quinta-feira, 31 de julho de 2014

DILMA E O SANTANDER

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

(Hoje em Dia) - Diz a sabedoria popular que frango que acompanha pato acaba morrendo afogado. Sempre estranhamos, ao longo dos últimos governos, a excessiva atenção reservada, pela classe política brasileira, para o que existe de pior no empresariado ibérico, em especial o oriundo da Espanha a partir dos anos 90.

Criou-se em nosso país, com a entrada de  Madrid no Euro, a ilusão de que a Espanha, que passou a maior parte do século XX mergulhada em uma ditadura medieval e agrária, tivesse sido – pela simples troca da peseta por uma moeda mais valorizada - subitamente alçada ao desenvolvimento.

Nos séculos XIX e XX, em processo que vinha se consolidando desde a derrocada de sua Invencível Armada, Madrid viveu à sombra da Inglaterra e dos EUA, que se apossaram do que restou de seu império, na Guerra Hispano-Americana de 1898.

De Cervantes a Picasso, a Espanha deu grande contribuição ao mundo. Mas nunca foi o paradigma de empreendedorismo e de pujança  com que aportou por aqui à época do PROER e das grandes privatizações.

Desde 2008, pelo menos, sabe-se que a  “fortaleza” ibérica estava baseada em bilhões de euros em ajuda dos fundos da Comunidade  Europeia e em centenas de bilhões de euros em dívidas, que deixaram em seu rastro um desemprego de quase 30%, e milhares de famílias despejadas e de aposentados prejudicados pelos bancos.

Quando se fala no IDH espanhol, é preciso lembrar que, por trás dele, está uma das maiores dívidas per capita do mundo. E que, se não fosse o hábito de exportar seus problemas e seus desempregados para países como o nosso, a cada duas gerações, os espanhóis não teriam o padrão de vida que tiveram até alguns anos atrás.

Na época em que, na América Latina, havia maioria de governos neoliberais, os “empresários” espanhóis eram recebidos, por aqui, como nababos.     

E, o que é pior, continuaram a ter direito aos mesmos rapapés, depois da crise,  quando suas ”grandes” empresas, altamente endividadas, começaram a depender, como de água para um peixe no deserto, dos altíssimos lucros auferidos em território brasileiro. 

Sempre nos surpreendeu – e sobre isso escrevemos antes – o número de vezes em que o Senhor Emilio Botín - investigado, no passado, em seu país e execrado por boa parte da população espanhola - foi recebido em Palácio pela Presidente Dilma.

Nunca é conveniente que um presidente da República receba pessoalmente homens de negócio, e muito menos se forem estrangeiros. Para isso existem os ministros, como o da Indústria e Comércio ou o da Fazenda, por exemplo.

Se tivesse evitado os sorrisos e as fotografias  que propiciou ao dono do Santander,  por tantas vezes, com certeza a Presidente Dilma estaria se sentindo, agora, menos constrangida – depois da carta desse banco a “investidores”,  desancando  a orientação e as expectativas econômicas de seu governo.  

Beto Almeida: Telesur, 9 anos

Via Brasil de Fato

Creio ser justo admitir que a esquerda brasileira tem uma dívida com a Telesur, cujo sinal está acessível ape­nas nas TVs Comunitárias de Brasília, Rio, Florianópolis e Recife

Beto Almeida

Em 24 de julho, a Telesur, emissora multi-estatal se­diada na Venezuela, criada por Hugo Chávez para enamo­rar os povos por meio da integração cultural-informativa, completou 9 anos. Nesta data começou a emitir informa­ções também em inglês.

O Brasil ainda não se associou à emissora, embora es­teja no Banco do Sul e na Petrosul. Mas Lula aproveitou o belo programa De Zurda, quando a Telesur, na Copa, es­calou Maradona como brilhante comentarista – para elo­giar tanto o craque como a emissora criada por Chávez. Lula disse que andando pelo mundo, sempre vê o sinal de Telesur e destacou sua função para a democratização e in­tegração informativas.

Recordo um debate sobre mídia na Comissão Brasileira Justiça e Paz, da Conferência Nacional dos Bispos do Bra­sil (CNBB), quando um deputado federal petista e tam­bém jornalista argumentou que “a referência em matéria de comunicação era Lula e não Chávez”. A resposta veio pelo tempo e o vento, com o próprio Lula enaltecendo a Telesur como legado de Chávez. E também porque Lula tem reconhecido que não foi feito, ainda, todo o possível e necessário em matéria de democratização da comuni­cação no Brasil, nos 12 anos do PT no governo. O desa­fio continua.

A Telesur já é captada em sinal aberto e gratuito na Argentina, Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba, e, obvia­mente, Venezuela. É uma das razões das críticas da di­reita ao bolivarianismo, porque democratiza a informa­ção, além de erradicar o analfabetismo, expandir os di­reitos sociais, pagar melhores salários e combater a fo­me e as doenças. E a Telesur, tal como queria Chávez, faz não apenas a narrativa deste processo de transfor­mações, mas é parte dele.

Creio ser justo admitir que a esquerda brasileira tem uma dívida com a Telesur, cujo sinal está acessível ape­nas nas TVs Comunitárias de Brasília, Rio, Florianópolis e Recife. A TV Brasil sequer cumpre o convênio firmado com a Telesur. É hora de uma boa campanha para levar a TV Brasil a fazer parte do esforço de integração que o go­verno brasileiro já vem fazendo. Seria um bom presente de aniversário para a Telesur, essa filhota bonita do Chá­vez. E muito bom para os brasileiros.

Nazi-sionistas: a verdade escondida nos túneis

Via GGN

 

Jornal GGN - Para o colunista da Folha de São Paulo Janio de Freitas, os túneis construídos por combatentes palestinos como motivo dos ataques de Israel "são apenas uma mentira a mais". O jornalista argumenta que o pano de fundo dos bombardeios ocorridos nas últimas semanas é a posse presidencial de Reuven Rivlin, integrante do Likud, mesmo partido de Binyamin Netanyahu. Reuven Rivlin defende a multiplicação de assentamentos israelenses na Cisjordânia e combate a hipótese de um Estado Palestino.

Da Folha

Espaço vital e mortal

Os túneis dos combatentes palestinos como motivo dos ataques de Israel a Gaza são apenas uma mentira a mais

Janio de Freitas

Destruir por bombardeio a única usina de energia elétrica em Gaza não é procurar e destruir túneis dos combatentes palestinos. É o modo escolhido de causar o dano mais geral à população civil e às instalações essenciais que são os hospitais e postos de socorro ao que reste de vida nas vítimas das bombas, do canhoneio naval e dos tiros de tanques. Crime de guerra, pela Convenção de Genebra, e crime contra a humanidade, pelos princípios da ONU e pelas leis internacionais.

Os túneis como motivo dos ataques são apenas uma mentira a mais. O sistema de informação e vigilância de Israel não seria enganado, enquanto o Hamas construiria rede subterrânea tão extensa e sofisticada quanto diz o governo israelense. Mentira como a velha alegação de que os hospitais, escolas, mesquitas e moradias destruídos serviam de depósitos de armas e munição do Hamas. Se fossem, o ataque a tanto material explosivo teria levado toda Gaza pelos ares há muito tempo. Em vez disso, ruínas e crateras documentadas são compatíveis com o efeito normal dos bombardeios, sem a expansão de paióis explodidos.

O objetivo não são os túneis. Nem o foram os lançadores de foguetes do Hamas, como alegado ao início do atual ataque. O objetivo que pode explicar tamanho massacre é outro. Tem nome, já foi assunto de interesse da imprensa na Europa há uns 30 anos, mas veio a ficar cercado por um silêncio raras vezes transposto. O mesmo silêncio útil, e em grande parte pelas mesmas razões, adotado no último dia 24, quinta-feira.

Uma posse presidencial não é fato que passe sem se fazer notar. Tanto mais se quem deixa o posto é o último estadista de Israel, que se despede da vida pública aos 90 anos, e Nobel da Paz há exatos 20 anos. Foi diante de poucos convidados, no entanto, que Shimon Peres entregou a Presidência a Reuven Rivlin, que fez carreira como advogado de árabes moradores no território israelense. Sem que a atividade profissional tenha qualquer significado político.

O novo presidente de Israel não é apenas de ultradireita, integrante do mesmo Likud do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Ex-oficial de informação do Exército, Reuven Rivlin defende e incentiva a multiplicação de bairros ("assentamentos") israelenses em terras da Cisjordânia. Combate a hipótese do Estado Palestino previsto no ato de criação de Israel pela ONU. Em último caso, diz, seria admissível conceder aos árabes da Cisjordânia a cidadania de israelenses.

Reuven Rivlin é entusiasta e propagador do plano Grande Israel, hoje raramente citado, ao menos de público. Projeto que se origina (ou termina) em ideia semelhante à do "espaço vital" que figurou nas causas da Segunda Guerra Mundial. Nele se vê a explicação para os continuados "assentamentos", apesar da condenação da ONU e do poder conflituoso que têm, além de serem obstáculo central nos arremedos de diálogo de paz entre Israel e Cisjordânia.

Com o cadastro de Reuven Rivlin, o realce à sua posse tenderia a agravar a imagem de Israel propagada por sua ferocidade bélica. Mas a importância da ligação ostensiva do novo presidente com o plano Grande Israel não é só um prenúncio de sua ação futura. É componente lógico de um plano de ação que está muito acima dos túneis. E é levado pelas bombas à terra necessária à grandeza sonhada

O SERPENTUÁRIO TUCANO

Via Jornal O Rebate

Laerte Braga

O fato da bancada do JORNAL NACIONAL ter-se transformado em comitê eleitoral do PSDB, não significa que o partido vá vencer as eleições presidenciais deste ano. Nem os artigos pífios de Eliane Catanhede na FOLHA DE SÃO PAULO. Nesse jornal você lê, quando tem estômago, o que escreve a assessora de José Serra e nas páginas à frente encontra Jânio de Freitas restabelecendo a lucidez e o brilho do jornalismo.


O jingle de campanha do governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, exclui o nome de Aécio Neves, candidato do partido a presidente. O aeroporto privado de Cláudio, construído com dinheiro público, o de Montezuma, para favorecer negócios de uma empresa do ex-governador de Minas e sua irmã, pesam e são como pedras levando a candidatura presidencial ao fundo.


O “vamos conversar” de Aécio termina quando as perguntas são incômodas e a expressão para isso é simples. “Assunto encerrado”. Não há conversa, imagina estar em Minas Gerais, onde comprou a mídia e deita rola com distorções, omissões e mentiras.
O ninho tucano é um serpentuário e tem José Serra pronto para o “sacrifício” de uma candidatura presidencial, caso Aécio perceba suas impossibilidades, ou seja forçado a renunciar à candidatura diante de um quadro cada vez pior e numa certa medida aterrador.


Quem não conhecia Aécio já está chegando à conclusão que, cada vez que o candidato abre a boca, espanta milhares de eleitores. É bem mais que um desmiolado, ou é um desmiolado por conta de drogas, corrupção em que é réu num processo no Tribunal de Justiça de Minas, por desvio de verbas da saúde, ou pelas bebedeiras nos bares do Leblon, seja dirigindo com carteira vencida e para lá de Bagdá.


Não adiantam nem os esforços e esgares de um pulha chamado Arnaldo Jabor. Sua opinião não vale um centavo depois de preconizar um “vexame” na Copa do Mundo. No duro mesmo, mistura torcida com opinião jornalística e aí vai para o brejo. Sonha ser Paulo Francis, mas nem nas fraldas está.


E nem tem como chegar. Fez um ou outro filme de sucesso, mas como ator é um desastre, caricatura de um canastrão.


Serra tem que apressar o girar da metralhadora para que Aécio perceba seu fracasso. Num determinado momento o seu plano pode virar suicídio e aí não interessa.


O plano”B” de Alckmin e Serra é a reeleição de Dilma Roussef, apostando num fenômeno chamado “fadiga do PT, em 2018 e a perspectiva de reentrar em cena glorioso e triunfal, como princesa Anastácia a esquecida (Aécio retirou-a dos escombros da história), mas original.


Os dois, Serra e Alckmin são aliados até as eleições, depois não. Vão se picar no serpentuário tucano, vai emergir aquele cujo veneno for mais forte e mais rápido e decisivo.


Sabem que Marina, pelo menos até agora, cometeu haraquiri na aliança com um descerebrado como Eduardo Campos e em 2018 será uma pálida lembrança, a despeito das voltas que a política dá, da incapacidade de montar sequer um partido.


E até a serpente maior, FHC, já se disse disposto a ser candidato. Seria ótimo, iria para o devido lugar que a história lhe reserva, o almoxarifado dos vultos negativos.

Nesse ninho de serpentes, Aécio é uma cobrinha inexpressiva, está sendo devorado e suas explosões públicas, ou suas jogadas de bandido de terceira categoria não estão resultando no que ele imaginava. Nem com as bruxarias de sua irmã Andréa.

Lição 1 de Titio Dequinel: o que é descerebrado?

Paulo Roberto Cequinel

Bom dia, crianças!

Hoje Titio Dequinel vai explicar o significado da palavra descerebrado. Estudem bem, vai cair na prova de outubro!

Condição caracterizada por postura anormal decorrente do conflito entre "ser contra a corrupção" e a decisão de votar em Aécio Neves, com lesões dolorosas do tronco cognitivo-político.

Pode ocorrer como manifestação política ou induzida experimentalmente, em geral por grandes veículos da mídia, em tucanos, inclusive os tucanos-esticadinhos, como Álvaro Botox Dias, em tucanos-engomadinhos como Beto Richa e em jaguaras de diferentes origens.

Os reflexos são exagerados levando à extensão rígida dos membros acompanhada de antipetismo histriônico e viralatice aguda. Esta condição normalmente é causada por lesões que ocorrem na região sudeste do córtex cerebral, e normalmente consiste de dano cerebral difuso, o que leva os descerebrados a acreditar que estamos no limiar de uma ditadura comunista.

(Tradução livre do original: Xequinel et al., Principles of Tucanology, 6th ed, p358).

Comentário da minha ameba lobotomizada:

Data venia, peço desculpas ao augusto, Ave César!, Traulitatus Doisbertum Cequipimentorae in rebus outrem refrescorum est, por tê-lo(ai) indicado a uma cadeira na casa dos imortais da ABL. Retiro a indicação por humanismo extremado, pois, sei que o prolatado Prínciples of Tucanology se descerebraria ao primeiro chá servido com biscoitos por Sarney, FHC e... Paulo Coelho.

Ipse dixt.

Esse moço é um equivocado nato ou só um ébrio nato?

Camile Helena Claudel

Bom dia !!!!

Aécio será que construir aeroporto da sua família , com dinheiro público, em local de já constatado de diíficil acesso para o povo, tb é um equívoco?

Os valores superfaturados na pavimentação são um equívoco?

A dívida de Minas que, com vc governador aumentou, foi um equívoco?

A liberdade cerceada de seus jornalistas desafetos é um equívoco?

A sua proposta de política econômica ultrapassada, seria outro equívoco?

Sua candidatura ,afinal, não seria um enorme equívoco?

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Minha ameba lobotomizada pergunta:

“- Esse moço é um equivocado nato ou só um ébrio nato?”

Genocídios, nas voltas da História

Via Carta Capital

Israel ocupa a Palestina e tratá-lo como vítima é pretender negar o último direito que assiste ao invadido: lutar contra a ocupação

Roberto Amaral

 

Said Khatib / AFP

Funeral na Palestina

Na terça-feira 29, em Rafah, palestinos acompanham o funeral de membros de três famílias que foram mortos em um bombardeio israelense em Khan Younis

Onde está, se é que existe, se ainda existe ou se alguma vez existiu, a ‘opinião pública internacional? Diante da covardia do mundo aprisionado pelo sistema financeiro internacional, só nos resta a condenação moral.

Logo no início da Segunda Guerra Mundial, já em 1939, a então Tchecoslováquia foi invadida e ocupada pelas tropas alemães. Seus cidadãos foram transformados em súditos do Reich, seu exército incorporado às tropas nazistas e seu governo era agora o governo alemão. Mesmo o esmagador poder da guerra, porém, não silencia os patriotas. A resistência à ocupação se fez e ela era civil, como seria, anos mais tarde, a resistência dos maquis na França, dos partisans na Iugoslávia e em todos os países ocupados, reunindo, entre outros, comunistas, judeus e cristãos. As ações de resistência eram óbvias porque não há um leque de opções quando se confrontam o exército ocupante com os grupos civis da resistência: pequenos atentados, sabotagens, assaltos para a obtenção de armas, assassinatos de oficiais da SS, ações de guerrilha, enfim, o que possível fosse nos termos da abissal assimetria de forças.

Reinhard Heydrich era um oficial alemão das tristemente notórias SS, conhecido pela sua violência contra todos os tchecos, mas principalmente comunistas, ciganos e judeus. Carregava o pomposo título de ‘Protetor do Terceiro Reich na Boêmia e Morávia’ ocupadas. Foi um dos idealizadores da ‘Solução final’, mas era, acima de tudo, dileto amigo de Hitler e Himmler.

As circunstâncias colocaram o criminoso de guerra e a resistência no mesmo cenário. No dia 27 de maio de 1942, dois jovens tchecos, treinados pela inteligência inglesa, que dava assistência logística e militar à resistência, conseguem realizar com sucesso um atentado contra Heydrich. Ferido, o oficial da SS morreria uma semana depois.

Lídice era uma pequena aldeia mineira da Boêmia, a poucos quilômetros de Praga, capital da Tchecoslováquia, onde se dera o atentado. Contava com algo como 500 habitantes.

A reação guerrilheira era insuportável para o Reich. Hitler ordena o extermínio do vilarejo, onde, supunha a SS, se escondiam os ‘terroristas’. No dia 10 de junho daquele ano de 1942 a cidade foi cercada pelas tropas nazistas, seus habitantes, judeus ou não, comunistas ou não, homens maiores de 15 anos foram presos e no dia seguinte fuzilados; as mulheres e crianças enviadas para o campo de concentração de Ravernsbruck onde, na sua grande maioria, viriam a morrer, muitas de fome.

Mesmo assim o ódio não se aplacara. Morta sua gente, a própria cidade física precisava ser punida, como retaliação ao mau passo de sua gente, servindo a vingança hedionda de exemplo do que poderia acontecer contra quem ousasse desafiar o invasor. Lídice foi destruída, casa por casa, edifício por edifício, foram explodidos e os escombros aplainados por tratores. Ficou a terra lisa, mais tarde transformada em campo de centeio. Ainda não era, porém, suficiente para aplacar o ódio paranoico. Hitler mudou o curso do rio que servia à cidade e determinou sua retirada do mapa da Tchecoslováquia. Mas a sede de vingança do monstro luciferino era insaciável. Outra cidade, Lezaky, pagando pelo mesmo crime, foi destruída e seus habitantes assassinados, e assassinatos ensanguentaram todo o país, pelo ‘crime’ de não haver-se conformado com a ocupação. Ao todo a História estima  em 1.500 o número de mortos nessa vingança. Naquele ano, então sem a cobertura jornalística dos nossos dias, os alemães cuidaram de divulgar o grande feito, como advertência a todos os resistentes da Europa ocupada. Era preciso mostrar que não se estabeleciam limites na retaliação. Os ingleses, por sua parte, produziram um filme, ‘A vila silenciosa’, e muitos e muitos outros filmes foram produzidos pelo Ocidente (para os cinéfilos sugiro O Assassínio de Reinhard Heydrich, Massacre e genocídio, a história de Lidice, Lidice Lives; mini-documentary e The Launch of the "Lidice Shall Live Campaign" - Stoke-on-Trent Sept 6th 1942).

Moral da história: um alemão vale 1.500 Tchecos.

O símbolo da hediondez nazista, porém, não foi esquecido e o mundo homenageia suas vítimas batizando cidades e vilas com o nome da cidade Tcheca que, assim, contrariando a vontade do Reich, jamais seria esquecida. Em homenagem às vítimas tchecas batizamos de Lídice, no Estado do Rio de Janeiro, a 40 quilômetros de Angra dos Reis, a antiga cidade de Santo Antônio do Capivari. Vale a pena conhecê-la. No centro da cidade o visitante verá a estátua de uma Fênix, símbolo do renascer contínuo.

Esse genocídio não era o primeiro nem seria o último. Antes, em 1937, Guernica, a cidade basca da Bascaia, com 4.500 habitantes, foi bombardeada e totalmente destruída por aviões alemães. Dela, em sua memória, mas acima de tudo como denúncia da barbárie, ficou a obra-prima de Picasso.

Assim, nem a barbárie nem suas vítimas serão esquecidas.

A Faixa de Gaza é uma faixa de terra de 40 quilômetros de extensão e menos de 10 de largura, onde se espremem dois milhões de palestinos desterrados, que dela não podem sair. São palestinos que perderam suas terras em 1948 (onde hoje é Israel era PalestIna) para que pudesse ser criado o Estado de Israel, cujo território, todavia, não para de crescer desde a guerra de 1967, ocupando territórios árabes (Cisjordânia e Jerusalém Oriental), sírios (as Colinas de Golã) e libanees (as Fazendas de Sheba). Gaza está sitiada, bloqueada por terra, mar e ar por Israel, controla a entrada de alimentos, o fornecimento de água e energia, o trânsito de seus habitantes e seu comércio. Os ocupados, porém, não aceitam a ocupação, e resistem. Gaza, por isso, é acusada de abrigar terroristas, responsáveis por incursões aos territórios ocupados por Israel que tentam atingir com ataques de misseis artesanais, quase sempre frustrados. Esta é a justificativa para o cerco a Gaza, o bombardeio aéreo, terrestre e marítimo de sua população civil e, finalmente, sua invasão. Não há o clássico teatro de guerra. Os ataques são desferidos contra conjuntos residenciais da mais densamente populosa faixa de terra do mundo, e atingem escolas, mesquitas, hospitais e mesmo instalações da ONU, a inerte. Qualquer cifra relativa ao número de mortos e feridos está desatualizada logo após seu anúncio. No sábado 26, quando do início da trégua para que os palestinos pudessem catar seus mortos, esses se contavam em mais de 1.500. Irrelevante lembrar que a cidade também está sendo destruída, mas ainda com seus habitantes. O objetivo desta feita é vingar o injustificável – sob todo e qualquer ponto de vista-- assassinato de dois jovens judeus (que implicou o assassinato de um jovem palestino por colonos judeus) e desaconselhar os resistentes à insurgência contra o invasor. (A propósito, há forte indícios de que o Hamas não é autor do sequestro e assassinato dos jovens israelenses).

O que ocorre em Gaza não é uma guerra, não se trata de  guerra quando de um lado morrem mais de mil (contam-se em mais de cinco mil o número de feridos e não se conhece o número de desabrigados e desaparecidos) e de outro menos de 50, esses, vítimas do braço armado do Hamas, que ganhou as eleições em Gaza, e o Fatah, que administra parte da Cisjordânia.

Não se pode falar em guerra quando de um lado estão inatingíveis pilotos de bombardeiros, condutores de tanques, operadores de radar e de mísseis acionados por controle remoto, e de outro civis em suas casas, ou procurando proteção em escolas, hospitais e mesquitas, que não são mais abrigo, pois também alvo das bombas. Não é guerra o conflito que opõe de um lado forças armadas poderosíssimas, exército sofisticadamente equipado e, de outro, um povo desarmado, sem direito ao seu território, sem direito a ter seu Estado. É preciso lembrar: Israel ocupa a Palestina e tratá-lo como vítima é pretender negar o último direito que assiste ao invadido: lutar contra a ocupação. O nome disso a que estamos assistindo, pela enésima vez, não é apenas massacre covarde, é genocídio planejado. A desproporção bélica é ainda maior do que a de vítimas, simplesmente porque é abissal: os civis palestinos (lembrando, Gaza não dispõe de forças armadas) enfrentam o sexto maior exército do mundo que, ademais, se isso não fosse bastante, tem ainda a assistência e o apoio do maior exército do mundo, o dos EUA, que, aliás, são tão ou mais responsáveis – por ação e omissão— pelo genocídio em curso. No ataque à escola mantida pela ONU, a inerte, pereceram 15 pessoas, entre mulheres, crianças e funcionários das Nações Unidas. Pelo menos 200 feridos. Não se trata da morte de soldados em combate, homens e mulheres treinados para a guerra, para matar e morrer. Os palestinos de Gaza são treinados apenas para a última hipótese.

O exército israelense se defende dizendo que, antes de matar, avisa que vai matar, para que as futuras vítimas procurem abrigo. Se não encontram, ou se os que encontram não têm serventia, ora... que arquem com as consequências.

É uma cretinice igualar moralmente e por isso pedir igual condenação para a violência assimétrica, o que, em última análise,  valeria como absolvição do agressor, e na hipótese há um Estado agressor, e este Estado tem nome, e seu nome é Israel.  É cretinice esquecer que o Estado de Israel ocupa território palestino, e impede que o povo palestino se organize como Estado, e é pura cretinice ignorar que em Israel o mais de um milhão de árabes que lá habitam são vitimas de um apartheid que na história contemporânea só encontra similar no apartheid da África do Sul racista.

São quase 70 anos de genocídio, um quase século de silêncio, uma das mais pérfidas formas de ação. Onde está a autodenominada civilização ocidental e cristã, cuja omissão retira-lhe o que lhe restava (se lhe restava) de autoridade moral? O humanista que se cala renuncia ao humanismo, e sua proclamação independe de justificativas ou razões éticas ou morais.

Onde está, se é que existe, se ainda existe ou se alguma vez existiu, a ‘opinião pública internacional? Diante da covardia do mundo aprisionado pelo sistema financeiro internacional, só nos resta a condenação moral.

Enquanto isso, a imprensa europeia, principalmente francesa, registra sintomas do que chama de ‘novo antissemitismo’, no qual, na Alemanha, tomam carona as inefáveis hordas saudosistas do nazismo. Um atraso histórico e civilizacional, que ameaça a Humanidade. Que estará espicaçando esses sentimentos primitivos, que tanta miséria já nos causaram?

Leia mais em www.ramaral.org.br

Apresentamos nosso novo documentário: “Helicoca – O Helicóptero de 50 milhões de reais”

Sanguessugado do Diário do Centro do Mundo

Kiko Nogueira

Joaquim de Carvalho

Joaquim de Carvalho

Você conhece a história. Em novembro de 2013, 445 quilos de pasta base de cocaína foram apreendidos numa fazenda de Afonso Cláudio, no Espírito Santo.

A droga fora transportada num helicóptero da família Perrella, de Minas Gerais. Em menos dois meses, Zezé e Gustavo Perrella — pai e filho amigos e aliados de Aécio Neves — foram isentados de responsabilidade sobre o crime, segundo um delegado da Polícia Federal bastante apressado. Em seis, todas as pessoas autuadas em flagrante foram inocentadas.

O DCM contou as imbricações do escândalo em uma série de reportagens que batizamos de “O Helicóptero de 50 milhões de reais”. As matérias foram financiadas por nossos leitores num esquema de crowdfinding com a plataforma Catarse.

O experiente jornalista Joaquim de Carvalho realizou um trabalho notável. Conversou com juízes, advogados, promotores, políticos etc. Revelou que, na rota do chamado Helicoca (o apelido carinhoso que o processo ganhou na Justiça), houve uma parada num hotel fazendo em Jarinu, interior de São Paulo. Parte da carga pesada teria ficado ali. A polícia não deu prosseguimento à investigação.

Entrevistou o piloto da aeronave, Alexandre José de Oliveira Júnior, que trocou mensagens de celular, no dia da ocorrência, com Gustavo Perrella. Num encontro tenso, Alexandre contou que fora contratado para trazer “eletrônicos e medicamentos veterinários do Paraguai”. Para ele, “era contrabando de mercadorias, não tráfico de drogas”.

Em Minas, JC visitou a fazenda dos Perrellas. Antecipamos, com exclusividade, que o Ministério Público do Estado denunciou o deputado federal Gustavo Perrella por uso indevido de verbas da Assembleia Legislativa.

Lançamos agora o nosso documentário sobre o Helicoca. A direção é de Alice Riff, de “Dr. Melgaço”, o primeiro projeto de crowdfunding do DCM.

O vídeo levanta várias questões sobre a impunidade, sobre a guerra às drogas, sobre as relações promíscuas entre poder, justiça e polícia no país. Um capítulo pode ter chegado ao fim, mas o caso está longe de ser encerrado. Nosso compromisso continua sendo, como sempre, manter você a par de tudo.

Crime (Israel) e Castigo (Rússia)

Sanguessugado do redecastorphoto

 

Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye

Crime (Israel) and punishment (Russia)

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O horrível, dos Dois Minutos de Ódio, não era que se fosse obrigado a agir como todos os outros, mas que era impossível negar-se a participar.

Um frenesi odioso de medo e vingancismo, um desejo de matar, torturar, esmagar cabeças com uma marreta parecia percorrer todo o grupo como uma corrente elétrica, convertendo cada um, mesmo contra a própria vontade, em lunático que berra ameaças e faz caretas horrendas.(George Orwell, 1984).

"Os 5 Fabulosos"

Quer dizer então que Obama, Merkel, Cameron, Hollande e o premiê italiano Matteo Renzi – “Os 5 Fabulosos” – reuniram-se lá numa videoconferência para darem-se mutuamente coragem e “aumentar a pressão”, e “exigir” um cessar-fogo em Gaza. Horas depois, Benjamin "Bibi" Netanyahu de Israel distribuiu sua resposta, em palavras claras: nada jamais o afastará da ideia de que, dessa vez, sim, o mundo conhecerá a versão dele de uma Solução Final para Gaza. Com ou sem “pressão”.

Assim sendo, o que restou aos 5 Fabulosos, depois que Bibi chutou tão sem-cerimônias o traseiro ocidental coletivo deles? Pois foi quando resolveram deixar Gaza de lado e... sancionar a Rússia – outra vez. Não lhes parece estratégica brilhantíssima, para quem tanto precisava tentar salvar a cara?

Aquela espetacular não entidade, Tony Blinken, que reforça o orçamento trabalhando como vice-conselheiro de segurança nacional de Barack Obama, teve a gentileza de explicar à imprensa-empresa ocidental, que o pessoal-lá, aquela gangue sem leis do Eurolixo, está, afinal “decidido a agir”. Não, não, não contra Israel, por causa de Gaza; contra a Rússia, por causa da Ucrânia. Que adorável simetria orwelliana: os Dois Minutos de Ódio prorrogados de Israel contra os gazenses convertem-se em Dois Minutos de Ódio prorrogados do “Ocidente” contra a Rússia, perfeita reprodução dos Dois Minutos de Ódio prorrogados de Kiev contra os ucranianos do leste.

Nem Hollywood teria concebido trama semelhante: Israel safa-se da cadeia, apesar do assassinato premeditado em massa de civis... E a Rússia é enquadrada por causa de assassinato de passageiros de um avião civil, caso que tem todas as características de ter sido obra dos vassalos em Kiev dos “parceiros” ocidentais da Rússia.

Em outro artigo já discuti como sanções, sanções, sanções é a única “política” do governo Obama para a Rússia. Além das próximas sanções que virão sem demora da União Europeia, vêm aí também – e o que mais seria – mais sanções dos EUA. Afinal, os EUA está tão “preocupados” porque Moscou pode, mais dia menos dia, invadir a Ucrânia, o que seria resposta caída dos céus para aqueles rezadores lá de “In God We Trust” como no papel-dinheiro.

"Você não está apavorado?"

Em que pé ficamos agora

Acompanhemos os fatos. Washington disse, desde o primeiro instante, que o MH17 fora derrubado por míssil do presidente russo Vladimir Putin. Juraram que teriam provas. Tipo “A gente tem certeza. Confiem na gente”. A história comprova, pelo menos, há 60 anos, que não se deve confiar neles. Não havia provas. Nenhuma prova jamais apareceu. Só diz-que-disse.

Moscou, pela voz do Ministro da Defesa, exibiu provas sólidas. E recomendou que se fizesse investigação internacional independente não enviesada. Washington ignorou tudo: as provas e a recomendação.

A Marinha dos EUA, com seus radares de altíssima tecnologia e última geração, estavam há semanas no Mar Negro. Como os russos, tinham rastreamento completo de cada partícula que sobrevoasse a Ucrânia. A Agência de Segurança Nacional dos EUA não faz outra coisa, além de reunir inteligência naquela área; a Agência Nacional de Inteligência/Geoespacial só faz registrar tudo que se passe no reino da imagem; a Agência de Inteligência da Defesa acrescenta “inteligência humana”, Humint; e mais a CIA; e o Diretor de Inteligência Nacional, que tudo vê/tudo sabe. Como é possível que esse aparato de três trilhões de dólares para Dominação de Pleno Espectro não tivesse visto nada?! Como é possível que não tenham uma única prova, uma, que seja, conclusiva, a apresentar?

A única “prova”, risível, que se viu até agora mostra uma salada de letrinhas de siglas, de agências de inteligência dos EUA que consomem o horário de expediente inteiro a ler blogs e tuitar. O chefe do Departamento de Estado em Kiev tuitou imagens de satélite, o New York Times papagueou o tuíto e assim “provou” que a Rússia estaria bombardeando a Ucrânia do seu lado da fronteira. Até que apareceram proverbiais “altos funcionários” dos EUA, que tiveram de admitir, tensíssimos, ao vivo, que não, não havia prova alguma do “míssil de Putin”. Se houvesse, a OTAN estava preparada para disparar saquinhos de hambúrgueres sobre a Praça Vermelha.

Considerada a riqueza de informação já divulgada, a mais forte probabilidade sobre o que causou a tragédia do MH17 é um míssil R-60M ar-ar, disparado de um jato ucraniano Su-25 – não de um BUK (há também a possibilidade de que tenha havido dois ataques ao avião: primeiro o míssil R-60M, em seguida um BUK). O R-60M é muito rápido, com distância ideal de ataque de até 5 quilômetros. Essa, precisamente, é a distância em que estava, do MH17, o Su-25 que os russos detectaram (como se viu nas imagens que divulgaram).

Enquanto isso, em Donetsk...

Os serviços secretos da Ucrânia, SBU, por sua vez, confiscaram todas as gravações da torre de controle de Kiev em conversas com o MH17. Essas gravações com certeza explicariam por que o MH17 sobrevoava zona de guerra (a empresa Malaysia Airlines revelou que foram forçados). Pode-se apostar bom dinheiro em que aquelas gravações estão sendo “tratadas”.

E há também as caixas pretas, que não serão decodificadas nem pelos malaios nem pelos holandeses, mas pelos britânicos – que trabalham a serviço de Washington. Como o blogueiro The Saker resumiu a opinião de altos especialistas russos:

(...) os britânicos deixarão que a Agência de Segurança Nacional dos EUA falsifique os dados e a falsificação será coordenada com o SBU em Kiev, e eles distribuirão só as gravações que “confirmem” integralmente a ‘autenticidade’ das gravações que a ASN-EUA falsificou no Reino Unido.

Para tornar a coisa mais palatável, e apagar suspeitas de complô anglo-norte-americano, os holandeses anunciarão o “laudo”. Assim, vocês já ficam avisados.

Na OTAN, as cabeças não param. As milícias de Kiev farão “exercícios conjuntos” com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, na Ucrânia, daqui a pouco mais de um mês, dia 1º/9/2014. Alerta vermelho, porque é exatamente quando o presidente da Ucrânia Petro Poroshenko disse que a limpeza étnica em câmara lenta no Donbass estará concluída.

Quanto ao aspecto R2P (“responsabilidade de proteger”), é bem pouco provável. É verdade que, sim, Moscou sempre pode declarar que, a menos que pare a limpeza étnica em câmara lenta no Donbass, eles reconhecerão as Repúblicas Populares, de Donetsk e Luhansk. Nesse caso, Moscou estaria repetindo Abkhazia e Ossetia Sul: responsabilidade de proteger apoiada em musculatura militar.

Nos termos da lei internacional – que Washington, por falar dela, nunca respeita – não é a mesma coisa que “invadir” a Ucrânia. Uma Samantha Power, sejamos francos, que dá medo, embaixadora dos EUA na ONU, entrará obviamente em surto – mas será só dose do próprio remédio que ela tanto recomenda aos outros. Seria de fato comparável ao que os EUA estão fazendo para ajudar os jihadistas salafistas na Síria; melhor ainda: o mesmo que os EUA fizeram no Kosovo.

US$ 50 bilhões de dólares de abutres

E agora, além das sanções, Moscou também enfrenta tentativa de assalto massivo de US$ 50 bilhões. A Corte Internacional de Arbitragem em Haia descobriu que o processo que o Kremlin moveu contra a petroleira Yukos e seu principal acionista, Mikhail Khodorkovsky, há uma década, teve motivação política. Moscou não pode apelar – mas seguirá todas as vias legais para tentar “cancelar ou revogar” essa sentença.

Yukos - falcatrua da Corte Internacional de Haia

Ora essa! A decisão politicamente motivada, no caso, é a sentença do tribunal de Haia. Khodorkovsky foi considerado culpado também na Corte Europeia de Direitos Humanos, não só no sistema judicial russo. Os acionistas de Yukos e Menotep eram e continuam a ser um bando de gângsteres oligarcas – para dizer o mínimo.

Eis aí pois o Império do Caos mais uma vez em ação, manipulando uma corte holandesa depois de, literalmente, ter roubado o ouro da Alemanha e ter multado a França por vender navios de guerra à Rússia. Nesse caso, o “Ocidente” tem mais investimentos na Rússia que o governo russo no ocidente. O revide pode ser terrível – se Moscou, por exemplo, congelar todos os investimentos de EUA e da União Europeia, sobretudo os feitos na nova fronteira ultra rentável, os campos de petróleo no Ártico. O Grande Petróleo Ocidental jamais permitirá que aconteça tal coisa.

A lista poderia estender-se para sempre. Resumo de tudo: o estado russo simplesmente nunca se deixará roubar por qualquer safado que distribua sentenças para ajudar um bando de oligarcas. Paralelamente, é verdade também que não só o Retorno dos Mortos (neoconservadores) Vivos, mas também porções consideráveis do estado profundo em Washington DC e arredores – além da plutocracia “ocidental” – querem muito provocar alguma espécie de guerra da OTAN contra a Rússia e o quanto antes, melhor.

Em linha paralela, dizem os boatos em Moscou que o Kremlin considera essa prolongada batalha post-Yukos como preocupação menor, comparada à guerra econômica que ameaça convulsionar a Europa e, eventualmente, pôr a Europa em posição antagônica em relação à Rússia: exatamente o que o Império do Caos reza – e muito trabalha – para que aconteça. “Dois Minutos de Raiva”? Quem disse? Vêm por aí horas, dias, semanas e anos.


 

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:

Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War,  Nimble Books, 2007.

Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.  

Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

A resistência de Leningrado

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

Elaine Tavares

Na São Petersburgo de hoje (Leningrado na época soviética), o foco das atenções está na vida dos antigos imperadores. O grosso do interesse turístico é pelos palácios e o modo de vida dos czares. Assim, uma visita guiada circula pelos históricos prédios erguidos por Pedro, o Grande, o fundador da cidade. Até 1700 aquele espaço geográfico era dominado pelos suecos. Uma guerra comandada por Pedro, que queria uma saída para o Mar Báltico, expulsou as famílias suecas e deu início a colonização russa. Em 1703 Pedro ergue a primeira fortaleza, em homenagem aos apóstolos Pedro e Paulo e desde ali foi se espalhando a cidade. São Petersburgo tem 10% do seu território em água. É banhada pelo grande Rio Neva (74 quilômetros de extensão) e cortada por mais 86 pequenos rios e canais. A cidade, que é formada por um conjunto de 42 ilhas, foi transformada em capital da Rússia no ano de 1712 e só perdeu o posto para Moscou um ano depois da revolução, em 1918.


A história da Rússia tem um marco em Pedro, o Grande. Até ele, o país era considerado um lugar atrasado, de costumes quase bárbaros. Foi Pedro quem trouxe a "modernidade" que, n verdade foi a europeização. A partir dele, os czares deixaram de lado seu aspecto genuinamente russo, e passaram a se parecer com qualquer rei do mundo europeu, inclusive no modo de vida. Foi o fim dos palácios de madeira, que eram pequenos e simples, muito por conta do frio intenso, e o início de uma era de opulência e magnificência. Tão logo fundou São Petersburgo, Pedro mandou chamar arquitetos italianos e franceses para dar início a construção de igrejas e palácios. As igrejas seguem o estilo bizantino, da igreja ortodoxa, mas os palácios se assemelham principalmente aos franceses, em tamanho e riqueza. Só o complexo da ilha Vasilievsky, onde hoje funciona o Hermitage, tem 10 palácios, cada um deles com uma decoração extremamente rica e bem ao gosto europeu.


O museu, inclusive, é um caso à parte. É um dos maiores e mais antigos museus do mundo com obras (3 milhões de peças) de praticamente todas as épocas da humanidade. O palácio de inverno, residência oficial dos czares desde 1730, é ele mesmo uma peça de museu, e foi a partir dele que começou a coleta de peças, chegando ao auge no reinado de Catarina II, a Grande. Impossível não cair o queixo ao passar por suas salas. É tanta riqueza que fica bem fácil entender porque, foi ali que, em 1905, iniciou o processo revolucionário que derrubaria a monarquia, finalmente, em 1917.


Mas, São Petersburgo não se limita a sua beleza arquitetônica, visível em quase toda a cidade em função do grande número de palácios de toda a nobreza que se concentrava ali. Ela também abriga histórias heroicas de gente comum, que jamais pisou em um daqueles prédios gigantes e extraordinariamente ricos. Uma dessas histórias diz respeito à resistência que o povo russo, e especificamente os de São Peters, opôs ao avanço do nazismo pelo território russo.  Foi ali que os russos travaram a mais longa batalha da história da segunda grande guerra, que durou 900 dias e deixou um saldo de um milhão de mortos no lado russo.


O dramático é que esse momento grandioso da história não recebe o mesmo foco por parte dos guias turísticos. Aquele que visita São Petersburgo precisa garimpar e vasculhar com muito sacrifício os marcos dessa resistência. Por conta da nova etapa de desenvolvimento que vive a Rússia há uma tentativa de apagamento do período soviético. Pouco se fala sobre ele e tudo o que se passou nesse interregno de tempo, parece não importar. Mas, quem visita a antiga capital russa não pode deixar de render homenagens a esses homens e mulheres que fecharam o passo dos nazistas, causando-lhes muitas baixas e provocando-lhes, inclusive, a derrota final.


O cerco de Leningrado


Quando a segunda grande guerra começou, Stalin, que então governava a Rússia tinha um pacto de não agressão com Adolf Hitler. Por conta disso a Rússia ficou a parte dos conflitos, certa de que não seria atingida pela sede de poder do governante alemão. Tampouco se preparou militarmente para uma possível resistência. Stalin estava seguro de que Hitler não quebraria o acordo. Só que em 22 de junho de 1941, o líder alemão, ignorando o acordo, avança pelo território russo. Foi uma hora de perplexidade para a população. Havia que se defender e não havia ainda uma produção de armamentos capaz de dar combate à tecnologia alemã. Os primeiros a sofrer foram os moscovitas, que enfrentar como puderam. Premido pelo frio, Hitler buscou outra frente para entrar no território e foi aí que chegou a Leningrado (novo nome de São Petersburgo naquele então).


O ataque começou em junho de 1941 e durou até janeiro de 1943, ficando conhecido como o "cerco a Leningrado". O campo alemão tinha quase um milhão de homens bem armados, 13 mil canhões, 1.500 tanques e 760 aviões. Os russos não tinham qualquer armamento. Contam os moradores que as primeiras batalhas foram puro sacrifício. Os russos jogavam seus corpos sobre os dos alemães, armados apenas de facas. A maioria morria, mas os que conseguiam chegar a um soldado alemão, garantia a arma e voltava. Boa parte do primeiro armamento foi conseguida assim. Enquanto isso, o exército alemão seguia cercando a cidade, sem conseguir vencê-la. A estratégia pensada por Hitler foi a de esgotamento. Fechar a cidade e deixar que as pessoas morressem de fome e de frio, já que as temperaturas no inverno chegavam a 50 graus abaixo de zero.  Em parte o plano deu certo. Ao longo dos 900 dias morreram mais de um milhão de russos (cinco milhões era a população), e boa parte pereceu de fome.


Foi só em fevereiro de 1943, quando a indústria bélica soviética já tinha avançado, que um ataque das tropas russas conseguiu abrir um corredor por entre os alemães, fazendo passar um trem com mantimentos. Ainda assim, o bloqueio mesmo só foi totalmente levantado em 29 de janeiro de 1944. Aqueles 900 dias de resistência são considerados os mais importantes da guerra, pois se Leningrado tivesse caído, poderia ter ocorrido um efeito-dominó, desmantelando toda a defesa soviética.


A lembrança


Mesmo que não esteja no corredor turístico normal, ninguém pode ir até São Petersburgo sem visitar o imenso memorial que foi criado para lembrar esse feito heroico do povo local. Basta tomar o metrô  e seguir até a estação Moskovskaya. Logo a frente estão as enormes estátuas de soldados, camponeses, mulheres despedindo-se de seus maridos e filhos, enfim, a gente comum, que se erguem como um raio de luz por entre a rica cidade dos czares. É um dos poucos monumentos na cidade que faz referência direta ao povo. E a beleza das expressões leva qualquer um a se emocionar, lembrando aqueles dias de pesado sacrifício, no qual muitos chegaram a comer a carne de seus amigos e familiares mortos para sobreviver.


Naquele lugar , nos arredores da cidade, está fincada a saga de um povo que ousou defender seu território a custa de nada mais que o imenso amor pelo que chamam de "mãe russa".  No memorial também podem ser vistas fotos da época,  ilustrações e objetos usados durante o período do cerco.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sionismo e limpeza étnica do povo palestino

Convergência via feicibuqui do Elmo Cordeiro

 

Soraya Misleh

O sionismo político moderno surgiu em fins do século XIX. O pai foi Theodor Herzl, judeu nascido na Hungria, que exercia em Viena, então capital do Império Austro-Húngaro (1867-1918), a função de jornalista e autor teatral. Integrado à sociedade local, não tinha interesse pelo judaísmo ou por questões correlatas (SHLAIM, 2004: 38). O ponto de virada foi, conforme relatado em sua obraDer Jundenstaat [O estado judeu][1], o “Caso”, como ficou conhecido na França o caso Dreyfus. Refere-se à acusação de traição que sofreu naquele país o oficial Alfred Dreyfus, em 1894, por ser de origem judaica. A partir desse acontecimento, Herzl teria concluído que não haveria qualquer esperança de assimilação. Assim, a única solução seria que os judeus vivessem em seu próprio estado. Essa alegação, contudo, é questionada por estudiosos israelenses (PAPPÉ, 2007: 64).

Para assegurar a imigração de judeus da Europa para a Palestina, era necessário convencê-los que a transferência[2] para aquelas terras seria o único caminho para livrarem-se do “antissemitismo” – termo que se refere à discriminação contra semitas. Herzl (1998: 47) vinculou, nesse sentido, ao publicar O estado judeu, em 1896, a chamada “questão judaica” – para ele, herança da Idade Média – não à religião ou ao aspecto social, mas a um problema nacional.

Ele não sugeriu na publicação exclusivamente a Palestina para sua criação. Em seu livro, coloca a questão: “Devemos preferir a Palestina ou Argentina?.” Sua resposta é de que a “Sociedade (dos Judeus) aceitará o que lhe derem, tendo em consideração as manifestações da opinião pública a este respeito” (1998: 66). Na sua análise, nos dois locais houve experiências bem-sucedidas de “colonização judaica”. Em 1897, ano seguinte à publicação, durante o I Congresso Sionista realizado na Basiléia, Suíça, que reuniu 200 delegados do Leste da Europa, a Palestina acabou por ser escolhida:

Esse nome por si só seria um toque de reunir poderosamente empolgante para o nosso povo. (…) Para a Europa, constituiríamos aí um pedaço de fortaleza contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie. Ficaríamos como Estado neutro, em relações constantes com toda a Europa, que deveria garantir a nossa existência. (Ibidem: 66)

Herzl empreendeu esforços para obter o apoio das elites judaicas e governantes europeus ao projeto sionista. Segundo Shlaim (2004: 41), seu pressuposto “não declarado” e de seus sucessores era que o movimento alcançaria o seu objetivo “não através de um entendimento com os palestinos locais, mas por meio de uma aliança com a grande potência dominante
do momento”.

Esse parceiro seria a Grã-Bretanha, que vislumbrava a Palestina como sua “futura aquisição”. Como parte de sua estratégia de convencimento, Herzl explanou que os britânicos poderiam se beneficiar da criação em região de Gaza de um “oásis sionista”, ao que seria necessário levar água do Nilo através de um canal (PAPPÉ, 2007: 81). Num primeiro momento, esse plano foi frustrado, dada a objeção do lorde inglês Cromer, que comandava o Cairo. Herzl propôs, como alternativa, a instituição do estado judeu temporariamente em Uganda, então colônia inglesa, para depois passar à Palestina. O que foi visto como traição por outras lideranças sionistas, como Chaim Weizmann[3] (1874-1952), uma vez que o próprio idealizador do Estado de Israel havia nacionalizado o judaísmo, sinalizando o local definido no I Congresso Sionista. O plano de Uganda, consequentemente, não foi levado adiante. A Palestina voltou a ser central na proposta sionista (Idem).

Após o I Congresso Sionista, dois rabinos foram enviados à Palestina para reconhecimento do local. Em telegrama, eles descreveram o cenário com que o movimento que visava criar um estado judeu naquelas terras teria que lidar: “A noiva é bela, mas está casada com outro homem.” (SHLAIM, 2004: 40) Em outras palavras, os visitantes anunciavam que a Palestina não era um descampado, um lugar deserto e inabitado. Como conta Pappé,

Nas vésperas da Guerra da Criméia (1853-1856), cerca de meio milhão de pessoas viviam na terra da Palestina. Eram de língua árabe. A maioria era muçulmana, mas cerca de 60 mil eram cristãos de várias denominações e cerca de 20 mil eram judeus. Além disso, tinham que tolerar a presença de 50 mil soldados e funcionários otomanos, assim como de 10 mil europeus. (2007: 41)

Segundo Shlaim (2004: 54), independentemente da linha sionista, que incluía os denominados trabalhistas, os moderados e os revisionistas – cujo fundador foi o judeu russo Zeev Jabotinsky (1880-1940) –, a ideia de que era preciso o apoio de uma grande potência para consolidar o projeto sionista prevalecia. Assim como a necessidade de estimular a imigração judaica e transferir os palestinos nativos, usando a força militar para tanto. A diferença era que os revisionistas consideravam essa opção explicitamente.

Em seu livro Expulsions of the Palestinians – The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought, 1882-1948, Nur Masalha apresenta uma série de citações de lideranças sionistas que demonstram a predominância da ideia de transferência voluntária ou compulsória da população árabe local como base para a constituição de um estado exclusivamente judeu na Palestina. Segundo ele, essa ideia foi articulada desde cedo. “Theodor Herzl forneceu uma referência prévia à transferência mesmo antes de delinear sua teoria de renascimento sionista em seu Judenstaat.” (1993: 8; tradução nossa). Ainda conforme Masalha, em 12 de junho de 1895, visando a transição de uma “sociedade de judeus” a Estado, Herzl escreveu em seu diário:

Quando nós ocuparmos a terra, nos traremos imediatamente benefícios ao Estado que nos receberá. Nós precisamos expropriar com cuidado a propriedade privada nos estados alinhados conosco. Nós tentaremos, quando a população paupérrima cruzar a fronteira, procurar emprego a eles na mudança de países, enquanto vamos negar-lhes qualquer emprego em nosso próprio país. Os proprietários de terra virão para o nosso lado. Ambos, o processo de expropriação e a remoção dos pobres, precisam ser feitos discreta e circunspectamente. (Ibidem: 9) (tradução nossa)

Em um diálogo entre dois pioneiros do Hovevie Zion (Amantes de Sião), em 1891, também foi exposta a ideia de transferência. Um deles afirmou que a terra “na Judéia e Galiléia está ocupada por árabes”. Seu interlocutor respondeu: “É muito simples. Vamos assediá-los até que eles partam. Vamos deixa-los ir à Transjordânia.” (Ibidem: 9; tradução nossa) Ainda de acordo com Masalha, Israel Zangwill – criador do lema “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – apresentou a remoção de árabes da Palestina como pré-condição para a realização do projeto sionista (Ibidem: 10). Como indica o autor, o criador do poder militar do Yishuv[4] e primeiro premiê de Israel em 1948, David Ben Gurion, indicou a importância da ideia de transferência em várias citações em seu diário (Ibidem: 13). Em uma delas, em 12 de julho de 1937, afirmou que

A transferência obrigatória dos árabes desde os vales do Estado judeu proposto pode oferecer-nos algo que nunca tivemos [uma Galiléia livre de árabes], inclusive quando formos donos do nosso destino nos dias do Primeiro e Segundo Templo. (Apud MASALHA, 1993: 13) (tradução nossa)

Também segundo Masalha, em carta a seu filho Amos, de 5 de outubro de 1937, Ben Gurion escreveu que

Devemos expulsar os árabes e tomar seu lugar [...] e se temos que usar a força, não para despojar de suas propriedades aos árabes do Negev e Transjordânia, mas para garantir nosso próprio direito de assentamentos em ditos lugares, a força estará a nossa disposição. (Idem) (tradução nossa)

Baseando-se em documentos oficiais israelenses, o historiador Benny Morris escreveu inicialmente que a transferência enquanto expulsão dos árabes para constituição do estado judeu era central no projeto sionista. Posteriormente, em versão revisitada de sua obra The Birth of the Palestinian Refugee Problem, afirmou que:

É certo, em algum grau, que a práxis do sionismo, de início, tem sido caracterizada por uma sucessão de microcósmicas transferências; a obtenção da terra e o estabelecimento de quase todo assentamento (moshava, literalmente colônia) tem sido acompanhada pelo (legal e usualmente compensado) deslocamento ou transferência de um beduíno original ou comunidade agrícola assentada. [...] Hess, Motzkin[5], Ruppin e Zangwill, certamente, não pensavam em minideslocamentos, mas em uma massiva, estratégica transferência. Todavia, na prática, a ideia era desbalanceada, na maioria das mentes sionistas, por uma medida de moral dúbia. É verdade que pelo menos até os anos 1920 e 1930, os árabes da Palestina não se viam e não foram considerados por qualquer um como um “povo” distinto. Eram vistos como os árabes ou, mais especificamente, como os “árabes sírios do sul”. Além disso, sua transferência de Nablus ou Hebron para a Transjordânia, Síria e mesmo Iraque – especialmente se adequadamente compensada – não deveria ser uma formulação ao exílio do lar; “Árabes” deveriam meramente ser deslocados de uma área árabe para outra. (2004: 42) (tradução nossa)

Segundo o autor (Idem), na primeira metade do século XX, esse tipo de transferência de “minorias étnicas para o coração de suas áreas nacionais” era “moralmente aceitável, talvez mesmo moralmente desejável” e seria solução para conflitos futuros. Para Morris (Ibidem: 44), se durante as últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX os sionistas que advogavam a transferência não eram predominantes, no início dos anos 1930, o apoio à ideia emergiu entre as lideranças do movimento e evoluiu, como resultado das ondas de revolta árabe. Com a oportunidade aberta em 1936, segundo ele, a cúpula sionista anunciou seu apoio à transferência (Ibidem: 46).

Não obstante reconheça que declarações dos “pais do sionismo” apontem o caminho da transferência, Morris refuta em sua obra a ideia de que o plano de expulsão da população palestina não judia integrasse a política sionista. Na sua concepção, a transferência, que ganhou apoio a partir das revoltas árabes, foi vista como caminho diante da recusa dos árabes em aceitar a partilha de suas terras. Assim, foi resultado da guerra “iniciada pelo lado árabe” em 1948. (Ibidem: 60)

Já Masalha aponta que foram formados comitês de transferência que apresentaram vários planos e propostas a lideranças árabes de países vizinhos com o objetivo de transferir os palestinos não judeus em geral para a Transjordânia, Síria e Iraque nos anos 1930 e 1940 (1993: 12).

Para Walid Khalidi, a ideia de transferência dos árabes seria um eufemismo para limpeza étnica (1988: 5). O conceito foi discutido em Comissão de Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992. Com base nas informações fornecidas por essa comissão, o secretário-geral apresentou ao presidente do Conselho de Segurança documento relativo à Guerra Civil Iugoslava (1991-2001), datado de 24 de maio de 1994[6]. Nesse, consta a seguinte definição para limpeza étnica, oriunda de um “nacionalismo equivocado”: “tornar uma área etnicamente homogênea pelo uso da força ou intimidação para remover pessoas de determinados grupos”. Ainda de acordo com o informe, tais atos abrangem a remoção forçada da população civil local, em violação à lei internacional, mediante o uso de métodos de coerção como

assassinato em massa, tortura, estupro e outras formas de agressão sexual; lesões corporais graves a civis; maus tratos a prisioneiros civis e prisioneiros de guerra, utilização de civis como escudos humanos; destruição de propriedade pessoal, pública e cultural; saques e roubos; expropriação forçada de propriedades; forte deslocamento da população civil (…).[7]

Ainda no informe consta que “represálias, retaliação ou vingança” não servem como justificativa à violação de leis internacionais e Convenções de Genebra. Na concepção de Pappé (2008: 19), a definição se enquadra no que aconteceu na Palestina em 1948, ano da criação do Estado de Israel. Segundo ele, foram traçados planos com o objetivo de preparar as forças paramilitares sionistas para as ofensivas nas áreas rurais e urbanas após a saída dos britânicos da Palestina, que ficaram com o mandato sobre aquelas terras como espólio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) (Ibidem: 53). Os planos foram: A (esboçado por Elimelech Avnir, comandante da Haganah em Tel Aviv, a pedido de Ben Gurion em 1937); B (concebido em 1946); C (uma fusão de ambos); e, por fim, D (Dalet). Sobre os três primeiros, Pappé afirma que o propósito foi “dissuadir” a população palestina de atacar os assentamentos judeus e reprimir ofensivas (2008: 53).

Plano Dalet

O plano que selou o destino dos palestinos foi o Dalet. O nome foi dado pelo Alto Comando Sionista (KHALIDI, 1988: 8) Conforme Pappé (2008: 54), “independentemente de se esses palestinos decidiam colaborar ou opor-se a esse estado judeu, o Plano Dalet propunha sua expulsão de forma sistemática e total de sua pátria”. Derradeiro, e o mais agressivo, este foi finalizado em reunião das lideranças sionistas no local que se convertera no quartel-general da Haganah, a Casa Roxa em Tel Aviv – atual capital de Israel -, em 10 de março de 1948 (PAPPÉ, 2008: 11). Esse plano continha mapas indicando por onde os grupos paramilitares atacariam cada aldeia, como seriam essas incursões, a partir das informações de cada vila, mapeadas nos anos 1940:

Para elaborar o Plano Dalet, além de contarem com a hospitalidade dos seus habitantes, os sionistas criaram uma rede de colaboradores. Não obstante o desprezo que nutriam por essas pessoas, a ponto de um dos acadêmicos envolvidos na montagem desse plano – Moshe Pasternak – chegar a afirmar que seria difícil conseguir informantes entre elas, por seus modos primitivos, ao final, obtiveram algum resultado favorável aos seus intentos. (PAPPÉ, 2008: 43) (tradução nossa)

Segue mapa das operações que estariam ali previstas, por região.

Mapa publicado em All that Remains, KHALIDI Walid (2006: 325).

O Plano Dalet foi colocado em operação pelas organizações paramilitares Stern Gang, Irgun e Haganah. A tropa de elite dessa última, o Palmach, passou de 700 membros em 1941 para 7 mil em 1948. Mais tarde, as três se fundiram para constituir as Forças de Defesa de Israel (PAPPÉ, 2007: 143).

Cada brigada “recebeu uma lista das aldeias que deveria ocupar. A maioria das aldeias estava destinada à destruição, e somente em casos excepcionais os soldados receberam ordens para deixá-las intactas” (Ibidem: 164 e 166). A primeira operação, denominada Najsón, contou com a participação não apenas de todos os grupos paramilitares, mas incorporou veteranos judeus de guerra oriundos da Europa Oriental e outros recém-chegados. O objetivo foi a expulsão massiva da população das áreas rurais a oeste das montanhas de Jerusalém. A primeira aldeia a sucumbir nessa operação chamava-se Qastal (El Castillo) (PAPPÉ, 2008: 129).

Assim como Pappé, Walid Khalidi (1988: 8) afirma que o Plano Dalet foi executado com o objetivo deliberado de expulsar a população árabe da Palestina e destruir essa comunidade para colocar em prática o projeto sionista de constituição do estado judeu naquelas terras.

Já Meron Benvenisti (2002: 126) afirma que, embora os objetivos do Plano Dalet fossem militares, há controvérsias que visasse a limpeza étnica até maio de 1948:

Os comandantes das forças judaicas certamente realizaram alguns ataques cujos objetivos foram aterrorizar os árabes para que saíssem de suas casas, mas em outra mão há abundante evidência de que a liderança judaica foi surpreendida pelo escopo do êxodo e mesmo promoveu esforços para persuadir os árabes a permanecerem em suas casas (Ibidem: 126). (tradução nossa)

De acordo com Benvenisti, até a criação do Estado de Israel, a transferência da população árabe se deu ex-post facto [como resposta aos acontecimentos no terreno]. A “transferência premeditada” foi levada a cabo a partir do começo de junho de 1948 (Ibidem: 146)

Segundo Rashid Khalidi (2006: 4), o argumento de saída dos árabes antes de maio daquele ano como simples subproduto de uma guerra que esses perderam é “base para a negação da responsabilidade pelos refugiados”. Para ele, essa visão ignora o fato de que, em muitos casos, os palestinos não estavam em luta. Ignora também a desigualdade de forças – com o Yishuvmelhor armado e organizado (Idem). Quando as lideranças árabes decidiram enviar suas forças à Palestina, após a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948, o contingente de pessoal era equivalente: no início, os governos árabes enviaram 25 mil soldados, mas esse número foi ampliado em quatro vezes ao longo da guerra – equiparando-se aos efetivos mobilizados pelos sionistas (PAPPÉ, 2007: 169). Naquele mês, contudo, os grupos paramilitares tiveram auxílios importantes para melhor se equiparem:

Durante a trégua nos combates, os exércitos árabes não se reabasteceram de armamentos porque a Grã-Bretanha estava decidida a observar o embargo de armas imposto pela ONU às facções em guerra. As forças judaicas, por seu lado, continuaram a eludir a proibição, importando quantidades consideráveis de armamento pesado dos países do bloco do Leste, que desobedeceram à medida da ONU. A paridade da primeira semana foi substituída por uma superioridade dos judeus quando os combates foram retomados em meados de junho de 1948.  (PAPPÉ, 2007: 171).

O embargo britânico a que os árabes se armassem destinou-se aos exércitos da Jordânia, Iraque e Egito, que utilizavam munições inglesas. (Ibidem: 168). Segundo Pappé,

É de se admirar que os estados árabes tenham conseguido pôr quaisquer soldados no campo de batalha. Somente no final de abril de 1948, os políticos do mundo árabe prepararam um plano para salvar a Palestina, que na prática era um esquema para anexar a maior área possível do seu território aos países árabes intervenientes na guerra. A maior parte desses exércitos possuía uma experiência de guerra muito limitada e um treinamento muito sumário quando o mandato chegou ao fim. A coordenação entre eles era deficiente, bem como a moral e a motivação dos soldados, com exceção de um grande grupo de voluntários, cujo entusiasmo não bastava para compensar a sua falta de perícia militar. (…) O mundo árabe, os seus líderes e sociedades juraram salvar a Palestina. Os políticos não estavam propriamente a ser sinceros; é provável que os soldados e seus comandantes tivessem um empenho mais genuíno no salvamento da Palestina. (2007: 168)

No caso da Jordânia, houve inclusive um acordo tácito com Israel às vésperas da guerra, de partição do território (Ibidem: 178). Os líderes hachemitas de fato controlariam uma parte da Palestina (atual Cisjordânia) até 1967, quando essa passou a ser ocupada militarmente por Israel (TAMARI, 2002: 71). Juntamente com o futuro estado judeu, dividiriam ainda o domínio de Jerusalém. Outra parte do território (Faixa de Gaza) ficaria sob administração egípcia até aquele ano (HOURANI, 2007: 471).

Impulsionado pela recomendação feita pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 29 de novembro de 1947 de partilha da Palestina em um estado árabe e um judeu, o deslocamento de palestinos se expandiu significativamente. Na narrativa oficial israelense, a saída dos palestinos se deu em consequência da guerra. Para Rashid Khalidi (2006: 4), essa argumentação ignora, sobretudo, a necessidade de “transferência” dos árabes, que constituíam a maioria da população, para garantir a instituição de um estado judeu. Ele refuta a ideia difundida pela historiografia israelense tradicional de que os palestinos deixaram suas casas sob ordens de sua própria liderança. Isso foi realidade em alguns poucos casos isolados, como medida de segurança aos habitantes; no geral, entretanto, esses líderes fizeram esforços – “infrutíferos” – a que a população permanecesse. (Idem)

Relatos e documentos dão conta das táticas utilizadas pelos grupos paramilitares sionistas. De posse das informações de cada local, enquanto em boa parte das aldeias há indicações de que a estratégia era atacar deixando-se uma única saída para os habitantes saírem rumo a países árabes vizinhos, em outras, cercava-se dos quatro lados, não havendo como escapar. Nessas, os massacres e atrocidades são descritos por historiadores como Ilan Pappé. Serviram de propaganda para expulsar os palestinos que viviam em aldeias vizinhas.

As operações dos grupos paramilitares privilegiaram no começo centros urbanos, como Haifa, então o principal porto do país, designada na partilha ao que viria a ser o estado judeu. A elite já havia abandonado a cidade, quando dos primeiros ataques em dezembro de 1947. Em abril do ano seguinte, os sionistas tomaram a cidade, o que culminou no êxodo dos habitantes palestinos – que somavam mais de 50 mil. Outras grandes cidades, como Acre e Safed, tiveram o mesmo destino. Jerusalém também não ficou impune. À sua captura, as forças sionistas conduziram 30 operações, sendo sete delas entre dezembro de 1947 e 15 de maio de 1948 – todas em áreas destinadas na partilha ao estado árabe (TAMARI, 2007: 75). Os bairros do lado oeste foram atacados e ocupados no período (Ibidem: 134-140). Segundo Tamari,

Os objetivos dessas operações eram dois: (1) limpar o caminho entre Tel Aviv, Jaffa e Jerusalém para livre movimentação das forças judaicas; (2) limpar as vilas árabes do flanco oeste de Jerusalém da população palestina para prover déficit demográfico e um vínculo entre a proposta do estado judeu e a cidade de Jerusalém, conforme o Plano Dalet. (Ibidem: 75) (tradução nossa)

Os britânicos permaneceram na Palestina até 15 de maio de 1948 – um dia depois da Declaração de Independência de Israel –, com o argumento de que as forças judaicas empreenderam uma guerra de libertação nacional contra o mandato e a hostilidade árabe (PAPPÉ, 2007: 178):

A perda de 1% de sua população [judaica] toldaria o jubilo da obtenção da independência, mas não a vontade e determinação de judaizar a Palestina e de transformá-la num futuro porto de abrigo para os judeus do mundo todo na sequência do Holocausto.

Assim que a Inglaterra partiu, os Estados Unidos reconheceram o Estado de Israel. Dois dias depois, foi a vez de a União Soviética fazê-lo. Na sequência, mais países deram o mesmo passo. As consequências para os palestinos não foram levadas em conta (PAPPÉ, 2007: 169). Naquele momento, dois terços da população árabe local foram deslocados. Embora houvesse dezenas de observadores da ONU, conforme Pappé (2007: 214), eles nada fizeram a respeito. Exceção ao emissário Conde Folke Bernadotte, que propôs a revisão da divisão do país em duas partes e o retorno incondicional dos refugiados palestinos. Tendo chegado à Palestina em 20 de maio de 1948, foi assassinado por “terroristas judeus” em setembro do mesmo ano, “quando repetiu sua recomendação no informe final que apresentou à ONU”. (PAPPÉ, 2007: 214)

Ao final, foram três fases da limpeza étnica. A primeira foi inaugurada em dezembro de 1947, dias após a partilha recomendada pela ONU, e se prolongou até maio de 1948. A segunda, entre esse mês e janeiro de 1949, incluiu bombardeios aéreos indiscriminados e disparo de canhões em bairros com populações mistas. Durante essa etapa, foram assinadas duas tréguas e, ao final, um armistício entre os exércitos árabes e Israel (PAPPÉ, 2007: 168). A terceira fase do Plano Dalet se prolongou até 1954. Antes, contudo, já haviam sido destruídas centenas de aldeias. Historiadores apresentam números que variam entre 290 e 472 no total (Apud W. KHALIDI, 2006: XVI). Pappé (2008: 11) apresenta um número superior: 531 aldeias, além do esvaziamento de 11 bairros urbanos, culminando com a expulsão de 800 mil palestinos, de um total aproximado de 1,2 milhão. Na parte designada pela ONU ao recém-criado Estado de Israel, de 818 mil palestinos, restaram apenas 160 mil. A despeito das diferenças, conforme a metodologia adotada, fato é que a paisagem foi totalmente transformada:

A Palestina tornara-se agora uma nova entidade geopolítica, ou antes, três entidades. Duas delas, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, encontravam-se mal definidas, a primeira totalmente anexada à Jordânia, mas sem o consentimento ou entusiasmo da população; a segunda num limbo, sob um regime militar, com os seus habitantes impedidos de entrar em território egípcio propriamente dito. A terceira entidade era Israel, decidida a judaizar todas as partes da Palestina e a construir um novo organismo vivo, a comunidade judaica de Israel. (PAPPÉ, 2007: 178)

Artigo baseado em dissertação de mestrado intitulada “Qaqun: história e exílio de um vilarejo palestino destruído em 1948”, defendida em dezembro de 2013 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), junto ao Departamento de Letras Orientais, sob orientação da professora-doutora Arlene Elizabeth Clemesha

Referências bibliográficas

BENVENISTI, Meron. Sacred Landscape – The Buried History of the Holy Land since 1948. Translator: Maxine Kaufman-Lacusta. California: University of California Press, 2002.

HERZL, Theodor. O estado judeu. Trad. David José Perez. Rio de Janeiro: Garamond, 1998.

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

KHALIDI, Rashid. The Iron Cage: The Story of the Palestinian Struggle for Statehood. New York: Columbia University Press.

KHALIDI, Walid. All that Remains: The Palestinian Villages Occupied and Depopulated by Israel in 1948. Washington: Institute for Palestine Studies, 1998.

KHALIDI, Walid. Plan Dalet: master plan for the conquest of Palestine. Journal of Palestine Studies. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/23122101/Walid-Khalidi-Plan-Dalet-Master-Plan-for-the-Conquest-of-Palestine. Acesso em: 26 mai. 2012.

MASALHA, Nur. Expulsion of the Palestinians: The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought, 1882-1948. Washington: Institute for Palestine Studies, 1992.

MORRIS, Benny. The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited, 1947-1949. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

PAPPE, Ilan. História da Palestina moderna – uma terra, dois povos. Trad. Ana Saldanha, Lisboa: Ed. Caminho, 2007.

_______. La limpieza étnica de Palestina. Trad. Luis Noriega, Barcelona: Memória Crítica, 2008.

_______. The Forgotten Palestinians – A History of the Palestinians in Israel. London: Yale University Press, 2011.

SHLAIM, Avi. A muralha de ferro – Israel e o mundo árabe. Trad. Maria Beatriz Penna Vogel. Rio de Janeiro: Fissus Ed., 2004.

TAMARI, Salim (ed.), Jerusalem 1948 – The Arab Neighbourhoods and their Fate in the War. The Institute of Jerusalem Studies & Badil Resource Center, Second Revised Edition, 2002.


[1] O escritor Moacyr Scliar (1937-2011), que participou do movimento juvenil sionista, aborda o assunto em seus comentários à edição de O Estado judeu traduzida para o português. HERZL, T.O Estado judeu. Trad. David José Pérez. Rio de Janeiro: Garamond, 1998, p. 21.

[2] O termo seria usado como um eufemismo pelos sionistas, segundo MASALHA, N.. Expulsion of the Palestinians: The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought, 1882-1948. Washington: Institute for Palestine Studies, 1993.

[3]Chaim Weizmann viria a se tornar o primeiro presidente de Israel, em 1948. Disponível em:
<http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/biography/weizmann.html>. Acesso em: 13 de agosto de 2013.

[4] Comunidade judaica, em hebraico. PAPPÉ, I. História da Palestina moderna – uma terra, dois povos. Trad. Ana Saldanha, Lisboa: Ed. Caminho, 2007, p. 358.

[5] Leo Motzkin, presidente do Conselho Geral da Organização Mundial Sionista. Disponível em: <http://www.jta.org/1932/05/23/archive/zionist-movement-and-french-report-mr-motzkin-president-of-zionist-general-council-leaves-for-pale>. Acesso em: 12 de agosto de 2013.

[6] Disponível em: <http://www.icty.org/x/file/About/OTP/un_commission_of_experts_report1994_en.pdf>. Acesso em: 12 de agosto de 2013.

[7] Idem.

Mercenários da NATO em Gaza

Sanguessugado do Maré Cinza

Entidade denuncia 6 mil soldados estadunidenses, canadenses e europeus na Faixa de Gaza lutando ao lado do exército israelense contra os palestinos


A Rede Euro-Mediterrânea de Direitos Humanos (REMDH) revelou que cerca de seis mil soldados, vindos principalmente dos Estados Unidos, Canadá e Europa estão participando do bombardeio de Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza.
O exército israelense já confirmou a morte de um soldado francês de 22 anos. Na última semana, o Ministério das Relações Exteriores dos Estados Unidos também já declarou a morte de dois soldados.
Fontes palestinas dizem que a medida está sendo tomada porque muitos israelenses se recusam a lutar no campo de batalha e as autoridades são obrigadas a substituí-los pelos estrangeiros. 53 soldados de Israel morreram desde o começo da ofensiva contra Gaza. Enquanto do lado palestino, ao menos 1.191 pessoas foram mortas além de mais de 6300 feridas.

“Crime contra a humanidade”


Vinte e quatro médicos europeus que estão em Gaza lançaram uma carta aberta descrevendo os ataques de Israel de “um crime contra a humanidade”.


“Solicitamos aos nossos colegas que denunciem a agressão de Israel. Estamos combatendo a propaganda do governo que transforma o massacre pela denominada ‘agressão defensiva’. A realidade é que se trata de uma agressão cruel com duração e intensidade ilimitadas”, diz a carta que também reforça que a maioria dos alvos israelense são civis inocentes.


Os médicos também denunciam que Gaza está sendo bloqueada, e os feridos não podem buscar socorro em hospitais fora da região, além do acesso a comida e medicamentos ser limitado.


“Israel está insultando nossa humanidade, inteligência e dignidade. Os médicos que tentam viajar para Gaza, não conseguem chegar por conta de bloqueios”, denunciam.


Recém nascidos


Outro aspecto pouco conhecido da ofensiva israelense em Gaza é a morte de bebês abandonados na região, já que recém-nascidos não podem ser levados pelos seus pais para um local seguro.


É o caso da maternidade do hospital Shifa, onde três bebês dividem a mesma incubadora. A falta de energia e de mantimentos nos hospitais fez com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) solicitasse um “corredor humanitário” para tratar dos feridos.
Fontes: Jornal Água Verde
Brasil de Fato

Cantareira pode afogar Alckmin

Via Brasil de Fato

Diante deste cenário dramático, a própria mídia tucana – que evitou ao máximo tratar do assunto, prestando um desserviço à sociedade – agora dá sinais de preocupação. Em editorial na quinta-feira passada (24), a Folha confirmou que o perigo do racionamento de água já virou “conversa de elevador” dos moradores da região metropolitana de São Paulo. 

paris-dakar-cantareira

Altamiro Borges

O Ministério Público Federal (MPF) divulgou nesta terça-feira (29) uma “recomendação” para que o governo de São Paulo adote imediatamente medidas de racionamento de água nas regiões atendidas pelo Sistema Cantareira. A proposta visa evitar o colapso no conjunto de reservatórios, que abastece de 8,8 milhões de paulistas. “O governador Geraldo Alckmin e a Sabesp têm dez dias para informar as providências a serem tomadas em relação à recomendação. ‘O MPF não descarta a adoção de medidas judiciais caso o governo não atenda à medida’, informou o órgão em nota divulgada à imprensa” – descreve o jornalista Bruno Bocchini, da Agência Brasil.

Irritado, o governador tucano já anunciou que não acatará a “recomendação” do Ministério Público Federal. Ele tem feito de tudo para empurrar o racionamento para depois das eleições de outubro. Teme que o “Sistema Cantareira” suba a seu palanque e atrapalhe o sonho da reeleição. O problema é que esta posição eleitoreira – que procura camuflar a falta de planejamento e de investimentos no setor nas quase duas décadas de “choque de indigestão” do PSDB no Estado – pode prejudicar ainda mais a população paulista. Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) indica que o volume do Sistema Cantareira pode secar totalmente em menos de 100 dias.

Para evitar o desgaste eleitoral do racionamento, a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) já concedeu descontos para quem reduzisse o consumo e, desde 15 de maio, passou a captar água do chamado “volume morto” – a reserva estratégica que fica na camada mais profunda dos reservatórios. Estas medidas, segundo o MPF, não resolveram o problema e ainda podem gerar mais transtornos. “Neste estrato [do volume morto], estudos apontam maior concentração de poluentes, que incluem metais pesados, compostos orgânicos prejudiciais à saúde, bactérias, fungos e vírus”, afirma o órgão. O outro risco é que o uso da reserva afete definitivamente o Sistema Cantareira.

Para piorar, a Sabesp propõe agora retirar uma segunda cota do volume morto para captar mais 116 bilhões de litros de água – além dos 182,5 bilhões que já estão sendo sugados. Segundo reportagem do Estadão, esta proposta pode deixar negativo o nível dos reservatórios em 30%. Para Antonio Carlos Zuffo, diretor do departamento de hidrologia da Unicamp, esta ideia lembra o empréstimo bancário no cheque especial. “A fatura ficará mais cara em 2015, porque vamos começar o ano no negativo. A crise será ainda pior”, explicou ao jornal. O engenheiro ainda confirmou que a medida aumenta o risco de contaminação. “A dragagem revolve muito lodo do fundo, onde ficam os poluentes, os metais pesados”.

Diante deste cenário dramático, a própria mídia tucana – que evitou ao máximo tratar do assunto, prestando um desserviço à sociedade – agora dá sinais de preocupação. Em editorial na quinta-feira passada (24), a Folha confirmou que o perigo do racionamento de água já virou “conversa de elevador” dos moradores da região metropolitana de São Paulo. O jornal até insiste em culpar São Pedro “pela estiagem incomum”, evitando criticar a falta de planejamento e investimentos dos governos do PSDB e a postura eleitoreira de Geraldo Alckmin. Mesmo assim, a Folha conclui que “se não chover até outubro, o tucano corre o risco de ver os paulistas debatendo o voto no elevador”.