domingo, 31 de agosto de 2014

Perguntas para os candidatos do mercado no próximo debate televisivo

Via Brasil de Fato

As grandes questões ausentes no debate eleitoral

Reprodução

A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada

 

Cândido Grzybowski

Estamos mergulhados na conjuntura eleitoral, com propaganda em rádio e televisão, cabos eleitorais nas ruas, adesivos por toda parte. Mas debate político acalorado, que é bom, nada. O maior fato político e eleitoral neste começo foi a morte em acidente aéreo do Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva a candidata presidencial travestida de PSB, pois o que ela queria e quer é viabilizar seu projeto consubstanciado na Rede Solidariedade.

Dentro de um mês e pouco, pelo voto, deveremos decidir sobre os rumos para o país. Mas a campanha eleitoral não é sobre caminhos possíveis, que supostamente candidatas e candidatos para a Presidência, o Senado, o Congresso Nacional, os Governos Estaduais e as Assembleias Legislativas deveriam estar propondo e defendendo. Pelo contrário, estamos submetidos a um bombardeio de propaganda eleitoral feita para não pensar e sim para nos convencer o quanto de benefícios nos pode propiciar esta ou aquela candidatura. A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada.

Torna-se necessário esclarecer este meu argumento. O espaço da política, mesmo mercantilizado, é e continua sendo, por excelência, o locus da construção do comum e do coletivo possível, num contexto histórico dado, tendo a força propulsora a incontornável igualdade e diversidade de que somos como membros de uma mesma humanidade.A mercantilização, por força do poder de certos interesses e classes, subordina a política, a privatiza, mas seu impacto continua sendo sobre o coletivo, sobre a sociedade como um todo. Portanto, mesmo numa conjuntura de submissão e subserviência da política à economia, no espaço da política se decidem em disputa questões sobre as contradições e as possibilidades do comum e do coletivo apontarem o rumo a ser perseguido e acabarem prevalecendo democraticamente.Ou seja, sempre existe espaço a ser disputado, por menor que seja. Não dá para abandonar a arena da disputa democrática.O impossível pode se tornar possível na volta da esquina.

Com tal visão estratégica, avaliemos o momento eleitoral criado no Brasil de 2014, a 50 dias do primeiro turno. Não temos condições de mudar no imediato o quadro eleitoral, com estas campanhas que nos “vendem” candidatos. Mas o momento é de pensar na sociedade que estamos construindo. Podemos sempre definir um conjunto de ideias do que fazer e demandar aos candidatos e às candidatas que respondam a elas, ao menos àqueles mais próximos, dispostos a ouvir a cidadania ativa (coisa rara!). Listo algumas das questões que são, no aqui e agora, definidoras do rumo que estamos buscando com nosso voto, talvez sem o saber, para o Brasil, um país gigante com impacto no mundo todo.

Começo pelo que me parece o mais intolerável e injusto: a questão indígena. Continuamos o extermínio, mesmo tendo feito uma louvável trégua com as conquistas da Constituição de 1988. É uma questão que está no centro do poder, com uma perspectiva de flexibilizar, de negar direitos. As insurgências indígenas dos últimos anos testemunham a nova investida de interesses privados sobre seus territórios. Está na pauta do Congresso uma agenda de mudança constitucional tanto sobre a demarcação de terras, como sobre exploração mineral nos territórios já definidos e até sobre o tal direito de consulta prévia, como na construção de grandes hidrelétricas na Amazônia. Você conhece algum candidato ou candidata que fale de tal questão nesta conjuntura eleitoral? Será que temos o direito de decidir sobre o destino dos indígenas que sobreviveram à conquista e colonização? Vamos continuar colonizando o Brasil em nome do desenvolvimento?

Aliás, a mineração extrapola a questão indígena. O novo código mineral pode tornar irreversível um processo de entrega à exploração predatória privada de amplas áreas do território, um bem comum que nos cabe zelar pela sua integridade. Por que comprometer o futuro de novas gerações e, mais, do Planeta com este afã de fazer dinheiro rápido aqui e agora, com um extrativismo insustentável de uma perspectiva socioambiental? Cadê o debate sobre esta questão que já está na pauta do Congresso? Não deveria ser uma questão de amplo debate e de decisão direta pela cidadania como um todo?

Nesta linha a gente pode agregar o modelo energético. Que debate estamos tendo sobre, literalmente, tão quente questão? O Pré-Sal, depois daquela caça ao possível tesouro sobre a distribuição dos royalties, nem mais conversamos. Será que vale a pena para nós e a humanidade extrair petróleo do fundo do mar, com alto risco, acima de nossas necessidades atuais, simplesmente para fazer excedente comercial e com isto contribuir substancialmente para a mudança climática? Energia é negócio ou necessidade vital? O que é prioridade? Precisamos de energia e o quanto mais renovável melhor. Caminhamos neste rumo ou de ré? Esta questão vale até para a energia renovável das hidrelétricas. Quanto, no atual modelo, ela é renovável e quanto é destrutiva de uma perspectiva socioambiental? Onde está o debate sobre a nossa matriz energética nesta conjuntura eleitoral?

Uma questão associada é a da água. Com a crise de abastecimento em São Paulo, com impactos possíveis no Rio, a ficha caiu e começamos a ver que esta é uma questão séria. Mas quem traz proposta para o debate nestas eleições? Parece até o contrário, pois os candidatos tudo fazem para impedir que a questão da água – um bem comum indispensável à vida, a qualquer forma de vida – seja convertido em tema quente, já que eles nada fizeram e nada fazem. Simplesmente esperam que volte a chuva e tudo fique normal. Aliás, esta é atitude de absolutamente todos e todas que disputam eleições no tocante à dramática perspectiva de mudança climática. Continuamos pensando que moramos “…num país tropical, abençoado por Deus…”, uma exceção no Planeta e que aqui não teremos os desastres anunciados de aquecimento global. Acompanhando a campanha eleitoral, mesmo com a ambientalista Marina disputando, o que se nota é uma declarada opção por disputar formas de fazer mais e melhor do mesmo desenvolvimento destruidor da natureza e gerador de desigualdades sociais.

Aqui entra o tema presente, mas escamoteado, do agronegócio. Todos sabem que temos um modelo de agricultura insustentável, com uso intensivo de venenos, transgênicos, contaminações e destruições de biodiversidade, agricultura predadora do meio ambiente. Mas é um dos itens principais na geração de excedentes comerciais nas nossas transações internacionais. Será que vale a pena uma tal bomba? Não estamos contaminando nossas próprias vidas? O silêncio na campanha eleitoral sobre o tema é revelador do quanto a tal “governabilidade” é estruturalmente dependente da “bancada ruralista”. Não é que os ruralistas são muita gente, pelo contrário a estatisticamente pequena classe de donos do agronegócio tem grande poder de financiar campanhas eleitorais de subservientes a seus interesses. O agronegócio modernizado, de algum modo, continua sendo “dono” do país do atraso.

Isto nos remete a um dos temas mais ausentes na campanha eleitoral: a refundação da própria política. Estamos diante de mais uma eleição ignorando totalmente o difuso sentimento no seio da sociedade civil brasileira, já majoritário, de descrédito na política como ela é hoje. Questiona-se toda forma de representação, pela usurpação do mandato delegado pelo voto e a tendência dos políticos de se sentirem “donos” dos cargos a que foram eleitos. Na verdade, eles são mais fiéis e devedores de seus financiadores de campanha do que da cidadania que os elege, em última análise. Este foi o recado mais amplo dado pela grande onda de mobilizações de junho de 2013. Será que não está em questão o sentido mesmo da democracia? Como não destruir a sofrida conquista de espaços democráticos? Como ampliá-los ao invés de reduzi-los, como apontam e revelam as iniciativas parlamentares de criminalização das manifestações e de oposição frontal à proposta de uma política de participação social? Por que os e as disputantes de cargos e mandatos não enfrentam tais questões? Afinal, o futuro da democracia no Brasil depende de uma profunda refundação da política como bem comum, sem “direitos garantidos” como nossos políticos eleitos se consideram.

Mas é no mais prosaico para qualquer eleição – o como prover direitos iguais de cidadania – que as contradições da conjuntura eleitoral se revelam com radical intensidade. Os direitos mais básicos, como transporte, saúde, educação, segurança, direito à diversidade e tantos outros, até entram na campanha. Mas nunca como direitos e sim como favores a serem garantidos pelo ou pela disputante de representação, se a vencer. A campanha eleitoral da maioria dos deputados federais, estaduais e senadores, mas também de quase a totalidade de governadores, é sobre possíveis benefícios que sua vitória garantiria neste campo de violações claras de direitos iguais para toda a cidadania.

Muito mais poderia ser destacado aqui. Na campanha presidencial, por exemplo, parece que não fazemos parte de um mundo interdependente.Temos responsabilidade pelo que se passa no mundo, sem dúvida. Mas isto não quer dizer que chegou a nossa vez de partilhar o poder de dominar o mundo. Até parece que existe um consenso entre candidatas e candidatos de que o Brasil tem o “direito a ter mais direitos” na geopolítica mundial.Será este o Brasil que o mundo precisa? Por que não o contrário, brasileiros e brasileiras construir um Brasil como força instituinte e constituinte de um mundo solidário, sem imperialismos e nem guerras, com igualdade na diversidade, lugar comum de todas e todos?

A gente não pode desistir, mas está difícil discutir tais questões na confusa conjuntura eleitoral comandada por uma lógica de “venda” de imagem de boa mocinha ou bom mocinho, provedores de favores, ignorando direitos.

Cândido Grzybowski é sociólogo e diretor do Ibase.

Valter Pomar: “Solo adubado com ilusões produz merda em grande quantidade”

Sanguessugado do Maria Frô

Numa sociedade de classes, ainda tão desigual como a nossa, não existe “Terceira Via”, minha gente! Ou é pela Esquerda, ou é a barbárie.

Basta ouvir a propaganda eleitoral dos candidatos das bancadas da bala, da fundamentalista e da ruralista. É o fascismo pregado em alto e bom som, é a direita sem medo de dizer o que pensa, apostando que o povo não pensa, apostando que sua exploração imensa dos trabalhadores, concentrando renda, produzindo desigualdades, pondo o estado mais rico do Brasil, São Paulo, na contramão do restante do país que a alienação os afastará da  da política. Esta direita fascista prega abertamente no horário eleitoral: mais repressão, mais cadeia, mais tempo de encarceramento para meninos pobres da periferia, propõe milícias pra combater manifestações, prega mais controle sobre os corpos, esvaziam de sentido os termos “saúde” e “educação”.

Em seus discursos autoritários não há nenhuma fala sobre desigualdades sociais, nada sobre como a mesma direita há 20 anos no governo do estado de São Paulo nos deixou sem água, sem mobilidade urbana, sem moradia, com a educação e saúde públicas sucateadas.

Valter Pomar em mais um texto de análise do atual quadro político o esclarece, sem dourar a pílula, sem adubar solo com ilusões.

Ao lê-lo, digo e repito:  Valter Pomar é o melhor formulador teórico do PT, uma das pessoas mais sensatas que conheço. E não é porque muito do que penso conflui para as suas análises, é que Valter nunca, sob qualquer situação, despolitiza suas análises numa era em que a regra em todos os campos é fazer uma geleia geral despolitizadora. ausente de polarização e de críticas.

Mas, é preciso combinar com o povo:

“O povo não é idiota. Paga caro quem subestima a capacidade crítica das pessoas. É preciso politizar o debate, polarizar programaticamente e confiar no senso de classe da maior parte do povo.

Parte dos eleitores de Marina é de pessoas que já votaram em nós ou que socialmente podem votar em nós.

Portanto, é preciso conquistar ou reconquistar o voto destas pessoas, assim como conquistar o voto daquelas que ainda não optaram. E isto se faz através de política, programa, mobilização.” Valter Pomar.

Para ler na íntegra sua excelente análise visite seu blog, parada obrigatória nesses tempos sonháticos de tornar o sindicalista Chico Mendes “elite” e banqueira do Itaú “educadora”.

Militantes do MST são inocentados após oito anos de processo ilegal

Via Brasil de Fato

"Os trabalhadores foram acusados de colocar em risco o Estado Democrático de Direito, o que é uma visão autoritária e equivocada, vinculada às decisões usadas nos anos de chumbo no Brasil”, diz advogada do movimento

Maura Silva

da Página do MST

A Justiça Federal de Carazinho (RS) inocentou em primeira instância os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Isaias Antonio Vedovatto, Silvio Luciano dos Santos, Edemir Fransisco Valsoler, Ivan Moroso de Oliveira, Vladimir Maier e os apoiadores do Movimento, Arno Maier e Jandir Celso, após oito anos da abertura de um processo, que teve como base um dossiê ilegal, feito a pedido do então Coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Waldir João Reis Cerutti.

O documento, intitulado “Situação do MST na região norte do RS” também traz investigações contra o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária  (Incra), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Via Campesina.

As acusações ao MST vão desde ligações com Primeiro Comando da Capital (PCC) até a presença de estrangeiros junto aos acampados para oferecer treinamento militar em guerrilha rural, “com o objetivo de criar uma zona de domínio, de controle através do domínio territorial, onde o MST substituiria o Estado”.

O Estado Maior da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, a pedido do então Subcomandante Geral da Brigada Militar Cel. Paulo Roberto Mendes Rodrigues, autorizou a realização de investigações com base em diversas ações desenvolvidas pelo MST na época.

Para Giane Alvarez, advogada do MST, a existência desse processo faz parte de um contexto de criminalização do Movimento no estado do Rio Grande do Sul.

“Esse é um caso bastante emblemático em relação as formas de criminalização que o MST sofre ao longo da sua existência. Esses trabalhadores foram acusados com base na Lei de Segurança Nacional, uma lei muito criticada por diversos juristas de todos os matizes, que a consideram uma das heranças da ditadura militar. Os trabalhadores foram acusados de colocar em risco o Estado Democrático de Direito, o que é uma visão autoritária e equivocada, vinculada às decisões usadas nos anos de chumbo no Brasil”, diz Giane.

Embora o processo que se arrasta desde 2006 tenha gerado, sem provas individualizadas, decretos de prisões preventivas dos envolvidos, Giane considera que essa foi uma vitória importante para o Movimento e para a democracia.

“Esse foi um processo que continha a argumentação da existência da teoria do Domínio do Fato, ou seja, como não existiam provas, foram imputadas a algumas lideranças a responsabilidade pela prática eventual de alguns crimes que o Ministério Público alegou que havia ocorrido”, explica.

Na sentença, ao reconhecer a inocência dos acusados, o juiz declarou que a Lei de Segurança Nacional - muito utilizada na criminalização dos movimentos sociais brasileiros - é incompatível com a atual Constituição Federal.

A advogada cita ainda a importância da mobilização social na luta contra as injustiças e contra o ato de tornar crime a luta do povo.

“Esse foi um processo que contou com a atuação de advogados da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap) e do jurista Nilo Batista, mas muito ainda precisa ser feito para que ilegalidades como essa não voltem a acontecer”, finaliza.

Gaza e seus monstros

Via Correio da Cidadania

Atilio Boron

De repente, acordei assustado e banhado em suor no meio da noite. Olhei para relógio e eram 3h25m da madrugada. Haviam voltado violentamente ao meu cérebro as horripilantes imagens que vi poucas horas antes no Dossier, o notável programa de Walter Martinez que a Venezolana de Televisión y TeleSUR colocaram no ar para dizer e mostrar o que a grande mídia não diz e não mostra. Sinto como se estivesse em Gaza no momento em que as covardes Forças de Defesa Israelense (FDI) fizeram ir pelos ares um edifício de doze andares, reduzido a flamejantes escombros em um piscar de olhos, cegando, quem sabe, quantas vidas, projetos, ilusões, anseios de gente, cujo único pecado era ser palestino e onde, presumidamente, habitava um chefe militar do Hamas.

É um insulto à inteligência argumentar que um personagem desse nível estaria, no meio da agressão israelense, sentado confortavelmente em sua casa, desfrutando da paisagem do Mediterrâneo, enquanto conversava com sua família. Covardes, repito, porque quem atua assim não são guerreiros – que antes compartilham um código de honra –, mas ferozes assassinos que, de seus aviões, drones, helicópteros, tanques, navios de guerra, descarregam sua violência genocida sem arriscar sua pele, enquanto perpetram seus crimes. Para justificar-se, o governo israelense diz que tudo é resposta ao infame sequestro e morte de três jovens colonos judeus na Margem Ocidental, ainda que não existam provas definitivas a respeito.

Mas, mesmo se houvesse, a desproporção astronômica das vítimas condena sem atenuantes as hienas que de Telavive e Jerusalém governam Israel. A maldade e desumanidade desta quadrilha dirigente não têm limites, e em uma repugnante involução genética – uma kafkiana metamorfose – se converteram na atual reencarnação de Hitler e sua horda assassina. Bombardeiam Gaza com mais sanha do que as tropas nazis empregaram para destruir o Gueto de Varsóvia, e o ataque de sua aviação é infinitamente mais letal do que Hitler, com a cumplicidade de Mussolini e Franco, ordenara para destruir a heroica Guernica no País Basco.

Seu imenso aparato propagandístico se espalhou como uma praga infecciosa por quase todo o mundo e nos informa que as hienas haviam advertido os habitantes de Gaza de que deveriam sair, porque a vizinhança seria atacada em poucos minutos. Em poucos minutos!

Como fazer para abandonar em tão pouco tempo um lugar, porque se trata de um lugar, não de uma guarita? Um lugar com crianças, idosos, com homens e mulheres aterrorizados pela orgia infernal de sangue derramado há várias semanas. Se pudessem sair, pra onde iriam, se todos sabem que não há lugar seguro em Gaza, nem sequer nas mesquitas ou nas escolas da ONU, para não falar dos hospitais, da barbárie das FDI? Para onde poderiam ir? Ao Greenwhich Village, no Central Park, ao Upper West Side nova iorquino, ao Bairro Latino de Paris, a Trafalgar Square em Londres?

Estão presos e não têm escapatória. São como os animais de laboratório, vítimas condenadas a morrer em um experimento de “limpeza étnica”, meticulosamente planejado, como fazia o monstruoso doutor Josef Mengele com os judeus no campo de concentração de Auschwitz. Gente condenada a explodir pelos ares, diante da indiferença dos guardiões da “civilização ocidental e cristã” que se alimentam da nobre tradição judia, sobre a qual vomitam os atuais governantes de Israel.

Diante de tanta barbárie, brota um silêncio cúmplice, como o que houve quando Hitler massacrava os seis milhões de judeus diante da passividade generalizada do Ocidente. Silêncio dos governos, mas silêncio ainda mais pesado e insuportável, no caso argentino, dos intelectuais judeus – inclusive de quem é conhecido por suas posturas progressistas e, em alguns casos, de esquerda. Salvo poucas e honrosas exceções, têm chamado a um mutismo absoluto que não os livrará de sua responsabilidade diante da história e dos povos (1).

Tão vergonhosa tem sido sua capitulação que permaneceram situados à direita de Mario Vargas Llosa, que criticou com duríssimos termos a conduta do regime israelense, a quem acusou de transformar vítima em agressor. Em Israel, no entanto, não são poucos que estão fazendo honra à grande tradição humanista do judaísmo e vêm denunciando publicamente a “limpeza étnica” e os crimes de guerra do regime de Netanyahu. E para honra da Nossa América, milhões de pessoas firmaram o manifesto intitulado “Na Defesa da Palestina”, propiciado por uma iniciativa do presidente Evo Morales e promovido pela Rede em Defesa da Humanidade. Mas, em Gaza, a morte segue seu curso, e a putrefação do sistema das Nações Unidas mostra toda sua inaptidão para deter esta carnificina.

Os principais meios de comunicação, por sua vez, pretendem reeditar a teoria dos “dois demônios” e mostraram, dias atrás, a foto de uma criança israelense, filha de imigrantes argentinos, morta por um ataque do Hamas. Ele é apresentado vestindo uma camiseta da seleção argentina de futebol e qualquer pessoa de bons sentimentos não pode deixar de ficar horrorizada diante de uma vida abreviada desta maneira, por causa da violência desencadeada por seus próprios governantes. Mas essa mesma imprensa não exibe fotos similares das crianças palestinas quando ainda vivas; só mostram quando já estão mortas.

Não se trata de jovens vidas ceifadas criminosamente, mas de uma interminável sucessão de imagens horrorosas de crianças estripadas, arrebentadas, mutiladas. De certa forma, elas são mostradas como se jamais tivessem estado vivas, como fazem no caso das crianças israelenses. A metamensagem seria algo como se os palestinos sempre estivessem mortos; e isso, hoje em Gaza, é apenas a confirmação de algo que já sabíamos: estavam mortos e, portanto, não se pode falar de assassinato. Ao contrário do outro, o israelense, que estava vivo e uns desalmados o mataram.

O inferno dos habitantes de Gaza produziu uma infinidade de monstruosas aberrações. Entre elas, há uma que não tem tido a atenção que se merece e que tem sido destacada por um agudo analista norte-americano, o professor Immanuel Wallerstein. Segundo ele, ocorre que o “Califado do Estado Islâmico”, às vezes também chamado ISIS ou ISIL, pareceria ser “a força militar mais treinada e comprometida da região” com exceção, claro, ao exército israelense. A pergunta que surge de imediato é a seguinte: como é isso? Quem recrutou, financiou, armou e treinou uma força tão poderosa?

A resposta é clara: os Estados Unidos, seus lambe-botas europeus e seus amigos nas reacionárias e hiper-corruptas monarquias do Golfo Pérsico. Por que o fizeram? Porque queriam produzir uma “mudança de regime” (leia-se: golpe de Estado) para acabar com o governo de Bashar al-Assad na Síria e para isso armaram um exército de mercenários, uma verdadeira “armada Brancaleone” na qual se agruparam patoteiros, ladrões, estupradores, fugitivos da justiça e mercenários de todos tipo e plumagem, que os aparatos ideológicos do império rapidamente enobreceram – como fizeram com os “rebeldes” na Líbia, e antes na Nicarágua – chamando-os de “combatentes da liberdade”.

Com esta manipulação informativa, pretendem dissimular o que não é outra coisa senão um sangrento assalto ao poder e a destruição de um país, como se fosse uma “guerra civil” entre um regime despótico e umas boas almas, democráticas e libertárias, que combatem com as armas e a cobertura político-midiática que lhes proporcionam os governos – malditos governos, mil e uma vezes malditos! – do Ocidente, sendo isto não um dado geográfico, mas a expressão geopolítica de uma dominação do capital no plano mundial.

Receita provada “exitosamente” na Líbia e no Iraque e que há pouco mais de três anos sangra a Síria, a quem o império necessita subordinar para isolar o Irã e entorpecer os planos da Rússia na região. E como a história tende a se repetir, dias atrás o Califado decapitou publicamente o jornalista estadunidense James Wright Foley, e ameaçou converter esta bárbara prática em uma rotina periódica como resposta ao novo bombardeio de Washington no Iraque.

Ocorre com esse nefasto produto do Ocidente o mesmo que antes aconteceu com Saddam Hussein, com Osama bin Laden, com Netanyahu e a liderança neonazista do Estado de Israel: os Estados Unidos e seus clientes armam estes rufiões até os dentes – no caso de Israel, com um impressionante arsenal nuclear – para que sirvam como peões de seus estratagemas geopolíticos, para depois observar, impotentes, como suas criaturas se tornam independentes de seus criadores e se convertem em seus inimigos. Ou, no caso de Israel, em incontroláveis e criminosos aliados. Confirma-se, assim, a tese de que o imperialismo é uma máquina imparável de criar monstros políticos que assolam povos inteiros e que, cedo ou tarde, se voltam contra seus criadores.

A súbita irrupção do Califado e seus crimes transmitidos em tempo real são outro desafio diante do qual não podemos permanecer em silêncio e que devemos condenar sem atenuantes. Mas, como, quem tem sido cúmplice das atrocidades de Israel, fará para “rasgar suas roupas” diante dos crimes do Califado? Com que autoridade moral poderia fazê-lo?

Aqueles que assinam o manifesto “Em Defesa da Palestina” podem julgá-los e condená-los, mas aqueles que calam diante dos crimes de guerra perpetrados em Gaza devem permanecer em silêncio, agora e sempre. Sua autocastração moral é uma desgraça, não só para eles, mas para a humanidade. E é irreparável. Lembro-me de uma frase que me impressionou na Divina Comédia. É a que Dante colocou na entrada do Sétimo Círculo do Inferno. Dizia textualmente: “este lugar, o mais horrendo e ardente do inferno, está reservado para aqueles que em tempo de crise moral optaram pela neutralidade”.

Dito em termos atuais, esse horrendo e ardente lugar está reservado para aqueles que diante dos crimes do Estado de Israel optaram pelo silêncio. Para sempre.

Nota:

1) Deve-se destacar algumas alentadoras exceções: Bolívia e Venezuela romperam relações com Israel, enquanto que Chile, Equador, Brasil e Peru foram chamados para consultas por seus embaixadores em Telavive. A República Bolivariana da Venezuela, além disso, enviou uma importante ajuda humanitária aos habitantes de Gaza. Mas ainda está sem revisão o Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel.

Atílio Borón é sociólogo argentino.

Traduzido por Daniela Mouro, do Correio da Cidadania.

Declaração final do 20º Foro de São Paulo

Via Rede Democrática

 

O encerramento do 20º Foro de São Paulo (FSP) aconteceu nesta sexta-feira (29) com o ato de clausura e a divulgação da Declaração Final. Durante toda a semana, La Paz, na Bolívia, abrigou o encontro da esquerda. Cerca de 180 delegações tiveram a incumbência de refletir sobre diversos pontos, levando em conta o tema: “Derrotar a pobreza e contraofensiva imperialista, conquistar o Viver Bem, o desenvolvimento e a integração de Nossa América”.

Théa Rodrigues

Os partidos integrantes assinalam na Declaração Final do 20º Encontro do Foro de São Paulo, que reafirmam seu compromisso com o conteúdo das declarações anteriores, que “apoiam a independência de Porto Rico e exigem a imediata libertação de Oscar Lopez Rivera”, o preso político mais antigo do continente. Rivera foi detido em 1981 e tem duas condenações que somam 70 anos.

O documento reafirma a reprovação do FSP a todas as formas de colonialismo e a dominação europeia em Martinica, Guadalupe, Aruba, Bonaire, Curaçao e Guiana Francesa, ressaltando o direito destes à autodeterminação.

Também segue vigente a condenação ao bloqueio dos EUA contra Cuba: “permanece criminoso, injusto e desumano”. Da mesma forma, o FSP reitera a necessidade de lutar pelos antiterroristas cubanos que estão presos nos Estado Unidos há 15 anos.

América Latina, “região de paz”

A soberania Argentina sobre as Malvinas também é um tema que segue na pauta do grupo de trabalho do Foro, “como uma causa latino-americana e caribenha e desde a perspectiva do estabelecimento de uma América Latina como região de paz”.

Também neste sentido, o texto da declaração final afirma que “é importante para a região apoiar resolutamente o diálogo de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo colombiano”. Os partidos do FSP expressam o desejo de que o processo de paz se dê “em um ambiente de cessar fogo bilateral entre as partes” e ressalta a importância da “humanização do conflito”.

As Farc e o governo colombiano discutem desde novembro de 2012 uma agenda de seis pontos com o propósito de marcar uma solução política que permita o estabelecimento de uma paz estável e duradoura, após mais de cinco décadas de confronto. As partes já chegaram a acordos parciais sobre o desenvolvimento agrário integral, participação política e solução ao problema das drogas ilícitas.

“Respaldamos também a abertura de negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN)”, segunda guerrilha mais importante da Colômbia, expressa o documento final.

Eleições

Durante os cinco dias de atividades do Foro, houve uma unanimidade em relação à um tema: a necessidade urgente de apoio aos processos eleitorais no Brasil, Uruguai e Bolívia. Os três países passam por processos de avanço no campo progressista, que, se interrompidos, podem significar um retrocesso ao projeto de integração regional.

“Convocamos a todos para a próxima e imediata batalha que são as eleições presidenciais na Bolívia, Brasil e Uruguai no mês de outubro, respaldando e apoiando as respectivas fórmulas eleitorais de Evo Morales e Álvaro García Linera, Dilma Rousseff e Michel Temer e Tabaré Vázquez e Raul Sendic”.

Segundo o documento, “nossa vitória é vital para a continuação do processo de transformações econômicas, sociais e políticas no continente”.

Ainda com relação aos processos eleitorais, os participantes do Foro de São Paulo, saúdam a vitória da presidenta Michelle Bachelet e se solidarizam com as reformas estruturais no país.

Conjuntura internacional

A Declaração Final alerta para o descenso norte-americano em relação a uma situação multipolar, o que resulta em crises econômicas, sociais e políticas, assim como conflitos armados com implicações globais.

Como não poderia deixar de ser, o grupo de trabalho do FSP inclui em seu documento, o rechaço ao ataque do governo de Israel ao território palestino, particularmente Gaza. Da mesma maneira, cita os ataques dos EUA e da Otan ao Iraque e à Líbia, além das agressões multinacionais externas contra a Síria.

“Se assinala também, a ingerência externa na Ucrânia a partir da aliança entre Estados Unidos e União Europeia com os grupos neonazistas, visando isolar a Rússia”, diz o texto, que pontua: “Esperamos que este conflito se resolva por meios pacíficos”.

Além dos conflitos internacionais, o FSP se solidariza tambpem com a luta do povo saharaui pelos direitos territoriais que lhes estão sendo negados desde 1975 pela monarquia marroquina.

Contraofensiva

Os organizadores do FSP alertam os países da região latino-americana a respeito da contraofensiva imperialista. “Como resposta aos avanços, a direita e a ultradireita fascista reincidem em implementar uma estratégia de desestabilização, em grande parte, como uma reação de impotência diante de sua incapacidade de derrotar politicamente as forças populares”, explica o documento.

Ações desestabilizadoras são fomentadas em busca de “uma mudança no regime”. Frequentemente, resultam em “revoltas populares”, que podem preceder um conflito armado. Esta estratégia ficou evidente na Venezuela, quando a oposição tentou, de diversas formas, criar um descontentamento contra a administração do presidente Nicolás Maduro, no início deste ano.

Meio Ambiente

Segundo a resolução do Foro, a contraofensiva do imperialismo inclui também a busca incessante pelo controle dos recursos naturais. “O FSP luta para defender o meio ambiente, os recursos naturais, os mares, os bosques e a água”, afirma o texto.

Organismos de integração

“Desde a perspectiva da unidade e integração latino-americana, assim como das relações Sul-Sul, é importante atuar com maior pró-atividade no fortalecimento de todos os mecanismos de integração e foros políticos regionais como a Celac, a Unasul, o Mercosul, a Alba, Petrocaribe e A Caricom”, afirma o FSP.

Foro

O Foro de São Paulo foi criado em 1990, quando partidos da América Latina e Caribe se reuniram com o objetivo de debater a nova conjuntura internacional pós-queda do Muro de Berlim e as consequências da implantação de políticas neoliberais pela maioria dos governos da região. A proposta principal foi discutir uma alternativa popular e democrática ao neoliberalismo, que estava entrando na fase de ampla implementação mundial.

De La Paz para o Portal Vermelho

"Esquerda latino-americana chegou para ficar", diz dirigente cubana

Por Théa Rodrigues, de La Paz para o Portal Vermelho

“A esquerda chegou ao poder na América Latina para ficar”, afirmou Idalmis Brooks, secretária de Relações Internacionais do Partido Comunista de Cuba, em sua intervenção no 20º Foro de São Paulo, em La Paz, na Bolívia. Na Escola de Formação Política, era o tema “A crise do capitalismo e perspectivas do socialismo”. Idalmes disse que para sustentar os avanços, os governos progressistas ainda terão que enfrentar a contraofensiva imperialista.

A comunista afirmou que a “contraofensiva estratégica vai além da crise do capitalismo”. Idalmis alertou para o fato de que “não se trata apenas dos Estados Unidos, são os Estados Unidos aliados com as direitas locais”.

“Devemos estar orgulhosos das mudanças, mas atentos aos riscos. Há uma montagem muito clara de ofensiva e satanização dos movimentos e projetos de esquerda, no mundo todo”, destacou a dirigente cubana.

Idalmis recordou o que aconteceu em Honduras, no Paraguai e o que está acontecendo na Venezuela, onde há uma tentativa permanente de desestabilização do governo de Nicolás Maduro. “Pensaram que sem a presença física de Hugo Chávez não haveria continuidade para a Revolução Bolivariana”, disse.

Em 2009, o presidente Manuel Zelaya, de Honduras, sofreu um golpe de Estado. Da mesma forma, em 2012, o presidente paraguaio Fernando Lugo foi deposto. Em ambos os casos, assumiram representantes da direita, aliados aos interesses norte-americanos. Desde o ano passado, o presidente venezuelano vem denunciando as inúmeras tentativas de golpe no país: desestabilização; crise econômica provocada por desabastecimento proposital; crise energética com biocotes à rede elétrica; incitação da violência em manifestações, entre outros.

“As novas gerações precisam saber que viemos de uma tradição de luta. É preciso adverti-los de que o modelo norte-americano de vida se vende muito bem”, afirmou Idalmis. Segundo ela, ações como a Escola de Formação do Foro são importantes para formar as novas gerações, “que têm que conhecer nossas histórias políticas, nossas lutas e conquistas, pois os líderes atuais passam, mas o processo revolucionário tem que permanecer. O que está se iniciando aqui não termina na Bolívia”, ponderou.

Crise do capitalismo

A cubana explicou que “os movimentos progressistas na América Latina tiveram lugar em meio a uma crise econômica com agendas para solucionar os problemas dos mais desprotegidos, mas mesmo assim a crise internacional os afeta”.

Para Idalmis, a crise do capitalismo causa violência, instabilidade, descontentamento e insegurança em muitos países do planeta. Ela afirma que há um reordenamento do mapa mundial propício aos interesses das grandes potências desde o início da recessão global.

Em seu ponto de vista, além do impacto econômico, essas mudanças levaram a conformidade social e conflitos em regiões como o Oriente Médio.

Integração regional

Idalmes disse que Cuba promove a ideia de que os processos de integração na América Latina e no Caribe devem ser baseados na unidade, na diversidade e no respeito mútuo. “Somos diversos, por isso temos que nos unir, mas com as características de cada um, com a história e as tradições de cada um”, disse a dirigente cubana.

Nesse sentido, fez uma alusão aos projetos com visões comuns e “Bem Viver” no Equador, o “Viver Bem” na Bolívia e “Um mundo melhor é possível” em Cuba, que visam a convivência sustentável e harmoniosa do homem e da natureza.

"É uma das bandeiras que Cuba sempre defendeu, somos pessoas diferentes, com objetivos semelhantes e vamos defender esses princípios em todas as áreas", disse ela.

Cuba socialista

Ao finalizar sua fala no Foro de São Paulo, Idalmis Brooks afirmou que “Cuba é e sempre será socialista”. Ela defendeu ainda a viabilidade do socialismo para combater a atual crise do capitalismo.

Jovens cubanos denunciam ações desestabilizadoras dos EUA

Nesta terça-feira (26), durante o Foro de São Paulo que ocorre na Bolívia, a delegação de jovens de Cuba denunciou as ações subversivas dos Estados Unidos contra Cuba.

José Ángel Mauri, diretor de Relações Internacionais da União da Juventude Comunista de Cuba, disse que eles exigem a cessação imediata de tais operações intervencionistas, promovidas pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).

"Estamos aqui para denunciar essa manipulação, não só em Cuba, mas as do nosso continente, denunciar as ações que são direcionadas a dividir e criar conflitos entre os nossos países", disse.

Em sua opinião, os planos da USAID representam uma violação permanente da soberania nacional, a interferência e a intervenção na política interna de um país independente.

A juventude do país caribenho vai usar a sua participação no fórum para exigir a libertação de três cubanos presos desde 1998 nos Estados Unidos. “Também pretendo defender a unidade da nova geração para apoiar o processo de integração na América Latina e no Caribe, e os governos progressistas da região para lutar contra as ameaças de desestabilização. É um desafio unificar a juventude de esquerda para alcançar a independência e sociedades melhores, por isso temos de trocar experiências levar a vitória para a integração", disse Mauri.

Também presente no evento, o delegado da Nicarágua, Carlos Fonseca, afirmou que a esquerda latino-americana continua a avançar, apesar das tentativas imperialistas de contê-la.

Fonseca disse à plenária do Fórum que "a esquerda continua na América Latina. Passando por em El Salvador, um presidente militante revolucionário. Na Costa Rica, não havia espaço e agora tem espaços institucionais de grande porte. Em Honduras, existe agora espaços muito importantes em todos áreas da vida social, apesar dos grandes problemas que o país enfrenta".

O líder nicaraguense também se referiu à Venezuela e disse que "muitos querem pintar como se houvesse uma grande crise. Não, apesar de ter morrido o principal líder da revolução, nossos irmãos bolivarianos venceram as eleições presidenciais”.

Da redação do Vemelho, com informações da Prensa Latina

Foro de São Paulo debate os caminhos para a paz na América Latina

Por Ramon de Castro, para a Rádio Vermelho

A jornalista do Portal Vermelho, Thea Rodrigues, entrevistou nesta quinta-feira (28), com exclusividade a presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP), Socorro Gomes, que participou dos debates da oficina temática Continente de Paz realizada durante o 20º Encontro do Foro de São Paulo, em La Paz, na Bolívia.

“Nesta mesa nós consideramos de fundamental importância a continuidade da paz que é um dos maiores desafios e já é um compromisso político até declarado pelo presidente de Cuba na Celac”, disse Socorro. “A integração dos povos latino-americanos e caribenhos surge para resistir contra as agressões constantes em nossas vidas do imperialismo norte-americano, basta lembrar-se da Alca, da tentativa de golpe na Venezuela, o bloqueio em Cuba e tantas outras agressões”, completou.

“Atualmente temos consolidado governos progressistas que cuidam da justiça social de seus respectivos países como nas questões do analfabetismo, no combate a miséria, às desigualdades, na educação, na saúde, ou seja, a atenção a esses temas é infinitamente maior do que quando assumiram”, contou a presidenta do CMP.

“Na contra mão da União Europeia que assalta os recursos e a economia dos países menos desenvolvidos, como por exemplo, o caos que vive a Grécia, nós queremos para a América Latina uma integração que seja solidária, que busque romper com as assimetrias entre os países e que de força a cada nação no sentido de avançar no âmbito social com justiça e democracia e isso foi amplamente discutido durante as atividades do Foro”, explicou Socorro.

“Outro grande desafio é acabar com as 70 bases militares norte americanas em nosso continente nos cercando e nos ameaçando, isso é terrorismo por parte dos Estados Unidos”, indagou Gomes. “Nós avançamos até aqui e vamos avançar cada vez mais respeitando as diferenças de cada país e somente com a unidade dos povos vamos conseguir de fato uma região de paz”, concluiu.

CLIQUE AQUÍ PARA OUVIR a entrevista

Leia também:

20º Encontro do Foro de São Paulo

Confira a cobertura completa do Foro de São Paulo

Para os EUA e aliados o Irã é exceção.

Sanguessugado do Olhar o Mundo

O realismo dos reis.

Luiz Eça

 

Para o Ocidente, o “provável” programa nuclear militar iraniano seria uma ameaça ao mundo.

De posse de uma bomba atômica, os aiatolás não hesitariam em atacar Israel. Quem sabe também a Arábia Saudita e até mesmo a Europa. E – porque não? – os próprios EUA.

Todas estas suposições acabam de ser desmentidas por quem teria mais autoridade no assunto: o Pentágono.

Segundo o insuspeito informativo Bloomberg, de 20 de agosto,  a mais alta autoridade militar americana acredita que: “A estratégia militar do Irã é defensiva, planejada para deter um ataque, sobreviver a um ataque inicial, retaliar contra o agressor e forçar uma solução diplomática.”

A esse respeito, Kenneth Katzman, analista do Oriente Médio do Serviço de Pesquisas do Congresso, lembra que as posições anteriores do Pentágono “foram consistentemente cheias de suspeitas, assumindo o pior quanto às intenções e potencialidades do Irã.”

Essa mudança pode ser atribuída à nova orientação do presidente Rouhani, que trouxe transparência às atividades nucleares do seu país.

Com isso, ele ganhou a confiança do IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica), cujos relatórios mostram que o Irã vem cumprindo suas obrigações para com os P5+1.

Voltando às conclusões do Pentágono, quem negaria a um país o direito de possuir armas para se defender?

Afinal, defender-se não é um direito exclusivo de Israel.

Para os EUA e aliados o Irã é exceção.

Eles exigem que o país reduza ao máximo o número de suas centrífugas. Assim, caso quisessem produzir uma bomba nuclear, levaria mais de um ano, dando tempo para que os americanos agissem para impedir.

Os iranianos aceitam interromper seu programa de instalação de novas centrífugas.

Mas, querem conservar as existentes para ter sua bomba pronta para retaliar em poucos meses, em caso de agressão externa.

Assim como Israel teme o Irã, o Irã teme Israel.

Mesmo que o Pentágono errasse por excesso de boa vontade em relação à república islâmica – o que me parece prá lá de impossível – a redução exigida é desnecessária.

Se Teerã decidisse tornar militar o seu programa nuclear até agora pacífico, isso seria imediatamente detectado pelos inspetores do IAEA, que estão constantemente fiscalizando as usinas de Fordow e Natanz.

Eles relatariam tudo às grandes potências que poderiam sem demora transformar os projetos iranianos em cinzas.

Este raciocínio me parece lógico, infelizmente, não é a lógica, mas sim a política, o interesse político, que orienta os EUA nas suas relações com o Irã.

Obama não pretende perder nem os votos, nem os financiamentos judeus nas próximas eleições legislativas americanas, em novembro.

Até lá, não se espere uma solução justa para a questão nuclear iraniana.

País pode estar perto de recessão moderada, diz Conceição Tavares

Via IHU

A economista Maria da Conceição Tavares, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem mostrado preocupação com o pensamento econômico de maneira geral. Uma crise de ideias dada pela perda das utopias, como ela tem reforçado. Em um dos seus artigos mais recentes, publicado este ano na "Insight Inteligência", ela chamou o momento atual de "era das distopias", quando se perde inclusive a ousadia no pensar.

A entrevsita é de Vanessa Jurgenfeld, publicada pelo jornal Valor, 29-08-2014.

Para a ex-deputada federal pelo PT, além da crise de ideias, o Brasil enfrenta uma crise da indústria, que precisa ser revertida. Apesar de achar que o país pode não crescer neste ano, Conceição diz que, se houver uma recessão, ela será moderada.

Eis a entrevista.

Em um dos seus textos mais recentes, "A era das distopias", a sra. diz que não gosta de dar entrevistas porque não quer engrossar o coro de lamentações dos intelectuais. A sra. falava de uma crise do pensamento intelectual?

Eu acho isso. Na verdade, não temos mais o pensamento utópico, por isso eu falei em distopia. Esse seminário [2º Congresso Internacional do Centro Celso Furtado] foi uma tentativa de discutir um pensamento utópico porque foi uma tentativa de discutir desenvolvimento com democracia avançada. Isso [a distopia] inclusive impede, quando você fica ruim dessa maneira, que se veja o que aconteceu. Se você olhar esses últimos anos, do ponto de vista social, foram anos muito fecundos. Foi a primeira vez que se tentou de fato colocar o social na frente e subordinar o resto e não o contrário como se fazia, de colocar a economia na frente e o social no que sobrava. Mas nem essa parte o pessoal está conseguindo reconhecer. E agora, claro, quando ainda por cima aparecem problemas econômicos, como é o caso agora dessa conjuntura, daí então é que as cabeças começam a fundir mesmo.

Neste artigo, a sra. afirma que a redução da desigualdade foi a única coisa que se pode dizer que o PT cumpriu...

Esta foi uma das enormes conquistas, porque o pessoal não se dá conta de que ninguém nunca focou nas desigualdades. O nosso desenvolvimento era desigual por definição e todo mundo aceitava na maior tranquilidade que era isso mesmo. Nem a luta de classes era clássica, não tinha luta de classes entre os de baixo e os de cima, era entre os de cima só.

A sra. escreveu que o mundo reformista está mal e que o mundo revolucionário também e que esse tipo de pensamento teria sumido.

Praticamente. Não sobrou quase nada. Tanto que eu acho que nós somos uma das poucas experiências que ainda estão tentando ser reformistas. Mas assim mesmo é insuficiente. Imagina os outros países? É uma palavra fora do dicionário. Sobrou só o mundo neoliberal ou o mundo do capitalismo selvagem.

Nesta análise, a sra. diz que as pessoas estão perdidas em termos políticos e econômicos.

Não só as pessoas, mas as instituições. A imprensa, que é uma instituição, está completamente perdida e só faz aumentar a confusão reinante, os intelectuais propriamente ditos e a universidade também não têm proposta maior. Isso obviamente não é característica de um país num período emergente. Ao contrário. Essas são características de um país em crise. Mas eu não acho que a crise seja tão profunda quanto o imaginário das pessoas está fazendo sobre. Estou moderadamente otimista sobre o futuro do Brasil porque sou meio materialista-histórica neste sentido. O Brasil é um negócio que está maduro já para avançar e tem avançado em certas coisas. Mas, se isso não é percebido pelos principais agentes sociais, a sociedade fica meio paralisada.

A sra. considera que o país vive uma crise do setor industrial, de qual magnitude?

Acho que estamos vivendo uma crise no setor industrial, sim. Aliás, esta é praticamente a única crise que está à vista. Porque não está à vista nenhuma crise no agrobusiness nem uma crise maior nos serviços. Além de haver problemas em algumas certas infraestruturas, o que é visível. E eu estou falando em crise porque vai além daquilo que está ocorrendo no mundo.

Poderia explicar melhor?

No mundo está ocorrendo um processo geral de desindustrialização no sentido de que a participação da indústria no valor agregado do Produto Interno Bruto (PIB) diminui, ao contrário de serviços. E isso é geral. Mas estou dizendo que além disso, que é um fenômeno praticamente estatístico e que os países desenvolvidos já tinham entrado nesta etapa há muito tempo, tem o problema que a própria indústria que está aí não está resistindo à concorrência vinda sobretudo da China. E, por outro lado, a crise internacional dos mercados para onde nós habitualmente exportávamos virou uma certa complexidade e bateu na indústria. Como a verdade é que é quase impossível concorrer com chineses nessas condições em que estamos - e isso para quase todo mundo, não só para nós -, o coeficiente de penetração de importações na indústria aumentou muitíssimo e o grau de desnacionalização consequentemente também.

E o que se deve fazer para revitalizar a indústria?

Pode perguntar, mas eu acho difícil, porque você tinha que ter um grau de intervenção maior no comércio exterior e que o Brasil não tem nenhuma tradição de ter. Não é só a política cambial que dá problema - e ela dá também -, mas é que como você está com a taxa de juros alta, aparentemente para combater a inflação, o câmbio obviamente aprecia. Com o câmbio apreciado, não há indústria que aguente, quem dirá a nossa. Mas não é só isso. Eu acho que teriam que ser boladas algumas maneiras de furar a coisa antiprotecionista do liberalismo porque o liberalismo econômico não supõe que você possa proteger nada. Acho que precisava dar uma proteção a essa indústria fazendo uma certa regulação das importações.

É possível esse tipo de mudança neste momento?

Não há pacto político tampouco porque o capital financeiro está ligado ao capital industrial. Na verdade, a indústria está assim porque parte do seu sócio menor [o capital financeiro] está virando sócio maior. E o rentismo está predominando na economia brasileira. Não só na economia brasileira, isso é um problema mundial.

A sra. se refere ao fato de que não se vê muitos empresários em defesa de questões tradicionais como juros mais baixos para a melhora da produção, nem câmbio desvalorizado, por exemplo?

Não tenho visto eles pedirem protecionismo. Tenho visto eles pedirem favores.

A sra. considera que há alguns setores débeis na economia. Quais são esses setores e o que se deve fazer com eles?

Isso só com um diagnóstico mais apurado. Imagino que os tradicionais estejam mal: têxtil, calçados, todos que são bens de consumo de massa. Creio que não estão em muito boa situação pela concorrência maior no mercado internacional. Esses setores requereriam uma proteção mais intensa.

Deve-se ajudá-los e não deixá-los sob o risco de desaparecerem?

Não tem que desaparecer setor algum. E teria também que melhorar a produtividade não baixando salários, como o pessoal está propondo, que é um absurdo. Tem que melhorar a produtividade com introdução de inovação tecnológica. Também somos um país muito pouco inovador. A inovação tecnológica nossa é de 1,2% do PIB. Teria que ir subindo, mas não existe um patamar pré-determinado. Falo de introdução de tecnologia em setores já existentes, para melhorar suas eficiências. Não precisa trazer nenhum novo setor. Temos todos os setores aqui. A indústria brasileira é madura. Não falta setor, mas boa parte ficou velha, precocemente madura.

Alguns economistas não consideram que a indústria seja tão fundamental para a economia brasileira, com avanço do agronegócio e do setor de serviços. A indústria continua sendo carro-chefe para o desenvolvimento?

Carro-chefe ela não é de jeito nenhum no momento. Se fosse carro-chefe, não estávamos arrombados. Pelo lado da indústria, [a economia] não vai. Não é o carro-chefe, mas ela continua sendo a espinha vertebral, digamos. Por exemplo, tem o agrobusiness, tem. Mas a indústria é fundamental porque a agroindústria tem uma base industrial também, não é só uma base agrícola. No setor de serviços - e isso é importante - de qualquer maneira todos eles [os serviços] passam por um apoio industrial. A única coisa que eu estou otimista é que os novos [investimentos], tanto o do pré-sal quanto de parte do agronegócio, estão requerendo efeitos para trás em cadeia que vão revigorar a indústria. Então, estou mais otimista a médio prazo, mais por força da maturação de outros setores que têm demanda derivada sobre a indústria. E isso tem a ver com proteção. Por exemplo, em plataformas de petróleo era tudo importado. Não tinha nada produzido aqui e agora está sendo quase tudo produzido aqui, menos equipamentos elétricos com mais sofisticação. Mas teve impacto enorme sobre a indústria naval, que tinha quase acabado.

Em relação aos investimentos em infraestrutura, que avaliação a sra. faz?

O investimento em infraestrutura também tem que aumentar, inclusive para compensar um pouco o fato de que há um ciclo de consumo que está se esgotando. Tem que acelerar, sobretudo os urbanos. Os ferroviários-urbanos, os ferroviários de um modo geral, estão um pouco atrasados, e os de água e saneamento, que são fundamentais para uma nova civilização. Você não pode dar apenas consumo às massas nem apenas emprego. Tem que dar condições de salubridade mínima.

A sra. acha que essa crise da indústria é um dos grandes desafios do novo eleito à presidência?

Creio que não, porque ninguém está chiando. Sem a pressão, acho difícil haver mudanças. Quem teria que estar chiando são os empresários, os quais estão pedindo favores. Estão pedindo isenções, não estão pedindo proteção. A gente vê que neste último semestre a demanda por projetos no BNDES caiu, não está mais tão alta como estava. Há uma desaceleração mesmo da taxa de investimento.

A sra. entende que a economia brasileira está em recessão?

A gente pode estar perto de uma recessão. Se bobear, se não fizer alguma coisa para sair disso, podemos estar perto de uma recessão. Mas acho que seria uma recessão moderada. Eu insisto que, como você tem uma base de consumo mínima pelas próprias políticas sociais, isso por si só já garante uma base de sustentação, então, nunca vai ser uma recessão forte. E, por outro lado, estamos digerindo a crise externa relativamente bem. Mas a economia está desacelerando. Este ano, provavelmente, não vamos crescer nada.

Quão grave seria isso?

Desde que não atinja o emprego e o salário não é muito grave para os pobres, digamos. É grave para os ricos, que vivem do investimento. Mas essa triangulação do capital financeiro com a agroindústria e com a indústria propriamente dita é muito ruim porque a gente nunca pode dizer se eles não preferem uma taxa de juros alta para fazer rentismo em vez de crescimento. Sendo assim, fica difícil dizer quem são os elementos da classe dominante.

A sra. considera que é importante mudar a política macroeconômica para recuperar a indústria?

Não só a indústria, mas para recuperar a atividade de um modo geral. Para isso, você teria que baixar a taxa de juros para poder fazer minidesvalorizações do câmbio e isso pudesse tornar mais competitiva a indústria.

Com a atual taxa de juros, a 11% ao ano, quem vai querer investir em infraestrutura?

O público. O investimento público tem que crescer, fazendo um superávit fiscal menor. Eu defendo políticas anticíclicas, evidentemente. A essa altura, se você tem medo de uma recessão, tem que fazer política anticíclica e não pró-cíclica.

O que o Banco Central está fazendo agora a sra. consideraria uma política pró-cíclica?

No momento, ele não está fazendo nada. Ele está parado em cima da taxa de juro tal como ela está. Ele fez pró-cíclica antes, há alguns meses, sob pretexto de combater a inflação, mas depois ele achou que a inflação estava cedendo devagarinho, mas estava cedendo, e agora está sentado em cima. Provavelmente, está esperando que a inflação baixe mais um pouco para baixar a taxa de juros.

Agora era hora de uma medida anticíclica?

Que precisam ser tomadas medidas anticíclicas não há a menor dúvida. Faz poucos meses que a conjuntura mudou e piorou. Mas não sei se dá para esperar mais ou não. A conjuntura mudou no último semestre, não estava ruim. Ao contrário. Estávamos crescendo 2,4% per capita ao ano durante uma década. Foi uma década de crescimento bom, satisfatório. Não aquele crescimento dos anos 1970, de 7%. Isso aí pode esquecer que não vai ter mais. A própria China teve que reduzir a taxa de crescimento dela pela metade com a crise internacional. Com a conjuntura internacional como está, não dá para crescer aloprado, mas dá para crescer bem, tipo 3% ou 4%.

Crescer a 7% não dá mais para o Brasil?

Não, isso já passou. Aquilo era a etapa da instalação da indústria. Agora já está instalada.

A sra. participou de um Congresso que lembrou os dez anos da morte de Celso Furtado. Ele falava muito da importância do planejamento do país. Como a sra. vê isso hoje no Brasil?

Está mal. Só estamos fazendo planejamento na infraestrutura e nem assim mesmo não está funcionando muito bem. Mas não creio que os programas de aceleração do crescimento tenham realmente acelerado o crescimento. Eles estão meio pasmados. Mas planejamento no sentido histórico não tem havido. Tem havido as linhas estratégicas da ação. Linhas básicas. Mas planejamento propriamente dito não. Quem faz o planejamento são as empresas públicas grandes. A Petrobras faz. A infraestrutura de um modo geral é toda planejada senão você não consegue avançar, mas, fora isso, planejamento no sentido mais conceitual, mais utópico a la Furtado, não vejo mais. E acho que nosso Ministério do Planejamento, por exemplo, está praticamente acabado. Foi liquidado.

Entre outros aspectos, algo que preocupava Furtado era a tendência da economia brasileira ao subemprego. A sra. acha que isso ainda está presente?

Não há nenhuma tendência ao subemprego. Ao contrário. Essa tendência é que a gente reverteu. A única coisa que dá para aplaudir esse governo é que reverteu a tendência ao subemprego, aumentou a tendência ao emprego de carteiras assinadas, fez política de salário mínimo adequada, de crescimento dos salários baixos, e estendeu a previdência social a setores que não tinham cobertura.

Sobre a baixa penetração do progresso técnico que Furtado destacava, qual a avaliação da sra.?

Isso vai bem devagar. Ocorre basicamente só no setor de infraestrutura e do agrobusiness. O setor de petróleo é uma fonte de progresso técnico e a Embrapa [empresa brasileira de pesquisa agrícola] também. A produtividade fantástica do agrobusiness brasileiro não é apenas porque a terra do Brasil é boa. Tem pesquisa dura para este setor com a Embrapa. Esses dois setores foram bem. Tanto foram bem que estão dando resultados. Mas os instrumentos tradicionais, de usar a Finep, e o BNDES, para programa de investimento não foram muito bem. O BNDES está financiamento mais agrobusiness do que propriamente a indústria.

Está certo o BNDES financiar mais o agronegócio do que a indústria?

Não tem demanda para projetos industriais. Se os empresários não querem investir, fica difícil. Não dá para estatizar a economia inteira. Se não tem demanda para indústria, ele [o BNDES] vai para aquilo que tem demanda. Senão vai parar o investimento completamente. Não está errado. O que está errado são os nossos empresários. Mas eu insisto que, se o fenômeno for tão profundo quanto o fato que eles [empresários do setor produtivo] se fundiram com o capital financeiro, aí realmente não tenho nenhuma resposta do que se faça. Não vou dizer que se faça uma revolução, que parece completamente desproporcional.

PT se acomodou em ter poder e cargo, diz Olívio Dutra

Via Carta Capital

Candidato ao Senado pelo RS pede união de partidos de esquerda e diz que irá lutar por reformas profundas. Leia a entrevista com o ex-governador

Piero Locatelli

 

Emilio Pedroso/ UPPRS

Olívio Dutra

Ex-governador, Dutra disputa uma eleição após oito anos

O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (PT) disputa uma nova eleição após oito anos. Uma das vozes mais críticas dentro do PT, Olívio tem como principais rivais o ex-apresentador da RBS Lasier Martins (PDT) e Pedro Simon (PMDB), que entrou na disputa após Beto Albuquerque (PSB) tornar-se vice de Marina Silva na disputa à Presidência.

As principais plataformas de Olívio na disputa são a reforma fiscal, agrária, urbana e política, nenhuma delas concretizada pelo governo do seu partido nos últimos doze anos. Olívio disse que deve fazer o debate interno no PT e que não busca “conforto” em seu mandato. Segundo ele, o PT se acomodou, e agora deve buscar a união com partidos de esquerda.

Leia abaixo trechos da entrevista com o candidato:

CartaCapital: Sua última eleição foi em 2006, quando foi derrotado pela Yeda Crusius (PSDB) na disputa ao governo estadual. O que o senhor fez neste período?

Olívio Dutra: Nunca parei de militar por um projeto coletivo. É um projeto do PT no que ele tem fundante, como um partido que não nasceu de cima para baixo, dos gabinetes. Tenho um compromisso com esse partido socialista e democrático, que não tem uma direção que impõe políticas. Nada é definitivo, por isso sempre estou militando, aprendendo e transmitindo as experiências que tive. Foi isto que fiz neste período, ocupado pela militância.

CC: O senhor acha que a militância vai além da disputa de cargos, então por que voltar à institucionalidade? Por que o senhor se tornou candidato?

OD: Porque a institucionalidade também é um espaço de disputa de projetos. Tinha um companheiro, o Adão Preto, filho de pequenos agricultores sem terra que foi eleito deputado estadual e umas três vezes federal. Ele nunca abdicou da sua relação com os movimentos sociais, especialmente os sem terras e os pequenos agricultores. Ele sempre é um exemplo para mim da ponte entre a institucionalidade e a não institucionalidade. A não institucionalidade é um espaço aberto onde o povo se organiza e não tem que submeter ou ser cooptado para dentro da máquina do Estado. No entanto, os movimentos sociais disputam espaço maior para seus projetos na institucionalidade.

Ele sempre dizia “um pé na luta e outro no parlamento”. Lá dentro, o espaço para nós, para os movimentos sociais, é um espaço minado pelos que compõe maioria na institucionalidade, onde predomina o poder econômico.No Senado, eu aceitei essa condição, não postulei, não reivindiquei, não queria ser. E agora eu sou de corpo inteiro, de corpo e alma nessa campanha.

CC: E por que o senhor se tornou candidato?

OD: Nesse momento fui levado a ser candidato ao Senado porque tenho adversários que vêm dessa matriz do Estado sob controle dos mais influentes, dos mais poderosos economicamente. O Estado formatado pela visão da grande mídia, ideologia que nós já enfrentamos em 1998, na eleição para o governo do Estado. De 1994 a 1998, [o governador Antônio Britto] privatizou o Estado inteiro, vendeu o patrimônio público, fez outro orçamento com o patrimônio público, e o estado ficou mais endividado ainda.

CC: Mas é possível os movimentos sociais terem mais influência neste espaço?

OD: É um espaço em disputa onde os partidos do campo popular democrático agem individualmente, separados, disputam entre si. E eu acho isso um equívoco. Eu penso que compomos um espaço de esquerda democrático plural, temos que ter uma discussão entre essas forças de forma a termos um projeto desse campo para o Brasil.

Não é por uma campanha. É para o médio e longo prazo que esse campo está devendo um contorno de unidade. Temos que fazer uma discussão e ter um projeto contra o ideário neoliberal e fazer uma alternância dentro desse campo. O povo brasileiro precisa ter clareza de qual projeto nós efetivamente temos para abraçar e conosco poder executá-lo para as grandes transformações.

CC: O senhor defende reformas estruturantes, como a reforma política com financiamento público de campanha e voto em lista. É possível aprova-la no Senado?

OD: Há necessidade de um bom debate sobre a reforma política, que eu não tenho ilusão que será do Congresso. Espero que o povo possa dar uma boa renovada, mesmo assim acho que não podemos nos iludir que seja uma reforma de lá para cá. Tem que ser uma de baixo para cima. A que a presidenta Dilma fez ano passado é importante. O Senado deve servir para fazer um bom debate.

CC: A sua gestão na prefeitura de Porto Alegre, no final dos anos 80, usou o orçamento participativo, visto como um modelo de democracia direta por alguns setores de esquerda. Mais de vinte anos depois, o governo do PT criou uma política nacional de participação social. Ela não tem um caráter deliberativo, não é consultivo como era o orçamento participativo. Qual sua visão sobre a política de participação criada pelo atual governo? Ela é suficiente?

OD: A cidadania brasileira está despertada desde os grandes movimentos pela anistia, pela liberdade dos presos políticos, o retorno dos exilados, as eleições diretas, a constituinte. A cidadania, porém, foi sendo golpeada. A anistia veio formatada pelo regime. Aquela anistia ampla que o povo queria saiu daquele jeito. Depois veio a constituinte. O povo queria ela ampla, soberana e exclusiva, mas foi um Congresso. As diretas criaram um colégio. Então, o povo está com um caroço no lombo que reprime de cima para baixo. Há um sentimento do povo brasileiro de protagonismo.

O povo está ciente que são questões da democracia e só são resolvidos com mais democracia. Quer dizer, com ampliação de espaços de intervenção do povo como protagonista. Então o povo quer conselhos deliberativos. Evidente que aí a gente cria problemas sérios de regulação, de deliberação. Os conselhos atuais são consultivos, mas o povo quer mais. Os adversários do nosso projeto não querem nem conselhos não deliberativos. Querem evitar que o povo tenha um espaço maior de participação cidadã, na definição de política, no controle da coisa pública, do controle do espaço público. É evidente que isso é um divisor de águas.

CC: A principal discussão na campanha ao Senado até agora foi um fato ocorrido em 1999. Ao assumir o governo do Estado, o senhor reviu a isenção fiscal dada pelo governo anterior para a norte-americana Ford instalar uma fábrica no estado. A empresa desistiu do negócio e instalou o parque industrial na Bahia. O senhor acha que este processo foi bem conduzido? Faria ele de forma diferente?

OD: Para mim, este assunto está encerrado pela Justiça, que condenou a Ford a pagar o que ela não prestou contas, ou que prestou errado de como gastou. A Ford está condenada a retornar mais de um bilhão de reais porque ela não fez a sua parte. Ela não respeitou um governo com o qual ela devia conversar, porque tinha uma relação com o governo anterior que ela queria continuar a manter. Ela foi para a Bahia com enormes vantagens, mais do que aquelas absurdas que queria receber aqui. E nós conseguimos negociar com outras empresas, a GM sentou com a gente e negociou.

CC: Se o senhor diz que o assunto está encerrando, por que este é o principal tema da eleição?

OD: Por falta de projeto do meu adversário. Por ele estar na matriz no mesmo grupo de interesses que aquele adversário de 98, a mesma usina de formação ideológica dos que pensam o estado como extensão dos seus negócios. É uma visão ideológica, evidente, e eles têm de expressar isso. Mostrar que esses grupos não se dizem um partido, mas são um partido, que defendem um ideário e montam as pautas para os partidos através dos quais eles inserem as suas candidaturas.

CC: O senhor foi o primeiro ministro das Cidades do governo Lula. Diversos membros da sua equipe, como a urbanista Ermínia Maricato, dizem que a reforma urbana foi uma bandeira abandonada pelo governo com a sua saída do ministério. O Minha Casa Minha Vida, por exemplo, trata a questão da moradia separadamente das outras questões urbanas. Sua candidatura propõe a reforma urbana mais ampla, agora no Senado. O senhor consegue ter esperança de fazer isso dentro do mesmo partido?

OD: Tenho esperança, porque as lutas sociais não esmoreceram com a organização popular comunitária, com a vontade de protagonismo dos movimentos de luta pela moradia. A gente não age sozinho, não adianta dizer “eu quero”. Temos de atuar em espaços adversos e não se submeter, não ser um elefante em loja de louças. Nossos partidos, e o PT em especial, infelizmente, se acomodaram dentro de um processo de exercer o poder e ter cargo. Ora, isso é parte do exercício da política, mas não o essencial. Nós tínhamos a ideia de que a moradia não era só a questão material. As pessoas são massificadas, tem de ter bem mais do que isso. Mas é certo que em um país como o nosso, de tamanha injustiça, de um déficit habitacional de sete milhões, tem que fazer progressivamente, por parte. Mas aí tem o risco de se perder na parte. Por isso que precisa ter movimentos sociais, e tem que fazer a crítica.

CC: O senhor é crítico a algumas políticas do governo, que em algum momento passam pelo Congresso, como algumas parcerias com a iniciativa privada, concessões de aeroportos, concessões na televisão. O senhor se sentiria confortável no Senado defendendo essas posições junto ao seu partido?

OD: Eu não busco conforto em um mandato. Acho que qualquer circunstância em que você está representando, e não substituindo pessoas, você não está confortável porque está no centro da contradição. O errado é fingir que não existe a contradição. Existe a contradição, evidente, tem que ver que ela existe e enfrentá-la. Tenho diferenças grandes dentro do partido, com figuras e com formas de atuação. Mas acredito que não estou sozinho nisso. E podemos trabalhar para revigorar o partido, que seja uma ferramenta firme, não frouxa, na mão dos seus filiados e simpatizantes. E que também possa dialogar com os partidos diferentes, do campo popular, da valorização da vida no seu lato sentido.

Não me sinto aí como gato em canoa, fazendo as coisas obrigado. Faço por consciência e coração. E vou para o debate, mesmo que seja internamente. E as medidas que nosso governo tem tomado também não são feitas exclusivamente pelo PT. Aí nós voltamos à questão da reforma política, da necessidade dela.

CC: Uma particularidade da eleição no Rio Grande do Sul é que dois candidatos são ex-comentaristas da RBS. Ao que o senhor atribuiu esse fato no Estado?

OD: Acho que temos um problema sério no país para a consolidação da democracia, essa questão é a falta de um marco regulatório das empresas de mídia. Não estamos falando da liberdade de imprensa e expressão, mas de como se montam grupos que monopolizam regionalmente a produção da notícia. A Constituição tem de funcionar. E ela não é favorável a essa formação de monopólios que existem nesse país. Mas não é só aqui. O Congresso está cheio de gente originária dessa mina que é a grande mídia. Chegamos a ter presidentes da República donos de repetidoras da Globo. Vai ver em outros locais, está cheio de gente umbilicalmente ligado a essa visão monopolista da produção da notícia, onde a notícia é um produto que eles embalam de acordo com seu interesse. E o pior é que eles disfarçam a sua visão ideológica partidária, são eles que municiam a centro direita contra qualquer processo que consolide a democracia para ela ser efetivamente vivida pela população e não uma democracia embutida segundo o interesse dos mais poderosos.a

sábado, 30 de agosto de 2014

Caros Amigos dá voz aos partidos excluídos

Via Diario Liberdade

Por que votar no candidato do Partido Comunista Brasileiro?

 

mauroiasi

Brasil - Caros Amigos - [Mauro Luís Iasi] O PCB (Partido Comunista Brasileiro) apresenta um programa anticapitalista e socialista para o Brasil, no entendimento de que os problemas que afetam a classe trabalhadora jamais serão resolvidos com o crescimento da economia capitalista, nem com mais mercado, nem com mais Estado.

A transição socialista tem que assumir a forma de um processo de desmercantilização das relações sociais, ao mesmo tempo em que organiza a sociedade com base em um novo modo de vida, desenvolvendo os seres humanos em todos os sentidos. A única maneira de fazer o contraponto ao poder do capital é formar um poder dos trabalhadores e da maioria da população.

Com o Poder Popular reverteremos a atual tendência de retirada e flexibilização de direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora, avançando para conquistas como a estabilidade no emprego, a recomposição dos salários com ganhos reais, o fim do desemprego, a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, dentre outros.

Leia também: Mauro Iasi do PCB: "Junho é a materialização do Bloco Revolucionário do Proletariado"

A defesa e a garantia dos direitos dos trabalhadores, da vida e da dignidade humana caminham juntas com a luta implacável contra a exploração da classe trabalhadora, das diversas opressões de gênero, sexo, regionalidade e etnia.

O Brasil, governado pelo Poder Popular, desempenhará papel decisivo na luta anti-imperialista e pelo socialismo em todo o mundo, buscando formar um polo de nações e povos que lutam contra o imperialismo e em favor de sociedades que se disponham a ter relações solidárias, complementares e pacíficas em todas as esferas, num movimento que se contraponha à ONU, dentro e fora dela.

Este projeto deve começar pela América Latina, onde o imperialismo, sobretudo o norte-americano, amplia sua ação violenta, diante das mudanças na região. Nosso programa político prevê: construção do Poder Popular, no rumo de uma Constituinte Popular, livre e soberana. Queremos uma reforma agrária radical e imediata reversão das privatizações e estatização de setores estratégicos, estatização de todo o sistema financeiro, saúde pública e SUS 100% público, estatal e gratuito e por um país sem manicômios. No que diz respeito a política cultural, nossa é para garantir o acesso universal aos bens culturais.

Outro setor prioritário será a educação pública, que deve ser gratuita e de qualidade em todos os níveis. Também lutamos pela estatização, sob controle popular, dos transportes coletivos e de massa. Entre as bandeiras defendias pelo partido também estão a previdência e assistência social integralmente públicas e gratuitas; não pagamento da dívida pública; nenhum recurso público para a iniciativa privada; garantia e ampliação de todos os direitos dos trabalhadores; desmilitarização das políticas e fim da repressão aos movimentos populares; apuração e punição de todos os crimes contra os direitos humanos na ditadura e na democracia burguesa; garantia dos direitos e de políticas específicas para as mulheres, com o direito ao aborto; garantia dos direitos e de políticas específicas para homossexuais, afro-brasileiros e as populações indígenas; punição severa às práticas de racismo, machismo, homofobia, intolerância religiosa, xenofobia e todas as formas de preconceito; e legalização da maconha.

Mauro Luís Iasi é candidato a presidência pelo Partido Cumunista Brasileiro (PCB) nas eleições de outubro/2014.

Nota:

A revista Caros Amigos pretende publicar até as eleições artigos assinados pelos candidatos a presidente dos partidos de esquerda defendendo sua candidatura - PCB, PSTU, PSol, PT e PCO. Foi proposto aos partidos/candidatos escreverem sob uma mesma pergunta: "Por que votar em ...?". O objetivo é dar visibilidade às ideias, propostas e posicionamento político de cada um dos candidatos em um espaço dedicado ao pensamento progressista.

Dez empresas são donas de 73% das sementes de todo o mundo

Via MST

Por  La Rel - UITA

Podem as grandes multinacionais agroquímicas se converterem nos donos dos alimentos que a Terra produz? Podem essas mesmas empresas transformar a natureza e suas sementes em sua exclusiva propriedade privada?

A resposta provoca espanto: Sim! Por esse motivo, a fonte dos alimentos do planeta em que vivemos está hoje em risco. Dez empresas agroquímicas são donas de 73% das sementes que existem no mercado internacional.

Devido à sua difusão em grande escala, em alguns países já desapareceram 93% das variedades tradicionais de várias sementes.

Somente no México, 1.500 variedades de milho estão em perigo de extinção, em decorrência das práticas comerciais e legais introduzidas pela Monsanto e outras nove empresas agroquímicas no mercado agrário desse país.

É duro acreditar nisso, mas estas empresas estão privatizando as origens da natureza.

A FAO afirma que essas práticas estão prejudicando a agricultura sustentável, destruindo a diversidade biológica e substituindo as variedades nativas por plantas geneticamente modificadas e vulneráveis às doenças.

Um relatório publicado pela revista National Geographic descreve este desastre:

. Em 1903, as principais variedades de milho existentes no mercado alimentar do mundo eram 307; hoje restam apenas 12 variedades.

. As de repolho eram 544; hoje restam apenas 28.

. As de alface eram 497; hoje restam apenas 36.

. As de tomate eram 408; hoje restam apenas 79

. As de beterraba eram 288; hoje restam apenas 17.

. As de rabanete eram 463; hoje restam apenas 27.

. As de pepino eram 285; hoje restam apenas 16.

Este processo de degradação da natureza é simples e ao mesmo tempo perverso. Quando uma destas multinacionais chega a um país, quase sempre amparada por uma cláusula de um tratado de livre comércio, a lógica simples da natureza é substituída por um encadeamento diabólico de procedimentos legais e comerciais, iniciado nos bancos.

A partir do momento em que a empresa agroquímica abre as suas operações comerciais em um país, os bancos se negam a financiar os camponeses que continuarem semeando as variedades tradicionais. Só dão empréstimos aos que aceitarem cultivar variedades transgênicas patenteadas.

Os bancos também não oferecem assistência técnica para quem não utilizar as suas sementes. Quando chega a época de colheita, as redes de supermercados não compram outras que não sejam as variedades de produtos transgênicos certificados com suas patentes. Depois da colheita, os agricultores não podem conservar as suas sementes.

Os contratos os obrigam a destruí-las. Para voltar a semeá-las, deverão comprar novas sementes patenteadas. Do contrário, são denunciados e submetidos a longos e onerosos processos judiciais.

Os resultados deste encadeamento asfixiante são dramáticos. Somente na Índia, milhares de camponeses se suicidaram desde 1990, e o seu número disparou até chegar a 15 mil camponeses por ano, desde 2001, pressionados por dívidas impagáveis e por embargos judiciais.

Para tragédias como estas, é importante incluir as catástrofes ecológicas provocadas pelo uso em grande escada de agrotóxicos altamente nocivos visando a controlar as pragas nos cultivos transgênicos. Um dos agrotóxicos produzidos pela Monsanto está acabando com milhões de abelhas em vários países da Europa.

Em lugar de suspenderem a venda de seus venenos, a empresa está desenvolvendo em seus laboratórios abelhas robóticas para polinizarem as plantas. Se este projeto for levado adiante, os agricultores europeus não só terão que pagar à Monsanto pelas sementes patenteadas e pelos agrotóxicos, também terão que pagar pelas abelhas...

Se o mundo continuar governado por esta lógica abusiva, as grandes multinacionais agroquímicas vão acabar patenteando como propriedade privada até o livro da Gênese, onde a Monsanto será a criadora de toda a “vida” na Terra.

A fúria do Imperador: o caos tomará o mundo!

Via Diário  Liberdade

James Petras

No centro do caos, o Presidente Obama, de olhar ameaçador, ataca cegamente, alheio às consequências, disposto a arriscar um descalabro financeiro ou uma guerra nuclear.

 

Reforça sanções contra o Irão; impõe sanções à Rússia; constrói bases de mísseis que podem atingir Moscovo em cinco minutos; envia drones assassinos contra o Paquistão, Iémen e Afeganistão; fornece armas aos mercenários na Síria; treina e equipa curdos no Iraque e financia a selvajaria de Israel contra Gaza.

Introdução: O caos está instalado e vai-se espalhando à medida que chefes de estado enfurecidos nos EUA, na Europa e seus clientes e aliados prosseguem guerras genocidas. Guerras mercenárias na Síria; o bombardeio terrorista de Israel em Gaza; guerras por procuração na Ucrânia, Paquistão, Iraque, Afeganistão, Líbia e Somália.

Dezenas de milhões de refugiados fogem de cenários de destruição total. Já nada é sagrado. Não há santuários a salvo. Casas, escolas, hospitais e famílias inteiras constituem alvo de destruição.

Caos por encomenda

No centro do caos, o Presidente Obama, de olhar ameaçador, ataca cegamente, alheio às consequências, disposto a arriscar um descalabro financeiro ou uma guerra nuclear. Reforça sanções contra o Irão; impõe sanções à Rússia; constrói bases de mísseis que podem atingir Moscovo em cinco minutos; envia drones assassinos contra o Paquistão, Iémen e Afeganistão; fornece armas aos mercenários na Síria; treina e equipa curdos no Iraque e financia a selvajaria de Israel contra Gaza.

Nada funciona

O presidente responsável pelo caos ignora o facto de que impor a fome aos adversários não assegura a sua submissão: promove a unidade na resistência. A mudança de regime, impondo intermediários pela força e usando subterfúgios, pode destruir o tecido social destas complexas sociedades: milhões de camponeses e trabalhadores tornam-se refugiados desenraizados. Movimentos sociais populares são substituídos por grupos criminosos organizados e exércitos de bandidos.

A América Central, produto de décadas de intervenções militares diretas e por intermediários, que impediram as mudanças estruturais mais básicas, tornou-se um inferno caótico, insuportável para milhões. Dezenas de milhares de crianças fogem da pobreza em massa induzida pelo "mercado livre", estado militarizado e violência gangster. Crianças refugiadas na fronteira com os EUA são detidas em massa e presas em campos de detenção improvisados, sujeitos a abuso psicológico, físico e sexual por funcionários e guardas lá dentro. Cá fora, estas crianças miseráveis são expostas ao ódio racista de um público norte-americano assustado, não ciente dos perigos a que estas crianças escapam e do papel do governo os EUA na criação deste inferno.

As autoridades de aviação de Kiev, apoiadas pelos EUA, redirecionaram companhias aéreas internacionais de passageiros para voar sobre zonas de guerra repletas de mísseis antiaéreos, enquanto aviões de Kiev bombardearam as cidades rebeldes. Um voo foi abatido e cerca de 300 civis morreram. Imediatamente se seguiu uma explosão de denúncias de Kiev culpando o presidente russo Putin, inundado meios de comunicação ocidentais, sem factos reais para explicar a tragédia / crime. O beligerante Obama e os primeiros-ministros lacaios da UE dispararam ultimatos, ameaçando converter a Rússia num estado excluído. "Sanções, sanções por toda a parte... mas primeiro... A França deve dar por terminada a sua venda de 1,5 mil milhões à marinha russa." E Londres protege os oligarcas russos, livres das sanções, envolvidos como estão na lavagem de dinheiro feita nesta cidade, na economia parasita do estilo FIRE (Fire, Insurance and Real Estate). A Guerra-fria regressou e deu uma destas voltas... À excepção dos negócios.

A confrontação ente os poderes nucleares está eminente: e os maníacos estados do Báltico e a Polónia reclamam mais alto pela guerra com a Rússia, esquecendo a posição em que estão, na linha da frente de fogo.

A cada dia, a máquina de guerra israelita dizima mais crianças em Gaza, enquanto continua a deitar mentiras cá para fora. Judeus israelitas assistem, entusiásticos, das suas colinas fortificadas, e celebram cada míssil que atinge os prédios e as escolas do bairro Shejaiya, densamente povoado, numa Faixa de Gaza cercada. Um grupo de empresários ortodoxos e seculares em Brooklyn organizou excursões para visitar as cidades sagradas durante o dia e desfrutar a pirotecnia em Gaza durante a noite... óculos para visão nocturna estão disponíveis por pouco mais, para ver as mães em fuga e as crianças queimadas.

Mais uma vez, o Senado dos EUA vota unanimemente em apoio à última campanha de genocídio israelita; parece que não há crime suficientemente deplorável para abanar os escrúpulos dos líderes dos EUA. Ficam próximo de um texto assinado pelos 52 presidentes das maiores organizações judaicas dos EUA. Todos juntos abraçam a besta do Apocalipse, agarrados à carne e aos ossos da Palestina.
Mas, helas! os sionistas franceses dominam o "presidente socialista" Hollande. Paris bane qualquer manifestação contra Israel apesar dos relatórios inequívocos de genocídio. Os manifestantes que apoiam a resistência em Gaza são gaseados e batidos pelas forças especiais antimotim. O "socialista" Hollande serve as exigências das poderosas organizações sionistas, desprezando as tradições republicanas do seu país e os seus sagrados "Direitos do Homem".

Os jovens manifestantes de Paris responderam com barricadas e pedras da calçada nas melhores tradições da Comuna de Paris, agitando as bandeiras de uma Palestina Livre. Nem uma "bandeira vermelha" em vista: a esquerda "francesa" escondeu-se debaixo da cama ou então foi de férias.

Há sinais preocupantes longe dos campos de batalha. As bolsas de valores agitam-se enquanto a economia estagna. Os especuladores selvagens regressaram no seu esplendor, aumentando a distância entre a economia fictícia e real que havia antes do "dilúvio", o caos que anuncia outro crash inevitável.

Em Detroit, outrora grande centro da América industrial, a água potável é fechada a dezenas de milhares de pobres que não podem pagar serviços básicos. Em pleno Verão, famílias urbanas têm de fazer as necessidades em ruelas, azinhagas e descampados. Sem água, os sanitários entopem, as crianças não se lavam. Roscoe, o canalizador, diz que o trabalho está para além das suas possibilidades.

De acordo com os nossos economistas famosos, a economia de Detroit está "a recuperar ... os lucros subiram, apenas as pessoas sofrem". A produtividade duplicou, os especuladores estão satisfeitos; as pensões são cortadas e os salários descem; mas os Detroit Tigers estão em primeiro lugar.

Os hospitais públicos fecham por todo o lado. Em Bronx e em Brooklyn, serviços de urgência estão à pinha. É o caos. Os internos fazem turnos de 36 horas... e os doentes e feridos arriscam a sorte perante um médico com privação de sono. Entretanto, em Manhattan, os clínicos privados e a cirurgia estética para as elites prosperam.

Os escandinavos apoiam o poder instalado por via de um golpe de estado em Kiev. O Ministro dos Estrangeiros sueco Bildt grita por uma nova guerra fria com a Rússia. O emissário dinamarquês e líder da NATO, Rasmussen, saliva obscenidades ante a perspetiva de bombardear e destruir a Síria, repetindo a "vitória" da NATO sobre a Líbia.

Os líderes alemães patrocinam o genocídio israelita em Gaza; estão confortavelmente protegidos de qualquer consciência moral pela sua nostálgica "culpa" pelos crimes nazis de há 70 anos.

Terroristas da Jihad no Iraque financiados pela Arábia Saudita mostraram a sua "misericórdia infinita" simplesmente retirando milhares de cristãos da antiga Mossul. Quase 2 000 anos de contínua presença cristã foi o bastante. Pelo menos muitos escaparam ainda com a cabeça entre as orelhas.

Caos por toda a parte

Mais de cem mil agentes da Agência de Segurança Nacional dos EUA são pagos para espiar dois milhões de cidadãos e residentes muçulmanos nos EUA. Mas, por todas as dezenas de milhares de milhões de dólares gastos e dezenas de milhões de conversas gravadas, a caridade islâmica é alvo de processos e há filantropos que são apanhados em emboscadas.
Onde caem as bombas ninguém sabe, mas as pessoas estão a fugir. Milhões fogem do caos.
Mas não têm para onde ir! Os franceses invadem meia dúzia de países africanos mas os refugiados veem recusado asilo em França. Milhares morrem no deserto, ou afogados a atravessar o Mediterrâneo. Aqueles que conseguem são chamados criminosos ou relegados para guetos e campos.

Reina o caos em África, no Médio Oriente, na América Central e em Detroit. Toda a fronteira dos EUA com o México se tornou um centro militar de detenção, um campo prisional multinacional. A fronteira está irreconhecível para a nossa geração.
Reina o caos nos mercados, mascarado de sanções de natureza comercial: ontem o Irão, hoje a Rússia, amanhã a China. Washington deverá tomar cuidado! Os seus adversários estão a encontrar terreno comum, a estabelecer comércio, a forjar acordos, a construir defesas; os seus laços estão mais fortes.

Reina o caos em Israel. Obcecados pela guerra, os israelitas descobrem agora que o povo eleito de Deus também sangra e também morre, os seus corpos também perdem membros e olhos nas ruas de Gaza, onde homens e rapazes pobres defendem a sua terra. Quando as celebrações derem lugar a lamentações, irão reeleger Bibi, o seu açougueiro de serviço? Os seus irmãos do outro lado do oceano, que financiam Israel, os homens dos lobbies e os comentadores beligerantes, irão automaticamente adoptar uma nova face, sem questões, arrependimentos, ou (Deus não permita!) autocrítica; se é "bom para Israel e para os Judeus", tem de ser justo.

O caos reina em Nova Iorque. Julgamentos favorecem os piratas e os seus fundos depredatórios, que exigem um retorno de mil por cento em fundos argentinos. Se a Argentina rejeitar esta chantagem financeira, as ondas de choque irão sentir-se nos mercados financeiros globais. Os credores irão tremer de incerteza: irá crescer o medo de um novo crash financeiro. Conseguirão sacar mais um resgate de triliões de dólares?
Mas onde está o dinheiro? As máquinas trabalham dia e noite para o imprimir. Há poucos botes salva-vidas... o suficiente para os banqueiros e Wall Street, os outros 99% terão de nadar ou servir de comida para os tubarões.

A imprensa financeira corrupta agora aconselha os senhores da guerra sobre que país bombardear, e os políticos sobre como impor sanções económicas; já não fornecem informação escorreita sobre economia, nem aconselham os investidores sobre os mercados. Os seus editoriais irão incitar um investidor a correr para comprar este mundo e o outro enquanto os bancos vão à falência.

O presidente dos EUA está quase a ter um esgotamento: é um mentiroso de proporções dantescas e com um caso grave de paranoia política, histeria bélica e megalomania. Está fora de controlo, aos berros: "eu mando no mundo: são os EUA ou o caos". Mas, cada vez mais, o mundo tem outra mensagem: "São os EUA e o caos".

Wall Street abandona-o. Os russos traíram-no. Os mercadores chineses fazem agora negócios em todos os lugares onde estávamos e deveríamos estar. Jogam com dados viciados. Os teimosos somalis recusam submeter-se a um presidente negro: rejeitam este "Martin Luther King dos drones"... Os alemães mordem os dedos, furiosos, à medida que os americanos monitorizam e gravam cada uma das suas conversas... para sua própria segurança! "As nossas corporações são ingratas, depois de tudo o que fizemos por elas", rosna o primeiro presidente negro. "Fogem dos nossos impostos enquanto subsidiamos as suas operações!"

Soluções finais: o fim do caos

A única solução é continuar: o caos gera o caos. O Presidente esforça-se por proteger a sua "liderança". Faz aos seus conselheiros mais próximos perguntas muito difíceis: "Por que razão não podemos bombardear a Rússia, como Israel bombardeia Gaza? Porque não construímos uma 'cúpula de ferro' sobre a Europa e anulamos os misseis nucleares russos, enquanto abrimos fogo sobre Moscovo das nossas novas bases na Ucrânia? Que países deverá a nossa 'cúpula' proteger? Tenho a certeza que os povos da Europa de Leste e dos estados bálticos farão de bom grado o sacrifício supremo. No fim de contas, os seus líderes espumavam por uma guerra com a Rússia. A sua recompensa, uma devastação nuclear, será um preço pequeno para assegurar o nosso sucesso!"

O lobby sionista insistirá que a nossa 'cúpula de ferro' deverá proteger Israel. Mas os sauditas poderão tentar subornar os russos a poupar os campos do petróleo enquanto Moscovo aponta às bases de mísseis dos EUA perto de Meca. Os nossos aliados nucleares no Médio Oriente terão mesmo que mudar para uma nova terra sagrada.

Obama e os seus conselheiros pensarão em reduzir a população asiática em um ou dois milhões? Estarão a planear várias centenas de Hiroshimas pelo facto de os chineses terem pisado as "linhas vermelhas" do Presidente? A economia e o comércio chineses cresceram demasiado depressa, expandiram-se demasiado depressa, tornou-se demasiado competitiva, demasiado competente, demasiado bem-sucedida em obter quotas de mercado, e os chineses ignoraram os nossos avisos e o nosso poderio militar sem paralelo.

A maior parte da Ásia irá respirar poeira nuclear, milhões de indianos e indonésios morrerão como danos colaterais. Os que sobreviverem irão banquetear-se com peixe radioactivo pescado num mar contaminado.

Para além do caos: um novo american way

Porque a nossa 'cúpula de ferro' irá falhar, teremos de reemergir das cinzas toxicas e sair dos nossos abrigos, sonhando com uma América livre de guerras e da pobreza. O reino do caos terá chegado ao fim. A "paz e a ordem" irão reinar no cemitério.
Os imperadores serão esquecidos.

E nunca chegaremos a saber quem disparou o míssil que atingiu o malogrado voo malaio com os seus 300 passageiros e tripulação. Teremos perdido a conta aos milhares de palestinos, entre pais e filhos, esmagados em Gaza pelo povo eleito de Israel. Não saberemos no que deram as sanções contra a Rússia.

Não importará, numa era pós-nuclear, depois do caos.

Tradução de André Rodrigues