domingo, 20 de abril de 2014

Fala Capita: “Copa foi oportunidade perdida no Brasil”,

Via BBC Brasil

“Copa foi oportunidade perdida no Brasil”, diz Capitão da seleção de 1970

Renata Mendonça

 

Carlos Alberto Torres ergue taça da Copa do Mundo em evento do Soccerex / Crédito da foto: Bruno Domingos/Reuters

Carlos Alberto Torres cita obras e melhorias atrasadas e sentencia: "Brasil perdeu uma grande oportunidade"

"O mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer". Esse foi o discurso do então presidente Lula quando o Brasil foi confirmado como sede da Copa do Mundo, sete anos atrás. Mas, para Carlos Alberto Torres, o "Capita" da seleção brasileira tricampeã em 1970, o Mundial já pode ser considerado uma "oportunidade perdida" pelo Brasil.

Nomeado um dos embaixadores da Copa, Carlos Alberto não deixa de ser crítico quanto aos atrasos e adiamento nas obras para o Mundial.

"Acho que nós tivemos uma grande oportunidade de preparar uma grande Copa do Mundo, fazer grandes estádios, cuidar dos entornos, fazer mudanças na mobilidade urbana, no transporte. Mas não fizemos nada", disse, em entrevista à BBC Brasil.

"Foi perdida uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o que a gente podia fazer."

Na série de entrevistas da BBC Brasil com os campeões do mundo de todas as Copas pelo Brasil, Carlos Alberto foi o escolhido para representar o Mundial de 1970, no México. Ele falou sobre a imbatível seleção tricampeã, que teve Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino e companhia na conquista de um título histórico daquele time que é considerado por muitos "o melhor de todos os tempos".

O Capita ainda deu sua opinião sobre a seleção brasileira atual e aconselhou: "Nossa seleção é boa, mas não é imbatível. Eles têm que se preparar para estar na final, e aí quem sabe o título venha."

Leia a entrevista com Carlos Alberto Torres na íntegra:


BBC Brasil:

O que diferenciou a seleção de 1970 de todas as outras seleções brasileiras?

Carlos Alberto Torres: Acho que foi o trabalho diferenciado na preparação física. E não era o forte do jogador brasileiro, nunca tinha sido, até que, na Copa do Mundo de 1966, os europeus surpreenderam a todos com a preparação extraordinária. Então nós sabíamos que para conseguir algo na Copa de 1970, para fazer uma grande campanha e chegar na final, nós tínhamos que estar muito bem preparados fisicamente. Tecnicamente, nós éramos pródigos. Então pegamos firme no físico, houve a própria programação feita pela CBD (antiga CBF) de levar o time um mês antes de começar o Mundial para uma cidade na altitude para a gente se acostumar. Foi um trabalho muito bem feito e que deu resultado, aliado a um grupo excelente de jogadores. Não adianta preparação física se não tiver técnica. O resultado técnico de tudo o que a gente se preparou veio em todos os jogos. Cada jogo eles foram melhorando. Isso influencia muito na cabeça, a gente sabia que, estando bem fisicamente, tecnicamente a gente tem condição de dominar o adversário.

BBC Brasil: Foi o melhor time de todos os tempos? Ou a melhor seleção brasileira de todos os tempos pelo menos?

C.A.: Não gosto de fazer comparações, cada time, cada jogador tem sua época, seu momento. Aquele foi o nosso momento, uma Copa excepcional, naquela época eram apenas 16 seleções, então era a elite do futebol mundial mesmo. Hoje são 32 times, e, dos 32, você tira uns seis só que todo mundo fala que é favorito para ganhar. Naquela época, não dava nem pra chutar quem seria o campeão. Acho que o que qualificava os times campeões era isso, porque eles estavam jogando contra os melhores times do mundo. Até hoje se fala sobre a seleção de 1970. Das outras, não.

Carlos Alberto Torres comemora gol com a seleção na Copa de 1970 / Crédito da foto: Fifa.com

Capitão do Brasil no Mundial de 1970, Carlos Alberto diz que aquela seleção era "imbatível"

BBC Brasil: Qual foi o grande desafio daquela Copa de 1970?

C.A.: A Inglaterra (campeã mundial em 1966) foi a grande lição da seleção brasileira para a Copa de 1970, porque ela jogou o talento de alguns jogadores com a preparação física. E o jogo da Inglaterra na Copa de 1970 foi a chave, eles eram favoritos para a Copa também, nós sabíamos que aquele jogo contra eles na primeira fase era o nosso jogo. Dali para a frente, nosso time era ou igual ou superior aos outros. Tanto que ganhamos aquele jogo de 1 a 0, mas o resto ganhamos com convicção, sem deixar dúvidas.

BBC Brasil: Quais as principais diferenças entre aquela seleção de 1970 e a de hoje?

C.A.: Nós temos um número bem menor de grandes jogadores em atividade. Naquela época, dava pra formar quatro seleções. Hoje o Felipão está atrás do Fred porque não tem mais ninguém. Em 1966, foram 44 jogadores convocados. Realmente o Brasil tem esse problema. Em 1962, o Brasil perdeu o Pelé no auge dele, mas apareceram Garrincha, Amarildo e outros e eles foram lá e ganharam. Em comparação com hoje, os jogadores em condições de defender a camisa da seleção e dar esperança de ganhar a Copa, o número é bem menor.

BBC Brasil: Qual é a diferença do futebol brasileiro para o futebol europeu hoje?

C.A.: Acho que a grande marca que o futebol brasileiro sempre teve e terá é a característica que o jogador brasileiro tem na partida, de iniciativa, de dar drible, criar, improvisar. Mas isso hoje também já não se vê tanto. Hoje temos o Neymar, o Oscar, o Lucas, que individualmente tem a característica daquele futebol de antigamente. Essa geração agora acho que foi, em termos de número, a pior do Brasil. Porque antes, não tínhamos só Neymar, Oscar, tínhamos muito mais, 10 ou 15 jogadores nesse nível. Por causa disso nós sempre estávamos calmos com relação ao time, porque sabíamos que a condição técnica dos nossos jogadores poderia decidir qualquer partida.

Carlos Alberto Torres mostra sistema de retirada de ingressos da Fifa para Copa das Confederações / Crédito da foto: Divulgação Fifa

Carlos Alberto Torres é embaixador da Copa de 2014, mas também é crítico ao evento

BBC Brasil: Então você acha que o Brasil não vai ganhar a Copa do Mundo?

C.A.: Vamos analisar friamente, eu não analiso com a euforia do torcedor. Eu acho que a seleção brasileira, depois da Copa da África do Sul em 2010, terminou uma seleção de excelentes jogadores. Robinho, Kaká, eles terminaram ali, aquela seleção terminou ali. O treinador que viesse teria que fazer uma reformulação. O Mano Menezes veio e tentou fazer isso. Tentou e fez, porque o Felipão não descobriu nenhum jogador ali, os que estão na seleção hoje foram aproveitados desse trabalho que o Mano fez para garimpar esses jogadores. Mas só que quatro anos é pouco tempo pra formar um time, principalmente quando você tem uma geração como essa, que não é como a do Ronaldo Fenômeno, do Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Roberto Carlos... Nós não temos uma geração como aquela. Nós temos o Neymar e olhe lá. Todas as seleções de antes sempre foram repletas de jogadores excepcionais. Eu só tenho uma certeza: que essa seleção era o que a Espanha era antes, até chegar à última Copa (quando foram campeões). Uma geração que está aí, disputando a primeira Copa com 21, 22 ou 23 anos e que vai ganhar experiência extraordinária. Na próxima, eles vão estar no auge da carreira, com 26, 27, 28, já tendo disputado uma Copa. Se a gente for analisar, todas os campeões do mundo disputaram antes, não necessariamente ganhando, outros torneios importantes na Europa, com muitos jogadores que já haviam disputado uma Copa antes para só ganharem depois.

BBC Brasil: Qual é o grande desafio da seleção brasileira na Copa de 2014?

C.A.: A seleção brasileira foi tomada por uma euforia enorme depois da Copa das Confederações, com aquela coisa de todo mundo cantando o hino. Mas hino não ganha jogo, isso não ganha jogo. Eles estão achando que vão lotar o estádio, mas não vão, a não ser talvez no jogo de abertura. Porque vai ter outra torcida também, então não vem com essa coisa de que a torcida empurra. O hino não ganha jogo, tem que ter pé no chão, e aí é se preparar para chegar na final. Porque não é só o Brasil que está se preparando. Nossa seleção é boa, mas não é imbatível. Pode até ganhar, a Copa é um torneio muito curto. Tem que se preparar para estar na final. Chegando lá, jogando no Brasil, aí a torcida pode fazer a diferença.

BBC Brasil: E como lidar com a pressão de jogar em casa?

C.A: Por isso que eu falo, existem essas pressões, pressão da torcida, pressão da derrota em casa para o Uruguai na Copa de 1950, falando que não pode acontecer a mesma coisa. Copa do Mundo é assim, está todo mundo focado em 11 jogadores e só, eles não dividem essa pressão com mais ninguém. Ela é direcionada em cima daqueles caras ali. Essa Copa vai ser muito difícil, porque vai ser a segunda vez que jogamos em casa e nós perdemos a primeira vez. Isso foi há 64 anos, mas, ainda hoje, as pessoas falam daquele jogo. Psicologicamente, essa é a pior coisa que poderia acontecer para os jovens jogadores. Em 1970, nós tínhamos um time muito experiente e, antes do jogo, os torcedores brasileiros foram ao nosso hotel e começaram a pedir: "por favor, não podemos deixar os uruguaios nos vencerem." Eu era muito jovem, não lembrava daquele jogo, mas as pessoas falam. E não é bom para o jogador ouvir "vocês têm que vencer", é uma coisa que tínhamos que tentar evitar. Mas vai ser muito difícil evitar, os brasileiros já dizem "não podemos perder de novo".

Valcke observa Arena Corinthians em visita / Crédito da foto: AFP

Brasil ainda precisa entregar dois estádios, incluindo o da abertura, e fazer ajustes em outros

BBC Brasil: Quem vai se sair melhor nessa Copa: o Brasil enquanto seleção de futebol ou o Brasil enquanto organização da Copa do Mundo?

C.A.: Eu confio mais na seleção. Acho que nós tivemos uma grande oportunidade de preparar uma grande Copa do Mundo, fazer grandes estádios, cuidar dos entornos, fazer mudanças na mobilidade urbana, no transporte. Mas não fizemos nada. Foi perdida uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o que a gente podia fazer. Perdemos a oportunidade de mostrar que nós somos um país de primeiro mundo, organizado, que funciona.

Quem são os favoritos para ganhar essa Copa?

C.A.: Favoritos são os mesmos de sempre. Nunca aconteceu de alguém que não chegasse como um dos favoritos ganhar a Copa. A Espanha era favorita em 2010, a Itália era favorita em 2006, o Brasil era favorito em 2002. É sempre um daqueles. Para mim, agora deve ser ou Alemanha, Brasil, Argentina ou Espanha.

BBC Brasil:Em 1970, o Brasil vivia um regime militar e o povo estava muito insatisfeito. A conquista da Copa foi usada pelo governo para amenizar a situação. Em 2014, também há um clima de insatisfação popular. Você acha que a situação de 1970 pode se repetir se o Brasil ganhar a Copa?

C.A.: O futebol é o analgésico do povo brasileiro, é uma válvula de escape, é uma religião no Brasil. Em 1970, nós sabíamos que vivíamos em um regime militar, que não era o que todo mundo queria, mas nós não tínhamos nada a ver com isso. Nós fomos lá e fizemos o nosso papel. Nós éramos jogadores de futebol chamados para representar o país em uma Copa e fomos lá fazer o nosso trabalho. E fizemos da melhor maneira, tanto que até hoje se fala daquele time. Nunca nenhum governo ajudou nenhum campeão do mundo. Mas a gente sabe que, no momento de uma euforia de uma vitória, isso alivia em parte os problemas que a gente tem no dia a dia. Não vai terminar os problemas. Como não acabou naquela época, mas ajuda a aliviar.

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