta. Posso até imaginar a cena em que estarão diante de seus queridos familiares, tentando justificar a própria conduta. Por isso, explico: não se pode ser tolerante com o delito e o delinqüente quando o crime é permanente e flagrante. Seria como dialogar com o ladrão que invade a nossa casa, rouba nossa liberdade, se apossa do nosso patrimônio e quer se fazer passar por mera visita, com direito a impor o que chama de ordem. A hipocrisia se mostra com sua mais indecente nudez. Não! O diálogo e a compreensão são naturais e necessários entre pessoas que se respeitam no ambiente democrático; não, entre o predador da democracia e sua presa, entre o ofensor e a vítima. As regras de civilidade, próprias da democracia, não socorrem quem contra elas atenta. Contra esses, todas as formas de resistência são necessárias e legitimas. Não há diálogo possível.

Não importa se o arrombador dos pilares da ordem democrática possa eventualmente se valer de uma maioria parlamentar corrompida e mal-cheirosa ou de juízes parciais e desacreditados.Quando a injustiça e a corrupção se fantasiam de direito e moralidade, a justa indignação e a resistência se tornam obrigação.


Por fim, uma brevíssima oração: que Deus não os perdoe; vocês sabem muito bem o que fazem! Mas os mantenha vivos e com saúde pelo tempo suficiente para a reflexão e o mais avergonhado arrependimento.

Até tu, Gilmar, reconhece em Moro um torturador? ou No dos outros é refresco ou Lava-Jato tem vício de origem ou O reconhecimento tardio do estado de exceção

Sanguessugado do Tijolaço


Triste país onde é Gilmar Mendes quem tem de denunciar delírio do MP


ocasoveja


Fernando Brito

É deplorável que o Brasil tenha uma imprensa e uma suprema corte completamente avassaladas diante dos espasmos autoritários que tomaram conta do Ministério Público e do Judiciário desde que fomos colocados sob a autoridade infalível de Sua Majestade Sérgio Moro e sua corte de procuradores e delegados.

Chegamos a uma situação em que é preciso que um personagem como Gilmar Mendes seja único que diz o óbvio, como fez através de Monica Bergamo, na Folha:

Sobre (o vazamento da) a citação a (José Carlos Dias)Toffoli feita pela OAS, ele afirma: “Não é de se excluir que isso esteja num contexto em que os próprios investigadores tentam induzir os delatores a darem a resposta desejada ou almejada contra pessoas que, no entendimento deles, estejam contrariando seus interesses“.

Finalmente alguém  diz o que todos já sabem.

É tão óbvio que até este obtusoblog o escreveu assim que apareceu a edição de Veja onde a capa estampava a “delação” de Leo Pinheiro em que Tóffoli era delatado por crime algum, exceto o de ter revogado uma decisão que a república curitibana queria ver mantida.

Assim como é óbvio que Rodrigo Janot não pode, simplesmente, invalidar uma delação porque vazou, a menos que tivesse a mesma atitude com as dúzias de vazamentos que ocorreram. como registra outra (rara) voz lúcida nos jornais, a de Bernardo Melo Franco:

É a primeira vez que o vazamento de informações é usado como motivo para melar um acordo de delação. As acusações de Delcídio do Amaral, Sérgio Machado e Ricardo Pessoa jorraram à vontade antes de os três se livrarem da cadeia.

Dramático que este país tenha chegado ao ponto de que até o truculento Gilmar Mendes esteja vendo que “já estamos nos avizinhando do terreno perigoso de delírios totalitários”, por conta de uma cruzada histérica, onde, nas palavras dele, “estão defendendo até a validação de provas obtidas de forma ilícita, desde que de boa-fé. O que isso significa? Que pode haver tortura feita de boa-fé para obter confissão? E que ela deve ser validada?”

Onde estão nossos juízes garantistas, aqueles que a história de defesa da legalidade e dos direitos civis serviu-lhes de suporte para chegarem ao cargo de Ministro do Supremo? Ou seu garantismo era apenas gazua para alcançarem o posto de supremos magistrados da nação?

Estão como coelhos, assustados, reduzidos a verificar as formalidades, se foram colados os selos, estampilhas e reconhecimento de firmas que “validam” monstruosidades?

Quem, a esta altura, pode duvidar que os que discordam da fúria moralista tenham seus direitos garantidos, que não estejam sendo vítimas de bisbilhotagem, escutas, armações contidas, por “sugestões amigas”, em delações?

É desanimador ter de dizer que Gilmar Mendes, o tosco ministro a todos desrespeita, seja aquele que pede o respeito aos direitos legais.

O resto gagueja. Isso quando chega a abrir a boca.


PS. Sobre outros vazamentos não terem provocado reações de Janot, registro o cuidadoso levantamento de PatriciaFaerman, no GGN, mostrando que por pelo menos 13 vezes delações vazaram sem reação da PGR.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DUELO DE TITÃS: Toffoli x VEJA (falta de ética e imoralidades: quem leva o prêmio?)

feicibuqui da Maria FernandaArruda
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Dias Toffoli consegue competir com a revista Veja em termos de ausência de ética e prática reiterada de imoralidades.

Os ministros do STF padecem nos tempos atuais tanto na ausência de moral ilibada quanto de saber jurídico.

Mas, Dias Toffoli se destaca: já havia sido réu em dois processos que envolviam imoralidades.

 Foi empossado em 23/10/ 2009, em solenidade presidida pelo então presidente do STF, Gilmar Mendes, com cerca de mil convidados presentes, entre eles, o presidente Lula, o vice-presidente José Alencar, a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, vários governadores, entre eles José Serra (São Paulo), os presidentes do Senado, José Sarney, e da Câmara dos Deputados, Michel Temer.

Essa festa inédita nos anais do STF provou polêmica por conta de um patrocínio de 40 mil reais da Caixa Econômica Federal. Defendido pelo ministro Marco Aurélio Mello, declarou que não estava a par dos fatos, e que a festa não fora de sua iniciativa. Gerou polêmicas.

Em 9 de abril de 2015, o procurador da Fazenda Nacional, Matheus Faria Carneiro, protocolou no Senado Federal o segundo pedido de Impeachment de Dias Toffoli, alegando crimes de responsabilidade por ter participado de julgamento que deveria ter declarado suspeição. O procurador cita o caso específico do Banco Mercantil, onde o ministro contraiu empréstimo em 2011. Posteriormente, Toffoli participou de julgamentos que envolviam o banco.

Dias Toffoli não é flor que se cheire. Quanto a VEJA, sabemos seu caráter de imprensa marrom, que já deveria ter sido processada e tido as portas fechadas e lacradas, inlusive por ser controlada por capital estrangeiro, contrariando a Lei de Imprensa.

Que agora esteja interessada em provocar escândalos em torno de um "ministro" do STF é comportamento coerente com o seu passado enlameado por mentiras e calúnias.

O que há de novo nesse escândalo : juristas protestam.

Protestam em termos veementes, quando calados permaneceram, quando as calúnias eram dirigidas a Lula e a Dilma.


Para tais "juristas", a toga importa mais do que a Justiça. Fato!

O que está desagradando a fôia ditabranda a ponto de expor golpistas?

GilsonSampaio

Todo mundo está careca de saber que a fôia ditabranda dá espaço a colaboradores, digamos progressistas, como cortina de fumaça para disfarçar seu direitismo e se passar como jornal democrático. 

Nada mais falso.

Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, a mim  parece que na situação atual há algo contrariando os donos do jornalixo.

A capa com denúncia contra Serra até hoje não consegui decifrar convincentemente. O jornalixo denunciando seu protegido incondicional? Senha para dar fim na lava-jato foi onde consegui chegar.

Agora, esse artigo de Eleonora de Lucena, na seção Opinião, eviscera o golpe e expõe os golpistas entreguistas e o  próprio jornalixo(!).

via fôia ditabranda

Truculência

Eleonora de Lucena

O Brasil entrou no centro da disputa geopolítica mundial. Tem riquezas naturais, mercado interno, posição estratégica. Construiu economia diversificada e complexa, terreno para grandes empresas nacionais e ambiente potencial para desenvolvimento de tecnologias de ponta.

Os Estados Unidos, acostumados a nadar de braçada no continente, começaram a ver o avanço chinês no que consideram seu quintal. Investimentos, comércio, parcerias com os orientais cresceram de forma exponencial.

Não parece ser coincidência a intenção norte-americana de voltar a ter bases militares na América do Sul (na sempre sensível tríplice fronteira e na Patagônia, que vigia o estreito de Magalhães, curva entre dois mundos). Nem parece ser ao acaso a escolha dos alvos do momento: a Petrobras, as grandes empresas e até o programa nuclear.

Nos últimos anos, o país mostrou zelar por sua autonomia e buscou alianças fora da influência dos EUA. Com China, Rússia, Índia e África do Sul, o Brasil ergueu os Brics e um banco de desenvolvimento inovador.

Aqui, reforçou o Mercosul -alvo imediato de ataque feroz do interino, afoito em mostrar serviço para o Norte e ressuscitar relações subalternas.

Esse contexto maior escapa da verborragia conservadora, ansiosa em reduzir a crise atual a um confronto raso entre supostos corruptos e hipotéticos éticos. Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder.

O que está em jogo é muito mais do que uma simples troca de governo. É a própria ideia de país.
Falar de luta de classes e de projeto nacional deixou alguns leitores ouriçados. Mas, apesar da operação de marketing em curso, os objetivos do atropelo à Constituição são claros: concentrar riqueza, liberar mercados, desnacionalizar a economia, desmantelar o Estado.

O discurso dos sem-voto que se aboletaram no Planalto tenta editar um macarthismo tosco, elegendo um inimigo interno. Agridem os de vermelho (sempre eles!), citados como os culpados de todo o mal, numa manobra conhecida dos movimentos fascistas desde o início do século 20.

Quem se atreve a discordar do rolo compressor elitista é logo tachado de "maluco" pelos replicantes da direita raivosa. Dizem que os que apontam as contradições atuais são saudosos do século 19.

Viúvos do século 19 são os que querem agora surrupiar direitos e restabelecer condições de exploração do trabalho daqueles tempos. Com a retórica de uma suposta modernidade, atacam conquistas sociais e pregam o desmonte da corajosa Constituição de 1988.

Alegam que a matemática não permite que o Estado cumpra suas funções perante os cidadãos. Para eles, a matemática deve servir apenas aos mais ricos e a seus juros maravilhosos. Num giro chinfrim, mandam às favas o tal controle do deficit público: gastam tudo para atender corporações, amigos e ganhar votos.

Com uma cortina de fumaça, arriscam confundir esquerda com autoritarismo. Projetam, assim, no adversário, os seus desejos ocultos. Afinal, o programa dos não eleitos só poderá ser implantado integralmente num regime de força, que censure e elimine a voz dos mais fracos.

As exibições de truculência absurda nos estádios da Olimpíada, proibindo manifestações de "Fora, Temer!" e rasgando os direitos constitucionais de livre manifestação e opinião, parecem ser uma terrível amostra de tempos sombrios pela frente.

O Senado vai enfrentar o julgamento da história.


ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha. Editora-executiva do jornal de 2000 a 2010, escreve livro sobre Carlos Lamarca