quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ustra vedava e acariciava vítimas da tortura, afirma ex-preso político

Via Jornal GGN

Cíntia Alves

Jornal GGN - A trajetória política de Antônio Carlos Granado (foto à direita), 68 anos, começou cedo. Com 15, o petista já participava de movimentos estudantis. Logo a frente, atuou em legendas de esquerda que trabalhavam para desestabilizar o regime militar instaurado após o golpe de 1964. Anos depois, seu envolvimento na luta clandestina contra o autoritarismo do Estado o levou a passar pelas salas malditas da OBAN, do DOPS, além da penitenciária do Estado de São Paulo.

Cinquenta anos após o golpe, Granado, atual secretário de Finanças de Santo André, ainda guarda uma lista com nomes de algozes que enfrentou ao longo dos quase quatro anos em que permaneceu preso, entre janeiro de 1971 e outubro de 1974. Ele cumpriu, em regime fechado, cerca de 25% da sentença que a justiça lhe aplicou com base na Lei de Segurança Nacional, por descumprimento dos artigos sobre "tentativa de tomada do poder".

O primeiro algoz citado pelo ex-vereador andreense durante a primeira audiência da Comissão da Verdade do município, realizada nesta quarta-feira (16), foi Carlos Alberto Brilhante Ustra. Conhecido pelo codinome Tibiriçá, o coronel reformado é o primeiro ex-agente a serviço da ditadura a ser reconhecido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo como torturador.

Granado relatou que Ustra (foto à esq.) era uma figura singular em meio aos demais policiais. "Ele acompanhava boa parte das sessões de tortura que aconteciam no DOPS [departamento que chefiou entre 1970 e 1974]. E tinha algo que me chamava atenção: todas as vezes em que o coronel ia torturar alguém, nós que estávamos presos tínhamos de ficar com os olhos vedados. Ele ordenava isso. Os outros agentes batiam em nós de cara limpa, mas ele não. Ele era inteligente", lembrou o secretário.

"Também me recordo que durante o interrogatório, Ustra acariciava nossos rostos. Ele passava a mão assim, pelas bochechas, e fazia esse gesto de carinho enquanto perguntava o que queria. Não sei que conotação isso deveria ter, mas era típico dele", completou Granado.

E deu sequência à lista. "Também lembro de um agente de codinome JC, um tal de Jesus Cristo, um cabeludo. Esse era de um sadismo, de uma violência atroz. Não tinha nada de inteligência. Tenho sequelas físicas, marcas pelo corpo, todas provocadas por esse personagem. Ele não fazia perguntas. Ele apenas batia e os outros perguntavam. Esse era o papel dele."

JC e a prisão do deputado Adriano Diogo

JC, assim como o coronel Brilhante Ustra, são nomes recorrentes em audiências de comissões da Verdade espalhadas por São Paulo e até mesmo no âmbito federal. Segundo o deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Rubens Paiva, em funcionamento na Assembleia Legislativa de São Paulo, há relatos de que JC teve envolvimento direto ou indireto na morte de 73 presos políticos. Ustra, à Comissão Nacional da Verdade, negou participação em assassinatos.

"Hoje, JC é um delegado da região de Presidente Prudente. Ficou 10 anos no Pontal de Paranapanema, prendendo gente e torturando. É um dos mais importantes delegados [da polícia civil] e um dos mais cruéis assassinos da ditadura brasileira. É professor de faculdade, cresceu, está rico. Seu nome é Dirceu Gravina. Foi ele quem me prendeu, me deu uma coronhada no olho. É um assassino", disparou o parlamentar (à dir.), também ex-preso e torturado nos anos de chumbo.

JC foi convocado, em março passado, a depôr na Câmara de São Paulo sobre sua atuação como investigador durante a ditadura militar. Ele se negou a comparecer à audiência depois de descobrir que a reunião era aberta à imprensa. Dias depois, concedeu entrevista exclusiva à Globo afirmando que, no DOPS, apenas participava de interrogatórios e que, por ser um homem religioso, jamais praticaria qualquer tipo de violação aos direitos humanos.

A Comissão da Verdade de Santo André é a segunda na região do ABC Paulista. A primeira, estabelecida em Diadema, começou a operar em novembro de 2013. O objetivo das comissões espalhadas pelo Estado é encaminhar o maior número possível de relatos à Comissão Nacional da Verdade, cujo prazo para conclusão dos trabalho expira no final deste ano.

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