segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fukushima – cataclisma em andamento

Via Rebelion

John Saxe-Fernández

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

Pouco depois do maremoto que desencadeou o desastre na central de Fukushima, em andamento desde março de 2011, um dos encarregados das salvaguardas nucleares no México, em entrevista radiofônica, simplesmente não deu importância maior à magnitude do caso. Parecia mais preocupado com o negócio da “nucleoeletricidade”, uma forma cara e muito perigosa de mover uma turbina e gerar eletricidade, como diz Barry Commoner, do que com a saúde da população. Não é algo novo, nem somente local. O encobrimento da intensidade e da extensão dos danos causados e dos riscos generalizados à saúde pela radioatividade espalhada sobre seres humanos, animais e vegetais tem acompanhado os grandes acidentes de Three Miles Island(1979), Chernobyl (1986) e o de Fukushima, com efeitos potencialmente devastadores sobre a vida no Oceano Pacífico e no planeta.

O analista Harvey Wassermann, ao informar sobre “as crianças de Fukushima”, sintetizou: “a indústria nuclear e seus defensores continuam negando essa tragédia em relação à saúde pública” (www.rebelion.org), ao citar que 48% dos 375 mil jovens examinados pela Universidade Médica de Fukushima, ou seja, perto de 200 mil crianças, sofrem de “transtornos pré-cancerígenos de tireóide, nódulos e quistos, numa taxa que se acelera (ibid).

Enquanto que o Comitê Científico da ONU sobre os efeitos da radiação atômica (UNCEAR) afirma que “não se esperam efeitos discerníveis sobre a saúde relacionados com a radiação entre as pessoas expostas”, os dados obtidos depois de 39 meses do desastre mostram que “as taxas de câncer de tireóide ... dispararam mais de 40 vezes acima das normais”(ibid). A saúde tem sido grandemente afetada e os riscos para a população japonesa e mundial poderiam ser muito sérios, como advertiram, com dados nas mãos, Helen Caldicott, Robert Alvarez, Arnie Gundersen, além de grupos internacionais de pesquisas e cientistas de universidades japonesas.

Fukushima é um desastre de dimensão ainda não registrada na história. Assim sintetizou Naoto Kan, primeiro-ministro do Japão durante o início do evento em andamento e, antes do sinistro, um entusiasta da energia nuclear. Em entrevista com Amy Goodmann em Democracy Now (março, 2014), Naoto Kan advertiu que Fukushima foi algo “maior e mais severo que Chernobyl, sem deixar de reconhecer a imensa tragédia ucraniana ocasionada pela fusão de um reator”, e lembrou que no Japão são três os reatores afetados, e que “um alto número de barras de combustível já usados está em posição precária”, além do que “até o dia de hoje persiste a fuga de material radioativo”, o que tem “efeitos de muito longo alcance daqui pela frente”, pelo que considera que “... o desastre Fukushima foi maior que o de Chernobyl, e continua desdobrando-se até os dias de hoje”.

Naoto Kan não se equivoca. De um total de pouco mais de 11 mil barras de combustível, no edifício do reator 4 há 1533 barras usadas que pesam 400 toneladas, e que contém uma radioatividade estimada em 14 mil vezes à que atingiu as pessoas de Hiroshima, e a uns 50 metros desse reator , 6 mil barras estão armazenadas em tanques especiais . Em relação aos outros três reatores, hoje ninguém nem a Tepco, empresa responsável pela usina de Fukushima, sabe onde eles estão localizados, por que seus núcleos atravessaram o grosso concreto dos edifícios 1, 2 e 3 da central, segundo informam Kevin Seese e Margareth Flowers em Thruthout News Analysis. Sem conhecer sua localização exata sob a terra, a Tepco lança água onde eles poderiam estar para evitar que os núcleos se aqueçam. Como em algumas ocasiões saem rodas de vapor, assume-se que os núcleos estão quentes(ibid). Enquanto isso, continua aumentando a quantidade de água muito radioativa (fala-se de mais de 330 mil toneladas acumuladas até o fim de 2013), que está armazenada em mais de mil tanques sobre a superfície, cujo volume vai crescendo rapidamente, e parte dela se infiltra ou é lançada ao Pacífico a um ritmo de mais de 272 mil litros diários, com contaminantes radiativos, dentre outros o Césio-134 (com meia-vida de 2, 65 anos) e Césio-137 (meia vida de 30,17 anos).

Essa é a maior quantidade de radiação vertida por um acidente nuclear na história. Informa-se ainda que, sob a central nuclear, há um grande aqüífero que, se for contaminado, alguns cenários contemplam a evacuação de milhões de habitantes dos arredores de Tóquio.

Os mais destacados cientistas e especialistas tem se dirigido à ONU e de maneira especial à Organização Mundial da Saúde (OMS) para o desdobramento, a nível global, de estudos e divulgação sobre a presença e os riscos da radiação por isótopos, hoje com ainda mais urgência. As respostas tem sido neutras, quando não de supressão de informações. Assim ocorreu em relação a Chernobyl. Na aparência, e por acordos vinculantes (1959) entre OMS e a Agência Internacional de Energia Atômica, promotora das questões nucleares, as respostas nessa matéria tem sido nulas, quando não cínicas.

Aqui também.

Mujica fantástico: "Los de la FIFA son una manga de viejos hijos de puta"




El presidente de la República, José Mujica, definió a los dirigentes de la FIFA como "una manga de viejos hijos de puta" y que "podrían haber sancionado, pero no sanciones fascistas", sobre el fallo de FIFA sobre Luis Suárez, que aplicó una severa suspensión de nueve partidos con la selección y cuatro meses de inhabilitación para cualquier actividad con el fútbol.
La grabación fue difundida anoche en el programa La Hora de los Deportes, de TNU, y la entrevista fue realizada por Sergio Gorzy, periodista que viajó en el chárter con la delegación desde Río de Janeiro a Montevideo y que grababa el recibimiento del presidente Mujica a los integrantes de la delegación en el final de la manga.
Después que el presidente saludó a la mayoría de los jugadores, Gorzy se acercó a Mujica y se registró el siguiente diálogo: "¿Qué significó para usted este Mundial?", le preguntó el periodista. "Que en la FIFA son una manga de viejos hijos de puta".
Enseguida, el presidente se tapó la boca con una de sus manos e inmediatamente el periodista le pregunta: "¿Lo publico esto?". La respuesta fue: "Publicalo, por mí".
El periodista giró la cámara a la primera dama y senadora, Lucía Topolanski, quien estaba a un costado. "¿Usted qué opina Lucía?", le preguntaron, y ella respondió: "Me adhiero a las palabras del presidente. Me adhiero a las palabras del presidente". Y sonrió.
Luego sin que fuera consultado pero con la cámara delante de su rostro, Mujica, agregó: "Podrían haber sancionado, pero no sanciones fascistas", sobre el fallo que FIFA aplicó a Suárez

AO SABOR DO TECLADO MUDO

via feicibuqui do Sérgio Ricardo

Ja é tempo de dizer algo. Alguma bobagem ou coisa atraente. Já não sei o que está por sair. Mas algo me impulsiona e escrevo. Durante todo o tempo em silêncio, meu ser me insinuava temas, mas que diabo, só por ter que dizer alguma coisa que se fizesse interessante na junção das palavras de uma motivação digna de vir à tona? Várias se delinearam sem que eu tivesse o desejo de invadir o universo das palavras, como se fora uma obrigação para atender cobranças de amigos ao que eu viesse dizer. Talvez não saberiam que eu não sei de nada, que apenas junto vocábulos que expressam uma pretensão momentânea como quem se arvora em dizer algo importante que a soma dos neurônios conclui por pretensas alusões sobre o embaralhamento de conceitos e verdades tão desmentíveis como pneu que súbito se fura e lá vamos nós troca-lo por novo, cheio de vento, para a rodagem das novas verdades. Sou cheio de boas intenções, já cansado dessa rodagem sem fim de linha, prenhe de desvios e encruzilhadas, sem cheganças, e por mais que faça lá meus gols, eu e meu time nunca vencemos as partidas. Ah, como eu desejaria salvar a humanidade, se nem tanto, pelo menos o meu povo, que ja virou um retrato na parede se esgarçando no templo das providências, pé sem chão a caminho do nada. Assim como as insistentes tentativas, ao menos para a salvação de nossa lavoura cultural, vencida pelo caruncho dos chamados avanços tecnológicos e contemporaneidades, que se detonam como tiro de pólvora sem sequer destruir o potente passado, resistindo estética e humanamente às agressões sem sustância, sustentados pelos bancos e mídias do sistema, imbatíveis e prepotentes. Do que valem as vozes contrárias? Partidos dispersos de esquerda, teses científicas, o óbvio ululante e outras milongas? Eu poderia me ater aos temas mais amenos, falar do amor a dois e descobrir atalhos e achados preciosos como pérolas de linguagem para ressaltar em versos a beleza interminável da relação humana e até me tornar um estilista no assunto, para que? Para desembocar num rio estático que não avança para o mar? Ficar preso em lagoas enlodadas só porque suas aguas não se agitam e só espelham a beleza do luar? Estou fora. Até que não me surja outro chamamento de fé, só me resta o humor, que sempre resvala nalguma desgraça de onde arranca deliciosas gargalhadas. Por isto o extraio de minha própria agonia atual, mancando de bengala entre quatro paredes, já pensando no dia em que ao passar pelo detector de metais do primeiro aeroporto, onde fatalmente as luzes se acenderão, por conta da platina que me cobre o femur. Farei pose de suspeito, até que me façam baixar as calças para mostrar minha cicatriz na altura da bunda, para provar que não sou um terrorista. Tomara que eu tenha coragem suficiente para, em contra partida, soltar uma bela risada que ecoe pelo aeroporto, como uma cutucada no medo reinante.

AO SABOR DO TECLADO MUDO

Ja é tempo de dizer algo. Alguma bobagem ou coisa atraente. Já não sei o que está por sair. Mas algo me impulsiona e escrevo. Durante todo o tempo em silêncio, meu ser me insinuava temas, mas que diabo, só por ter que dizer alguma coisa que se fizesse interessante na junção das palavras de uma motivação digna de vir à tona? Várias se delinearam sem que eu tivesse o desejo de invadir o universo das palavras, como se fora uma obrigação para atender cobranças de amigos ao que eu viesse dizer. Talvez não saberiam que eu não sei de nada, que apenas junto vocábulos que expressam uma pretensão momentânea como quem se arvora em dizer algo importante que a soma dos neurônios conclui por pretensas alusões sobre o embaralhamento de conceitos e verdades tão desmentíveis como pneu que súbito se fura e lá vamos nós troca-lo por novo, cheio de vento, para a rodagem das novas verdades. Sou cheio de boas intenções, já cansado dessa rodagem sem fim de linha, prenhe de desvios e encruzilhadas, sem cheganças, e por mais que faça lá meus gols, eu e meu time nunca vencemos as partidas. Ah, como eu desejaria salvar a humanidade, se nem tanto, pelo menos o meu povo, que ja virou um retrato na parede se esgarçando no templo das providências, pé sem chão a caminho do nada. Assim como as insistentes tentativas, ao menos para a salvação de nossa lavoura cultural, vencida pelo caruncho dos chamados avanços tecnológicos e contemporaneidades, que se detonam como tiro de pólvora sem sequer destruir o potente passado, resistindo estética e humanamente às agressões sem sustância, sustentados pelos bancos e mídias do sistema, imbatíveis e prepotentes. Do que valem as vozes contrárias? Partidos dispersos de esquerda, teses científicas, o óbvio ululante e outras milongas? Eu poderia me ater aos temas mais amenos, falar do amor a dois e descobrir atalhos e achados preciosos como pérolas de linguagem para ressaltar em versos a beleza interminável da relação humana e até me tornar um estilista no assunto, para que? Para desembocar num rio estático que não avança para o mar? Ficar preso em lagoas enlodadas só porque suas aguas não se agitam e só espelham a beleza do luar? Estou fora. Até que não me surja outro chamamento de fé, só me resta o humor, que sempre resvala nalguma desgraça de onde arranca deliciosas gargalhadas. Por isto o extraio de minha própria agonia atual, mancando de bengala entre quatro paredes, já pensando no dia em que ao passar pelo detector de metais do primeiro aeroporto, onde fatalmente as luzes se acenderão, por conta da platina que me cobre o femur. Farei pose de suspeito, até que me façam baixar as calças para mostrar minha cicatriz na altura da bunda, para provar que não sou um terrorista. Tomara que eu tenha coragem suficiente para, em contra partida, soltar uma bela risada que ecoe pelo aeroporto, como uma cutucada no medo reinante.

Padre Júlio Lancellotti é intimidado por ter dado entrevistas contra a PM

Advogados Ativistas via feicibuqui do Mauro Iasi

Nestes tempos de protestos, aqueles que estão do lado de cá, da rua, longe do sistema institucionalizado, sofrem as consequências por criticar o sistema. Quando estas pessoas buscam mudanças nas formas de se fazer política, e começam a ter êxito, imediatamente se sujeitam a várias formas de intimidações.

Intimidar é fazer com que outros façam o que alguém quer, através do medo. A intimidação é a resultante do desajuste da compulsão competitiva normal de dominância inter-relacional, geralmente vista em animais, mas que é mais completamente modulada por forças sociais em seres humanos.

Basta o cidadão querer exercer os seus direitos de ter voz, ou defender aqueles que não têm, que logo, os braços armados deste malfadado sistema insistem em reprimir. Não é de hoje que a violência Estatal alcançou o asfalto, e também há tempos que elas estampam as capas dos jornais. Entretanto, muita coisa acontece aos sussurros dos torturadores psicológicos, que atormentam a segurança do cidadão que se presta manifestar.

imagem

Pessoas como o Padre Julio Lancellotti, grande parceiro dos moradores de rua e apoiador dos protestos populares. Ao olhar mais atento,  é comum o vê-lo cruzando a multidão em meio a faixas e gritos de ordem. Sempre sereno em suas palavras, trata-se de uma figura que conforta àqueles que estão ali presentes. De outra forma, o Padre Júlio, apesar da serenidade e postura pacífica, não é um cidadão passivo. Ele tem enfrentado intimidações e ameaças veladas do sistema e dos seus maus policiais.

Estes dias, após ser acertado por um estilhaço de uma bomba de gás lacrimogênio durante um protesto, ele concedeu entrevistas à mídia, repudiando a atitude daqueles policiais que o teriam acertado. - “O que me feriu mais foi a repressão e violência geral da PM. Acho que eles precisam ter outras formas para agir”, disse o Padre ao portal G1. “Toda ação tem uma reação. É preciso saber lidar com essa insurgência da juventude” – complementou. No dia seguinte, o Lancellotti recebeu mensagens no celular enviadas por militares da alta cúpula repudiando a entrevista concedida e intimidando-o de forma velada.

Esta foi a mensagem encaminhada para o Padre Júlio:

Senhor Padre - Bom dia.

Em face do sue total desconhecimento sobre a atuação da Polícia Militar nas manifestações de rua, demonstrado no seu depoimento prestado em matéria do Estadão, nesta data, iremos chamá-lo para acompanhar os próximos planejamentos e reuniões: quem sabe o Sr possa nos ajudar, não é?”

É claro que um funcionário público, militar, em uma instituição altamente burocratizada não deveria ter a liberdade para enviar mensagens de texto de cunho intimidatório. Caso a polícia quisesse que o Padre Júlio acompanhasse as reuniões da corporação, que o fizesse por meio de ofício formal, assim como sempre o fizeram. A atitude de tal policial eventualmente pode não ser encarada como crime, porém é no mínimo anti-ético e intimidador.

Juridicamente falando, intimidar é ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto grave. Os tribunais brasileiros têm aceito, embora nem sempre este posicionamento não seja dominante, ameaças vagas e incertas. Ameaça vaga é aquela em que o agressor não discrimina devidamente o que ocorrerá ou contra quem se voltará a ação (ex. “a sua família vai pagar o preço”, “você pode perder tudo” se” divulgar o meu vídeo, irá pagar caro” etc). Para a jurisprudência brasileira, é necessário também ter o chamado animus freddo, caracterizado pelo tom calmo do agente, do mesmo modo como ocorreu na mensagem irônica direcionada ao padre.

Assim como no caso do Padre Júlio, são corriqueiras às intimidações veladas aos jornalistas quando retratam os fatos sombrios da corporação militar. A mesma atitude ameaçadora atingem os advogados quando são perseguidos por policiais após as manifestações e até mesmo quando são vigiados enquanto tomam cerveja numa mesa de bar.

Se não bastasse estas intimidações corriqueiras, no qual infelizmente já estamos aprendendo a lidar, ativistas estão sendo ameaçados dentro dos coletivos e ocupações, invadidos por policiais. Diversas buscas sem mandado insistem em ocorrer e até mesmo a família destes jovens ativistas estão apanhando dentro de suas casas, quando destas invasões, sem direito a câmera, holofotes, nem defesa. E tudo isto está ocorrendo como uma forma de intimidação institucionalizada para que a rua se cale. Mas não.

domingo, 29 de junho de 2014

TODA COVARDIA DEVE SER PUNIDA

feicibuqui do Nildo Ouriques

 

No Mundial da FIFA de 1982 o Brasil enfrentou a Argentina e sapecou 3 x 1, creio. Menotti era o técnico argentino e o inesquecível Tele Santana dirigia a seleção canarinho. Nós vecemos para perder depois para a Italia. Aquelas derrotas custaram caro para brasileiros e argentinos. Depois de Menotti e Tele, o futebol-arte foi abandonado em nome do futebol-resultado e Zagalo-Parreira reinaram como sábios entre nós enquanto Bilardo dominou no país vizinho. A lembrança de Tele e Menotti me assaltou hoje após ver o México perder um "jogo ganho". Estou convencido que bastaria os mexicanos tocarem a bola pra frente, como quem de fato estava dominando a partida, sem temor de perder, afirmando certa tradição que ainda temos no futebol, que poderiam ampliar o marcador. Mas Miguel Herrera - quem foi apenas um lateral aguerrido e brigão como atleta - substituiu Giovani, jogador mais talentoso do México para defender o resultado quando ainda tinha eternos 30 minutos para jogar. Perdeu, obviamente. Agora vi a Costa Rica com o jogo na mão manifestar covardia. Após fazer o gol no inicio do segundo tempo e antes de ficar com 10 na cancha, os jogadores, creio que por conta e risco proprio, renunciaram ao desejo de fazer mais um. Sofreram o empate no último minuto do segundo tempo e amargam neste momento mais 30 de tempo extra. Cretinos. A época dos volantes brucutus parece terminada mas o pior efeito daqueles tempos sombrios criou jogadores para o mercado europeu desde o útero da máe. Um jogador talentoso, creio, é logo discplinado nas escolinhas - sempre tem uma escola no meio do caminho para arruinar a existência de alguém - de tal forma que aqueles atrevidos e imaginativos jogadores são raridade.

É claro que os técnicos não venceram completamente. Ainda há possibilidade de jogadores rebeldes, irreverentes com a bola, geniais, ainda que raros. Arrisco que Felipão esta apostando - juntamente com Parreira - que a Colombia não possui a "disciplina tática" do Chile, razão pela qual podemos ser mais otimistas em relação a sexta-feira. Veremos.

Comentário do bloguezinho mequetrefe

Vou mais aquém. Desde a saída de Saldanha a CBF adotou a doutrina da caserna, daí o reinado de Parreira-Zagalo entremeado por Cláudio Coutinho e Sebastião Lazaroni. Telê foi um ponto fora da curva e a derrota em ’82 de fato arruinou com o futebol brasileiro. É sintomático que jogadores tratem os técnicos por comandantes ou professores, a submissão é total.

A ditadura acabou… só falta avisar a polícia

Via Diario Liberdade

A Polícia Militar é uma invenção da ditadura brasileira

 

ditadura

IHU - O Estado democrático brasileiro ainda mantém práticas da ditadura militar (1964-85). Entre elas, destaca-se a militarização das polícias que "foram criadas por um decreto-lei da Ditadura de 1969", portanto, a polícia militar "é uma invenção, uma criação da ditadura", diz Jair Krischke à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone.

Segundo ele, "o decreto dizia que a polícia militar é força auxiliar e reserva do exército. Na Constituição cidadã de 1988 aconteceu um 'copia e cola', copiaram exatamente o texto do decreto-lei da Ditadura e colocaram na Constituição, dizendo que as polícias militares são forças auxiliares e reserva do exército".

Outra prática que se mantém é a expressão utilizada pela polícia, "auto de resistência", para justificar a morte de civis. "No tempo da Ditadura criou-se esse 'auto de resistência', porque a ditadura queria justificar sempre os assassinatos que cometia. (...) Esse 'auto de resistência' continuou sendo praticado pelas polícias militares, a polícia que mais mata no mundo", pontua. Com a subordinação da polícia militar ao exército, acrescenta, "a formação do militar é destinada a prepará-lo para enfrentar o inimigo, vencê-lo e submetê-lo à sua vontade, isso é ser militar; não tem nada com polícia".

Na entrevista a seguir, Jair também comenta as manifestações que ocorreram desde o ano passado e critica a proibição de participação dos partidos nos protestos, associando tal atitude a, igualmente, práticas da ditadura. "Sempre digo que isso é muito perigoso, porque quem não gosta de partido político é ditadura". E rebate: "Se os partidos políticos já não nos representam, temos algumas alternativas: ou criamos uma nova forma de representação válida, ou saneamos os partidos políticos, porque a degradação da vida política partidária também é uma herança da ditadura (...) Poucas coisas na vida me assustam, mas quando vejo movimentações de massa sem lideranças definidas, fico preocupado, porque as propostas políticas devem ter, essencialmente, definições ideológicas. Então, é dentro dessa ideologia que se propõe isso, aquilo ou aquele outro. O que vejo é uma grande confusão, e isso de não ter liderança me preocupa, porque de repente vai aparecer uma liderança, geralmente o salvador da pátria, e é quando as grandes tragédias da humanidade acontecem".

Leia mais: Policiais militares de São Paulo mataram 10 mil pessoas em 19 anos

Jair Krischke (foto abaixo) é ativista dos direitos humanos no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai. Em 1979, fundou o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, a principal organização não governamental ligada aos direitos humanos da região sul do Brasil.

entrevistado-pmIHU On-Line - O senhor apresenta como indícios de que a prática do Estado brasileiro reproduz as práticas adotadas durante a ditadura o fato de a Constituição Brasileira definir a Polícia Militar – PM como "militares do Estado". Quais são as implicações do status militar à PM e por que tal status é um resquício do AI-5?

Jair Krischke – As polícias militares no Brasil foram criadas por um decreto-lei da Ditadura de 1969. Antes, nós tínhamos, especialmente no Rio Grande do Sul, dentro da polícia civil, a guarda civil, que eram aqueles policiais que usavam uniformes e estavam na rua, mas eram todos membros da polícia civil; não existia polícia militar. Quando falo desse assunto e estão presentes na plateia membros da Brigada Militar, eles sempre dizem que a brigada tem 176 anos. Sim, é verdade, mas do mesmo modo a Força Pública de São Paulo é muitíssimo antiga, assim como a Força Pública de Minas Gerais, mas elas não tinham atribuições de polícia. Então polícia militar é uma invenção, uma criação da ditadura.

No decreto dizia que a polícia militar é força auxiliar e reserva do exército. Na Constituição cidadã de 1988 aconteceu um "copia e cola": copiaram exatamente o texto do decreto-lei da Ditadura e colocaram na Constituição, dizendo que as polícias militares são forças auxiliares e reserva do exército. Foi mantido, por exemplo, em Brasília — onde está o comando do exército — o inspetor geral das polícias militares. Trata-se de um cargo privativo de general, e todas as polícias militares do país têm de submeter o currículo de formação do soldado, cabo, sargento, oficiais ao escritório. O que vai ser ensinado aos policiais tem de ser referendado pelo exército. Por exemplo, as polícias militares, a brigada militar, quando quiserem comprar 50 revólveres novos têm de pedir licença para o general. Quem banca a folha de pagamento são os estados, mas quem manda efetivamente é o exército. Então, isso é um entulho autoritário, foi uma herança da ditadura e, portanto, a polícia sempre vê, no civil, um inimigo.

Polícia militar é uma antinomia, porque o vocábulo polícia vem do grego "polis", de cidade, cidadão, cidadania, e militar vem do latim "miles", milícias, as milícias romanas. Com muita sabedoria, os senadores de Roma não permitiam que as milícias adentrassem na cidade; elas ficavam acampadas fora dos muros de Roma, apenas podia entrar o general, que tinha duas missões essenciais: ir ao Senado e depois ir ao templo dar graças aos deuses. Então, é uma antinomia, uma coisa não funciona com a outra. A formação do militar é destinada a prepará-lo para enfrentar o inimigo, vencê-lo e submetê-lo à sua vontade, isso é ser militar; não tem nada com polícia.

IHU On-Line – Trata-se de uma falha na elaboração da Constituição?

Jair Krischke – Não foi uma falha nem um descuido. Acontece que ainda hoje, no Congresso Nacional, há um lobby militar permanente, houve um fortíssimo lobby militar que introduziu este texto na Constituição, e os anais do Congresso registram isso. Os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte foram conduzidos pelo então senador do Pará, o Coronel Jarbas Passarinho, que, travestido na figura de senador, foi o homem que coordenou os trabalhos da assembleia nacional dessa área. Todos os dias mais de dez coronéis frequentam o Congresso Nacional fazendo lobby militar.

IHU On-Line - A PEC 51, que propõe a desmilitarização das polícias, é a melhor proposta para rever a militarização?

Jair Krischke – Ela ainda deveria ser melhorada. Não tem que haver polícia militar coisa nenhuma, mas, sim, uma polícia civil, tem de ser uma polícia de carreira, como se faz na Europa. A pessoa entra como um servidor policial comum e pode chegar — na medida em que vai frequentando cursos — a ser chefe da polícia.

Com as manifestações do ano passado e a violência em todo o país, produzida por polícias militares, a população brasileira se deu conta de que essa polícia não serve. É uma polícia socialista, que socializa a violência, bate em todo mundo e é absolutamente ineficaz naquilo que é atribuído pela Constituição. A polícia tem de defender a integridade física de todos os cidadãos e o patrimônio público e privado. E o que se vê? Que o patrimônio público e privado vai à breca, destroem tudo, a polícia distribui violência, não garante a integridade física de ninguém e tampouco o patrimônio. Então, ela é absolutamente inservível. Manifestações existem no mundo todo, mas não com uma polícia que distribui violência como a nossa.

IHU On-Line - Como a expressão "auto de resistência", criada em 1969, é reproduzida hoje, como mais um indício da reprodução de práticas adotadas na ditadura?

Jair Krischke – No tempo da Ditadura criou-se esse "auto de resistência", porque a ditadura queria justificar sempre os assassinatos que cometia. Em inúmeros casos em que a ditadura assassinou quem estava envolvido na resistência, os militares argumentavam que houve um "auto de resistência". Quer dizer, o sujeito foi assassinado na tortura, os militares o levavam para a rua e diziam que ele havia os enfrentado, que foi uma resistência e com isso eles justificavam assassinatos. Esse "auto de resistência" continuou sendo praticado pelas polícias militares, a polícia que mais mata no mundo. Os números são fantásticos a ponto de a Comissão de Direitos Humanos da ONU sugerir ao Brasil a extinção das polícias militares, pelo número de mortes que elas produzem, usando como justificativa "auto de resistência", quando se trata na verdade de assassinatos.
É muito difícil contabilizar esses assassinatos, porque nem sempre sabemos deles. Casos exemplares têm acontecido no país e é possível mostrá-los, como no caso do Amarildo no Rio de Janeiro, que foi evidente. Então, há casos que extrapolam e a sociedade acaba conhecendo, mas em contrapartida há centenas sobre os quais não conseguimos informação nenhuma, e no óbito da vítima geralmente aparece "auto de resistência".

IHU On-Line - O senhor faz uma crítica ao monitoramento das redes sociais pelo exército, especialmente quando há manifestações. Como tem se dado esse processo?

Jair Krischke – A presidente Dilma ficou aborrecidíssima com o general chefe do gabinete de segurança, que não lhe comunicou que haveria manifestações da abrangência das que ocorreram no ano passado. Então, ela se valeu desse setor do exército que cuida das comunicações, demonstrando que este é um trabalho que o exército já vinha fazendo. A tal "comunidade de informações", no Brasil, nunca deixou de funcionar. Ela foi criada nos moldes da ditadura e permanece até os dias de hoje funcionando e, inclusive, se modernizou tanto que hoje domina muito o mundo da informática e vem monitorando a rede social permanentemente, 24 horas por dia.

A presidente Dilma se valeu desse setor do exército que monitora a sociedade. Como ela não foi informada, marginalizou o general da segurança institucional, que estava sentado ao lado dela, e prestigiou o outro general, que coordena e comanda o serviço de monitoramento das redes sociais, etc. E o general, sem o menor pudor, disse que utiliza os métodos da Agência Norte-Americana, aquela mesma que o Snowden denunciou para o mundo todo. Então, um general brasileiro na ativa, comandando um setor do exército brasileiro em pleno estado democrático de direito, se vale daqueles métodos, que são condenados internacionalmente, e diz, como se fosse uma grande coisa, o que está sendo feito. Por outro lado — e aí eu fico muito preocupado —, é que isso não tem no Brasil a repercussão que deveria ter, de que a sociedade brasileira está sendo monitorada de forma absolutamente ilegal, porque no artigo 5º da Constituição diz que são invioláveis as comunicações, e o sigilo das comunicações, garantidos pela Constituição, só pode ser quebrado por ordem de juiz, e ordem fundamentada de juiz.

IHU On-Line - O senhor pode nos relatar em que circunstâncias, no ano passado, policiais apreenderam materiais na biblioteca do Ateneu Libertário, em Porto Alegre, quando levaram livros e o fichário dos usuários?

Jair Krischke – Não havia mandado judicial para a apreensão feita no Ateneu, portanto, foi absolutamente ilegal, como a ditadura fazia. Foi apreendida uma série de livros, entre eles, um que é fantástico: A história do anarquismo no Rio Grande do Sul, obra de autoria do jornalista João Batista Marçal. Essa publicação foi patrocinada pela prefeitura de Porto Alegre, sendo prefeito, à época, Tarso Fernando Herz Genro. A apresentação do livro é da lavra de Olívio Dutra. Também apreenderam o fichário com o nome dos usuários que frequentam a biblioteca. Na ocasião os orientei — porque não havia um mandado de busca e apreensão — a não receber a devolução do material apreendido sem o auto de devolução.

Como a ação foi irregular, a polícia devolveu parte do material apreendido na casa de uma pessoa, mas o fichário não foi devolvido, e isso é muito grave. Tudo isso aconteceu porque estavam querendo atribuir aos anarquistas os atos de vandalismo durante as manifestações de junho do ano passado. Então queriam, sim, criminalizar os anarquistas por esses atos, quando eles não tinham nada a ver com o assunto, a ponto de nenhum deles ter sido indiciado dentre as várias pessoas que o foram.

Está acontecendo algo extremamente perigoso: a criminalização dos movimentos sociais. Movimento social é uma coisa, e baderneiro, arruaceiro, vândalo é outra. É no fim das manifestações que acontecem os atos de vandalismo. Então, essas pessoas que praticam atos de vandalismo é que deveriam responder por seus atos. Mas é muito mais fácil pegar um grupo ou outro e criminalizá-los.

IHU On-Line - Qual foi o desdobramento em relação às apreensões? O governo do estado se manifestou?

Jair Krischke – O governador Tarso Genro não se manifestou sobre o episódio, que foi absolutamente ilegal e está como se não tivesse acontecido. Toda ação policial deve gerar um inquérito policial que termina na Justiça, mas esse episódio não está no inquérito policial nem foi para a Justiça. Trata-se de algo que fica como se não tivesse acontecido.

IHU On-Line - Quais são os partidos e os movimentos de esquerda presentes no RS e como eles se diferenciam nas propostas e na atuação?

Jair Krischke – Acho que está acontecendo algo muitíssimo complicado no atual momento, a começar pelas manifestações de junho passado, nas quais os manifestantes proibiram a participação de partidos políticos. Sempre digo que isso é muito perigoso, porque quem não gosta de partido político é ditadura. Agora, alguém pode contra-argumentar dizendo que os partidos políticos no Brasil são uma "geleia geral", são todos iguais, não respondem absolutamente aos anseios do povo, etc. É verdade, mas então temos de tratar de melhorá-los, e não há outra forma de fazer política até o momento. Acredito que a humanidade vai evoluir e chegar a outra forma de representação, mas ainda é vigente o partido político como parte da democracia representativa. Então, não pode deixar de existir a participação dos partidos políticos, os quais, se não estão bem, devem ser melhorados. Isso é importante para a vida democrática. Eu também estou muito descontente com eles, acho que a representatividade se foi pelo ralo da pia, eles perderam a capilaridade, não estão mais inseridos na sociedade, se apartaram dos reclames da população. Agora, nessas manifestações era proibida a participação de partidos políticos, mas eles estavam participando, sim, a exemplo do PSOL, entre outros.

IHU On-Line – Como avalia o Decreto da democracia 8.243, recém-publicado pelo governo federal, que determina a criação da Política Nacional de Participação Social - PNPS e do Sistema Nacional de Participação Social – SNPS?

Jair Krischke – Esse decreto da presidenta Dilma criou uma espécie de democracia direta que é muito complicada, porque nós não resolvemos a questão essencial que é como nós somos. Querem fazer representação direta? Como vamos organizar isso? Essas coisas, quando acontecem de cima para baixo, são muito perigosas. A proposta não é nada interessante, ela chove de cima para baixo, isso tem de ser construído ao contrário. Sou, por exemplo, adepto de uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva para tratar da reforma política do país. Antes de extinguir os partidos políticos, quem sabe uma reforma política nos ajude e nos abra para novos caminhos. Mas isso só poderá ser feito com uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva para tratar do tema da organização política do Brasil.

IHU On-Line – O senhor faz uma crítica pontual ao fato de as manifestações ignorarem os partidos. Como vê, nesse quadro das manifestações, a atuação dos anarquistas e o surgimento de grupos a exemplo dos black blocs?

Jair Krischke – Tenho visto vários grupos que se denominam anarquistas, mas não são coisíssima nenhuma. O anarquismo tem cabeça, tronco e membros, é uma proposta ideológica bem definida, não é um improviso. E a melhor representação do pensamento anarquista está na Federação Anarquista Gaúcha - FAG, a quem eu sempre olhei com o maior respeito. Agora, atribuir tudo que de mal acontece aos anarquistas me faz lembrar aquele famoso filme Casa Blanca, quando o capitão da polícia dá a ordem: "prendam os suspeitos de sempre". No caso dos anarquistas é a mesma coisa, eles são os suspeitos de sempre. Vamos investigar; quem sabe não são eles, podem ser outros.

IHU On-Line - Em que consiste a Portaria Normativa Nº 3.461/MD, de dezembro de 2013, que dispõe sobre a "Garantia da Lei e da Ordem"? Quais são os pontos críticos e por que ela foi criada?

Jair Krischke – Ela foi criada muito em função da Copa. Vê-se, pela data, que ela é do fim do ano passado, porque as manifestações já tinham acontecido a partir de junho em todo o país, e a presidente, preocupada, chamou os militares e atribuiu a eles a resolução desses problemas, dizendo que a Copa iria acontecer e essas manifestações não poderiam ocorrer.

Segundo "um passarinho" me informou, os generais disseram a ela que isso era atribuição da polícia, e que eles eram os militares, as Forças Armadas. Então, ela ficou brava e disse: "Pois agora, general, é o senhor quem está encarregado dessa função". Então, o Ministério da Defesa produziu uma portaria cuja linguagem é terrífica. Eles nomeiam o movimento popular de Forças Oponentes. O que é isso? Nessa portaria está ressuscitado o inimigo interno, rebrota aquilo da doutrina de segurança nacional. Como assim forças oponentes? É a cidadania brasileira se manifestando. Posso concordar ou discordar, isso é outro problema, mas absolutamente não posso chamar tais manifestações de forças oponentes. Isso é cabeça de milico, onde todos são inimigos. Isso não pode ser assim. Então, essa portaria chama demais a atenção porque atribui aos militares inclusive o poder de busca e apreensão. Isso é gravíssimo, me preocupa demais porque se abrem as portas do inferno, os demônios saem e depois para botá-los de volta é um trabalhão, como já foi um trabalhão que nos custou 21 anos e muitas vidas. Estamos brincando com fogo.

IHU On-Line – Como vê a proposta de ter um Centro de Pronto atendimento Judiciário em plantão durante a Copa?

Jair Krischke – Não se sabe o que vai acontecer. Isso é uma incógnita. Gostaria que não acontecesse nada de maior, que, se ocorrerem manifestações, que sejam pacíficas, dentro daquele espaço que a democracia permite e garante, ou seja, a livre manifestação. Agora, evidentemente podem acontecer coisas desagradáveis, e esse plantão vai tentar atender essas questões e não permitir que se violem os direitos humanos.

No Rio de Janeiro, por outro lado, o Judiciário determinou mandado de busca e apreensão coletivo, isso é absolutamente ilegal, mas foi assinado por um juiz.

Em São Paulo ocorreram protestos da Associação dos Magistrados pela Democracia para criar um juizado especial tirando a figura do juiz natural. No Rio Grande do Sul ainda não ouvi falar disso, mas se vê que é muito preocupante, porque o Poder Judiciário é um garantidor também da democracia.

Então, estou preocupado, espero que não aconteça nada, que tudo fique na normalidade, que os protestos aconteçam, mas que não haja problemas maiores. Como diria vovó: oremos!

Petición al Cuarteto de Oriente Medio para que se despida a Tony Blair

Via Sin Permisso

Noam Chomsky · et alii · · · ·

Este viernes, 27 de junio, se cumplirá el séptimo aniversario del nombramiento de Tony Blair como representante del Cuarteto [de Naciones Unidas, EE.UU., Rusia y la Unión Europea] en Oriente Medio. Los abajo firmantes apremiamos a que se le retire con efecto inmediato debido a lo pobre de su ejecutoria en el puesto y al bagaje que deja en la región en su conjunto.

Como tantos otros, nos sentimos horrorizados de que Irak se haya abismado en un conflicto sectario que amenaza su misma existencia como nación así como la seguridad de sus vecinos. No obstante, nos sentimos asimismo consternados por los recientes intentos de Tony Blair de exonerarse de cualquier responsabilidad en la actual crisis  aislándola de la herencia dejada por la guerra de Irak. 

En realidad, la invasión y ocupación de Irak ya se había convertido en un desastre desde mucho antes de los recientes avances del Estado Islámico de Irak y Siria. El conflicto sectario responsable de buena parte de buena parte del reprobable coste humano de la guerra lo había provocado en parte la división del sistema político del país siguiendo líneas sectarias por parte de las fuerzas ocupantes.

Con el fin de justificar la invasión, Tony Blair confundió al pueblo británico afirmando que Sadam Hussein tenía lazos con Al-Qaeda. Tras los recientes acontecimientos, resulta una cruel ironía que acaso el legado más duradero de la invasion haya sido el terrorismo fundamentalista en una tierra en la que anteriormente no existía.

Creemos que el señor Blair, vociferante adalid de la invasión, debe aceptar cierto grado de responsabilidad en sus consecuencias.  

Los territorios palestinos ocupados representan otro trágico fracaso del compromiso occidental en Oriente Medio.

Consideramos que después de siete años son desdeñables los logros alcanzados como enviado por el Sr. Blair, aun dentro de su reducido mandato de promoción del desarrollo económico palestino. Además, la impression de actividad que provenía de su nombramiento de elevado perfil ha obstaculizado verdaderos avances encaminados a una paz duradera.

Siete años después, hay todavía más de 500 puestos de control y controles de carretera en Cisjordania. La franja de Gaza, gravemente afectada por los bombardeos israelíes de  2009, continúa en situación de crisis humanitaria, con un 80% de su población en situación de dependencia de la ayuda exterior para su supervivencia. Israel sigue construyendo asentamientos que son ilegales de acuerdo con el Derecho Internacional. Según Nabil Shaath, antiguo negociador jefe de la Autoridad Palestina, Tony Blair ha "conseguido tan poquísimo debido a sus groseros esfuerzos por agradar a los israelíes".

Consideramos igualmente que la conducta de Tony Blair en sus iniciativas particulares pone también en cuestión su idoneidad para el cargo. Se ha criticado ampliamente al Sr. Blair por su falta de transparencia en la forma en que organiza sus tratos de negocios y sus finanzas personales, y por volver borrosas las líneas entre su posición pública como enviado y su papel particular en Tony Blair Associates y la banca de inversión JPMorgan Chase.

Ante la actual vía muerta de las negociaciones, es momento de repensar los compromisos internacionales sobre la cuestión. Junto a nuestro llamamiento para que se retire a Tony Blair como enviado especial del Cuarteto, apremiamos a la opinión pública a firmar esta petición [http://www.change.org/en-GB/petitions/ban-ki-moon-sack-tony-blair-as-the-middle-east-peace-envoy] por medio de la página sackblair.org.

Firman esta petición:

Mamdouh Aker, Comisión Palestina Independiente de Derechos Humanos

Mourid Barghouti, escritor y poeta palestino

Crispin Blunt, diputado del Partido Conservador británico

Profesor Noam Chomsky, profesor emérito, MIT (Massachusetts Institute of Technology)

Sir Richard Dalton, ex-embajador británico en Libia e Irán

Profesor Hani Faris, Universidad de la Columbia Británica

George Galloway, diputado del Partido del Respeto británico

Jeff Halper, director, Comité Israelí contra la Demolición de Viviendas

Ken Livingstone, ex-alcalde de Londres

Christopher Long, ex-embajador británico en Egipto

Caroline Lucas, diputada y ex-dirigente del Partido Verde británico

Michael Mansfield, abogado en ejercicio

John McDonnell, diputado del Partido Laborista británico

Sir Oliver Miles, ex-embajador británico en Libia

Peter Oborne, escritor y periodista

Profesor Ilan Pappé, historiador israelí, Universidad de Exeter

Clare Short, ex-secretaria de Estado británica para Desarrollo Internacional

Baronesa Tonge, par [del Reino Unido] independiente por el Partido Liberal-Demócrata británico

Tom Watson MP, ex-ministro de Defensa laborista

Quem atirou na Argentina?

Sanguessugado do Outras Palavras

140628-Aristocratas

Ao sabotar acordo entre país e seus credores, e favorecer fundos-abutres, Suprema Corte dos EUA arrisca-se a incendiar relações financeiras internacionais

Mark Weisbrot | Tradução: Inês Castilho

Quando Cristina Kirchner concorreu à presidência da Argentina pela primeira vez, em 2007, havia um anúncio de campanha em que crianças pequenas respondiam à pergunta: “O que é FMI (Fundo Monetário Internacional)?” Elas davam respostas engraçadinhas e ridículas, tais como “FMI é um lugar com muitos animais”. O narrador, então, dizia: “Conseguimos fazer com que seus filhos e netos não saibam o que significa FMI.”

Até hoje, não há nenhum caso de amor entre o FMI e a Argentina. O Fundo articulou o terrível colapso econômico de 1998-2002 no país, bem como numerosas políticas fracassadas nos anos anteriores. Mas quando a Corte de Apelações para o Segundo Circuito dos EUA decidiu em favor dos fundos-abutres, que tentam receber o valor integral da dívida argentina, que compraram por 20 centavos o dólar, até mesmo o FMI foi contra.

De modo que muitos observadores surpreenderam-se, na segunda-feira passada (23/6), quando a Corte Suprema dos EUA recusou-se até mesmo a rever a decisão do tribunal. A Corte Suprema precisa de apenas quatro juízes para conceder petição para “certiorari”, ou rever a decisão de instância inferior, e este era um caso extremamente importante. A maioria dos especialistas concorda que ele tem sérias implicações para o sistema financeiro internacional. Ainda mais importante: a Corte de Apelações decidiu que, se a Argentina pagar os mais de 90% dos credores que aceitaram um acordo de reestruturação da dívida, entre 2005 e 2010, ela está obrigada também a pagar os fundos-abutres1.

O que significa isso? No final de 2001, em meio a uma recessão profunda e incapaz de financiar enormes pagamentos da dívida, a Argentina entrou em moratória. Foi a decisão certa; a economia do país iniciou uma recuperação robusta, apenas três meses depois. Quatro anos mais tarde, 76% dos credores aceitaram uma reestruturação da dívida, que incluiu a redução de cerca de dois terços do valor de seus créditos. Por volta de 2010, mais de 90% dos credores havia aderido, aceitando novos títulos no lugar dos anteriores.

A decisão do tribunal norte-americano significa que um fundo-abutre, ou qualquer credor “resistente”, pode impedir ou destruir um acordo anterior, negociado com o resto dos credores. Como não existe algo como uma lei de falências para os tomadores de empréstimo do governo, a decisão pode limitar severamente a capacidade de credores e devedores chegarem a acordos civilizados, em casos de crise da dívida soberana. Esta é uma grande ameaça ao próprio funcionamento dos mercados financeiros internacionais.

Então, por que a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu não julgar o caso? Talvez porque tenha sido influenciada por uma mudança de posição do governo norte-americano, que o teria convencido de que o caso não era tão importante. Ao contrário da França, Brasil, México e do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o governo dos EUA não entrou com um amicus curiae2 na Suprema Corte, apesar de ter feito uma apresentação, no caso. E – aqui está o grande mistério – tampouco o fez o FMI, embora tenha manifestado publicamente preocupação com o impacto dessa decisão.

Em 17 de julho de 2013, a diretora do FMI, Christine Lagarde, anunciou que o Fundo apresentaria um amicus curiae na Suprema Corte norte-americana. Então o Conselho do FMI reuniu-se e, de forma um tanto constrangedora, decidiu em sentido contrário, devido às objeções dos EUA. Essa poderia ser a razão pela qual a Suprema Corte não convidou o procurador-geral dos EUA para uma exposição e, ao final, não reviu o caso. Mas quem seria o responsável pela reviravolta de Washington?

Como em uma novela de Agatha Christie, há numerosos suspeitos de ter cometido a ação. O lobby dos fundos-abutres – um grupo bem relacionado, liderado por ex-integrantes do govenro Clinton –, conhecido como Grupo Americano de Ação Argentina, gastou mais de 1 milhão de dólares no caso, em 2013. Além disso, há os suspeitos usuais no Congresso, principalmente os neo-conservadores e a delegação da Flórida, que querem mudar o partido político no poder na Argentina após as eleições de outubro de 2015.

1Fundos-abutres (“vulture-funds”, em inglês), são fundos que investem em “papéis-podres” – ou seja, títulos que perderam quase todo seu valor, nos mercados financeiros. O fundos-abutres compram estes títulos por uma parcela insignificante de sua cotação original, esperando lucrar mais tarde, quando o devedor se recuperar e a cotação de sua dívida subir. [Nota da Tradução]

2Amicus Curie (“Amigos da Corte”, em latim) é intervenção feita, num processo judicial, por uma pessoa ou entidade julgada representativa e que, não sendo ligada diretamente na disputa, tem interesse em influenciar seu desfecho. [Nota da Tradução].

sábado, 28 de junho de 2014

Por que Benzema não canta o hino da França?

Sanguessugado do Pragmatismo Político

Benzema, artilheiro da França na Copa do Mundo, não canta o hino do seu país em protesto contra a xenofobia

Karim Benzema copa 2014 hino

O artilheiro da França na Copa do Mundo no Brasil, Karim Benzema (Reprodução)

Na primeira vez que a Marselhesa foi entoada na Copa do Brasil, Karim Benzema ficou calado. O artilheiro e principal jogador da seleção francesa escolheu não cantar o hino nacional de seu país em um protesto silencioso contra a xenofobia presente na letra e na sociedade multicultural da França.

Benzema, como milhões de franceses, é filho de imigrantes de uma das colônias que o país teve no século 20, no caso dele, a Argélia. E a letra da Marselhesa diz: “Às armas, cidadãos / formai vossos batalhões / marchemos, marchemos! / Que um sangue impuro / banhe o nosso solo.”

As palavras são de 1792, uma época em que a França estava dominada por exércitos estrangeiros, contra os quais a Marselhesa invocava sua ira. Mas, na leitura moderna, a expressão “sangue impuro” é interpretada como uma referência aos imigrantes e seus filhos, cujos direitos civis vêm sendo cada vez mais ameaçados com a ascensão de grupos políticos de ultradireita.

O protesto de Benzema ganhou o centro do debate político no ano passado, quando Jean Marie Le Pen, o presidente de honra do partido ultraconservador Frente Nacional, sugeriu que ele não fosse mais convocado por não cantar o hino.

Le Pen, em sua fúria contra aqueles que não considera “os verdadeiros franceses”, é o mesmo que exigira, em 1998, que não fossem convocados à seleção jogadores negros ou de origem árabe. Mas é a essa geração Black-Blanc-Beur (negros, brancos, árabes) que o futebol francês deve seu único título mundial.

“Se eu cantar o hino, não significa que vou marcar três gols”, disse Benzema ao ser questionado sobre a questão. “E se eu não cantar, mas quando o jogo começar, fizer três gols, não acho que alguém vá dizer que eu não cantei a Marselhesa. Ninguém vai me obrigar a cantar. Mesmo alguns torcedores não cantam. Zidane, por exemplo, não cantava necessariamente. E há outros.”

Há mesmo. Zidane, também filho de argelinos, é o mais proeminente da lista. Franck Ribery, cuja mulher é argelina, também apenas murmurava a canção, exibindo um entusiasmo muito menor do que o empregado em suas orações islâmicas antes dos jogos.

E Michel Platini, outro ídolo do país, já disse que em sua geração nenhum jogador cantava o hino, mesmo aqueles sem nenhuma ascendência senão a francesa.

O episódio ajuda a dimensionar a extensão da controvérsia que toma conta das conversas no país.

Karembeu

Christian Karembeu, um dos principais nomes do título mundial de 1998 e nascido no território da Nova Caledônia, parou de cantar em 1996 logo depois de um dos primeiros ataques de Le Pen ao multiculturalismo da seleção.

A seleção, dizia Le Pen, estava “cheia de falsos franceses que não cantam a Marselhesa.”

“A partir daí, eu não cantei mais a Marselhesa”, disse Karembeu. “Para mostrar para as pessoas quem nós [imigrantes] somos.” Foi ele quem melhor verbalizou o desconforto que sentem os jogadores com origem nas colônias que defendem a seleção.

Ele sabia a letra de cor, porque mesmo em sua terra natal, as crianças eram ensinadas sobre o hino desde muito cedo, mas quando o ouvia pensava em seus ancestrais, os indígenas Kanaks da Nova Calendônia que foram levados à Segunda Guerra Mundial para morrer pela França.

“A história da França é a história de suas colônias. Acima de tudo, eu sou Kanak. Eu não consigo cantar o hino francês porque eu conheço a história do meu povo.”

A polêmica sobre cantar ou não a Marselhesa vai além dos campos de futebol, como bem percebeu Christiane Taubira, a ministra da Justiça, nascida na Guiana Francesa. No mês passado, ela ouviu o hino calada durante uma cerimônia pública. Virou alvo da ira da Frente Nacional, que exigiu sua demissão.

Mas é nos gramados que essa questão ganha uma alegoria perfeita na medida em que a seleção reflete, como poucas outras instituições, a diversidade étnica do país.

Laurent Dubois, professor de História da Duke University, resumiu da seguinte forma a polêmica sobre o comportamento dos jogadores antes dos jogos.

“Eles vão rezar a Jesus, Alá ou Zaratustra? Fiquem à vontade. Querem invocar seus ancestrais, ou o espírito do fundador da Copa do Mundo, o francês Jules Rimet, ou o deus da guerra africano Ogun? Tudo certo. No fim do jogo, como Benzema aponta, se eles marcarem três gols e trouxerem a vitória, ninguém vai lembrar o que eles estavam cantando quando o jogo começou.”

Quem salvou o Brasil contra o Chile

Sanguessugado do Diario do Centro do Mundo

Scott Moore

A festa pela classificação

A festa pela classificação

Ladies & Gentlemen:

Supernatural Jones (nota da tradutora: Sobrenatural de Almeida) ganhou o jogo contra o Chile. Num segundo plano, o herói foi o goalkeeper Júlio César, que eu conheço do futebol inglês como uma notável mediocridade.

SJ ergueu ligeiramente a bola chilena que se chocou contra o travessão canarinho. Para tornar ainda mais emocionante o jogo, porque SJ gosta de brincar com as emoções das plateias, ele brincou de gangorra na cobrança de pênaltis até empurrar a pelota do último chileno para a trave e para fora.

Ladies & Gentlemen: foi um dos jogos mais feios da Copa do Mundo, se não o mais. Truncado, passes errados, técnica escassa.

Em compensação, sobrou garra, sobrou determinação – e a tudo isso, como disse, se somaria a mão mágica, e invisível aos incrédulos, de SJ.

Disseram que é a melhor geração do Chile, e então eu digo a vocês: imagine a pior.

Não se iludam: o onze canarinho é limitado. Tive a esperança, na última partida, de que Fernandinho daria um jeito na equipe.

Não deu. Foi uma sombra do jogador do Manchester City. Quando Jô entrou, lembrei das chances perdidas pelo Man City. Ri sozinho quando ele, sem goleiro e nenhum zagueiro pela frente, furou espetacularmente no que seria o gol da vitória.

Neymar oscilou bons momentos com outros de completo desaparecimento. Mas compareceu ao marcar o pênalti decisivo, e então a omissão lhe deve ser perdoada.

Não enxergo nesta seleção o futebol brasileiro tal como o conheci ao longo de minha juventude.

Penso mesmo que é a pior seleção brasileira que vi numa Copa em minha vida, excetuada a de 1990.

Mas sejamos justos: não existe nenhum time muito melhor que este na competição. Ou mesmo melhor, com a possível exceção da Argentina por causa de Messi e apenas de Messi.

Tudo isso posto, se Supernatural Jones continuar a se inclinar para o Brasil, o hexacampeonato pode estar a caminho.

Sincerely.

Scott

Tradução: Erika Kazumi Nakamura

Sobre o Autor

Aos 53 anos, o jornalista inglês Scott Moore passou toda a sua vida adulta amargurado com o jejum do Manchester City, seu amado time, na Premier League. Para piorar o ressentimento, ele ainda precisou assistir ao rival United conquistando 12 títulos neste período de seca. Revigorado com a vitória dos Blues nesta temporada, depois de 44 anos na fila, Scott voltou a acreditar no futebol e agora traz sua paixão às páginas do Diário.

Quando tudo fica gris

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

Elaine Tavares

O rio Uruguai, sempre uma bênção

Onde era o bar do picolé, agora é agropecuária, mas segue ali, firme.

A escola Francisco de Miranda, ainda de pé...


Minha irmã mais velha foi quem me ensinou a ler. Ela chegava da escola e fazia os deveres numa pequena lousa de "brinquedo", fazendo as vezes de mestra, ensinando. Eu, olhuda e atenta, aprendia. Mal sabia ela o tanto de bem que me fazia. Tinha cinco anos quando fui levada para a escola pela nossa vizinha, Maria Tereza, que era professora. O colégio era longe, ficava no bairro do Paso, bem na beira do Rio Uruguai, e a gente ia de ônibus. Pelo caminho, eu vislumbrava uma cidade diferente da que se via pelo "centro". O quartel, enorme, se estendendo por metros a fio, os guardinhas parados vigiando o nada, as casinhas pequenas, os pátios cheios de bergamoteiras, as pessoas sentadas na varanda, as mulheres varrendo a calçada, a gurizada correndo pelas ruas de chão. A Escola Municipal Francisco de Miranda tampouco era diferente do bairro onde se encontrava. Simples, com partes de madeira, carteiras velhas. A diferença é que tinha, bem na entrada a foto do grande precursor das batalhas de libertação nessa nossa imensa Abya Yala: Francisco de Miranda. Imagino eu que foi ali que meu sentido de pertencimento a essa américa baixa foi se formando.


Na hora do recreio, a gurizada se espalhava pelo campo enorme que havia em frente a escola e a maior aventura era correr até o casarão da esquina para comprar picolé. Naquelas horas de folguedo também era possível se misturar às crianças do bairro, muitas delas com voz argentina. Essa coisa boa de viver na fronteira. Uma mistura de línguas e costumes. Voltar para casa, tão distante da escola, era sempre triste. Era como adentrar outro mundo, um mundo que não tinha o encantamento da vida do Paso. Foi assim que me apeguei aos livros. Por sorte, meu pai tinha pena dos vendedores de livros que batiam à porta, com sua algaravia de provações, e comprava tudo o que ofereciam. Assim, desde bem pequena tive contato com o que há de melhor da literatura nacional. Coleções inteiras com as obras de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Castro Alves, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos. Também chegavam livros sobre os Incas, Maias, Astecas, os povos africanos, os grandes filósofos, os mitos gregos. A minha casa era um mundo encantado.


Foram os livros também os responsáveis pela minha tristeza. De tanto conhecer as coisas do mundo, fui ficando macambúzia. Tanta impotência com os dramas humanos. Como entender a destruição dos indígenas? Ou a dor de um continente inteiro, como o africano? Como explicar a violência do nazismo? Por que havia tanto mal, tanta miséria, tanto aniquilamento? Minha mãe, católica praticante, dizia: "são os desígnios de deus". Mas, eu, desconfiava. Se deus era puro amor, aquilo não era obra dele. Parecia evidente que era obra humana. Mas, por quê? Não tinha a resposta. Lia mais e mais, e nada. Decidi que não poderia ser alegre com tanta tristeza nesse mundo. Passei muitos anos assim, mergulhada na desesperança.


Todo esse pano de fundo me levou ao jornalismo. Amante das palavras, a vida só parecia fazer sentido quando eu mesma juntava as letras e contava as histórias. Se não havia como salvar as pessoas de tanta tragédia, pelo manos narrá-las, para que não se perdessem na noite da história. E assim fui, pelos caminhos, re-construindo mundos. Pretensiosa aventura, sempre inconclusa. Já era adulta quando percebi que podia ter direito a algumas alegrias, e re-aprendi a rir com vontade, gargalhar, desfrutar dos pequenos momentos de felicidade que aparecem na vida da gente, num átimo. Esses que valem uma vida.


Ontem, vendo um vídeo que contava a história de um homem - Nicholas Winton - que ajudou a salvar 700 crianças do horror nazista, me abateu outra a tristeza de outrora. O repórter aludiu ao terror daqueles dias, tão longínquos. E o sábio velhinho redarguiu, ligeiro: "Não se engane, os dias de hoje não são melhores do que aqueles. Falta ética e compromisso". Bateu como um martelo. Pura verdade. "A humanidade não aprendeu nada", disse, desolado. E me deixou, assim, nessa tristeza infinda...

A história secreta da renúncia de Bento XVI

Via CartaMaior

Eduardo Febbro

TV Vaticano

Paris - Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.


Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”.

Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.


A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.


Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.


Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.


Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.


Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.


Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Gideon Levy: "O mundo está cansado de Israel e suas insanidades"

Via Vermelho

O jornalista israelense Gideon Levy notou, em artigo para o jornal Haaretz, nesta quinta-feira (26), o grau do isolamento de Israel. Além da somatória de “advertências” da Europa contra as colônias ilegais em territórios palestinos e os abusos da ocupação, o pretexto do rapto de três colonos judeus na Cisjordânia para a maior presença militar israelense, a detenção massiva de palestinos e a morte de cerca de 10 pessoas, estão expostos.


Moara Crivelente,
da Redação do Vermelho

 

Asia News

Colônias israelenses Gush Etzion, bloco com 22 "comunidades" ou "municipalidades" e mais de 70 mil habitantes, entre Belém e Jerusalém, na Cisjordânia.

 

Colônias israelenses Gush Etzion, bloco com 22 "comunidades" ou "municipalidades" e mais de 70 mil habitantes, entre Belém e Jerusalém, na Cisjordânia.

As advertências europeias contra o investimento e o comércio com as colônias israelenses – às quais se somaram, nesta sexta (27), a Espanha e a Itália – ainda têm pouco de eficácia, uma vez que se resumem a isso, advertências. Enquanto isso, a rompante operação militar de Israel soma566 detenções arbitrárias e quase 10 mortes na Cisjordânia e em Gaza quando, ainda nesta sexta, dois palestinos foram atingidos por ataques aéreos no norte da Faixa de Gaza.

Há alguns meses, foram a Alemanha e o Reino Unido e, no início da semana, foi a França quem aderiu à tendência de desinvestimento relativa às colônias de Israel nos territórios palestinos, reconhecendo a ilegalidade das construções diante do direito internacional e avisando os seus cidadãos sobre as possíveis consequências legais dos negócios realizados com elas.
Na sequência, os governos da Itália e da Espanha – que vem sendo cenário de um protesto cada vez mais enfático contra as parcerias militares e “securitárias” com Israel – emitiram as suas próprias advertências aos cidadãos e empresas nacionais, nesta sexta, contra o comércio e o investimento nas colônias israelenses na Cisjordânia, em Jerusalém Leste e nas Colinas de Golã, território sírio anexado ilegal formalmente em 1980.
Ainda assim, as medidas não são sanções ou boicotes, nem são vinculantes. Oficiais do Ministério espanhol das Relações Exteriores enfatizaram que o governo da Espanha é contrário a essas ações – visivelmente, no caso de aliados como Israel – e que a decisão sobre a advertência é um “alinhamento” com as ações da Alemanha, França e Reino Unido, assim como a implementação de uma decisão da União Europeia que, no ano passado, publicou “diretrizes” neste sentido.
O enviado da UE para Israel Lars Fabourg-Andersen disse que as advertências, que não deveriam soar “surpreendentes”, apontam para o fato de que os Estados membros do bloco “estão perdendo a paciência com preocupações que não estão sendo tratadas”. A UE, assim como os EUA, fizeram algumas “advertências” próprias e ineficazes contra a política israelense de construção exponencial nas colônias ilegais que mantém nos territórios árabes ocupados, inclusive durante os períodos de negociações.
Vitimização e isolamento
Em sentido paralelo, o jornalista Gideon Levy apontou para o silêncio com relação ao caso do alegado rapto, há duas semanas, de três adolescentes das colônias de Gush Etzion, um bloco de 22 comunidades com mais de 70 mil habitantes, entre Belém e Jerusalém, na Cisjordânia. Para Levy, a falta de uma resposta apaixonada e raivosa por parte da comunidade internacional, como instigada por Israel, é uma prova de que as longas décadas em que a política arrogante predominou no país chegam à saturação.
O jornalista escreveu sobre a participação das mães dos três colonos ortodoxos na sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, na Suíça, nesta quarta-feira (25), para fazer um apelo sobre o caso dos seus filhos. Entretanto, a questão é uma amostra da “ironia do destino”, diz Levy: Há dois anos, Israel suspendeu oficialmente a sua cooperação com o órgão da ONU, em consonância com um posicionamento dos EUA, contrários ao próprio estabelecimento do conselho, que voltou a condenar as políticas da ocupação israelense, na mesma sessão.
“É preciso muita desfaçatez para exigir que o mundo se interesse pelo destino de três israelenses raptados, e consideravelmente bastante audácia para ficar frustrado pelo fato de que ele silenciou [a respeito],” afirma Levy, sublinhando que Israel “tentou mover céu e terra, e seu embaixador/propagandista na ONU fez um discurso comovente,” no esforço, mais uma vez, contra o Hamas. O partido islâmico acaba de reintegrar o governo palestino, após o bem-sucedido acordo de reconciliação que finalizou um longo período de ruptura política nacional, desafiando o governo israelense, que reagiu com agressividade.
Entretanto, como “já estava prestando atenção”, ironiza Levy, “este mundo bizarro estava mais interessado na campanha de punição coletiva imposta a milhares de residentes da Cisjordânia após o sequestro. Assim são as coisas, com este mundo completamente contra nós: Ele está mais interessado na ocupação de meio século e está mais abalado pelo destino de três milhões de palestinos do que com o de três israelenses.”
“É assim que uma fruta podre se parece. O mundo não tem qualquer razão para estar mais interessado no futuro de Naftali Fraenkel, Eyal Yifrah e Gilad Shaar do que no do garoto tão jovem quanto eles, Mohammed Dudin, de 15 anos, que foi morto por munições letais [disparadas] por soldados israelenses em Dura, na sexta passada.”
Mas os pais de Mohamed não estavam em Genebra, naquela sessão do Conselho de Direitos Humanos, pontua Levy. “É impossível exigir empatia do mundo quando Israel ignora as decisões mundiais; é impossível exigir atitude quando Israel perpetua a ocupação; e é impossível exigir solidariedade com o destino de vítimas israelenses quando este mesmo Israel vitimizado continua a matar, ferir e deter inocentes rotineiramente (...). O mundo está cansado de Israel e suas insanidades.”

JOAQUIM BARBOSA, DESTINO MIAMI

Via Jornal O Rebate

LAERTE BRAGA

Miami. Onde se concentram as grandes máfias e os principais mafiosos latinos nos EUA. É para lá que vai Joaquim Barbosa, ministro presidente do STF – Supremo Tribunal Federal – e proprietário de um apartamento ganho como compensação pelas atitudes irresponsáveis e arbitrárias que tomou no caso conhecido como “mensalão”.

Desde o misterioso apartamento nem uma palavra da mídia sobre a fraude da empresa com endereço oficial para fugir do pagamento de impostos. O silêncio é fruto da podridão da mídia de mercado. Uma fraude não tem tamanho. Ou é fraude ou não é.


No caso do ministro Joaquim Barbosa seria o suficiente, em qualquer país civilizado do mundo, para o afastamento da figura. Aqui se varre para debaixo do tapete e se transforma Joaquim em paladino da coragem e da honestidade.


Pode voltar, foi anunciado como eventual ministro da Justiça de Aécio Neves. Pouco provável. É uma figura inexpressiva, guindado a uma posição de mando e agora volta ao seu lugar de sempre, ao almoxarifado de coisas e pessoas imprestáveis às quadrilhas que atuam no Brasil.


Vai estar em boa companhia. Deixa aqui Gilmar Mendes, o verdadeiro artífice no STF de toda essa barbárie, que um dia chamou de cangaceiro em sentido pejorativo e da noite para outro dia se transformou em guru e dileto amigo.


Celso Melo, decano daquilo que chamam de suprema corte vai se aposentar. Dilma vai ter a oportunidade de indicar dois nomes para o atual antro. Pode revitalizá-lo se não cometer os erros que ela e Lula cometeram nas escolhas.


Dar ao STF a compostura e dignidade histórica de suprema corte. Não há que ter vacilos e nem preocupações com tendências de ministros, mas coragem de indicar juristas de notório saber e principalmente de reputação ilibada. Fux, por exemplo, foi uma furada sem tamanho. Mau caráter em estado bruto.


O estado atual é lastimável. Que o digam os banqueiros beneficiados por Gilmar Mendes, por Marco Aurelio Mello e o médico estuprador que sumiu na conta de um habeas corpus.
Ou a moça condenada e presa por ter tirado uma caixa de manteiga de uma padaria para satisfazer a vontade da mãe.


Como são generosos os poderosos. Mas entre eles.


Joaquim Barbosa tinha pela frente a perspectiva de transformar-se num dos grandes nomes da história da corte. Primeiro negro a integrá-la. Jogou fora a oportunidade. Transformou-se um capitão do mato. A despeito de todo esforço de VEJA vai ser engolido na poeira da história como um alguém que não soube honrar a tarefa que lhe foi dada.


O destino Miami é apropriado.

Para uma Estética das Mulheres Erradas

Sanguessugado do Outras Palavras

MARÍLIA MOSCHKOVICH

 

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Na sociedade falocêntrica, os homens são as réguas. Mesmo com todo o “desejável”, ainda nos sentiríamos inadequadas. Subvertamos esta roda retrógrada

Por Marília Moschovich | Imagem Egon Schiele, Mulher com meias verdes, 1914

Eu tenho os pés grandes. Sou bem mais alta do que a média das mulheres e do que boa parte dos homens em nosso país. Não sou gorda, mas estou bem mais longe de ser magra. Usei óculos durante toda minha vida adulta, até bem pouco tempo atrás. Tenho os quadris (bem) largos. As coxas gorduchas. Um pouco de papo. Pelos em tom escuro. Estrias. Vasinhos nas pernas. Cicatrizes.

Sempre tive – e ainda tenho – dificuldades em encontrar sapatos que me sirvam. Coloridos, diferentinhos, com pequenos charmes? Ainda menos. Roupas também, embora sapatos sejam mais fáceis. Sutiãs perfeitos? Nem sonhando. Sempre destoei, em termos de corpo, tamanho. Sempre me senti um peixe fora d’água (ou uma baleia – e nada contra as baleias, aliás, que lideram minha lista de animais favoritos junto aos elefantes, claro; questão de empatia).

Ao mesmo tempo, sempre tive outras características que me faziam nem-tão-fora-d’água-assim: não sou portadora de nenhuma deficiência física, sempre fui boa em esportes, danças e coisas que exigem coordenação motora corporal, sou branca, meu nariz está dentro de um padrão considerado bonito, não tive nem tenho orelhas de abano, tenho corpo acinturado, meus cabelos ficam entre lisos e cacheados e estão dentro do que se considera “bonito” por aí, nunca usei nem precisei de aparelho nos dentes.

Nenhuma dessas características jamais me fez sentir bem quando uma roupa não servia. Tampouco eliminou minha frustração ao comprar sapatos (se tem uma coisa que eu detesto ter que comprar, até hoje, são os malditos sapatos). Sempre achei que minha vida seria mais fácil se eu tivesse os pés menores do que 40/41 e usasse calças de tamanhos menores do que 44/46. Bobinha.

Basta conversar com qualquer mulher de qualquer tamanho e ver que todas nós compartilhamos dessa exata mesma sensação. As mais altas que eu, as mais baixas que eu, as mais gordinhas, as mais magrinhas, as de pés maiores e as de pés menores. Todinhas. Inclusive – anotem aí – as modelos e atrizes consideradas “perfeitas” em nosso padrão de beleza. Pois é.

Não é novidade que a indústria da moda produz vestuário e acessórios para corpos que não existem. As numerações são em geral ridículas (que dizer de certos tamanhos G por aí? apenas: risos), a quantidade de peças produzidas e revendidas às consumidoras finais – em especial nos tamanhos “maiores” e “menores” dessa escala tosca – é sempre insuficiente para a demanda, e nem vou entrar aqui na discussão sobre a publicidade utilizada por essas corporações, nem sobre o uso de trabalho escravo ou imagens alteradas digitalmente. Todo o ponto da coisa é: por que carregamos a culpa de não servirmos nas peças criadas e revendidas nessa indústria?

A culpa de “não servir” é tanta que nos atiramos a regimes ridículos, muitas vezes arriscando nossas vidas por isso. Fazemos cirurgias plásticas de todos os tipos porque se torna insuportável psicologicamente convivermos com o sentimento de inadequação e com a autoestima destruída diariamente por ele. Essa culpa não é uma escolha voluntária, uma pedra que decidimos carregar. É uma construção de séculos na história ocidental que tem uma função social muito específica: controle.

Em O Segundo Sexo, livro que Simone de Beauvoir escreveu sem saber que era feminista (surpresa: ela só de autodeclarou feminista uma década mais tarde!), esse processo de construção do que consideramos “masculino” e “feminino” é recuperado de maneira bem acessível e interessante. Resumindo um tantão essa ópera, dá pra dizer que a filósofa mostra por meio de exemplos diversos como nossa cultura se construiu tendo o masculino como fiel da balança, como neutro. Tudo que é considerado feminino é considerado específico, particular, desviante. O masculino é considerado universal, geral, norma. Não é à toa que, numa sociedade que se ergue a partir dessa perspectiva, nós mulheres temos sempre a sensação de estarmos erradas. Mesmo quando estamos “dentro dos padrões”.

É por isso que ouvimos tanto as meninas magrinhas quanto as gordinhas contando que sofriam com apelidos na escola. Tanto as de cabelos lisos quanto as de cabelos cacheados. Tanto as altas quanto as baixas. Tanto as de corpo considerado lindo e consideradas bonitas quanto aquelas consideradas feias. Todas sempre erradas e, mais do que isso, tendo seus corpos e sua existência física sob constante patrulha. Esse é outro resultado dessa construção que Beauvoir explica (e depois autoras como Judith Butler em diálogo recente sobretudo com as teorias de Michel Foucault, organizam ainda melhor): todas as pessoas e instituições (como o Estado, por exemplo) acreditam verdadeiramente estarem no direito de controlarem, patrulharem, vigiarem e interferirem nos corpos das mulheres.

Esse processo começa na convivência infantil, e chega ao assédio que sofremos nas ruas todos os dias, passando pela briga constante sobre o aborto na esfera política, ou pelo abuso de cesáreas nos hospitais brasileiros.

Muitas vezes, cegas pela dor que a experiência individual nos causa, acabamos criando quase um clima de competição entre nós, mulheres: ser alta é pior do que ser baixa; ser gorda é pior do que ser magra; ter cabelos cacheados é pior do que ter cabelos lisos; etc. Nesse processo nos esquecemos de que mesmo que tivéssemos todas as características físicas consideradas desejáveis para mulheres, ainda nos sentiríamos totalmente inadequadas (como se sentem aquelas que temos o descaramento de chamarmos “modelos”). Nos tornamos paulatinamente parte desse ciclo, dessa roda sexista que gira a cada tentativa nossa de patrulhar o corpo de outra mulher, em vez de acolher sua experiência e sua dor com a inadequação que sentiu ao longo da vida.

Se desejamos destruir essa engrenagem, precisamos fazê-lo juntas. Compreendendo-nos, umas às outras, como mulheres. Sejamos altas, baixas, gordas, magras, dentro ou fora dos padrões de beleza, cisgênero ou trans*. Estamos todas no mesmo barco, erradas por definição nesse sistema que Freud e Lacan diriam falocêntrico.

Que partamos, então, para subverter essa roda inventada e sustentada há tantos séculos, que só sabe rodar em marcha ré.

Estou errada. Sou errada. E é nisso que reside a minha libertação.

Rescaldo da Copa

GilsonSampaio

Terminada a primeira fase classificatória da Copa do Mundo sem que alguma seleção se destacasse pela qualidade do futebol . A mesma mesmice pontua em todas as seleções, algumas mais aprimoradas que as outras, todas com o mesmo objetivo tático: marcação sob pressão na saída de bola , e conseguido o gol, um retrancão na esperança de outro gol em contra-ataque.

Resumo, copiaram o Barcelona e aplicaram o pragmatismo: pressão na saída de bola adversária, muita força e uma objetividade mais aguda e apressada na busca do chute ao gol. A surpresa de Holanda 5 x 1 Espanha alvoroçou a mídia esportiva que logo alçou os holandeses a seleção candidatíssima à taça, esqueceram rapidamente que a David Silva perdeu um gol feito de dentro da pequena área quando a Espanha ganhava de 1 a 0. Não tenho a menor dúvida que a goleada seria espanhola se a chance de Vila fosse convertida em gol. Na rodada seguinte a Holanda sofreu, e muito, pra vencer a Austrália(!).

A Holanda tem um time forte e um Robben que dá surpreendentes piques de 60, 70 metros aos 48 minutos do segundo tempo.

A Alemanha parece que já foi contaminada por Guardiola, apresentou um jogo mais leve sem perder, no entanto, a disciplina germânica. Comeu grama pra empatar com Gana. Tem potencial pra crescer muito.

A Argentina. A Argentina tem Messi, embora a seleção não tenha desencantado, tem um potencial ofensivo de meter medo. Parece que o que pode atrapalhar é a soberba.

Além de ser forte fisicamente e ser muito compactada, a França não tem um craque que desequilibra.

Com um time muito forte fisicamente, a Colômbia pode surpreender com um baita dum jogador: James Rodriguez.

Uruguai perdeu muito com a suspensão de Luiz Suaréz embora tenha um meio de campo de muita qualidade.

Pra simples registro, a Bélgica apresentou um moleque bom de bola: Hazard. E, só.

Bem, faltou o Brasil. O Brasil tem Neymar e um técnico retranqueiro, um boçal arrogante que se acha o suprassumo.

Enfim, quem tem craques verdadeiros, pode levar vantagem nesse novo futebol de estratégia guerrilheira.

A Europa está assustada com a América do Sul.

Pra quem tem, como eu, referências como a seleção holandesa de 74 ou a como a brasileira de 82, essa Copa está muito feia e o futebol em si muito triste.