quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O CASO CORINTHIANS

Via Jornal O Rebate

LAERTE BRAGA

Um alto dirigente do Corinthians já disse a mais de uma pessoa que se Ricardo Teixeira fosse o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) o caso já estaria resolvido sem prejuízos para o clube paulista.

Torcedor que leva um sinalizador a um estádio e imagina que aquilo é manifestação de apoio ao seu clube, ou serve para dar um “colorido” especial ao evento, jogo, na prática é um imbecil. Faz parte do grupo de imbecilizados que consideram o futebol como escoadouro de frustrações.

Torcidas organizadas, de um modo absoluto, são grandes negócios que beneficiam seus dirigentes e têm a cumplicidade dos clubes.Se houver uma exceção será uma só.

A decisão natural da COMEBOL seria eliminar o Corinthians da competição, como normal é a preocupação das autoridades bolivianas em punir os culpados, como anormal cheira essa história de um menor de idade apresentar-se no Brasil como responsável pelo disparo do sinalizador que matou um garoto de 14 anos. E que, talvez, sabendo da fragilidade do seu clube, tenha ido ao estádio ver o Corinthians.

Punir o clube paulista com a proibição de torcedores em campo é um paliativo para evitar um atrito com o Brasil. A Taça Libertadores da América, agora controlada por empresas, é outro grande negócio do futebol na América do Sul. Árbitros pusilânimes, que apitam a favor do clubes da casa, despreparados quando tentam fazer direito, inclusive os brasileiros, dirigentes preocupados com o faturamento e jogadores submetidos a um regime desumano de disputa de várias competições a um só tempo.

O que não tem nada a ver com a burrada de Abel Braga ao escalar o seu clube, o Fluminense, no jogo contra o Grêmio.

Esses são outros quinhentos. É típico do treinador inventar, ou tentar mágicas, na presunção que um punhado de títulos signifique onipotência sobre o futebol, o conhecimento do esporte. A grande mídia brasileira, mesmo a GLOBO, que pegou alguns jogos para transmitir em concessão da FOX, tem forçado a barra para que a suspensão do Corinthians seja revertida com a alegação que os torcedores pagaram ingresso. E um monte de imbecis levou sinalizadores para o estádio. Levaram lá na Bolívia como levam aqui. Burlam a Polícia Militar ou a PM faz olhos de mercador diante da infração.

A vertiginosa queda de qualidade do futebol brasileiro se deve aos dirigentes e sua incompetência crônica. Imaginar José Maria Marin presidente da CBF é imaginar Paulo Maluf presidente do Brasil.

A necessidade de mudanças estruturais defendidas já à época que João Saldanha era vivo é imperiosa. Fim dos campeonatos estaduais com o modelo atual, divisão do País em quatro regiões para as segundas divisões, estaduais como terceiras divisões e regionais como quartas, um torneio da divisão especial com 20 clubes, como é, mas sem o sacrifício de competições paralelas sem importância, falo dos estaduais no modelo atual.

Mudança de mentalidade de dirigentes (difícil) e árbitros íntegros e competentes, pois, atualmente se um é uma coisa, não é outra e os jogos registram uma incrível marca de erros e absurdos inadmissíveis no esporte.

A despeito de ser uma entidade do direito privado a CBF, às vésperas de uma Copa do Mundo merece uma CPI. E o Corinthians deveria ter sido eliminado. Não existe jogo que valha a vida de em menino de 14 anos, no pressuposto que o esporte e saudável e é diversão. Tem sido fator de alienação.

Por parte do governo não existe uma política de esportes exceto como paliativo, não existe vontade política para isso, apenas a corrupção generalizada da construção de estádios para a Copa do Mundo.

E sem contar que somos patrocinadores de uma Olimpíada em 2016.

Dilma já está em campanha.

Para consolidar a ‘Revolução Cidadã’, Correa precisa seguir com rapidez e firmeza

Via Diario Liberdade

Atilio Borón

A arrasadora vitória de Rafael Correa, com uma porcentagem de votos e uma diferença entre ele e o seu mais próximo concorrente, que teriam desejado Obama, Hollande, Rajoy, entre outros, deixa algumas lições que é conveniente recapitular.

Primeira, a mais óbvia: a ratificação do mandato popular para seguir pelo caminho traçado, mas, como disse Correa em sua coletiva de imprensa, avançando mais rápido e profundamente. Sabe o reeleito presidente que os próximos quatro anos serão cruciais para assegurar a irreversibilidade das reformas que, depois de dez anos de gestão, teriam concluído com a refundação de um Equador melhor, mais justo e mais sustentável. Um Equador onde a diversidade não seja fonte de desigualdade. Na coletiva de imprensa, citou: "ou mudamos agora o país ou não mudamos mais". O projeto de criar uma ordem social baseada no socialismo do sumak kawsay, o "bem viver" de nosso povo, exige atuar com rapidez e determinação. Mas isto também o sabem a direita conservadora e o imperialismo, e por isto se pode prever que vão redobrar seus esforços para evitar a consolidação do processo da "Revolução Cidadã".

Segunda lição: se um governo obedece ao mandato popular e produz políticas públicas que beneficiam a grande maioria nacional – que , ao fim e ao cabo, se trata de democracia – , a lealdade do eleitorado pode ser tomada como segura. A manipulação das oligarquias midiáticas, a conspiração das classes dominantes e os estratagemas do imperialismo se chocam contra o muro da fidelidade popular diante de um governo fiel ao seu mandato.

Terceira, e como consequência da anterior, a esmagadora vitória de Correa demonstra que a tese conformista tão comum no pensamento político convencional, a saber: "o poder desgasta", só é válida na democracia quando o poder se exerce em benefício das minorias ricas, ou quando os processos de transformações sociais perdem peso, titubeiam e eventualmente se detêm. Ao paralisar, ao abandonar o impulso transformador, encaminha-se até a sua própria destruição. Sua condição de viabilidade é o permanente aprofundamento e aceleração do processo reformista. Quando se governa tendo em vista o bem-estar das vítimas do sistema, passa a ocorrer o que decorreu ontem no Equador; se, na eleição presidencial de 2009, Correa venceu no primeiro turno com 51 por cento dos votos, agora o fez com 57 por cento – diante da contagem existente enquanto escrevo esta nota (25 por cento dos votos apurados). Em vez de "desgaste", consolidação e crescimento do poder presidencial.

Quarta e última, com esta eleição se supera a paralisia decisória gerada por uma Assembleia Nacional que se opôs com intransigência a algumas das mais importantes iniciativas propostas por Correa. Embora haja poucos dados disponíveis a respeito, não há dúvidas de que a Aliança PAIS terá a maioria absoluta dos membros da assembleia, com possibilidades de alcançar uma representação parlamentar que permita contar com uma maioria de dois terços qualificados. Uma Assembleia Nacional que acompanhe o processo de mudanças teria que se dedicar de imediato a elaborar e sancionar uma Lei Orgânica de Comunicação, um novo Código Ambiental, a Lei de águas (essencial para a Reforma Agrária), entre outras peças legislativas de fundamental importância. A reconfiguração do mapa sociopolítico da Assembleia Nacional permitirá remover os obstáculos que, até agora, impediram o avanço em algumas frentes estratégicas do processo de construção de uma nova sociedade.

Com a vitória de Correa, a recente vitória de Hugo Chávez na Venezuela e a ratificação esperada do mandato popular de Evo Morales na Bolívia, o núcleo duro do "giro à esquerda" experimentado pela América Latina no início do século é consideravelmente reforçado, exercendo uma influência positiva sobre os processos em curso em países como Argentina, Brasil e Uruguai. Conclusão: os tempos mudaram. A ratificação de um presidente que liderou um processo formidável de mudanças sociais e econômicas, que aposta sem reservas - e trabalha - para a integração latino-americana, que desafiou o império incorporando seu país à ALBA e acabou com a presença dos EUA na base Manta, que realizou uma auditoria da dívida externa exemplar, reduzindo significativamente o seu montante, que concede asilo a Julian Assange e que tirou o Equador do CIADI não é algo que se vê todos os dias. Há uma grande razão para comemorar. Parabéns Rafael Correa, Saúde Equador!


Quem dá mais? Brasil à venda - Preços módicos!

Via CartaMaior

O problema não reside no fato de sermos apresentados como a oportunidade do momento. E sim nos custos implícitos do conjunto dessas operações de privatização travestidas retoricamente de “mera concessão”. A sociedade brasileira vai arcar com o ônus de mais um ciclo de acumulação privada às expensas do dinheiro público.

Paulo Kliass

O enredo é vendido, para os incautos e desavisados, como a busca da chave encantada, que serviria de ingresso pleno para o paraíso. Afinal - já pensou que maravilha? - o Brasil estaria sendo muito bem aceito lá fora, sempre atuando como plataforma cordial de ganhos assaz interessantes para o capital financeiro. Mas, na verdade, tudo isso se assemelha muito mais a um grande pesadelo, tendo em vista as conseqüências atuais e futuras, bem perversas, que virão para a maioria de nosso povo. Refiro-me a essas viagens dos representantes do governo da Presidenta Dilma pelos 5 continentes, na tentativa desesperada de vender as vantagens de nossas terras como a grande alternativa de investimento sólido e seguro para o capital internacional.

Tudo se passa como se estivéssemos no interior de uma roda do tempo, voltando às últimas décadas do século XIX. A economia brasileira se apresenta completamente dependente da exportação de produtos primários - em especial, a produção de café. Os poucos e localizados surtos de tentativa de industrialização terminam sendo abafados pelos interesses do setor agrário exportador. O movimento abolicionista enfrenta a dura oposição e os fortes obstáculos do “establishment”, pois o fim da escravidão e a introdução do trabalho assalariado significariam a explosão dos custos de produção e inviabilizariam a economia nacional. (sic)

Naqueles tempos, o ingresso na era da economia urbano-industrial também estava a exigir um investimento maciço em infra-estrutura. Como a capacidade de poupança nacional era bastante reduzida, em função da inexistência de remuneração para aqueles que exerciam o trabalho produtivo, a estratégia envolveu a atração de investidores e empresas estrangeiras. Estando o pólo dinâmico do capitalismo internacional localizado na Inglaterra, para cá vieram as corporações como “Light and company”, “Bond and company”, e todas as “railways” que tivemos o direito de acolher. O foco era a geração e a transmissão de energia elétrica, além da organização e exploração econômica dos transportes urbanos (bondes) e interurbanos (trens).

As semelhanças com o Brasil do século XIX

Corta para 2013. A dependência de nosso modelo de política econômica frente à exportação de produtos primários (agricultura e extrativismo mineral) permanece a mesma. O processo de desindustrialização de nossa economia é um fato objetivo e o governo pouco ou quase nada faz para reverter essa tendência destruidora do patrimônio nacional, dos empregos e da renda interna. A prioridade cega e irracional concedida aos interesses do agronegócio e a política da valorização cambial sufocam a indústria que tenta produzir em nosso território. A inundação dos manufaturados importados é justificada como resultado inevitável das chamadas “leis de mercado”, uma suposta fatalidade à qual deveríamos nos acostumar e adaptar. O governo se encarrega de reduzir o “custo Brasil”, ao promover a desoneração irresponsável da folha de pagamentos e generalizar as isenções de tributos para o capital.

Os problemas de nossa infra-estrutura são bem conhecidos há muito tempo. As décadas de ajuste econômico conservador e neoliberal, o processo de privatização e a prevalência da lógica do financismo não podem mais ser utilizadas como desculpa para a inatividade ao longo dos últimos 10 anos. Se no final dos anos 1800 não tínhamos quase nada em termos de transpores e energia, hoje em dia temos muito por construir no conjunto do parque de infra-estrutura. Porém, a exemplo do passado, mais uma vez incorporamos a lógica do neo-colonialismo e saímos por aí, passando o pires pelo mundo afora.

O “road show” e as concessões ao capital internacional

O chamado “road show” protagonizado por estrelas do primeiro time de Dilma é a manifestação mais simbólica da incorporação da lógica da dependência e da submissão. A página do Ministério da Fazenda na internet apresenta a versão em inglês da apresesentação do Ministro Mantega e da publicação impressa a ser distribuída aos interessados. Os títulos sugestivos são, respectivamente, “The Brazilian Economy and Investment Opportunities” e “Infrastructure in Brazil: projects, financing instruments, opportunities”. O problema não reside no fato de sermos apresentados como a oportunidade do momento. E sim nos custos implícitos do conjunto dessas operações de privatização travestidas retoricamente de “mera concessão”. Afinal, tendo em vista as condições que oferecemos para lograr tal objetivo a qualquer preço, a sociedade brasileira vai arcar com o ônus de mais um ciclo de acumulação privada às expensas do dinheiro público.

Essa rodada global, patrocinada por nossos representantes, pontua os elementos positivos do desempenho econômico brasileiro ao longo do período recente e o potencial de crescimento futuro de nossa economia. Até aí, nada de novo. Os grandes investidores internacionais conhecem muito bem as oportunidades abertas para quem se interessa em vir para cá e aplicar os seus recursos. E esse cenário de ganhos continua válido, mesmo depois da corajosa e necessária mudança de postura de nossa Presidenta, que determinou a seus assessores a redução da taxa oficial de juros, a SELIC. A diferença é que a maior parte dos interessados agora deveria estar motivada tão somente pelos ganhos derivados da atividade produtiva ou na área de serviços.

A apresentação menciona a necessidade de um montante total de US$ 235 bilhões, a serem investidos ao longo dos próximos anos em programas de concessão de infra-estrutura. A distribuição desses valores de acordo com os projetos setoriais é a seguinte: i) logística: US$ 121 bi; ii) petróleo e gás: US$ 74 bi; e iii) energia elétrica: US$ 40 bi. Os principais projetos detalhados são:

a) Rodovias: 7.500 km.

b) Ferrovias: 10.000 km.

c) Portos: 159 unidades.

d) Trem de alta velocidade: 511 km.

e) Aeroportos: 2 internacionais.

f) Petróleo e gás: 3 rodadas de leilão para exploração de reservas.

g) Energia elétrica: 33.000 MW de geração e 23.200 km de linhas de transmissão.

As facilidades oferecidas ao investidor estrangeiro

Além disso, o documento procura convencer o investidor estrangeiro a respeito das vantagens em aplicar seus recursos por aqui. Para tanto são ressaltados justamente os aspectos mais negativos e conservadores da política econômica do governo. Ou seja, aquelas medidas que se destinam a beneficiar apenas os interesses do capital em detrimento das necessidades da absoluta maioria da população. E dá-lhe receituário típico das demandas dos colunistas de economia dos grandes meios de comunicação, sempre a serviço dos interesses das associações de empresários e do financismo.

Com todo o orgulho, o texto em inglês reforça o compromisso do governo em reduzir as despesas e o déficit com a previdência social, bem como busca assegurar a continuidade da política de redução dos gastos correntes de forma geral. A apresentação exibe com toda a satisfação o êxito da política de obtenção de superávit primário, de forma sucessiva ao longo dos últimos anos. Por outro lado, tranqüiliza os gestores dos fundos de investimento quanto à continuidade da definição da taxa de câmbio baseada no pressuposto da liberdade cambial. Finalmente, o texto reforça a tendência irreversível para com a desoneração tributária (em especial a da contribuição previdenciária sobre a folha de pagamentos) e com a redução de impostos de uma forma geral. Em poucas palavras, o recado é claro: podem vir que o retorno do investimento está tranqüilo, pois o Estado vai cumprir com seu papel de assegurar seus ganhos.

Não bastasse essa ladainha toda, o governo ainda anuncia medidas que concretizam tais compromissos, com mais pacotes de benesses. Depois do grande “lobby” exercido pelos representantes do capital, Dilma recua e aceita elevar as taxas de retorno previstas para os projetos de concessão. Ou seja, em total oposição ao discurso a respeito da queda da taxa de juros, sua equipe anuncia que as taxas de lucro dos projetos de concessão de infra-estrutura podem chegar a 15% ao ano. Uma loucura, caso consideremos que a taxa real de juros para uma aplicação em títulos da dívida pública fica em torno de 2% atualmente. O conglomerado empreendedor estrangeiro participa de uma licitação patrocinada pelo próprio Estado brasileiro, para gerir um bem ou serviço público, em uma operação quase sem nenhum risco envolvido, com uma demanda garantida por uma eternidade e ainda tem a autorização e o estímulo do governo para auferir esse tipo escandaloso de retorno financeiro. Um absurdo!

Não bastasse tamanha generosidade, sempre realizada com recursos públicos previstos no orçamento, o governo decide por oferecer aos interessados e vitoriosos nas licitações a engenharia financeira do BNDES. Leia-se: o banco “nacional” de desenvolvimento vai participar com aporte de recursos, a custo praticamente nulo, para que os agentes do imperialismo venham aqui dentro explorar atividades econômicas de natureza pública! Imagine-se o que não vai ocorrer dentro de 30 ou 35 anos, quando da renovação de tais contratos. O segredo desse tipo de empreendimento, como qualquer outro, é determinado por uma conta muito simples: o resultado líquido entre receitas e despesas. Aumentar receitas significa ampliar o número de usuários e, principalmente, o valor das tarifas. Diminuir despesas significa processos mais eficientes, mas também reduzir a qualidade dos serviços oferecidos. Os resultados da privatização de telecomunicações e da energia elétrica estão aí para quem quiser refletir sobre tarifa pública e qualidade do serviço. E também sobre a incapacidade das agências reguladoras exercerem seu verdadeiro papel.

Infra-estrutura: interesse estratégico e soberania nacional

Por se tratar de áreas de interesse estratégico para o País, com elevada sensibilidade econômica, política, social, tecnológica, ambiental e de segurança nacional, esse movimento delicado deveria merecer muita mais atenção e preocupação por parte do governo. Vender dessa forma irresponsável uma parcela essencial de nossa capacidade econômica pode trazer conseqüências irreparáveis no médio e no longo prazos. A crise econômica internacional reduziu as taxas de ganho por todo o planeta. Se o Brasil é efetivamente um dos principais pólos de atração para novos investimentos estrangeiros, nossa postura deveria ser muita mais exigente e seletiva na procura dos interessados. Ao invés de oferecer mundos e fundos, deveríamos sim é colocar nossas exigências em termos de contrapartidas. Isso significaria estabelecer condições quanto a re-investimento dos lucros auferidos, internalização de tecnologia aportada, limitação das taxas de retorno financeiro nos projetos, multas para não cumprimento de cláusulas importantes, entre outros aspectos.

Em poucas palavras, seria uma excelente oportunidade para demonstrarmos ao resto do mundo que não existe mais espaço para o servilismo nem para o excesso de cordialidade nas relações econômicas com o capital estrangeiro. Que a partir de agora, o Estado brasileiro iria responder - em primeiro lugar - aos interesses nacionais e soberanos, sempre da perspectiva da maioria de sua população. Porém, como o governo não trabalha com um projeto de País nem com uma estratégia de Nação, vamos cedendo e concedendo o futuro para tocar o ramerrame do dia-a-dia.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

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Arte: O Irã não é uma caverna de lagos sulfurosos e fogo

Sanguessugado do Chá-de-Lima da Pérsia

Arte e Natureza no Parque Laleh em Teerã

 

Será um museu a céu aberto em Teerã?

O parque Laleh,  localizado na avenida Keshavarz em Teerã está recebendo atualmente um festival de Land Art, ou seja, esculturas e instalações que interagem com o meio ambiente. Segundo a organização do festival, todos os materiais utilizados na criação das obras foram retirados da natureza e não agridem o  ambiente. A land art é uma modalidade de arte contemporânea que está começando a ser explorada pelos artistas iranianos com muito sucesso, e muitas se comparam em qualidade com obras de artistas de outros lugares do mundo. O evento é encabeçado pelo artista visual Ahmad Nadalian, que já organizou 30 festivais de land art ao redor da aldeia de Polur, seu local de residência perto do monte Damavand. Nadalian também organizou um grupo de artistas que em breve criará obras de arte em estações do metro de Teerã. O festival do parque Laleh começou neste domingo e permanecerá e até o dia 1º de Abril.

As esculturas interagem principalmente com as árvores do parque

Trazendo formas inusitadas...

E um espetáculo de cores surpreendentes!

Uma atmosfera futurística...

E também nostálgica...

As intervenções ora são sutis...

...ora extravagantes!

O povo do Irã ama as cores

Gostam de relembrar a grandeza de seus antepassados

Ensaiando a liberdade de voar

Entre a discrição e a ousadia

Olhar para a natureza na perspectiva das formigas...

Ou na perspectiva dos humanos?

Recordando que viemos do pó...

Baseado em Payvand

Aébrio, o sem noção, leva uma traulitada inolvidável

GilsonSampaio

Aébrio deve ter ido afogar as mágoas num copo de um bar depois da sessão UFC. O cara é sem noção, acho que pensou estar discursando no Instituto Millenium ou escrevendo no blog dessa 'uma' que anda fazendo a festa da mídia venezuelizada.

 

 

Cuba, a ilha das grandes interrogações

Sanguessugado do Outras Palavras

Leonardo Padura Fuentes

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Discurso de Raul Castro marca fim de um período histórico. E presidente avisa: mudanças mais importantes ainda estão por vir

Por Leonardo Padura* | Tradução: Gabriela Leite

A Assembleia Nacional de Cuba (parlamento) acaba de viver um momento histórico: o instante visível em que começou a se fechar uma etapa transcendente e complexa para a vida do país e abriu-se a porta a um futuro que, não é tão difícil prever, será diferente de muitas maneiras.

O general Raul Castro, reeleito no domingo (24/3) pela Assembleia, como presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros para a legislatura que vai até 2018, ratificou publicamente que, independentemente das modificações que se realizarem na Constituição a respeito do tempo de exercício dos altos cargos, este mandato, que ele inicia com 82 anos, será seu último à frente de seu país.

Quando Raul fazia essa afirmação, estava na primeira fila do plenário, sentado em sua cadeira de deputado, o ex-presidente Fidel Castro (a caminho de seus 87 anos). Teve em suas mãos o destino do país, durante mais de 46 anos. Testemunhou o anúncio que marcou o princípio do fim de um período histórico marcado por sua personalidade e estilo de governo.

A ilha, que agora ingressa numa etapa de encerramentos e aberturas talvez transcendentes, já é por si diferente da que Fidel governava, quando adoeceu gravemente e viu-se obrigado a se afastar do poder — primeiro, de forma provisória; em seguida, de maneira definitiva, em 2008.

A essência do sistema não mudou: mantêm-se intactas a estrutura de partido único, o sistema eleitoral e a economia de caráter socialista. Mas não se pode negar que os movimentos introduzidos por Raul, como parte do “processo de atualização do modelo econômico cubano” — convertido em programa político com os “Alinhamentos da política econômica e social” aprovados pelo VI Congresso do Partido Comunista (2011) — estão mudando a realidade do país. São uma série de medidas econômicas e sociais, com maior ou menor alcance, que, em muitos casos, revertem um modelo político centralizado e estatizado, e começam a dar fisionomia diferente ao cenário social e econômico desta ilha do Caribe.

Entre as mudanças, estão o fim de proibições que limitavam a capacidade de realização pessoal (o acesso à telefonia celular, a possibilidade de comprar e vender casas e carros etc.); as diversas modificações econômicas (ampliação e facilitação de trabalho autônomo, concessão de terras a particulares em regime de usufruto, criação de cooperativas, maior espaço para a comercialização dos produtos agrícolas, concessão de créditos bancários, nova lei tributária, entre outras), e até uma reforma migratória que, pela primeira vez em meio século, permite o livre movimento da grande maioria dos cidadãos.

De forma paralela, o governo de Raul Castro empreendeu outras campanhas. Entre elas, a que visa fortalecer a institucionalidade do país, a de combate à corrupção nos diversos níveis do aparato econômico, a troca de dirigentes à frente de ministérios e instâncias de decisão, e até uma mudança ostensiva no estilo governante. O presidente moveu-se das tribunas, dos discursos e das constantes e custosas convocatórias de mobilizações populares para as reuniões de portas fechadas, onde se fixam objetivos concretos que, em maior ou menor medida, têm influído na vida nacional.

O propósito expresso do atual presidente, ratificado ao tomar posse para novo mandato, é preservar o sistema socialista instaurado na ilha em 1961. Para tanto, tenta superar a ineficiência econômica do país, e promover dirigentes capazes de sustentar as mudanças a médio prazo, quando o próprio Raul e os outros membros de sua geração já não puderem cumprir suas responsabilidades: por idade e, aparentemente, por futura lei constitucional.

Em suas últimas aparições públicas, Raul tem advertido que os movimentos de “atualização” mais importantes ainda estão por vir. Sobre o caráter dessas mudanças, pouco se sabe, ainda que muito se especule.

Sem dúvida, os grandes desafios de qualquer governo em Cuba estariam concentrados na economia: a imprescindível eliminação de uma moeda dupla que deforma a macro, a mini e a economia doméstica; a necessidade urgente de aumentar os salários para aproximá-los às necessidades vitais da população; a facilitação de investimentos estrangeiros capazes de renovar a envelhecida infraestrutura do país; o polêmico e agora indispensável acesso à Internet, sem o qual não é possível pensar em desenvolvimentos individuais, sociais e econômicos na era digital…

Que país, dentro de cinco anos, entregará Raul Castro a seus sucessores? Cuba continua sendo a ilha do melhor tabaco do mundo e das mais amargas interrogações.


* Leonardo Padura [verbete na Wikipedia] é escritor e jornalista cubano, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Seus romances foram traduzidos para mais de quinze idiomas e sua obra mais recente, El hombre que amaba a los perros, tem como personagens centrais Leon Trotsky e seu assassino, Ramón Mercader. Para ler todos os seus textos publicados em Outras Palavras, clique aqui.

Eleições na Itália: a degenerescência da vida política continua – os comunistas no ponto mais baixo desde 1945

Via Resistir.info

AC

Os resultados das eleições legislativas de 25 de Fevereiro confirmam a Itália como um laboratório da degenerescência da vida política tradicional: um centro-esquerda às ordens do capital e da UE, "populismos" canalizando a cólera popular, comunistas apagados.

Para fazer uma ideia das escolhas do capital, basta dar uma olhadela à Bolsa de Milão: indiferente ao resultado do saltimbanco Grillo, eufórica diante do resultado para a Câmara baixa do centro-esquerda Bersani e depois amuada diante do retorno ao Senado do demagogo Berlusconi.

O programa da Confindustria (Confederação da Indústria) é claro: por um lado continuar as "reformas estruturais" e as medidas de austeridade encetadas pelo "ditador" europeu Monti, por outro salvar o Euro e aprofundar a integração europeia.

A escolha número um do patronato e da UE era o antigo comissário europeu Monti, aliado à democracia cristã de Casini e aos ex-neo-fascistas de Fini, no governo alternativo ficaria o antigo ministro de Romano Prodi, Pier-Luigi Bersani.

Se a hipótese de um governo de união Bersani-Monti for suspensa, é certamente o candidato do capital Bersani que sai vencedor por margem estreita na Câmara com 29,7% dos votos e 340 cadeiras (mas 31,6% no Senado sem maioria), ao passo que Monti não totaliza senão 10,5% dos votos e 46 cadeiras.

Bersani, candidato da Confindustria

Para a Confindustria e os meios financeiros, o ex-comunista Bersani é o candidato do "pragmatismo" e do "rigor", aquele capaz de manter a direcção da integração europeia e da austeridade.

O programa de Bersani: manter a Itália no Euro, defender as medidas de austeridade de Monti e ir mais longe nas "reformas estruturais" a começar por uma reforma do trabalho prevendo reduções de contribuições para as empresas em nome da competitividade.

O percurso de renegado de Bersani é uma garantia de segurança para o capital. Homem de aparelho por excelência, o jovem lobo do PCI faz parte da ala "centrista" que pensa e depois executa friamente o processo de liquidação do Partido Comunista durante o ano de 1991.

Firme nas suas posições económicas liberais e europeístas, Bersani foi o ministro da privatização da electricidade e do petróleo em 1999, sob o governo Prodi I, aplicando ao pé da letra as directivas europeias de liberalização.

Ele reincidirá em 2006, no governo Prodi II, liberalizando certas profissões fechadas (táxis, farmácias) e abrindo os transportes urbanos comunais à concorrência privada.

O álibi de esquerda no seu futuro governo: Nichi Vendola, o antigo liquidador da Refundação Comunista, líder do movimento gay e integrista católico, governador da Apúlia louvado pelo ex-patrão da Confindustria e comunista arrependido.

Berlusconi, demagogo embaraçoso e franco-atirador imprevisível para o capital europeu

Neste contexto, o retorno de Sílvio Berlusconi embaraça os meios financeiros e sobretudo o grande capital europeu, com um resultado inesperado de 29% na Câmara e de 30,6% no Senado.

Franco-atirador que serve tanto os interesses de uma fracção do capital italiano como os seus interesses egoístas, mas também portador das aspirações contraditórias dos pequenos empresários: as posições demagógicas do Cavaliere são demasiado imprevisíveis para o capital e a UE.

No seu retorno, Berlusconi alimentou a soberba anti-europeia. Jogando na cólera contra a moeda europeia, Berlusconi praguejou contra a hegemonia alemã mas evitou cuidadosamente pronunciar-se pela saída do euro, centrando suas palavras na reorientação do BCE.

Multiplicando as invectivas contra Mario Monti, o "Homem da Merkel", Berlusconi não deixou de propor retirar a sua candidatura para se alinhar atrás do "Homem de Estado" Monti se este encabeçasse uma coligação de centro-direita.

No plano económico, a soberba demagógica atingiu o máximo com promessas de baixas de impostos beneficiando as empresas e os ricos: redução do IVA, supressão do imposto sobre as residências principais (IMU), baixa do imposto sobre o rendimento, isenções patronais.

Para o capital europeu, as promessas demagógicas e inconsequentes de Berlusconi constituem um perigo neste momento. Por um lado porque mantêm um sentimento anti-europeu. Pelo outro, porque tornam impossível a adopção das futuras reformas estruturais.

Este impasse conduzira em 2009 à demissão forçada de Berlusconi, incapaz de executar a reforma das aposentações, sob pressão da sua base popular. O capital europeu substituiu-o então por Mario Monti que lançou o maior plano de austeridade na Itália desde 1945.

"Nem de direita, nem de esquerda": o populismo de Grillo e os perigos da indiferença (qualunquismo)

Beppe Grillo e o seu Ipad num comício. Mas em termos de populismo descabelado, Silvio Berlusconi talvez haja encontrado o seu mestre. Também ele humorista, mas voluntário, Beppe Grillo, soube manejar a invectiva para fustigar, com uma violência verbal muitas vezes próxima do insulto pândego, a "casta" política italiana.

Com 25,5% dos votos e 110 cadeiras, ele é o grande ganhador do escrutínio. Grillo congrega muito, os decepcionados de todos os lados. Todos unidos numa mesma raiva nascida da crise económica, todos unidos no "Que se vão todos" de Grillo.

O "Vaffanculo" ("Foda-se") que fora a palavra-de-ordem que o havia tornado conhecido em 2007, encontra um novo impulso no "Tutti a casa" (Todos para casa) ou no "Tutti fuori" (Todos para fora).

Poujadista, sobretudo "qualunquista", este velho movimento de fundo de rejeição da política italiana, centrado sobre o supostamente ressentido italiano médio, misturando sentimentos contraditórios entre anti-política e anti-classe política, entre anti-Estado e anti-"ricos".

É isto que faz a unidade do movimento, seu denominador comum é uma rejeição da "classe política" em torno de um programa suficientemente vago para satisfazer tanto os decepcionados da direita como da esquerda.

"Nem esquerda, nem direita: contra a casta política", é o discurso de Grillo em tempo de crise, portador igualmente de perigos.

O "Movimento 5 estrelas" de Grillo nasceu dos movimentos cívicos de base, nomeadamente pela água pública, classificados à esquerda, mas funciona doravante sobre uma relação orgânica entre um "chefe", tribuno e salvador, e uma "massa" subjugada por suas diatribes inflamadas nas praças.

Grillo pragueja com veemência nestes comícios, grita bem alto o que o patrão do Norte, ex-eleitor da Liga do Norte, anti-Estado e racista, ou o intelectual precário do Centro, decepcionado da esquerda, ligado ao serviço público e à ecologia, pensa de modo cada vez menos baixo.

Mas Grillo diz tudo e o seu contrário:   diminuir os impostos sobre as empresas para relançar o crescimento mas lançar uma transição ecológica para o decrescimento, defender certos serviços públicos como a água mas enfurece-se contra os sindicatos e os funcionários efectivos.

Sobre as questões da sociedade, Grillo é o primeiro a defender a "democracia participativa" mas numa relação quase pessoal com o chefe, ele é pela luta contra a moeda única europeia mas também contra as vagas de imigração extra-europeias que ameaçam a Itália.

As posições de Grillo são a ilustração de uma radicalização real de partes importantes da população italiana, de classes médias desqualificadas, uma população sem referências nem perspectiva política coerente, sujeita a todas as recuperações populistas e potencialmente reaccionárias.

Os comunistas no ponto mais baixo desde 1945: uma aliança táctica que não compensa

Face a este quadro desolador de uma vida política italiana em plena decrepitude, a necessidade de um Partido Comunista italiano forte faz-se sentir mais do que nunca.

Lamentavelmente, a escolha efectuada pelos dois partidos comunistas italianos (PdCI e Refundação comunista), a de um apagamento táctico, apadrinhada estrategicamente pelo Partido da Esquerda Europeia (PEE), não se revelou eleitoralmente compensadora.

Os comunistas italianos haviam feito a aposta, para retornar ao Parlamento, de se apagarem por trás de uma lista unitária, com os Verdes e o partido centrista "Itália dos valores" do juiz Antonio di Pietro, uma lista conduzida pelo juiz anti-máfia, o íntegro Antonio Ingroia.

Após o fracasso da tentativa liquidadora da equipe dirigente Bertinotti-Vendola em 2008, com a Esquerda arco-íris que havia rebaixado os comunistas italianos de 9% para 3% e os havia excluído do Parlamento, os comunistas caem ainda mais.

Com 2,2% na Câmara dos Deputados e 1,8% no Senado para a "Revolução civil" de Ingroia, os comunistas não retornarão ao Parlamento. Eles arrastam consigo o partido centrista "Itália dos Valores" que havia obtido 4,5% dos votos em 2008 e conseguido 29 deputados.

Partindo de um potencial de cerca de 9% em 1008, a lista da "Revolução civil" de Ingroia cai para 2% nas duas câmaras, longe das previsões das sondagens que lhe davam um teto de 4-5%.

Ingroia e os dirigentes da Refundação comunista denunciaram a seguir o blackout mediático de que a lista foi vítima e lamentaram sobretudo que o PD não tenha levado em conta as propostas de aliança da coligação, preferindo tratar com Monti.

"Bersani preferiu a opção suicidária da aliança com Monti ao invés da aliança connosco: contundo nós lhe havíamos proposto mas ele nunca respondeu", lamentou-se Ingroia.

Paolo Ferrero, secretário da Refundação comunista, acrescentou: "ficámos presos entre o voto útil de Bersani e o resultado de Grillo: propusemos o diálogo ao PD mas a porte ficou fechada".

Em Fevereiro último havíamos exposto nossas dúvidas sobre as escolhas de alianças eleitorais dos comunistas italianos, nossos camaradas do PdCI desejaram defender uma aliança que consideravam indispensável para salvar uma representação parlamentar.

As escolhas tácticas hesitantes dos nossos camaradas provocaram o debate na Itália. Após novo revés eleitoral, eles sem dúvida continuarão a debater do outro lado dos Alpes. Os comunistas italianos são os únicos a julgar suas orientações estratégicas e tácticas.

Em todo caso, na Itália como alhures, o povo tem necessidade mais do que nunca de um Partido Comunista à altura do nosso tempo para travar a luta contra os políticos ao serviço do capital, contra aqueles que os põem a actuar à "esquerda" e aqueles que tentam recuperar a cólera popular para conduzi-la rumo a perigosos impasses.

O original encontra-se em solidarite-internationale-pcf.over-blog.net/...

Dom Pedro Casaldáliga: DEIXA A CÚRIA, PEDRO

Via Revista Consciência.net

Dom Pedro Casaldáliga em 26/02/2013

(Poema de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia para reflexão pós-renúncia do papa)

Deixa a Cúria, Pedro,

Desmonta o sinedrio e as muralhas,

Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados

pelas palavras de vida, temor.

Vamos ao jardim das plantações de banana,

revestidos e de noite, a qualquer risco,

que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.

A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,

tantos gritos de crianças sem resposta,

e memória bordada dos mortos anônimos.

Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente

e César os abençoa a partir da sua arrogância.

Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.

O povo é apenas um “resto”,

um resto de esperança

Não O deixe só entre os guardas e príncipes.

É hora de suar com a Sua agonia,

É hora de beber o cálice dos pobres

e erguer a Cruz, nua de certezas,

e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,

e amanhecer

a Páscoa.

Diga-lhes, diga-nos a todos

que segue em vigor inabalável,

a gruta de Belém,

as bem-aventuranças

e o julgamento do amor em alimento.

Não te conturbes mais!

Como você O ama,

ame a nós,

simplesmente,

de igual a igual, irmão.

Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,

o peixe da alegria,

o pão da palavra,

as rosas das brasas…

… a clareza do horizonte livre,

o mar da Galileia, ecumenicamente, aberto para o mundo.

(Pedro Casaldáliga, Bispo)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Discussões sobre a Síria: “A Rússia assume o centro do tablado”

Sanguessugado do redecastorphoto

MK Bhadrakumar*, Indian Punchline

Russia takes centre stage on Syria

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sergey Lavrov anuncia conversações de paz na Síria ao lado de Mohamed Kamel Amr

A Rússia deu grande e importante passo para consertar as pontes com a Liga Árabe, com uma minuta de um Plano de Ação para o Fórum Russo-Árabe (FRA) [orig. Action Plan for the Russian-Arab Forum [RAF]).

O FRA foi deixado à espera, enquanto as relações da Rússia com a Arábia Saudita e o Qatar desmontaram-se, com o advento do conflito na Síria e as inúmeras incertezas que surgiram no Oriente Médio trazidas pela Primavera Árabe.

O Plano de Ação afirma que não há contradições fundamentais entre a Rússia e o mundo árabe, no que tenha a ver com as questões nucleares do conflito entre árabes e israelenses e do problema palestino, ou quanto ao estabelecimento no Oriente Médio, de zona sem armas nucleares e de “cooperação internacional na esfera da energia nuclear pacífica”.

Clara indicação de que o conflito na Síria caminha para negociações políticas, e de que a Rússia espera desempenhar papel decisivo no processo, é que a primeira reunião do FRA tenha acontecido em Moscou, na 4ª-feira. A declaração conjunta distribuída depois da reunião destaca um alto grau de convergência no que tenha a ver com a situação síria.

Os dois lados rejeitaram intervenção estrangeira e reafirmam seu respeito à soberania, independência, integridade territorial e unidade da Síria; mais importante que isso, já tocaram em modalidades de “transição” para a Síria.

Sugeriram que se deve iniciar um processo político, depois de imediato cessar-fogo, o que levará “a formar um corpo de governo de transição com plenos poderes executivos para atravessar o período de transição e transferir o poder em prazo a ser acordado”. Claro: “todos os sírios” devem participar no processo político.

Interessante, a declaração conjunta cita o Comunicado de Genebra, de junho de 2012, como base fundamental do processo de paz. (A Rússia argumentou, consistentemente, que o regime sírio deve também participar do processo de paz).

Walid al-Mualem

O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse, depois da reunião do Fórum Rússia-Árabes, que Moscou deseja hospedar um diálogo entre os próprios sírios. O ministro sírio de Relações Exteriores, Walid al-Mualem é esperado em Moscou na 2ª-feira; e também já se cogita de visita à Rússia, em março, do líder da oposição síria, Moaz al-Khatib.

As coisas parecem estar começando a melhorar. O Ministério de Relações Exteriores em Moscou já parece arriscar-se a anunciar boas novas: “Hoje [5ª-feira] ouvimos que há sinais de movimentação rumo a um diálogo entre o governo sírio e a oposição”.

Além do mais, o MRE da Rússia tuitou as seguintes observações, atribuídas a Lavrov:

Nós [a Rússia] fizemos belo trabalho para convencer a liderança síria a cooperar com a liga árabe, à base desse iniciativa.

E em seguida:

A Rússia apoiou a ideia de enviar observadores da Liga Árabe à Síria.

E outra vez, interessante:

Importante é que a prontidão para o diálogo manifestada pela oposição síria foi respondida com igual prontidão pelo governo.

Nabil al-Arabi

Lavrov “convocou” fortemente o regime sírio, na presença do Secretário-Geral da Liga Árabe, Nabil al-Arabi (que estava em Moscou na 4ª-feira, para a reunião do FRA):

A necessidade de iniciar um diálogo torna-se cada dia mais clara. Nenhum dos dois lado pode permitir-se apostar em solução militar, que é caminho para lugar algum, uma via para a autodestruição.

Significativamente, o Ministro de Relações Exteriores do Egito, Mohamed Kamel Amr participou da reunião do Fórum Rússia-Árabes. É a segunda visita de Amr a Moscou, nos últimos dois meses. O Egito deve assumir agora a presidência rotativa da Liga Árabe.

As atenções agora se mudam para Roma, onde, na 5ª e 6ª-feiras, reúnem-se os países que clamam por “mudança de regime” na Síria – EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Qatar, Arábia Saudita, Turquia, etc. Será a primeira vez em que se verá o novo Secretário de Estado dos EUA John Kerry em ação oficial, na questão síria.

Com as pombas da paz ansiando por abrir asas e decolar rumo aos céus de Moscou, o encontro em Roma terá de haver-se com a adequação ou não de insistir em bater os tambores de guerra. Ações dos EUA para armar os rebeldes sírios parecem hoje ainda mais improváveis.

Isso posto, e apesar de retiradas táticas, a estratégia dos EUA não mudou fundamentalmente. A prioridade imediata será trabalhar para formar um governo de transição na Síria que não seja “antiocidente” e que Washington espera conseguir influenciar.

Ao mesmo tempo, os EUA esperam que as forças do governo sírio e os radicais islamistas continuem a enfraquecer-se mutuamente, e que, a cada dia enfraqueçam-se mais. Do ponto de vista dos EUA, a era pós-Bashar al-Assad já pode começar, apesar de o espectro da al-Qaeda instilar dúvidas sobre qualquer apressamento na dinâmica em campo.

O coração da questão é que a crise síria já modificou o equilíbrio estratégico regional. A ruptura nos laços entre o Hamás e Damasco, o surgimento de tensões sectárias entre xiitas e sunitas, o isolamento do Irã no mundo árabe – são condições que já mostraram inabalável potencial para “gerenciar” a crise síria num largo espectro, com vistas a calibrar outras questões regionais, como a questão nuclear do Irã, o problema palestino, a intransigência dos israelenses, etc..

Principal objetivo da missão dos Patriots na Turquia: proteger o radar da OTAN

Mais uma vez, em escala mais ampla, o conflito sírio já ofereceu o álibi para que os EUA instalem seu sistema de mísseis de defesa na Turquia, embora, de fato, o objetivo real seja outro (como se lê no jornal do Departamento de Defesa dos EUA, 20/2/2013, Patriots'  Main Mission in Turkey: Protect NATO Radar [Principal objetivo da missão dos Patriots na Turquia: proteger o radar da OTAN]).

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

As ideias transformam-se em forças quando as massas as assumem

Via O Diario.info

Miguel Urbano Rodrigues

O povo é o agente das grandes rupturas históricas. Mas para que ele se assuma como sujeito é imprescindível um nível de consciência politica hoje insuficiente em Portugal. Não estamos no limiar de uma situação pré-revolucionária; longe disso. Os tempos são sombrios e no horizonte próximo esboçam-se novas agressões ao povo por um governo de contornos fascizantes.

Mas paralelamente a resistência popular crescerá em torrente. Uma certeza: as massas derrotarão nas ruas e nos locais de trabalho o projeto da ditadura da burguesia.

 

Tenho escrito repetidamente que Portugal vive sob uma ditadura da burguesia de fachada democrática.

A afirmação tem suscitado reparos de camaradas. Alegam que a situação é muito diferente da existente na época do fascismo, com a crise a evoluir num quadro institucional garantido por uma constituição democrática.

Creio útil esclarecer algumas questões fundamentais.

A minha afirmação não estabelece um paralelo entre o regime instaurado por Salazar e o atual.

A relação de forças é hoje muito diferente da anterior ao 25 de Abril. Não existe a figura de um ditador e o governo PSD/CDS não é homogéneo, sequer ideologicamente. Há ministros que se distanciam da mentalidade dos homens de confiança de Salazar e Caetano. Mesmo no triângulo Passos- Gaspar- Relvas as contradições são inocultáveis.

Os três cultivam o discurso do «possível». Não podem expressar- se como os ministros de Salazar.

O fascismo contou durante décadas com o apoio incondicional das Forças Armadas. O Poder Judicial era então um dócil instrumento do governo. A repressão nas suas múltiplas frentes é hoje inviável à moda antiga.

O mal-estar nas Forças Armadas é transparente. Mas o governo não pode recorrer ao Exercito para reprimir maciçamente os protestos populares. O descontentamento dos militares exclui porem a hipótese de um golpe de estado. O funcionamento das engrenagens da União europeia não é compatível com cuartelazos. O grande capital recorre hoje a outros meios para impor a sua estratégia de dominação.

O controlo do sistema mediático substituiu a censura como meio eficaz de proteção e difusão subliminar da ideologia do Poder.

Mas a impossibilidade de Passos & Portas se expressarem e governarem como desejariam não altera o seu pensamento politico. Sob uma fraseologia pseudodemocrática é identificável uma mentalidade aparentada com a de Salazar e sua gente.

O executivo – repito - não é homogéneo. Mas alguns ministros e deputados da coligação escondem mal afinidades ideológicas com a ordem social do fascismo. Dela se sentem mais próximos do que do neoliberalismo ortodoxo de Friedrich Hayek.

O malogro inocultável da «estratégia de austeridade» obrigou o governo a reconhecer finalmente que não atingiu os objetivos fixados. A recessão será pelo menos o dobro da prevista no Orçamento. Passos & Gaspar imploram agora que lhes seja concedido mais um ano para a redução do défice do Orçamento. A troika, em mais uma visita a Portugal, certamente lhes atenderá o apelo. E, negando o que afirmavam semanas atrás, falam pela primeira vez da necessidade de crescimento económico para combater o desemprego galopante (já superior a l7 %).

Os «produtores de opinião», empenhados em evitar a subida da maré da indignação popular, adotaram também um estilo diferente, acompanhando a mudança da oratória oficial. Persistem na crítica superficial a medidas do governo, mas insistem que não há alternativa para a política de submissão ao diktat do capital. Admitem a urgência da renegociação dos prazos impostos pelo pacto assinado com a troika, mas concluem que a redução de 4000 milhões de euros nas despesas da Saúde, da Educação e da Segurança Social é para eles uma fatalidade inevitável.

O mais influente desses intelectuais orgânicos da burguesia, Marcelo Rebelo de Sousa, descobriu subitamente uma estranha metamorfose no Primeiro-ministro. Com surpresa identifica nele um político dialogante, aberto à crítica. Fala de um «novo» Passos.

Outro bombeiro do capital, José Gomes Ferreira, repete, incansável, que não há alternativa para a ofensiva que Gaspar prepara contra a Área Social.

Muitos intelectuais progressistas, sem disso tomarem consciência, refletem na sua intervenção politica os efeitos do discurso de uma burguesia cada vez mais arrogante no esforço para branquear o fascismo, reescrevendo a Historia.

A campanha para apresentar a ditadura de Salazar como um regime autoritário quase benigno colocou na moda a expressão «Estado Novo». É de lamentar que alguns historiadores marxistas temam já empregar a palavra fascismo.

Cabe relembrar o que Thomas Mann escreveu em 1951: «se nada mais me levasse a respeitar a Revolução Russa, seria a sua inabalável oposição ao fascismo».

AS VAIAS A RELVAS E SEUS PARES

A solidariedade com a direita – inconfessada mas concreta - de dirigentes políticos do PS e da chusma de comentadores e analistas da TV ficou transparente nas reações aos protestos populares dos últimos dias.

Tudo principiou com as vaias a Miguel Relvas, quando o ministro de Estado foi repetidamente vaiado no Norte e depois impedido de falar no ISCTE por estudantes que cantaram ali o Grândola Vila Morena.

Passos Coelho na Assembleia da Republica e os ministros da Economia, da Defesa, da Administração Publica, da Agricultura e alguns secretários de Estado também escutaram a canção que assinalou o início da Revolução de Abril. Esses protestos populares assumiram tal frequência e amplitude que os membros do governo alteram os horários e saem pelas traseiras dos edifícios públicos onde são recebidos com cartazes de repúdio pela política da coligação reacionária. Mais de uma vez a PSP e a GNR identificaram os manifestantes como se fosse crime entoar nas ruas Grândola Vila Morena.

Por si só o argumento de que vaiar Passos e sua gente configura atentado à liberdade de expressão é definidor da opção politica das personalidades que que criticam essas manifestações.

A cumplicidade com o Poder de influentes comentadores das mesas redondas é tão transparente que alguns, em gesto de humor negro, afirmam que a imagem pública de Relvas melhorou desde o boicote e as vaias do ISCTE.

AS MASSAS COMO SUJEITO NA HISTÓRA

É chocante que António José Seguro, António Costa, Vitorino e outros destacados dirigentes socialistas tenham condenado esses episódios recorrendo a uma linguagem acaciana.

Tal atitude é esclarecedora do que se pode esperar do PS no desenvolvimento da crise, agarrado como está ao memorado da troika como lapa à rocha.

É muito significativo que Francisco Assis tenha na semana passada defendido para a próxima legislatura um governo PS-PSD e elogiado Paulo Portas.

Coloco a questão porque o regresso do PS ao Governo me aparece como quase inevitabilidade após as próximas eleições legislativas, provavelmente antecipadas.

Na logica do funcionamento do sistema, vai ocorrer uma deslocação de votos do PSD e do CDS para o PS para punir a equipa Passos – Portas.

Tudo indica que vamos assistir a uma dramática repetição das últimas farsas eleitorais.

Teoricamente, seria possível através do voto eleger uma Assembleia empenhada em levar adiante uma política progressista. Mas é uma ilusão romântica acreditar que isso vai acontecer. O PS e o PSD, somados, obterão mais uma vez uma ampla maioria. As engrenagens do sistema não conduzem a outra saída.

Porquê se a maré da indignação sobe torrencialmente, se a grande maioria da população repudia hoje a política do governo que levou o país à ruina e milhões de famílias à miséria?

Para se compreender a contradição é necessário tomar plena consciência de que o País está submetido – insisto- a uma ditadura de classe encoberta por uma enganadora fachada democrática.

A vigência de uma Constituição que garante liberdades e direitos fundamentais - muitos deles desrespeitados - não impede que a classe dominante exerça o poder discricionariamente, impedindo na prática – excepto na área das autarquias – a participação popular. Esta está reduzida ao voto, mas as escolhas do eleitorado são condicionadas por mecanismos controlados pelo capital. Os jornais e os audiovisuais encontram-se hegemonicamente nas suas mãos. A tão falada liberdade de expressão esconde a evidência: a liberdade dos proprietários dos media.

Outro factor impeditivo de uma vitória eleitoral de forças progressistas é aquilo que Marx, com clareza meridiana, definiu como «alienação».

A grande maioria dos cidadãos eleitores, incluindo uma parcela ponderável dos trabalhadores, não transformou ainda a consciência de classe em consciência política interveniente.

Sabe o que não quer, mas sente enorme dificuldade em atuar em defesa dos seus interesses. O avolumar dos grandes protestos «espontâneos» traduz bem essa realidade. Eles são positivos, mas insuficientes para enfrentar o poder da classe dominante.

As condições objetivas para a passagem dos protestos de uma juventude indignada à luta organizada contra o Poder são muito favoráveis.

A contribuição para esse objetivo da CGTP nos últimos meses, desde que Arménio Carlos assumiu a Coordenação da central sindical, tem sido muito importante.

Creio que a releitura do «Que fazer» de Lenin é muito útil nestas vésperas de grandes lutas sociais. Foi a sua grande contribuição para a construção do partido revolucionário de novo tipo. Mas o que lhe confere maior atualidade é a reflexão criadora do papel da vanguarda como única força capaz de mobilizar as massas organizadamente. Com fins bem definidos na luta contra o Poder que as oprime.

Não pretendo obviamente estabelecer qualquer analogia entre a situação existente na Rússia imperial antes da Revolução de 1905 e a que vivemos hoje em Portugal. Mas os ensinamentos de Lenin sobre o papel da vanguarda permanecem válidos.

Sem participação intensa do povo não há democracia autêntica (palavra de que se usa e abusa em Portugal onde ela é uma fachada).

O povo é o agente das grandes rupturas históricas. Mas para que ele se assuma como sujeito é imprescindível um nível de consciência politica hoje insuficiente em Portugal.

Não estamos no limiar de uma situação pré-revolucionária; longe disso. Mas é cada vez ampla a convicção de que as coisas não podem continuar como estão. Eric Hobsbawm enuncia uma evidência ao afirmar que «as ideias não se transformam em forças até se apoderarem das massas» *. E isso é muito difícil, lento. Uma tarefa da vanguarda (no caso português o PCP) que exige muita paciência, quase magia, como lembra o historiador britânico.

Os tempos são sombrios e no horizonte próximo esboçam-se novas agressões ao povo por um governo de contornos fascizantes.

Mas paralelamente a resistência popular crescerá em torrente. Uma certeza: as massas derrotarão nas ruas e nos locais de trabalho o projeto da ditadura da burguesia.

*Eric Hobsbawm, «Como Mudar o Mundo-Marx e o Marxismo, 1840-2011», pág. 182,Editora Companhia das Letras, São Paulo 2011

Serpa e Vila Nova de Gaia, 23 de Fevereiro de 2013

Reunidos no próximo Conclave, os cardeais apenas escolherão o novo pontífice: não serão capazes de salvar a Igreja.

Via Jornal do Brasil

Eis o Homem

“Para isso é preciso voltar ao Concílio Vaticano II e ir muito além; é preciso retornar à fraternidade primitiva dos cristãos. Cristo, dizem-nos os Evangelhos, recomendou, ao moço que queria segui-l'O, que antes se desfizesse de seus bens, distribuindo-os aos pobres.”

Mauro Santayana

A mais forte frase do Evangelho é a de Pilatos, ao exibir Cristo, ensanguentado e humilhado ao extremo pelos seus algozes, à  multidão enfurecida: "Eis o homem". Como outras passagens dos textos que a fé autêntica — mais do que as provas históricas — as duas palavras ditas em latim, pronunciadas por um romano, são, em si mesmas, todo um enunciado teológico.  Pilatos não mostrava um criminoso, nem um inimigo de Roma, mas o homem. Cristo não era um homem qualquer, em sua individualidade, mas O Homem, ser coletivo e único no conjunto da vida, dotado da consciência do bem e do mal.

Pilatos, evidentemente, não tinha essa clareza do significado. Queria dizer apenas que se era Cristo  quem eles queriam, ali estava o homem, para que decidissem entre ele e Barrabás.  Em um só homem frágil, açoitado e vilipendiado, estava todo o Mistério e todo o poder da Vida.

Sobre a fragilidade física de Cristo é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs

O cristianismo se funda na absoluta fragilidade dos seres humanos. Um poema anônimo espanhol do século 16 vai à mesma verdade. O poeta desdenha o oportunismo medieval que, em nome de Cristo, ameaça com o inferno e promete o céu, e vai ao núcleo da sua fé: “Tú me mueves, Señor, muéveme el verte / clavado en una cruz y escarnecido,/ muéveme ver tu cuerpo tan herido/ muévenme tus afrentas y tu muerte.

Sobre essa emblemática fragilidade física, que chega a comprometer a resistência do espírito nos momentos finais, em que o Crucificado se queixa do Pai, por tê-l'O abandonado aos carrascos, é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs — a Católica e as que, em protesto pelos seus desmandos no alvorecer do século 16, surgiram como falsas restauradoras da fé primitiva.

Instituição política, estabelecida na velha associação entre o poder temporal e o senso do Absoluto, a Igreja se pretende eterna. Ora, os 16 séculos de sua existência não são tanto tempo assim na História.  O cristianismo não é  seita judaica, nem  religião monoteísta como as outras. Sua mensagem é mais do que o alento à consciência de mortalidade dos homens: é necessária para que possamos construir aqui — e agora — o nosso pleno destino. Nesse mandamento, esquecido, está a salvação da espécie humana e, provavelmente, a salvação de toda a vida no planeta.

É preciso voltar ao Concílio Vaticano II e retornar à fraternidade primitiva dos cristãos

A Igreja se encontra, nestes dias, como o pecador junto ao confessionário — e o sacerdote que a ouve é a consciência do mundo. Para purgar os seus pecados não bastam as preces de contrição. Reunidos no próximo Conclave, os cardeais apenas escolherão o novo pontífice: não serão capazes de salvar a Igreja. Só os cristãos autênticos, aqueles que entenderam a frase enigmática de Pilatos, poderão salvá-la, participem ou não da Hierarquia. Para isso é preciso voltar ao Concílio Vaticano II e ir muito além; é preciso retornar à fraternidade primitiva dos cristãos. Cristo, dizem-nos os Evangelhos, recomendou, ao moço que queria segui-l'O, que antes se desfizesse de seus bens, distribuindo-os aos pobres.

É um conselho, a ser seguido pelo Vaticano e pelas ricas dioceses espalhadas na Terra. E por todas as outras confissões que também se dizem cristãs e da mesma forma se afastaram do Nazareno.

Israel permite exploração de petróleo nas colinas do Golã

Via BBC Brasil

Guila Flint

De Tel Aviv para a BBC Brasil

     

Foto de arquivo das colinas do Golã, ocupadas por Israel em 1967 (Reuters)

Colinas do Golã foram ocupadas por Israel na guerra de 1967

O Ministério de Energia de Israel concedeu licença para que uma empresa privada conduza escavações em busca de petróleo no sul das Colinas do Golã – território sírio ocupado durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Para analistas consultados pela BBC Brasil, a polêmica medida do governo israelense desafia a lei internacional e tem relação direta com a atual crise do Estado sírio.

A licença foi concedida à empresa Genie Energy, dirigida pelo conhecido político de extrema-direita Effie Eitam, que mora na comunidade agrícola Moshav Nob, no Golã.

"A decisão do governo, de justamente iniciar agora a exploração de petróleo, pode decorrer do caos que vigora na Síria", afirma à BBC Brasil o ex-diretor do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Alon Liel. "Nestas circunstâncias, em que a Síria se encontra em plena guerra civil, não há quem fale em nome do Estado."

A porta-voz do ministério da Energia, Maya Etzioni, confirmou à BBC Brasil a concessão da licença à empresa Genie.

De acordo com Etzioni, "esta é a primeira vez que o governo israelense concede uma licença para exploração de petróleo no Golã".

"Se isso tivesse acontecido há alguns anos, haveria protestos da comunidade internacional e do próprio governo sírio, mas agora, em meio à desintegração da Síria, ninguém menciona esse assunto", opina Liel.

Lei internacional

Segundo o especialista em direito internacional Guy Harpaz, da Universidade Hebraica de Jerusalém, "a lei internacional proíbe a extração de riquezas naturais de territórios ocupados".

"Para a comunidade internacional, Golã é um território ocupado, embora Israel tenha promulgado a lei da anexação dessa região em 1981", afirmou o jurista.

"A lei internacional só permite a exploração de recursos naturais para fins de segurança ou para o bem da população civil sob ocupação. Neste caso, é claro que os lucros com a exploração do petróleo no Golã não irão beneficiar nem a segurança nem os habitantes sírios que restaram nessa região", acrescentou.

Segundo o porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Yigal Palmor, "toda essa questão não é relevante neste momento, pois não se trata ainda de exploração do petróleo no Golã, mas sim de buscas preliminares, ainda nem sabemos se existe petróleo lá".

"As colinas do Golã estão, de fato, sob soberania israelense, portanto do ponto de vista legal o governo de Israel tem autoridade de atuar nessa região", disse Palmor à BBC Brasil, "é claro que, no futuro, a questão da soberania terá que ser acertada com o lado sírio, mas todos sabem que neste momento não existe um parceiro com o qual seja possível negociar do lado sírio".

A empresa Genie Energy tem acionistas estrangeiros como o banqueiro Jacob Rothshild e o magnata da mídia Rupert Murdoch.

O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney é um dos consultores da Genie.

Potencial

De acordo com testes preliminares executados pela empresa, existe um potencial de descoberta de grandes quantidades de petróleo na região sul das colinas do Golã.

Esta não é a primeira vez que Israel explora petróleo em territórios ocupados.

No passado, empresas israelenses extraíram petróleo na Península do Sinai, território egípcio também tomado durante a guerra de 1967 e devolvido após acordo de paz em 1979.

Até hoje existe um processo pendente do Egito contra Israel, exigindo indenização pelas extração dos recursos do território.

"Considero a decisão de explorar petróleo no Golã um erro", opina o ex-diplomata Alon Liel. "Mesmo se agora não há quem fale em nome da Síria, no futuro teremos que fazer um acordo de paz com esse país."

Confira música cubana em homenagem ao Movimento Agroecológico

Via MST

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Governabilidade passa pelo Vaticano e Edir Macedo

Via PCB

Não dá para negar: com isenção de impostos para uns e dinheiro através de publicidade institucional para outros, o PT vai comprando a fé alheia...

Brasil: estado laico?

O Olhar Comunista inicia a semana comentando os arquivos vazados pelo Wikileaks nos últimos dias, reveladores da relação entre o Palácio do Planalto com o Vaticano e o "bispo" Edir Macedo.

Segundo revelam os documentos da diplomacia dos EUA, o acordo que rege as relações entre Brasil e Vaticano - a "Concordata" - foi feito entre Lula e Bento XVI para "acalmar os católicos" diante das benesses concedidas a evangélicos. Hoje, o tratado (pelo qual a Igreja Católica reivindica a obrigatoriedade do ensino de religião em escolas públicas, o acesso às reservas naturais para missionários e a isenção de impostos) é alvo de ação por inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal.

Afirmou isso o atual presidente da Câmara Municipal de São Paulo, vereador José Américo (PT), em uma conversa colhida por diplomatas norte-americanos.

Outro assunto abordado pela diplomacia dos EUA é o uso de jovens padres. "Américo também apontou para a potencial influência política dos católicos carismáticos, muitas vezes representados por jovens padres que cantam e são apresentadores com talento, e para um forte potencial para mobilizar votos para o PT", atesta o documento.

Já sobre os evangélicos, o presidente do PT e também deputado estadual por São Paulo Rui Falcão afirmou a diplomatas norte-americanos que o Governo Federal os usaria através da publicidade institucional.

“Antes limitado a publicações católicas, o governo está colocando mensagens de serviço público em publicações da Igreja Universal do Reino de Deus, uma igreja controvertida que tem sido investigada pelo governo por corrupção”, afirmou o telegrama da diplomacia dos EUA.

Não dá para negar: com isenção de impostos para uns e dinheiro através de publicidade institucional para outros, o PT vai comprando a fé alheia...

Rússia e China lidam com o futuro do Mali

Via O Diario.info

M K Bhadrakumar (Asia Times Online)

No Conselho de Segurança da ONU a Rússia e a China transigiram com a agressão à Líbia, condenaram a agressão à Síria, e agora não se pronunciam claramente acerca de intervenção francesa no Mali. Interpretar este lamentável ziguezague ajuda a compreender melhor a complexidade da evolução da situação mundial, e a crescente ambição da ofensiva imperialista em curso.

Diz o adágio que “dos escaldados nascem os avisados”. Rússia e China afirmam que ficaram escaldados quando o Ocidente virou de pernas para o ar a resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas e avançou com a invasão da Líbia. Moscovo e Pequim contornaram a questão quando o Ocidente tratou de fazer na Síria o mesmo que tinha feito na Líbia. Quando o Ocidente apresentou sucessivos projectos de resolução sobre a Síria, bloquearam o assunto.

Por isso constitui uma surpresa que os dois países perdessem a cautela e se tivessem deixado enrolar outra vez, agora no que diz respeito ao Mali.

Curiosamente, Moscovo e Pequim ainda não fizeram comentários sobre a intervenção francesa no Mali, que saltou para a ribalta como facto consumado e que se transformou rapidamente numa acção ocidental concertada no decurso da semana passada. A mãe de todas as ironias é que a acção no Mali é de muitas formas o resultado directo da intervenção ocidental na Líbia, que Moscovo e Pequim condenaram com ilegal.
Todavia ainda é cedo, e a ideia em Moscovo e Pequim pode ser esperar e ver o que acontece. Peritos russos e chineses consideram que a missão francesa vai a ser prolongada e improdutiva.

Entretanto Paris fez uma surpreendente afirmação no sentido de que Moscovo “se propôs fornecer meios de transporte” para a instalação de tropas francesas no Mali. A Rússia não confirmou nem desmentiu essa afirmação francesa, que teve lugar no sábado depois de uma conversação telefónica entre os dois ministros dos exteriores.

Sem dúvida, a intervenção ocidental no Mali tem implicações para a política das grandes potências e para a coordenação da Rússia com a China no que diz respeito a temas regionais. Sem dúvida, há implicações para a “Primavera Árabe” – e também para Síria a curto prazo.

A França afirma que respondeu a um pedido de ajuda do governo estabelecido no Mali. Mas em Março do ano passado o Mali sofreu um golpe militar, dirigido por um oficial formado nos EUA, o capitão Amadou Haya Sanogo.

Embora fosse um modesto capitão, Sanogo foi um frequente visitante dos EUA – nada menos de sete vezes nos últimos oito anos. É seguro que Sanogo tem poderosos patrocinadores estrangeiros. Desde Março Mali tem tido tantos golpes e contragolpes que já se perdeu a conta e todos eles levados a cabo por um exército que foi armado e treinado pelos EUA.

Portanto, a França faz uma afirmação falsa no que diz respeito a um convite formal feito por um governo legítimo. A França nem sequer se preocupou em pedir um mandato da ONU. A resolução do Conselho de Segurança de Dezembro passado foi específica ao outorgar mandato a uma força africana dirigida por africanos, e o que se esperava era uma expedição a iniciar-se à volta de Setembro de 2013, quando fosse concluído pela ONU o seu treino e equipamento.

Entretanto, a retórica já obscurece a dura realidade. O primeiro ministro britânico David Cameron disse:
“Estamos enfrentando um grupo terrorista extremista, islamita, vinculado a Al Qaeda. Quer destruir o nosso modo de vida, crê em assassinar tanta gente quanta possa. Tal como tivemos que enfrentar algo semelhante no Paquistão e no Afeganistão, da mesma forma o mundo tem que se unir para enfrentar esta ameaça no Norte de África.

Trata-se de uma ameaça global e requererá uma resposta global. Requererá uma resposta que tem que ver com anos, inclusivamente décadas, em lugar de meses. Requer uma resposta paciente e responsável, dura mas também inteligente, mas que sobretudo tenha uma determinação absolutamente férrea e isso o que iremos concretizar no decurso dos próximos anos”.

Reconquista total

Naturalmente, as potências ocidentais estão a cerrar fileiras. O Pentágono revelou que o seu avião militar C-17 tem estado a transferir soldados e equipamento franceses e que está a considerar a mobilização de aviões cisterna.

O Secretario da Defesa dos EUA, Leon Panetta, disse que os EUA estão a disponibilizar inteligência. A Itália está a enviar dois aviões de transporte C-130 e um Boeing KC-767A, e está a delegar entre 15 e 24 peritos para o Mali. O Canadá enviou um avião de transporte militar de carga pesada e o Reino Unido fornecerá “ajuda logística aérea”.

A força francesa consiste em 2.000 militares, e Paris vai enviar outros 500. O Ministro da Defesa Le Drian disse: “O objectivo é a reconquista total de Mali”. Fez eco da declaração do Presidente François Hollande de que as tropas francesas permanecerão no Mali todo o tempo que seja necessário para derrotar o terrorismo.

Entretanto, o fantasma de Al Qaeda é exagerado. O conflito no Mali parece-se mais com uma guerra civil baseada em agravos que existem há muito tempo e que apenas podem ser enfrentados por um governo legítimo e estável e mediante meios de governação local e descentralização e de um programa sustentável de desenvolvimento económico.

Um destacado perito na região, Evgueni Korenddyasov, que serviu como embaixador da Rússia no Mali e actualmente dirige o Centro para as Relações Russo-Africanas na Academia Russa de Ciências em Moscovo, disse: “A solução só poderá ser encontrada através de conversações sobre maior autonomia e representação para os tuaregues”.

Os organismos regionais – a União Africana e a Comunidade Económica de Estados Africanos Ocidentais – procuraram efectivamente obter da ONU um pacote exaustivo que fizesse face à crise política no Mali, e o Conselho de Segurança reconheceu devidamente a necessidade de uma reconciliação política, mas de um dia para o outro a tónica passou para a acção militar ocidental.

Existem dúvidas sobre as verdadeiras motivações. É verdade que grupos de Al Qaeda, que foram armados pelas potências ocidentais e que serviram como peões seus durante a “mudança de regime” na Líbia, se espalharam pelos países vizinhos. Para além da Argélia e do Mali, pelo menos cinco outros países da África Ocidental poderiam ser afectados – Mauritânia, Gana, Níger, Burkina Faso e Nigéria.

Entretanto, existe todo um período de história moderna no qual o Ocidente utilizou por um lado as forças do Islão radical para propósitos geopolíticos (por exemplo Afeganistão, Líbia e Síria), enquanto em outras ocasiões essas mesmas forças desenvolviam resistência perante invasões militares ocidentais (de novo o Afeganistão).

O Mali estende-se por uma vasta região de África rica em recursos de petróleo, gás, ouro, cobre, diamantes e uranio. As centrais de energia nuclear de França são abastecidas a partir das minas de uranio do Níger, vizinho do Mali. A França tem sem dúvida importantes interesses estratégicos e económicos na região e têm-se exprimido dúvidas sobre se a sua intervenção no Mali será outra coisa mais do que uma empresa neocolonial. O Arcebispo de Acra qualificou-a como “intento de colonização”.

O que é suficiente para dizer que a intervenção do Ocidente no Mali deveria ter provocado uma reacção de Rússia e China, que não se verificou. Poderia haver três considerações principais na mente russa para esse facto. Primeiro, as relações da Rússia com as potências europeias já são tensas e Moscovo hesitaria em exacerbá-las.

Segundo, Mali é, ironicamente, a Síria ao contrário. A Rússia tem sérios interesses geopolíticos na Síria, enquanto o Mali e a África ocidental e setentrional constituem o pátio traseiro de Europa. É interessante que Paris (que adoptou uma posição estridente no que diz respeito à Síria) tenha sentido a necessidade de se aproximar de Moscovo em relação ao Mali.

Também a partir de uma perspectiva ideológica, a Rússia e o Ocidente vêm-se repentinamente dizendo a mesma coisa relativamente ao aumento do islamismo no Médio Oriente e no Norte de África depois da Primavera Árabe.

Ânsia de minerais

A China, pelo contrário, tem outros profundos pensamentos – principalmente, o seu conflito de interesses com o Ocidente em África. A ansiedade em Pequim é evidente numa crítica cáustica da intervenção do Ocidente no Mali em Global Times de terça-feira. Foi escrita por He Wenping, director de Estudos Africanos do Instituto de Estudos Asiáticos Ocidentais e Africanos que pertence à Academia Chinesa de Ciências Sociais. Escreveu:
“A China tem certos interesses no Mali devido aos seus projectos de investimento. Não é necessariamente algo de negativo para China uma vez que a decisão francesa de enviar os seus militares pode estabilizar a situação… Entretanto, e apesar de todas as vantagens potenciais, há uma razão possível de alarme – as forças francesas. A participação de forças francesas no Mali irá proporcionar a justificação para a legitimação de um novo intervencionismo em África.
Os interesses económicos directos da França no Mali não podem ser subestimados… Uma das desvantagens desta acção é que traz à memória a “Gendarmerie Africaine” – o estatuto colonial de França.”

A grande pergunta é se as acções de política externa coordenada de Moscovo e Pequim incluirão também o teatro africano.
Depois das recentes consultas russo-chinesas de 9 de Janeiro em Pequim, sobre segurança estratégica, o secretário do Conselho Russo de Segurança Nikolai Patrushev revelou que os dos países planeiam intensificar a sua cooperação na defesa de mísseis, como resposta aos crescentes avanços dos EUA. Patrushev disse:
“Preocupam-nos os planos dos EUA de construir um sistema global de defesa de mísseis, incluindo na região de Asia-Pacífico. Os nossos parceiros chineses compartilham as nossas preocupações e acordámos coordenar as nossas acções a esse respeito.”

Entretanto, a China tem muito maiores interesses em África do que a Rússia. Ultrapassou os EUA e a Europa como o maior parceiro comercial de África (160.000 milhões de dólares) e as suas empresas investiram 15.000 milhões em África só no ano passado. A China interessa-se por minerais em países africanos ocidentais, setentrionais e centrais e petróleo de África ocidental. Produtos agrícolas do Chade, Mali, Benim e Burkina Faso fornecem a massiva indústria têxtil da China. A África ocidental é também um importador-chave de produtos chineses. A Nigéria figura como o principal consumidor (42%).

Como assinala o artigo do Global Times, Pequim compreende perfeitamente que o Ocidente se está a lançar numa estratégia de contenção em África, recuperando simplesmente o controlo das antigas colonias nas quais a China progride. O ponto é que o Ocidente não pode competir com a China igualando a sua oferta de uma relação mais amplia com as nações africanas.

Os projectos transcontinentais da China tomam a dianteira no caminho no sentido da criação de blocos económicos regionais, que aumentam a capacidade das nações africanas de criar espaço face às potências ocidentais e negociar melhor. Em resumo, o fantasma que persegue a Ocidente não é tanto Al Qaeda como a sua incapacidade de igualar a oferta chinesa de uma negociação ampla e de uma relação ampla com os Estados africanos.

A política russa em África carece, em comparação, de enfoque e interesse sustentado. Para citar a Irina Filatova, destacada perita russa em África: “A Rússia está interessada em desenvolver relações económicas com África mas não tem muito para oferecer. E quando tem algo para oferecer, não sabe como o fazer.”

É certo que o ex presidente Dmitry Medvedev procurou inverter a tendência e nomeou inclusivamente um enviado especial para assuntos africanos a fim de injectar nova energia e conteúdo à diplomacia russa. Depois de uma visita à Nigéria Medvedev queixou-se de que a Rússia está “quase demasiado atrasada” na sua actividade em África.

A acção militar ocidental no Mali poderia ser uma chamada de atenção para Moscovo no sentido de que nunca é demasiado tarde na vida e na política.

*O embaixador M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da India. Exerceu funções na extinta União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.
(Copyright 2012 Asia Times Online (Holdings) Ltd. All rights reserved.

Fonte: http://www.atimes.com/atimes/China/OA25Ad02.html

Funcionário de Belo Monte é flagrado espionando reunião do Xingu Vivo

Sanguessugado do Lingua Ferina

 

Na manhã deste domingo, 24, quando finalizava seu planejamento anual em Altamira (PA), o Movimento Xingu Vivo para Sempre detectou que um dos participantes, Antonio, recém integrado ao movimento, estava gravando a reunião com uma caneta espiã.

Na caneta, o advogado do Xingu Vivo, Marco Apolo Santana Leão, encontrou arquivos de falas da reunião, bem como áudios de Antonio sendo instruído sobre o uso do equipamento. Confrontado, ele a principio negou qualquer má intenção, mas logo depois procurou o advogado para confessar sua atividade de espião contratado pelo Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), responsável pelas obras da usina, para levantar informações sobre lideranças e atividades do Xingu vivo.

De livre e espontânea vontade,Antonio se dispôs a relatar os fatos em depoimento gravado em vídeo. Segundo ele, depois de ser demitido pelo CCBM em meados do segundo semestre de 2012, ele foi readmitido em outubro como vigilante, recebendo a proposta de trabalhar como agente infiltrado, primeiramente nos canteiros de obra para detectar lideranças operárias que poderiam organizar greves.

Em decorrência de seu trabalho, foram presos cinco acusados de ter comandado a última revolta de trabalhadores nos canteiros de Belo Monte, em novembro do ano passado. Sua atuação também levou à demissão de cerca de 80 trabalhadores.

Em dezembro, segundo o depoente, ele passou a espionar o Xingu Vivo, onde se infiltrou em função da amizade de sua família com a coordenadora do movimento, Antonia Melo. Neste período, acompanhou reuniões e monitorou participantes do movimento, enviando fotos e relatos para o funcionário do CCBM, Peter Tavares.

Foi Tavares que, segundo Antonio, lhe deu a caneta para gravar as discussões do planejamento do movimento Xingu Vivo. O espião também relatou que este material seria analisado pela inteligência da CCBM, e que, para isso, contaria com a participação da ABIN (Agencia Brasileira de Inteligência), que estaria mandando um agente para Altamira esta semana.

Após gravar este depoimento, Antonio pediu para falar com todos os participantes do encontro do Xingu Vivo, onde voltou a relatar suas atividades de espião, pedindo desculpas e prometendo ir a público para denunciar o Consórcio Construtor Belo Monte.

Em seguida, solicitou ao advogado e à jornalista do movimento que o acompanhassem até sua casa, onde queria acertar os detalhes da delação com a esposa. No local, ele se ofereceu e apresentou seus crachás do CCBM, bem como a carteira profissional onde consta a contratação pela empresa, que foram fotografados.

Posteriormente, porem, a esposa comunicou ao advogado do movimento que Antonio tinha mudado de ideia e que não se apresentaria no Ministério Público Federal, como combinado. Mais tarde, ainda enviou um torpedo ameaçador a um membro do Xingu Vivo. No texto, ele disse que “vocês me ameaçaram, fizeram eu entrar no carro, invadiram minha casa sem ordem judicial. Isso é que é crime. Vou processar todos do Xingu vivo. Minha filha menor e minha mulher são minhas testemunhas. Sofri danos morais e violência física. E vocês vão se arrepender do que fizeram comigo”.

Em função de sua desistência de cooperar e assumir seu crime, e principalmente em função da ameaça ao movimento, o Xingu Vivo tomou a decisão de divulgar o depoimento gravado em vídeo, inclusive como forma de proteção de seus membros.

Apesar da atitude criminosa de Antonio ao se infiltrar no movimento, e apesar de não eximi-lo de sua responsabilidade, o Movimento Xingu Vivo para Sempre entende que o maior criminoso neste caso é o Consórcio Construtor Belo Monte, que usou de seu poder coercitivo e financeiro para transformar um de seus funcionários em alcaguete.

Também denunciamos que este esquema é responsabilidade direta do governo federal, maior acionista de Belo Monte. Mais execrável, porém, é a colaboração de agentes da ABIN no ato de espionagem.

O Movimento Xingu Vivo para Sempre, violado em seus direitos constitucionais e em sua privacidade, acusa diretamente o governo e o Consórcio de Belo Monte por estes crime, e exige do poder público que sejam tomadas as medidas cabíveis. É inadmissível que estas práticas ocorram em um estado democrático de direito. Exigimos justiça, já!