domingo, 30 de setembro de 2012

Drones: Para estadounidenses también

Sanguessugado do La pupila insomne

Juan Gelman

Las facultades de Derecho de las universidades de Stanford y de Nueva York acaban de dar a conocer un estudio sobre las consecuencias del accionar de los aviones no tripulados (ANT), drones en inglés, que surcan los cielos de Pakistán y lanzan misiles contra supuestos talibán y la población civil (//livingunderdrones.org, septiembre 2012). La investigación duró nueve meses, se realizó en parte sobre el terreno y da cuenta de los llamados “daños colaterales”, es decir, el número de civiles muertos por esas agresiones. Pero no sólo.

“Los ANT vuelan 24 horas al día sobre comunidades del noroeste de Pakistán y atacan casas, vehículos y espacios públicos sin advertencia previa”, señala el estudio. Agrega: “Su presencia aterroriza a hombres, mujeres y niños, crean ansiedad y traumas psicológicos entre las comunidades civiles… que deben convivir con la constante preocupación de que un ataque mortífero puede tener lugar en cualquier momento, sabiendo que no pueden protegerse a sí mismos”.

Consecuencias: los niños no van a la escuela, cunde el miedo, hay muertos, heridos, daños a la propiedad, problemas económicos severos, una angustia sostenida y los pobladores incluso temen asistir a los entierros ya que más de uno fue bombardeado por los ANT. El estudio cita conclusiones de la Oficina de Periodismo de Investigación, que ha reunido los datos más precisos y completos sobre las bajas producidas por esos aparatos en Pakistán desde el 2004 hasta mediados de septiembre de este año: murieron de 2562 a 3325 personas, de las cuales de 474 a 881 eran civiles, 176 niños entre ellos (www.thebureainvestigates.com, 12-9-12). Muchos del resto serían talibán, pero “la proporción de blancos ‘de alto nivel’ es extremadamente baja, apenas el 2 por ciento”, según la investigación.

La Casa Blanca suele ignorar a las víctimas civiles causadas por los ANT y declara públicamente que no las hubo o que no superan un dígito (www.cspanvideo.org, 29-6-11). Asimismo ignora –o no le importan– las reacciones negativas que esos ataques despiertan en los paquistaníes: algunos no pocos se incorporan a los talibán (www.nytimes.com, 29-5-12), muchos han resuelto no cooperar con las políticas de Washington y una amplia encuesta indica que el 74 por ciento de la población del país asiático considera que el enemigo es EE.UU., no el talibán (www.pewglobal.org, 27-6-12). La relación niños muertos/mandos talibán muertos es incómoda y generadora de silencios.

Los ANT muy probablemente no provocarán los mismos efectos cuando sobrevuelen las cabezas de todos los estadounidenses con otro fin: espiarlos. La ley de modernización y reforma de la Autoridad Federal de la Aviación (FAA, por sus siglas en inglés), promulgada por Obama el 14 de febrero pasado, establece la ampliación de la flota de ANT destinada a sobrevolar únicamente el territorio de EE.UU., hecho que ya está en acto. Según el Christian Science Monitor, “hasta 30.000 ANT podrían participar en la recolección de datos de inteligencia y la aplicación de la ley en EE.UU. en los próximos diez años” (www.csmonitor.com, 15-9-12). El presupuesto de la AFA asciende a 63.000 millones de dólares. El complejo militar-industrial, agradecido.

Un informe de la FAA revela que ya se está construyendo una vasta infraestructura para los ANT, 110 bases militares en 39 estados servirán como centros de lanzamiento y ha comenzado la capacitación de efectivos especializados (www.faa.gov/uas, abril 2012). El gobierno de Obama está erigiendo una instalación secreta de extensión sin precedente en Bluffdale, Utah, para almacenar y procesar toda la información que reúne sobre la población estadounidense (www.wired.com, 15-3-12).

Esta instalación, perfectamente fortificada, “costará 2000 millones de dólares y deberá estar pronta en septiembre de 2013”, agrega el informe. La utilización de los ANT depende del Departamento de Seguridad Interior, encargado de cumplir esa tarea. Cabe recordar que diversos organismos de inteligencia espían, reúnen y analizan desde hace años millones de llamados telefónicos y de correos electrónicos del estadounidense corriente.

Varias administraciones estatales emplean ANT para vigilar protestas civiles. Disponen de sensores que incluso permiten identificar rasgos faciales y placas de automóviles. La División de Inteligencia de la policía de Nueva York lleva a cabo una amplia labor de espionaje de diferentes manifestaciones y aun de reuniones de grupos liberales y elabora informes detallados de la identidad de los participantes (//cbsnews.com, 15-3-12).

Steven Aftergood, que preside la realización de un proyecto sobre secrecía del gobierno, impulsado por la Federación de Científicos Estadounidenses, manifestó que “hay cuestiones políticas graves atinentes a la privacidad y la vigilancia por parte del gobierno y de las entidades empresariales” (www.washingtonpost.com, 7-2-12). La Fundación Frontera Electrónica de San Francisco subrayó que el empleo de ANT “entraña amenazas sustanciales a la privacidad” de los ciudadanos (//epic.org, 24-2-12). La interminable “guerra antiterrorista” crea paisajes orwellianos. (Tomad

Serra destrata repórter que não reza pela cartilha que ele impôs ao PIG

Sanguessugado do Limpinho e Cheiroso

Serra chama repórter de “sem vergonha”

Via Portal Terra

O candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra, se irritou na sexta-feira, dia 28, com uma questão de um repórter sobre seu programa de governo. Durante visita ao bairro da Mooca, onde passou a infância, Serra se desentendeu com um repórter da Rede Brasil Atual, veículo ligado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e chegou a chamá-lo de “sem vergonha”.

Durante coletiva de imprensa, o candidato do PSDB anunciou que pretendia criar “o sistema municipal de ensino técnico” para dar uma “chance” a crianças de “famílias humildes”. Mas admitiu que esta era uma ideia que lhe veio à cabeça no momento da entrevista. “Como administrador público (…) nós vamos criar o sistema municipal de ensino técnico e profissionalizante. Para aumentar em dezenas de milhares os alunos de ensino técnico e profissionalizante. Esta é uma chance imensa para crianças de famílias mais humildes. Essa é a minha ideia. É o que me veio agora há cabeça vindo aqui à Mooca, me lembrando a minha infância e a juventude”, disse.

Após o comentário do candidato, o repórter da Rede Brasil Atual questionou Serra sobre a proposta: “Veio a cabeça agora ou está no seu plano de governo?”, perguntou. O candidato, então, quis saber o veículo no qual o jornalista trabalha. “De qual veículo você é?”, retrucou. Como o repórter não quis se identificar, Serra ameaçou deixar a coletiva. Mas parou para ouvir a pergunta de outros profissionais na sequência, sem ainda responder o primeiro jornalista.

Ao final da entrevista, enquanto Serra se dirigia ao carro da campanha, o mesmo repórter da Rede Brasil Atual voltou a questionar o candidato. “Por que você só responde perguntas favoráveis?”, disse. Foi então que o tucano xingou o profissional. “Não, eu não respondo pergunta de sem vergonha”, afirmou.

Depois da confusão, Serra foi a uma padaria da região e comentou a discussão com outro repórter. “Eu não tenho direito de saber de qual veículo ele é?”, questionou. Não é a primeira vez que Serra faz essa pergunta a um jornalista durante uma coletiva de imprensa. Ele costuma ter essa postura quando é questionado de forma mais incisiva.

Antes disso, um repórter de um programa de tevê também voltou a falar sobre programa de governo. “Que solução você tem para resolver o problema do trânsito em São Paulo se nem programa de governo você apresentou?”. “Eu apresentei o programa de governo”, disse antes de complementar. “Está na televisão, no rádio, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE)”, afirmou em referência às notícias sobre suas propostas que são publicadas na imprensa diariamente.

O documento mencionado pelo tucano, cujo registro no TRE é obrigatório, tem dez páginas. Em boa parte do texto, a campanha ataca candidaturas de adversários. Na outra metade há um resumo de algumas propostas e ideias, sem especificar detalhes e custos.

Dalmo Dallari critica vazamento de votos e diz que mídia cobre STF “como se fosse um comício”

Sanguessugado do Viomundo

 

Foto: Enemat

Dalmo Dallari: “Eu não sei se devido à pressão muito forte da imprensa ou por qualquer outro fator, o fato é que o próprio STF tem cometido equívocos, agido de maneira inadequada de forma a comprometer a sua própria autoridade”.

Conceição Lemes

Nessa quinta-feira 27, aconteceu a 29ª audiência da Ação Penal 470, o chamado mensalão. A cada semana de julgamento – foi-se a nona –, aumentam os questionamentos sobre os aspectos jurídicos, éticos e midiáticos do processo (leia AQUI e AQUI).

“Eu não sei se devido à pressão muito forte da imprensa ou por qualquer outro fator, o fato é que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF)  tem cometido equívocos, agido de maneira inadequada de forma a comprometer a sua própria autoridade”, alerta o jurista Dalmo de Abreu Dallari. “Muitas vezes ministros antecipam a veículos o que vão dizer no plenário.”

“Na semana passada, o jornal o Estado de S. Paulo noticiou com todas as letras o que Joaquim Barbosa iria dizer no seu voto naquele dia (leia AQUI e AQUI). E o ministro disse exatamente aquilo que o jornal havia antecipado. Isso foi um erro grave do ministro”, afirma Dallari. “O ministro não deve – jamais! — entregar o seu voto a alguém, seja  quem for, antes da sessão do tribunal, quando vai enunciá-lo em público.  É absolutamente inadmissível comunicar o voto antes, compromete a boa imagem do Judiciário, a imagem de independência e imparcialidade.”

“Muitas vezes a imprensa, querendo o sensacionalismo e se antecipar aos outros órgãos de comunicação, busca penetrar na intimidade do juiz”, observa Dallari. “Isso é contrário ao interesse público. Não tem nada a ver com a liberdade de imprensa. Isso eu chamaria de libertinagem de imprensa.”

Dalmo de Abreu Dallari é um dos mais renomados e respeitados juristas brasileiros. Professor emérito da Faculdade de Direito da USP, ele está perplexo com o comportamento da mídia assim como dos juízes do STF no julgamento da Ação Penal 470.

Viomundo – Em artigo no Observatório da Imprensa que nós reproduzimos, o senhor aborda impropriedades cometidas pela mídia na cobertura de assuntos jurídicos. Também diz:  no chamado mensalão, “a imprensa que, vem exigindo a condenação, não o julgamento imparcial e bem fundamentado do processo, aplaudiu a extensão inconstitucional das competências do Supremo Tribunal e fez referências muito agressivas ao ministro Lewandowski – que, na realidade, era, no caso, o verdadeiro guardião da Constituição”. Isso é culpa só da imprensa?

Dalmo Dallari — Nos últimos anos, se passou a dar muita publicidade ao Judiciário. A sua cobertura, porém, está sendo feita sem o preparo mínimo, como se fosse um comício.

Acontece que o Judiciário, além de aspectos técnicos muito peculiares, tem posição constitucional e responsabilidade diferenciadas. Em última instância, decide sobre direitos fundamentais da pessoa humana. Então, é necessário tomar muito cuidado no tratamento das suas atividades. Exige de quem vai produzir a matéria um preparo técnico mínimo. Exige também o cuidado de não transformar em teatro aquilo que é decisão sobre direitos fundamentais da pessoa humana.

Eu acho que, no caso do chamado mensalão, está se dando tratamento absolutamente inadequado. Eu não sei se devido à pressão muito forte da imprensa ou por qualquer outro fator, o fato é que o próprio Supremo Tribunal tem cometido equívocos, agido de maneira inadequada de forma a comprometer a sua própria autoridade.

Viomundo – Mas o próprio Supremo está se deixando pautar pela mídia, concorda?

Dalmo Dallari – Sem dúvida alguma. Eu entendo que de parte a parte está havendo erro. Os dois [STF e mídia] deveriam tomar consciência de suas responsabilidades, da natureza dos atos que estão sendo noticiados, comentados, para que não se dê este ar de teatro que estamos assistindo.

Às vezes uma divergência entre ministro parece clássico de futebol, um Fla-Flu, um Palmeiras-Corinthians. Entretanto, quem acompanha a área jurídica, sabe que é normal divergência entre os julgadores.

É por isso que a própria Constituição brasileira – e não só brasileira, isso é universal –,  as constituições preveem tribunais coletivos, porque se pressupõe que é preciso um encontro de opiniões para que, com equilíbrio, independência, colocando os interesses da Justiça acima de tudo, se chegue a uma conclusão majoritária.

Nem é necessário que as conclusões sejam todas unânimes. Existe, sim, a previsão da conclusão majoritária, o que implica o reconhecimento de que haverá divergências.

Viomundo – A mídia às vezes antecipa como o ministro vai votar no dia seguinte. O que representa isso para um processo?

Dalmo Dallari — Isso é muito sério. Leva à conclusão de que houve uma interferência na formação da opinião do ministro. Ele não agiu com absoluta independência, com a discrição, a reserva que se pressupõe de um ministro de um tribunal superior.

Na semana passada, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou com todas as letras o que o ministro Joaquim Barbosa iria dizer no seu voto naquele dia  (leia AQUI e AQUI).

Como é que esse jornalista sabia antes o que o ministro iria dizer? Esse jornalista participou da elaboração do voto, da intimidade do ministro, quem sabe até inferiu nele?  Será que sugeriu use esta palavra e não aquela? Ou, pior, sugeriu algum encaminhamento?

Como o ministro Joaquim Barbosa disse exatamente o que o jornal havia antecipado, ficou comprovado que ele permitiu a presença do jornalista no momento em que ele estava elaborando o seu voto.

Isso é absolutamente inadmissível, compromete a boa imagem do Judiciário, a imagem de independência e imparcialidade. Portanto, houve, sim, um erro do órgão de imprensa, mas houve, sem dúvida, um erro grave do ministro que se submeteu a esse tipo de participação.

Viomundo – O ministro Joaquim Barbosa pode apenas ter entregue ou comentado  o seu voto ao jornalista antes…

Dalmo Dallari – Mas foi antes da sessão. Isso está errado! O ministro vai enunciar o seu voto em público numa sessão do tribunal.  Ele não deve – jamais! — entregar o seu voto a alguém, seja  quem for, antes da sessão. Até porque durante a sessão ele vai ouvir colegas, vão surgir situações novas, pode ser que ele aperfeiçoe o seu voto, introduza alguma coisa. Efetivamente, o voto só deve ser enunciado na hora do julgamento. Por isso, reitero: foi um erro grave do ministro Joaquim Barbosa.

Viomundo — Professor, que outros equívocos nesse julgamento comprometem o processo?

Dalmo Dallari – Pessoas que não têm “foro privilegiado” – a maioria, diga-se de passagem — estão sendo julgadas originariamente pelo Supremo Tribunal. Esse é um erro fundamental e mais do que óbvio. É uma afronta à Constituição, pois essas pessoas não têm “foro privilegiado” e devem ser julgadas inicialmente por juízes de instâncias inferiores.  A Constituição estabelece expressamente quais são os ocupantes de cargos que serão julgados originariamente pelo Supremo Tribunal.

Viomundo – Em que casos o acusado deve julgado originariamente pelo Supremo Tribunal Federal e não por alguma instância inferior?

Dalmo Dallari – Estão nomeados no artigo 102 da Constituição. No inciso I, dispõe-se, na letra “b”, que o Supremo Tribunal tem competência para processar e julgar, originariamente, nas infrações penais comuns, “o Presidente da República, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros [do STF] e o Procurador Geral da República”. Em seguida, na letra “c”, foi estabelecida a competência originária para processar e julgar “nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente”.

Portanto, o Supremo está julgando originariamente pessoas que não se enquadram nessas hipóteses. Isso é grave, porque essas pessoas não têm aquilo que se chama “foro privilegiado”.  A expressão “privilegiado” é discutível, porque, na verdade, é um privilégio que tem restrições.

A decisão nos casos de “foro privilegiado” começa e termina no Supremo Tribunal. Ao passo que os empresários, o pessoal do Banco Rural, o próprio Marcos Valério, que são pessoas que não ocupavam função pública, deveriam, em primeiro lugar, ser processados e julgados pelo juiz de primeira instância. Se condenados, teriam  direito a recurso a um tribunal regional. E, se condenados ainda, teriam recurso a um Tribunal Superior.  O Supremo, no entanto, acatou a denúncia e está julgando essas pessoas que não terão direito de recurso.

Viomundo – O que representa essa decisão do STF de julgar todos os acusados?

Dalmo Dallari — O direito de ampla defesa delas foi prejudicado. Isso vai contra a Constituição brasileira, que afirma que elas têm esse direito. Vai também contra compromissos  internacionais que o Brasil assumiu de garantir esse amplo direito de defesa.

Depois de terminado o julgamento, isso vai abrir a possibilidade de uma nova etapa. É fácil prever. Os advogados dos condenados sem “foro privilegiado” têm dois caminhos a seguir. Um, será uma denúncia a uma Corte internacional, no caso a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O outro: eles poderão entrar também com uma ação declaratória perante o próprio Supremo Tribunal para que declare nulas as decisões, porque os réus não tinham “foro privilegiado”. E, aí, vai criar uma situação extremamente difícil para o Supremo Tribunal, que terá de julgar os seus próprios atos.

Viomundo – Na fase inicial do julgamento, o ministro Lewandowski levantou a questão do “foro privilegiado”…

Dalmo Dallari – De fato, essa questão foi suscitada, com muita precisão e de forma absolutamente correta, pelo ministro Ricardo Lewandowski. Ele fez uma advertência que tinha pleno cabimento do ponto de vista jurídico.

Entretanto, por motivos que não ficaram claros, a maioria dos ministros foi favorável à continuação do julgamento de todos os acusados pelo Supremo Tribunal. E prevaleceu a posição do ministro-relator Joaquim Barbosa que dizia que o tribunal deveria fazer o julgamento de todos sem levar em conta que muitos não têm “foro privilegiado”. O ministro Marco Aurélio Mello foi o único que acompanhou o voto do revisor.

Viomundo – No seu entender, o que levou o Supremo a agir assim?

Dalmo Dallari — Eu acho que, em grande parte, a pressão da dita opinião pública feita através da imprensa. Eu acho que isso pesou muito. E, a par disso, pode ter havido também um peso das próprias convicções políticas dos ministros, porque eles claramente estão julgando contra o Direito. Eles não estão julgando juridicamente, mas politicamente.

Eu me lembro que, no começo, antes mesmo do julgamento, alguns órgãos da imprensa já diziam seria o “julgamento do século”.  Não havia nenhum motivo para dizerem isso.  Os julgamentos de casos de corrupção já ocorreram muitas e muitas vezes e não mudaram o comportamento da sociedade brasileira nem criaram jurisprudência nova.

O julgamento do chamado mensalão também não vai criar jurisprudência nova. Não há nenhum caso novo que houvesse uma divergência jurisprudencial e que somente agora vai ser unificado.  Não existe essa hipótese. Então, é um julgamento como outros que já ocorreram, com a diferença que há muitos réus e vários deles ocuparam posições políticas importantes. Mas, do ponto de vista jurídico, nada justifica  dizer que é um julgamento excepcional, menos ainda o julgamento do século.

Viomundo – O senhor apontaria algum outro equívoco?

Dalmo Dallari – Acho que os básicos são estes. Primeiramente, o STF assumir uma competência que a Constituição não lhe dá. Depois, essa excessiva proximidade dos ministros com a imprensa, antecipando decisões que serão tomadas numa sessão posterior. Acho que é um comportamento muito ao contrário do que se espera, se pode e se deve exigir da mais alta Corte do país. Isso também está errado do ponto de vista jurídico.

Viomundo – O ministro Lewandowski tem sido até insultado pela grande mídia por causa do julgamento do mensalão. O que acha disso?

Dalmo Dallari – A mesma imprensa que faz referências agressivas ao ministro Lewandowski é a que vem exigindo a condenação e não um julgamento imparcial e bem fundamentado de todos os casos. É a mesma imprensa que aplaudiu o STF, quando ele, no início do julgamento do chamado mensalão, passou por cima das nossas leis, extrapolando a sua competência. Nesse caso, o ministro Lewandowski tem sido o verdadeiro guardião da Constituição brasileira.

Viomundo – Em 2002, o senhor publicou um texto dizendo que a indicação de Gilmar Mendes para o STF representava a degradação do Judiciário. Em 2010, quando ministro defendeu a necessidade de dois documentos para o cidadão votar, o senhor, em entrevista, ao Viomundo, disse que a “Decisão de Gilmar Mendes prova que ele não tinha condições de ser ministro do STF.” Considerando que sobre o ministro Gilmar Mendes pesam várias acusações, não seria um contrassenso ele julgar a Ação Penal 470?

Dalmo Dallari – Claro que é uma contradição. Ele não tem condições morais para fazer esse julgamento.

Gilmar Mendes foi acusado de corrupção quando era Advogado Geral da União. Ele é dono de um cursinho em Brasília e, com dinheiro público, matriculou os seus auxiliares da Advocacia Geral da União no seu próprio cursinho. Ele estava nos dois lados do balcão: contratante e contratado.

A par disso, na questão indígena e em várias outras, ele revelou sempre uma parcialidade mais do que óbvia. Ele não é um ministro imparcial, equilibrado, que se orienta pela Justiça e pelo Direito. Ele é um homem arbitrário, que não tem respeito pelo Direito nem pela Constituição. Nem pela ética.

Viomundo – Teria mais algum alerta a fazer?

Dalmo Dallari — Eu gostaria que a própria imprensa advertisse os juízes dos tribunais quanto ao risco do excesso de exposição. Muitas vezes a imprensa, querendo o sensacionalismo e se antecipar aos outros órgãos de comunicação, busca penetrar na intimidade do juiz. Isso é contrário ao interesse público. Não tem nada a ver com a liberdade de imprensa. Isso eu chamaria de libertinagem de imprensa.

Eleições em Cuba: quem indica os candidatos é o povo!

Sanguessugado do Solidários

Vânia Barbosa

Jornalista e presidente do Conselho Deliberativo da ACJM/RS

Artigo publicado originalmente no Jornalismo B Impresso

De acordo com o estabelecido na Constituição da República e na Lei Eleitoral nº 72, de 29 de outubro de 1992, o Conselho de Estado de Cuba convocou, no último 5 de julho, eleições gerais para delegados às Assembleias Municipais, Provinciais e Nacional do Poder Popular. Em uma primeira etapa, no dia 21 de outubro os eleitores elegem, para um mandato de dois anos e meio, os delegados às Assembleias Municipais, e em 28 de outubro, em segundo turno, nas localidades onde nenhum dos candidatos tenha obtido 50% dos votos válidos mais um. Os delegados às Assembleias provinciais e à Assembleia Nacional do Poder Popular serão eleitos por um período de cinco anos, em uma nova data a ser estabelecida. Está prevista a participação de cerca de 8,5 milhões de cubanos.

Elections in Cuba

Desvinculado do modelo partidarista o sistema eleitoral cubano possibilita o exercício livre da cidadania com a escolha dos candidatos pelos próprios eleitores, o que incentiva o alto índice de comparecimento às eleições, mesmo que o voto não seja obrigatório. Os candidatos não são indicados por partidos e sim pelos cidadãos maiores de 16 anos que automaticamente são inscritos no Registro Eleitoral, sem custos ou burocracia. Conforme o Artigo 3º da Lei Eleitoral, o voto é livre, igualitário e secreto, e o cidadão está protegido contra punições, multas ou sanções no trabalho caso se abstenha de votar, ao contrário do que ocorre em outros países. Os membros das Forças Armadas têm direito a votar, eleger e a ser eleitos.

Após a convocação das eleições, no início de julho, mais de 170 mil cubanos – representantes de todos os setores sociais do país – se qualificaram como autoridades eleitorais para integrar as comissões provinciais, municipais e de circunscrição que conduzem o processo de escolha dos delegados e, posteriormente, validam os resultados. Desde o último dia 3 de setembro e até o dia 29,  a população participa das mais de 50.900 assembleias – organizadas também pela Comissão Eleitoral Nacional (CEN) – e ali indica, abertamente, os delegados que concorrem às Assembleias Municipais e Provinciais e à Assembleia Nacional do Poder Popular, eleitos mediante voto em urna, direto e secreto.

Os encontros são realizados em cerca de 29.500 circunscrições eleitorais e cada eleitor pode indicar um candidato entre os moradores residentes na área e, inclusive, de outra área pertencente à mesma circunscrição, caso seja necessário. Seguindo a legislação eleitoral – dependendo do número de habitantes – cada área terá entre dois e oito candidatos, tudo para garantir outras opções aos votantes e a indicação de pessoas com “méritos, capacidade, condições e possibilidades de representar a população”. A circunscrição eleitoral é uma divisão territorial do município a partir do número de seus habitantes, e se constitui em célula fundamental do Sistema do Poder Popular.

Desde o dia 22 de setembro foram divulgadas as listas dos candidatos para que a população as revise e, caso necessário, solicite adequações ou emendas, através das autoridades eleitorais. As alterações poderão ser feitas até a primeira quinzena de outubro e a partir daí tem inicio os preparativos para a etapa inicial das eleições, no dia 21 do mesmo mês.

Segundo dados da CEN, desde 1976, quando entrou em vigor a atual Constituição, mais de 95 por cento dos eleitores inscritos têm participado das eleições. Nas últimas eleições para deputados votaram cerca de 8 milhões de cubanos, cifra que superou 98 por cento de participação e com baixo índice de votos nulos ou em branco. Em Cuba, o registro de eleitores para as eleições gerais 2012-2013 conta com cerca de 8,5 milhões de cubanos, em um país de 11 milhões de habitantes.

A propaganda eleitoral

Outra característica no processo eleitoral cubano é a ausência de marketing e custos com propaganda, fatores que em outros países favorecem candidatos com maior poder econômico ou implicam na necessidade de obtenção de fundos para eleger um representante. As praças e as ruas são limpas de painéis ou panfletos e os candidatos não precisam disputar ou pagar espaços nos jornais, rádios e televisões. Também não ocorrem campanhas difamatórias entre os candidatos. A propaganda é feita pelas autoridades eleitorais que são responsáveis por publicar, na área de residência dos eleitores, as foto dos candidatos – todas em um mesmo formato e tamanho – e uma síntese da sua biografia.

Para concorrer não é necessário que o candidato seja filiado a qualquer partido político e as regras são as mesmas para todos os cargos do Poder Popular. As candidaturas deverão ser antes apresentadas por alguma organização ou movimento social e submetidas à consideração da Assembleia do Poder Popular da circunscrição correspondente, além de aprovadas pelos delegados. Será considerado eleito aquele que obtenha mais da metade dos votos válidos dos eleitores. 50% das vagas são garantidas às mulheres.

Após eleger o seu representante a população participa das discussões e decisões mais importantes. Também, a qualquer momento o mandato poderá ser revogado pela maioria dos eleitores caso o eleito não cumpra com as obrigações assumidas em sua base eleitoral. Não existe remuneração para o exercício do mandato e os eleitos permanecem exercendo suas profissões e recebendo o salário correspondente ao seu trabalho.

A Composição atual do Poder Popular se dá da seguinte forma: Assembleia Nacional do Poder Popular; Assembleias Provinciais do Poder Popular, em cada uma das 15 províncias, além do município especial da Isla de la Juventud; Assembleias Municipais, nos 169 municípios; 1540 Conselhos Populares, cada um agrupando várias circunscrições eleitorais e integrados pelos seus delegados, dirigentes de organizações de massas e representantes de entidades administrativas; circunscrições eleitorais, ainda que não pertençam de forma orgânica à estrutura do sistema do Poder Popular ou do Estado são fundamentais antes e após o processo eleitoral.

O Presidente, o Conselho de Estado e o Conselho de Ministros.

Tanto os membros do Conselho de Estado como os do Conselho de Ministros são indicados pelos delegados eleitos para a Assembleia Nacional do Poder Popular. Considerando o Art.74 da Constituição da República de Cuba, o Conselho de Estado é formado por um presidente, um Primeiro Vice-Presidente, cinco Vice-Presidentes e um Secretário.Para ser Presidente do Conselho de Estado é necessário antes ser eleito deputado com mais de 50% dos votos válidos, diretos e secretos da população e, em nova votação, deverá alcançar mais de 50% dos votos secretos dos parlamentares.

O Partido Comunista Cubano

Há muitas dúvidas ou distorções que pairam sobre a existência de um partido único em Cuba, o Partido Comunista Cubano, e a relação que isso tem com a democracia. De acordo com a Constituição cubana, durante o processo eleitoral o PCC não indica candidatos e nem faz campanha a favor de seus militantes. Por se diferenciar do conceito clássico de partidos políticos se mantém em sua condição de força dirigente superior da sociedade com a missão de representar os interesses de todo o povo e não somente os da sua militância.

O Partido não tem ingerência na Assembleia Nacional do Poder Popular e nem no governo, e só após consulta à população, via assembleias, apresenta propostas para serem apreciadas nestas instituições. Em processos eleitorais ocorridos até hoje já foram eleitos inúmeros militantes do PCC, indicados pelas assembleias populares em razão dos seus méritos pessoais e compromissos com a sociedade, e não pela sua militância no Partido. Um importante papel exercido pelo PCC é o de acompanhar e garantir o cumprimento das leis do país, entre elas, a Lei Eleitoral.

A supremacia das finanças: uma usina de pobres

Via CartaMaior

 

Existe um traço comum entre a rastejante recuperação norte-americana sob a batuta de Obama, a etapa aguda da crise que a antecedeu -- capitaneada por Bush Jr-- e, antes ainda, o período de apogeu que originou tudo, composto pelo desmonte regulatório nas mãos de Reagan (1981-1989), seguido da consolidação rentista, sob a batuta do democrata amigo de FHC, Bill Clinton (1993-2001).

O fio que interliga o enredo é a persistente disseminação da pobreza na maior potencia capitalista da terra, antes, durante e depois do colapso de 2008.

A caminho do quinto ano, a crise mantém os pobres no limbo dos renegados; ao contrário do que se viu nos anos 30, subordina seu resgate à salvação das finanças, como criticou a Presidenta Dilma Rousseff, na ONU, nesta 3ª feira.

A prioridade ortodoxa justifica jogar novas cargas ao mar e ofusca a questão política central dos dias que correm: turbinado organicamente pelas finanças, o capitalismo atravessou o Rubicão despindo-se de qualquer compromisso com o presente e o futuro da sociedade; nos EUA, bem antes da crise, em pleno ciclo de expansão dos lucros e da produtividade, a engrenagem passou a cuspir regressividade e pobreza, gerando uma massa crescente de renegados. A esses, como sentenciou Mitt Romney, o mercado não tem o que dizer.

Os salários da força de trabalho nos EUA encontram-se em queda ou estagnados, desde 1999. No ano passado a renda média caiu em 18 estados, segundo o censo de 2011, divulgado agora em setembro; no anterior havia recuado em 35 das 50 unidades da federação.

Na ensolarada Califórnia, 335,7 mil pessoas atravessaram a linha pobreza em 2011, elevando o contingente de pobres do estado a 16,6% do total.

Desde 2000, a classe média americana dotada de diploma universitário, não tem reajuste salarial.

Não é um privilégio local. Também na Europa, um número crescente de famílias da chamada classe média vive o pior cenário de aperto financeiro desde a II Grande Guerra. Sem a perspectiva de um novo 'Plano Marshall', começam a afluir em direção aos parlamentos para exigir soberania popular, contra a agenda conservadora que renega os pobres para salvar os bancos.

Relatório recente da OCDE, não propriamente uma trincheira progressista — sugestivamente intitulado “Divididos estamos: porque aumenta a desigualdade--, indica que “a renda média de 10% das pessoas mais ricas equivale a nove vezes a renda dos 10% mais pobres” (nos países que integram a organização).

Nos EUA, quase 47 milhões de norte-americanos dependem do Food Stamps para comer. Em termos absolutos, é o maior contingente desde que o Census Bureau começou a elaborar as estatísticas, há 52 anos.

São as entranhas da 'turma dos 47%' pela qual Mitt Romney manifestou um rotundo descompromisso em recente jantar de arrecadação de fundos. "São pessoas', avaliou o magnata que paga 14% de imposto, contra média superior a 20% dos assalariados,"que dependem do governo, que acreditam que são vítimas, que acreditam que o governo tem a responsabilidade de cuidar delas, que acreditam que tem direito à saúde, a comida, à moradia.Que isso é um direito. E que o governo (o Estado) deveria dar isso a elas".

O ocaso dos deserdados norte-americanos não decorre apenas da peculiar visão de sociedade dos republicanos. Fosse assim, seu contingente não persistiria em alta após quatro anos de Obama e, sobretudo, sua arrancada vigorosa não seria anterior à própria crise.

O desmanche que gerou os deserdados de Romney decolou durante o reinado conservador de Ronald Wilson Reagan; propagou-se no festejado período de Bill Clinton na Casa Branca e assumiu contornos variados que esticaram a linha da exclusão até os nossos dia. Declínio do emprego, precarização do trabalho, queda dos salários reais, aumento da desigualdade, ampliação da jornada, perda de direitos e regressão sindical formam a trama dessa travessia.

É esse desmonte sólido e contínuo que emerge do estudo ' The State of Working America', uma radiografia da situação da classe trabalhadora nos EUA, publicada agora pelo Economic Policy Institute’s (http://stateofworkingamerica.org/).

A análise reúne evidencias de uma deriva social decorrente da mudança estrutural nas relações de trabalho, cuja dinâmica antecedente alinha-se muito mais entre as causas da crise, do que entre as suas consequências, ainda que faça parte delas também.

O conjunto desautoriza ilusões de retorno a uma zona de conforto que não existe mais e enfraquece a aposta política de quem continua a insistir numa solução incremental, dentro das mesmas regras do jogo. Uma parte apreciável da esquerda encontra-se congelada nesse botijão de nitrogênio histórico.

Se foi a pobreza que gerou a crise e não o seu inverso, cabe ir além das aparências na formulação de um programa que responda ao cerne do impasse --tarefa da qual Mitt Romney, compreensivelmente, se esquiva.

Os dados da edição de 2011 do " The State of Working America" cobrem a gênese do esfarelamento do trabalho no capitalismo americano. A comparação entre os anos 80, a década de 90 e o limbo atual corrobora idéia de que esta não é uma crise como outra qualquer, mas sim, um ponto de mutação do capitalismo. Razão pela qual exige mais do que esparadrapos para ser superada, como mostram os dados abaixo:

1) os ganhos salariais significativos dos anos 80 sofreram forte desgaste na década de 90;

2) o valor da hora trabalho estagnou ou caiu para 60% dos trabalhadores;

3) em 1996 a renda média familiar já era inferior a de 1986 (uma corrosão persistente);

4) uma família típica assalariada trabalhou 247 horas adicionais em 1996 para obter a mesma renda de 1989, apesar do crescimento de 8% da produtividade no período;

5) o emprego estável esfarelou; a fatia dos trabalhadores com cerca de 10 anos no mesmo emprego caiu de 41% em 1979 para 35,4% em 1996 (e certamente embicou nos anos mais recentes);

6) a desigualdade se acentuou: a renda de uma família de classe média padrão encolheu 3% entre 1989 e 1997, apesar da borbulhante expansão dos investimentos especulativos; em compensação 10% dos lares abocanharam 85% dos ganhos propiciados pela festa financeira;

7) a explosão de rentabilidade das corporações se fez, em parte, em detrimento do ganho das famílias assalariadas; se o grau de exploração tivesse se mantido dentro do padrão médio, a remuneração dos trabalhadores poderia ter ficado 7% acima do que foi;

8) a organização sindical dos trabalhadores regrediu drasticamente: de 1973 a 2011, a fatia da força de trabalho filiada a uniões e sindicatos recuou de 26,7% para 13%; esse fator explica 1/3 da desigualdade na evolução da renda entre homens e cerca de 50% das disparidades entre as mulheres;

9) o trabalho se degradou: os desempregados ao conquistarem uma nova vaga ganhavam,em média, 13% menos que no trabalho anterior; 30% dos empregos em 1997 não eram de tempo integral;

10) enquanto a fatia da renda apropriada pelos lares mais ricos (1% do total) cresceu de 37,4% para 39% entre 1989 e 1997, o universo de lares sem ingressos ou com rendimento negativos saltou de 15,5% para 18,5% no período; na população negra, 31% dos lares tinham renda zero ou negativa em 1995 e 39,9% das crianças negras viviam na pobreza então.

Repita-se: tudo isso já ocorria antes do colapso da subprime, enquanto o emprego escalava os níveis mais elevados em 30 anos, os salários, em tese, recuperavam-se e tinham tudo para ascender, uma vez que a produtividade alcançava picos na economia.

Esse paradoxo feito de exploração extrema e festa rentista só não explodiu antes, graças à válvula de escape do endividamento maciço de governos e famílias, cujo ponto de ruptura foi o esgotamento da bolha imobiliária norte-americana, espoleta da crise mundial de 2008.

Foi então que o criativo edifício de uma supremacia financeira baseada no crédito sem poupança (porque sem empregos decentes, sem distribuição de renda e sem receita fiscal compatível) veio abaixo.

Os antecedentes mostram que a tentativa de ‘limpar o rescaldo’ removendo apenas seu entulho financeiro — ou seja, salvando os bancos e arrochando ainda mais os assalariados e os pobres — aprofunda a origem da crise, em vez de enfrentar as suas causas originais.

O buraco no qual se debatem os 47% renegados por Romney é mais amplo e fundo. Controlar as finanças desreguladas é um pilar da ponte necessária para resgatá-los. Mas o retrospecto feito pelo 'The State of Working America' indica que é preciso ir além para alterar a redistribuição do excedente econômico, ferozmente concentrado nas últimas décadas, na base do morde e assopra – -arrocho de um lado, crédito do outro.

Preservar o mesmo modelo, vitaminado agora de um arrocho no crédito, como se tenta, implica uma operação de viabilidade social em aberto.

Trata-se de abandonar a extração da mais valia relativa (exaurida no ciclo de abundancia dos anos 90) e partir para a expropriação in bruto dos assalariados.

É sobre isso que falam as ruas na Europa, e falam cada vez mais alto. Portugal ofereceu-se como boi de piranha dessa travessia gulosamente cogitada pela comitiva conservadora urbi et orbi. O governo austericida de Passos Coelho tentou confiscar 7% ao mês dos trabalhadores, que afluíram em massa às ruas e derrubaram a medida. Outros laboratórios, como é o caso da Grécia, operam experimentos da mesma envergadura com aposentados e aspirantes, cortando a pensão de uns, esticando a corda no pescoço de outros,ademais de regredir aos primórdios da Revolução Industrial, com a revogação da semana de cinco dias, do descanso semanal remunerado e a extinção do salário mínimo. A coisa vai por aí, mas a conversa está em aberto; falta a esquerda apresentar as suas propostas. A ver.

Presenta Cuba en Ginebra proyecto sobre solidaridad internacional

Via Granma

 

GINEBRA, 27 de septiembre.— Cuba presentó hoy aquí el Proyecto de Resolución Derechos Humanos y Solidaridad Internacional, que cuenta con un amplio número de copatrocinadores y con el apoyo de varios sectores de la sociedad civil.

Este tema tiene una importancia estratégica en el mundo de nuestros días, en particular para los países en desarrollo, declaró el delegado cubano Juan Antonio Quintanilla en la vigésimo primera sesión ordinaria del Consejo de Derechos Humanos.

Recordó Quintanilla que son estos países los más afectados por la carencia de recursos y tecnología, por los devastadores desastres naturales, así como por el impacto de la crisis y las consecuencias derivadas de un orden internacional injusto e inequitativo.

Estos factores muchas veces limitan la voluntad y los esfuerzos nacionales para implementar planes y programas encaminados a lograr un mayor disfrute de los derechos humanos.

El texto que proponemos en esta ocasión, dijo, está dirigido a continuar promoviendo la solidaridad y la cooperación como instrumentos esenciales en el actual sistema de relaciones internacionales.

Quintanilla lamentó que una minoría de países no tenga voluntad real de participar en el proceso de negociación de este proyecto y se limiten a expresar su oposición.

Durante la presente jornada el delegado cubano presentó también un proyecto de resolución para la promoción de un orden internacional democrático y equitativo.

Afirmó que el actual orden internacional constituye el mayor obstáculo para el ejercicio del derecho al desarrollo de los pueblos del Tercer Mundo. (PL)

“EUA - a mágica terrorcrática”

Sanguessugado do redecastorphoto

 Pepe Escobar, Al-Jazeera

Working the magic the “terrorcrat” way

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A guerra ao terror inventada pelo governo Bush é como um maná que não para de cair do céu – por vias não exatamente muito misteriosas.

Na mesma semana da Assembleia Geral da ONU – em que competiam discursadores como o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad e o primeiro-ministro de Israel Bibi Netanyahu – o governo dos EUA tira da lista dos grupos terroristas o grupo anti-Irã, com base no Iraque, conhecido como Mujahideen-e-Khalq (MEK).

Jamal Abdi

Jamal Abdi, diretor de política do Conselho Nacional Americano Iraniano [orig. National Iranian American Council (NIAC)] não precisou de muitas palavras para explicar do que se trata:

A decisão abre o caminho para que o Congresso aprove envio de dinheiro ao MEK para promover novos ataques terroristas no Irã e tornar muito mais provável a guerra contra o Irã. Além disso, a decisão agride diretamente o movimento pacífico pró-democracia no Irã e destrói alguma boa imagem dos EUA que ainda haja entre os iranianos comuns. [1]

Segundo o jornal iraniano pró-democracia Kaleme – dirigido pelo Movimento Verde – “não há organização, nem partido, nem culto mais infame que o MEK, na opinião pública da nação iraniana”. Indiscutível. Milhões de iranianos desprezam grupos de fanáticos armados, do tipo MEK, especialmente porque foram aliados de Saddam Hussein durante a guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988.

O Mujahideen-e-Khalq foi definitivamente removido da lista de “organizações terroristas” pelos EUA esta semana

Durante a guerra, a ideia fixa e obsessiva dos MEK era destruir o Supremo Líder Aiatolá Khomeini. Nunca chegaram nem perto de ter alguma chance, porque não passavam de exército de fanáticos maltrapilhos reunido no Iraque, que lançou ofensiva patética em território do Irã, em 1988.

Depois do cessar-fogo Teerã-Bagdá, negociado pela ONU em 1988, o MEK continuou ativo no Iraque de Saddam durante os anos 1990s – já então dedicado a atacar os curdos iraquianos. Foi quando o governo Clinton incluiu o grupo na lista de “terroristas” – responsável pelo assassinato de cidadãos norte-americanos no Irã, antes da Revolução Islâmica.

Unha e carne com o pessoal do Mossad

Uma das principais razões para a recente “promoção” é que o MEK parece ter concordado em deixar sua base no Iraque em Camp Ashraf [2] e está de mudança para um novo campo construído pelos EUA próximo a Bagdá.

Camp Ashraf (Iraque) - Vista aérea

Apesar da catarata de desmentidos e negativas, todos os botequins em todo o Oriente Médio sabem que os terroristas do MEK são treinados – e pagos – por Washington e Telavive, o que inclui treinamento em território dos EUA.

Porque o MEK e seu autodefinido “setor político” – Conselho Nacional de Resistência do Irã [orig. National Council of Resistance of Iran (NCRI) – são fontes conhecidas (extremamente pouco fidedignas) de informação de inteligência, para os EUA, sobre o programa nuclear iraniano.

Dana Rohrabacher

Em fevereiro, a rede de televisão NBC News admitiu que “atentados mortais contra cientistas nucleares iranianos” eram executados por membros do MEK, “financiados, treinados e armados pelo serviço secreto de Israel”. Muito previsivelmente, a rede NBC atentamente não investigou qualquer conexão com os EUA.

Também muito previsivelmente, o Congresso dos EUA – cuja popularidade está em níveis muito baixos – irrompeu em manifestações de alegria e felicidade e saudou a decisão do Departamento de Estado, com especial destaque para os suspeitos de sempre como Dana Rohrabacher (Republicano da California), Ileana Ros-Lehtinen (Republicana da Florida e presidente da Comissão de Relações Internacionais da Câmara de Deputados) e Ted Poe (Republicano do Texas). Todos esses saudaram o MEK como “organização democrática”.

Ileana Ros-Lehtinen

Quer dizer... Como se consegue ser promovido, de terrorista, a democrata? Essa é fácil. Basta contratar a melhor equipe de lobbying que o dinheiro possa comprar e investir pesado em “Relações Públicas” eficazes.

No caso dos ex-terroristas e atuais democratas do MEK, foi serviço de três grandes firmas de lobbying de Washington: DLA Piper; Akin Gump Strauss Hauer & Feld; e DiGenova & Toensing. As três embolsaram cerca de 1,5 milhão de dólares, ano passado, para “democratizar” os MEK a qualquer custo.

Mais uma vez se comprova que esse é o meio certo e provado para enterrar história sangrenta de atentados à bomba e assassinatos que mataram, não só empresários norte-americanos e cientistas iranianos mas, também, milhares de civis iranianos jamais contabilizados.

Ted Poe

Nada como o toque cool de um especialista em Relações Públicas – PR, em inglês, por favor, sempre – para reformatar um bando de doidos assassinos e reapresentá-los como leais aliados dos EUA na luta contra o regime de Teerã “do mal”. Deputados, senadores e os proverbiais exércitos de “ex-ministros” e ex-altos funcionários de ex-governos – onipresentes na mídia – são os puxa-sacos e mercenários que se prestam a esse tipo de serviço.

Como é que a al-Qaeda nunca pensou nisso?!

O modo “terrorcrático” de governar

O dinheiro do MEK – doações da diáspora iraniana canalizado por uma rede do organizações de fachada na Florida, no Texas, no Colorado e na California – comprou um gordo portfólio bipartidário.

Lá estão todos, do ex-prefeito de New York e eterno relembrador do 11/9, Rudy Giuliani, ao jornalista Carl Bernstein; no mínimo, dois ex-diretores da CIA; o ex-governador da Pennsylvania, Ed Rendell; o ex-chefe da OTAN, Wesley Clark; o ex-governador do Novo México, Bill Richardson; e o ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, general Hugh Shelton.

Está provado, por exemplo, que Shelton, o ex-diretor do FBI, Louis Freeh e o ex-procurador-geral dos EUA, Michael Mukasey (que examinava casos de terrorismo), dentre outros, comprovadamente receberam dinheiro. Os jornais já publicaram o que se pode aceitar como satisfatória lista dos que se uniram ao bando. [3]

Maryam Rajavi

Em junho, o ex-candidato Republicano à presidência Newt Gingrich foi a Paris para participar de um evento pro-MEK ao lado da co-líder do “movimento”, Maryam Rajavi.

O Departamento do Tesouro iniciou investigação [4] de “contribuições para financiar palestrantes” – algumas contribuições chegam a $40 mil – recolhidas em nome do MEK. Mas nada garante que essa investigação progrida. Em casos que envolviam o Hamás e o Hezbollah, gente foi para a cadeia por oferecer apoio financeiro indireto a essas organizações. Mas, ora... Essas organizações não foram promovidas ao status de “democráticas” nos EUA.

E há o ângulo Clinton, mais estranho a cada minuto.

O MEK foi incluído na lista das organizações terroristas no governo Clinton, porque Bill Clinton tentava seduzir o ex-presidente do Irã, Muhammad Khatami. Agora, como secretária de estado, Hillary Clinton divulgou informação secreta [5] sobre o MEK ao Congresso a qual, certamente, envolve a identidade de cientistas nucleares iranianos.

Assim, de fantoche de Saddam, o MEK finalmente conseguiu ser promovido a fantoche da CIA e do Mossad. Esperem, doravante, a torrente de “funcionários do governo dos EUA que pediram para não ser identificados” de sempre, a repetir que a promoção não implica que o governo dos EUA tenha passado a apoiar oficialmente os doidos do MEK. Teremos mais um caso de “liderar pela retaguarda”.

Desnecessário dizer que a coisa também opera como golpe de “PR” de valor inestimável a favor da ditadura do mulariato em Teerã – que não poupará ninguém, na operação para provar que Washington amasiou-se com grupo de terroristas conhecidos, que até a inteligência dos EUA já admitiu que agiu como facilitador no assassinato à moda Mossad de cientistas iranianos.

Grupos terroristas do mundo, uni-vos. Nada tendes a perder além da proibição de subir no elevador de uma das empresas-ás de PR de Washington. É mais que hora de reposicionarem as respectivas marcas: todos têm idêntico direito ao título de “organizações terrorcráticas”.

_____________________________________________

Notas de rodapé

[1]  21/9/2012, NIAC - National Iranian American Council, em: “MEK Delisting is a Gift to the Regime, a Disaster for the Iranian People and the U.S.

[2]  28/9/2012, The Washington Times (via Camp Ashraf), Ashish Kumar Sem em: U.S. Takes Iranian Dissident Group MeK Off Terrorist List

[3]  10/8/2011, Huffigton Post, Christina Wilkie em: “Mujahideen-e Khalq: Former U.S. Officials Make Millions Advocating For Terrorist Organization

[4]  20/3/2012, The Hill, Kevin Bogardus em: Federal investigation of Iran dissident group bypasses K Street firms

[5]  22/9/2012, Al Jazeera, em: US set to remove 'terrorist' label on MEK


sábado, 29 de setembro de 2012

Fernando Morais - Um espectro ronda o jornalismo: Chatô

Via 247

Edição/247: chatô fernando morais

Em texto exclusivo para o 247, o escritor Fernando Morais narra como, em meados do século passado, Assis Chateaubriand encomendou ao diretor do Estado de Minas uma reportagem sobre o estupro supostamente cometido pelo arcebispo de Belo Horizonte contra a própria irmã. Detalhe: Dom Cabral não tinha irmã. Passadas oito décadas, Chatô exumou-se do cemitério e encarnou nos blogueiros limpos e editores dos principais jornais brasileiros

Fernando Morais

As agressões e infâmias dirigidas por alguns jornais, revistas, blogs e telejornais ao ex-presidente Lula e ao ex-ministro José Dirceu me fazem lembrar um episódio ocorrido em Belo Horizonte em meados do século passado.

            Todas as sextas-feiras o grande cronista Rubem Braga assinava uma coluna no jornal “Estado de Minas”, o principal órgão dos Diários Associados em Minas Gerais. Irreverente e anticlerical, certa vez Braga escreveu uma crônica considerada desrespeitosa à figura de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira de Belo Horizonte. Herege, em si, aos olhos da conservadora sociedade mineira o artigo adquiriu tons ainda mais explosivos pela casualidade de ter sido publicado numa Sexta-Feira da Paixão.

            Indignado, o arcebispo metropolitano Dom Antonio dos Santos Cabral redigiu uma dura homilia recomendando aos mineiros que deixassem de assinar, comprar e sobretudo de ler o “Estado de Minas”. Dois dias depois o documento foi lido na missa de domingo de todas as quinhentas e tantas paróquias de Minas Gerais.

            O míssil disparado pelo religioso jogou no chão a vendagem daquele que era, até então, o mais prestigioso jornal do Estado. E logo repercutiu no Rio de Janeiro. Mais precisamente na mesa do pequenino paraibano Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, um império com rádios e jornais espalhados por todos os cantos do Brasil.

            Célebre pela fama de jamais engolir desaforos, o colérico Chateaubriand telefonou para Geraldo Teixeira da Costa, diretor do “Estado de Minas”, com uma ordem expressa, repleta de exclamações:

            - Seu Gegê! Quero uma reportagem de página inteira contando que quando jovem Dom Cabral estuprou a própria irmã! O senhor tem uma semana para publicar isso!

            Tamanha barbaridade não passaria pela cabeça de quem quer que conhecesse o austero Dom Cabral, cujas virtudes haviam levado o Papa Pio XI a agraciá-lo com o título de Conde. Mas ordens eram ordens.

            Os dias se passavam e a reportagem não aparecia no jornal. Duas semanas depois do ultimato, um Chateaubriand possuído pelo demônio ligou de novo para Belo Horizonte:

            - Seu Gegê! Seu Gegê! O senhor esqueceu quem é que manda nesta merda de jornal? O senhor esqueceu quem é que paga seu salario, seu Gegê? Cadê a reportagem sobre o estupro incestuoso cometido por Dom Cabral?

Do outro lado da linha, um pálido e tremebundo Gegê gaguejou:

- Doutor Assis, temos um problema. Descobrimos que Dom Cabral é filho único, não tem e nunca teve irmãs...

Sapateando sobre o tapete, Chateaubriand parecia tomado por um surto nervoso:

- TEMOS um problema? Seu Gegê, nós não temos problema algum! Isso é um problema de Dom Cabral! Publique a reportagem! Cabe A ELE provar que não tem irmãs, entendeu, seu Gegê? Vou repetir, seu Gegê: cabe A ELE provar que não tem irmãs!!

Passadas oito décadas, suspeito que Chatô exumou-se do Cemitério do Araçá e, de peixeira na cinta, encarnou nos blogueiros limpos e nos editores dos principais jornais e revistas brasileiros. 

Como no caso de Dom Cabral, cabe a Lula provar que não marchou com a família e com Deus, em 1964, quando tinha 18 anos, pedindo aos militares que derrubassem o governo do presidente João Goulart. Cabe a Dirceu provar que não foi o chefe do chamado mensalão.

Fernando Morais é jornalista e escritor. É autor, entre outros livros, de “Chatô, o rei do Brasil”, biografia de Assis Chateaubriand.

Evo Morales en la ONU: “El primer terrorista en el mundo es el Gobierno de EEUU”

Sanguessugado do Darío Vive

Los modelos económicos que concentran el capital en pocas manos provocan injusticias”, ha insistido el presidente. A este respecto, recomendó a los países del mundo que nacionalicen y recuperen sus recursos naturales “porque son del pueblo y no de las transnacionales”.

 

Evo Morales en la ONU: “El primer terrorista en el mundo es el Gobierno de EEUU”

Por: Agencias |

27/09/12.-EE.UU. ha intervenido en Libia por el petróleo, ha denunciado este miércoles el presidente de Bolivia, Evo Morales, ante la Asamblea General de la ONU y tachó al Gobierno estadounidense de “el primer terrorista en el mundo que practica el terrorismo de Estado”.

También criticó el embargo económico impuesto por Washington a Cuba y lo calificó de “bloqueo genocida, fracasado y violatorio de todo un pueblo”.

Además, rechazó la inclusión de Bolivia en la ‘lista negra’ de Washington de los países que fracasaron en la lucha antidrogas, calificando esa medida de “decisión política”: “En algunos países ha crecido la plantación de coca y EE.UU. lo rectifica. Bolivia la ha bajado y EE.UU. nos desertifica”.

Puntualizó que el Estado ha logrado reducir la superficie cultivada de coca “sin muertos y heridos y respetando los derechos humanos”. Defendió el “consumo legal” de la hoja de coca y los proyectos que buscan la comercialización lícita de este producto tradicional boliviano.

“No puede haber cero producción de hoja de coca”, recalcó. “No habrá libre cultivo de coca, pero tampoco habrá ‘coca cero’”, detalló. Insistió en que la hoja de coca debe ser preservada en el territorio boliviano para fines medicinales y acentuó que “la hoja de coca no es cocaína”.

Otro tema que ha abordado el mandatario en su discurso ha sido la situación económica en Bolivia y en el mundo. Según Morales, su Gobierno ha logrado reducir al 20% la extrema pobreza en el país y mejorar el clima financiero en general. Acentuó que el secreto de este éxito ha sido la nacionalización del capital privado.

“Estamos en el tiempo de los pueblos, para la búsqueda de la igualdad y dignificar a los habitantes.

Los modelos económicos que concentran el capital en pocas manos provocan injusticias”, ha insistido el presidente. A este respecto, recomendó a los países del mundo que nacionalicen y recuperen sus recursos naturales “porque son del pueblo y no de las transnacionales”.

Sob o patrocínio da Casa Branca, o terror vem do céu.

Sanguessugado do Olhar  o Mundo

Quando contaram a Christol Heynz, relator da ONU sobre execuções extrajudiciais, que os drones americanos (aviões sem piloto) atacavam quem vinha socorrer as vítimas de um ataque anterior, ele afirmou : “se for verdade, seria crime de guerra”.

Estudo realizado pelas Universidades de Nova Iorque e Stanford no Paquistão apurou que era verdade, sim.

Desde 2004, os drones varam os céus do Paquistão em busca de talibãs e conexos para os eliminar inexoravelmente com seus mísseis.

Nos tempos de Bush, era um ataque por mês.

Obama adorou a eficiência da arma e aumentou o número de ataques para 1 a cada 4 dias.

Até agora eles contabilizaram entre 2.562 e 3.325 mortes, segundo o Birô de Jornalismo Investigativo.

Muitos talibãs foram eliminados. Infelizmente, como essa máquina de matar não é infalível, pacíficos paquistaneses acabaram também sendo alvejados..

Quantos de cada categoria não se sabe ao certo porque, segundo Obama, considera-se talibã morto todo paquistanês que for atingido numa zona de combate.

Como “zona de combate” na região é algo muito pouco definido, entende-se porque não dá para se fazer uma estatística razoavelmente precisa dos números de inocentes e culpados mortos.

As universidades americanas de Nova Iorque e Stanford realizaram uma pesquisa sobre a ação dos drones e seus efeitos no Waziristão, região do Paquistão mais alvejada.

Os pesquisadores realizaram mais de 130 entrevistas, durante 9 meses.

Descobriram que nos 345 ataques de drones , apenas 2% das vítimas eram comprovadamente milicianos talibãs de “alto nível”.

Para os EUA, está valendo a pena. No entanto, o preço pago pelo povo do país tem sido extremamente alto.

Diz o relatório do estudo: “Os drones pairam 24 horas por dia sobre comunidades no noroeste do Paquistão, destruindo lares, veículos e espaços públicos, sem aviso. Sua presença aterroriza homens, mulheres e crianças, gerando ansiedade e traumas psicológicos em comunidades civis. Aqueles que vivem sob a ameaça dos drones,  tem de enfrentar o medo constante de que um ataque mortal possa atingi-los a qualquer momento e a consciência de que não tem como se protegerem.”

Cada vez mais a CIA, que opera os drones, vem empregando uma tática particularmente maligna: o double-tap (“Duplo choque”).

No double-tap, depois de um ataque, quando pessoas se aproximam para socorrer os atingidos, os drones lançam mísseis também contra elas.

A idéia que está por trás é: quem vai socorrer talibãs, talibã também é.

Mas, e quando os alvos iniciais eram gente inocente?

Segundo os ativistas, essa tática tem aumentado consideravelmente o número de mortes de civis via drones.

Um dos resultados é que, para evitar o double-tap, as pessoas freqüentemente levam muitas horas para levar assistência às vítimas dos mísseis disparados do céu.

“Este tipo de ataque (o double-tap) está se tornando cada vez mais comum”, declarou ao The Independent o advogado Mirza Shazad Akbar, que atua na região.

POR SUA VEZ, a BBC relacionou mais alguns problemas causados pelos drones:

- crianças recusam-se a ir para a escola com medo de serem alvejadas pelos  mísseis;

- além de morte e ferimentos, os mísseis lançados pelos drones causam danos nas propriedades e traumas emocionais nos feridos e suas famílias;

- as pessoas tem medo de comparecer a reuniões, casamentos, funerais ou festas, eventos que já foram várias vezes alvos dos drones;

- os ataques estimularam o anti-americanismo ao extremo, provocando adesão de muitos jovens a movimentos terroristas.

Como o New York Times comentou, “os drones substituíram Guantanamo como instrumento de recrutamento de militantes radicais.”

Certamente tiveram muito a ver com o resultado de uma recente pesquisa na qual 74% da população paquistanesa declarou considerar os EUA um inimigo.

Refletindo a indignação popular, autoridades de todos os níveis já protestaram contra o governo de Washington.

O Parlamento por 3 vezes exigiu o fim dos vôos dos drones. O mesmo fizeram diversos generais, ministros e praticamente todos os partidos políticos.

Em 2011, o Primeiro Ministro Gilani foi aos EUA levando essa solicitação.

Por sua vez, o embaixador do Paquistão nos EUA, Zamir Akram procurou a imprensa local para lembrar que seu país tem repetidamente condenado o uso de drones como ilegal e violador da soberania paquistanesa.

E acrescentou: “Milhares de pessoas inocentes, incluindo mulheres e crianças, tem sido assassinadas nesses ataques indiscriminados.”

Nada disso abalou Obama.

Seus generais estão contentes, a CIA está contente e, mais importante, o povo americano está contente.

Pesquisa recente da Pew Research revelou que apóiam essas máquinas de matar 74% dos republicanos, 60% dos independentes e 58% dos democratas. Só pode ser por estarem desinformados.

Feliz com esses números e com a eliminação de alguns chefes importantes de grupos terroristas,  Obama ampliou os horizontes dos drones: eles passaram a voar e a matar também no Yemen, Somália e Afeganistão.

Diante da chuva de protestos que vem do Paquistão, a CIA excusou-se, alegando que envia faxes ao ISIS (inteligência paquistanesa) avisando sobre os ataques dos drones e não recebe nenhuma reclamação.

O que faz supor que o governo de Islamabad está apenas fazendo jogo de cena, quando clama contra os drones. Finge que é solidário com a população para ganhar seu favor quando, na verdade, tem acordos com os EUA, autorizando os odiados vôos.

Enquanto isso, como afirma Clive Stafford Smith, diretor da ONG Reprieve: “Toda uma região está sendo aterrorizada pelo medo constante da morte que vem do céu.”

Depois, quando multidões em 23 países islâmicos atacam embaixadas americanas durante vários dias, sob pretextos aparentemente fúteis, o governo americano sente-se injustiçado.

E Obama põe a culpa na Al Qaeda.

Triste São Paulo: “o sangue de Jesus” quer o poder

Sanguessugado do Opinião & Cia

A Igreja Universal e seu plano de domínio do Brasil

Johnny Bernardo

O objetivo é claro: A Igreja Universal quer dominar o Brasil. Pré-definido no livro Plano de Poder, Deus, os cristãos e a política (Edir Macedo com Carlos Oliveira, 2008), o objetivo vem se desenvolvendo ao longo dos anos, e, nas eleições municipais de 2012, pretende se consolidar. Fé e política, no entender de Edir Macedo, são elementos interligados aos quais os crentes devem se engajar.

Para realizar seu intento – de criar uma nação evangélica e “governada” por Deus -, Macedo estabeleceu uma série de estratégias, como eliminação das concorrências, investimento maciço em meios de comunicação, influência da sociedade por meio de campanhas de marketing e defesa de temas polêmicos, a exemplo da legalização do aborto, e a busca do poder pela organização política.

Tomando como base São Paulo – onde o candidato do Partido Republicano Brasileiro (PRB) ao Executivo, Celso Russomanno, lidera as intenções de voto -, a Igreja Universal coloca em prática sua estratégia de dominação política. Segundo o presidente nacional do PRB e também bispo Marcos Antonio Pereira, a meta para 2012 é a eleição de pelo menos 100 prefeitos e até dois mil vereadores, em todo o país.

Questionado pela relação da campanha de Russomanno com a Igreja Universal e a TV Record - em uma entrevista concedida ao portal UOL e Folha de São Paulo, no último dia 26 de setembro - Marcos Pereira saiu em defesa da laicidade do Estado e a total independência administrativa, caso Russomanno seja eleito, mas teve dificuldade em explicar o motivo da composição “evangélica” do partido – dos 18 dirigentes nacionais pelo menos dez são oriundos da Igreja Universal ou da TV Record, segundo apontamento feito pelo cientista político Claudio Gonçalves Couto.

Um projeto de Deus

De olho no crescimento dos evangélicos no Brasil – sendo hoje algo em torno de 42,3 milhões, segundo última estimativa feita pelo IBGE – o bispo Edir Macedo lançou seu plano de domínio do Brasil, conclamando os crentes a participarem da tomada do Poder. Afirmando seguir orientações divinas, Macedo relaciona à chegada ao Poder como um projeto “elaborado” e “pretendido” por Deus.

"Vamos nos aprofundar, através desta leitura, no conhecimento de um grande projeto de nação elaborado e pretendido pelo próprio Deus e descobrir qual é a nossa responsabilidade neste processo. [...] Desde o início de tudo Ele nos esclarece de sua intenção de estadista e de formação de uma grande nação." (Plano de Poder, pág. 8)

A Bíblia, segundo Macedo, não é apenas um livro de orientações religiosas ou de exercício da fé, mas também um livro que sugere resistência, tomada e estabelecimento do poder político e de governo. “Somente quando todos ou a maioria dos que a seguem estiverem convictos de que ela é a Palavra de Deus, então ocorrerá a realização do grande sonho Divino”, conclui Macedo colocando-se como canal da realização do “grande sonho Divino”, que é o estabelecimento do Brasil como nação “evangélica”. 

Lançado às vésperas das eleições municipais de 2008, o livro Plano de Poder revela o prognóstico feito por Edir Macedo em seu plano de tomada do governo. Nele ressalta que tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. “Nunca, em nenhum tempo da História do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional (...). A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo, quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal”, afirma Macedo.

Semelhanças

As estratégias definidas e seguidas por Edir Macedo possuem paralelos com diversos movimentos destrutivos dos EUA e Europa, mas, em especial, com a Igreja da Unificação, fundada em 1954 pelo Rev. Moon (1920–2012). Assim como a IU, a Igreja Universal encara a formação da opinião pública e o recrutamento de seguidores como elementos cruciais para o alcance de seus objetivos. Desenvolve, assim como na IU, uma acirrada guerra contra meios de comunicação e religiosos concorrentes, além de investir em times de futebol com foco em marketing de massa, e na ideia de que estão “colaborando” com o estabelecimento do Reino de Deus, no mundo. Acima de tudo, dizem atuar como canais de comunicação de Deus e dão forte ênfase ao crescimento financeiro – sinal, segundo as igrejas, da retribuição divina.

Johnny Bernardo é jornalista, pesquisador da religiosidade brasileira e colaborador do Genizah

De golpe em golpe, a Casa Grande se perpetua

Via Correio da Cidadania

 

Paulo Metri

 

Até que enfim o Brasil está destravando. Agora, vai ser para valer. Depois do julgamento do mensalão, teremos o do mensalão mineiro, aqueles derivados das operações Satiagraha, Castelo de Areia, Vampiro... Operações da Polícia Federal, até hoje sem conseqüências judiciais, mas cheias de descobertas escabrosas, não faltam. O Ministério Público Federal e a Procuradoria Geral da República vão ter muito que fazer nas suas áreas de competência, pois cuidarão de diversos processos para encaminhar aos Tribunais. Os potenciais fichas-sujas, que sempre estiveram escondidos nos trâmites burocráticos, coloquem suas barbas de molho, pois seus períodos de impunidade estão prestes a terminar.

Quem sabe se, agora, o réu confesso Ronivon Santiago não vai conseguir a paz? Ele queria, salvo engano, expiar sua culpa, pois confessou ter vendido por R$ 200.000 seu voto parlamentar em troca de apoiar a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo reportagem da Folha de São Paulo de 13/5/1997. Os preços mínimos e o modelo de privatização, que levaram as empresas estatais a serem privatizadas por preços muito baixos no período FHC, podem ser investigados. Aliás, para este caso, o livro “Privataria Tucana” pode vir a ser útil.

Há pouco tempo, circulou na internet um correio com uma extensa lista de escândalos sem solução do Brasil nos últimos anos. Assim, muitos dos processos, que dormem em pilhas há anos, com o beneplácito dos “engavetadores”, vão ser acordados. Depois desta “passada a limpo”, não haverá mais denúncia sem a devida averiguação e a eventual abertura de processo.

Neste ponto do sonho, me acordam e jogam contra mim a dura realidade, que chega a doer. Existirá tão somente este julgamento, o do suposto mensalão. Portanto, não é um processo global de respeito à Justiça. É um julgamento único, que também deve existir, e como em todos os julgamentos, nele, a justiça também deve prevalecer. Aliás, a eventual culpa dos que podem estar comprometendo todo um belo projeto de libertação dos miseráveis deve ser punida.

Entretanto, espantos relevantes existem. Só este processo? Julgado exatamente no presente momento, quando se está próximo da eleição municipal, que certamente irá influenciar os rumos da campanha presidencial de 2014? Com razoável celeridade, por sinal bem vinda, mas incomum na nossa Justiça?

Pode-se até dizer que, para certos grupos políticos, este julgamento veio a calhar, pois os ajuda de montão. As más línguas chegam a lançar versões venenosas, dizendo que é um julgamento encomendado. Não compartilho de tamanha agressão, pois, nesta versão, grupamentos políticos estariam utilizando a justiça como instrumento para chegar ao poder.

Contudo, é verdade que, toda vez que classes menos favorecidas têm alguma melhoria de vida significativa, alguma mais valia deixa de ser usurpada e classes abastadas ficam ligeiramente menos ricas. O prejuízo nem é tão grande, mas, para criar exemplos, este horror precisa ser contido.

Neste momento, os donos do capital chamam, dependendo do momento histórico e do local, forças diversas para socorrê-los. No Brasil, em 1964, foram chamados os militares para auxiliar na perpetuação da má distribuição de renda, que aceitaram a proposta em troca do mando da nação, exceto em qualquer área que comprometesse a lucratividade das classes mais ricas. Ocorreu, assim, um golpe militar.

Recentemente, no Paraguai, foram chamados os próprios representantes da classe dominante, que compõem a quase totalidade dos integrantes do Congresso. Foi um golpe legislativo. Em alguns países, os donos de capital locais se aliam até com forças estrangeiras para dominar seus compatriotas, que não se subjugam à exploração. Tem-se, assim, um golpe militar com apoio de forças estrangeiras.

O golpe dos integrantes da Casa Grande em processo no Brasil, hoje, é tão ardiloso que quem o denuncia é rotulado como pertencente ao PT ou corrupto interessado no perdão dos culpados (assim definidos a priori). Nunca será visto como interessado na continuidade do processo de inclusão social em curso há dez anos. Ou alguém tem dúvida que a paralisação desta inclusão é o passo seguinte após as vitórias eleitorais do grupo conservador, se isto ocorrer?

É óbvio que não podemos retirar os créditos merecidos da mídia caluniosa. As televisões, onde a grande massa brasileira obtém informações, não divulga os verdadeiros fatos, deforma a realidade com versões deturpadas, ludibria, mente, enfim, prejudica a sociedade e está sempre a serviço do capital. Na mídia, existem exceções honrosas, como, por exemplo, a revista Carta Capital. Mas, todo golpe tem suporte midiático.

Sobre este ponto, não me esqueço da imagem recente de um articulista sofrível colocado para ser comentarista de um grande canal de televisão, que falava sobre o mensalão. Assim, tendo que desenvolver o raciocínio que lhe ordenaram, sem grande afinidade com questões jurídicas, era uma figura estranha. Mas não existia inocência nele, pois seu salário certamente é muito alto. Era uma mensagem para o grande público sobre a culpa de José Dirceu, mas com o intuito de constranger os ministros do Supremo, uma vez que os votos destes não poderão fugir ao óbvio ensinado, sob pena de ser algo “muito errado”.

Há esperança de que, mais uma vez, um desenvolvimento tecnológico esteja quebrando um monopólio de controle das mentes. A Igreja perdeu este controle, detido através dos monges copistas, quando publicava só o que era de seu interesse, à medida que Gutemberg inventou a prensa para produção de impressos em série. Atualmente, a internet seria o desenvolvimento tecnológico que permite à população ter acesso a diferentes versões para o que acontece, ou seja, ela mostra um novo mundo escondido pela mídia convencional e corrupta. Afinal de contas, estou sendo lido, agora, graças à internet.

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia.

Sérgio Leitão: o pesadelo do Código Florestal mal começou

Via MST

Sérgio Leitão*

Do UOL

Como um ativo seguidor e participante dos debates sobre a reforma do Código Florestal, que se arrastam há mais de 12 anos, me vejo no papel de confessar que tenho tido dificuldade de entender cada nova maldade que as “Carminhas” da bancada ruralista inventam para destruir nossas florestas.

A impressão que tenho é que a cada momento são feitas novas propostas - como o fim da proteção da vegetação das margens dos rios localizados na região Nordeste, os chamados rios intermitentes - para assustar o governo, barganhar e arrancar novas concessões. Até porque se tem uma coisa que essa bancada sabe fazer muito bem é jogar verde para colher maduro.

E, do lado da presidenta, de onde seria possível esperar orientações para uma atuação coordenada para fazer valer a sua folgada maioria parlamentar, uma vez que praticamente não existe oposição ao seu governo no Congresso Nacional, o que se vê é um bate cabeça sem fim. Na verdade, é preciso dizer que nesse assunto, Dilma nunca quis aplicar o guia governamental de convencimento parlamentar, que fica reservado para momentos mais intensos da conveniência presidencial.

Foi assim que a bancada ruralista venceu mais uma disputa durante a votação do texto da Medida Provisória (MP) n?571/12, aprovado na Câmara dos Deputados na semana passada e ontem, no Senado. Esta MP foi feita justamente para preencher as lacunas que haviam sido criadas pelos vetos da presidenta ao texto de reforma do Código, aprovado em abril. Em troca da retirada da incômoda proposta sobre os rios intermitentes, as lideranças do governo aceitaram reduzir ainda mais a largura das faixas de terras a serem replantadas nas beiras dos rios nas já famosas áreas de preservação permanentes (APPs). Pelo visto, de nada adiantou o bilhetinho de Dilma puxando as orelhas dos seus ministros quando soube que eles haviam feito um acordo para aprovar esse texto. E agora, o que fará a presidenta?

A essa altura do campeonato é o caso de nos perguntarmos o que realmente está em jogo em um assunto que se arrasta há tanto tempo no Congresso Nacional.

A primeira coisa que precisa ser dita é que o debate sobre o Código Florestal vai muito além do que se deve proteger nas margens dos rios. Na verdade, reside no enfrentamento de uma espécie de cruzada do setor liderado pelas grandes empresas que dominam a agricultura brasileira para eliminar os limites fixados para o pleno uso da terra.

Nos últimos anos, a emergência da questão ambiental fez com que, no Brasil, as leis de proteção da natureza ganhassem mecanismos eficazes para que fossem aplicadas, como a vinculação do financiamento da produção à adoção das boas práticas agrícolas prescritas pelo Código Florestal. Com as mudanças do Código, porém, essas tais boas práticas simplesmente perderam boa parte do seu conteúdo ambiental.

Produzir mais e melhor, como de fato é possível, demolirá o discurso ruralista que desde o início vem pautando a desconstrução do Código Florestal. O argumento de que vai faltar terra para produção de alimento ou de que uma boa lei encarece o preço da comida esconde a verdadeira razão das disputas, revelando que o que as grandes empresas do agronegócio querem é não diminuir seus lucros astronômicos para adotar padrões de produção a que, diga-se de passagem, já estão obrigadas em outros países europeus e nos Estados Unidos - o que as levou a transferir suas atividades para cá. Até porque existem mais de 60 milhões de hectares de terras subutilizadas no país, que podem ser destinadas para que dobremos nossa produção agrícola sem que seja necessário desmatar uma única árvore.

Para o ex-Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, é preciso que o Brasil debata um “programa amplo de avanço do agronegócio”, o que passa pelo estabelecimento de políticas que evitem a “amputação de áreas agrícolas”. Isto, na visão de muitos, é justamente o que o Código Florestal faz quando exige, por exemplo, que não se plante em toda a extensão de uma fazenda, respeitando as árvores existentes naquilo que a lei chama de reserva legal do imóvel rural (o tamanho desta reserva varia de região para região do país).

Assim, o que se viu até agora foi apenas a primeira parte da estratégia de desmonte da legislação de proteção das florestas brasileiras, que se concentrou inicialmente em anistiar e reduzir os níveis de exigências que o Código fazia para a recuperação das áreas que haviam sido ilegalmente desmatadas. Trata-se de uma reforma feita para resolver prioritariamente o passivo ruralista junto aos órgãos ambientais que bloqueia o seu acesso às fontes de financiamento nos bancos oficiais de crédito.

Em segundo lugar, a nova etapa do debate sobre o Código Florestal vai girar exatamente em torno da preocupação manifestada pelo ex-Ministro Roberto Rodrigues, uma das vozes mais influentes entre os ruralistas, que é a de garantir que não faltarão terras para a expansão do agronegócio.

João Sampaio Filho, produtor rural e ex-Secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, fez a seguinte análise sobre o texto aprovado pelo Congresso em abril: “Claramente não é o código dos sonhos do setor produtivo, mas foi o possível e necessário para o agronegócio assumir o desafio de produzir mais alimentos... Os próximos anos serão vitais para colocar a legislação em prática e trabalhar para a revisão dos excessos.” Não é à toa que o novo texto foi apelidado de “Código Ruralista”.

Ou seja, mesmo que para consolo dos ambientalistas, o agronegócio confessa que pode muito, mas não pode tudo, ao menos não em uma única tacada. Mas ele deixa o aviso de que a agenda de reforma do Código realmente não acabou. Assim, embora pareça ainda não ser o nirvana para os ruralistas, é o prenúncio de que o pesadelo para as florestas mal começou.

* Sergio Leitão, 48 anos, advogado, especializado em temas ambientais e sociais.

Diretor de Políticas Públicas do Greenpeace no Brasil.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A flexibilização da CLT

Via Brasil de Fato

A Força Sindical discorda da proposta de flexibilização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em estudo na Casa Civil, cujo objetivo é aumentar a competitividade do Brasil, conforme alegação do governo federal. Para a Central, uma proposta desta natureza tende a abrir uma brecha capaz de impulsionar um processo radical de corte de direitos trabalhistas e sociais como querem os empresários e parte da imprensa grande

Luiz Carlos Motta

Entre ano e sai ano, o tema de mudanças na CLT volta às manchetes e editoriais dos jornais. Começou no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. Para liquidar a legislação trabalhista, inserida na CLT e no artigo 7º da Constituição, ele enviou um projeto para a Câmara dos Deputados, em 2001. Não foi para frente por causa da forte reação dos trabalhadores e dos sindicalistas.

A redução dos direitos trabalhistas e sociais, como pretendida no governo Fernando Henrique, é a mesma que agora parte do movimento sindical e o governo federal pretende implementar no País. Ao sugerir que o negociado prevaleça sobre o legislado, as partes buscam atacar as grandes conquistas dos trabalhadores.

Entre outras, elas querem permitir o parcelamento do pagamento das férias e do 13º salário, reduzir ou acabar com o piso salarial e o salário mínimo, atacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mexer no aviso prévio de 30 dias e pretendem ainda enfraquecer os sindicatos e as centrais sindicais.

Em troca, o governo acena com o aumento da competitividade do País, os empresários com incremento da produção e com a geração de postos de trabalho.  A argumentação é falsa e não resiste a menor crítica.

Segundo o Dieese, o diferencial a competitividade dos países não está no custo da mão de obra. Se assim fosse, os Estados Unidos e o Japão estariam entre as nações menos competitivas do mundo, pois o custo deles está entre os maiores do mundo.

De acordo com a Nota Técnica do Dieese ‘Reduzir a jornada de trabalho é gerar empregos de qualidade’, um “país torna-se competitivo quando possui um sistema financeiro a serviço do financiamento do capital de giro e de longo prazo com taxas de juros acessíveis; redes de institutos de pesquisas e universidades voltadas para o desenvolvimento tecnológico; população com alta escolaridade; trabalhadores especializados;  e infraestrutura desenvolvida”.

Além de não influenciar na competitividade do país, a reforma trabalhista já feita na América Latina e nos países ricos não gerou postos de trabalho, conforme tem afirmado  o economista Marcio Pochmann.

O movimento sindical (centrais sindicais, sindicatos, federações e confederações), trabalhadores, movimentos democráticos e populares e os estudantes precisam se unir para barrar mais este ataque do capital sobre os direitos dos trabalhadores. O debate precisa ser levado para a sociedade, a fim de ganharmos a opinião pública.

Vamos mostrar que a prioridade no momento é a negociação das grandes bandeiras de luta dos trabalhadores da cidade e do campo, como o fim do fator previdenciário, a reforma agrária, 10% do PIB para a educação, desoneração de tributos sobre a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e a redução da jornada de trabalho, sem o corte nos salários.

Além disso, preferimos abrir a discussão sobre a criação de um fundo que garanta a manutenção do emprego e da renda em épocas de crise econômica.

Segundo as centrais sindicais e os sindicatos que Metalúrgicos de São Paulo e do ABC, que apresentaram a proposta, o fundo seria custeado pelos 10% da multa sobre o saldo do FGTS. Ela é paga pelos patrões quando há demissão sem justa causa. O adicional foi estabelecido em lei, quando a multa passou de 40% para 50%, com o objetivo de financiar o pagamento dos expurgos dos Planos Verão e Collor I.

Temos uma pauta trabalhista elaborada pelas centrais sindicais na Conclat, em junho de 2010, porém o governo Dilma até agora não se dispôs a negociá-la. Infelizmente.

Luiz Carlos Motta é secretário de Finanças da Força Sindical e presidente da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo (Fecomerciários)