segunda-feira, 31 de março de 2014

A última conversa telefônica de João Goulart com o general traíra

Sanguessugado do Diario do Centro do Mundo

A última conversa telefônica de João Goulart com o general que o trairia

Paulo Nogueira

Jango e Kruel

Jango e Kruel

A cena está num dos melhores livros sobre a ditadura, “Brasil: de Castelo a Tancredo”, do brasilianista Thomas Skidmore.

Ela conta muito sobre o caráter do presidente João Goulart, o Jango, deposto pelos militares há 50 anos.

Era o dia 1.o de abril de 1964, e  Jango recebera a notícia no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde pernoitara, de uma sublevação militar.

Unidades do Exército marchavam contra ele para depô-lo. Tropas do Primeiro Exército, baseado no Rio, foram enviadas para deter os golpistas, mas acabaram se juntando a estes.

Mas havia uma saída.

Se o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, sediado em São Paulo, não aderisse à insurreição, ela simplesmente não prosperaria, dada a força paulista nas coisas nacionais.

Kruel não conspirara contra o governo, em parte por não gostar de um dos líderes do movimento, o general Castelo Branco, que acabaria sendo o primeiro presidente da ditadura.

Jango ligou para Kruel.

Este condicionou seu apoio a uma coisa: que Jango rompesse com a central sindical, a CGT, controlada pela esquerda e abominada pelos militares em seu anticomunismo feroz.

Se Jango dissesse sim, seu governo sobreviveria. Mas Jango disse não. “Então, senhor presidente, não há nada que possamos fazer”, respondeu Kruel.

Kruel pode não ter sido apenas desleal, mas desonesto.

Um coronel reformado do Exército afirmou recentemente, numa sessão da Comissão da Verdade de São Paulo, que Kruel foi subornado pela Fiesp para aderir ao golpe.

Esta afirmação não está no livro de Skidmore, e nem poderia estar, porque é recente.

O coronel disse ter visto três homens colocarem maletas cheias de dólares no carro de Kruel, depois de um encontro no dia 31 de março entre ele e o presidente da Fiesp, Raphael Noschese. O preço pago por Kruel, segundo o coronel, foi 1,2 milhão em dinheiro da época, algumas dezenas de milhões em valores de hoje.

Com ou sem as malas de dólares, o fato é que Jango preferiu cair com honra a trair os sindicalistas que lhe eram tão caros.

Era, então, ao contrário do que os detratores apregoaram por tantos anos, um presidente altamente popular.

Uma pesquisa Ibope do começo de 1964 mostrava que ele estava na frente entre os eleitores para as eleições presidenciais marcadas para 1965.

Terminada a conversa telefônica com Kruel, Jango logo sairia do governo e do país.

Sem apoio militar, e sem desejar mergulhar o Brasil numa guerra civil, foi embora para o Uruguai, refúgio tradicional de líderes políticos sul-americanos.

Em circunstâncias parecidas, sem mentor, Getúlio Vargas, dera uma década antes um tiro no coração para, como escreveu em sua carta testamento, deixar a vida e entrar na história.

Jango optou por entrar na história sem deixar a vida – mas apenas a presidência. Tinha filho pequeno para criar, e uma bela mulher para cuidar de suas feridas.

Morreria doze anos depois, em circunstâncias obscuras, na Argentina. A razão oficial foi um ataque cardíaco, mas amigos e familiares sustentam que ele foi envenenado.

A máquina de propaganda da ditadura moldou a imagem de um presidente impopular, indeciso, inepto.

Mas o tempo começa a mostrar um outro Jango, um presidente disposto a fazer reformas essenciais ao desenvolvimento social do país, e com uma agenda de mudanças ainda hoje atual.

Mas, acima de tudo, emerge o homem honrado que preferiu deixar o poder a trair seus aliados, como queria o general Kruel.

EXCLUSIVO - 6 BI - A VIVO E A RECEITA FEDERAL

Sanguessugado do Mauro Santayana

“Agora, para completar, informações de fora do país dão conta de que a espanhola Telefónica – leia-se Vivo – que já pegou 3 bilhões de reais emprestados com o BNDES, estaria devendo mais 6 bilhões de reais, para a Receita, em impostos – como o ICMS - que ela vem contestando reiteradamente na justiça, sem fazer provisionamento no balanço, caso venha a ter que pagar.”

(Hoje em Dia) - Enquanto o país continua pagando das mais tarifas do mundo em banda larga e telefonia celular, aumenta o descalabro nas telecomunicações e o atrevimento das multinacionais estrangeiras no Brasil.

Na semana passada – por pressão de investidores e pequenos acionistas que acreditam que os ativos da Portugal Telecom estão sendo sobrevalorizados no acordo - a CVM teve de voltar atrás de sua aprovação para o prosseguimento da fusão entre a empresa de telecomunicações lusitana e a OI, sob, o pretexto de que o Presidente da Oi, o moçambicano Zeinal Bava, tinha infringido leis brasileiras em uma entrevista.

Até a divulgação da decisão da Comissão de Valores Mobiliários na noite de quinta-feira, a fusão da Oi com a Portugal Telecom estava praticamente certa com a aprovação do aumento de capital pelos grandes acionistas, e o sinal verde dado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o CADE - Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que aprovara a proposta em janeiro.

Agora, para completar, informações de fora do país dão conta de que a espanhola Telefónica – leia-se Vivo – que já pegou 3 bilhões de reais emprestados com o BNDES, estaria devendo mais 6 bilhões de reais, para a Receita, em impostos – como o ICMS - que ela vem contestando reiteradamente na justiça, sem fazer provisionamento no balanço, caso venha a ter que pagar.  

Dinheiro para quitar o que devem ao país  os espanhóis não têm. Mas continuam mandando bilhões de euros em remessas de lucro todos os anos para a matriz. E aumentaram, de 46,7% para 66% o seu capital na Telecom Itália. O que os transformou, para descrédito do sistema de regulação da concorrência no Brasil, nos controladores, de fato, da Vivo e da TIM, as duas maiores empresas de telefonia celular do país.

Como ninguém se manifesta com firmeza com relação ao assunto, os espanhóis vêm  enrolando gostosamente as autoridades brasileiras – entre elas o CADE – com medidas paliativas e cosméticas, para não dizer de aberta subestimação da  inteligência nacional.

Entre elas, destaca-se a recente “saída” de César Alierta e Júlio Linares, Presidente e Vice-Presidente da Telefónica, do Conselho de Administração da Telecom Itália, como “sinal ao Brasil”, enquanto, para seus acionistas, na Espanha, a diretoria diz que, em caso de problemas, recorrerá à justiça para defender a sua posição.

Para mandar, dono não precisa ter cargo. Basta ter telefone, para ligar para seus prepostos - italianos ou espanhóis - e ordenar o que quiser, combinando eventualmente preços e tarifas para arrancar melhor o couro dos usuários da Tim e da Vivo no Brasil.

Afinal, telefone com sinal é o que não falta para os donos da Telefónica, só para os comuns mortais - como nós - que têm apresentado, com quase nenhum resultado, todos os meses, milhares de queixas contra as duas empresas, na ANATEL.

Ditadura militar foi responsável por matar 2 mil indígenas no Amazonas

Sanguessugado do Lingua Ferina

Rosiane Carvalho*

Genocídio de dois mil indígenas waimiri atrori, impactos irreparáveis à população tenharim e a quase dizimação dos povos jiahui. Essas são algumas das “heranças” que o Amazonas recebeu do Golpe Militar, que no próximo dia 1º de abril completa 50 anos. Ao contrário dos registros da história oficial, a Ditadura Militar impôs ao Amazonas mortes e violação dos direitos humanos, que marcam a rotina e a memória dos povos indígenas waimiri atroari, tenharim e jiahui.

O levantamento sobre as inconsequentes ações dos governos militares no Estado faz parte de uma investigação feita em duas ações civis públicas do Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM). A investigação aponta que os militares, a pretexto de “ocupar uma terra sem homens” (Amazônia), foram responsáveis pela morte de milhares indígenas durante a construção das BR-174 (Manaus-AM/Boa Vista-RR) e BR–230, a Rodovia Transamazônica.

Os primeiros resultados das investigações, que pode ser uma porta para que a história do Amazonas seja reescrita, serão debatidos na sexta-feira em um seminário no auditório Rio Solimões, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), realizado pelo MPF, pelo Comitê da Verdade no Amazonas e por lideranças indígenas. “Diante do aniversário do Golpe, vamos discutir a Amazônia de antes e de hoje. O que os diversos povos sofreram e vivem ainda hoje no regime democrático”, declarou o procurador da República Julio de Araujo Junior.

Waimiri e Tenharim

As ações foram abertas após denúncias de indigenistas que atuam na região desde o período militar. A primeira, sobre os waimir atroari, ainda não foi concluída porque, segundo o procurador Julio Araujo, precisa de profundas investigações.

Há notícias de que os militares atuaram num ataque direto e violento à aldeia dos waimiri. Os registros indicam, segundo o procurador, que antes da construção da BR-174 havia cerca de três mil indígenas (década de 70). Na década de 80, os registros apontavam para 300 indígenas na aldeia.

A segunda ação já foi apresentada à Justiça, que, por conta dos conflitos recentes, concedeu liminar para reparações imediatas sobre danos permanentes sofridos pela população tenharim e jiahui durante a construção da Transamazônica. Os jiahui eram apenas 17 indígenas em 2004, quando suas terras foram demarcadas.

A obra da Transamazônica, segundo o MPF, cooptou os tenharim para trabalhos forçados, os obrigou a mudar de território e infectou parte da população com doenças (como sarampo e catapora) trazidas pelo contato com os operários da Paranapanema, responsável pela obra.

Método do Brasil colonial

A construção da Transamazônica começou em outubro de 1970. Há registro do descerramento da placa do início da obra em Altamira, no Pará, pelo então presidente Emilio Garrastazu Médici com o seguinte teor: “Nestas margens do Xingu, em plena selva Amazônica, o senhor Presidente da República dá início à construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”.

Para o MPF, já no seu primeiro passo a obra liderada pelos militares dá sinais do descompromisso com os povos que já habitavam a região. “O teor do discurso demonstra a perspectiva de ‘conquista’ e ocupação de um território ‘verde’, em nome de uma arrancada histórica para o ‘progresso’”, diz trecho da ação.

O procurador da República Julio Araujo afirmou que as populações tradicionais são desprezadas desde a época do Brasil colonial. “Foram várias formas de violação, até mesmo as táticas de pacificação, provocaram essa desestruturação. A Ditadura não adotou métodos diferentes.

Em nome do desenvolvimento, se aprofundou a violação. Dentro dessa concepção, não considerou a diferença e os indígenas acabaram sendo um empecilho ao progresso e à conquista da região”, declarou o procurador Julio Araujo.

Transamazônica violou indígenas

Os danos provocados pela construção da Transamazônica aos tenharim e jiahui são alvo de um pedido de indenização de R$ 20 milhões por parte do MPF por danos coletivos sofridos pelas etnias. A construção da estrada em Humaitá foi feita pela empresa Paranapanema, que depois também passou a explorar minérios no Amazonas atingindo outras terras indígenas.

Na abertura da estrada, os tenharim foram obrigados a deixar a margem direita do rio Marmelos, num local chamado São José. Pela investigação do MPF, os tenharim ficaram às margens da rodovia porque a estrada foi construída por cima de locais sagrados para a cultura deles.

A invasão do território também trouxe consequência na estrutura da vida por causa dos prejuízos ao solo e atividades agrícolas. Até na caça, pela destruição da fauna, os tenharim tiveram que mudar seus costumes, segundo a pesquisa antropológica exposta na ação do MPF.

Muitos indígenas morreram por causa de epidemias de sarampo, catapora – doenças trazidas por operários da Paranapanema. A crença dos indígenas é que maldições acompanham aqueles que abandonam seus antepassados.

A Transamazonica causou, ainda, a destruição de cemitérios indígenas. “O progresso e o desenvolvimento idealizados com a rodovia não pressupuseram uma convivência em harmonia e respeito aos povos indígenas. Isso conduziu a desestruturação étnica de povos como os tenharim e jiahui, a homogeneizacão de culturas, a divisão de territórios e a provocação de tensões na região de Humaitá, Manicoré e Apui”, afirma trecho da ação.

Em outro trecho, o MPF indica: “A perspectiva homogeneizante colocou-se em primeiro plano, não se oferecendo qualquer alternativa àqueles que ousassem enfrentá-la (…) O resultado dessa perspectiva é a ocorrência de danos aos povos indígenas, os quais se prolongam no tempo em razão da omissão de adoção de medidas reparatórias”.

*Fonte: A Crítica (Manaus)

Obama está putin da vida pela reincorporação da Criméia pela Rússia

Sanguessugado do Bourdoukan

Putin, Dilma, Obama e os governantes-papagaios-de-pirata do G20

E mais do que ele, a indústria bélica.

Afinal, recuperar um território que era russo desde o século XIII sem um disparo sequer, não é mesmo para qualquer um.

Imaginam se o exemplo se alastra?

Cuba, com certeza, vai querer reincorporar Guantánamo.

E, com mais certeza ainda, Palestina vai querer recuperar o território israelense.

E isto, para ficarmos em apenas dois exemplos.

O que me faz lembrar de uma pesquisa realizada pelo governo americano durante a guerra do Vietnam.

Os pesquisadores perguntaram aos índios se os americanos deveriam sair do Vietnam.

Eles responderam que SIM, e dos Estados unidos Também.

Convenhamos, depois desses exemplos não é para ficar putin da vida com os russos?

Tudo em nome de deus

Sanguessugado do Bourdoukan

 

                                             Seria esta a imagem de deus?

Há muitos e muitos anos, nasceram três personagens que mudariam a História para sempre.

Os três tinham em comum o de serem árabes.

O iraquiano  Abraão.

O egípcio Moisés.

O palestino Jesus.

Os 3 tinham em comum raciocinar em língua morta.

E o ultimo dos profetas falava uma língua viva.

Isso até  as oliveiras palestinas sabem.

Mas como nunca ninguém viu deus, cada qual começou a interpretá-lo de acordo com os seus interesses.

E aí foi aquele deus nos acuda.

Em seu nome cometeram horrores.

Em seu nome cometeram crueldades.

Em seu nome fizeram fortunas.

Invadiram nações.

Saquearam riquezas.

Sangraram velhos, mulheres e crianças.

Destruíram culturas.

Tudo em nome de um deus que nunca ninguém viu.

E arrumaram até um parceiro para ele.

Pobre diabo...

A verdade sobre a Venezuela: uma revolta dos ricos, não uma 'campanha de terror' (The Guardian)

Sanguessugado do Informação Incorrecta

A "luta de classe" na Venezuela

Já chegámos ao genocídio

...e faltava: uma "Primavera Venezuelana".

Doutro lado, Síria, Ucrânia e Venezuela ficam todas aí, bem pertinho uma das outras, é só atravessar a rua: lógica a contaminação.

Seria simples falar desta "Revolução Colorida" da América do Sul com algumas frases já pré-confeccionadas: "é culpa dos Americanos", "este é um trabalho sujo da CIA", "o que querem é o petróleo" e coisas assim.

Mas vamos seguir um caminho diferente: confiamos numa das poucas pessoas que ainda abandonam a secretária para "ir e ver".

Mark Weisbrot, por exemplo.

Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-director, com Dean Baker, doCenter for Economic and Policy Research ("Centro para Pesquisas Económicas e de Políticas Públicas") em Washington.Contribui como comentarista em publicações como oNew York Times, o Guardian e a Folha de S. Paulo.

Weisbrot fez mesmo isso: levantou-se e foi até a Venezuela para observar em primeira pessoa o que se passa no País. Depois redigiu um artigo e enviou tudo para o The Guardian, que publicou. Simples, não é?

A verdade sobre a Venezuela: uma revolta dos ricos, não uma 'campanha de terror'

As imagens moldam a realidade, o que enviam televisores, vídeos, fotografias são um poder que entra em profundidade nas mentes das pessoas, sem que estas tenham consciência disso. Pensei ser imune a esses retratos repetitivos de uma Venezuela como um Estado fracassado, no meio de uma revolta popular. Mas não estava preparado para o que eu vi em Caracas, neste mês: o quão pouco a vida quotidiana parece ser afectada pelos protestos, a normalidade predominante na maior parte da cidade. Também eu tinha sido enganado pelas imagens dos media.

Os principais meios de comunicação informaram que os pobres da Venezuela não se juntaram aos protestos da oposição de direita, mas este é um eufemismo: não só os pobres que se abstêm em Caracas, mas são quase todos, com a excepção de algumas áreas, como Altamira, onde pequenos grupos de manifestantes entram em confrontos nocturnos com as forças de segurança, atirando pedras, bombas incendiárias e bombas de gás lacrimogéneo.

Caminhando no bairro de Sabana Grande, no centro da cidade, não há sinais de que a Venezuela está à beira de uma "crise" que requer uma acção da Organização dos Estados Americanos (OEA), apesar daquilo que John Kerry afirma.

Mesmo o metro funciona muito bem, apesar de não ter sido capaz de acompanhar-me até a estação em Altamira, onde os rebeldes tinham estabelecido a base das operações, pelo menos até quando não foram acabar com eles nesta semana.

Consegui ver as barricadas pela primeira vez em Los Palos Grandes, área da classe alta, onde os manifestantes têm o apoio popular e os vizinhos gritam contra qualquer um que tente remover as barricadas - uma coisa arriscada ( pelo menos quatro pessoas foram aparentemente mortas por isso). Mas mesmo nas barricadas, a vida era bastante normal, excepto para o tráfego pesado.

No fim de semana , o Parque do Leste estava cheio de famílias suadas e corredores com uma temperatura de trinta graus, famílias que antes de Chávez deveriam ter pago, enquanto os residentes, como me foi dito, ficaram desapontados porque os menos abastados foram autorizados a entrar livremente. Os restaurantes continuam a ser preenchidos durante a noite.

Viajar ajuda a verificar a realidade e eu visitei Caracas, a fim de obter informações, especialmente no campo económico, mesmo que eu estivesse céptico sobre a história relatada diariamente nos meios de comunicação, acerca da falta de matérias-primas como razão dos protestos.

Os habitantes de Altamira e Los Palos Grandes, onde vi os protestos, têm servidores que esperam na fila para o que precisam e têm rendimentos e espaços para acumular estoques. Estas pessoas não estão a sofrer, e vivem muito bem. Os ganhos deles têm crescido a um ritmo acelerado desde que Chávez assumiu o controle da indústria do petróleo, há dez anos.

Eles também têm um grande apoio do governo: qualquer pessoa com um cartão de crédito (excepto para os milhões de pobres e da classe trabalhadora ) tem direito a 3.000 Dólares por ano, com uma taxa de câmbio favorável. Então podem vender o Dólar seis vezes mais caro do que o pagaram, o que significa uma subvenção anual de vários milhões de Dólares para os privilegiados. E ainda assim são eles a base das tropas de "revolução".

A natureza desta luta de classe sempre foi forte e irrefutável, agora mais do que nunca.

Passeando entre as massas que participaram nas cerimónias do aniversário da morte de Chávez, em 5 de Março, vi muitos operários venezuelanos, dezenas de milhares deles. Não havia roupas caras ou sapatos de 300 Dólares. Que contraste com as massas descontentas de Los Palos Grandes, que possuí o Suv Grand Cherokee de 40 mil Dólares e gritam o slogan do momento: Venezuela Sos.

Quanto à Venezuela, John Kerry sabe de que lado está a luta de classes. Na semana passada, mesmo quando eu foi-me embora, o Secretário de Estado dobrou a sua retórica contra o governo, acusando o presidente Nicolas Maduro de fomentar uma "campanha de terror contra o seu próprio povo". Kerry também ameaçou invocar a Carta Democrática da OEA (Organização dos Estados Americanos) contra a Venezuela, bem como a aplicação de sanções.

Invocar a Carta Democrática contra a Venezuela é quase como ameaçar Vladimir Putin com um voto sobre a secessão da Crimeia na Onu. Talvez Kerry não percebeu, mas poucos dias antes das suas ameaças, a OEA aprovou uma resolução que Washington tinha apresentado contra a Venezuela, mas que foi transformada de dentro para fora, declarando "solidariedade" do organismo com o governo regional de Maduro. E foi aprovada pelo vinte e nove países, apenas os governos de direita do Panamá e do Canadá aliaram-se com os Estados Unidos contra ela.

O artigo 21 da Carta Democrática da OEA é aplicado perante "a inconstitucional interrupção da ordem democrática num Estado membro" (como o golpe militar em Honduras em 2009, que Washington ajudou a legitimar, ou o golpe de estado militar em 2002, na Venezuela, com o apoio dos Estados Unidos). Com esta última votação, a OEA poderia invocar a Carta Democrática mais contra o governo dos EUA por causa das mortes provocadas pelos drones contra cidadãos norte-americanos do que contra a Venezuela.

A retórica da "campanha de terror" de Kerry é separada da realidade e, previsivelmente, provocou uma resposta do equivalente secretário da Venezuela, que tem definido Kerry "um assassino". Esta é a verdade sobre as alegações de Kerry desde o início dos protestos na Venezuela: mais pessoas morreram por mão dos manifestantes de que das forças de segurança.

De acordo com as mortes relatadas pelo CEPR (Centro de Investigação em Economia e Política) durante o mês passado, além dos mortos que tentavam remover as barricadas, pelo menos sete foram vitimadas aparentemente devido aos obstáculos criados pelos manifestantes, incluindo um motociclista decapitado por um fio colocado na estrada e cinco oficiais da Guarda Nacional.

No que diz respeito à violência das forças de segurança, três pessoas podem ter sido mortas pela Guarda Nacional e outras forças de segurança, incluindo dois manifestantes e um activista que apoiavam o governo. Algumas pessoas culpam o governo pelas mortes de três outros civis armados, mas num país com uma média de 65 assassinatos por dia é perfeitamente possível que essas pessoas estivessem a agir por conta própria. Um total de 21 membros das forças de segurança está preso por alegados abusos, inclusive por alguns dos assassinatos.

Esta não é uma "campanha de terror".

Ao mesmo tempo, é difícil encontrar uma queixa grave sobre a violenta oposição dos principais líderes. De acordo com os dados da pesquisa, os protestos foram amplamente rejeitado na Venezuela. As pesquisas também sugerem que a maioria dos venezuelanos vêm esses transtornos para o que eles são: uma tentativa de derrubar um governo eleito.

A política interna da posição de Kerry é bastante simples. Dum lado é apoiado pela extrema-direita cubano-americana da lobby da Florida e dos seus aliados neo-conservadores que são a favor dum derrube. Do lado da esquerda não há nada. A Casa Branca não se importa da América Latina e não tem efeitos eleitorais o facto da maioria dos governos do hemisfério estarem a irritar-se com Washington.

Talvez Kerry acredite que a economia venezuelana vai entrar em colapso, levando alguns venezuelanos não ricos a manifestar contra o governo. A situação económica, no entanto, está a estabilizar-se, a inflação mensal caiu em Fevereiro e o mercado paralelo do Dólar caiu acentuadamente, confortado pela notícia de que o governo está a introduzir uma nova taxa com base no mercado. Os Títulos soberanos da Venezuela tiveram um rendimento de 11,5% entre 11 de Fevereiro (dia do início dos protestos) e 13 de Março: o maior rendimento, de acordo com Bloomberg, do mercado dos "emergentes".

Claro, o principal problema da oposição é exactamente este: a próxima eleição irá decorrer dentro de um ano e meio e, na altura, a carência económica e inflação, que têm aumentado ao longo dos últimos 15 meses, irão cair. Portanto, a oposição irá perder a eleição, tal como perdeu todas as eleições nos últimos 15 anos. Além disso, a estratégia da actual "revolução" não está a ajudar a sua causa: até parece ter dividido a oposição.

O único lugar onde a oposição parece ganhar consentimentos é em Washington.

Sem dúvida: há uma luta de classe na Venezuela.

Talvez um pouco diferente daquela preconizada por Marx, mas sempre luta de classe é...

A propósito, eis uma fotografia interessante:

Acreditem ou não, esta é uma das "barricadas" anti-governamentais em Caracas. E a fotografia é do New York Times...

Ipse dixit.

Fontes: The Guardian

domingo, 30 de março de 2014

A ditadura não era corrupta, era A corrupção

ANDRADETALIS feicibuqui da Flavia Leitão

Gilmar Crestani

ditadura-sanguinria_

Como mostra o colunista do Estadão, o nível de prazer com que torturavam, estupravam e depois assassinavam, não sem antes roubarem inclusive arcadas dentárias, é assustador na medida que são pessoas que ainda permanecem convivendo como se tivessem ido ao super comprar um pote de margarina. Pior, a existência de pessoas que não só admitem estes atos como, em pleno século XXI, continuam apoiando. Se é verdade que o ser humano, de perto, é assustador, alguns, também de longe são assustadores. Afinal, não há na natureza nenhum animal, tirando estes necrófilos, que sintam prazer com o sofrimento e a morte de semelhantes. O único resquício de “humanidade” foi a decisão de impedir que os cadáveres pudessem “sobreviverem” ao tempo e permitirem que as pessoas descobrissem o nível de crueldade que alguém possa praticar com uma arma na mão e com a vítima algemada.

Torturadores arrancavam arcadas dentárias e cortavam dedos, para impedir identificação dos mortos

Roldão Arruda

casamorte

Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio, o coronel reformado Paulo Malhães, de 76 anos, acaba de dar importante contribuição para se entender melhor como a ditadura mutilou e desapareceu com os corpos de presos políticos. Segundo o coronel, para evitar que fossem encontrados, os agentes dos serviços de repressão jogavam os mortos em rios, em sacos impermeáveis e com pedras de peso calculado. Isso impedia que afundassem ou flutuassem.

O ventre da vítima também era cortado, evitando assim que inchasse e voltasse à superfície. O objetivo era criar condições para que o corpo fosse arrastado pelo rio. No caso de serem encontrados, os restos mortais dificilmente seriam identificados, porque os militares tomavam a precaução de arrancar as arcadas dentárias e os dedos das mãos, antes de lançá-los às águas.

Essas informações foram divulgadas nesta sexta-feira (21) pelo repórter Chico Otávio, do jornal O Globo, que teve acesso a trechos das declarações. Elas estão localizadas na primeira parte das gravações feitas pela comissão, nas duas visitas que fez à casa do coronel. No total foram gravadas 17 horas de conversa. Desse total, ainda existem 7 horas que não foram integralmente degravadas. Nelas, o coronel trata sobretudo de sua ação na Guerrilha do Araguaia.

O coronel Malhães foi uma peça das mais importantes na engrenagem do Centro de Informações do Exército (CIE), que atuava na área de informação e repressão. Integrava o núcleo mais duro da instituição, ao lado de Freddie Perdigão Pereira e Ciro Guedes Etchegoyen, entre outros oficiais. Também atuou na Casa da Morte, o maior centro de tortura e desaparecimento de presos políticos do País entre 1971 e 1973; e na Guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará.

O presidente da Comissão Estadual, advogado Wadih Damous, vai encaminhar cópias do depoimento ao Ministério Público Federal e à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ele disse ao Estado que as informações dadas pelo coronel reformado ainda precisam ser melhor analisadas e cotejadas com outros depoimentos.

“Foi um depoimento relevante, de um quadro qualificado da repressão política, que esteve envolvido em diversos episódios da época, entre eles o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, a idealização da Casa da Morte e a Guerrilha do Araguaia”, afirmou. “Sua palavra tem que ser levada em conta. Talvez esteja apontando o caminho adotado pela ditadura em sua política de desaparecimentos. Mas é preciso também cruzar os dados para verificar sua veracidade. Particularmente não estou satisfeito com a informação de que o corpo do deputado Rubens Paiva foi jogado ao mar. Não digo que ele está mentindo, mas também não afirmo que seja tudo verdade.”

O advogado destacou no depoimento do coronel a seguinte declaração: “Podem escavar o Brasil todo, mas não vão achar ninguém, por nós desaparecemos com todo mundo.”

As dúvidas sobre a veracidade das informações do coronel do antigo CEI devem-se sobretudo ao fato de não ter apresentado nenhum documento comprovando sua veracidade. Ele se baseou exclusivamente na memória e, em diversos momentos, confundiu fatos.

Para ler a reportagem do jornal O Globo, com os trechos do depoimento do coronel, clique aqui.

Na ditadura era assim

Mário Magalhães

  Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto

Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura (1964-85), o coronel reformado Paulo Malhães afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados.

O relato histórico do oficial do Exército foi feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e revelado nesta sexta-feira pelo repórter Chico Otávio.

Malhães se referia a presos políticos assassinados na chamada Casa da Morte, um imóvel clandestino na região serrana fluminense onde servidores do Centro de Informações do Exército detinham, torturavam e matavam opositores da ditadura. De acordo com o coronel, os cadáveres eram ensacados junto com pedras. Dedos e dentes eram retirados para impedir a identificação, na eventualidade de os restos mortais serem encontrados. As vísceras, para o corpo não boiar.

Veterano da repressão mais truculenta do passado, Malhães figura em listas de torturadores elaboradas por presos. É ele quem assumiu ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva (post aqui).

Seu testemunho, sem vestígios de arrependimento, contrasta com o de aparente mitômano surgido em anos recentes. Malhães não é um semi-anônimo,mas personagem marcante para seus pares em orgãos repressivos e para presos políticos.

Dois trechos do seu depoimento à comissão, conforme reprodução de “O Globo” (a reportagem pode ser lida na íntegra clicando aqui):

1) “Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

2) “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Com a frieza de quem conta ter ido à padaria, Malhães afirmou, referindo-se ao local onde vive, a Baixada Fluminense: “Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui”.

“…de que os militares aceitariam nossas exigências, dado o grau de subserviência da ditadura militar aos Estados Unidos.”

Via Correio do Brasil

Cid Benjamin: se militares não negociassem, Charles Elbrick ia morrer

Redação, com DW - do Rio de Janeiro

 

O jornalista Cid Benjamin foi um dos idealizadores do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick

O jornalista Cid Benjamin foi um dos idealizadores do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick

Quatro de setembro de 1969, auge dos anos de chumbo. Numa ação sem precedentes na história brasileira, o movimento MR-8, uma dissidência do Partido Comunista, sequestra o então embaixador norte-americano no país, Charles Burke Elbrick. Para soltá-lo, duas exigências: a libertação de 15 presos políticos e a publicação de um manifesto na imprensa.

O regime não demorou a ceder: menos de 48 horas, os presos foram libertados e o texto, publicado. Por trás da ação estava um grupo de jovens originários do movimento estudantil, entre eles Cid Benjamin, então com apenas 21 anos. Ele foi o idealizador – ao lado do mais tarde ministro Franklin Martins – e um dos principais executores da ação.

Meses mais tarde, Cid foi preso. Por sua militância, pagou com isolamento, tortura e exílio – foram quase dez anos entre Argélia, Cuba, Chile e Suécia. Hoje, aos 65 anos, jornalista e diretor de comunicação da Comissão da Verdade do Rio, ele fala sem arrependimento e sem revanchismo sobre o passado – como sugere o título de seu livro, Gracias a la vida – Memórias de um militante. Cid diz não guardar ódio de seus torturadores, mas quer vê-los julgados. A luta armada, afirma, foi um erro político, porém uma alternativa legítima para lutar contra um regime ditatorial. E sobre o embaixador, admite:

– Nós o teríamos matado se as exigências não fossem atendidas.

Flamenguista, Cid Benjamin elogiou a camisa da seleção alemã, que jogará a Copa do Mundo deste ano de vermelho e preto, ao repórter Rafael Plaisant, da agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) que o entrevistou. Leia, adiante, os melhores trechos da entrevista:

– Hoje há vozes questionando o comprometimento daquela esquerda armada com a democracia. O argumento é de que as intenções dela não eram muito mais democráticas que as do regime. Você concorda?

– Não. Os mesmos que deram o golpe em 1964 levaram Getúlio Vargas ao suicídio em 1954; tentaram impedir a posse do Juscelino Kubitschek em 1956 e do Jango em 1961; e depois deram o golpe em 1964. Com o AI-5, eles tornaram um regime que já era ditatorial em algo muito mais duro. E foi justamente esse endurecimento da ditadura que fez com que uma parcela dos opositores, que não estavam na luta armada inicialmente, acabasse optando por esse caminho.

– Foi o melhor caminho?

– Foi um caminho politicamente errado, mas não do ponto de vista da legitimidade. Foi legítimo pegar em armas para combater um regime de opressão. Isso é reconhecido pela Carta de Direitos Humanos da ONU e pela Doutrina Social da Igreja. Foi uma avaliação política incorreta naquele momento no Brasil. Não se teria condições de conseguir um amplo apoio popular e, com isso, derrubar a ditadura. Mas foi a forma possível depois do acirramento do regime militar.

Depois, os militares tentaram se igualar e dizer que éramos todos antidemocráticos, o que não corresponde à verdade.

– Até que ponto a luta armada levou a um maior endurecimento do regime?

– Muito antes de se pensar em luta armada, os golpistas, como eu disse, já vinham tentando dar um golpe. E depois, já dentro da ditadura, a linha dura foi tomando corpo, começando com a saída do (primeiro presidente da ditadura, Humberto de Alencar) Castelo Branco, que era mais moderado. A luta armada só ganhou peso e alguma relevância social depois do AI-5, quando outros canais de participação política e exercício da oposição foram fechados.

– A luta armada acabou então sendo algo inevitável?

– As manifestações bateram no teto. Os canais institucionais e de luta legal foram muito restringidos. Havia o exemplo recente da Revolução Cubana e do Vietnã, onde a luta armada do povo conseguiu expulsar o invasor americano. Isso tudo influenciou. Agora, se não houvesse o endurecimento do regime, a luta armada não teria acontecido da forma como aconteceu.

Na época, você, então com pouco mais de 20 anos, tinha noção de que vencer era quase impossível?

Achávamos que seria uma luta árdua, longa, mas com alguma chance de vitória. E, de certa maneira, Cuba e Vietnã serviam como alento. Mostravam que, através da guerrilha, o fraco poderia enfrentar e vencer o mais forte. Se, na época, tivéssemos a percepção de que seria uma derrota, não teríamos tomado aquele caminho.

– Quando surgiu a ideia de sequestrar o embaixador?

– A ideia foi minha e do (jornalista e ex-ministro) Franklin Martins. Uma vez, estávamos conversando juntos no Rio quando o carro com a bandeirinha dos EUA no capô passou pela gente, e reparamos que o embaixador fazia todo dia o mesmo trajeto, sem segurança. Já havia, na época, uma preocupação nossa em libertar presos.

– A captura foi relativamente fácil…

– A captura foi fácil, a devolução é que foi difícil. A casa foi localizada e vigiada. Quando nós saímos com o embaixador, eles vieram atrás. Houve cenas típicas de filmes policiais, com perseguições, carros avançando sinal, subindo pela calçada. Foi complicado. Mas, no final, ninguém foi preso.

– Vocês pediram a leitura de um manifesto na TV e a libertação de 15 presos. Se o regime não tivesse atendido, o que vocês teriam feito?

– Nós o teríamos matado se as exigências não fossem atendidas. Isso, dito hoje, parece estranho, mas nós tínhamos uma avaliação tranquila e clara de que os militares aceitariam nossas exigências, dado o grau de subserviência da ditadura militar aos Estados Unidos.

– Ele não entregou vocês depois…

– Quando foi questionado se poderia nos identificar, ele disse que não poderia, porque nós só falávamos com ele com capuz. O que não era verdade. Tínhamos uma relação cordial com ele no cativeiro. Conosco, ele criticava a tortura e a censura. Depois ele deu declarações muito elogiosas a nosso respeito. Disse que éramos jovens, idealistas, queríamos o melhor para o país. Naturalmente ele discordava dos métodos, mas nos respeitava e considerava corajosos.

– Pela militância, você pagou com tortura, exílio, isolamento e prisão… Arrepende-se?

– Fui preso meses após o sequestro. Fiquei dois meses na prisão e, em junho de1970, fui trocado pelo embaixador alemão. Não me arrependo. Valeu a pena. Eu faria tudo de novo, mas de forma diferente. Não sou incapaz de perceber erros em nossa trajetória. Mas o rumo geral da trajetória de militância política, de resistência à ditadura, isso eu mantenho e não me arrependo em nada.

– Hoje você ainda se declara comunista?

– A partir da experiência com os países do Leste Europeu, eu, que sempre me declarei comunista, não me declaro mais. Na cabeça das pessoas, comunismo ficou sendo isso, e isso não tem nada a ver com o que eu quero. Eu quero um regime socialista, com democracia, com liberdade e pluripartidarismo.

– Na época da militância vocês já discutiam isso?

– Nós tínhamos uma visão crítica. Nossa organização, o MR-8, uma dissidência do Partido Comunista, criticava a invasão da Tchecoslováquia e o esmagamento da Primavera de Praga pelos soviéticos. Nós tínhamos uma percepção crítica quanto aos regimes do Leste Europeu. Não tão crítica como hoje, naturalmente, já que esses regimes se mostraram piores do que pareciam.

– Você gosta da forma como lidamos com os crimes da ditadura?

– Nós estamos atrasadíssimos. A Comissão da Verdade foi criada só no ano passado. E a ditadura acabou em 1985. Outros países latino-americanos estão muito mais avançados não só na apuração, como na punição dos responsáveis por crimes de lesa-humanidade.

– A que se deve isso?

– À forma como a ditadura acabou no Brasil. Os militares controlaram o processo de saída de cena. Quando o (Ernesto) Geisel começa a chamada distensão, a ditadura só vai acabar dez anos depois. Eles tentaram manter esse processo sob controle, seja para evitar mudanças sociais mais profundas, seja para evitar o conhecimento dos crimes. As comissões da verdade teriam que ter sido criadas antes.

– No seu livro, você usa um tom sem revanchismo, às vezes conciliador, sobre o passado.

– Eu não me considero conciliador. Não tenho revanchismo nem ódio pessoal de quem me torturou. Acho que as coisas têm que vir à tona, eles têm que sentar no banco dos réus, mas não porque eu tenho rancor e ressentimento, mas porque o futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores. E é fundamental que o país saiba o que aconteceu nos porões e que os responsáveis sejam julgados, mesmo que depois sejam anistiados. É um ciclo que tem que ser cumprido.

A sinuca de bico de Putin em Obama

Via Tribuna da Imprensa

Putin deu xeque-mate em Obama, ao lhe pedir uma proposta de paz para a Ucrânia

 

Carlos Newton

Foi uma jogada de mestre em xadrez político. O  primeiro contato telefônico do presidente russo Wladmir Putin com o norte-americano Barack Obama, desde que Washington impôs sanções à Rússia, pegou de surpresa o governante dos EUA. Em longa conversa telefônica, Putin pediu para Obama apresentar uma proposta com o objetivo de pôr fim à crise na Ucrânia, que teme uma invasão russa após a perda da Crimeia.

Putin sabe que Washington não tem nenhuma proposta viável a apresentar, porque a Ucrânia vive uma fase tenebrosa, com recrudescimento do nazifascismo, circunstância crucial que a imprensa do Ocidente estranhamente está omitindo ao descrever a tendência pró-Europa de um país em gravíssima crise econômico-social. A situação é de pré-guerra civil e pode haver separatismo de outras províncias pró-Rússia.

A imprensa ocidental também omite o fato de que a Ucrânia não tem a menor condição de ser aceita como país-membro da União Europeia e de vir adotar o euro. As exigências do bloco comercial para admissão de novos associados são muito severas, e a atual crise internacional não permite que se abram exceções. Na verdade,

a Ucrânia continua economicamente dependente da Rússia, uma realidade que nem EUA nem União Europeia têm interesse  ou condições de modificar.

Diante desse quadro, aguarda-se com muita ansiedade a proposta que Barack Obama ficou de apresentar. Vamos esperar. Sentados, claro.

Viva Zapátria - Sirlan

Via Festivais da Canção

 

Acompanhado por Flavio Venturini nos teclados e Beto Guedes no baixo, Sirlandefendeu Viva Zapátria (Sirlan e Murilo Antunes) e foi aclamado pela platéia do Maracanãzinho, durante o VII FIC, em 1972.

Dias antes, a dupla havia sido "convidada" a explicar perante à Censura Federal, a razão daquele título mas, acabou convencendo aos censores de que a inspiração havia sido um filme realizado em 1952, que possuia o nome "Viva Zapata".

 

 

Considerado uma das grandes revelações do festival, Sirlan obteve para a canção, apenas uma menção honrosa .

Esse meu sangue fervendo de amor

Aterrisam falcões, onde estou?

Carabinas, sorriso, onde estou?
Um compromisso a sirene chamou

Duplicatas, meu senso de humor

Se perdeu na cidade onde estou.
Viva Zapátria, saudou esse meu senhor

Beijos, abraços, ano um chegou

Salve Zapátria, ê, viva Zapátria, ê

Esta cidade foi uma herança só.
Viva Zapátria, saudando o senhor

Horizonte aberto onde estou

Esta América mãe onde estou."

sábado, 29 de março de 2014

Venezuela: Derrotar o fascismo antes que seja demasiado tarde

Via Resistir.info

James Petras

Exéquias do Capitão Guillen Araque. O capitão Jose Guillen Araque, da Guarda Nacional Venezuelana, deu recentemente ao Presidente Maduro um livro sobre a ascensão do nazismo, alertando para que "o fascismo tem que ser derrotado antes que seja tarde demais"! Como retaliação ao seu aviso profético, o jovem capitão patriótico foi morto a tiro por um assassino, a soldo dos EUA, nas ruas de Marcay no estado de Aragua no dia 16 de Março de 2014. Isto elevou para 29 o número dos soldados e polícias venezuelanos mortos desde o levantamento fascista. A morte de um oficial destacado e patriótico numa rua principal duma capital provincial é mais uma indicação de que os fascistas venezuelanos estão activos, confiantes do seu apoio por Washington e por uma ampla faixa das classes alta e média venezuelanas. Constituem uma minoria do eleitorado e não têm ilusões quanto a conseguirem conquistar o poder por meios constitucionais e democráticos. O capitão Guillen Araque avançou para lembrar ao Presidente Maduro que, em toda a história contemporânea, o caminho para o poder dos grupos nazis e fascistas totalitários foi atapetado com os cadáveres de democratas e social-democratas bem-intencionados que não utilizaram os seus poderes constitucionais para esmagar os inimigos da democracia

A história da ascensão do fascismo nas democracias

O termo "fascista" na Venezuela aplica-se com toda a propriedade aos violentos grupos políticos organizados que estão actualmente envolvidos em terrorismo de massas numa campanha para desestabilizar e derrubar o governo bolivariano democraticamente eleito. Os puristas académicos bem podem argumentar que os fascistas venezuelanos não têm a ideologia racista e nacionalista dos seus antecessores alemães, italianos, espanhóis e portugueses. Embora isso seja verdade, também é irrelevante. A marca venezuelana do fascismo está profundamente dependente do imperialismo dos EUA e seus aliados colombianos, e age como seu lacaio. Num certo sentido, porém, o racismo do fascismo venezuelano é dirigido contra as classes trabalhadoras e camponesas dos venezuelanos afro-ameríndios multirraciais – conforme demonstrado pelo seu racismo pernicioso contra o falecido Presidente Hugo Chavez. A ligação essencial com movimentos fascistas antigos encontra-se (1) na sua profunda hostilidade de classe para com a maioria popular; (2) no seu ódio visceral para com o Partido Socialista Chavista, que ganhou 18 das últimas 19 eleições; (3) no recurso à tomada armada do poder por uma minoria que age por conta das classes dominantes imperialistas, internas e americanas; (4) na sua intenção de destruir as próprias instituições e procedimentos democráticos que explora a fim de ganhar espaço político; (5) no seu direccionamento para as instituições da classe trabalhadora – conselhos comunais, associações de vizinhos, clínicas de saúde pública e dentais, escolas públicas, transportes, armazéns de produtos alimentares subsidiados, locais de reuniões políticas, associações de crédito público, organizações sindicais e cooperativas camponesas; (6) e no seu apoio aos bancos capitalistas, enormes latifúndios comerciais e empresas produtoras.

Na Alemanha, Itália, Espanha, França e Chile, os movimentos fascistas também começaram como pequenos grupos terroristas, que conquistaram o apoio financeiro da elite capitalista por causa da sua violência contra organizações da classe trabalhadora e instituições democráticas e faziam o seu recrutamento principalmente entre estudantes universitários da classe média, profissionais livres de elite (em especial médicos) e oficiais de altas patentes, no activo ou reformados – unidos na sua hostilidade contra a ordem democrática.

Tragicamente e também demasiadas vezes, os líderes democráticos, que funcionavam num governo constitucional, tiveram a tendência de considerar os fascistas apenas como "mais um partido", recusando-se ou não se mostrando dispostos a esmagar os assassinos armados, que aliavam o terrorismo nas ruas às eleições para conquistar o poder do estado. Os democratas constitucionalistas não viram ou não quiseram ver o braço político e civil dos nazis como fazendo parte de um inimigo totalitário orgânico; por isso, negociaram e discutiram infindavelmente com fascistas de elite que, entretanto, destruíram a economia enquanto os terroristas desfaziam os fundamentos políticos e sociais do estado democrático. Os democratas recusaram-se a enviar os seus muitos milhões de apoiantes de massa para fazer frente às hordas fascistas. Pior ainda, até se orgulharam de prender os seus apoiantes, polícias e soldados, que eram acusados de usar de 'força excessiva' na sua confrontação com os arruaceiros assassinos fascistas. Assim, os fascistas passaram com facilidade das ruas para o poder do estado. Os democratas eleitos preocuparam-se tanto com a crítica dos meios de comunicação internacionais e capitalistas, com a crítica da elite e com as organizações que se intitulavam dos 'direitos humanos', que facilitaram a conquista aos fascistas. O direito do povo à defesa armada da sua democracia foi subordinado ao pretexto de defender as 'normas democráticas' – normas que qualquer estado burguês sob ataque teria rejeitado! Os democratas constitucionais não reconheceram como a política tinha mudado drasticamente. Já não estavam a dialogar com uma oposição parlamentar para preparação das eleições seguintes; foram confrontados com terroristas armados e sabotadores empenhados numa luta armada e na conquista do poder político por qualquer meio – incluindo golpes de estado violentos.

No léxico do fascismo, a conciliação democrática é uma fraqueza, uma vulnerabilidade e um convite aberto à escalada da violência; os slogans de 'paz e amor' e de 'direitos humanos' servem para ser explorados; os pedidos de 'negociações' são preâmbulos para a rendição; e os 'acordos' prelúdios para a capitulação.

Para os terroristas, os políticos democráticos que alertam para uma 'ameaça do fascismo' enquanto agem como se estivessem metidos em 'escaramuças parlamentares', tornam-se um alvo aberto para ataques violentos.

Foi assim que os fascistas chegaram ao poder na Alemanha, em Itália e no Chile, enquanto os democratas, constitucionalistas até ao fim, se recusaram a armar os milhões de trabalhadores organizados que podiam ter sufocado os fascistas e salvo a democracia e preservado as suas vidas.

O fascismo na Venezuela: Uma ameaça mortal hoje

O alerta do herói mártir, o capitão Guillen Araque, sobre um iminente perigo fascista na Venezuela tem uma poderosa base substantiva. Enquanto a violência terrorista aberta vai e vem, a base estrutural subjacente do fascismo na economia e na sociedade mantém-se intacta. As organizações clandestinas, o financiamento e a organização do fluxo de armamento para os fascistas expectantes mantêm-se em funcionamento.

Os líderes políticos da oposição estão a jogar um jogo enganador, passando constantemente de formas legais de protesto para uma cumplicidade secreta com os terroristas armados. Não há qualquer dúvida de que em qualquer putsch fascista, os oligarcas políticos surgirão como os verdadeiros dirigentes – e partilharão o poder com os líderes das organizações fascistas. No entanto, a sua 'respeitabilidade' fornece cobertura política, as suas campanhas de 'direitos humanos' para libertar arruaceiros assassinos e incendiários encarcerados conquistam o 'apoio dos meios de comunicação internacionais, enquanto servem de 'intermediários' entre as organizações americanas de financiamento e o subterrâneo terrorista clandestino.

Quando se mede o âmbito e a profundidade do perigo fascista, é um erro contar apenas o número dos bombistas, incendiários e atiradores, sem incluir os grupos de apoio logístico, de reserva e periféricos e os apoiantes institucionais que alimentam os agentes no terreno.

Para 'derrotar o fascismo antes que seja tarde demais', o governo tem que avaliar realisticamente os recursos, a organização e o código operacional do comando fascista e rejeitar os anúncios abertamente tranquilizadores e 'optimistas' de alguns ministros, conselheiros e legisladores.

Primeiro, os fascistas não são apenas um pequeno bando que se limita a bater em panelas e a atacar trabalhadores municipais nos subúrbios da classe média-alta de Caracas em benefício dos meios de comunicação internacionais e corporativos. Os fascistas estão organizados numa base nacional; os seus membros estão activos por todo o país.

Visam instituições e infra-estruturas vitais em inúmeros locais estratégicos.

A sua estratégia é controlada centralmente, as suas operações são descentralizadas.

Os fascistas são uma força organizada; o seu financiamento, armamento e acções são planeados. As suas manifestações não são 'espontâneas', são acções organizadas localmente, que reagem à 'repressão' governamental tal como descrevem os meios de comunicação burgueses e imperialistas.

Os fascistas reúnem diversas correntes de grupos violentos, que frequentemente aliam profissionais livres de direita, motivados ideologicamente, grupos de contrabandistas de grande escala, e traficantes de drogas (em especial nas regiões fronteiriças), grupos paramilitares, mercenários e criminosos conhecidos. Estes são os 'fascistas da linha da frente', financiados pelos grandes especuladores de divisas, protegidos por funcionários locais eleitos, a quem os investidores imobiliários e os burocratas universitários de alto nível oferecem 'santuário'.

Os fascistas tanto são 'nacionais' como internacionais: Incluem assassinos pagos localmente e estudantes de famílias da classe alta; soldados paramilitares colombianos, mercenários profissionais de todos os tipos, 'assassinos a soldo' de organizações de 'segurança' e operacionais clandestinos das Forças Especiais dos EUA; e 'internacionalistas' fascistas recrutados em Miami, na América central, na América Latina e na Europa.

Os terroristas organizados têm dois santuários estratégicos para desencadear as suas operações violentas – Bogotá e Miami, onde líderes destacados, como o ex-Presidente Alvaro Uribe e líderes do Congresso dos EUA fornecem apoio político.

A convergência da actividade económica criminosa, altamente lucrativa, e do terrorismo político apresenta uma formidável ameaça dupla à estabilidade da economia venezuelana e à segurança do estado… Criminosos e terroristas encontram uma casa comum na tenda política dos EUA, destinada a derrubar o governo democrático da Venezuela e a esmagar a revolução bolivariana do povo venezuelano.

As interligações, a montante e a jusante, entre criminosos e terroristas dentro e fora do país, entre os políticos seniores de Washington, passadores de droga nas ruas e contrabandistas, alimentam os porta-vozes da elite internacional e proporcionam o músculo para os arruaceiros e os atiradores.

Os alvos terroristas não são escolhidos ao acaso; não são produto de cidadãos enfurecidos contra as desigualdades sociais e económicas. Os alvos do terrorismo, cuidadosamente seleccionados, são os programas estratégicos que sustentam a administração democrática; são sobretudo as instituições sociais de massas que formam a base do governo. Isso explica porque é que os terroristas lançam bombas nas clínicas de saúde dos pobres, nas escolas públicas e nos centros de ensino para adultos nos barrios, nos armazéns de alimentos subsidiados pelo estado e no sistema de transportes públicos. Fazem parte do vasto sistema de segurança social popular instituído pelo governo bolivariano. São os blocos fundamentais de construção que garantiram o apoio maciço de votantes em 18 das 19 eleições e o poder popular nas ruas e nas comunidades. Destruindo a infra-estrutura de bem-estar social, os terroristas esperam quebrar os elos sociais entre o povo e o governo.

Os terroristas visam o legítimo sistema de segurança nacional: nomeadamente, a polícia, a Guarda Nacional, os juízes, os promotores públicos e outras autoridades encarregadas da salvaguarda dos cidadãos. Os assassínios, os ataques violentos e as ameaças contra funcionários públicos, as bombas incendiárias em edifícios públicos e transportes públicos destinam-se a criar um clima de medo e demonstrar que o estado é fraco e incapaz de proteger a vida quotidiana dos seus cidadãos. Os terroristas querem projectar uma imagem de 'poder dual' apoderando-se de espaços públicos e bloqueando o comércio normal… e 'governando as ruas à ponta da espingarda'. Acima de tudo, os terroristas querem desmobilizar e constranger as contra-manifestações populares bloqueando as ruas e disparando contra activistas empenhados na actividade política em subúrbios disputados. Os terroristas sabem que podem contar com os seus aliados da oposição política 'legal' para lhes fornecerem uma base de massas através de manifestações públicas, que servem de escudo para ataques violentos e um pretexto para uma sabotagem maior.

Conclusão

O fascismo, nomeadamente o terrorismo armado dirigido para derrubar pela violência um governo democrático, é uma ameaça real e imediata na Venezuela. Os altos e baixos da luta diária na rua e os fogos-postos não são uma medida adequada desta ameaça. Como assinalámos, os apoios chave, estruturais e organizativos, subjacentes à ascensão e crescimento do fascismo são muito mais importantes. O desafio na Venezuela é cortar a base económica e política do fascismo. Infelizmente, até há pouco tempo o governo tem sido extremamente sensível à crítica hostil das elites além-mar e internas que se apressam a defender os fascistas – em nome da 'liberdade democrática'. O governo da Venezuela tem recursos enormes à sua disposição para erradicar a ameaça fascista. Mesmo que uma acção firme desencadeie o protesto dos amigos liberais além-mar, a maior parte dos defensores pró-democracia acredita que cabe ao governo agir contra esses funcionários da oposição que continuam a incitar a rebelião armada.

Mais recentemente, tem havido nítidos sinais de que o governo venezuelano, com o seu poderoso mandato democrático e constitucional, tem-se movimentado com consciência do perigo fascista e agirá com determinação para o afastar das ruas e nas suites.

A Assembleia Nacional aprovou a suspensão da imunidade de deputada na Assembleia Nacional, a congressista Corina Machado, para que ela possa ser acusada de incitação à violência. O Presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello apresentou provas documentais pormenorizadas do papel dela na organização e promoção de rebelião armada. Vários presidentes de municipalidades da oposição, activamente envolvidos na promoção e protecção de atiradores furtivos, arruaceiros e incendiários foram acusados e detidos.

A maioria dos venezuelanos confrontados com a maré crescente da violência fascista, apoia a punição destes altos funcionários envolvidos na sabotagem ou que a apoiam. Sem uma acção firme, as organizações de informações venezuelanas e o cidadão médio estão de acordo em que esses políticos da 'oposição' vão continuar a promover a violência e a proporcionar um santuário aos assassinos paramilitares.

O governo já percebeu que está envolvido numa verdadeira guerra, planeada por uma liderança centralizada e executada por operacionais descentralizados. Os líderes legislativos estão a ser confrontados com a psicologia política do fascismo, que interpreta as propostas de conciliação política e de brandura judicial do Presidente como uma fraqueza a ser explorada através de mais violência.

O avanço mais significativo para deter a ameaça fascista reside no reconhecimento pelo governo dos elos entre a elite parlamentar e empresarial e os terroristas fascistas: especuladores financeiros, traficantes e grandes açambarcadores de alimentos e de outros bens essenciais, todos eles fazem parte do mesmo ímpeto fascista para o poder, juntamente com os terroristas que lançam bombas em mercados públicos de alimentos e atacam os camiões que transportam alimentos para os subúrbios pobres. Um trabalhador revolucionário disse-me depois duma escaramuça de rua: "Por la razon y la fuerza no pasaran!" (Pela razão e pela força, serão derrotados)…

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/defeating-fascism-before-its-too-late/5374832 . Tradução de Margarida Ferreira.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Bode na sala: O artigo 48 e as leis de exceção na Copa (oportuníssima reflexão)

Via Diario Liberdade

Sergio Domingues

Se, no Reich alemão, a segurança e a ordem pública estiverem seriamente conturbadas ou ameaçadas,seu presidente pode tomar as medidas necessárias para o restabelecimento da segurança e da ordem pública, eventualmente com a ajuda das forças armadas. Para esse fim, ele pode suspender total ou parcialmente os direitos fundamentais, estabelecidos nos artigos 114, 115, 117, 118, 123, 124 e 153.

 

Este é o artigo 48 da primeira Constituição republicana da Alemanha, aprovada em 1919. O texto legal previa vários direitos e garantias democráticos. Mas todos podiam ser suspensos por aquele único artigo. A medida foi adotada por receio de que as agitações revolucionárias que haviam sacudido o país pouco antes voltassem a acontecer.

Em 1923, surgiu nova onda de mobilizações sociais. A esquerda moderada estava no poder. Utilizou o artigo 48 para decretar estado de sítio e colocar o poder nas mãos do Exército. Mas o pior estava por vir. Em 1933, foi com base no famigerado artigo que Hitler iniciou seu governo despótico. Líder do segundo partido mais votado nas eleições de 1930, ele foi nomeado primeiro-ministro.

A partir desse momento, Hitler só precisava de um pretexto. Ele veio com o incêndio do parlamento alemão. Os comunistas e socialdemocratas foram responsabilizados sem provas. Milhares deles foram presos e seus jornais censurados. Era o começo do trágico domínio nazista na Alemanha.

No momento em que se discutem medidas de exceção para coibir manifestações contra a Copa, é importante lembrar esse terrível período da história humana. Alegando preocupações com conservadores golpistas, setores de esquerda podem estar fazendo exatamente o que a direita quer.

O mundo pós-Crimeia

Via Jornal do Brasil

Mauro Santayana

O G-8, que agora volta a ser G-7, “expulsou” na semana passada a Rússia, depois de suspender a reunião que haveria em Sochi. A reação do chanceler Serguei Lavrov foi a de declarar que, como grupo informal, o G-8 não pode expulsar ninguém, além de lembrar que, para Moscou, comparecer ou não a essas reuniões não muda absolutamente nada.

Pertencer ou não ao G-8 é uma questão irrelevante para os russos, que se sentem muito mais à vontade com os Brics — justamente o grupo que fomentou a criação do G-20, em contraposição ao clubinho  que tradicionalmente reunia as maiores — e agora não tão poderosas — economias do Ocidente. Tanto isso é verdade que os Brics, reunidos à margem da Cúpula de Desarmamento Nuclear, em Haia, declararam apoio à Rússia, com relação às sanções unilaterais impostas — sem aprovação da ONU — pelos países ocidentais.

Além disso, o Grupo também deixou claro, no comunicado conjunto emitido ao final da reunião, que não aceitará a suspensão — anunciada pela ministra das Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop — da  participação russa na próxima Conferência do G-20, que será realizada no mês de novembro, em Brisbane.

Os Brics controlam um quarto dos votos do G-20, no qual costumam votar juntos, assim como no Conselho de Segurança da ONU.

Com a “expulsão” da Rússia do G-8, o que muda no mundo pós-anexação da Crimeia?

Longe de isolar Moscou, os EUA e a UE estão conseguindo apenas reforçar os laços que a unem ao resto do mundo, começando por Pequim, Nova Délhi, Brasília e e Johannesburgo.

Com 177 bilhões de dólares em superávit no ano passado, a Rússia passaria a comprar do Brasil os grãos, a carne e o frango de que necessita

No dia 18 de março, Dimitri Peskov, porta-voz do Kremlin, já anunciou o que vem por aí, ao afirmar que, se a UE e os Estados Unidos insistirem nas sanções, a Rússia irá cortar as importações de produtos europeus e norte-americanos.

Com 177 bilhões de dólares em superávit no ano passado, e quase 600 bilhões de dólares em reservas internacionais, a Rússia é um dos maiores importadores de alimentos dos EUA e passaria a comprar os grãos, a carne e o frango de que necessita do Brasil.

Com relação à questão geopolítica, a reação do Ocidente à ocupação, pelos russos, de um território que historicamente lhes pertenceu até a década de 1950, e que só deixou de estar associado à URSS há coisa de 30 anos, alertou e está aproximando Pequim, Moscou e Nova Délhi.

Os três têm interesse em estabelecer uma zona de estabilidade no espaço euroasiático — Rússia e China já fazem parte do Acordo de Xangai — e em manter os países que estão em suas fronteiras, longe da interferência ocidental.

A Alemanha — que conhece melhor os russos que os norte-americanos — já entendeu isso.

Der Spiegel divulgou, na semana passada, que a Rússia e a China “se preparam para assinar um acordo de cooperação político-militar”, o que poderia estabelecer uma plataforma de defesa necessária à geração de um “novo reequilíbrio de forças no âmbito mundial”.

Os chineses se abstiveram oficialmente na votação a propósito da Resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o referendum da Crimeia. Mas o jornal do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, o Renmin RibaoDiário do Povo, não deixou dúvidas sobre qual é a posição de Pequim, ao afirmar, em editorial, que “o espírito da Guerra Fria está se debruçando sobre a Ucrânia”, o que transforma “a aproximação estratégica entre a China e a Rússia em um fator âncora para a estabilidade global” — e que “a Rússia, conduzida por Vladimir Putin, deixou claro para o Ocidente que, em uma Guerra Fria, não há vencedores”.

O que pode mudar nesse novo mundo pós-anexação da Crimeia para o Brasil?

Segundo maior exportador de commodities agrícolas e o primeiro em carnes, o Brasil tem que aproveitar o momento para se posicionar como um sócio estratégico para o abastecimento dos russos, nesse quesito, mostrando também a chineses e indianos, grandes clientes do agronegócio brasileiro, que é um fornecedor confiável, que pode substituir os Estados Unidos no atendimento aos Brics, enquanto estes não puderem alimentar seus cidadãos com produção própria.

Fora isso, é preciso também aproveitar a era pós-Crimeia para renegociar as parcerias, do ponto de vista tecnológico e comercial, com relação a esse Grupo, que domina mais de 40% da população e da extensão territorial e um quarto do PIB mundial.

Ao contrário do que ocorre com a UE e os EUA, fortemente protecionistas e intervencionistas, que sobretaxam as importações e gastam, em áreas como a agricultura e a defesa, centenas de bilhões de dólares em subsídios, o Brasil tem conseguido aumentar seu superávit com os outros Brics nos últimos anos, mesmo que ainda não tenha se inserido na cadeia de produção e consumo de bens de maior valor agregado desses grandes mercados.

Parte disso decorre, também, da falta de  estratégia e de sobrados preconceitos de parte ponderável de nosso empresariado.

Quantos shopping centers brasileiros existem na China?  E em Moscou ou São Petersburgo? E em regiões de altíssimo poder aquisitivo dessas cidades? Quais são as marcas brasileiras de excelência, nos ramos  têxtil, de calçados, de perfumaria, que os chineses e os russos conhecem? Que restaurantes, que franquias?

Pródigo em emprestar bilhões de dólares a multinacionais que operam aqui dentro, o BNDES precisa reunir a Apex e o pessoal da área de varejo de luxo para estabelecer uma estratégia de inserção do Brasil nos Brics — e de resto na África e na América Latina — que vá além da realização de feiras e do café, do açúcar, do couro, do minério de ferro, da soja e do suco de laranja.

Precisamos — e o momento é propício para isso — começar a incentivar e dar decidido apoio à internacionalização de empresas brasileiras para que comecemos a receber algum dinheiro do exterior — ou em breve nos converteremos apenas em uma reserva de mercado para investidores estrangeiros, que sugaram do país, no ano passado, em remessas de lucro, quase 30 bilhões de dólares em reservas internacionais.

O fortalecimento da Rússia, da China e da Índia interessa ao Brasil, não apenas do ponto de vista econômico mas, principalmente, do geopolítico. Essas são as únicas nações que podem impedir, em um futuro próximo, a consolidação do projeto anglo-saxão de domínio que promoveu um verdadeiro assalto ao resto do mundo, nos últimos 200 anos.

Os Brics — incluindo o Brasil — não podem derrotar os Estados Unidos e a União Europeia. Mas os EUA e a UE também não podem derrotar os Brics. E, para o futuro do mundo, é isso o que importa.

A ESCOLHA DE KIEV

Sanguessugado do Mauro Santayana

(Hoje em Dia) - O Presidente Obama afirmou, em entrevista, para a imprensa holandesa, que Kiev “não precisa escolher entre leste e oeste”, e que é importante que o povo ucraniano tenha boas relações com a Rússia, os EUA, e a Europa.

Os ucranianos deveriam agradecer penhoradamente esse conselho, e lembrar que era exatamente isso que estavam fazendo antes que o Ocidente se metesse no país.

Kiev poderia ter sobrevivido, por muito tempo, com seu território intacto, se tivesse continuado seu movimento pendular tradicional, inclinando-se ora para o Ocidente, ora para a Rússia, buscando obter vantagens dos dois lados.

Ao dar ouvidos à OTAN, esticando a corda ao máximo, a ponto derrubar o governo, os neonazistas que assumiram o poder obrigaram a Ucrânia a queimar seus navios, sem olhar para trás.

Com isso, Kiev perdeu a Criméia, o mercado russo para seus produtos, o dinheiro prometido por Putin, e muito mais.

Depois de botar fogo na fogueira, o Ocidente - como se pode ver pelas declarações de Mr. Obama, está, apesar da retórica agressiva somada a “sanções” praticamente inócuas, tentando salvar a cara enquanto pensa em um jeito de se afastar do atoleiro  ucraniano.

Kiev deve 170 bilhões de euros, e precisa de 50 milhões de metros cúbicos de gás, todos os dias, para tocar a economia e não congelar.

Mesmo que fosse possível convencer a população europeia a pagar a conta, quando ainda sofre com as graves consequências da crise econômica, ainda haveria a questão do gás.

O engenheiro enviado pelos EUA para estudar a situação, disse que seria possível assegurar sete milhões de metros cúbicos de gás, até o fim do ano, desviando parte do gás russo fornecido à Europa, o que representaria apenas 14% da demanda ucraniana, para enfrentar um inexorável inverno, que, neste ano, como em todos os outros, vai chegar.

E isso, se a UE pudesse prescindir desse gás, que teria de ser pago pelos ucranianos, ao mesmo preço de mercado cobrado por Moscou dos próprios europeus.  

Ao dizer que Kiev não precisa escolher, necessariamente, entre Leste e Oeste, depois de tê-la empurrado contra Putin, os EUA estão lavando, olimpicamente, as suas mãos, como se nada tivessem a ver com a situação.

O seu recado, e o da OTAN, para os ucranianos, é o mesmo que o Coronel Pedro Tamarindo deu aos seus soldados, ao abandonar a Coluna de Moreira César, na Guerra de Canudos: em tempo de Murici, cada um cuide de si.

O que pode servir de advertência, para aqueles que, a exemplo de parte do exército de famintos, órfãos e refugiados da Primavera Árabe, se deixam seduzir pelas sinuosas sereias do Ocidente.

Elas não trazem Liberdade ou Prosperidade. Seu objetivo é destruir e fragmentar, com o seu canto – como fizeram nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão, no Egito e na Líbia, a unidade e a estabilidade – desde que não tenha armas atômicas - de qualquer nação que possa vir a ameaçar seus interesses no futuro.

Vagas para Saúde da Família não atendem SUS

Via ENSP Fiocruz

Amanda de Sá

Por meio do relato de experiência em dois programas de residência no Brasil, Pedro Rocha Pitta, elaborou sua dissertação de Mestrado Profissional em Saúde Pública na ENSP. De acordo com o aluno, a existência de 1.047 vagas em Medicina de Família e Comunidade (MFC), por ano, no Brasil, está muito abaixo da necessidade do SUS, tendo em vista a meta do Ministério da Saúde de implantar um total de 40 mil equipes de Saúde da Família em médio prazo. "A tendência à municipalização dos programas de Residência Médica em MFC deve ser avaliada com mais detalhe,  buscando estimar seus eventuais pontos positivos e negativos. Neste contexto, a formação específica em MFC é extremamente estratégica para a consolidação de um projeto de sistema nacional de saúde no Brasil", opinou.

Os dois modelos de Residência em Medicina de Família e Comunidade estudados foram do Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar de Porto Alegre e da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Para Pedro, em ambos os casos percebe-se a ausência de projetos político-pedagógicos e os objetivos específicos de aprendizagem não estão claros. “Existe somente a lista de temas de aulas, quadro de horários e estágios. Portanto, não fica evidente para o observador, quais competências específicas devem ser adquiridas durante a formação.”

Segundo Pedro, a Medicina de Família e Comunidade, como especialidade dentre as demais especialidades médicas, consiste em cuidar de forma longitudinal, integral e coordenada da saúde de uma pessoa. Assim, entende-se que a MFC é inseparável dos serviços de Atenção Primária à Saúde. Paralelamente, o escopo de atributos da MFC, principalmente a integralidade, confere à ela importante papel generalista. Nesse sentido, a especialidade Medicina de Família e Comunidade poderia ser considerada o oposto das especialidades.

Sobre a organização de um Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade, o aluno explicou que a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade aponta algumas direções, em consonância com as propostas do Sistema Único de Saúde e fortalecimento da Estratégia Saúde da Família no Brasil. “A Residência em MFC foi reformulada e buscou acompanhar a evolução da trajetória da Atenção Primária à Saúde no país. Dessa forma, avalia-se que esta especialidade tem consonância com a política vigente e deve ser cada vez mais estimulada a preencher as necessidades de recursos médicos qualificados para as tarefas de assistência, ensino e pesquisa no país.”

Conforme explicou Pedro, atualmente um grupo de preceptores da Secretaria Municipal de Saúde do Rio trabalha para tentar definir algumas destas habilidades e competências, associados a metodologias específicas de ensino e avaliação. Tal grupo de trabalho encontra inspiração na Agenda Educativa Euract. Este documento enumera diversas atribuições, competências e objetivos de aprendizagem a serem adquiridas pelos médicos em formação. De acordo com ele, talvez seja um dos únicos documentos existentes com definições muito claras e detalhadas de habilidades e competências específicas para os médicos de família e comunidade. Dessa forma, é fonte de inspiração para o desenvolvimento de Programas de Residência em MFC nacionais, porém constitui grande desafio, a partir destas propostas, estabelecer um projeto de formação brasileiro baseado em competências específicas para o médico de família e comunidade.

O aluno explicou, por fim, que em 24 de janeiro deste ano, os Ministérios da Saúde e Educação lançaram portaria conjunta relacionada a questões e dilemas atuais da especialidade Medicina de Família e Comunidade, principalmente relacionados com a formação médica que tenha forte orientação para atenção primária em saúde. Tal portaria estabelece a criação de um grupo de estudos para atuar na reformulação dos conteúdos das residências médicas em medicina de família e comunidade, refletir sobre possibilidades de incremento de atividades na graduação voltadas à atenção básica, discutir a ampliação da oferta de especialistas na área de medicina geral de família e comunidade e propor iniciativas de formação de preceptores e supervisores com finalidade de atender a ampliação dos campos de práticas ao nível de graduação e residência médica na atenção primária em saúde.

Pedro de Gales Perpétuo Rocha Pitta Sampaio possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e redisência médica pelo Programa de Residência de Medicina de Família e Comunidade do Grupo Hospitalar Conceição (PRMFC-GHC/Porto Alegre). Sua dissertação de Mestrado Profissionalizante em Saúde Pública intitulada Residência em Medicina de Família e Comunidade: dois programas brasileiros foi apresentada na ENSP no dia 24/2, sob a orientação da professora Lilian Koifman.

Chomsky: Segurança, conceito controverso

Sanguessugado do Outras Palavras

Noam Chomsky

140311-EUA

Como os EUA arriscam proteção de seus cidadãos, e se isolam internacionalmente, para proteger grandes corporações e poder do Estado

Noam Chomsky, no Alternet | Tradução: Antonio Martins


Primeiro de dois artigos construídos a partir de palestra de Chomsky (em 28/2) para a Nuclear Age Peace Foundation.

Um princípio orientador da teoria das relações internacionais diz que a maior prioridade do Estado é garantir a segurança. Como estrategista da Guerra Fria, George F. Kennan formulou que os governos são criados “para garantir a ordem e a justiça internas e para assegurar a defesa comum.” A proposição parece plausível, quase evidente, até que um olhar mais atento pergunte: Segurança para quem? Para a população em geral? Para o próprio poder do Estado? Para os setores dominantes na sociedade?

Dependendo do que queremos dizer, a credibilidade do princípio varia de desprezível a muito alta. A segurança do poder do Estado é extremamente alta, como revelam os esforços que os Estados desenvolvem para não serem transparentes a suas próprias populações.

Em uma entrevista na TV alemã, Edward Snowden contou que chegou a seu “ponto de ruptura” ao “ver o diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, negar, sob juramento do Congresso”, a existência de um programa de espionagem interna conduzida pela Agência de Segurança Nacional. Snowden afirmou que “o público tinha o direito de saber desses programas. O público tinha o direito de saber o que o governo está fazendo em seu nome e contra ele”. O mesmo poderia ser dito por Daniel Ellsberg, Chelsea Manning e outras figuras corajosas que atuaram segundo o mesmo princípio democrático.

A posição do governo é bem diferente: o público não tem o direito de saber, porque a segurança seria severamente prejudicada. Existem boas razões para ser cético diante de tal resposta. A primeira é quase totalmente previsível: quando um ato de governo é revelado, o governo, por reflexo, declara motivos de segurança. Em consequência, o resultado é pouca informação.

Uma segunda razão para o ceticismo é a natureza das provas apresentadas. O estudioso de relações internacionais John Mearsheimer escreveu que “o governo Obama, previsivelmente, alegou a princípio que a espionagem da NSA teve um papel fundamental em frustrar 54 planos terroristas contra os Estados Unidos, o que implica que violou a quarta emenda à Constituição por um bom motivo”.

Isso era mentira, no entanto. O general Keith Alexander, diretor da NSA, admitiu ao Congresso que poderia reivindicar apenas um caso bem-sucedido [em que ação terrorista foi frustrada por espionagem]: o que envolveu a captura de um imigrante somali e três comparsas que vivem em San Diego e tentaram enviar 8,5 mil dólares a um grupo terrorista na Somália…

A visão básica por trás desta atitude foi bem expressa pelo cientista político Samuel P. Huntington, de Harvard: “Os arquitetos do poder nos Estados Unidos devem criar uma força que possa ser sentida, mas não se veja. O poder permanece forte quando no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar”.

Nos Estados Unidos, como em outros lugares, os arquitetos do poder compreendem isso muito bem. Aqueles que trabalharam com a enorme massa de documentos confidenciais na história oficial das Relações Exteriores dos Estados Unidos, por exemplo, dificilmente podem deixar de notar que, muito frequentemente, a principal preocupação não é a segurança nacional, em qualquer sentido, mas a segurança do poder do Estado.

Muitas vezes, a tentativa de manter o sigilo é motivada pela necessidade de garantir a segurança de setores sociais poderosos. Um exemplo são os “acordos de livre comércio”, rotulados de forma errada porque não são sobre o comércio como um todo e sim sobre os direitos dos investidores.

Estes instrumentos são regularmente negociados em segredo, como a atual Parceria Transpacífica (Trans-Pacific Partnership – TPP) mas não totalmente em segredo, é claro. Eles não são segredo para as centenas de lobistas corporativos e advogados que estão escrevendo as disposições detalhadas, cujo impacto foi revelado para o público através do WikiLeaks.

Como o economista Joseph E. Stiglitz concluiu, o Escritório de Representantes do Comércio dos EUA “representa os interesses corporativos”, não os do público: “A probabilidade de que o que emergir das próximas negociações sirva aos interesses dos americanos comuns é baixa; e as perspectivas para os cidadãos comuns em outros países são ainda mais sombrias.”

A segurança das grandes empresas é uma preocupação permanente das políticas governamentais nos EUA – o que sequer surpreende, dado o papel destas empresas na formulação de tais políticas. Em contrapartida, há provas substanciais de que a “segurança nacional” doméstica, no sentido em que o termo deve ser entendido, não é uma alta prioridade para a política do Estado.

Por exemplo, o programa de assassinato mundial por meio de drones do presidente Obama, é, de longe, a maior campanha terrorista do mundo. Mas qual seu resultado? O general Stanley McChrystal, comandante das forças dos EUA e da OTAN no Afeganistão, falou em “matemática insurgente”: para cada pessoa inocente que você matar, você cria dez novos inimigos.

Mas o próprio conceito de “pessoa inocente” diz-nos o quão longe nós estamos da Magna Carta, que estabeleceu o princípio da presunção de inocência – pensado um dia como o fundamento do direito anglo-americano. Hoje, a palavra “culpado” significa “alvo de assassinato por Obama” e “inocente” significa que “aquele a quem ainda não foi atribuído o status de culpado”.

A Brookings Institution acaba de publicar The Thistle and the Drone [“A Flor e o Drone”, em tradução livre], um estudo antropológico altamente elogiado sobre sociedades tribais. Escrito por Akbar Ahmed, tem com o subtítulo “Como a guerra dos EUA contra o terror se tornou uma guerra global contra o Islã Tribal”.

A guerra, Ahmed adverte, pode lrvar algumas tribos “à extinção”, com custos graves para as próprias sociedades, como se vê agora no Afeganistão, Paquistão, Somália e Iêmen. E, ao final, para os norte-americanos.

As culturas tribais, Ahmed aponta, baseiam-se em honra e vingança: “Todo ato de violência nessas sociedades tribais provoca um contra-ataque. Quanto mais duros os ataques contra os homens da tribo, mais cruéis e sangrentos os contra-ataques”.

O terror pode tornar-se um tiro pela culatra. Na revista britânica Foreign Affairs, David Hastings Dunn descreve como os cada vez mais sofisticados drones são uma arma perfeita para grupos terroristas. Drones são baratos, facilmente adquiríveis e “possuem muitas qualidades que, quando combinadas, tornam-se potencialmente o meio ideal para o ataque terrorista no século 21″, explica Dunn.

O senador Adlai Stevenson, referindo-se a seus muitos anos de serviço no Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, escreve que “a vigilância cibernética e a coleta de metadados fazem parte da reação contínua ao 11 de Setembro. Os EUA são amplamente percebidos como em guerra contra o Islã, contra os xiitas, bem como os sunitas, no chão, com drones, e por procuração na Palestina, desde o Golfo Pérsico até a Ásia Central. Alemanha e Brasil se ressentem de nossas invasões, e o que elas causaram?”

A resposta é que elas causaram, para os Estados Unidos, uma ameaça crescente e o isolamento internacional.

As ações militares por meio de drones são um dispositivo pelo qual a política do Estado põe em risco a segurança da população com conhecimento de causa. O mesmo é verdadeiro com relação a forças especiais para operações de assassinatos. A invasão do Iraque aumentou acentuadamente o terror no Ocidente, confirmando as previsões da inteligência britânica e americana.

Estes atos de agressão foram, mais uma vez, uma questão que pouco interesse despertou em seus planejadores, orientados por diferentes conceitos de segurança. Mesmo o risco destruição instantânea, através de armas nucleares, nunca foi levado realmente a sério pelas autoridades. Tratarei disso num próximo texto.