domingo, 30 de junho de 2013

Dilma em seu labirinto

Sanguessugado do Cinema & Outras Artes

Maurício Caleiro

 

Tenho uma profunda admiração pelo ser humano Dilma Rousseff, alguém que, em plena juventude e correndo alto risco, lançou-se à luta contra um regime ditatorial que usurpou ilegalmente o poder; uma mulher que, capturada, suportou as piores sevícias, sendo física e psicologicamente torturada e, sem ter delatado companheiros de luta, encarou altivamente seus carrascos no simulacro de julgamento a que teve direito.

Embora intimamente discordasse do modo como foi escolhida como candidata – com o dedazo substituindo a saudável disputa intrapartidária – votei em Dilma Rousseff nos dois turnos e com convicção, pois a continuidade – e o aprofundamento das conquistas - da presidência Lula afiguravam-se, para mim, no contexto daquela eleição, como o único caminho então possível para a melhoria do país.

Ética e simbolismos

A importância histórica de termos, pela primeira vez em nossa história, uma mulher – e uma ex-guerrilheira - no mais alto cargo do país colaborava para a impressão de que tal voto significaria um avanço para a democracia brasileira e um bom presságio para o tratamento das questões de gênero no país.

Não tenho dúvidas de que a presidente Dilma Rousseff é uma mandatária bem-intencionada, honesta e dedicada, que quer o melhor para o país e para o povo e se empenha muito para isso.

No entanto, infelizmente, tais histórico e retidão pessoal têm se mostrado insuficientes para assegurar um bom desempenho à frente da Presidência do país – e há razões concretas e objetivas que ajudam a entender o porquê dessa lacuna, as quais, como veremos ao longo deste artigo, vão desde fatores externos, relativos à economia mundial, passam por questões de personalidade e estilo administrativo e culminam com opções econômicas e políticas questionáveis.

Estas, além de terem sacrificado no altar das coligações religiosas os esperados avanços no tratamento das questões de gênero, não raro foram ditadas, olhos nas eleições, pela ambição em ampliar a hegemonia político-partidária, associando-se a figuras públicas que protagonizam tanto as páginas de política quanto o noticiário criminal e com forças partidárias cuja identificação programáticas com o PT é nenhuma. E isso mesmo depois de Dilma ter assumido com uma base aliada bem maior que a de Lula em seus dois mandatos.

Os danos à ética e os efeitos danosos em termos de desideologização da política que tal pragmatismo gera foram amplamente negligenciados à época, mas agora, nas ruas - e futuramente, nas urnas - cobram o seu preço.

Alertas em vão

Quem acompanha há tempos este blog não se espanta com a queda brutal dos índices de aprovação de Dilma (de 57% em março para 30% em final de junho, segundo o Datafolha). Pelo contrário: nos últimos dois anos e meio boa parte dos textos aqui publicados se dedicou a examinar criticamente o seu governo, a desvendar porque, ao invés de aprofundar conquistas seminais do governo Lula, a atual administração preferiu dar uma guinada conservadora que, exatamente como diversas vezes prevemos, a leva agora a perder parte do eleitorado à esquerda - que se sentiu traído - e ver o recém-adquirido eleitorado conservador bater asas aos primeiros indícios de crise econômica. Se algo surpreende, é que tal queda tenha demorado tanto para ocorrer - e que ocorra de forma tão brusca.

Não é com satisfação ou orgulho que vejo tais previsões se confirmarem – pelo contrário: é com profundo pesar, pela certeza de que o governo Dilma Rousseff desperdiçou uma chance histórica única de aprofundar conquistas da esquerda e lançar pás de cal ao neoliberalismo. Preferiu, ao invés disso, apostar num modelo arcaico de desenvolvimentismo a qualquer custo, que restabeleceu o primado do economicismo sobre as políticas sociais e, cometendo o estelionato eleitoral de ressuscitar as privatizações que na campanha eleitoral combatera, embaçou a distinção com a agenda da direita e abriu flancos que o conservadorismo certamente explorará nas próximas eleições.

O contexto econômico internacional

O cenário internacional exerce, sem dúvida, um importante papel nesse retrocesso, pois a queda do preço internacional das matérias-primas tem afetado incisivamente o Brasil, que mantém um modelo exportador arcaico, baseado no agronegócio e em commodities: estima-se que, com tal baratamento, o país tenha perdido algo em torno de U$20 bilhões entre 2011 e 2013. Há ainda os fatores decorrentes da prolongação da crise na Europa, que diminuiu drasticamente investimentos no país, e, neste momento, da sinalização mais clara de recuperação da economia dos EUA, que tende a atrair parte considerável do montante financeiro internacional antes passível de ser investido no Brasil.

Por outro lado, há de se levar em conta que o momento mais agudo da crise mundial como tal foi vivenciado ao final do segundo mandato de Lula, e que o país reagira de forma consideravelmente bem ao choque – faltou, portanto, habilidade para lidar com suas decorrências. Mais importante, os demais BRICs e países situados fora da Europa – aí incluídos vários de nossos vizinhos latino-americanos, e, mais recentemente, alguns dos "tigres asiáticos" -, sob as mesmas condições internacionais vivenciadas pelo governo Dilma, vêm apresentando um desempenho econômico incomparavelmente melhor do que o Brasil, como a comparação entre os PIBs nacionais deixa claro.

O peso da personalidade

Além de sua relação com as decisões econômicas nacionais, com as alianças partidárias e com a economia mundial, um terceiro fator a ser considerado ante a crise do governo Dilma decorre de sua personalidade e seu estilo de administrar como presidente. Por algum tempo rejeitei esse tipo de crítica - e cheguei a escrever sobre isso no Observatório da Imprensa - , por interpretá-la como uma manifestação do entranhado machismo brasileiro, para o qual a mulher "dócil" e "feminina" careceria de autoridade para exercer o poder e a mulher "assertiva" e "determinada" – como Dilma - incorreria em autoritarismo. O tempo provaria que, em se tratando da atual presidente, não era esse o caso: mesmo analistas políticos os mais afinados com o governo são unânimes em apontar o excesso de autoritarismo no trato e a concentração excessiva de poder decisório – esta como método obsessivo de repressão à corrupção - como duas das características negativas principais da atual mandatária.

Trata-se de dois defeitos deletérios a uma boa gestão, que desestimulam a criatividade, a iniciativa, e coíbem a autonomia, restringindo drasticamente o raio de ação de cada ministro, fenômeno nítido na atual administração. Dilma é uma mulher muito inteligente, mas a recusa em delegar tarefas decisórias a especialistas muito mais capazes do que ela ajuda a compreender a impressão de marasmo e atrofia que se depreende de sua administração. Não acredita? Faça uma comparação caso a caso do desempenho dos ministros da era Lula com os da era Dilma. Sugiro começar contrapondo o ministério da Educação sob Haddad e sob Mercadante.

Estratégias diversionistas

Para piorar o quadro acima esboçado, setores e simpatizantes petistas que poderiam lutar internamente pela reversão de tais políticas preferiram adotar um comportamento de seita, saudando bovinamente o neoconservadorismo e toda e qualquer medida governamental e abrindo mão da necessária reflexão crítica - em prol, por um lado, de um "oba-oba, salve o rei" baseado em índices de aprovação e em projeções sobre as eleições de 2014, as quais eles consideravam favas contadas; por outro lado, pelo hábito entranhado de, ante a mínima crítica - ou mesmo apresentação de dado desfavorável ao governo -, desqualificar seu autor  e a fonte. Ficar se lamentando contra o "PIG" o STF ou Gurgel, como fizeram até agora durante todo o mandato de Lula e Dilma, pode ser uma experiência catártica redentora, mas em termos de ação politica é inócua. Equivale a perder tempo em lamentações enquanto os adversários se armam. Assim, o efeito final de tal comportamento dual foi tornar, a muitos, invisível a crise que ora explode.

O mesmo comportamento de avestruz ocorre, agora, ante as manifestações que têm lugar em todo o país. Não é por outro motivo que os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, depois de inicialmente atacarem o movimento nos mesmíssimos termos utilizados por Arnaldo Jabor e de, ante a proliferação de protestos, recuarem estrategicamente para uma posição de empatia forçada e paternalismo, nas últimas semanas voltaram a procurar desqualificá-lo de todas as formas, temerosos de que o vácuo de autoridade e o caráter raivosamente antipartidário das manifestações as transformassem em um fator de desprestígio de Dilma Rousseff, como de fato ocorreu.

As manifestações, porém, são um fato: trazem um dado novo à política nacional, bagunçam o coro dos contentes e fazem as por si questionáveis previsões para 2014 tornarem-se ainda mais incertas. Mais importante: demonstram cabalmente, para quem não se recusa a ver, que há uma insatisfação difusa mas generalizada no país, a qual a fórmula conciliadora e assitencialista petista não foi capaz sequer de detectar, o que dizer de reverter minimamente. E que, para uma geração que nem tinha nascido quando o governo FHC começou (e tinha 7 ou 8 anos quando ele entregou o governo a Lula) não causa espécie ficar mostrando dados comparativos do desempenho econômico de FHC e de Lula (mesmo porque estamos no governo Dilma, cujo desempenho é não só bem pior mas muito mais conservador do que o de seu antecessor petista)

Volta às ruas?

Agora o PT promete sair as ruas, coisa que não fez nos últimos dez anos, nem mesmo quando as denúncias do "mensalão" bombardeavam o presidente Lula noite e dia, ou quando o julgamento tornou-se um reality-show com juízes aparentemente acuados ante a mídia, e nem mesmo sequer quando o tribunal, ante a escassez de evidências, inverteu o ônus da prova e recorreu a uma teoria pra lá de questionável como forma de condenar os réus.

E por que o PT assim agiu? Porque, marqueteiros a postos e pesquisas de opinião à mão, não se podia criar nenhuma marola que perturbasse os índices de aprovação de Dilma. Pois estes agora estão gravemente perturbados e em um cenário de ruas ocupadas. E agora? Persistirá a tática de culpar o PIG, o Joaquim Barbosa e o Facebook pela derrocada da candidata petista ou haverá gana, espaço e disposição para enfrentar os problemas e reverter o conservadorismo gritante e suas deletérias consequências, que ora se apresentam?

Pepe Escobar: “Agora, somos todos qataris”

Sanguessugado do redecastorphoto

Pepe Escobar, Asia Times Online - The Roving Eye

We are all Qataris now

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A imprensa-empresa está curvada em reverência ante o Emir do Qatar, Hamad bin Khalifa al-Thani, 61, que magnanimamente escolheu se autodepor,  em favor de seu filho, ex-príncipe coroado Tamim bin Hamad al-Thani, 33.

Em discurso de talhe positivamente kennedyesco pela televisão nacional, o emir que parte disse que “é chegado o tempo de virar uma nova página”, para que “uma nova geração avance para assumir a responsabilidade”.

Desnecessário dizer que não ocorre a esses equivalentes ocidentais de velhos líderes tribais de toga branca que se reuniram para jurar fidelidade e beijar a mão do novo patrão, que tanto se curvar ante esse estilo Golfo Persa de “passar o bastão” de emir não eleito para emir não eleito é o mesmo que beijar o bastão que Hafez Assad passou ao filho Bashar al-Assad.

Tamim bin Hamad al-Thani (E)  e Hamad bin Khalifa al-Thani (D)

Por falar nisso, a gangue de oportunistas pagos por Doha, conhecido como Conselho Nacional Sírio uniu-se devidamente à torcida uniformizada, declarando que a passada de bastão foi “pioneira e sem precedentes”. E continuem a comprar e despachar para cá armamento prá lá de pesado, por favor, além daqueles outros representantes dos Amigos da Destruição da Síria.

Na fase atual da globalização Mad Max do pós-capitalismo, “Relações Públicas” é tudo, e a Casa de Thani é campeã em “Relações Públicas”, sempre devidamente distribuídas em inglês. Escondido debaixo do tapete (persa) está o fato de que o Qatar é petromonarquia wahhabista que nada tem de “moderada”, governada como colônia feudal reluzente, onde só 200 mil são qataris, na população de 1,9 milhões de almas.

Esqueçam os trabalhadores braçais da Somália ao Paquistão e do Nepal a Bangladesh que já têm cidadania qatari, além do direito de não poderem deixar o emprego sem uma “autorização de saída” emitida pelo empregador. Esqueçam qualquer coisa assemelhada a benefícios de seguridade social. Aqui, o meu preito de gratidão: todos os acima citados são meus informantes sobre a vida real, cada vez que visito Doha. E ainda nem falei da Anistia Internacional que denuncia tudo aquilo como estado policial – sobretudo contra estrangeiros – que pune o consumo de bebidas alcoólicas e “relações sexuais ilícitas”.

O que pega é que o novo emir – rapaz que fala inglês impecável e já tem duas esposas “consumadas” – está sendo apresentado como “um pragmático”. E, claro, é “dos nossos”, porque foi educado na Academia Militar Sandhurst na Grã-Bretanha (num daqueles falsos cursos de formação que se oferecem lá, para árabes ricos).

O “pragmático” será julgado por uma “potência ocidental” real e várias menores, agora que se apresenta ao Ocidente. Abrir caminho para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, bombardeie a Líbia até convertê-la em estado falido: bom. Armar “rebeldes sírios”: muito bom. Rios de dinheiro e apoio para a Fraternidade Muçulmana por todos os lados: perigoso. Apoiar o Hamás em Gaza: fora de cogitação. Escritório de representação para os Talibã afegãos em Doha: arriscado, sobretudo se os Talibã usarem o escritório para expandir sua rede de doadores ali no Golfo.

Base aérea de Al-Udeid (Qatar)
Clique na imagem para aumentar

Resgatar alguns dos maiores bancos do ocidente: excelente. Vender comboios de petroleiros cheios de gás natural liquefeito: esplêndido. Hospedar o Centcom na base aérea de al-Udeid: imperativo estratégico. Pôr-se na primeira linha contra “a ameaça nuclear iraniana”: um must. Hospedar a Copa do Mundo de 2022, sob calor desumano: meta ar condicionado em todas aquelas “arenas”.

Construir o Shard em Londres (o mais alto arranha-céu da Europa) e comprar a Harrods, Valentino, 26% da Sainsbury, 12,8% da Tiffany, 20% do empresa proprietária do aeroporto de Heathrow, ações da Barclays e a Bolsa de Londres, o clube Paris Saint-Germain de futebol, acres de terra urbana de primeira em Londres e Paris: não nos importa.

Em resumo: britânicos e franceses, particularmente, continuarão abraçados ao novo emir, porque, afinal de contas, o Qatar, inquestionavelmente, é grana só.

Mamãe é que sabe

Sheikha Moza

E há mamãe – Sheikha Moza, maior que a vida, devidamente louvada pelo ocidente como “defensora de direitos das mulheres”, pelo menos do direito de comprar até cair, como presidenta não só da Fundação Qatar – empenhada na “emancipação e educação da mulher árabe” – mas também do fundo de investimentos Qatar Luxury Group. É o tal de poder por trás do trono.

Sheikh Tamim, herdeiro presuntivo há mais de uma década, manifesta fascinante contradição. É visto em Doha como o principal piloto para posicionar o Qatar como portal global. Ao mesmo tempo, é o engenheiro da estratégia da política externa oficial do Qatar – de alinhar-se, seja onde for, com a Fraternidade Muçulmana. Não surpreende que seja simplesmente detestado pela Casa de Saud. Observadores devem comprar bilhetes para a fila do gargarejo para assistir ao arranca-rabo entre o novo emir e a Casa de Saud comandada pelo caquético, semianalfabeto, 88 anos, rei Abdullah. Assento privilegiado é na Síria – onde as facções lutarão com armas cada vez mais letais.

Hamad bin Jassim

Outro subenredo a ser saboreado é o futuro do primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, o anglófilo Sheikh Hamad bin Jassim, também conhecido como HBJ. Esse é alta roda, alta mesmo.

Todos em Doha saben que HBJ está de mudança para Londres, para viver numa penthouse Mil e Uma Noites (estilo Vegas) em One Hyde Park, o prédio residencial mais caro do planeta. HBJ está administrando o multibilionário fundo soberano do Qatar, o Qatar Investment Authority (QIA). De fato, nunca deixou o posto: sempre foi o principal executivo do QIA, o qual, até essa semana era presidido por Tamim. O QIA não distribui informação financeira. E os critérios “diversificados” de investimentos – que abrangem Europa, Ásia e os mercados emergentes – não são transparentes.

Quem liga? E quem liga que seja feudo absoluto da família al-Thani desde meados do século 19? Todos querem ir para o Qatar. Em seis anos, a população dobrou – hoje são 1,9 milhão, e aumentando. A expectativa de vida é de 78 anos – equivalente à dos EUA. Tem o maior PIB per capita do mundo, de mais de US$102 mil (número de 2012, e aumentando); bom para você, se você não for asiático do sul ou sudeste da Ásia, vivendo de trabalho escravo. Imposto sobre a Renda não existe. À prova de Primavera Árabe. À prova, até, de protestos à moda Turquia e Brasil. Democracia? Nada. É o fim da história 2.0. Ah, se todo o planeta fosse um imenso Qatar!

Documentário retrata territórios palestinos como laboratório para indústria bélica de Israel

Via Opera Mundi

"The Lab", do diretor Yotam Feldman, mostra como guerras ajudam no aumento das vendas de armamentos do país

O documentário The Lab (O Laboratório, em tradução livre), do diretor israelense Yotam Feldman, expõe a alta lucratividade dos "testes" realizados pelo Exército de Israel nos territórios palestinos, para a indústria militar do país.

De acordo com o filme, realizado com o apoio do canal 8 da TV israelense, a cada operação militar, novas armas são testadas, gerando um aumento direto das vendas no mercado internacional.

Guila Flint/Opera Mundi

O diretor do documentário vê as guerras como uma fonte de lucro, e não como um peso para Israel

Feldman, de 32 anos, trabalhou três anos e meio para produzir o filme, de 58 minutos, no qual entrevista figuras-chave da indústria bélica israelense.

Alguns dos personagens são militares da reserva e outros são exportadores e empresários. Todos falam abertamente sobre seu ramo de trabalho e expõem visões de mundo diversas.

"Quis fazer um filme sobre esse assunto, que é duro, mas sem cair nos clichês", disse Feldman aOpera Mundi. "Escolhi os personagens que me pareceram mais sinceros e que foram capazes de falar com mais desenvoltura sobre seus negócios.”

Segundo o diretor, durante a pesquisa para fazer o filme, ele se convenceu de que "a prosperidade da economia israelense não ocorre apesar das guerras, mas sim, em grande parte, em decorrência das guerras".

"Na minha pesquisa descobri que, do ponto de vista econômico, as guerras não são uma carga, mas uma fonte de lucro.”

Divulgação

Feldman explica que não há necessariamente uma relação de causalidade entre a motivação para as guerras e os lucros econômicos, ou seja, ele não afirma que Israel inicia guerras supostamente para obter benefícios financeiros.

"Apenas constato que, após cada guerra, na qual são testadas novas armas, as vendas dessas armas aumentam e os lucros são muito grandes", disse.

"Hipocrisia"

Um dos personagens principais do documentário, o general Yoav Galant, aponta o que chama de "hipocrisia" da comunidade internacional.

"Eles denunciam as operações militares de Israel, mas depois todos vêm aqui comprar nossas armas", afirma Galant, que foi chefe do Comando Sul do Exército de Israel e um dos principais planejadores da chamada Operação Chumbo Fundido, que deixou cerca de 1.400 palestinos mortos na Faixa de Gaza e 13 mortos do lado israelense.

Depois dessa ofensiva, que começou em dezembro de 2008 e terminou em janeiro de 2009, as exportações de armas israelenses para dezenas de países aumentaram em 2 bilhões de dólares.

Hoje em dia as vendas do setor bélico são calculadas em 7 bilhões de dólares, o que representa cerca de 20% do total das exportações israelenses.

De acordo com Ehud Barak, que foi ministro da Defesa de 2007 a 2013, cerca de 150.000 famílias em Israel (quase 1 milhão dos 8 milhões de habitantes) se sustentam da indústria militar.

"De certa forma, toda a sociedade israelense sai ganhando com a exportação militar, que, por sua vez, ganha credibilidade com os 'testes' realizados nas guerras", afirma Feldman, que também menciona o fato de muitos dos fundos de pensão no país investirem nas ações sólidas de empresas militares.

Em um dos trechos do filme, o ex-ministro da Defesa Binyamin Ben Eliezer afirma que outros países "gostam de comprar armas que já foram testadas, nossa experiência traz bilhões de dólares para Israel".

"Se algum dia tivermos paz e perdermos o 'laboratório' em Gaza e na Cisjordânia, com certeza esses lucros vão se reduzir significativamente", disse Feldman.

Segundo a revista britânica especializada em assuntos militares, a Jane's IHS, Israel é o sexto exportador de armas do mundo e, desde 2008, o volume de negócios do país nesse setor aumentou em 74%.

Filosofia militar

Outro personagem do documentário é o filósofo militar Shimon Naveh. Naveh colabora no planejamento estratégico "filosófico" do Exército de Israel e foi um dos autores do que chamou de tática "fractal" na ocupação da Kasbah (centro histórico) da cidade palestina de Nablus, na Cisjordânia, em 2002.

Em abril daquele ano, depois de uma onda de atentados suicidas nas grandes cidades israelenses, o governo, então chefiado pelo ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, resolveu reocupar todas as cidades palestinas que haviam sido entregues à Autoridade Palestina, comandada por Yasser Arafat.

O plano "fractal" do filósofo Naveh consistiu em ocupar o centro antigo de Nablus, com suas ruelas estreitas, por intermédio da invasão das casas palestinas, sendo que a passagem de uma casa a outra foi feita através de buracos detonados por explosivos nas paredes.

Segundo Naveh, com essa tática o Exército israelense conseguiu surpreender e derrotar os combatentes palestinos que haviam se preparado para uma invasão pelas ruas.

"Viramos o jogo", disse Naveh, "deixamos as ruas vazias e entramos pelas paredes".

De acordo com Naveh, esse e muitos outros métodos são ensinadas por treinadores israelenses a oficiais de muitos exércitos do mundo que vêm aprender em Israel.

Treinamento israelense para o BOPE

Um dos maiores importadores da indústria militar israelense é o Brasil. De acordo com Feldman, o Brasil compra aviões não tripulados, mísseis e programas de treinamentos especializados de empresas israelenses, tanto privadas como estatais.

Um dos principais exportadores para o Brasil é o israelense-argentino Leo Gleser, que esteve envolvido no treinamento do BOPE antes da pacificação das favelas do Rio de Janeiro.

Divulgação

Gleser diz que tenta transformar a venda de armamentos em "um pacote menor e menos fedorento"

"A semelhança física entre as Kasbas (centros históricos) das cidades palestinas e as favelas brasileiras é muito grande", disse Feldman. “Os campos de refugiados palestinos, com suas ruelas estreitas, também são muito parecidos com as favelas".

"Portanto, a experiência de Israel nos territórios palestinos é relevante para o BOPE".

Parte do filme se passa no Complexo do Alemão, onde Leo Gleser é visto sendo calorosamente recebido por oficiais brasileiros que confirmam ter sido treinados por empresas israelenses.

Em uma das cenas, o exportador toma uma caipirinha com Feldman em um bar no Rio de Janeiro.  O diretor lhe pergunta se ele não sente alguma contradição entre seu duro ramo de negócios, "que mata muita gente", e seu caráter simpático, "como pai e avô carinhoso".

Gleser retruca com perguntas: "Você acha que a vida é uma caixa de bombons? Quando você era pequeno sua mãe não limpava seu cocô?".

"Eu não crio a merda, apenas trabalho para transformá-la em um pacote menor e menos fedorento", acrescentou.

Ironia

O documentário também tem uma dose sutil, porém significativa, de ironia. Em uma das cenas, um dos empresários se vangloria de que cada míssil que vende no mercado internacional "vale um apartamento em Tel Aviv" (os preços dos imóveis na cidade estão entre os mais altos do mundo).

Nesse momento, Feldman responde: "mas cada míssil desses também pode destruir um apartamento em Tel Aviv".

"Acho que a ironia, que faz parte de mim, de certa forma facilita olhar para essa realidade, cujos conteúdos são duros", disse Feldman.

De acordo com o diretor, todos os personagens do filme já tiveram a oportunidade de ver o resultado final e "nenhum deles se arrependeu de ter participado".

"Os personagens que entrevistei concordaram em abrir seu mundo perante a câmera, dando ao público uma oportunidade inédita de conhecer de perto uma realidade que geralmente fica apenas nos bastidores", concluiu.

Assaz Atroz: Vacas de presépio comem no Kotscho

Sanguessugado do Assaz Atroz

Fernando Soares Campos

Só um em cada 3 brasileiros aprova governo Dilma

Quem poderia prever isso?

Ao bater o recorde de aprovação do seu governo, surfando com 65% de ótimo e bom em março, na pesquisa Datafolha, Dilma Rousseff parecia caminhar para uma tranquila reeleição no próximo ano, vencendo já no primeiro turno, segundo a quase unanimidade dos analistas políticos. Sem opositores fortes à vista, seria um passeio.

Há apenas três semanas, quando começaram os primeiros protestos nas ruas contra o aumento das passagens de ônibus, a aprovação do governo caiu para 57%, ainda um patamar alto para quem estava completando dois anos e meio de mandato tendo que enfrentar uma séria crise econômica, mas já se colocava em dúvida se haveria ou não um segundo turno.

Agora, com a divulgação de novo Datafolha neste sábado de final de junho, mostrando uma violenta queda de 27 pontos na aprovação do governo, Dilma cai a menos da metade do que tinha em março: apenas 30% de ótimo e bom, o mais baixo índice desde a sua posse.

Em outras palavras, Dilma tem agora o apoio de apenas um em cada três brasileiros. Além disso, as expectativas da população em relação ao futuro são todas pessimistas, segundo os números da mesma pesquisa, indicando que os índices de aprovação do governo podem cair ainda mais. Apenas 27% dos 4.717 eleitores ouvidos em 196 municípios avaliam como positiva a gestão econômica do governo.

Quedas tão grandes na avaliação de governos só foram registradas anteriormente em duas ocasiões: em 1990, quando Fernando Collor caiu de 71 para 36%, e em 2005, com Lula despencou para 28% de aprovação.

Nos dois casos, porém, havia fortes razões para justificar as mudanças abruptas: no caso de Collor, foi o confisco das cadernetas de poupança e, no de Lula, o escândalo do mensalão.

O que mais me intriga, desta vez, é que não há uma única causa grave que explique tanto a multiplicação dos protestos, agora diários espalhados por todo o país, quanto esta virada radical nas pesquisas, jogando o governo Dilma no fundo do poço, a 18 meses do final do seu mandato.

As dificuldades que o governo enfrenta na política e na economia desde o início do ano não se agravaram dramaticamente de uma hora para outra, assim como não tivemos um tsunami de deterioração dos serviços públicos ou de novos casos de corrupção envolvendo diretamente o governo.

Antes do início das manifestações, porém, eu já vinha notando um clima de mal estar e de mau humor em diferentes áreas sociais aqui em São Paulo. Cheguei a comentar isso com um importante ministro de Dilma, achando que a presidente estava muito isolada e precisando conversar mais com a chamada sociedade civil, para saber o que estava se passando no país fora dos gabinetes e da propaganda triunfalista do governo na televisão.

Dilma confiou demais nas pesquisas, nos comerciais e nos pronunciamentos produzidos por seu marqueteiro João Santana, sem dar a devida atenção para o que acontecia no mundo político do outro lado do Palácio do Planalto, no meio empresarial e na vida real dos trabalhadores e estudantes.

A comunicação do governo limitava-se à propaganda paga no rádio e na televisão. Enquanto os números mostravam índices favoráveis para a presidente, tudo bem, o marqueteiro tinha razão. Só que o governo não percebeu que os outros canais de comunicação com a sociedade estavam todos entupidos, sem funcionar em duas vias. O governo só falava, não ouvia. Quando o copo da insatisfação transbordou, o que movia as pessoas a sair às ruas não era um motivo só, mas o que minha mulher chama de "o conjunto da obra", a tal desatenção que pode ser a gota d´água, como na música do Chico.

Mais preocupada em montar uma cada vez maior base aliada para disputar a reeleição, me parece que Dilma perdeu o timing das mudanças necessárias em seu ministério, que é muito fraco, na virada do ano, quando se limitou a trocar seis por meia dúzia, trazendo de volta partidos varridos na faxina do primeiro ano de governo.

De uma hora para outra, depois de tentar retomar o controle da iniciativa política com a proposta do plebiscito, Dilma abriu as portas do Planalto para ouvir todo mundo de uma vez, na semana passada, e já marcou novas reuniões para a próxima. Temo que seja tarde demais. E, ainda por cima, no atropelo para virar o jogo, Dilma acabou magoando seus dois principais aliados, o ex-presidente Lula e o vice Michel Temer, ao mandar um emissário consultar Fernando Henrique Cardoso sobre a sua proposta de reforma política, antes de apresenta-la aos líderes dos partidos que ainda a apoiam no Congresso Nacional.

Pois, após esta pesquisa, o grande perigo imediato é a tal base aliada ficar ainda menos fiel e iniciar uma debandada em busca de outra expectativa de poder.

Que fase...

Balaio do Kotscho

____________________________________________________________________

Facebookadas

Gilson Sampaio

Alguma coisa está fora de ordem.

Ricardo Kotscho diz que Dilma foi se aconselhar com FHC sobre Reforma Política e a reação é zero zero bolinha ó?

     

Flavia Leitão e Nilva de Souza curtiram isso.

1 compartilhamento

Rita Machado Como?!

Paulo Roberto Cequinel Ricardo Kotscho, porra, não é um dos pistoleiros do PIG. Não diria isso sem ter certeza, sem ter conferido tudo.

Nilva de Souza O Kotscho é cheio de ser amiguinho do Serra e do Lula, faz análises políticas absollutamente furadas, sempre que pode desqualifica o PT. Jamais se filiou a nenhum partido e diz ter orgulho de se dar bem com patrões e nunca foi demitido. Nas eleições ela dá pitaco e depois some pra fazendinha dele e nem vota. É um tucano enrustido.

Eugênio Issamu É José, esta vida é um barato, agora, o gato e o rato estão comendo no mesmo prato.

O gato dá queijo pro rato e o rato dá peixe pro gato. Antigamente, o gato com o rato não se dava, onde estava o gato o rato nunca ficava. Hoje os dois vivem juntos, afanam de parceria, a dupla está formada, um rouba e o outro vigia. É por isto que a nossa despensa anda vazia.

Sempre tivemos ratos pra fazer a gente de gato e sapato. Roiam, roubavam, fugiam.

Com medo do pulo do gato, não entravam no balaio, se escondiam num buraco. Mas, agora, balaio de gato, é balaio de gato e rato.

https://www.youtube.com/watch?v=JvaE5QjPa18

Martinho da Vila - balaio de rato e gato.

Conheça a nossa rádiowww.sambadosgemeos.com só samba e pagode das dec. de 80 e 90 só pra quem gosta 24 horas de samba.

Fernando Soares Campos Alguma acontece nos corações Kotschos e Beija-mins Cesarianos, entre outros. Abraços...

Fernando Soares Campos Quem são... Confira...http://oquintocavaleiro.blogspot.com.br/

O Quinto Cavaleiro do Apocalipse

oquintocavaleiro.blogspot.com.br

____________________________________________________________________________________

____________________________________________________________________________________

Ler vale as penas...

Gafanhoto Maroto

Um amigo me enviou um artigo assinado por César Benjamin (PSTU), candidato a vice-presidente na chapa da senadora Heloísa Helena (PSOL), editor e autor de “A opção brasileira” (Contraponto, 1998, nona edição) e “Bom combate” (Contraponto, 2004). O texto trata de um encontro que Benjamin teve com o presidente Lula, em 1989, naquele momento derrotado nas urnas por Collor de Mello.

O ex-petista César Benjamin nos conta:

“...fui para a porta da Rede Globo de Televisão, no Rio de Janeiro, protestar contra a edição do último debate entre Lula e Collor, a exibição de seqüestradores do empresário Abílio Diniz com camisetas do PT e a manipulação de uma mulher pobre e ressentida, que havia recebido dinheiro para macular a vida pessoal do nosso candidato. Viajei em seguida a São Paulo, onde encontrei Lula. Tivemos um diálogo curto, que nunca esqueci. Lula me disse: ‘Cesinha, sabe quem me ligou nesses dias? O Alberico, da Globo. Jantei com eles anteontem. Derrubamos quatro litros de uísque. Eu pedi que não se preocupassem, que estava tudo bem entre nós. Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?’"

Muitos de nós apontamos o pecado capital de Brizola: quebra de braço inútil com a Rede Globo de Televisão.

Já disse um guru ao seu discípulo: “Gafanhoto, nunca esqueça: a diferença entre uma pessoa inteligente e um sábio é que o primeiro aprende com os próprios erros”. No entanto só o tempo vai nos revelar quando acertamos ou erramos nos nossos relacionamentos interpessoais.

Os eleitores, cansados de viver a derrota política do PT, muitas vezes apontaram como um dos erros mais grave do PT a insistente determinação de não firmar acordos políticos com outras correntes ideológicas. Numa conversa que tive com certo político de “centro”, em Recife, no final dos anos 80, ouvi o camarada chamar de “purismo inútil” a atitude petista de não querer formar alianças “um pouco menos à esquerda”. Todos afirmavam num tom de cobrança: para se chegar ao poder, é necessário alianças, mesmo com a direita (claro que isso não queria dizer com “corruptos”, seria apenas no sentido ideológico). O PT sempre foi pressionado a isso: não cometer a “infantilidade” de Brizola, chamando a Rede Globo para o ringue; nem se isolar no “purismo dos ingênuos”, evitando alianças com partidos de centro.

Finalmente ficou comprovado que, no nosso sistema de castas, só se pode chegar ao poder através de alianças politicamente bem trabalhadas. Aliás, sem isso, nem mesmo o processo revolucionário cubano através das armas teria tido êxito. Não acredito que, em nenhum processo democrático, possa existir governabilidade sem os acordos e alianças políticas. Somente nas ferrenhas ditaduras é que se governa unilateralmente.

Foi o próprio Lula, quando era deputado federal, quem disse que o Congresso Nacional está “assim de picareta”, uns 300, na sua avaliação da época. A verdade é que 300 ou 3, sejam quantos forem, sempre haverá picareta nas casas legislativas de qualquer democracia. Quem os colocou lá? Nós, os eleitores, claro. Se o fizemos iludidos pelos seus discursos ou comprados pelas suas moedas, isso é outra discussão. A questão aqui é: o que fazer com os picaretas? Colocá-los no paredão e rrraaatatata...?! Então vamos dar o golpe e começar a faxina ditatorial. Mas, peralá!, quem são os picaretas? Isso, além de relativo, tem um fator angustiante: muitas vezes a gente sabe que o cara é 171, o sujeito chega ao requinte de assumir publicamente a franciscana filosofia do “é dando que se recebe”; às vezes vai além: assume a autoria de atos ilícitos incapazes de serem provados, como, por exemplo, dizer que alguém o subornou, mas não passou recibo da propina, portanto nem ele próprio pode provar ao mundo que foi corrompido. Picareta que se preza comete o crime perfeito. Picareta que se preza corrompe-se e prova que as vítimas são os verdadeiros culpados.

O PT errou quando não quis enfrentar a Rede Globo na queda de braço? Errou quando fez alianças com a esquerda de quem vem? Errou quando se desentendeu com a extrema esquerda, essa que costuma dar uma volta de 359 graus e andar de mãos dadas com o ponto seguinte da circunferência? Erros existem para que aprendamos. Cabe ao “gafanhoto” escolher a maneira de aprender com eles.

Gosto de escrever ficção, por isso fiz de conta que estive no encontro de “Cesinha” com Lula. Aí, a meu ver, o papo entre os dois se deu assim:

(Clique no título e leia a conclusão. Ou AQUI e navegue pelo sítio)

_______________________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

______________________________________________

PressAA

1984, George Orwell: de grátis, 0800, na faixa

Sanguessugado do redecastorphoto

GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA

[1939] 

Leia abaixo, um pedacinho e aqui inteirinho e grátis, em português.

Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário do Brigaboa na redecastorphoto após ler o livro 1984 inteiro: “Qualquer semelhança com o programa PRISM da NSA - Agencia Nacional de Segurança dos EUA, revelado por Edward Snowden, NÃO é mera coincidência”.

George Orwell

Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos acima do nível do solo, e correspondentes ramificações no subsolo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo.

Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto. 

O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Não tinha janela alguma. Winston nunca estivera lá, nem a menos de um quilômetro daquele edifício. Era um prédio impossível de entrar, exceto em missão oficial, e assim mesmo atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes articulados. Winston voltou-se abruptamente.

Afivelara no rosto a expressão de tranquilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela. Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais alimento que uma côdea de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco em que se lia GIN VITÓRIA. Tinha cheiro enjoado, oleoso, como de vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gin, contraiu-se para o choque e engoliu de vez, como uma dose de remédio. Instantaneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a lacrimejar. A bebida sabia a ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais ameno.

Tirou um cigarro do maço de CIGARROS VITÓRIA e imprudentemente segurou-o na vertical, com o quê todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro, com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um livro em branco, de lombada vermelha e capa de cartolina mármore. Por um motivo qualquer, a teletela da sala fôra colocada em posição fora do comum.

Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fôra posta na parede mais longa, diante da janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava agora sentado, e que, na construção do edifício fôra, provavelmente, destinada a uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fora a extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a fazer. Mas fora-lhe também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um livro lindo. O papel macio, cor de creme, ligeiramente amarelado pelo tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do bairro) e fora acometido imediatamente do invencível desejo de possuí-lo.

Os membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns (“transacionar no mercado livre”, dizia-se), mas o regulamento não era estritamente obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes, impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinquenta. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para casa, às escondidas, na sua pasta.

Mesmo sendo em branco, o papel era propriedade comprometedora.

Fim da paralisia

Sanguessugado do Gilvan Rocha

A imobilidade foi rompida. O engessamento foi quebrado. Sem organização e sem direção, o povo está na rua. O movimento espontâneo revela conceitos equivocados, preconceitos e a má informação. Isso é natural. Grupos anarquistas levantam a palavra de ordem “o povo unido não precisa de partido”. Trata-se de um absurdo rejeitar a necessária organização consciente, ou seja, a auto-organização do povo. Esse discurso dos anarquistas, encontra ressonância no sentimento do povo, enquanto a direita aproveita-se do fato para tentar isolar a verdadeira esquerda, os verdadeiros socialistas.

            É compreensível que as massas populares tenham uma rejeição aos partidos, uma vez que na sua imensa maioria, eles estão presos a lógica eleitoral e praticam, descaradamente, o fisiologismo.

            Com a hegemonia política do PT, nesses últimos anos, deu-se uma paralisia dos movimentos populares. As centrais sindicais e estudantis tornaram-se instituições a serviço de um governo que se ocupa em gerenciar os negócios do capitalismo. É bem verdade que existem alguns partidos de feição ideológica, de caráter anticapitalista. Nesse campo estão PSOL, PSTU, PCB, POR... entretanto, essas organizações não desfrutam de razoável visibilidade.

            É preocupante o acentuado traço nacionalista das manifestações, mas é preciso entender, que elas refletem o grau de confusão e atraso de uma massa que foi entregue à própria sorte, quando a “esquerda” majoritária, bandeou-se de malas e bagagens para a causa burguesa, ocupando-se em gerenciar e manter o sistema socioeconômico vigente.

            Diz o povo: “Veja o PT, depois que chegou ao “poder”, deu as costas aos trabalhadores e se vendeu, mergulhando no mar de lama da corrupção”. E acrescenta: “Assim são os partidos, quando chegam lá, mudam”. Esse argumento está baseado na própria vivência popular, encharcada de distorções que lhes são impostas.

            Diante desse fato, cabe-nos ter paciência, cabe-nos dialogar permanentemente com as massas insurgidas e levar em consideração que merece todo nosso aplauso o fato de ter sido quebrada a imobilidade, a letargia.

sábado, 29 de junho de 2013

Hermanos argentinos escracham Jabor - o bosteiro do castelo

GilsonSampaio

Bosteiro real era um serviçal encarregado de limpar os penicos da realeza. Jabor quer ser mais realista do que o rei, talvez sonhe com o ofício de bosteiro em algum castelo da elite tupiniquim.
O ódio que destila contra qualquer coisa que favoreça o povo é patológico.

Jabor, o bosteiro do castelo

E a seguir texto lapidar de Mauro Carrara sobre o bosteiro

O Bosteiro do Castelo sob a lente cruel de Mauro Carrara: Carta Aberta a Arnaldo Jabor

Dilma despenca e Ricardo Kotscho joga a toalha

Sanguessugado do Ricardo Kotscho

“E, ainda por cima, no atropelo para virar o jogo, Dilma acabou magoando seus dois principais aliados, o ex-presidente Lula e o vice Michel Temer, ao mandar um emissário consultar Fernando Henrique Cardoso sobre a sua proposta de reforma política, antes de apresenta-la aos líderes dos partidos que ainda a apoiam no Congresso Nacional.”

Só um em cada 3 brasileiros aprova governo Dilma

Ricardo Kotscho

Quem poderia prever isso?

Ao bater o recorde de aprovação do seu governo, surfando com 65% de ótimo e bom em março, na pesquisa Datafolha, Dilma Rousseff parecia caminhar para uma tranquila reeleição no próximo ano, vencendo já no primeiro turno, segundo a quase unanimidade dos analistas políticos. Sem opositores fortes à vista, seria um passeio.

Há apenas três semanas, quando começaram os primeiros protestos nas ruas contra o aumento das passagens de ônibus, a aprovação do governo caiu para 57%, ainda um patamar alto para quem estava completando dois anos e meio de mandato tendo que enfrentar uma séria crise econômica, mas já se colocava em dúvida se haveria ou não um segundo turno.

Agora, com a divulgação de novo Datafolha neste sábado de final de junho, mostrando uma violenta queda de 27 pontos na aprovação do governo, Dilma cai a menos da metade do que tinha em março: apenas 30% de ótimo e bom, o mais baixo índice desde a sua posse.

Em outras palavras, Dilma tem agora o apoio de apenas um em cada três brasileiros. Além disso, as expectativas da população em relação ao futuro são todas pessimistas, segundo os números da mesma pesquisa, indicando que os índices de aprovação do governo podem cair ainda mais. Apenas 27% dos 4.717 eleitores ouvidos em 196 municípios avaliam como positiva a gestão econômica do governo.

Quedas tão grandes na avaliação de governos só foram registradas anteriormente em duas ocasiões: em 1990, quando Fernando Collor caiu de 71 para 36%, e em 2005, com Lula despencou para 28% de aprovação.

Nos dois casos, porém, havia fortes razões para justificar as mudanças abruptas: no caso de Collor, foi o confisco das cadernetas de poupança e, no de Lula, o escândalo do mensalão.

O que mais me intriga, desta vez, é que não há uma única causa grave que explique tanto a multiplicação dos protestos, agora diários espalhados por todo o país, quanto esta virada radical nas pesquisas, jogando o governo Dilma no fundo do poço, a 18 meses do final do seu mandato.

As dificuldades que o governo enfrenta na política e na economia desde o início do ano não se agravaram dramaticamente de uma hora para outra, assim como não tivemos um tsunami de deterioração dos serviços públicos ou de novos casos de corrupção envolvendo diretamente o governo.

Antes do início das manifestações, porém, eu já vinha notando um clima de mal estar e de mau humor em diferentes áreas sociais aqui em São Paulo. Cheguei a comentar isso com um importante ministro de Dilma, achando que a presidente estava muito isolada e precisando conversar mais com a chamada sociedade civil, para saber o que estava se passando no país fora dos gabinetes e da propaganda triunfalista do governo na televisão.

Dilma confiou demais nas pesquisas, nos comerciais e nos pronunciamentos produzidos por seu marqueteiro João Santana, sem dar a devida atenção para o que acontecia no mundo político do outro lado do Palácio do Planalto, no meio empresarial e na vida real dos trabalhadores e estudantes.

A comunicação do governo limitava-se à propaganda paga no rádio e na televisão. Enquanto os números mostravam índices favoráveis para a presidente, tudo bem, o marqueteiro tinha razão. Só que o governo não percebeu que os outros canais de comunicação com a sociedade estavam todos entupidos, sem funcionar em duas vias. O governo só falava, não ouvia. Quando o copo da insatisfação transbordou, o que movia as pessoas a sair às ruas não era um motivo só, mas o que minha mulher chama de "o conjunto da obra", a tal desatenção que pode ser a gota d´água, como na música do Chico.

Mais preocupada em montar uma cada vez maior base aliada para disputar a reeleição, me parece que Dilma perdeu o timing das mudanças necessárias em seu ministério, que é muito fraco, na virada do ano, quando se limitou a trocar seis por meia dúzia, trazendo de volta partidos varridos na faxina do primeiro ano de governo.

De uma hora para outra, depois de tentar retomar o controle da iniciativa política com a proposta do plebiscito, Dilma abriu as portas do Planalto para ouvir todo mundo de uma vez, na semana passada, e já marcou novas reuniões para a próxima. Temo que seja tarde demais. E, ainda por cima, no atropelo para virar o jogo, Dilma acabou magoando seus dois principais aliados, o ex-presidente Lula e o vice Michel Temer, ao mandar um emissário consultar Fernando Henrique Cardoso sobre a sua proposta de reforma política, antes de apresenta-la aos líderes dos partidos que ainda a apoiam no Congresso Nacional.

Pois, após esta pesquisa, o grande perigo imediato é a tal base aliada ficar ainda menos fiel e iniciar uma debandada em busca de outra expectativa de poder.

Que fase...

FILME DE TERROR

Via Jornal O Rebate

Laerte Braga

A simples ideia que Joaquim Carlota Barbosa possa ser presidente da República é aterrorizante. Um ministro do STF – Supremo Tribunal Federal – que espanca a mulher e gera boletim de ocorrência, que esconde provas no julgamento do “mensalão” para prejudicar os réus, que paga a viagem de jornalistas com dinheiro público (exceto o do FOLHA DE SÃO PAULO) para acompanhá-lo a uma conferência na Costa Rica, por si só já o estigmatiza como corrupto, como elemento do sistema, como alguém que age pelas costas, não fossem as suas constantes e cinematográficas dores.
O seu show pessoal.
O que as ruas estão dizendo aos governantes, aos políticos de um modo geral, a despeito da falta de organização e comando, de bandeiras precisas, é o diagnóstico da falência do Estado brasileiro e Joaquim Carlota Barbosa é uma das figuras proeminentes desse Estado e já começa a agir como candidato.
A exemplo do que aconteceu em Honduras e no Paraguai, guardadas as devidas proporções, é a porta aberta para o golpe branco e uma nova noite em que Jack o Estripador vai passear pelas ruas com a rubrica da faixa presidencial.
Em hipótese alguma dê as costas a Joaquim Carlota Barbosa. . Ou a Gilmar Mendes. Ou a Luís Carlos Tófoli. Ou a Carlos Fux. Na história da Corte Suprema esse capítulo tem dois nomes – CORRUPÇÃO e RIDÍCULO.
O que as ruas não dizem explicitamente é que necessitamos com urgência de uma nova Constituição, a partir de um grande movimento popular e com direito a referendo dos brasileiros, além da mais ampla participação no processo, muito além das chamadas emendas populares de 1988.
Tribunal de Contas, por exemplo, almoxarifado de políticos mofados não tem sentido. Os mecanismos de fiscalização têm que ser maiores, têm que contar com presença de comitês populares desde os municípios.
Câmaras municipais para que se conselhos podem a um custo muitas vezes mais baixo e com transparência representar a população nos legislativos de nossas cidades, não há sentido nesse monstrengo em meio a esse laboratório de terror que leva o País a um beco sem saída e com certeza trará consequências graves num futuro não muito distante.
A lei de meio é decisiva para evitar o espetáculo da GLOBO durante as manifestações, para esconder os cartazes REDE GLOBO O POVO NÃO É BOBO.
Vândalos são os policiais militares e sua truculência contra pessoas indefesas, vândalos são José Sarney e Renan Calheiros, Marco Feliciano e outros tantos.
.
O que é preciso entender é que esses caras representam banqueiros, latifundiários, grandes empresas. Em sua esmagadora maioria não passam de empregados eleitos com recursos da iniciativa privada para representá-los.
Vândalos são as empresas que ocupam terras públicas, como a CUTRALE e o governo, a despeito dos pareces dos órgãos públicos que formam esse Drácula não se mexem para que a mídia possa deitar e rolar na verba extra da COCA COLA dona da empresa.
Vândalo é Eike Batista que fascina os idiotas e dá o golpe no BNDES. Nunca foi empresário, herdou uma fortuna, só isso.
Joaquim Carlota Barbosa presidente da República é filme de terror num estúdio de quinta categoria.

Ouro de tolo

Sanguessugado do Cidadão do Mundo

Luiz Lima

“Imagine que não exista nenhum país/ (…) Nada por que matar ou morrer/ Nenhuma religião também”. Nos célebres versos de “Imagine”, John Lennon anunciava uma sociedade utópica. E ele iria além da canção: em manifesto, concebeu a tal nação fictícia, batizada de Nutopia. “Sem terra, sem fronteiras, sem passaportes, só pessoas. Nutopia não tem leis que não as cósmicas”, declaravam o ex-beatle e sua esposa, Yoko Ono, em 1973.

No ano seguinte, um roqueiro brasileiro apresentava ao público sua versão da “Sociedade Alternativa”: “Faze o que tu queres, pois é tudo da lei”, cantou Raul Seixas.

Não era coincidência. Cada um à sua maneira, Lennon e Raul bebiam da mesma fonte, que seduzia jovens no mundo inteiro em tempos de descrença nos poderes e nas instituições: a contracultura. Dos hippies aos anarquistas, os anos 1970 abrigaram diversas experiências de rejeição a todos os sistemas políticos estabelecidos, e propostas de comunidades alternativas que colocassem o ser humano como centro da vida social.

No Brasil, esses ventos de contestação coincidiram com o período mais grave do regime militar. No momento em que se prendia, torturava e eliminava quem ousasse se opor ao governo e a censura tomava conta dos meios de comunicação, eis que surge no Rio de Janeiro um jovem baiano tocando rock ‘n’ roll legítimo, ironizando os valores vigentes e pregando coisas estranhas como o egoísmo, o amor livre e a liberdade incondicional do ser humano. Quem era aquele sujeito?

Os agitos de roqueiro haviam começado ainda Salvador, no início da década de 1960, quando o jovem Raulzito fundou a banda Relâmpagos do Rock, depois chamada de The Panthers. Eram as primeiras guitarras elétricas de que se tinha notícia na conservadora capital baiana. Aos 17 anos, fã de Elvis Presley, Raulzito não queria saber de escola, repetiu de ano várias vezes, mas em casa teve acesso à cultura, isolado por horas e dias a fio na biblioteca do pai. Chegou a prestar vestibular, mas abandonou o curso de Direito para se dedicar apenas à música. Em 1967, foi convencido por Jerry Adriani – integrante do já famoso movimento Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos – a ir ao Rio de Janeiro gravar um disco. Convite aceito, naquele mesmo ano foi lançado “Raulzito e Os Panteras”, um fracasso de vendas. O grupo ainda acompanhou Jerry Adriani em alguns shows, mas se desfez, o que obrigou Raul a voltar para Salvador. Em 1970 surgiu nova chance: agora um emprego de produtor-executivo na gravadora CBS. Ele tinha 24 anos e chegava ao Rio para ficar.

Na capital cultural do país, alguns conterrâneos de Raul já chamavam atenção no terreno da arte alternativa. Enquanto Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé comandavam o Tropicalismo, Baby Consuelo, Moraes Moreira e Pepeu Gomes fundavam uma libertária experiência de vida comunitária dedicada à música que resultou no grupo Novos Baianos. Como o roqueiro que chegava, eram todos adeptos do experimentalismo formal, da guitarra misturada a ritmos nacionais, da adoção de novos comportamentos sociais e sexuais e, finalmente, do não-engajamento político. Por isso a contracultura era acusada de “alienada” pela juventude de esquerda, que pegava em armas para lutar contra a ditadura. Acusação um tanto injusta. “Era preciso muita vontade e alguma coragem para ser hippie numa ditadura militar boçal e truculenta. Visados pela polícia, muitos foram confundidos com militantes da resistência armada, presos e torturados por engano”, comenta o produtor musical Nelson Motta no livro Noites tropicais.

Apesar da semelhança estética, Raulzito não entrou na onda de nenhum dos baianos que chegaram antes dele. Sua idéia de “Sociedade Alternativa” seria muito mais radical, e ganharia fortes conotações místicas. Tudo começou em 1971, quando conheceu Paulo Coelho, editor da revista alternativa 2001. Fã de discos voadores, o roqueiro encontrou na revista um artigo sobre o assunto e gostou tanto que resolveu procurar seu autor. Aquelas duas cabeças criativas e alucinadas mergulhariam num mar de referências para conceber canções com temas até então inéditos por aqui. Além da Nutopia de Lennon e Yoko, inspiravam-se em autores clássicos do anarquismo e do individualismo, como Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e Max Stirner (1806-1856).

Mas o grande guru da dupla foi o mago inglês Aleister Crowley (1875-1947). É dele a frase “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei” — a “lei” concebida por Crowley chamava-se Thelema, palavra grega que significa “vontade”. Segundo ele, os desejos humanos não deviam sofrer nenhum tipo de restrição. Considerado satanista por desdenhar as noções de bem e mal e louvar Deus e o Diabo na mesma proporção, Crowley fez a cabeça de várias bandas de rock famosas na época, como Iron Maiden e Led Zeppelin. E também dos Beatles, que estamparam sua foto no meio das celebridades da capa do revolucionário disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967).

Uma inusitada estratégia de marketing proposta por Paulo Coelho levou as primeiras idéias da Sociedade Alternativa aos lares de todo o Brasil. No dia 7 de junho de 1973, Raul Seixas convocou a imprensa para registrar sua aparição em plena Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, violão em punho, cantando a música “Ouro de Tolo”. Deu certo: a cena foi exibida no “Jornal Nacional”, horário nobre da TV. A canção era uma bofetada no conformismo nacional diante das vantagens ilusórias oferecidas pela ditadura:

        Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73
(…)
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo que eu quis
Mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado!
(…)
É você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
E que só usa 10% de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social…

“Ouro de tolo” é o nome que se dava na Idade Média às promessas de falsos alquimistas. Transpondo a idéia para a década de 1970, Raul Seixas reduz a nada as aspirações da classe média que apoiou o milagre econômico da ditadura: a euforia regada pela estabilidade social do cidadão respeitável e por uma visão religiosa conformista era simplesmente um “ouro de tolo”.

A música virou sucesso instantâneo. Contratado pela gravadora Philips, Raul Seixas juntou “Ouro de Tolo” a outras nove canções para lançar seu primeiro LP solo: “Krig-Ha, Bandolo!”, ainda em 1973. O ano seguinte marca uma escalada no projeto de construção da Sociedade Alternativa. Paulo Coelho publica na Revista Planeta uma análise crítica dos movimentos de contestação juvenil da década de 1960, principalmente o dos hippies. Argumenta que, através da poderosa influência dos meios de comunicação, os valores fundamentais dos hippies propagaram-se pelo mundo e foram absorvidos pelo sistema de maneira deformada: sua revolução de valores transformou-se em moda. Citando John Lennon e seu famoso desabafo “O sonho acabou”, Paulo afirma que “a decadência do movimento hippie provocou a mais importante e a mais radical transformação da contracultura: o nascimento das sociedades alternativas”.

E eles não queriam ficar no plano da utopia. Em terreno cedido pela sociedade ocultista Argentum Astrum (ligada à Thelema do mago Crowley), instalam em Paraíba do Sul (RJ) a “Cidade das Estrelas”, para concretizar o sonho libertário. Enquanto isso, saía o segundo disco-solo de Raul, “Gita”, com o hino “Sociedade Alternativa”, a mística Gîtâ (inspirada no texto hindu Bhagavad Gita) e a apoteótica “Trem das sete”, que profetizava “o Mal de braços e abraços com o Bem num romance astral”.

Mas sua primeira canção a despertar a censura viria de outro disco lançado naquele ano: a trilha sonora da novela “O Rebu”, composta por Raul e Paulo Coelho. Na música “Como vovó já dizia”, dois versos foram considerados subversivos – “quem não tem papel dá recado pelo muro” e “quem não tem presente se conforma com o futuro” (substituídas por “quem não tem filé come pão em osso duro” e “quem não tem visão bate a cara contra o muro”).

Em maio de 1974, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) finalmente fechou o cerco. Raul Seixas foi preso e torturado. “Tudo para eu poder dizer os nomes das pessoas que faziam parte da Sociedade Alternativa, que, segundo eles, era um movimento revolucionário contra o governo”, contaria mais tarde.

Nessa fase da ditadura as prisões eram secretas, ao contrário do que costumava ocorrer com as detenções na segunda metade da década de 1960. Após o fim da luta armada, a repressão se voltou contra a resistência cultural ao regime, perseguindo pessoas que expunham suas opiniões através da música e da imprensa. Foi o caso do roteirista e jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto em 1975.

Segundo Sylvio Passos, presidente do Raul Seixas Oficial Fã-Clube, o trauma da prisão e da tortura foi duro para Raul, que sempre chorava ao narrar esses episódios, em conseqüência dos quais desenvolveu uma paranóia que o fez sofrer muito. Depois de libertados, ele e Paulo Coelho exilaram-se nos Estados Unidos. Mas o estrondoso sucesso alcançado por “Gita” – que vendeu 600 mil cópias em todo o Brasil – os animou a voltar.

Ano novo, disco novo, cheio de contundentes mensagens ideológicas. No LP de 1975, “Novo Aeon”, Raul canta a poligamia em “A Maçã”, provoca com o “Rock do Diabo” e radicaliza o individualismo com “Eu sou egoísta”. As composições com Paulo Coelho agora dividem espaço com outros parceiros, como Marcelo Motta. Em breve o mago seguiria seu caminho longe de Raul, para se tornar o maior best-seller brasileiro de todos os tempos. Já o Maluco Beleza não abriria mão de defender suas crenças até o fim. No penúltimo disco que gravou (“A Pedra do Gênesis”, em 1988), um Raul já debilitado pelo alcoolismo revela manter a crença em Crowley na canção “A Lei” – pura transcrição de frases do mestre ocultista. “Todo homem tem direito de pensar o que quiser/ Todo homem tem direito de amar a quem quiser/ Todo homem tem direito de viver como quiser”. Assim viveu Raul Seixas, cuja estrada chegaria ao fim no ano seguinte.

Se hoje a liberdade de expressão é um valor sagrado, muito se deve à abertura proporcionada por livres pensadores como Raul Seixas, que ousaram defender a criação de uma sociedade alternativa à que era imposta pelo sistema político estabelecido num momento em que tal atitude implicava altos riscos.

Luiz Lima é doutor em História Social pela USP e autor do livro Vivendo a sociedade alternativa: Raul Seixas e o seu tempo (Terceira Margem Editora, 2007).

PCB DENUNCIA UM LOCKOUT MASCARADO DE GREVE GERAL

Via PCB

imagem

Setores da oligarquia e dos monopólios estão espalhando rumores sobre uma greve geral, nesta segunda-feira. Há inclusive grandes empresas dispensando seus empregados do trabalho nesse dia. Para esta segunda-feira, está sendo convocada também uma paralisação de 72 horas dos caminhoneiros em âmbito nacional, convocada pelo Movimento União Brasil Caminhoneiro. Apesar da justeza de algumas reivindicações desse movimento, formado em grande parte por proprietários dos caminhões, com as quais simpatizamos, a coincidência da data pode não ter sido fortuita.

Recomendamos aos militantes, amigos e simpatizantes do PCB que não participem dessas movimentações, sobretudo por que não foram convocadas por centrais sindicais e nem por organizações de esquerda.

PCB - Partido Comunista Brasileiro

Comitê Central

Território brasileiro está à disposição do capital estrangeiro, afirma especialista

Via MST

José Coutinho Júnior
Da Página do MST

O engenheiro agrônomo, cientista social e membro do conselho da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), Horácio Martins, esteve presente nesta quinta-feira (27) no seminário A Questão Agrária no Brasil, que está sendo realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP). Em sua fala, ele analisou a forma como o capital exerce domínio na agricultura brasileira.

Segundo Horácio, atualmente há um processo de desnacionalização do campo brasileiro, decorrente da ação do capital financeiro internacional para dominar e utilizar os recursos naturais do país.

“Nosso território está à disposição para o capital estrangeiro, que se apropria dos recursos naturais. A hegemonia do capital financeiro tem o aval da burguesia agrária brasileira e do Estado, ambos entreguistas.”

As terras e demais recursos naturais são explorados de forma frenética no mundo inteiro pelo capital estrangeiro, mas especialmente na América Latina. Nesse cenário, a Reforma Agrária é um empecilho político a esse processo, e o campesinato, um empecilho social.

Essa subordinação ao capital financeiro faz com que o Brasil se contente com o papel de exportador de matérias primas para o exterior. “A desindustrialização da economia, que se primariza mais e mais, derrubou nossa produção industrial. Em 1980, a participação da indústria na economia era de 38%; hoje, é de 15%”, afirma Horácio.

O controle das empresas não se estende apenas às terras. Dez empresas no mundo controlam o mercado de insumos, e no Brasil, nove controlam o mercado agropecuário. Em 2009/2010, de acordo com Horácio, elas obtiveram 67% do lucro de toda a produção agropecuária brasileira.

A distribuição dos alimentos também está na mão de poucas empresas: Wall Mart, Carrefour e Pão de Açúcar controlam a distribuição de 50% dos alimentos em todo país.

Reforma Agrária

De acordo com Horácio, a pauta da Reforma Agrária está relegada ao segundo plano, pois realizá-la seria fortalecer o campesinato e isto é o oposto do processo de desnacionalização do campo brasileiro.

“Os povos originários e camponeses têm seus direitos de ser e de participar da vida política do país negado. Para o capital financeiro e grandes empresas, pessoas e a natureza não passam de mercadorias”, observa.

Há também um processo para naturalizar esse modelo excludente no campo brasileiro. Para o engenheiro agrônomo, o resultado disso é que o agronegócio se tornou a referência de produção rural no Brasil, pautando em grande medida as políticas públicas destinadas à agricultura familiar.

Para Horácio, esse processo ocorre de forma cada vez mais intensa no campo, sem que haja uma resistência expressiva dos setores populares. “A oposição feita por partidos e movimentos sociais a este modelo é tímida e insípida”, conclui.

A mulherzinha pequena

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

 Elaine Tavares

Era um menino. Seu cotidiano era correr pela rua de areia, perseguir os gatos, empinar pipa, caçar corujas, jogar carreira com os cães, pular poças de água, jogar amarelinha. O momento mais tenso era o ir para a escola. Fechava a cara, resmungava renitente e seguia pela estrada afora, carregando, mal-humorado, a velha sacola dos livros. Não lhe agradava aquele tipo de lugar. Muitas regras, muita atenção, muito cuidado com coisas desinteressantes. Assim, àquelas horas da manhã era puro aborrecimento. Passava a maior parte do tempo olhando para a janela, como se o simples fato de ver o “lá fora” trouxesse a liberdade. E o tempo ia escoando, enquanto ele contava os minutos para sair feito um bólide, perseguindo alguma borboleta.

Ele não lembra bem quando ela chegou, como foi, o que aconteceu, sequer o seu nome. Só sabe que aos poucos, aquela mulherzinha pequena foi prendendo sua atenção. De alguma forma ela colocou mágica nos aborrecidos deveres de matemática, os números passaram a fazer sentido, dançavam, coloriam, inventavam mundos. Seu cheiro de hortelã, sua risada sapeca, e aquela piscadela marota quando queria convencer que a coisa mais bela do mundo era a tabuada, tudo somava para enreda-lo numa deliciosa rede de descobertas. Quando a sineta batia e ele arrancava para fora da escola, a rua ia assumindo outros contornos e ele se via fazendo contas. Uma borboleta, mais uma joaninha, mais uma cigarra eram três integrantes da banda de música do jardim. Bem assim ela ensinava.  E ele ria o riso cristalino de quem estava a descortinar as coisas importantes da vida. A rua e a escola agora combinavam. Conhecer era isso: combinar, sem alienar a fantasia.

O tempo passou, o menino cresceu. E por mais que a turba de alienados fosse grande ao longo de toda sua vida escolar, aquela mulherzinha pequena que lhe ensinara matemática nunca saíra de sua cabeça. Fora por ela que seguira a louca ideia de ser cientista, de arranjar-se com números a descobrir os segredos do universo. Vez ou outra, quando as coisas embaralhavam ele sentia o cheiro de hortelã, e mergulhava outra vez. Nas manhãs de outono, quando fraquejava diante de uma equação insolúvel, podia ouvir a risada de cristal anunciando que bastava olhar para a vida mesma que ali estariam as respostas. Os números voltavam a dançar e tudo clareava.

Ontem, de inopino, ele prestou atenção ao filho pequeno que ruminava pragas enquanto se arrumava para ir à escola. Era um pequeno homenzinho, sem rua de areia, sem pés descalços, sem nariz ranhento,  sem borboletas. Seu mundo era o quarto, onde visitava universos inóspitos através do vídeo game. “Conte-me sobre os teus professores... Existe algum que faça os números dançarem? Alguma que tenha riso de cristal e cheiro de hortelã?” O guri olhou de revés. “Bebeu, pai? Na escola só temos regras, e ordens, e gente chata”. E saiu, emburrado, carregando o mundo nas costas. O homem ficou, perplexo, dando-se conta que a escola já não é mais espaço mágico onde a rua combina com os saberes formais. Mudou o tempo? Mudou a escola? Não existem mais mulheres que conseguem ser meninas de riso solto, saltitando pela fantasia, apesar de já serem gente grande?

Sentiu pena do filho e de todos os outros que não se encantarão com números, ou letras, ou fórmulas, ou fatos. Pensou que é preciso que haja mais gente capaz de entender, de fato, de almas de meninos, como aquela mulherzinha pequena, de tantos anos atrás...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O cavalo passa selado diante das forças de esquerda

Via Brasil de Fato

Não nos esqueçamos, um só instante, que a questão central em toda a transformação é a questão do poder

Ricardo Gebrim

O revolucionário salvadorenho Jorge Schafik Handal (1930-2006), entre tantas contribuições teóricas deixou um texto que é uma verdadeira aula para os que pensam a política como arte da transformação social. Ao analisar um episódio ocorrido às vésperas do golpe militar de 1973, ele mostra como as maiores forças de esquerda perderam uma oportunidade histórica que poderia ter alterado o desfecho que já se anunciava.

Em 29 de junho de 1973, enquanto o Alto Comando das Forças Armadas Chilenas já conspirava com a CIA a preparação do golpe militar, um pequeno grupo de oficiais fascistas, “fora do controle”, se precipita e lança uma sublevação antes da hora. Este episódio ganhou o nome de Tancazo, por utilizarem tanques. Foram rapidamente derrotados pelas tropas leais comandadas pelo General Prats e pela população, criando um clima de autoestima popular que se converteu no auge da luta popular daquele processo histórico.

Sufocada aquela sublevação, o General Prats alerta para o verdadeiro golpe em andamento e exige o afastamento do Alto Comando conspirador. O texto de Schafik mostra como nenhuma das forças de esquerda conseguiu interpretar a importância do episódio, embora as forças da reação tenham rápido entendido com precisão aquele momento.

Ele explica:

“Como atuaram as forças revolucionárias frente a esse fenômeno? Ninguém definitivamente defendeu o Prats e a parte do exército que ele encabeçava. Uns o sacrificaram em interesse de manobras políticas acreditando honradamente que estas trariam a saída da crise; e, os outros, consideraram que a presença de Prats no governo era “a presença da burguesia”, que o pacto com Prats era  “a traição à revolução” e decidiram constituir-se na “oposição operária camponesa”. Quando a corrente de Prats era forte e predominante, quando derrotou o “Tancazo” (junho/1973), as massas intuíram a importância daquele momento para resolver revolucionariamente o problema do poder; se lançaram à rua, como todos sabemos, exigindo golpear profundamente a reação, fechar o parlamento, depurar o exército, mas a direção daquele processo não tomou resolutamente em suas mãos estas bandeiras. Não estou defendendo a idéia de que tudo se resolveria no Chile organizando a luta em torno de Prat; creio sim, que o aparecimento da corrente encabeçada por ele e a onda de massas que seguiu à sua vitória sobre Tancazo  foi o mais próximo que houve durante o governo da Unidade Popular para a solução do problema do poder para a revolução. Essa possibilidade apareceu objetivamente e se constituiu assim numa prova para medir a clareza das forças revolucionárias para a tese do marxismo-leninismo de que “o problema do poder é o problema fundamental de toda revolução”.

Guardadas as imensas proporções, uma vez que não estamos vivenciando nenhum processo de natureza revolucionária, é inevitável recordar este texto quando olhamos para os fatos que aceleradamente ocorrem nestes dias.

Qual é o principal desafio político para esquerda na tática da luta eleitoral atualmente?

As conquistas eleitorais que asseguraram a vitória do PT nas eleições presidenciais de 2002, 2006 e 2010 e possibilitaram a conquista de governos estaduais, senadores, deputados e prefeituras também para o PCdoB, PSOL e setores de esquerda em outras agremiações, esbarram, para além da correlação de forças em limites concretos do Estado brasileiro.

Os três principais limites estruturais, que aparecem nas análises de várias organizações de esquerda podem ser resumidos nos seguintes:

1)      Um Sistema Político que favorece o poder econômico. Das muitas leituras que podem ser feitas sobre o chamado “mensalão”, uma é evidente. O tratamento escandalosamente diferenciado dado ao “mensalão mineiro do PSDB” e ao caso do PT contém um recado claro, se a esquerda utilizar o expediente do “caixa 2” será  duramente criminalizada. O Sistema Político favorece, mesmo nas legendas de esquerda, aqueles que através de um comportamento dócil conseguem obter os recursos financeiros para custear as campanhas cada vez mais milionárias. Um processo que converte qualquer governo progressista no refém de interesses fisiológicos que asseguram a governabilidade.

2)     A Concentração dos Meios de Comunicação. Generalizou-se a correta compreensão de que os grandes meios de comunicação atuam como o “partido político” dos grupos dominantes.

3)     O Poder Judiciário. Completamente impermeável à participação popular, exerce a linha de frente na contenção das lutas populares, criminalizando, construindo uma jurisprudência restritiva ao direito de greve, contendo lutas e conquistas populares.

Pois bem, quando as massas ganharam as ruas, num processo que foi  deflagrado a partir de uma bandeira clara, precisa e progressista – a redução das tarifas de transporte –, assistimos uma intensa disputa política e ideológica, patrocinada pela grande mídia e todas as forças conservadoras pelos rumos do movimento.

Neste momento, tenso, com mobilizações crescentes, com a direita apostando todas as suas fichas em desgastar o governo federal, a resposta da presidenta Dilma é extremamente audaciosa. Anuncia um plebiscito para tratar da Reforma Política e sinaliza a convocação de uma Assembleia Constituinte Específica sobre o sistema político!

Para além das análises diferenciadas que as forças de esquerda possam fazer da natureza e papel deste governo, é forçoso reconhecer a audácia desta proposta.

Embora os setores médios que estiveram massificando os protestos sejam especialmente sujeitos à propaganda conservadora da grande mídia, era evidente seu rechaço ao atual sistema político. Qualquer observador identifica que as mobilizações expressaram um forte sentimento de rejeição ao atual sistema político. Generaliza-se a percepção de que há uma "blindagem" da política aos verdadeiros interesses do povo brasileiro. Os partidos políticos e os próprios políticos são vistos como parte de uma mesma engrenagem subordinada aos interesses das elites e a democracia representativa se apresenta aos olhos da juventude, como um mecanismo que impede a democracia efetiva. Mesmo as bandeiras de partidos de esquerda passam a ser vistas como símbolos da burocracia, independentemente de seu histórico de lutas, elemento que possibilitou a pequenos grupos de extrema direita atacá-las com a complacência da maioria dos manifestantes.

É neste contexto, neste estado de ânimo popular, que a presidenta, audaciosamente, lança uma proposta política a um movimento de reivindicações econômicas!

A direita não vacilou um só segundo. Imediatamente compreendeu o que estava em jogo e abriu todas as suas baterias.

O furibundo ministro Gilmar Mendes deu a linha. “O Brasil dormiu como se fosse Alemanha, Itália, Espanha, Portugal em termos de estabilidade institucional e amanheceu parecido com a Bolívia ou a Venezuela”, proclamou rapidamente.

Imediatamente os articulistas da Rede Globo, Revista Veja etc, proclamaram: “Isso é Chavismo”. O vice-presidente imediatamente reuniu-se com Dilma para sinalizar os riscos de romper a aliança com o PMDB. Toda a oposição de direita passou o dia esbravejando no Congresso. Inúmeros juristas constitucionalistas, tal qual múmias levantando das tumbas, foram imediatamente entrevistados para mostrar a “impossibilidade técnica” desta proposta.

Dois ministros petistas, cujo partido havia aprovado essa proposta meses antes em seu Diretório Nacional, saíram operando o recuo da presidenta. O conservadorismo não titubeou. Compreendeu os riscos, entendeu o que está em jogo.

E as forças de Esquerda?

Atônitas ainda com o impacto e expressão das manifestações, a letargia parece ser a marca predominante na maioria das forças de esquerda.

Uma parte parece contentar-se com o “fato consumado”. Não dá mesmo, a própria presidenta já recuou...

Outros, preocupados com a governabilidade, defendem o recuo e já aceitam até mesmo a trocar o plebiscito por um mero referendo.

Já os setores que se autoproclamam “oposição de esquerda” enxergam no episódio uma manobra governista para esvaziar as mobilizações pela pauta econômica. É significativo o posicionamento do PSTU:

“A Reforma Política que o governo Dilma propõe é uma tentativa clara de desviar as verdadeiras reivindicações colocada pelas mobilizações que sacodem o país. Nas ruas, a pauta é contra as injustiças sociais, por menos dinheiro para Copa e mais para saúde, educação e transporte, investimento público no serviço público, contra as privatizações e combate à corrupção. Essa tentativa de reforma é uma resposta conservadora que pode tornar a política brasileira ainda mais antidemocrática, como o voto distrital e a cláusula de barreira que afeta diretamente os partidos ideológicos, preservando as grandes legendas de aluguel, como o PMDB de Sarney e Renan Calheiros. O Plebiscito é uma cortina de fumaça. A verdadeira mudança será nas ruas.”

Evidente que “a verdadeira mudança será nas ruas”. Mas, o que proporemos aos que lutam nas ruas? Ficaremos apenas nas lutas econômicas, que são legítimas e devem ser assumidas, quando uma proposta de luta política se coloca?

Este é o debate que está em curso.

Vamos ignorar a possibilidade histórica de abrir uma possibilidade de luta contra o atual sistema político?

Deixaremos que as forças de direita ganhem esse embate e determinem o recuo do governo, enquanto seguiremos apenas nas lutas econômicas?

Não há como não se lembrar do texto de Schafik Handal....

Ainda estamos em tempo. O cavalo selado ainda está passando. Ainda é possível interferir nesta luta!

A bandeira de uma Constituinte Exclusiva do Sistema Político, a ser submetida a um Plebiscito Nacional, foi lançada. Podemos ignorá-la, rejeitá-la, ou assumi-la. O reascenso da luta de massas apenas está começando, muita àgua ainda vai rolar, mas a luta política tem ritmos e momentos de alta velocidade. Saber agir neste momento é essencial.

Não nos esqueçamos, um só instante, que a questão central em toda a transformação é a questão do poder.

Ricardo Gebrim é advogado e integrante da Consulta Popular.

DILMA E O ESGOTAMENTO DO LULISMO

Sanguessugado do Viomundo

Gustavo Gindre: Dilma e o esgotamento do lulismo

Gustavo Gindre, via Facebook

O PT onde eu militei era um partido vivo, organizado através de núcleos locais ou temáticos, com diversas tendências internas expressando diferentes abordagens ao socialismo. Tinha uma revista pungente, uma editora combativa e até escola de formação política.

O PT que começou a nascer com a derrota de 1994 e se consolidou com a vitória de 2002 não tem mais nada disso. Suas tendências internas, por exemplo, viraram um amontoado de mandatos de parlamentares, disputando espaço interno com vistas às próximas eleições.

O PT foi colocado em segundo plano em detrimento do lulismo.

Segundo o professor Andre Singer, o lulismo é um grande pacto de classes, que combina a manutenção da política econômica do governo FHC com fortes políticas distributivistas. E só foi possível em parte pelo carisma de Lula, em parte pela extensa aliança política com setores da direita e, claro, pela garantia de que os problemas estruturais da sociedade brasileira não seriam tocados.

O lulismo (um tipo de bonapartismo que prescinde de partidos políticos fortes e movimentos sociais organizados) está baseado na crença de que seria possível estabelecer um ganha-ganha, onde a base da pirâmide ganha com o distributivismo e o topo se aquieta por saber que a pirâmide será mantida.

De outro lado, o lulismo só foi possível num cenário de expansão econômica, fortemente ajudado pela política industrial que nos tornou fornecedores de matéria-prima para a indústria chinesa.

Pois, parece que este modelo é justamente o que está falindo agora.

Primeiro, porque a política distributivista parece ter liberados forças no interior da sociedade que o pacto lulista não é mais capaz de conter. Quem ascendeu pelos méritos da política distributivista agora quer outros direitos que o pacto de classes não pode mais lhe oferecer.

Segundo, porque a expansão econômica baseada na reprimarização de nossa base produtiva vai chegando ao fim. Isso significa que os setores médios começam a demonstrar receio de perder renda. E por isso começam a bradar por serviços públicos de qualidade, pelos quais até agora estavam acostumadas a pagar, como educação, saúde e transporte.

Terceiro, porque a mídia (embora fortemente agraciada pelo lulismo) jamais lhe deu trégua e, ao contrário de outros governos, expôs as entranhas de sua aliança política com setores fisiológicos da direita. Embora a corrupção não tenha aumentado nos anos do lulismo, a percepção social dela ficou muito maior.

Por fim, embora a história não se resuma a indivíduos, é inevitável perceber que Dilma é a coveira do lulismo. A presidenta, isso já sabíamos, não tem nenhum carisma (um elemento central do lulismo). Descobrimos agora que ela também não tem nenhuma capacidade de negociar (outro elemento central do lulismo). Nem mesmo sua suposta capacidade gerencial é real.

Sem o velho PT para lhe dar sustentação ideológica e organizativa, Dilma se vê paralisada diante da crise. Seus cinco pontos são uma forma de protelar em um cenário com o qual ela não consegue lidar. Incapaz de manter o pacto lulista, incapaz de forjar um novo pacto à esquerda, incapaz de dialogar, seu autoritarismo se mostra inútil.

Em breve veremos que tipo de resposta o lulismo dará para a crise e se é capaz de sobreviver a ela.