quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Réquiem para o PT

Via fôia ditabranda

Com a recusa a ser petistas nos “governos petistas”, mesmo em atitudes tão simples como prestigiar o PT no Congresso, Lula e Dilma fizeram o mesmo por modos e em graus diferentes: Lula conteve os movimentos sociais, Dilma desconheceu-os.

Ensaio da posse de Dilma - Agencia Brasil

Ensaio da posse da presidenta Dilma Rousseff. Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

A festa dos desalentos

Janio de Freitas

O ensaio, na tarde dominical, foi mais autêntico: não tinha povo. Para a posse, o PT providencia a ida de centenas de ônibus, há quem fale em 800 deles, que levem a Brasília forasteiros em milhares suficientes para o que deve ser uma posse presidencial petista.

Mas, a poucas horas dessa posse, o PT ainda luta pelo reconhecimento ao seu direito de uma presença menos inadequada ao novo “governo petista”.

O PT se esvazia. Os “governos petistas” esvaziam o PT.

Os “governos petistas” servem ao PMDB, proporcionam-lhe a nutrição que trouxe de volta o seu predomínio político, perdido quando o governo do PSDB entregou-se ao PFL, o hoje comatoso DEM.

A militância petista míngua, no corpo e no espírito.

Com suas bandeiras relegadas e até contestadas pelos “governos petistas”, nas eleições a militância exibiu a que está reduzida: no seu território, São Paulo, não foi capaz de mobilizar-se, de ser parte efetiva da disputa.

Não para enfrentar as dificuldades paulistas dos candidatos do seu partido à Presidência e ao governo estadual, mas para não ser, como foi, com seu alheamento, a causa fundamental dessas dificuldades.

Os chamados movimentos sociais sentiram os efeitos do desalento petista.

Com a recusa a ser petistas nos “governos petistas”, mesmo em atitudes tão simples como prestigiar o PT no Congresso, Lula e Dilma fizeram o mesmo por modos e em graus diferentes: Lula conteve os movimentos sociais, Dilma desconheceu-os.

Podem ser 800 ônibus, até mais, é provável que lotados. Mas não será o PT viajando neles.

É só aquela lembrança de militância petista, é uma representação da militância que não se moveu nas eleições, porque não foi reconhecida nem reconheceu os “governos petistas”. É uma presença simbólica dos movimentos sociais, imagino que saudosos de si mesmos.

São pessoas que esperariam ouvir falar, quando a eleita falou do novo governo, em ainda mais empregos, em distribuição da renda subindo, subindo, subindo muito mais, e o Minha Casa, Minha Vida se completando, e os empresários sendo chamados a gastar menos bilhões em casas no exterior e investir mais no seu país.

Não foi o que o PT ouviu.

Por certo, grande parte dos petistas e dos componentes de movimentos sociais nem entendeu o que ouviu, nas escolhas ministeriais auspiciosas para a direita e conservadores em geral.

Tudo sugere que a massa dos recém-empregados e dos beneficiados pelo assistencialismo entenderá pelo método prático. É o seu método histórico de aprendizado. Mas são muito diferentes o longo não receber e o perder ganhos. Ainda assim, às vezes dão no mesmo. Às vezes, não.

O que não foi dito quando esperado será dito nos discursos, é o que convém aos discursos dos vitoriosos. E Dilma Rousseff é vitoriosa.

À qual acrescenta uma explicação, para os que não entendem como lida com sua vitória: “Saber vencer é não ter medo de mudar a si próprio, mesmo que isso lhe cause algum desconforto”.

Essa, porém, é a sabedoria conveniente a quem perdeu, não a de quem venceu.

O perdedor é que não deve temer a lição da derrota, e aprender com a reprovação o que deve mudar para vencer.

A sabedoria do vencedor – e, nela, os valores éticos – consiste em ser coerente com o que disse e fez para obter o apoio que lhe deu a vitória.

Bolivarianismo e Brasil - um encontro ainda distante

Via Brasil de Fato

O que realmente se pode depreender da proposta dos conselhos é que eles seriam mesmo um início, uma alfabetização participativa num país marcado pelo autoritarismo.

Elaine Tavares

O tema “bolivarianismo” voltou às manchetes, sempre carregado de preconceitos e desconhecimentos, exatamente como quando Hugo Chávez, usando esse conceito, começou um processo de transformações na Venezuela que acabou repercutindo em toda a América Latina. Chávez era um milico, um membro das Forças Armadas venezuelanas que, desde seus primeiros passos no quartel, aprendeu a buscar na história do seu país as possibilidades de mudança no seu presente. Foi aí que encontrou um dos mais ilustres filhos da Venezuela, Bolívar, também um soldado.

Chávez era ainda um menino quando começou a se preencher com toda a promessa contida no sonho bolivariano de Pátria Grande. Uma América Latina unida, soberana, onde os países se amparassem e construíssem juntos um novo amanhã. Um espaço onde o desejo das gentes falasse mais alto do que o desejo de poder dos governantes.

O próprio Bolívar demorou para consolidar em si mesmo esse pressuposto da Pátria Grande. Quando bem jovem partiu para a Itália em busca de saberes, nem imaginava que iria voltar e fazer uma revolução. Simón poderia ser considerado um “coxinha” da época, filho da aristocracia, cheio da grana, disposto a se empapar de europeísmo. Era maçom e professava as verdades liberais. Mesmo no Monte Sacro, quando jurou, junto com Simón Rodríguez, libertar sua terra do domínio colonial espanhol, era só um branco bem nascido que queria mais liberdades individuais, bem ao gosto da doutrina nascente.

Quando voltou à Venezuela e se integrou as forças de Francisco de Miranda, foi derrotado. E não foi por acaso. Simón era mais europeu que venezuelano. Não havia entendido que sem os índios e os negros, nada lograria. Foi desterrado e encontrou guarida no revolucionário Haiti, dirigido por Petión. O grande general negro foi quem instruiu Bolívar e o jogou nas águas revoltas de uma novidade: uma Venezuela livre, mas também para os negros, os índios, os pobres. Uma Venezuela para todos. Assim, Bolívar voltou outro homem. Seu primeiro ato foi buscar os famosos “llaneros”, os mesmos que lhe impuseram dolorosa derrota no primeiro levante. E, com eles, passou a construir a libertação não só da Venezuela, mas de toda a América hispânica.

Bolívar não teve tempo de ser “bolivariano”. Morreu cedo, com 46 anos, abandonado pelos generais que ele mesmo elevara. Os velhos companheiros não queriam uma “Pátria Grande”, soberana e unida, queriam ser coronéis nos seus quintais. E assim foi. Com o desaparecimento de Bolívar, o sonho da integração solidária, generosa e popular se esvaiu.

Em 1998 Hugo Chávez recolocou as ideias de Bolívar em evidência. Eleito presidente quando toda a estrutura política do país já estava carcomida, ele reergueu a Venezuela inaugurando uma quinta república. De Simón recuperou as propostas de Pátria Grande, unificação e soberania. E, para fazer isso acontecer, aliou-se ao povo empobrecido, desde sempre fora de todas as políticas locais. Com as gentes, criou as famosas “misiones”, que nada mais eram – e são – que espaços de organização popular para aplicação de políticas públicas.

Com aqueles que realmente sofrem as políticas governamentais, Chávez foi conhecendo a realidade e distribuindo as verbas conforme as necessidades. Educação, moradia, saúde, cultura, tudo passou a ser discutido pelas pessoas comuns e elas começaram a definir onde, como e quando as coisas deviam acontecer. Isso não tirou poder da Assembleia Nacional, onde estão os deputados. Pelo contrário. Deu aos legisladores mais claridade para compreender o país, para saber onde deveriam ser aplicadas as políticas públicas e os recursos.

A proposta das missões da Venezuela é parte do que depois passou a ser chamado de “bolivarianismo”. Digo parte porque não é só isso. A participação popular se expressa em vários outros espaços e foi estimulada num longo e conflituoso processo de alfabetização. Assim que essa palavra tão abominada hoje no Brasil tem muito mais de Chávez que de Bolívar, já que Bolívar não viveu para implementar o governo que sonhara. Chávez pode mais. Em 13 anos de governo consolidou esse processo de construção popular com duas vias, governo e povo, povo e governo.

É certo que também na Venezuela essa forma de governar encontrou resistência. Aqueles que, por séculos, encheram seus bolsos com a grana do petróleo, excluindo a maioria da população, não podiam suportar que velhos, negros, jovens, trabalhadores, gente “comum”, passassem a dar palpite no andar das coisas, na aplicação dos recursos,  no uso do lucro petroleiro. Aquilo apareceu como uma aberração à encruada oligarquia, useira e vezeira de governar sozinha, numa espécie de olimpo. A participação popular e a ideia de uma união entre os países era a própria imagem do demônio. Com a ajuda dos Estados Unidos, que também não via com bons olhos essa coisa de pobre pensar que é gente, a elite venezuelana apostou num golpe, perdeu, mas segue ainda buscando desestabilizar o país para que tudo volte como antes. Um pequeno grupo dominando o estado, e os pobres no “seu lugar”.

É importante que se diga que todo o processo venezuelano tampouco é um mar de rosas. Há problemas, há falhas, há erros. Mas, uma coisa é certa. Depois de Chávez a participação popular é uma realidade. E isso muda de forma radical a maneira de fazer política. Quem vive um processo assim não pode sair ileso. E é por isso que apesar de todos os problemas os venezuelanos resistem e seguem tentando encontrar um caminho.

Os conselhos populares no Brasil

No Brasil, uma proposta de conselhos populares, em pleno “dia seguinte” à derrota de uma parte expressiva da oligarquia local, ocupou as páginas dos jornais, as telas de TV e as redes sociais. O decreto Nº 8.243, editado em 23 de maio de 2014 pela presidente Dilma Roussef, foi derrubado na Câmara dos Deputados, numa clara articulação das forças opositoras para mostrar poder. A partir daí, a desinformação nadou de braçada.

O decreto derrubado instituía uma Política Nacional de Participação Social – PNPS, bem como o Sistema Nacional de Participação Social – SNPS, e nele, vinha uma tentativa, ainda tímida, de iniciar a população num processo de alfabetização participativa. Segundo reza o artigo primeiro, a Política Nacional de Participação Social (PNPS) teria como objetivo fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil, na formulação, execução, monitoramento e avaliação de programas e políticas públicas e no aprimoramento da gestão pública.

As instâncias envolvidas seriam a sociedade civil - composta por cidadãos, coletivos, movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações; os conselho de políticas públicas que seriam instâncias colegiadas temáticas permanentes de diálogo entre a sociedade civil e o governo para promover a participação no processo decisório e na gestão de políticas públicas; as comissão de políticas públicas, que seriam responsáveis pelo diálogo entre a sociedade civil e o governo em torno de objetivos específicos, com prazo de funcionamento vinculado ao cumprimento de suas finalidades; a conferência nacional, uma instância periódica de debate, de formulação e de avaliação sobre temas específicos e de interesse público, com a participação de representantes do governo e da sociedade civil, podendo contemplar etapas estaduais, distrital, municipais ou regionais, para propor diretrizes e ações acerca do tema tratado.

Também haveria a ouvidoria pública federal, que cuidaria do controle e participação social responsável pelo tratamento das reclamações, solicitações, denúncias, sugestões e elogios relativos às políticas e aos serviços públicos, prestados sob qualquer forma ou regime, visando aprimorar a gestão pública; a  mesa de diálogo, um mecanismo de debate e de negociação com a participação dos setores da sociedade civil e do governo diretamente envolvidos no intuito de prevenir, mediar e solucionar conflitos sociais; o fórum interconselhos, para o diálogo entre representantes dos conselhos e comissões de políticas públicas, no intuito de acompanhar as políticas públicas e os programas governamentais, formulando recomendações para aprimorar sua intersetorialidade e transversalidade.

Outro elemento seria a audiência pública, participação de caráter presencial, consultivo, aberto a qualquer interessado, com a possibilidade de manifestação oral dos participantes, cujo objetivo é subsidiar decisões governamentais; a consulta pública, outra maneira de participar em prazo definido, de caráter consultivo, aberto a qualquer interessado, que visa a receber contribuições por escrito da sociedade civil sobre determinado assunto, na forma definida no seu ato de convocação; e o ambiente virtual de participação social - mecanismo de interação social que utiliza tecnologias de informação e de comunicação, em especial a internet, para promover o diálogo entre administração pública federal e sociedade civil.

Ou seja, tudo o que as pessoas reivindicam e que também foram palavras de ordem dos protestos de junho: formas claras e reguladas de participação, elemento básico da democracia e nada muito diferente do que propõem as premissas liberais. É o reconhecimento da participação social como um direito que vai além do voto, é o início da construção de uma expressão da autonomia popular. Com essa política o governo pretendia dar concretude aos pressupostos mais elementares da vida republicana, tais como a solidariedade, a cooperação, o direito à diversidade, a informação, autonomia, e ampliação dos mecanismos de controle por parte da maioria da população. Uma democracia mais participativa, fora da lógica da representação que, hoje, na verdade, apenas representa a grupos economicamente fortes capazes de eleger deputados e senadores para a defesa de seus interesses. Uma boa olhada no Congresso recém eleito podemos observar que foi formada uma gigantesca bancada de representação do agronegócio e do latifúndio, uma grande bancada evangélica, e uma bancada mínima representando os interesses dos trabalhadores.

De certa forma, a proposta do governo muito pouco avança em relação aos modelos já existentes como os conselhos de saúde e de educação, por exemplo, e, em nada fere a ordem republicana dos três poderes. Por isso mesmo pouco tem em comum com a proposta bolivariana que está ancorada num poder regulamentado pela constituição que é o Poder Popular. Na Venezuela a república se ampara em cinco poderes distintos, o Legislativo, o Judiciário, o Executivo, o Eleitoral e o Popular, sendo que esse último é o que mais tem força.  Logo, chamar de “bolivariano” o modelo brasileiro é desconhecer completamente o legado de Bolívar e também toda a nova organização política da Venezuela. No Brasil, não existe o Poder Popular constitucionalmente estabelecido e esses conselhos teriam carátermeramente consultivo.

Sendo assim, a demonização dos conselhos pela mídia comercial teria apenas duas causas: ou a completa ignorância dos seus jornalistas e articulistas - o que não é crível - ou apenas a já conhecida manipulação das informações para a construção de um consenso antipopular, antidemocrático e antilibertário, baseado na mentira. E, com certeza, a segunda opção é a que está valendo. Mesmo com o governo do PT se rendendo aos reclamos da velha direita, promovendo apenas alguns ajustes via políticas públicas, a insaciável elite nacional não admite qualquer aprofundamento de participação popular porque isso poderia colocar em andamento processos que eles podem não controlar.

O que realmente se pode depreender da proposta dos conselhos é que eles seriam mesmo um início, uma alfabetização participativa num país marcado pelo autoritarismo. Mas, nada que pudesse, por enquanto, colocar em questão a autoridade do legislativo nacional. Seria necessário uma nova Constituição, com a demarcação de um Poder Popular, tal qual aconteceu na Venezuela, para que essa proposta pudesse apenas se aproximar do chamado "bolivarianismo". Isso porque qualquer pessoa de média inteligência sabe que os processos vividos em uma país não podem nem devem ser transplantados a outro. Cada país tem sua própria história, formação e tradição e é desse caldo que brotam as propostas de transformação.

O Congresso Nacional derrubou a proposta dos conselhos, não porque não saiba tudo isso que expliquei acima. É que os deputados, na sua maioria, representam interesses muito específicos, ligados a classe dominante e qualquer proposta que represente um mínimo passo em direção a uma soberania popular lhes aparece como assustadora. O que é óbvio. estão defendendo a si mesmos. Se o povo decidir eles perdem os privilégios de serem os capachos dos que mandam. Além disso, era preciso mostrar que eles seguem no comando e que o governo precisará rebolar para costurar acordos e consensos.

O ódio aos conselhos populares que se registra numa parte da classe média também não é novidade. Historicamente a classe média sempre pendeu para o lado conservador, buscando conservar os ganhos que o sistema meritocrático, por vezes, se lhes oferece. Há uma construção histórica de ódio aos pobres e muitas vezes até aqueles que vêm das camadas subalternas assumem esse ódio como uma tentativa de negar quem são.

O fato é que a proposta petista tem pouco de Bolívar e pouco de Chávez. Ainda não é uma proposta socialista ou coisa que o valha. É só a regulamentação do que já existe com a proposta singela de um início de alfabetização participativa. Um mínimo do que os velhos liberais apregoavam como válido e bom para a democracia. Mas, para o reacionarismo nacional, é importante que se apague imediatamente essa chama, para que não venha o "demônio comunista". Um discursos rançoso, atrasado, mas que não deve jamais ser minimizado. Na classe dominante, o medo do povo pobre é natural e necessário. Porque os pobres são muitos e podem mudar a face de um país, desde que compreendam a força que têm. Por isso a guerra midiática e cultural através das palavras. É preciso derrotar a maioria também no campo semântico, para que as palavras que andam sejam demonizadas. É assim que mesmo os empobrecidos começam a odiar a si mesmos.

Elaine Tavares é jornalista.

O império e a legitimação da tortura

Via O Diário.info

Atilio Boron

O Relatório do Comité de Inteligência do Senado dos Estados Unidos descreve de forma minuciosa as diferentes “técnicas de interrogatório” utilizadas pela CIA. Trata-se da prática sistemática, bárbara e cega da tortura. Com toda a cobertura política, jurídica e mediática do poder de Estado. Mas, por horrível que seja a informação que o Relatório disponibiliza, ele está longe de conter toda a verdade, ou de tirar as devidas conclusões do que relata.

 

ALAI AMLATINA, 12/12/2014.- A publicação do Relatório do Comité de Inteligência do Senado dos Estados Unidos dado a conhecer há dias descreve de forma minuciosa as diferentes “técnicas de interrogatório” utilizadas pela CIA para extrair informação relevante na luta contra o terrorismo. O que foi tornado público é apenas um resumo, de umas 500 páginas, de um estudo que contém umas 6.700 e cuja primeira e rápida leitura produz uma sensação de horror, indignação e repugnância como poucas vezes experimentou quem escreve estas linhas. [1] Os adjectivos para qualificar esse lúgubre inventário de horrores e atrocidades não conseguem transmitir a patológica desumanidade do que ali se conta, apenas comparável às violações dos direitos humanos perpetradas na Argentina pela ditadura cívico-militar, ou as que no quadro do Plano Condor se consumaram contra milhares de latino-americanos nos anos de chumbo.

O Relatório é susceptível de múltiplas leituras, que animarão seguramente um significativo debate. Para começar digamos que o simples facto da sua publicação produz um dano irreparável para a pretensão estado-unidense de se erigir em campeão dos direitos humanos, sendo que uma agência do governo, com linha directa para a Presidência, perpetrou estas atrocidades ao longo de vários anos com o aval – caso de George W. Bush - ou a displicente indiferença do seu sucessor na Casa Branca.

Obviamente, se já antes os Estados Unidos careciam de autoridade moral para julgar terceiros países por presumíveis violações dos direitos humanos, depois da publicação deste Relatório o que Barack Obama deveria fazer seria pedir perdão à comunidade internacional (coisa que desde logo não fará, ou não o deixarão fazer, como o demonstrou o escândalo da espionagem às comunicações), interromper definitivamente a publicação dos relatórios anuais sobre a situação dos direitos humanos e do combate al terrorismo onde se qualifica o comportamento de todos os países do mundo (excepto os Estados Unidos, juiz infalível que não pode ser julgado) e assegurar-se de que práticas tipificadas como torturas pelo Relatório senatorial não apenas não voltarão a ser utilizadas pela CIA ou pelas forças regulares do Pentágono como também pelo número crescente de mercenários alistados para defender os interesses do império, o que igualmente não tem demasiada probabilidade de ocorrer.

Precisamente, a ideia de nutrir cada vez mais as forças do Pentágono com mercenários recrutados pelos seus aliados no Golfo Pérsico (Arabia Saudita, Emiratos, Qatar, etc.) ou por companhias especializadas, como Academi (a tenebrosa ex Blackwater) é libertar o governo dos Estados Unidos de qualquer responsabilidade por violações dos direitos humanos que estes “contratistas”, como eufemisticamente são denominados, possam cometer. Ao “terceirizar” deste modo as suas operações militares no exterior a aplicação de torturas contra presumíveis, ou verdadeiros, terroristas realiza-se à margem do que a Convenção de Genebra estipula, ao estabelecer que os prisioneiros de guerra devem ter garantias jurídicas de defesa e ser tratados de modo humanitário. Os mercenários ou “contratistas”, pelo contrário, são bandos contratados por Washington para operações especiais, actuando à margem de qualquer lei. Não têm prisioneiros mas “detidos”, que podem manter sob custódia todo o tempo que considerem necessário, negando-lhes o direito à defesa e deixando-os à mercê dos maus-tratos ou das torturas que os seus captores decidam aplicar-lhes, gozando para isso de total impunidade.

Em segundo lugar, o relatório evita considerar que a tortura foi legalizada pelo Presidente George W. Bush. Tal como apontámos num estudo publicado em 2009, a tortura como uma prática habitual vinha sendo utilizada desde há muito tempo pela CIA e outras agências do governo federal. No referido texto dizíamos que “a partir dos atentados de 11 de Setembro e da nova doutrina estratégica estabelecida pelo presidente George W. Bush no ano seguinte (“guerra contra o terrorismo”, “guerra infinita”, etc.) as torturas a prisioneiros, sejam estes supostos combatentes inimigos ou simples suspeitos, tornaram-se prática habitual nos interrogatórios, tal como também os tratos desumanos ou degradantes infligidos às pessoas sob custódia das tropas estado-unidenses. A fim de evitar as consequências legais que decorrem desta situação Washington adoptou como uma das suas políticas a transferência dos seus prisioneiros para prisões situadas em países onde a tortura é legal ou nos quais as autoridades não têm interesse algum em impedi-la, sobretudo se se trata de favorecer os planos estado-unidenses; ou enviá-los para o Afeganistão, Iraque ou a própria base norte-americana de Guantánamo, onde se pode interrogar brutalmente qualquer prisioneiro sem qualquer tipo de acompanhamento judicial e sem a presença de observadores incómodos como, por exemplo, a Cruz Vermelha Internacional.” [2]

Para assombro de próprios e alheios, mesmo depois de ter sido dado a conhecer o Relatório do Senado o porta-voz da Casa Branca fez apelo a ridículos eufemismos quando transmitiu o repúdio do presidente Obama pelo que nele é revelado: condenou os “duros e atrozes interrogatórios” praticados pela CIA, evitando utilizar o termo correcto para definir o que segundo a Convenção Contra a Tortura e outros Tratos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes é pura e simplesmente isso: tortura. No seu artigo primeiro a Convenção estabelece que “Se entenderá pelo termo ‘tortura’ todo acto pelo qual se inflija intencionadamente a uma pessoa dores ou sofrimentos graves, sejam físicos ou mentais, com o fim de obter dela ou de um terceiro informação ou uma confissão; de a castigar por um acto que haja cometido, ou se suspeite que tenha cometido; ou de intimidar ou coagir essa pessoa ou outras, ou por qualquer razão baseada em qualquer tipo de discriminação, quando as referidas dores ou sofrimentos sejam infligidos por um funcionário público ou outra pessoa em exercício de funções públicas, sob instigação sua, ou com o seu consentimento ou aquiescência. Não se considerarão torturas as dores ou sofrimento que sejam consequência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam inerentes ou decorrentes destas.” [3]

De acordo com esta definição é impossível sustentar que práticas tais como a “reidratação rectal”, a “hipotermia”, a “alimentação rectal”, suspender a vítima de uma barra, ameaçar violar a sua esposa ou filhas, a proibição de dormir ou o “submarino” (“waterboarding”, como se lhe chama em inglês) aplicadas cruelmente durante horas y dias para interrogar suspeitos de terrorismo não constituem flagrantes casos de tortura. [4]

Não obstante tudo isto, em Março de 2008 o presidente Bush vetou uma lei do Congresso que proibia a aplicação do “submarino” a presumíveis terroristas, dando cumprimento a um anúncio prévio no qual advertia que vetaria qualquer peça legislativa que impusesse limitações ao uso da tortura como método válido e legal de interrogatório. Em resposta aos seus críticos a Casa Branca disse que seria absurdo obrigar a CIA a respeitar os preceitos estabelecidos pela legislação internacional porque os seus agentes não se confrontavam com combatentes legais, forças regulares de um estado operando em conformidade com os princípios tradicionais, mas com terroristas que actuam com total desprezo por qualquer norma ética. Deste modo Bush e a sua pandilha tentaram justificar a violação permanente dos direitos humanos sob o pretexto do “combate ao terrorismo”. Não apenas isso: o seu Secretario da Defesa, Donald Rumsfeld, autorizou explicitamente em Dezembro de 2002 a utilização de pelo menos nove “técnicas de interrogatório” que só em virtude de um perverso eufemismo podem deixar de ser qualificadas como torturas. O interessante do caso é que os Estados Unidos aderiram em 1994 à citada Convenção (que conta com 145 estados participantes) mas tratou cuidadosamente de não ratificar o Protocolo que outorga faculdades de controlo ao Comité da Tortura das Nações Unidas. Por outras palavras, a simples adesão à Convenção foi uma jogada demagógica, carente de consequências práticas na luta contra a tortura.

O horror que o Relatório desperta não deveria levar-nos a pensar que ali se encontra toda a verdade. Embora destrua o argumento central da CIA no sentido de que essas “duras tácticas de interrogatório” eram necessárias para prevenir novos ataques terroristas contra os Estados Unidos, o certo é que a estimativa do número de detidos e torturados se situa muito abaixo daquilo que outras fontes documentais permitem inferir. No Relatório, por exemplo, diz-se que “a CIA manteve detidas 119 pessoas, 26 das quais apreendidas ilegalmente”. Entretanto, é sabido que para perpetrar estas violações os direitos humanos Estados Unidos instalaram numerosas prisões secretas na Polonia, Lituânia, Roménia, Afeganistão e Tailândia; e contaram com a colaboração de países como Egipto, Síria, Líbia, Paquistão, Jordânia, Marrocos, Gambia, Somália, Uzbequistão, Etiópia e Djibouti para realizar os seus interrogatórios, ao mesmo tempo que algumas exemplares “democracias” europeias, como Áustria, Alemanha, Bélgica, Chipre, Croácia, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Irlanda, Itália, Lituânia, Polonia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia e Suécia, bem como outros países extra-europeus, colaboraram em facilitar a entrega e a transferência de prisioneiros sabendo o que aguardava essas pessoas. [5] O número de vítimas supera largamente as 119 do Relatório. Tenha-se presente que segundo Human Rights First, uma organização não-governamental estado-unidense, o número total de detidos que passaram pela prisão de Guantánamo desde a sua inauguração é de 779 pessoas. [6] Por outro lado, um relatório especial das Nações Unidas assegura que só no Afeganistão a CIA deteve 700 pessoas, e no Iraque 18.000, todos sob a acusação de “terroristas”. [7] Nem falemos do ocorrido no campo de detenção de Abu Ghraib, tema que examinámos em detalhe no nosso livro. [8]

Para finalizar, três conclusões. Primeiro, o Relatório põe o acento na inefectividade das torturas omitindo imprescindíveis considerações de carácter ético ou político. Das vinte conclusões que são apresentadas nas primeiras páginas do Relatório só uma, a vigésima, expressa alguma preocupação marginal sobre o tema ao lamentar-se que as torturas aplicadas pela CIA “provocaram danos à imagem dos Estados Unidos no mundo ao mesmo tempo que ocasionaram significativos custos monetários e não-monetários.” [9] Não existe nenhuma reflexão sobre o que significa para um país que presume orgulhosamente de ser uma democracia - ou a mais importante democracia do mundo, segundo alguns dos seus mais entusiastas publicistas – para além de “líder do mundo livre”, incorrer em práticas monstruosas que só podem qualificar-se como próprias do terrorismo de estado ao estilo do que conhecemos no passado em América Latina e no Caribe. A tortura não degrada e destrói só a humanidade de quem a sofre; também degrada e destrói o regime político que ordena executá-la, a justifica ou a consente. Por isso é que este novo episódio demonstra, pela enésima vez, o carácter de farsa da “democracia norte-americana”. Daí que a expressão que melhor convém para retratar a sua verdadeira natureza é a de “regime plutocrático.” Regime, porque quem manda é um poder de facto, o complexo militar-financeiro-industrial que ninguém elegeu e que não presta contas a ninguém; e plutocrático, porque o conteúdo material do regime é a colusão de gigantescos interesses corporativos que são, como há dias anotou Jeffrey Sachs, quem investe centenas de milhares de milhões de dólares para financiar as campanhas e as carreiras dos políticos e dos lobbies que se movimentam a favor dos sus interesses e que logo obtêm como compensação dos seus esforços benefícios económicos de todo o tipo que se medem em milhares de milhões de dólares. Tudo esto, aliás, justificado por uma decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que legalizou os donativos ilimitados que, na sua enorme maioria, podem beneficiar de anonimato. [10]

Segundo, o Relatório abstém-se de recomendar a responsabilização legal dos responsáveis pelas monstruosidades perpetradas pela CIA. Ante uma descrição que parece inspirada nas mais horríveis cenas do Inferno de Dante, os autores abstêm-se de recomendar ao Premio Nobel da Paz que faça intervir a justiça no assunto. Mas o pacto de impunidade está consagrado, e ante a inacção da Casa Branca os torturadores e os seus numerosos cúmplices, dentro e fora da Administração Bush, saíram a apoiar abertamente as torturas e a acusar os redactores do Relatório de parcialidade ideológica, tudo esto por entre uma desaforada exaltação do chauvinismo estado-unidense e uma cuidadosa ocultação das mentiras utilizadas por Bush e sua pandilha, desde as que dizem respeito ao que foi que realmente ocorreu no 11-S, onde há mais incógnitas do que certezas, até à acusação ao Iraque de possuir armas de destruição massiva. Dado que Obama deu a entender que não processará os responsáveis materiais e intelectuais destes crimes a conclusão é que não só se legaliza mas que também se legitima e se aprova a tortura, talvez como um “mal necessário” mas justificado. Perante isto seria bom que algum tribunal do estrangeiro, actuando segundo o princípio da jurisdição universal em matéria de delitos de lesa-humanidade, tratasse de fazer justiça ali onde o regime norte-americano ampara a impunidade dos criminosos e consagra a perversão e a maldade como uma virtude.

Terceiro e último: a deplorável cumplicidade da imprensa. Todos sabiam que a CIA e outras forças especiais do Pentágono têm incorporada a tortura de prisioneiros como um SOP (“standard operating procedure”, um procedimento estandardizado de operação no jargão militar dos serviços norte-americanos), como foi dito antes. Mas os grandes media - não apenas os pasquins raivosamente direitistas da cadeia de Rupert Murdoch e muitos outros desse tipo, dentro e fora dos Estados Unidos – conspiraram, voluntariamente ou não, é irrelevante, para não chamar a coisa pelo seu nome e para utilizar em vez disso todo o género de eufemismos que permitiram suavizar a noticia e manter enganada a população norte-americana. Para o Washington Post, o New York Times e a Agência Reuters eram métodos de interrogatório “brutais”, “duros” ou “atrozes”, mas não torturas; para a cadeia televisiva CBS eram “técnicas extremas de interrogatório” e para Candy Crowley, a chefe dos correspondentes de política da CNN em Washington, eram “torturas, conforme quem as descreva”. Para o canal de noticias MSNBC (fusão da Microsoft com a NBC) eram, segundo Mika Brzezinski, filha do estratega imperial Zbigniew Brzezinski e, pelo visto, fiel discípula dos ensinamentos do seu pai, “tácticas de interrogatório utilizadas pela CIA”. É esta a gente que é depois apontada pelos políticos e pelos intelectuais da direita para nos dar lições de democracia e de liberdade de imprensa na América Latina e no Caribe. Seria bom registar a sua cumplicidade com estes crimes e a sua absoluta carência de virtudes morais para dar lições seja a quem for.

Notas

[1] O Relatório pode ser consultado no seguinte endereço: https://es.scribd.com/doc/249652086/Senate-Torture-Report

[2] Cf. Atilio A. Boron e Andrea Vlahusic, El Lado Oscuro del Imperio. La Violación de los Derechos Humanos por Estados Unidos (Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2009), pp. 43-44.

[3] Ibid., p. 44.

[4] Sobre o tema da tortura o livro de Roberto Montoya, La impunidad imperial. Como os Estados Unidos legalizaram a tortura e “blindaram” os seus militares, agentes e mercenários face à justiça (Madrid: La esfera de los libros, 2005) é uma fonte absolutamente imprescindível pela meticulosidade da sua investigação e a sólida fundamentação dos casos examinados. Particularmente instrutiva é a sua análise das 35 “técnicas de interrogatório”, as quais, como dizem os membros de uma Comissão ad-hoc convocada pelo Secretario da Defesa Donald Rumsfeld, poderiam ter como resultado “que pessoal estado-unidense envolvido no uso dessas técnicas pudesse ser em outros países objecto de processos por violação dos direitos humanos ou que pudesse ser entregue a instâncias internacionais, como o Tribunal Penal Internacional. Isto teria impacto em futuras operações ou deslocações ao exterior desse pessoal.” Cf. Montoya, op. cit, pp. 130-134. Dados mais específicos sobre as “técnicas de interrogatório” encontram-se em http://globalsecurity.org/intell/library/policy/army/fm/fm34-52

[5] “¿Que países colaboraram com o programa de torturas da CIA”, relatório elaborado sobre a base de documentação recolhida pela American Civil Liberties Union e pela Open Society Justice Initiative, e publicado por La Nación (Buenos Aires) em 10 de Dezembro de 2014. Ver http://www.lanacion.com.ar/1751052-que-paises-colaboraron-con-el-programa-de-torturas-de-la-cia

[6] http://www.humanrightsfirst.org/sites/default/files/gtmo-by-the-numbers-2014-11-24.pdf

[7] Cf. “Preliminary Findings on Visit to United States by Special Rapporteur on Human Rights and Counter-terrorism”, May 29, 2007, em El Lado Oscuro, op. cit., pp. 55-56.

[8] El lado oscuro, op. cit., pp. 47-48

[9] Relatório, op. cit., pg.16.

[10] “Understanding and overcoming America’s plutocracy”, Huffington Post, 6 Novembro 2014.http://www.huffingtonpost.com/jeffrey-sachs/understanding-and-overcom_b_6113618.html

- Dr. Atilio Boron, director del Centro Cultural de la Cooperação Floreal Gorini (PLED), Buenos Aires, Argentina. Premio Libertador al Pensamento Crítico 2013. www.atilioboron.com.ar Twitter: http://twitter.com/atilioboron Facebook:http://www.facebook.com/profile.php?id=596730002

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O tempo não para

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

E eis que vem um ano novo, embora nada de novo venha... Nos tempos antigos, os povos celebravam a cada estação. Havia o tempo de plantar, de colher, de descansar e de amar. Em cada equinócio e solstício se dançava e festejava, cantando com os deuses, sempre muitos...

Então vieram outras crenças, outros modos de vida, veio a dominação da igreja, um deus único, as festas piedosas... As gentes esqueceram da alegria, a simples e doida alegria de se estar vivo.

Neste primeiro de ano eu desejo que todos possam recuperar essa antiga tradição, de se celebrar em cada momento da vida, de se cantar aos deuses, aos tantos deuses que por aí circulam no coração das gentes. Essas nossas divindades inventadas pelo nosso medo e pela angústia de se saber mortal...

No calendário romano é o deus Jano que abre a fieira de deuses, o deus com duas faces, o guardião dos portões. O deus que é sombra e luz, verdade e mentira, amor e ódio, início e fim, um deus dialético, mesclado de tudo o que é humano.

Aqui na nossa Abya Yala celebra-se com Inti, o deus sol, e com outros tantos das mais variadas culturas. Os que não precisam de deuses também celebram o recomeço de um novo ciclo. Tudo é motivo para  festa e também, como nos tempos antigos, ainda se baila nos equinócios e solstícios. É só uma celebração, uma orgiástica celebração desta vida que temos, para a qual somos chamados a plantar, colher, descansar e amar. Agora é verão, puro verão, tempo de amar...

Vem o novo ano, mas o tempo não para...Em 2015 nada vai mudar se não nos pusermos a caminho, porque a estrada se faz assim, ao andar... Então, eu os convido ao borbulhar da champanhe, ao doce da cana, ao perfume do vinho ou ao simples gosto da água pura. Eu os conclamo para o ritualístico momento do primeiro momento dos restos de nossas vidas, neste primeiro de janeiro e em cada amanhecer de todos os dias.

Que venham as dádivas, os terrores, os risos e as lágrimas. Nós enfrentaremos com riso, prazer e luta.!!

SEUS PROBLEMAS ACABARAM! DISPENSE O RIVOTRIL.

feicibuqui Maringoni Gilberto

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!
DISPENSE O RIVOTRIL.
Você está descontente com o novo ministério?
Não entendeu a jogada genial de escolher Levy, Katia Abreu e George Hilton para fazer uma política de esquerda radical?
Está deprimido?
Não sabe de nada, cristão.
Veja porque:

- Achou ruim Joaquim Levy na Fazenda?
SAIBA QUE COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Chateado com Katia Abreu no gabinete?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

Está dizendo que a presidente mentiu e que tudo não passa de um estelionato eleitoral?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

Não gostou das mudanças no seguro-desemprego e nas pensões?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Está escandalizado com os aumentos dos juros?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Assustou-se com Cid Gomes na Educação e Aldo Rebelo na C&T?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Não entende como o PT fez oposição a Kassab na prefeitura de SP e agora o chama de companheiro?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Está puto porque a presidente vai engavetar o relatório da Comissão da Verdade?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Acha que o governo foi para a direita?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

E SABE POR QUE COM AÉCIO SERIA PIOR?
Porque num governo Aécio, ele jamais poderia ser nomeado Ministro.
No governo Dilma, ele pode.
Aliás, tem tudo a ver... 
Isso acalmaria o PSDB e consolidaria a maior base aliada do Ocidente.

Repita este mantra dez vezes toda manhã, antes de lavar o rosto e tenha um dia pleno de luz e felicidade.
Os blogueiros governistas fazem isso antes da higiene matinal e dispensaram o Rivotril.
Veja como eles escrevem alegres e satisfeitos qualquer coisa a favor do governo, com qualquer argumento.
Se colar, colou!

Faça como eles!
Viva exultante e sempre exclame:
COM AÉCIO SERIA PIOR!

Você está descontente com o novo ministério?
Não entendeu a jogada genial de escolher Levy, Katia Abreu e George Hilton para fazer uma política de esquerda radical?
Está deprimido?
Não sabe de nada, cristão.
Veja porque:

- Achou ruim Joaquim Levy na Fazenda?
SAIBA QUE COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Chateado com Katia Abreu no gabinete?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

Está dizendo que a presidente mentiu e que tudo não passa de um estelionato eleitoral?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

Não gostou das mudanças no seguro-desemprego e nas pensões?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Está escandalizado com os aumentos dos juros?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Assustou-se com Cid Gomes na Educação e Aldo Rebelo na C&T?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Não entende como o PT fez oposição a Kassab na prefeitura de SP e agora o chama de companheiro?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Está puto porque a presidente vai engavetar o relatório da Comissão da Verdade?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

- Acha que o governo foi para a direita?
COM AÉCIO SERIA PIOR!

E SABE POR QUE COM AÉCIO SERIA PIOR?
Porque num governo Aécio, ele jamais poderia ser nomeado Ministro.
No governo Dilma, ele pode.
Aliás, tem tudo a ver...
Isso acalmaria o PSDB e consolidaria a maior base aliada do Ocidente.

Repita este mantra dez vezes toda manhã, antes de lavar o rosto e tenha um dia pleno de luz e felicidade.
Os blogueiros governistas fazem isso antes da higiene matinal e dispensaram o Rivotril.
Veja como eles escrevem alegres e satisfeitos qualquer coisa a favor do governo, com qualquer argumento.
Se colar, colou!

Faça como eles!
Viva exultante e sempre exclame:
COM AÉCIO SERIA PIOR!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Deus é gay?

Via Brasil de Fato

É preciso reler o Evangelho pela óptica dos gays, como já se faz pela óptica feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas ópticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).

Frei Betto

Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, reunido no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.

Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica, sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumirem como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por uma culpa que não têm?

É preciso reler o Evangelho pela óptica dos gays, como já se faz pela óptica feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas ópticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).

A unidade na diversidade é uma característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, e não um só: quatro enfoques distintos sobre o mesmo Jesus.

Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única óptica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela óptica dos pobres, causa ainda incômodo àqueles que consideram a óptica eurocentrada como universalmente ortodoxa.

Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”

Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado.

A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.

A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.

Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E se somos capazes de nos amar uns aos outros “Deus permanece em nós.”

Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os próprios cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça especial de ser a primeira testemunha de sua ressurreição.

Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” – aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem”, abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.

Sobretudo, Jesus ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. Esta a proposta dos fariseus e a rota de Sísifo. É nos entregando ao amor de Deus, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à sua Palavra.

Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel à Maria e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

O Petrolão e os outros escândalos abduzidos pelo noticiário

Via RedeBrasilAtual

Sem reforma política e sem veto do dinheiro de empresas para campanhas, as prisões de envolvidos no escândalo da Petrobras não impedirão que mais escândalos ocorram já nas próximas eleições

Mauro Santayana

RdB 87

Reforma política é tema recorrente na Revista do Brasil

Nas últimas semanas, o Brasil tem vivido sob o impacto da Operação Lava Jato, que, em torna da qual o noticiário, na busca de uma associação ao chamado “mensalão”, batizou de Petrolão. Enquanto se eleva esse novo escândalo ao posto de "o maior da história", relegam outros episódios aos rodapés, os lançam um imenso Triângulo das Bermudas, o reduzem aos pedacinhos pelas lâminas de Freddy Krueger, os abduzem feito obra de alienígenas.

Esse é o caso, por exemplo, do "mensalão do PSDB", perpetrado, de forma pioneira, com a ajuda do conhecido Marcos Valério, durante o governo do senhor Eduardo Azeredo, em Minas Gerais.

Esse é o caso do escândalo do Banestado, de desvio de mais de R$ 100 bilhões para o exterior, no qual foram indiciados vários personagens ligados ao governo Fernando Henrique Cardoso, incluído o senhor Ricardo Sérgio de Oliveira, "arrecadador" de recursos de campanhas do PSDB, perpetrado, entre 1996 e 2002, também no Paraná, com a ajuda do mesmíssimo "doleiro" Alberto Youssef do atual escândalo da Petrobras.

Esse parece ser também o caso, do Trensalão do PSDB de São Paulo, que, apesar de ter tido mais de R$ 600 milhões das empresas envolvidas bloqueados pela justiça no dia 13 de dezembro, parece ter sido coberto por um Manto da Invisibilidade digno de Harry Potter, do ponto de vista de sua repercussão.

Seria ótimo se – hipocrisias à parte – o problema do Brasil se resumisse apenas a uma briga entre "bonzinhos" e "malvados".

Está claro que temos aqui, como ocorre em muitíssimos países, bandidos recebendo propinas no desvio de verbas públicas, atuando como "operadores" e facilitadores no trabalho de tráfico de influência, no superfaturamento e na lavagem de dinheiro e envio de recursos para o exterior.

E claro está também que existem empresários acostumados, com o tempo, a pagar ou a ser extorquidos, a cada obra, a cada licitação, a cada aditivo de contrato, pelos "intermediários" e oportunistas de sempre, e que já sofrem sucessivas paralisações, atrasos e adiamentos nas grandes obras que executam, que ocorrem devido a razões que muitas vezes escondem interesses políticos que nem sempre correspondem aos do próprio país e da população.

E padecemos, finalmente, ainda, da falta de coordenação e entendimento, entre os Três Poderes da República, em torno dos grandes problemas nacionais.

Leis, projetos e obras que são essenciais para o futuro do país, não são discutidas previamente entre Executivo, Legislativo e Judiciário, antes de serem encaminhadas para aprovação e execução, o que acaba levando, nos dois primeiros casos, a relações de pressão e contrapressão que acabam descambando no fisiologismo e na chantagem – e que afetam, historicamente, a própria governabilidade.

Na contramão do que imagina a maioria das pessoas, com algumas exceções, ao contrário dos corruptos e dos "atravessadores", os homens públicos – incluindo aqueles que trabalham abnegadamente pelo bem comum – estão muito mais preocupados com o poder, para executar suas teses, ideias e projetos, ou apenas exercê-lo, simplesmente , do que com o dinheiro.

No embate político, ter recursos – que às vezes chegam de origem nem sempre claramente identificada, pelas mãos de "atravessadores" que se oferecem para "ajudar" – é essencial, para conquistar o poder, na disputa eleitoral, e nele manter-se, depois, ao longo do tempo.

Esse é o elemento mais importante da equação. E ele só começará a ser resolvido se houver uma reforma política que proíba, definitivamente, a doação de dinheiro privado a agremiações políticas e candidatos a cargos eletivos, promova a cassação automática de quem usar caixa dois e aumente a fiscalização do uso dos recursos partidários ainda durante o período de campanha.

A gravidade da situação coloca em risco a imagem da empresas mais importante do país levou. A ponto de a defesa da Petrobras ocupar parte importante do discurso de diplomação da presidenta reeleita. Foi um recado importante de que não está fechando os olhos para a crise e de que tampouco permitirá que setores interessados na fragilização da companhia se dela de locupletem.

Mas por mais que sejam importantes, e impactantes, as provávei prisões dos corruptos envolvidos no escândalo da Petrobras e a recuperação dos recursos desviados, se não for feita uma reforma política, de fato, elas não impedirão que mais escândalos ocorram, no financiamento de novas campanhas, já nas próximas eleições.

VLADIMIR SAFATLE E A UBIQUIDADE SEM MESTRE

feicibuqui do Maringoni Gilberto

A GRANDE ILUSÃO

Um dos passes de mágica preferidos do lulismo consistia em tentar fazer os mesmos atores políticos desempenharem o papel de governo e oposição. Talvez alguns aqui se lembrem do que aconteceu, por exemplo, na visita do ex-presidente George W. Bush ao Brasil. Enquanto Bush fazia um discurso no Palácio do Alvorada ao lado de Lula, afirmando estar feliz por encontrar seu mais importante aliado na América Latina, as ruas das capitais brasileiras eram ocupadas por manifestações contra a presença do presidente norte-americano no Brasil. Manifestações capitaneadas... pelo partido do presidente Lula.

Dessa forma, o lulismo tentava, ao mesmo tempo, fornecer a ação política e a forma de sua crítica, organizando o descontentamento a partir dos limites determinados pelos interesses governistas. O resultado era a paralisia da crítica no interior de um jogo que, invariavelmente, terminava com meras compensações simbólicas.

Agora, vemos o mesmo truque a caminho. Depois de fazer a população engolir um ministério que Dilma roubou da prancheta de projetos de seus adversários, vemos setores do seu partido subir à cena para conclamar a esquerda a "pressionar o governo".

Movimentos sociais combativos e setores da sociedade civil são chamados a "agir a partir das ruas" a fim de recriar a esquerda e influenciar o rumo de um governo capitaneado por Joaquim Levy, Kátia Abreu, Gilberto Kassab e outras pérolas do pensamento socialista brasileiro.

Será uma cena digna do Pai Ubu ver Kátia Abreu a escutar de forma compenetrada reivindicações do MST, ou Kassab fazer o mesmo com o MTST. Tais movimentos são os primeiros a não se deixarem enganar e saber o que tais pessoas representam.

Ou seja, para a pantomima final, não basta nos fazer engolir o argumento cínico do "cálculo desfavorável de correlação de forças", como se ele fosse expressão de realismo político maduro. Faz-se necessário também paralisar toda e qualquer construção real de uma alternativa à esquerda através da organização das vozes dos descontentes no interior do coro dirigido por setores do próprio consórcio governista.

Ao lado da degradação política, há sempre a tentativa de controlar toda insurreição possível cirando hegemonias sobre o menor movimento, fornecendo a eles os limites prévios de suas ações.

Será prova maior da miséria da política brasileira, em especial da esquerda nacional, mostrar a incapacidade de escapar das sístoles e diástoles do lulismo num momento em que seus resultados serão desastrosos.

Pois não se trata de mudar de polo, mas sair do pêndulo e procurar outro movimento.

Financial Times, sobre o trensalão tucano: “Constrange o PSDB”

Sanguessugado do SPressoSP

 

Reportagem do jornal britânico evidencia que a imprensa internacional tem dedicado mais espaço ao esquema de corrupção na Petrobras, mas “outro escândalo de longa data envolvendo o sistema ferroviário suburbano de São Paulo também está chegando a um ponto crítico”

PROPINODUTO

Por Redação

O jornal britânico “Financial Times” publicou uma reportagem nesta segunda-feira (29) em que afirma que a corrupção não pode ser aplicada somente ao Partido dos Trabalhadores. A matéria cita a suposta formação de cartel na compra de trens envolvendo governos do PSDB em São Paulo. De acordo com o veículo, a acusação “constrange o PSDB, que governa o estado de São Paulo há 20 anos”.

A reportagem também evidencia que, ao publicar reportagens referentes ao Brasil, a imprensa internacional tem dedicado espaço ao esquema de corrupção na Petrobras, o que atinge, principalmente, os partidos da base aliada do governo federal. “Mas, ainda que receba menos atenção, outro escândalo de longa data envolvendo o sistema ferroviário suburbano de São Paulo também está chegando a um ponto crítico”, diz o jornal.

Ainda segundo o Financial Times, “o escândalo ferroviário de São Paulo, que poderia se estender por 15 anos de governos do PSDB entre 1998 e 2013, mostra que a corrupção nos contratos públicos é um problema brasileiro, e não um desafio de apenas um único partido”.

Cultura? O que é isso?

Sanguessugado do Miro

Izaías Almada

Ainda tenho viva na memória a lembrança dos dois encontros da candidata Dilma Roussef à reeleição com artistas e intelectuais brasileiros. Um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo. Ambos com os respectivos anfiteatros lotados e mais alguns milhares de pessoas nas ruas em apoio a uma candidatura que vinha sendo ameaçada por uma vitória da direita. Aliás, o mesmo se deu na eleição de 2010, que chegou a contar com a presença de Oscar Niemeyer ainda em cadeira de rodas
Eram milhares de pessoas ligadas às várias atividades artísticas e ao saber, acadêmico ou não, a emprestarem sua solidariedade a uma pessoa que sofria ataques diários da mídia e de seus adversários políticos, numa campanha que fazia vir à tona o ódio de classe.
Reeleita, a presidente, após ligeiro e merecido descanso, se dedicou à formação de um novo ministério, sob bombardeio e pressão da mídia direitista e a grande expectativa de todos aqueles que, acusados de “vagabundos, corruptos e desinformados”, votarem em Dilma e no PT.
Do dia 26 de outubro passado até hoje, dia 29 de dezembro já no final da tarde, uma enorme interrogação se colocou sobre o palácio do Planalto, já que centenas de análises feitas nacional e internacionalmente, ainda não deram conta de “adivinhar” como será o segundo mandado de Dilma Roussef. Tende ao centro? Será mais à esquerda? Favorecerá à direita?
Tarefa difícil mesmo para quem está acostumado à dança das cadeiras na política brasileira. No Brasil, infelizmente, troca-se de partido político e de ideologia como se troca de roupa.
Ministros não são necessariamente indicados e nomeados pelas suas competências ou pela experiência naquela área específica da administração do país. São cotas distribuídas entre os partidos e o presidente, o que - muitas vezes  cria alguns curtos circuitos nas relações institucionais.
Na minha área de atuação, o que chama a atenção é o desapreço com que é tratada a área da cultura, cujo representante é sempre um dos últimos, senão mesmo o último, a ser indicado para o cargo de ministro.
Cultura? O que é isso? Ah, sim, aquele negócio de novelas, música sertaneja, hip-hop, feira de livro e bienais de arte? Claro, claro, vejam aí uma pessoa bem relacionada nessas áreas, se possível alguém ligado às camadas mais populares.
E daqui a quatro anos estaremos todos saltando nos teatros Casa Grande e Tuca e cantando: quem não pula é tucano!

Aldo e o desprezo pelo comnhecimento

Sanguessugado do Cinema & Outras Artes

Maurício Caleiro

O fato de alguém sem conhecimento científico, sem a mínima experiência na área, sem sequer um curso universitário ser nomeado ministro da Ciência e Tecnologia de uma das 10 maiores economias do mundo seria, por si, um fato espantoso.

Atualmente, o perfil mínimo que se espera para tal cargo, em qualquer país decente, é ou o de um gestor científico com décadas de experiência ou o de um acadêmico responsável por pesquisas de monta, em ambos os casos com titulação mínima de doutor.

Mas o Brasil, após 12 anos sob administração petista, tornou-se um país em que, ao contrário do que acontece no resto do mundo, quanto mais qualificada a pessoa, mais risco ela corre de não conseguir emprego.

Cresce de forma exponencial, ano após ano, o número de doutores desempregados – gente que dedicou mais de uma década ao estudo e à pesquisa, fez graduação, mestrado e doutorado, para ao final, já não tão jovem, subsistir em subempregos ou viver o drama do desemprego.

O caso-síntese desse estado de coisas veio a público em um dos debates eleitorais (na Globo), em que a então candidata Dilma, respondendo a pergunta de uma economista de meia idade com doutorado, desempregada, recomendou-lhe que “se reciclasse” fazendo um curso técnico no Pronatec, menina dos olhos da mandatária. Algo como sugerir a um graduado em Engenharia da Computação que aprenda conserto de computador por correspondência.

Aldo Rabelo (PC do B/AL) não sabe consertar computador, não tem curso técnico no Pronatec, graduação, mestrado e muito menos doutorado. Sequer currículo Lattes ele tem. A formação dele é muito pior do que a da economista desempregada alvo da resposta desdenhosa de Dilma. Mas, como recompensa a tanto despreparo, a presidente decidiu nomeá-lo ministro da Ciência e Tecnologia.

Pois, à revelia do que Aldo fará em relaçào a Ciência e Tecnologia, Dilma, cuja alegada prioridade à educação só transcende o discurso no caso do ensino técnico, sabe que pode contar com a fidelidade canina do assessor. Afinal, ele também não entendia nada de Esporte e foi ministro da pasta.

O “novo” ministro, um nacionalista autoritário, é tão ignorante em relação à área sob sua responsabilidade que “faz parte do grupo de pessoas que nega o aquecimento global, um debate que já não faz mais parte da ciência. Comprovadamente, o aquecimento está sim acontecendo, como mostram 10.883 dos 10.885 artigos revisados por pares em climatologia em 2013” - aponta Tulio Baars, em artigo demolidor no Brasil Post.

Fica ainda pior: Aldo demonstra desconhecer a própria metodologia científica aoconsiderar o materialismo diáletico, método forjado por Marx a partir de bases hegelianas, uma “ciência da natureza” - algo que a própria crítica marxista de ponta há tempos revisou.

Isso justifica o temor, ora difundido no universo acadêmico-científico, de que ele venha a sobrepor ideologia à ciência. A dobradinha que fará com seu colega da Educação, Cid Gomes (PMDB/CE), ex-governador que vivia às turras com os professores, é também motivo de constrangimento e preocupação. Abaixo-assinados com milhares de assinaturas vêm circulando em tais ambientes e devem ser remetidos à Presidência.

Os receios se justificam. Há fortes indícios de que a principal função de Aldo, no novo cargo, será repetir a tabelinha que, em 2011, fez com a “Miss Desmatamento” Kátia Abreu (PMDB/TO) – agora sua colega da Agricultura. Na época, os dois atuaram intensamente em prol da votação do projeto de reforma do Código Florestal, a qual visava permitir o cultivo em Áreas de Preservação Permanente, diminuir a conservação da flora em margens de rios e isentar de multas os agricultores desmatadores.

Ou seja, ele deve funcionar como uma especie de cão de guarda junto à comunidade científica. Por um lado, concentrando esforços no sentido de estimular a produção de material de sustentação teórico-metodológica ao modelo predatório de desenvolvimento tão ao gosto de Dilma. E, por outro, retendo financiamentos e boicotando a realização ou a difusãoo de pesquisas que deixem claros e quantifiquem os danos ambientais inerentes a tal modelo.

Sua nomeação ao ministério da Ciência e da Tecnologia é um escárnio. Causa indignação, mas não surpresa, pois é o retrato acabado de um governo que recusa sistematicamente o diálogo, e que não demonstra o mínimo pudor em sacrificar mérito, experiência e qualificação em prol da imposição acrítica e totalitária de seus objetivos. Que, como o caso Petrobras ilustra de forma clara, estão longe de coincidirem com o que seria melhor para o país.

(Foto de Dida Sampaio/AE, retirada daqui)

Aumento das tarifas em SP: Haddad, Alckmin e a sensação de déjà vu

Sanguessugado do Sakamoto

 

Leonardo Sakamoto 

Talvez fosse por algo que colocaram no meu chazinho, talvez pelo cansaço de fim de ano, talvez pela nuvem de poluição tóxica na qual nós paulistanos estamos imersos em boa parte do ano por nossa relação orgásmica com automóveis.

Mas quando li que Fernando Haddad e Geraldo Alckmin pretendem aumentar o valor da passagem de ônibus, metrô e trens em São Paulo, neste início de ano, meus olhos turvaram. Entrei em êxtase! Tive uma visão.

De repente estava preso a um loop temporal, em um dia que sempre recomeçava ao final de si mesmo, me obrigando a viver tudo de novo, como o grande Bill Murray, em O Feitiço do Tempo. O Dia da Marmota, lembram?

Fui transportado para a reunião do Conselho da Cidade de São Paulo, em 18 de junho de 2013, com Haddad se negando a voltar atrás no aumento das passagens de R$ 3,00 para R$ 3,20, apesar dos reiterados pedidos dos conselheiros. E, à noite, a cidade convulsionada de jovens reivindicando isso, trazendo junto uma série de outras pautas. De repente, quando um maluco quebrou vidraças da prefeitura, tudo ficava branco, o dia dava reestartava e toda essa comédia de erros e análise errada de conjuntura se repetia.

Voltei a mim, de repente (nota mental: comprar mais desse chá), a tempo de escrever esse texto.

A Prefeitura vai universalizar a isenção de tarifas para estudantes de escolas públicas, participantes do Prouni ou do Fies. Também não deve aumentar a tarifa para quem use bilhete único diário, semanal e mensal. Diz que o aumento vai afetar uma pequena parcela dos passageiros. Tanto Estado como Prefeitura afirmam que os reajustes serão os menores possíveis.

Parece que o poder público não aprendeu nada com a experiência dos protestos de junho do ano passado. Ou seja, tomar essas decisões, que afetam o direito humano à mobilidade, sem um amplo diálogo com a sociedade. Talvez conte com os meses de férias escolares para diminuir a mobilização. Talvez conte com o pasmo, o pavor e a indignação dos movimentos sociais diante daquele “ministério” (sic) montado por Dilma Rousseff.

A própria administração Haddad realizou uma auditoria com a Ernst&Young que apontou que o montante pago às empresas de transporte poderia ser menor porque elas não cumpririam os contratos. Os dados devem (em tese) guiar os novos editais a serem lançados para redefinir o transporte público no município. Mas, até lá, o cidadão não deveria ser penalizado por conta disso.

Ao mesmo tempo, a Polícia Federal indiciou 33 pessoas, incluindo o presidente e o diretor de operações da CPTM, na investigação do cartel do setor metroferroviário que operou em São Paulo – coisa bizarra como o escândalo federal na Petrobras.

Portanto, o debate está invertido: não é que as passagens estão defasadas. O preço da tarifa já é muito cara e parte disso é responsabilidade do poder público.

Reconhece-se o inegável avanço na criação das faixas exclusivas de ônibus (que aumento sua velocidade) e ciclovias (que dão uma lufada de civilidade por aqui) realizadas pela prefeitura. E mesmo a expansão do sistema de trens pelo governo do estado.

Mas esta não é uma discussão técnica e sim política. O transporte individual motorizado, que polui e engasga a mobilidade urbana, cria problemas para a saúde dos moradores da metrópole parece ser mantido como prioridade quando a tarifa do transporte público e coletivo ganha 50 centavos.

O Movimento Passe Livre já marcou um primeiro protesto para o dia 9 de janeiro, em frente ao Teatro Municipal. Não acredito que as manifestações de rua de 2015 tenham o tamanho das de 2013, exatamente porque essas foram catarses em que muita coisa saiu do armário. Seria necessários tantos elementos juntos para reunir aquelas massas novamente que isso não ocorre toda hora.

Porém, os protestos, independente do tamanho, e – principalmente – o sentimento de estar sendo tungado cada vez que se passar por uma catraca devem ser creditados na conta de Haddad e Alckmin e da falta de visão de política de ambos. Esse é o tipo de coisa que cobra seu preço no médio prazo.

Se aprendéssemos com nossos erros, saberíamos disso. Mas vivemos um único dia, que nunca termina.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Excesso de tecnologia na medicina prolonga sofrimento e desumaniza morte, diz escritora

Via Opera Mundi

Sam Mowe | The Sun Magazine | São Francisco

Katy Butler, jornalista e ativista norte-americana, comenta como mortes dos pais a fizeram repensar atuação da medicina moderna no fim da vida: "perdemos a distinção entre salvar uma vida e prolongar uma morte"

Ronn Aldaman / Flickr

Jornalista acredita que medicalização da morte prejudica qualidade de vida de pessoas idosas ou portadores de doenças terminais

Em 2001, o pai da jornalista Katy Butler sofreu um derrame, aos 79 anos. Um ano mais tarde, médicos e a família decidiram lhe implantar um marca-passo para manter seu coração funcionando, embora o aparelho não contribuísse com o tratamento de sua crescente demência. Em 2007, a mãe de Butler, exausta pelos cuidados com o marido e angustiada com seu sofrimento, pediu à filha que a ajudasse a desligar o marca-passo. Butler concordou e começou uma pesquisa sobre como a medicina moderna mudou a forma como lidamos com o fim da vida.

Em 2010, ela escreveu sobre a morte de seu pai para a The New York Times Magazine. O artigo acabou se tornando o ponto de partida para seu primeiro livro, "Knocking on Heaven's Door: The Path to a Better Way of Death" ["Batendo na Porta do Céu: o Caminho para uma Forma Melhor de Morrer", em tradução livre]. Além de narrar as experiências de sua família com o lento declínio de seu pai, o livro fala sobre a mãe de Butler, que morreu um ano e meio mais tarde, após se recusar a fazer uma cirurgia cardíaca. "Sua morte foi completamente diferente", diz Butler. "Ela permaneceu lúcida até o fim da vida, e morreu da maneira como escolheu, não uma morte planejada por terceiros".

Butler se tornou defensora do movimento “Slow Medicine” [“Medicina Lenta”, em tradução livre], focado na "tomada de decisões sem pressa, em cuidados paliativos e tratamento em prol do conforto, especialmente no que diz respeito ao fim da vida", de acordo com o grupo no Facebook.

Leia a seguir trechos da entrevista em que Butler comenta questões econômicas, políticas e médicas e as difíceis tarefas emocionais envolvidas na morte de uma pessoa querida.

The Sun Magazine: Como o desenvolvimento da medicina moderna transformou nossa experiência da morte?

Katy Butler: A morte costumava ser uma provação espiritual; hoje, ela é uma batalha tecnológica. Fizemos com que um evento doméstico e religioso, no qual o aspecto mais importante era o estado mental da pessoa prestes a morrer, fosse transferido para hospitais e mecanizado, colocando pacientes, famílias, médicos e enfermeiras à mercê da tecnologia. Ainda assim, queremos que a morte seja uma ocasião sagrada.

E quanto às pessoas que não têm crenças religiosas?

Somos uma sociedade de pessoas que estão à procura de algo. Talvez não gostemos da religião organizada, mas queremos posicionar os eventos da vida em um contexto maior, mais significativo. Queremos que a morte seja mais do que simplesmente o fim da vida de alguém. Obviamente, se estou morrendo, isto é uma grande tragédia para mim. Mas bilhões de pessoas já morreram antes de mim e encararam a morte com graus variados de coragem. Um entendimento disto pode ajudar tanto os que morrem quanto os sobreviventes.

E esta noção do sagrado foi minada pela medicina moderna?

Em meados do século 20, houve uma explosão de invenções do pós-guerra: a diálise, o respirador, o ventilador, o desfibrilador, o marca-passo. Inventamos uma série de dispositivos que tanto preveniam a morte súbita quanto, em alguns casos, literalmente traziam as pessoas de volta à vida. Mas quando eliminamos a morte súbita, também eliminamos a morte natural, e perdemos a distinção entre salvar uma vida e prolongar uma morte.

Mas não é bom que tenhamos acesso a tais tecnologias?

Certamente, quando temos uma chance significativa de sobrevivência. Se você ou eu fossemos atingidos por um carro amanhã, nada poderia ser melhor do que a tecnologia médica. Mas se você tem mais de 80 anos, sofre de demência, diabetes e câncer, não. É uma infelicidade que você tenha acesso a estas tecnologias, que conseguem apenas prolongar sua vida para além do ponto em que ela ofereça qualquer prazer ou sentido.

Quando o processo da morte começou para seus pais?

Meu pai tinha 79 anos quando teve seu derrame, e foi devastador. Meu pai não conseguia sequer apertar seu próprio cinto. Minha mãe tinha que escovar seus dentes, vesti-lo, cortar sua comida – tudo. Embora ela fosse uma ótima cuidadora, isso era emocionalmente desgastante para ela. Meu pai era um professor que adorava conversar, e agora ele quase não conseguia terminar uma frase.

Um ano após o derrame, meu pai desenvolveu hérnia. Por causa de uma arritmia, o cardiologista não liberaria meu pai para a cirurgia de correção de hérnia a menos que ele tivesse um marca-passo. Minha mãe era quem tomava as decisões naquele momento, e ela disse sim. Ela obteve menos informações sobre o dispositivo do que quando comprou um carro novo um ano mais tarde.

O marca-passo impediu o caminho mais suave rumo a uma morte natural. Não podemos dizer exatamente quanto tempo ele teria vivido sem o marca-passo, talvez não tivesse feito diferença alguma, mas o cardiologista e nosso clínico geral estimaram que ele teria morrido dois anos após o derrame. Com o marca-passo, ele viveu mais cinco anos e meio. Estes três anos adicionais foram uma espécie de lento declínio, com a situação sempre se agravando.

Se você não tem demência e ganha uns anos de vida a mais por causa de um marca-passo, isso é ruim?

De forma alguma! É uma questão de usar a tecnologia de maneira adequada. Quando a qualidade de vida é alta, as decisões são outras. Apenas quando a qualidade de vida é baixa e piora cada vez mais é que você deve avaliar se a cura não é pior do que a própria doença.

O que podemos fazer para evitar que a morte seja essa espécie de lento declínio?

Precisamos expandir e financiar os cuidados paliativos, que ajudam doentes terminais a tomar decisões médicas e enfatizam a qualidade de vida, em vez da quantidade de anos vividos. É um trabalho de grupo e fornece mais apoio à família, ajudando no controle da dor e no tratamento de sintomas, e menos baseado no que chamo de cirurgias "Ave Maria", realizadas no fim da vida, quando você só pode mesmo contar com um milagre.

Javi Talleda / Flickr

Butler: 'Tecnologia pode prolongar a vida além do ponto em que ela ofereça qualquer prazer ou sentido'

O que são cuidados paliativos?

Cuidados paliativos são fornecidos a qualquer pessoa com uma doença crônica incurável. Eles se concentram na melhoria da qualidade de vida pelo resto de sua vida, tenha você um ou 50 anos pela frente, independentemente de você ter ou não optado por tratamentos para o prolongamento do tempo de vida.

Os cuidados paliativos fazem a morte chegar mais cedo?

Não, na verdade, eles fazem o contrário. Há um estudo no New England Journal of Medicine que mostra que pessoas que recebem cuidados paliativos vivem tanto quanto ou até mesmo mais tempo do que as que estão recebendo tratamento agressivo. É bastante irônico.

A especialização na medicina é parte do problema? O cirurgião cardiovascular quer consertar o coração; o oncologista quer se livrar do câncer, mas ninguém está pensando no paciente como um todo, não é verdade?

Sim. O cardiologista de meu pai pensava estritamente em corrigir o ritmo cardíaco de seu paciente – não estava levando em consideração nem mesmo o coração como um todo – e certamente não pensava no sofrimento de meu pai e de minha mãe. Não somos átomos isolados no espaço. Somos parte de uma teia de relações da existência, e o "paciente" não é apenas um paciente, mas também representa a família que irá sobreviver após sua morte.

Em que medida os sacrifícios exigidos por uma morte postergada devem pesar nas decisões tomadas pela família?

Isto pode chocar muita gente, porque somos parte de uma cultura individualista, mas eu acho que toda a família deve ser vista como um paciente.

Há algo realmente errado com o sistema que temos hoje, em que o plano de saúde paga por cirurgias avançadas para manter as pessoas vivas, mas não pelos cuidados posteriores necessários. O fardo cai sobre a família. E cuidar de uma pessoa doente frequentemente prejudica a saúde do cuidador. Cuidar de meu pai provavelmente tirou quatro ou cinco anos de vida da minha mãe. Eu acho criminoso ter estendido a vida de meu pai sem levar em conta o sofrimento dela. O que conseguimos se apenas transferimos a doença de um membro da família para outro? Se você é um médico, eu acho que você precisa avaliar se está adicionando sofrimento à família como um todo quando você amplia o tempo de vida de um indivíduo.

Eu fiquei surpreso ao ler, em um recente estudo do Pew Research Center sobre problemas enfrentados por doentes terminais, que menos da metade das pessoas com mais de setenta e cinco anos de idade pensam sobre sua própria morte.

É surpreendente. Acho que isso tem muito a ver com a publicidade e a mídia. Nos comerciais e programas de TV, os idosos estão sempre ótimos. E se não estão se sentindo bem, podem simplesmente tomar um remédio e tudo vai ficar bem, não é mesmo? É fácil ser hipnotizado por essa promessa de uma resolução fácil. Propagandas na TV de várias empresas do setor farmacêutico mostram imagens de pessoas com 75 anos cheias de vitalidade, correndo maratonas. Você nunca vê imagens de decrepitude. A mídia não reflete o fim da vida.

E há culturas que lidam bem com a decrepitude?

Nós lidávamos de maneira muito mais adequada com isto em nossa própria cultura antes do século XX. Naquela época, as pessoas poderiam morrer a qualquer idade de qualquer coisa. Elas de certa forma se preparavam para a morte. Mesmo hoje em dia, a preparação para os dias sagrados no judaísmo envolve o reconhecimento de que a morte pode vir a qualquer momento. Eu acho que o feriado mexicano Día de los Muertos também ajuda – é um dia para que nos lembremos da morte e a celebremos.  Muitas culturas honram os idosos muito mais do que nós.

Você escreveu, sobre os cuidados ao fim da vida, que "ninguém está no comando, apenas o mercado". O que isso quer dizer?

Eu quis dizer, por exemplo, que os planos de saúde não pagam os médicos decentemente pelo tempo que se leva para simplesmente dizer "Não é uma boa ideia colocar um marca-passo em seu pai", ou "Outra rodada de quimioterapia não vai trazer qualquer benefício". Mas pagam uma fortuna por medicamentos e dispositivos. Os incentivos financeiros beneficiam as indústrias altamente rentáveis dos dispositivos médicos e medicamentos, que gastam quantidades enormes de dinheiro promovendo seus produtos para médicos e pagando por estudos que sugiram que mais e mais pessoas devem usá-los. O lobby corporativo da indústria da saúde ajuda a determinar o que os médicos devem fazer. Pagamos muito dinheiro aos médicos para que usem a tecnologia, mas muito pouco para que passem mais tempo com os pacientes. Isto condiciona o comportamento deles.

Então, mudar a forma como lidamos com a morte é mais uma questão de política financeira do que espiritual?

Acho que são ambas as coisas. Precisamos restaurar o sagrado no fim de nossas vidas, mas não importa quão preparados estejamos para encarar a morte; até que consigamos mudar estes incentivos financeiros, não acho que a situação vá melhorar. Quando dizemos aos médicos: "Vamos lhe pagar milhares para prescrever quimioterapia cara que você sabe que não irá funcionar, porque já é tarde demais para o paciente, mas vamos pagar apenas cinquenta e quatro dólares para que você converse com ele", estamos lhes mostrando o que realmente valorizamos. Por que foi construído um sistema no qual um médico tem de ser praticamente um santo para fazer a coisa certa?

Há três lobbies poderosos em Washington, capital dos Estados Unidos: defesa, finanças e saúde. E os grandes atores no lobby da saúde obviamente não são médicos da família ou fonoaudiólogos. Eles são, dentre outros, a AdvaMed, que representa fabricantes de dispositivos médicos; as empresas farmacêuticas; e especialistas como cardiologistas intervencionistas, que ganham cerca de meio milhão de dólares por ano. O resultado é que os tratamentos caros de alta tecnologia são excessivamente promovidos.

Um dos motivos pelos quais temos dificuldade em falar disso é que estamos lidando com uma linguagem insuficiente. A morte é uma experiência sagrada, e se você desejar caracterizá-la na linguagem da liberdade individual – "Tenho o direito de fazer o que quiser com meu corpo" – você ignora aquilo por que as pessoas estão passando no final de suas vidas. Elas não querem defender seus direitos individuais. Elas querem ser mantidas no seio de uma comunidade que as ame enquanto passam, junto de suas famílias, pela provação da morte.

Tradução: Henrique Mendes

Entrevista original publicada no site da The Sun Magazine, revista mensal norte-americana que aborda questões de comportamento e bem-viver.

Mídia minimiza colapso da Europa

Sanguessugado do Miro

Altamiro Borges

Durante a campanha eleitoral, a mídia tucana evitou dar destaque para o agravamento da crise capitalista no mundo. O objetivo era eleitoreiro. Visava vender a imagem de que apenas o Brasil enfrentava dificuldades na economia. A culpa seria do “intervencionismo” do governo Dilma, que engessaria o “deus-mercado”. Aécio Neves era tratado como político moderno, capaz de destravar o crescimento econômico com suas propostas de austeridade fiscal, redução dos tributos das empresas e flexibilização trabalhista – entre outras receitas amargas do neoliberalismo. Passada as eleições, porém, o noticiário volta a destacar os efeitos nefastos da crise mundial, mesmo sem analisar as causas reais do caos capitalista.

Na sexta-feira (26), a Folha publicou uma série de reportagens sobre a “ressaca europeia”. O especial até tenta insinuar que o pior já passou, mas os dados apresentados são dramáticos. No caso da Grécia, por exemplo, o desemprego atinge 26% da população economicamente ativa – muito acima dos 5% verificados no Brasil. Segundo o repórter Leandro Colon, cinco anos após o colapso, o país “dá sinais tímidos de recuperação em meio à crise que abalou a Europa e levou o país a receber um socorro de € 240 bilhões do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BCE (Banco Central Europeu)”. No segundo quadrimestre deste ano, ela saiu tecnicamente da recessão e a previsão é de que cresça entre 0,6% e 0,8%.

“O país pode estar retomando fôlego, mas ainda falta muito para devolver a mesma vida aos que sofreram e sofrem os reflexos da crise. A taxa de desemprego continua a mais alta do bloco europeu, em torno de 26%. Cerca de 70% dos desempregados (1,3 milhão de pessoas) não conseguem ocupação há mais de um ano – muitos vagam pelas ruas de Atenas. A dívida pública ronda os 175% do PIB (era de 129% em 2009) em um país cuja economia encolheu 25% nos últimos cinco anos”. Além da grave crise econômica, a Grécia atravessa intensa turbulência política. O parlamento poderá ser dissolvido nos próximos dias devido à sua total incapacidade para eleger o presidente do país.

Outro país analisado é a Irlanda, “o primeiro a deixar o programa de socorro financeiro da Europa”. A situação também é trágica. “No último dia 10, ao menos 30 mil pessoas foram às ruas contra a ‘water charge’, imposto sobre uso de água criado entre os compromissos para receber € 67 bilhões do FMI e do BCE. A Folha acompanhou a manifestação, marcada por confrontos com a polícia. O novo imposto impõe uma despesa anual de € 160 a € 208 por ano às famílias irlandesas e começa a valer a partir de janeiro. ‘Estão jogando no nosso colo uma consequência da crise. É uma forma de fazer a população pagar a dívida do país com a Europa’, diz Dean Mulligan, 23, um dos líderes do último protesto”.

A criação do imposto sobre o consumo da água se soma a outras medidas de austeridade fiscal impostas ao país pela “troika” neoliberal – FMI, Banco Central da Europa e União Europeia. Houve congelamento de 20% dos salários dos servidores públicos; retirada de direitos trabalhistas no setor privado; e redução dos gastos sociais. O desemprego vitima 10,7% da população economicamente ativa e “os jovens continuam deixando a Irlanda, ante a falta de perspectiva. Estima-se que 90 mil cidadãos por ano tenham saído desde 2008”, aponta a “otimista” reportagem da Folha.

Já na Espanha, o desalento da população é geral, apesar do governo de direita se jactar de que a economia voltou a crescer. Segundo o repórter Diogo Bercito, “quem não se gaba são os espanhóis que diariamente fazem fila nos centros de emprego. Mesmo com os avanços da economia, a porcentagem da população ativa sem trabalho é de 24%, o equivalente a 5 milhões. ‘Na minha idade, a única solução é voltar ao meu país natal’, afirma à Folha Nelly Galeas, 50, equatoriana, depois de ir ao posto pedir seguro-desemprego. ‘Não há oportunidade aqui’”. Diante deste quadro, o governo neoliberal de Mariano Rajoy – expressão do ganancioso capital – ainda propõe retirar direitos dos trabalhadores. “Para as autoridades espanholas, uma das razões pelas quais o país enfrenta o desemprego é a rigidez do mercado de trabalho, que encarece as contratações”.

Por último, a Folha analisa a situação de Portugal. Neste caso, nem o jornalista conseguiu amenizar o cenário dramático do país. O governo até cumpriu à risca as imposições da “troika”, mas não há sinais de recuperação da economia. “Portugal teve de levar a cabo cortes com violentos custos sociais, inclusive nas pensões e na proteção a desempregados. Funcionários públicos tiveram salários reduzidos e o imposto de renda subiu. Mas diversas de suas fraquezas, incluindo um alto desemprego, persistem”.
A série de reportagem sobre a “ressaca europeia” poderia servir para a Folha relativizar os impactos da crise econômica no Brasil e até para desaconselhar a adoção do receituário neoliberal, proposto nas eleições pelo tucano Aécio Neves. Mas aí já seria pedir demais ao jornalão da famiglia Frias.

Sobre o Deus que precisamos para atravessarmos o milênio

 Rita Almeida no facibuqui

O Deus do narcisismo me permite agradecer pelo sucesso num concurso, numa seleção de trabalho ou a conquista de uma vaga na faculdade, sem questionar o fato de que isso aconteceu apenas porque alguém foi preterido.

O interesse que hoje tenho por Deus é mais filosófico do que religioso. Sendo assim, entendo que o conceito que se tem de Deus não é unívoco, ele vem se modificando de acordo com o tempo e as diversas culturas e sociedades. É como se cada tempo e cada sociedade tivesse o Deus (ou os deuses) que precisasse ou desejasse.

Se tomarmos o cristianismo, por exemplo, o Deus do Antigo Testamento era uma espécie de grande líder tirano e cruel, que vigiava e castigava seu povo sempre que lhe conviesse. Suas normas e regras eram rígidas e, muitas vezes, sem qualquer sentido ético, moral ou prático. O único sentido parecia ser deixar bem claro quem era o Todo Poderoso.

Já o Deus do Novo Testamento é um Deus que desceu do seu pedestal e da sua arrogância para se tornar um meio-irmão, um semelhante, que mesmo depois de morto promete ficar entre nós. Esta é exatamente a mensagem final de Jesus na Última Ceia, horas antes de ser crucificado e morto. Mas em algum momento, o Deus do cristianismo que prometeu estar entre nós passou cada vez mais a estar dentro, “habitar o coração do homem”.

Sabemos que o Deus do protestantismo, que nasce no século XV, serviu muito bem à disseminação e ao desenvolvimento do capitalismo. Ao que parece, a noção de um Deus que está dentro de cada um, tem servido muito bem à sociedade capitalista-ocidental em sua versão cada vez mais individualista e narcisista. E o Deus que produzimos neste caldeirão me parece assustador. É uma espécie de Deus-portátil, Deus-de-bolso ou um Deus-I fone; aquele que possui todos os aplicativos, conexões, contatos e arquivos que eu preciso para ser feliz.

O Deus que encontramos na sociedade capitalista-narcisista atual é um Deus que serve cada vez mais para resolver os meus problemas individuais, mesmo os mais egoístas. É um Deus capaz de atender a um pedido meu, mesmo que isso implique em sabotar o pedido de outrem. O Deus do narcisismo me permite agradecer pelo sucesso num concurso, numa seleção de trabalho ou a conquista de uma vaga na faculdade, sem questionar o fato de que isso aconteceu apenas porque alguém foi preterido. Somente o Deus do narcisismo me permite colocar aquele tradicional adesivo no carro: “Foi Deus que me deu”, mesmo quando o digno presente é mais um a poluir o ambiente já a beira do completo caos. O Deus do narcisismo é capaz de me fazer vencedor numa disputa, ainda que do outro lado esteja alguém que fracassou, como se o meu Deus fosse melhor ou mais poderoso que o dele.

Mas que tipo de Deus é este que tolera um pedido de salvação, cuidado ou proteção para apenas eu ou meus familiares e amigos mais próximos? Que tipo de Deus me permite agradecer por ter escapado viva de um acidente em que muitos outros se tornaram vítimas fatais? Que tipo de Deus me autoriza fazer um pedido de mesa farta nas festas de fim de ano, quando a miséria e a fome devasta milhões mundo afora?

O conceito de Deus que vemos hoje é tão narcisista que até quando um desejo meu não é atendido, a explicação é: “porque Deus sabe o que é melhor para mim”.

Enfim, lamentavelmente, o Deus que nos resta atualmente é aquele que atende aos apelos do Eu, o Deus- I fone. É o Deus que promete a tão sonhada felicidade individual. Um Deus que nos demanda louvores, adoração e glorificação, além de uma prova de sua devoção e fé por meio de doação financeira. Somente um Deus narcisista e egocêntrico precisaria deste tipo de devoção ou reconhecimento.

“Meu Deus!” Aí está a exclamação que usamos em nossas orações ou sempre quando o desespero bate e tudo parece perdido. Entretanto, o Deus do indivíduo não será capaz de cumprir sua missão de nos salvar, especialmente porque nosso tempo precisa urgentemente se livrar do individualismo.

No cristianismo é preciso se livrar do Deus que se ocupa das nossas misérias egoístas e individuais e resgatar o “Pai Nosso”, aquele capaz de nos ajudar a reparar as nossas mazelas coletivas. Não aquelas que estão dentro de nós, mas as que estão entre nós; a fome, as injustiças sociais, a degradação do meio ambiente, a falta de água e saneamento básico, as guerras.

É bem provável que não seja possível ou desejável um Deus único para toda a humanidade. A diversidade de culturas e religiões pelo mundo não possibilitaria isso, mas é fundamental e urgente perseguirmos a ética de um Deus para Todos, e não só para todos os seres humanos, mas para todos os seres que habitam este planeta, animados ou não.

Resumindo, se a função de Deus é nos salvar, nos libertar e nos proteger, o Deus do narcisismo, se é que realmente precisamos dele algum dia, não nos serve mais. O Deus que irá permitir à humanidade fazer sua travessia em direção ao próximo milênio precisa ser um outro Deus. Precisamos parar de orar a Deus para curar nossa unha encravada, proteger nossa prole, melhorar nossa vida financeira ou sustentar nosso amor-próprio. Nossas orações (representantes autênticas do nosso desejo) precisam se livrar do narcisismo e do egoísmo e alcançar o campo da alteridade. Caso não modifiquemos nossas orações, o abismo narcísico do EU irá nos engolir em breve.

Sendo assim, o Deus que precisamos ou que deveríamos desejar não é mais o Deus que está dentro, mas o Deus que está entre nós. O Deus que nos une, que nos enlaça, que possibilita o amor, que nos faz irmãos porque habitantes do mesmo planeta. O Deus que precisamos invocar não é o “Meu Deus”. O Deus que nos permitirá sobreviver é o "Nosso Deus", ou o "Pai Nosso" o Deus da alteridade.

O Deus que precisaremos para não sucumbirmos como espécie não poderá ser tolerante com a ideia de salvação individual, seja ela de que tipo for. O Deus que rogaremos, caso haja futuro, é aquele que exige que respeitemos o seguinte mandamento: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.