domingo, 13 de abril de 2014

O pão que o diabo amassou

Sanguessugado do Porfírio

Pedro Porfírio

Desempregados e subempregados, maioria jovens, saem em busca de qualquer teto para ter onde morar

viva o Rio!

Entre centenas de imagens difundidas na coletânea de um chocante REALITY SHOW -  a desocupação dos terrenos da OI no Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro -  uma me tocou mais profundamente: um negro de aproximadamente 26 anos com dois filhos agarrados ao seu corpo. As crianças choravam e ele olhava na direção do nada, como se sem saber o que seria de sua vida e de seus filhos dali por diante.

Aquela foto me remetia para o âmago de uma crise social de grande potencial explosivo.  Não me refiro especificamente ao chamado déficit habitacional: por trás dessas invasões de fugitivos de aluguéis impagáveis com salários mínimos há uma realidade muito mais grave, que a cabeça vazia dos governantes não consegue alcançar. A crise estrutural, mãe de todas as tragédias sociais, é a escassez de emprego, curtida pela falta de instrução profissional e agravada pela otimização tecnológica que elimina milhões de postos de trabalho sem alternativas para os que são dispensados.

Aquele pai jovem deve ser um dos milhares de desempregados de uma região  que já foi o maior celeiro de empregos industriais da cidade. Faz parte de uma comunidade de maridos e companheiros "fantasmas", que vivem às custas das companheiras, enquanto ainda há vagas para domésticas e diaristas. 

São uma bizarra maioria de adultos nas favelas das antigas regiões industriais, cujas empresas fecharam ou se mudaram para áreas onde se instalaram com plantel reduzido.

Favelas que surgiram exatamente para facilitar a vida dos trabalhadores, que iam morar perto do emprego: a maior delas, o Jacarezinho, acolhia a mão de obra do maior parque metalúrgico e fazia parede com fábricas como a General Electric, que chegou a empregar 7 mil trabalhadores na década de 70, com uma porta de acesso direto para a comunidade.

Depois de muitas crises, em que foi se desfazendo progressivamente das linhas de montagem, a multinacional fechou suas portas e foi fabricar lâmpadas na China para vender no Brasil com maiores ganhos.

São os galpões das indústrias desativadas nos bairros de Maria da Graça, Jacaré, Engenho Novo, Cachambi, Benfica e adjacências que passaram a ser visados pelos desempregados e subempregados das novas gerações, que cresceram já sem perspectivas principalmente pela baixa escolaridade e já não tinham mais espaços em suas comunidades, mesmo nas beiras dos rios, como acontece na chamada Favela da Xuxa, ali junto ao Largo do Jacaré. Nessas áreas em que pelo menos 300 empresas grandes e médias fecharam as portas, dezenas de galpões foram invadidos ao longo dos últimos vinte anos. Em alguns casos, como na CCPL, na confluência da Dom Helder Câmara com Leopoldo Bulhões, houve reintegração de posse. Mas na maioria, não.

Essas invasões de galpões e prédios desativados não acontecem só nessa região, muito menos só no Rio de Janeiro. Refletem a prevalência de interesses econômicos setoriais, como a construção civil, que se valem de velhos expedientes e antigas alegações para induzirem os governos a entenderem a crise como meramente habitacional. Por que, seguindo essa percepção, são gastos bilhões de reais em construções mal acabadas e localizadas nos cafundós do Judas, as quais se destinam apenas a carrear verbas públicas para os empreiteiros, como disse muito bem Sérgio Magalhães, presidente do IAB e ex-secretário de Desenvolvimento Social do RJ,  cargo que também ocupei por duas vezes. Essa política acaba favorecendo por vias transversas as empresas de ônibus, que vendem hoje 9 milhões de passagens por dia. Isso sem falar no caótico transporte ferroviário.

Ao invés de empregos, governos incompetentes oferecem algumas casas precárias que acabam sendo passadas adiante por que os moradores permanecem à margem do mercado de trabalho

Na área do Jacaré, barracos amontoados, que são responsáveis também por altos índices de doenças respiratórias, já não têm lajes para o crescimento vertical, o que era comum antespara abrigar os filhos com suas famílias e minimizar o custo de manutenção de uma família, na qual o varão ou vive de biscates, na informalidade,  ou vai trabalhar na construção civil, ou simplesmente está parado. Daí o dilema apontado por muitos invasores de qualquer área onde possam erguer um teto: ou a gente come ou paga aluguel.

Muitas das empresas que fecharam ali poderiam ter sobrevivido nas mãos dos empregados, pelo recurso da auto-gestão, mas os governos também lhes viraram as costas, como aconteceu com a Parafusos Águia, uma metalúrgica que não conseguiu resistir por falta de apoio técnico e financiamento das agências de fomento, mais sensíveis às multinacionais e a empresários bem articulados, como o agora decadente Eike Batista.

Ao invés de dedicar-se a um programa arrojado de formação  e realocação de mão de obra  os governos recentes, em todos os níveis,  acenam com projetos habitacionais precários, que atendem a poucos, muitos vulneráveis à manipulação política e à picaretagem.

A maioria das pessoas que são beneficiadas com um imóvel desses programas tende a repassá-lo em vendas de gaveta no prazo máximo de dois anos, pois continuam com dificuldade de empregos, com baixos salários ou distantes de onde trabalham, juntando-se a isso as dificuldades naturais de um bairro novo e longe de tudo.

Ao contrário do que acontecia no meu tempo em que ralar era um esporte, os mauricinhos de hoje, de todos os matizes, também não entendem da natureza missionária da vida pública e não costumam sair de seus gabinetes confortáveis em situações como essa dos prédios abandonados da OI, preferindo deixar que assistentes sociais sem nenhum poder decisório e sem condições mínimas façam as vezes da autoridade da área social.

Nesse caso da "Favela da Telerj" que tanto alimentou a mídia e enervou a população, parece claro que os próprios titulares do Estado e da Prefeitura investiram na situação criada.  A área, inteiramente abandonada, havia sido negociada com o município. Um termo de compra e venda entre a Telemar e a Prefeitura chegou a ser assinado no dia 6 de julho de 2012, numa solenidade com a presença da presidente Dilma Rousseff. Pelo acordo fechado, ficou definido que o governo federal, via Ministério das Cidades, financiaria um programa habitacional no local, através do "Minha Casa Minha Vida".

Mas o negócio desandou. Mesmo com a assinatura do termo, a venda fracassou. O prefeito Eduardo Paes, sabe Deus por que,  alegou que o preço pedido era muito alto (Foi isso mesmo?). Desde então, os galpões e prédios seguiram desativados e, segundo os próprios invasores, estavam sendo usados por usuários de crack.

A invasão aconteceu na madrugada da segunda-feira, 31 de março, com a participação de cerca 200 pessoas. O número de invasores foi aumentando nos dias seguintes por que as autoridades não fizeram bulhufas, estimulando o aparecimento de mais gente, numa ocupação das áreas de estacionamento e das coberturas dos prédios, em que cada "lote" tinha 16 m², uns colados nos outros.

Nenhum secretário, do Estado do Município, nenhuma autoridade federal importante se dignou a ir lá, como que acenando para o inchaço que em 10 dias já reunia 5 mil pessoasConforme as paranoias do ex-governador Sérgio Cabral, assimiladas por seu medíocre sucessor, essa massa enorme deveria tomar uma lição pelas armas de 1 mil e 500 policiais  militares que, em menos de 6 horas fizeram a limpa da área, enquanto as máquinas derrubavam os embriões de barracos.

Só um idiota pode imaginar que agindo assim o povo desempregado ou subempregado vai pensar duas vezes antes de uma nova aventura para fugir do aluguel ou por qualquer outra razão de desespero.

Há um conflito muito mais profundo entre os problemas sociais de cidadãos brasileiros que vivem no sufoco e as políticas públicas emanados de governantes despreparados  e preocupados tão somente com as delícias dos cargos inebriantes.

E esse conflito absurdo ainda vai dar muitos panos para as mangas.

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