quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Vídeo: pistoleiros perseguem famílias ligadas à líder

Sanguessugado do Pública

Enquanto a líder Nilcilene Miguel de Lima tem a escolta da Força Nacional, ela está a salvo da violência do sul de Lábrea, Amazonas. Mas a lógica é inversa para as pessoas ao seu redor. Desde que voltou ao assentamento onde vive, as famílias que mais lhe ajudavam no trabalho de liderança sofrem ameaças e agressões. Os grileiros e madeireiros que ela denunciou sabem que a missão da Força é apenas protegê-la e abusam da ausência de policiamento para retaliar.

Logo na primeira semana em que voltou para o assentamento, o irmão de Nilcilene, sua cunhada e sobrinha passaram a receber ameaças da quadrilha de pistoleiros.

A líder soube que algo estava errado no dia em que eles bateram na sua porta para avisar que estavam indo embora. “Nilce, não insiste, tenho o pai e meus filhos pra cuidar”, disse o irmão quando ela teimou em saber o que estava acontecendo. Seu nome não será publicado porque a reportagem não conseguiu localizá-lo. Nem mesmo Nilcilene sabe onde eles estão.

A mesma coisa aconteceu uma semana depois, dessa vez com o tesoureiro da associação da qual Nilcilene é presidente, a Deus Proverá. Os policiais que estavam no turno da noite levaram um susto quando ouviram gritos vindo do portão. De longe, a lanterna iluminou o casal: a mulher vinha abraçada a um crucifixo e o tesoureiro a ajudava a caminhar.

Segundo relato da líder, seu marido e dos dois policiais, o casal estava atordoado. Ela chorava muito e passou a noite na casa de Nilcilene repetindo como um mantra a frase “não deixa ele me pegar”.

Os policiais tentaram convencê-los a revelar o que havia acontecido, mas eles disseram que não podiam falar. Partiram pela manhã, deixando a terra pela qual lutaram para trás.

Em visita à casa, Nilcilene se emocionou ao ver o zelo com que o terreno foi deixado pelo tesoureiro e sua mulher. As plantas no sol, a casa de farinha limpa e o poço tampado. “Eu tô só”, suspirou em meio ao choro. “Me tiraram os braços e as pernas”.

Por telefone, o casal disse que não sabe quando vai voltar. Eles não quiseram dar entrevistas, disseram apenas que tudo não passou de uma alucinação: “a gente tava perturbado, viu coisa que não era real”.

Nilce teme que o próximo alvo seja a família do segundo tesoureiro da associação, Carlos Roberto Rufato. Ele trabalha na lavoura e mora com sua mulher e quatro filhos de 4, 9, 10 e 12 anos, além da cunhada, de 12 anos. A mulher é merendeira na escola do assentamento – trabalho voluntário pois há um ano não recebe salário.

Carlos não quis revelar se a família já sofreu alguma ameaça desde que Nilcilene voltou. Ele teme dar qualquer informação sobre os problemas com os pistoleiros na região. “Falo nada, se não me caçam. Somem comigo rapidão. Mas coloque aí que precisamos urgente de um posto policial aqui”, foram suas poucas palavras.

Sua mulher, Cleire Mazario Rufato, lembra que também é preciso um posto de saúde e melhorias nas escolas. As aulas acontecem em quatro barracões construídos pelos moradores com duas professoras dando aula para 200 alunos  com idades diferentes, misturados na mesma sala. “Os meninos têm muita dificuldade para ler, precisa de mais professora para alfabetizar. E precisa contratar as merendeiras e comprar comida, que a merenda chega vencida”, diz.

Cleire pede desculpas pela introdução do novo tema. Não consegue falar só de uma demanda num lugar onde falta tudo. “Se tiver que escolher uma coisa, a coisa mais importante, é até difícil pesar na balança. O que a senhora acha mais importante da gente pedir: polícia, escola, posto de saúde, energia ou estrada?”

Leia mais:  Nilcilene, com escolta e colete à prova de balas: “eles vão me matar”

Trogloditas verde-oliva desacatam Dilma

Sanguessugado do  Union de Pueblos de Nuestra America

OS TOTALITÁRIOS CONTRA-ATACAM

Celso Lungaretti

Teremos entrado num túnel do tempo? A retórica é a mesmíssima dos tempos de Médici

Primeiramente, os presidentes dos Clubes das três Armas lançaram um pomposo Manifesto Interclubes, exigindo que a presidente Dilma Rousseff, comandante em chefe das Forças Armadas (à qual o trio deve obediência), desautorizasse duas de suas ministras. Vide aqui.

Depois, convencidos pelos ministros militares a respeitarem a hierarquia, os insubmissos recuaram: colocaram uma retratação no ar e, pouco depois, deletaram tudo, dando por encerrado o assunto. Vide aqui.

Agora, no site do torturador-símbolo do Brasil Carlos Alberto Brilhante Ustra (o único com  registro em carteira, já que foi declarado torturador pela 23ª Vara Cível de São Paulo...), os totalitários contra-atacam com um  alerta à Nação: "Eles que venham. Por aqui não passarão!". Vide aqui.

É a História se repetindo como farsa: soa muito mal, na boca dos herdeiros políticos do  generalíssimo  Francisco Franco, a célebre expressão com que Dolores Ibarrurí, a Pasionária, exortava o povo espanhol a resistir aos fascistas na década de 1930.

"Este é um alerta à Nação brasileira, assinado por homens cuja existência foi marcada por servir à Pátria", começa o papelucho de 2012, para logo enveredar por delírios megalomaníacos:

"São homens que representam o Exército das gerações passadas e são os responsáveis pelos fundamentos em que se alicerça o Exército do presente".

Traduzindo: eles são (*) os representantes daquele Exército que conspiradores contumazes, acumpliciados com uma potência estrangeira, conseguiram arrastar em 1964 para uma aventura golpista, cuja consequência foi a imposição de uma ditadura bestial e de um bestial terrorismo de estado aos brasileiros.

UNIFORMES HERÓICOS x FARDAS EMPORCALHADAS

Brilhante Ustra parece aguardar os aplausos por sua nova obra...

A afirmação de que o Exército do presente se fundamenta no golpismo e no totalitarismo deveria ser repudiada firmemente pelos militares atuais --os que vieram depois das trevas e não têm esqueletos no armário. Eles têm é de orgulhar-se de vestirem o uniforme de Carlos Figueiredo e Roberto dos Santos, os heróis da Estação Antártica Comandante Ferraz; não o de Brilhante Ustra, aquele que “emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar”, segundo a frase imortal do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias.

Na prática, trata-se de um manifesto subscrito por 13 generais, 6 tenentes coroneís, 73 coronéis, 2 capitães de mar e guerra, 1 capitão de fragata, 1 major e 1 tenente.

É muita pretensão uma centena de oficiais em pijama se declararem depositários dos valores em que se alicerça o Exército. E bizarro a lista incluir três representantes... da Marinha!

Mas, como a lógica anda meio distante dos antros das viúvas da ditadura, eles também se proclamam porta-vozes do Clube Militar:

"Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro próximo passado, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo... O Clube Militar não se intimida e continuará atento e vigilante".

Como a relação de signatários não inclui o presidente do Clube Militar, Renato Cesar Tibau da Costa, devemos supor que ele haja sido destituído? Ou os 97 estão falando em nome do Clube sem nenhuma delegação formal para o fazer? E desde quando três marujos são porta-vozes do clube do Exército?

O principal, claro, é a quebra da hierarquia, à qual, mesmo na reserva, eles continuam submetidos, segundo seu regimento disciplinar. Cometem, portanto, a mais crassa indisciplina ao confrontarem seus superiores supremos: o ministro da Defesa e a presidente da República. São estes os "fundamentos em que se alicerça o Exército do presente"?!

O objetivo último das escaramuças, todos sabemos qual é...

Além de contestarem os dirigentes e as políticas do Executivo, eles também insurgem-se contra as decisões do Congresso Nacional, ao qualificarem a instituição da Comissão da Verdade de "ato inconseqüente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo".

Se 1985 significou alguma coisa, foi que não existe mais tutela fardada sobre os Poderes da República. É totalmente inaceitável a pretensão desses nostálgicos do arbítrio, de quererem impedir com ultimatos velados o resgate da verdade histórica --objetivo real da Comissão, destituída de autoridade para remeter os assassinos, torturadores, estupradores e ocultadores de cadáveres aos tribunais, como vem ocorrendo em países com tolerância menor ao despotismo e à barbárie.

Cabe agora ao Ministério da Defesa tomar as atitudes cabíveis para fazer a hierarquia das Forças Armadas voltar a ser respeitada.

Trata-se, evidentemente, de uma provocação. Mas, reagindo estritamente à transgressão disciplinar, Celso Amorim ganhará a parada.

Oficiais militares são extremamente avessos às quebras de hierarquia, pois temem vir a ser eles próprios desacatados pelos subalternos. Não apoiarão a bravata inconsequente desses gatos pingados, ainda mais por eles estarem agindo em causa própria e não em defesa da corporação: inquietam-se, sobretudo, com o que possa vir à tona a seu próprio respeito.

No fundo, estão em pânico face ao enorme risco de passarem à História com imagem tão hedionda quanto a de Brilhante Ustra, o signatário de nº 15 do manifesto tosco e, não por acaso, o primeiro dentre os 73 coronéis. Só a patente inferior impediu que ele encabeçasse a lista de apoio a um documento que inspirou, provavelmente redigiu e trombeteou no seu site.

* deveriam ter escrito "somos", mas desconhecem a gramática tanto quanto ignoram a Constituição Brasileira e a Declaração Universal dos Direitos do Homem... 

Mais um crime no campo. Até quando o governo vai ficar fazendo cara de paisagem para essa barbaridade?

Via  MST

Fazendeiro agride trabalhadores e atropela gestante em acampamento no Maranhão

 

Reynaldo Costa

Da Página do MST

Durante a reocupação da Fazenda Rio dos Sonhos, em Bom Jesus das Selvas (MA), por cerca de 300 trabalhadores no último sábado (25), o agropecuarista e grileiro José Osvaldo Damião atropelou a gestante de seis meses Fagnea Carvalho de Oliveira, que acabou perdendo seu filho.

Na ação violenta realizada pelo fazendeiro e por seus jagunços, outros trabalhadores também foram agredidos, entre eles um senhor de 72 anos de idade.

Fagnea foi levada para o hospital municipal de Bom Jesus das Selvas, onde perdeu a criança tamanha gravidade dos ferimentos causados pelo atropelamento. Apesar de estar em estado de choque, a trabalhadora passa bem.

Três dias do acontecimento, os trabalhadores ainda não conseguiram prestar ocorrência, pois a delegacia local ignorou seus relatos. Deslocaram-se, portanto, ao município de Açailândia, mas também não foram atendidos.

No final da tarde desta terça-feira (28), militantes de direitos humanos organizados pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, visitaram o acampamento, colheram informações sobre as agressões e exigiram que um delegado fizesse o registro das ocorrências.

A área

A área ocupada tem cerca de oito mil hectares e está sendo pleiteada pelo programa Terra Legal, responsável por regularizar terras na Amazônia. O dito proprietário se empossou indevidamente da área e não poderá ser beneficiado pelo programa por já ser proprietário de outras áreas na região.

A superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Maranhão já solicitou a transferência de competência desta área para a justiça federal, para que se evite o despejo das famílias acampadas na fazenda.

Os trabalhadores que ocupam a área são Sem Terras da região e famílias que moravam em áreas de risco. Junto ao grupo está cerca de 25 famílias que viviam no lixão da cidade.

O Fazendeiro

Conhecido por Zé Osvaldo, este é mais um dos pecuaristas com histórico de truculência contra trabalhadores rurais. Dono de várias fazendas no sudeste do estado, na década de 90 Zé Osvaldo  foi acusado de ser o responsável por vários crimes no campo.

Em dezembro de 2005, um de seus filhos invadiu o Assentamento Califórnia com uma caminhonete, onde acontecia o encontro estadual do MST e tentou atropelar trabalhadores que andavam pelas ruas da comunidade.

Síria: verdades e mentiras e a mídia do Pentágono

Sanguessugado do Burgos

Futuro da Revolução Árabe relaciona-se com o que ocorre na Síria

Lejeune Mirhan

Gostaria muito de tratar mais globalmente sobre a Revolução Árabe, iniciada há pouco mais de um ano. Poderia tratar do Egito e suas eleições, também ocorridas na Tunísia ou mesmo no Iêmen, cujo ditador acaba de cair e deve refugiar-se em alguma monarquia reacionária árabe ou mesmo nos EUA (seu vice assumiu, mas segue sendo ditadura). No entanto, a pauta segue sendo a Síria. Por isso, voltamos ao tema neste artigo.

Verdades e Mentiras sobre a Síria:

Muito já se disse sobre o que ocorre na Síria hoje. Os meios de comunicação de massa, nacionais e internacionais, expressam o que pensa o Pentágono. Com honrosas exceções, tudo que recebemos no Brasil em particular, publicados em língua pátria na Folha, Globo e Estadão reproduz quase que sem retirar nenhuma frase, o que as agências noticiosas internacionais despacham para o mundo todo. Agências, diga-se de passagem, que sequer possuem um só correspondente em Damasco, capital da Síria.

A seguir, para auxiliar nossos leitores, fazemos um pequeno resumo de tudo que se diz sobre a República Árabe da Síria. Resumimos 15 pontos que se destacam na atualidade.

1. Governo de Bashar Al-Assad mata milhares - Mentira

Dia após dia, manchetes garrafais estampam que o governo vem matando "milhares" de sírios, todos "inocentes". A única fonte de informação que o Ocidente inteiro possui sobre tais "dados" de mortes é de um obscuro Observatório Sírio de Direitos Humanos (sic), com sede em Londres e que recebe farto financiamento de países do Golfo Pérsico, todos, sem exceção, monarquias antidemocráticas, absolutistas e extremamente reacionárias e pró-EUA.

Como isso esta ficando uma vergonha para quem pratica um jornalismo sério, a grande imprensa, quando publica os números "assustadores" de mortos, ultimamente vem pelo menos acrescentando sempre "segundo o Observatório Sírio de DH", que "não puderam ser comprovadas".

De fato, os únicos dados confiáveis são os fornecidos pelo próprio governo, que atesta que pelo menos dois mil soldados, policiais e cidadãos sírios foram assassinados por grupos terroristas e mercenários, seja em ataques diretos ou em atentados a bomba que vêm ocorrendo com maior intensidade nas últimas semanas.

2. Exército Síria Livre é formado por desertores - Mentira.

Não há desertores no Exército sírio. Pelo menos não em expressão. Todas as deserções em todas as divisões do Exército da República Árabe da Síria são pontuais e ocorrem apenas e exclusivamente na baixa oficialidade.

O que se tem de concreto é que essa organização é composta de mercenários altamente remunerados, usando armas contrabandeadas, inclusive do arsenal líbio. Se um AK-47, fuzil de assalto mais famoso no mundo, podia ser comprado a cem dólares tempos atrás, hoje, com os bilhões de dólares que a Arábia Saudita e o Qatar vêm despejando para a derrubada do governo do Dr. Bashar, não se compra uma arma dessa, muito popular, por menos que 1,5 mil dólares.

Esse tal "exército" esta acampado na fronteira com a Turquia e por esta é estimulado e seu comando vem de Istambul. O governo turco, que presta um péssimo papel achando que voltará a ter o comando do sultanato otomano, tem procurado dar guarida a essa milícia terrorista e facínora, apoiada por Israel e pelos EUA. Seu "comandante", o coronel desertor Riad El Assad, esta na folha de pagamento do Departamento de Estado.

3. Liga Árabe pede Democracia e Liberdade na Síria - Mentira. Não tem moral para isso.

A Liga Árabe, organismo multilateral fundado em 1945, é integrado pelos 21 países árabes e a OLP que representa a Palestina. Ainda que possa ser duvidoso que em algum momento tenha cumprido algum papel relevante na vida dos árabes, a certeza é de que hoje ela é um organismo fracassado.

Tomado de assalto pelas monarquias do Golfo, com seus bilhões de dólares, esse organismo presta-se hoje como auxiliar tanto do CS da ONU, quanto da União Europeia e dos EUA. De árabe essa tal Liga não tem mais nada. Não representa mais os anseios e as verdadeiras aspirações do povo árabe, que hoje são quase 400 milhões de pessoas.

Esse organismo serve apenas para propor ao CS da ONU resoluções que os EUA e a União Europeia não teriam a coragem de propor. Os petrodólares da Casa de Saud e do emirado do Qatar é que sustentam a organização. Esta completamente esvaziada. Iraque, Líbano, Argélia e a própria Síria nem mais tem comparecido às reuniões, que perderam completamente a sua eficácia.

Mas, o que é pior. Que moral tem a Arábia Saudita e o Qatar em pedir democracia na Síria? Falam em liberdade, mas não a praticam em seus países, que não tem parlamento e nenhum partido funcionando. Uma hipocrisia completa. Uma falsa moralidade. Indignam-se com o que ocorre na Síria, mas é uma indignação seletiva.

4. Rússia e China vetam resolução anti-Síria na ONU - Verdade.

E ambos têm suas razões.

Essas duas potências mundiais - ambos BRICS - ficaram escaldadas com o golpe europeu-estadunidense que, usando a OTAN, rasgaram a resolução 1973 de 17 de março de 2011, que mencionava apenas "proteção" a civis líbios. Com essa resolução a OTAN bombardeou toda a Líbia na linha da ordem dada por Obama/Hilary: derrubem o regime! A linha foi a da mudança de regime, coisa que só o povo líbio teria poder de decidir. Assassinaram mais de 200 mil líbios!

Os EUA e seus clientes europeus não aceitaram nenhuma modificação proposta por estes dois países na nova resolução proposta em 4 de fevereiro passado. E pior que isso. Expressaram sua indignação sobre o veto exercido dentro das regras da Carta das Nações. Quando os EUA vetam dezenas de resoluções contra Israel no CS/ONU nada se fala. Uma vez na vida duas potências vetam uma resolução que abriria brecha para a OTAN atacar a Síria, vem a indignação seletiva.

A embaixadora dos EUA da ONU, Susan Rice, chegou a dizer que o "mundo não poderia ficar refém de dois países" (sic). Tenho em mãos uma pesquisa sobre os vetos dos EUA contra resoluções a favor dos palestinos e que criticavam Israel. A pesquisa compreende apenas dez anos (1972 a 1982). Só nesse curto período foram exatos 43 resoluções vetadas pelos EUA!

Hoje, felizmente, tanto a China como a Rússia têm visto o que realmente ocorre no OM. Derrubar o governo da Síria hoje, passando por cima da soberania desse país árabe pode significar ainda um maior fortalecimento do imperialismo estadunidense e seus estados clientes europeus.

O fato é que a Rússia volta com força ao cenário internacional. Não titubeou nenhuma vez em defesa da soberania síria. Enviou armas e uma frota naval esta ancorada no estratégico porto de Tartous. Como já vimos falando, a unipolaridade no mundo tende ao seu fim. Vários pólos vão sendo criados e a Rússia vai ganhando seu espaço, fazendo-se ouvir depois de mais de vinte anos de um mundo unipolar.

5. EUA, Israel e seus aliados árabes são os maiores inimigos - Verdade.

É preciso que sejam dados nomes aos bois.

Os maiores entraves para o avanço da Revolução no mundo Árabe são as petromonarquias. Elas têm nome: Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes, Qatar, Omã e Bahrein. A esses se somam países que não são fortes produtores de petróleo, mas são monarquias reacionárias e pró-EUA, como a Jordânia e o Marrocos.

O centro da resistência ao avanço revolucionário árabe vem de Riad, no reino dos sauditas. Estes reservaram em 2011 mais de cem bilhões de dólares para a contrarevolução. E contratam mercenários a peso de ouro. Apoiados pelos EUA, ainda que discretamente, e mais discretamente por Israel e sua inteligência do Mossad. Isso esta amplamente documentado. Pelo WikiLeaks e pela imprensa verdadeiramente livre e a blogosfera.

6. Se a Síria cair, isso reflete em todo o OM - Verdade.

Há hoje um eixo de resistência ao imperialismo estadunidense. Esse eixo apoia as mudanças profundas no OM, apoia a causa palestina, faz oposição à Israel, defende o rompimentos dos acordos de paz assinados com esse país pelo Egito e Jordânia, de forma unilateral.

O bloco de países que integram o eixo da resistência são hoje, além da Síria, o Iraque, Líbano, a Argélia e o Irã (que é persa). O Partido de Deus (Hezbolláh), do Líbano, que forma governo com os cristãos patrióticos (maronitas do Marada e MPL de Aoun), sunitas e xiitas de várias organizações (Amal de Berri e drusos de Jumblat) e o PC Libanês de Khaled, seria o primeiro a sofrer consequências. O Hezbolláh - apesar do nome, é uma organização política e não defende no Líbano um estado religioso - além de muitos deputados e ministros, tem a maior milícia armada de resistência ao exército sionista de Israel que insiste em ocupar o Sul do país.

A própria luta de resistência palestina contra a ocupação, com todas as suas organização que compõem a OLP e o Hamas (que não integra a Organização), se enfraqueceriam imensamente com a queda do governo sírio e a instalação nesse país de um governo pró-EUA.

7. A Irmandade Muçulmana encabeça a oposição na Síria - Verdade.

Essa organização tem seus tentáculos em mais de 70 países. Fundada por Hassan El-Bana em 1928, funciona como partido político, tendo uma ideologia de caráter teológico de linha islâmica fundamentalista. Na maioria das ditaduras e monarquias árabes, cujas liberdades partidárias são praticamente nenhuma, a única forma de uma parte da população expressar-se acaba sendo por essa Irmandade.

Não fiquei surpreso com o fato do seu braço político recém legalizado no Egito e na Tunísia terem ficado em primeiro lugar nas eleições ocorridas recentemente após a queda dos ditadores desses países. Não havia outra forma de expressão política além do islamismo, além da máscara de apelo ao Islã fundamentalista.

No entanto, é preciso deixar claro. Em que pese esse pessoal ter jogado algum papel na resistência à ditadura Mubarak, sempre fez acordos com ele. Aceitavam as regras do jogo, qual seja, que a oposição ao ditador pudesse chegar a no máximo 20% dos votos - eleições fraudadas - tanto para presidente como no parlamento.

A Irmandade é uma organização conservadora, que prega o fundamentalismo islâmico mais próximo do Wahabiya - linha da família Al-Saud, portanto sunitas. Sempre foi e sempre será anticomunista. Por baixo do pano sempre fez acordos, inclusive com o imperialismo britânico e mais recentemente o norte-americano. Seus líderes rapidamente disseram, depois dos resultados das eleições parlamentares no Egito, onde venceram, que não romperiam o acordo de paz com Israel.

Hoje, na Síria, os principais líderes da insurreição interna, que organizam os ataques terroristas aos prédios públicos, oleodutos, gasodutos, escolas e hospitais, são membros da Irmandade. Lamentável. Mas é a verdade amplamente documentada, mas omitida pela grande imprensa.

8. A oposição síria não tem unidade e tem força no exterior apenas - Verdade.

Mas a grande imprensa não mostra isso.

É preciso que se diga. Há duas oposições na síria hoje. Uma interna e outra que funciona apenas e tão somente no exterior.

A que tem sede no exterior, seus escritórios ficam em Londres, Paris e Istambul. Esta não tem credibilidade alguma. Financiada pelas monarquias do Golfo e pelo Departamento de Estado - amplamente documentado - elas vivem para dar entrevistas na grande mídia internacional, que repercute amplamente essas "reportagens". No Brasil, a Folha e o Estadão publicaram várias delas. Todas falsas, sem provas, com "líderes" que nunca ninguém viu. É uma oposição sem respaldo algum junto ao povo sírio. Defende abertamente uma resolução no CS/ONU que abra a possibilidade - que eles tanto sonham - da OTAN atacar a Síria. Como acreditar em "lideranças" que pedem que potências estrangeiras bombardeiem seu próprio país, ainda que a pretexto de "proteger civis inocentes"?

Há outra oposição. A interna. No entanto, esta também se divide em duas grandes partes. Uma delas, participa do chamado Diálogo Nacional. Há uma mesa de negociações formada pelo governo da Síria. No rumo das mudanças que o país precisa de fato. E, tais mudanças, vêm ocorrendo (falaremos disso mais à frente). Não se sabe o tamanho dessa oposição. As eleições marcadas para o mês que vem devem mostrar a dimensão dessa oposição. Essa oposição prega a construção de um governo de unidade nacional. Em hipótese alguma defende a intervenção externa. Diz que os problemas dos sírios devem ser resolvidos pelos próprios sírios, sem ingerência externa.

A outra parte da oposição interna, não dialoga com o governo. Esta radicalizada. Arma-se até os dentes e apoia a sabotagem de prédios públicos. Alia-se com o autointitulado Exército da Síria Livre e com o Conselho Nacional Sírio. Prega também abertamente a intervenção externa, ainda que não de forma clara defenda os ataques da OTAN. Faz, na prática, o jogo das potências imperialistas.

A oposição não se unifica. Há pelo menos 53 grupos políticos e tendências atuando de forma conflitiva no tal Conselho Nacional Sírio, organismo criado no exterior e apoiado pelos EUA. Em reuniões com autoridades europeias, essa tal oposição exige que sejam feitas várias reuniões, pois eles não conseguem sequer sentar-se à mesma mesa. Não há unidade política entre eles. Talvez o único ponto em comum seja remover Assad do poder. Nada mais. Mesmo que as reformas sejam profundas - como esta ocorrendo de fato - isso hoje pouco importa. A única agenda, a agenda da CIA, dos EUA, de Israel, da Casa de Saud e do Mossad é mudar o regime. Nada mais lhes interessa.

Tanto a externa, quanto à interna que não dialoga com o governo, possuem amplo e plena interlocução em especial com os EUA, Inglaterra e França.

9. Bashar Al-Assad é um sanguinário e genocida - Mentira.

É evidente que os processos eleitorais tanto na Síria quanto em qualquer país árabe não seguem os padrões que vivemos no Brasil e no Ocidente. No entanto, não se pode falar em democracia na Síria e não se falar desse tema nos outros países árabes. Mesmo no Ocidente. Agora mesmo na Grécia se pede inclusive suspensão das eleições para que um possível novo governo de oposição não rompa os acordos de traição nacional que estão sendo assinados às claras e abertamente.

Os mesmos monarcas que falam em "democracia" na Síria, são os que mais reprimem seus próprios povos, como na Arábia Saudita, Qatar e Bahrein. Essa gente não tolera manifestação, não tolera povo organizado. Essas monarquias sequer possuem parlamento funcionando, partidos políticos são proibidos.

Em que pese todas as restrições às amplas liberdades na República Árabe da Síria, esse país ainda é o mais livre em termos de funcionamento de partidos políticos em todo o Oriente Médio. São oito os partidos políticos existentes e legalizados. Claro, o Partido Socialista Árabe Sírio, o Baath é o maior e do governo. Esta no poder há pelo menos 42 anos. Mas temos dois partidos comunistas no país funcionando. Temos o Partido Nacional Sírio e outros. Depois dos pleitos por reformas amplas, outros cinco partidos foram legalizados, ampliando para 13 o número de partidos com direito a concorrer nas próximas eleições.

O relatório dos observadores da Liga dos Estados Árabes - 160 pessoas que ficaram na síria por trinta dias - menciona em uma parte que contataram e viram funcionando 147 órgãos de imprensa nesse país árabe! Entre rádios, TVs e jornais que circulam amplamente.

Bem ou mal, as eleições para o parlamento sírio ocorrem a cada quatro anos e os oito partidos funcionam livremente. Não é a democracia mais avançada, popular, que defendemos, mas não se pode dizer que as restrições são totais. Há muito que se fazer. E esta sendo feito. Mas, a grande imprensa não divulga uma só linha sobre tudo isso. Chegou às minhas mãos - nunca divulgadas pela grande imprensa - um conjunto de 33 grandes medidas, ações governamentais, decretos e leis adotadas entre abril de 2011 e fevereiro de 2012 que mudam completamente a realidade política desse país árabe.

10. A Síria é o único país árabe hoje a apoiar com firmeza a causa palestina - Verdade.

E não se pode falar em apoio pela metade, parciais. Apenas a Síria, em sua capital, funcionam escritórios de todas as organizações da resistência palestina. O enfrentamento que o povo e o governo da Síria vêm dando à Israel, contra as ocupações que o estado sionista faz em terras árabes é o maior que se te visto em todo o OM.

Desde a derrubada do governo de Saddam Hussein e seu assassinato, que procurava dar enfrentamento à ocupação estadunidense de toda a região; desde a queda e o assassinato de Muammar Khadaffi em outubro passado, um a um foram caindo todos os focos de resistência ao imperialismo estadunidense e à Israel. Restou a Síria. É preciso instalar governos dóceis aos norte-americanos e aos sionistas em todo o mundo árabe para que se complete seu projeto neocolonial na região.

E é preciso deixar claro: derrubar Bashar hoje significa enfraquecer a resistência libanesa e palestina e isolar completamente o Irã! Quem não compreender essa geopolítica no OM não entende nada nem de OM nem de política internacional!

11. A OTAN e a Al Qaeda estão em aliança - Verdade.

Aqui é preciso esclarecer muitas coisas. Ainda que isso possa parecer inacreditável, para quem foi bombardeado durante anos com a informação de que a rede Al Qaeda de Osama Bin Laden sempre foi uma rede terrorista, que teriam feito os atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, isso pode parecer mesmo um verdadeiro absurdo. Mas não é.

Escritores, jornalistas independentes e intelectuais progressista a cada dia vêm trazendo informações precisas e importantes que comprovam essa informação. E os próprios comunicados da organização Al Qaeda pelo seu novo "comandante", o médico pediatra egípcio Ayman Al Zawahiri atestam isso. Textos recentes da lavra desse senhor ou a ele atribuídos, mencionam a importância fundamental da derrubada do governo sírio em aliança com as forças do autoproclamado Exército Síria Livre. E essa organização prega o Estado Islâmico.

Essa organização faz questão de não dialogar com o governo. Foi assim na Líbia quando ela apoiou abertamente a queda de Khadaffi e fez aliança com as forças da OTAN. Agora, da mesma forma, conversações de alto (?) nível entre emissários dessa organização militar europeia - agora mundial! - com líderes da Al Qaeda que atuam na Síria mostra essa aliança, que é abastecida fartamente com dólares do petróleo árabe das monarquias do Golfo e dinheiro da CIA e do Mossad de Israel, via território curdo.

Como diz Pepe Escobar, combativo jornalista brasileiro correspondente do Asia Times, "quem imaginaria que o que a Casa de Saud deseja ver na Síria é exatamente o que a Al Qaeda deseja para a Síria? Quem imaginaria que o CCG e a OTAN desejam para a Síria é o mesmo que a Al Qaeda deseja para esse país?".

12. A Turquia e seu governo deram as costas para os árabes - Verdade.

É lamentável ter que reconhecer isso, mas o governo de Recep Tayyip Erdogan, cujo partido governa a Turquia há quase nove anos (desde 14 de março de 2003), com o seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento - PJD (em turco AKP, ou Adalet ve Kalninma Partisi), tem outros projetos para seu país e para uma liderança de toda a região.

Como bem sabemos, a região do OM é habitada por diversos povos. Além do árabe, que são a esmagadora maioria, temos ainda os persas (Irã), os judeus (Israel) e os turcos na Turquia, que é um país laico (apesar de 97% da população pertencer ao islamismo sunita) e foi ocidentalizado de tal forma que até seu alfabeto foi modificado. A separação das entidades e instituições religiosas do Estado é absoluta. No entanto, com Erdogan isso vem sendo gradativamente modificado.

Na verdade, esse Partido vem vencendo as eleições por, gradativamente, ir modificando o cenário turco de tal forma que boa parte da população já admite certa islamização da sociedade. A imprensa apresenta Erdogan como membro de um partido "muçulmano moderado" (sic) sabe-se lá o que isso significa.

No entanto, o grande sonho, o grande projeto desse Partido, o AKP (em turco), é integrar-se à Europa. Isso o falecido cientista político estadunidense Samuel Huntington já havia previsto em seu artigo clássico da Foreing Office de 1995 que causou polêmica acadêmica no mundo todo intitulado Clash of Civilization (Choque de Civilizações, posteriormente transformado em livro pela Editora Objetiva, em 1997).

A crítica que a Turquia receberia desse intelectual era de que o país viraria as costas para o mundo islâmico e teria maiores interesses em olhar para a Europa. Hungtinton afirmaria - quase que como uma profecia - que ele nunca seria admitido na Europa, por ser o continente extremamente preconceituoso, cristão e antiislâmico, por mais que a Turquia fosse um país laico. Sabe-se que o Vaticano se pronuncia contra o ingresso da Turquia na Europa. Era discreto com João Paulo II e agora é aberto com Bento XVI.

Nesse sentido, desde 2003 Erdogan vem se aproximando da Europa. Seu país é membro da OTAN e tem bases militares dessa organização militar, antes contra a URSS e hoje contra qualquer mudança progressista ou revolucionária em qualquer país do mundo. Chegou a ensaiar passos contra Israel. Não é para menos. O governo sionista de Netanyahú interceptou em 2010 uma flotilha de vários navios e fuzilou nove cidadãos turcos. Erdogan teve que subir o tom. Chegou a jogar um papel importante na tentativa de tirar o Irã do isolamento em seu programa nuclear que contou com o apoio de Lula do Brasil.

Mas, mudou de posição. Voltou ao que sempre foi. Tem um sonho de ser a grande liderança do Oriente Médio e dos árabes inclusive. Baixou completamente o tom de voz contra Israel. Apoiou os ataques da OTAN/Europa à Líbia e apoia abertamente a derrubada do governo da Síria em uma clara ingerência nos assuntos internos de um país vizinho que teria que respeitar. Dá abrigo ao exército mercenário estacionado nas suas fronteiras com a Síria. Faz uma manobra arriscada. Coloca em pé de guerra todos os milhões de curdos que vivem em território turco que odeiam o seu governo (pelo menos na Síria eles são melhores tratados). A política de Erdogan de "zero problemas com os vizinhos" hoje vemos uma situação de "zero amigos".

Talvez sonhe com a volta do império turco-otomano. Mas não há espaço para isso. Ele terá que fazer escolha. E, neste momento, vem escolhendo o que tem de pior para o mundo árabe e para toda a Ásia, qual seja, uma aliança tácita com o imperialismo estadunidense e europeu. Lamentamos por isso.

13. Relatório sobre a Situação da Síria só Vale Quando Fala Mal do Governo - Verdade.

Dois relatórios foram produzidos nos últimos 90 dias sobre a Síria. Um, da lavra do representante da ONU para Direitos Humanos na Síria, o brasileiro e meu colega sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro, da USP e outro, assinado pelo general sudanês, Mohammed Ahmad Al-Dabi.

Escrevi um artigo sobre o primeiro relatório. O Prof. Paulo Sério sequer entrou na Síria, mas escreveu sobre o que não viu. Fez um relatório faccioso, tendencioso, parcial. Não ouviu ninguém do governo, apenas opositores no exílio. Tal relatório foi amplamente saudado pela imprensa internacional como "equilibrado". Atacava o governo de todas as formas possíveis.

O outro relatório foi feito sob a coordenação do experiente general sudanês, ex-presidente de seu país. A comissão formada era oficial da Liga Árabe. Era integrada por 160 pessoas. Passaram trinta dias na Síria. Visitaram várias cidades, ouviram oposicionistas e o governo. Não constataram a violência que o mundo diz haver no país. Não atestaram o número exorbitante de mortos que a imprensa ocidental divulga. Ao contrário. Constaram sim milhares de mortos das forças regulares, do exército e da polícia. Presenciaram milhões nas ruas em apoio ao governo do Dr. Bashar. Mas, como disse Kissinger em recente artigo o governo é amado pelo povo, mas mesmo assim tem que cair (sic). Esse foi o relatório que apontou a existência de 147 órgãos de imprensa funcionando livremente na Síria.

Imediatamente, a Liga Árabe, que representa hoje apenas as petro-monarquias do Golfo e os interesses da OTAN prontamente rejeitou tal relatório, levando o seu presidente a renunciar aos trabalhos. De fato, dois pesos e duas medidas. Só não vê quem não quer.

14. Os EUA vivem uma Indignação Seletiva - Verdade.

Nunca a famosa frase de "um peso e duas medidas" ficou tão claro e tão evidente como no momento atual da diplomacia norte-americana com Barak Obama. Seus planejadores do Pentágono e do Departamento de Estado são hoje mais ideólogos que planejadores. São seletivos em suas análises, facciosos.

Colocam-se contra o Irã e seu programa nuclear pacífico, mas nada falam sobre as duzentas ogivas nucleares que Israel possui. Falam o tempo todo contra o "ditador" Bashar, mas não se pronunciam contra as monarquias absolutistas, obscurantistas, fascistas e feudais do Golfo, por estes serem seus aliados, amigos e pró-Israel. Pronunciaram-se contra a "repressão" na Síria, mas calaram-se com o massacre dos xiitas no Bahrein. Falam contra o uso das forças armadas sírias que defende o país, mas calam-se contra a invasão que as forças armadas sauditas fizeram no Bahrein, sede da 5ª Frota dos EUA que patrulha o Golfo Pérsico-Arábico. Abusam do direito de veto no CS/ONU em favor de Israel, mas indignam-se contra um veto exercido dentro das regras previstas na Carta das Nações usado pela China e pela Rússia.

15. Terroristas agem abertamente na Síria - Verdade.

A grande imprensa apenas acusa o governo de matar dezenas, centenas de cidadãos. No entanto, ela tem sido obrigada a noticiar mais e mais atentados terroristas contra prédios públicos, oleodutos, gasodutos, escolas e até mesmo hospitais. São feitos por mercenários contratados a peso de ouro pelo obscuro Exército da Síria Livre. O objetivo desses ataques é quebrar a infraestrutura do país e jogar a opinião pública contra o governo.

É preciso destacar que a ação desses grupos mercenários conta com apoio e total suporte da OTAN que os treina e financia, a partir de acampamentos na fronteira da Turquia. Estão envolvidos nessa operação a CIA e o MI6 inglês, além, claro, como sempre, o Mossad de Israel. Isso não vem surtindo efeito. Ao contrário. Pesquisas confiáveis de opinião mostram o grande apoio da opinião pública ao governo.

Conclusões

Nunca tivemos dúvidas, desde o início do processo da Revolução Árabe, que a Síria viveria uma situação distinta, particular. O caráter de um governo se mede pelas tarefas que assume, pelos seus objetivos, pela ação que pratica. Por isso nunca duvidamos do caráter antiimperialista, popular e em defesa dos palestinos que o governo da família Assad sempre expressaram.

Defendemos, tal qual as organizações sindicais, populares e os partidos comunistas da Síria, reformas profundas no país, ampliação das liberdades políticas e de organização. No entanto, não podemos somar nossas vozes com grupos terroristas, mercenários à soldo do imperialismos de todas as matizes, sejam eles norte-americano, inglês ou francês. Não bastasse isso, já esta claro mais que provado por diversas fontes, a ampla aliança da Al Qaeda com a OTAN. E somado a isso, os serviços secretos da CIA, MI6 e Mossad israelense.

Somamos nossas vozes às do povo e do governo da Síria, em seu projeto em defesa da soberania nacional e sua autodeterminação. Não à ingerência estrangeira nos assuntos internos da Síria. Apoiamos e defendemos o diálogo nacional. Apoiamos as eleições livres que ocorrerão no mês que vem, sob nova e democrática constituição da República Árabe da Síria.

Ao que tudo indica, o jogo parece que vai terminando. E com uma derrota fragorosa para as forças imperialistas e sionistas. Para as forças que querem barrar o avanço da Revolução Árabe. A Rússia e China estão resolutas em não apoiar qualquer intervenção externa na Síria. Já chega de destruição de uma nação árabe. Não ficou pedra sobre pedra no Iraque. Agora a mesma coisa na Líbia, antes o país de maio IDH de toda a África. Sem falar na própria destruição do Afeganistão. Agora querem destruir e tomar a síria, último bastião e pilar do verdadeiro nacionalismo e panarabismo, herdados de Gamal Abdel Nasser. A oposição externa já perdeu as ilusões de apoios. Até Sarkouzy já disse que não se ganha uma guerra de fora do país!

A OTAN não tem como intervir e já disse isso com todas as letras. Resta-lhes apoiar os terroristas da rede Al Qaeda, financiada pela CIA. A Turquia vai acabar tendo que retirar todo seu apoio aos mercenários recrutados pelos dólares sauditas, a que ela vem chamando de Exército da Síria "Livre" (Free Syrian Army - FSA em inglês). Vai ficando isolada e sem amigos no OM.

O risco de um conflito regional no OM, que já foi maior, deve estar sendo redimensionado pelos tais planejadores de Washington. Não há como um conflito dessa natureza deixar de fora as capitais Tel Aviv, Riad e Ancara. Um incêndio de razoáveis proporções.

O CS/ONU e a Liga Árabe (do Golfo...) não conseguem mais executar a política estadunidense. Não pelo menos com antes, com a desenvoltura anterior. Há resistências da Rússia e China e agora do Líbano, Iraque, Argélia, do Irã e da própria Síria e do seu bravo povo. A Liga Árabe acabou. Precisará ser, no futuro, recomposta ou outra organização surgirá. Hoje, é palco para monarquias fascistas, feudais, como as da Arábia Saudita e do Qatar.

O governo da Síria, sob o comando do seu jovem presidente, o médico Bashar El Assad, segue no caminho da tentativa de pacificação do país. Mais de 30 decretos, portarias e novas leis, editadas em oito meses vão reformando o regime, o governo, o país, dando-lhes feições mais modernas e democráticas. Avança o diálogo nacional com todas as organizações, governamentais ou não, no rumo de eleições democráticas, nova constituição e eleições presidenciais em 2013. Novos pactos, novas alianças, regionais e internacionais, devem atender aos interesses dos sírios. Novos acordos econômicos com países amigos, em especial Rússia e China, devem ser assinados em breve.

Quero registrar meu profundo lamento a uma esquerda que não consegue compreender a dimensão do que está em jogo naquela região e insiste em somar suas forças, pequenas é verdade, às do império estadunidense e seus lacaios, tentando derrubar o governo patriótico da Síria.

Posso estar enganado, mas contas feitas pelo imperialismo e sionismo, pela direita islâmica, o melhor mesmo talvez seja melhor bater em retirada. Difícil prever em detalhes, mas é esse o cenário que vislumbramos.

Autor: Lejeune Mirhan - Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista de Oriente Médio do Portal da Fundação Maurício Grabois (http://fmauriciograbois.org.br/portal/). Colaborador da Revista Sociologia da Editora Escala. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

Fontes: pravda.ru

Está passando da hora de tirar Mano Menezes

Via Balaio do Kotscho

Vamos falar sério que o assunto não é de brincadeira: está passando da hora de demitir Mano Menezes e mudar todo o comando técnico da seleção brasileira, enquanto é tempo.

Faltam menos de 30 meses para a Copa do Mundo no Brasil. O vexame do Brasil contra a Bósnia na terça-feira, arrancando uma vitória sofrida com um gol contra no último minuto, foi a prova definitiva, se é que ainda faltava alguma: após um ano e meio de experiências promovidas por Mano, ainda não temos um time para chamar de seleção brasileira.

Não adianta mais escolher adversário fraco para preservar o técnico. O Brasil joga mal contra qualquer um porque é uma seleção sem nenhum esquema de jogo, sem brilho e sem personalidade _ um amontoado de jogadores que entra em campo apenas para cumprir os compromissos de Ricardo Teixeira com os patrocinadores.

O grande problema, a esta altura, é saber quem vai demitir Mano Menezes. O próprio Ricardo Teixeira está balançando no cargo de ditador da CBF e o diretor de seleções, Andrés Sanchez, é o ex-presidente do Corinthians que indicou seu cupincha Mano para a CBF.

Antes da Copa do Mundo de 2014, temos as Olimpíadas ainda este ano e a Copa das Confederações no próximo: com o futebol que esta seleção de Mano & Teixeira está jogando, serão mais dois vexames anunciados, como foi a Copa América no ano passado.

Não dá mais para ver o time do Brasil trocando passes em seu campo de defesa, todo mundo parado e olhando, até alguém sair correndo pela lateral e ficar esperando um lançamento, geralmente mal feito.

Afinal, qual é a história de Mano Menezes no futebol brasileiro, além de ser amigo de Andrés Sanchez e Ricardo Teixeira? Foi duas vezes campeão da segunda divisão _ de onde, aliás, não deveria ter saído.

Apesar dos cursos intensivos de media training, Mano é tão bronco como qualquer outro técnico brasileiro, com a diferença de que não tem nenhum talento. Seu time joga no mesmo estilo em que ele dá longas entrevistas: só no rolando lero, sem dizer nada, mas com muita pompa.

Na entrevista coletiva após o jogo contra a Bósnia, ele ainda teve a coragem de dizer que havia gostado da atuação da seleção brasileira, limitando-se a criticar alguns jogadores, entre eles, Ronaldinho, que ele mesmo ressuscitou para vestir a camisa amarela.

Ronaldinho está com o prazo de validade vencido há muito tempo, assim como o goleiro Júlio César, que tomou mais um 'peru gordo'.

A questão nem é quem deve sair ou entrar no time. Tanto faz. Também não importa quem colocar no lugar de Mano Menezes, que já provou não servir para o cargo.

Serve qualquer um, desde que consiga pelo menos devolver aos jogadores o orgulho de vestir a camisa da seleção brasileira e a confiança no nosso futebol.

Podemos não ter todos os mais belos estádios, aeroportos, metrôs e hotéis prontos a tempo de serem inaugurados antes da Copa de 2014. Mas precisamos pelo menos ter um time que não nos faça passar vergonha dentro de campo.

Os caros leitores do Balaio têm algum palpite ou acham melhor deixar tudo como está?

CTRL+C e CTRL+V na Argentina Dilma e dá um jeito na Gang das Teles

Via Rede Brasil Atual

Governo argentino anuncia intervenção na empresa que administrava trem acidentado

Monica Yanakiew, da Agência Brasil

Buenos Aires – Seis dias após o acidente de trem em Buenos Aires que matou 51 pessoas e feriu mais de 700, o governo argentino anunciou hoje (28) a intervenção, por duas semanas, na empresa Trens de Buenos Aires (TBA).

A empresa obteve em 1995 concessões do Estado para operar as linhas Sarmiento e Mitre, que transportam 300 mil passageiros por dia. O acidente, o terceiro pior desde 1970, ocorreu na linha Sarmiento, no último dia 22, quando um trem não conseguiu frear a tempo e bateu na barreira da plataforma da estação do bairro Once – uma das mais movimentadas da capital argentina.

Em entrevista coletiva, o ministro do Planejamento, Júlio de Vido, explicou que a intervenção, decidida pela própria presidenta Cristina Kirchner, tem por objetivo garantir a segurança dos passageiros enquanto a Justiça investiga os motivos do acidente. Além de nomear um interventor, Raul Barido, o governo mobilizou a Comissão Nacional de Regulamentação do Transporte, empresas estatais do setor ferroviário e prefeitos dos municípios por onde passam as duas linhas de trem.

“O sistema ferroviário argentino vem sofrendo uma gigantesca deterioração desde 1958 até 2003”, disse De Vido. “Quase meio milhão de pessoas usam essas duas linhas diariamente. É nossa obrigação velar pela segurança dos usuários”.

O secretário de Transporte, Juan Pablo Schiavi, lembrou que 80% dos passageiros “são trabalhadores” e precisam continuar usando o trem. Por isso, disse, “o Estado estará mais presente” até que os peritos determinem se os vagões e trilhos têm problemas e se podem operar normalmente.

Ontem (27), a presidenta Cristina Kirchner falou pela primeira vez sobre o acidente. “A perícia para determinar os responsáveis diretos e indiretos [do acidente] pode durar mais de 15 dias e não quero que digam que a presidenta está fixando os prazos da Justiça, mas os 40 milhões de argentinos e as vítimas precisam saber”, disse Cristina, em discurso.

O acidente reabriu o debate na Argentina sobre as privatizações das estatais, ocorridas na década de 90, durante o governo de Carlos Menem. Especialistas dizem que os contratos foram mal feitos porque beneficiaram as empresas que receberam concessões. As empresas que operam linhas de passageiros, como a TBA, não são obrigadas e investir em infraestrutura – os trens, os trilhos e a sinalização pertencem ao Estado, que também concede volumosos subsídios para manter os preços baixos. Mas o Estado tampouco tem os mecanismos para obrigá-las a cuidar da manutenção.

“Os inspetores da Comissão Nacional de Regulamentação do Transporte podem apontar falhas e recomendar consertos, mas as empresas podem recorrer à Justiça e dilatar os prazos”, explicou, em entrevista à Agência Brasil, o presidente do Instituto Argentino de Ferrovias, Pablo Martorelli. Segundo ele, o último programa de investimento no sistema ferroviário argentino data de 1999, época das privatizações. Somente em 2003, durante o governo de Nestor Kirchner – marido de Cristina, morto em outubro do ano passado –, o Estado rescindiu contratos de concessões com empresas privadas e investiu na recuperação de algumas linhas.

ALBA: uma realidade distante do Brasil

Via Telesur

Raúl Castro destaca que ALBA busca desarrollo a favor de los pueblos y no a costa de ellos

     

Raúl Castro destacó creación de la CELAC como el acontecimiento más trascendental de los últimos 200 años. (Foto: teleSUR)

El presidente de Cuba, Raúl Castro, dijo este sábado en la instalación de la XI Cumbre de la Alianza Boliviariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA), que este bloque busca el desarrollo justo y equitativo a favor de los pueblos y no a costa de ellos.

“Es una estrategia de desarrollo justo y equitativo a favor de nuestros pueblos, y no a costa de ellos”, resaltó el mandatario cubano.

En una breve intervención, dijo que es imposible desconocer los resultados de los planes de desarrollo social del ALBA.

“Tiene un impacto innegable con resultados imposibles de desconocer”, declaró y agregó “me voy lleno de optimismo”.

CELAC: acontecimiento histórico

Al referirse a los procesos de integración del continente a través de organismos como el ALBA, Raúl Castro, hizo especial mención de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC), y la significación histórica de su creación el pasado diciembre en Caracas, capital  de Venezuela.

Para el líder del país caribeño no hay un acontecimiento más importante desde la declaración de la independencia en los países de América Latina, hace 200 años, que “la creacion de la CELAC”.

“Ha sido un gran paso de avance”, añadió. “Ahora es una tarea de mucha paciencia, de mucha compresión”, que pasa por el respeto a la diversidad y de todas las opiniones.

Chávez: el propósito de esta cumbre es darle mayor fortaleza a la estructura del ALBA

ALBA impulsa nuevo espacio para fortalecer su sistema económico

Morales propone liberación económica, social y cultural en cumbre del ALBA

Gang das Teles e Anatel: associação para exploração do consumidor/Brasil tem Internet mais lenta que Haiti e Etiópia, diz pesquisa

Sanguessugado do Nassif

A Anatel e a associação das operadoras

Panfucio

Idec aciona Justiça para associação de operadoras não fiscalizar banda larga

Da Redação

ABR Telecom, que reúne as principais empresas do setor no Brasil, está inscrita em processo que escolherá quem monitorará a qualidade do serviço.

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) ingressou nesta segunda-feira (27/02) com uma Ação Civil Pública contra a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a ABR Telecom, que reúne as principais operadoras de banda larga do Brasil. O objetivo da medida é fazer com que a associação seja excluída do processo que selecionará quem fará a medição oficial de qualidade da conexão à Internet no País.

bsp;anunciado em outubro do ano passado, as prestadoras do serviço terão de entregar velocidade mínima de 60% (em uma média mensal), do plano contratado pelo usuário, além de estarem proibidas de limitar a banda conforme o arquivo baixado – o chamado traffic shaping. A exigência entrará em vigor já em 2012, mas, antes disso, a Entidade Aferidora da Qualidade (EAQ) terá de ser escolhida. Esta ficará responsável por averiguar se, de fato, as companhias estão obedecendo às determinações.

Leia mais: Brasil tem Internet mais lenta que Haiti e Etiópia, diz pesquisa

A vencedora do edital será anunciada nesta quarta-feira (29/02) e uma das participantes é justamente a ABR Telecom. Assim, caso seja selecionada, a associação das provedoras terá a incumbência de acompanhar a atividade de suas filiadas e reporta-la à agência, que, com base nesses dados, decidirá se alguma advertência ou punição é necessária.

"Manter a ABR Telecom nesse processo, atenta contra os princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa, previstos na Constituição Federal e que devem permear a atuação da Anatel como ente da Administração Pública indireta", afirmou a gerente jurídica do Idec, Maria Elisa Novais.

Vale lembrar que grande parte das teles é contrária à aferição como está delimitada. Alega que o modelo escolhido isola o ambiente a ser avaliado, ou seja, o computador do usuário, que pode ter baixa capacidade de processamento ou estar infectado, influindo em um resultado que reflete a realidade.

Fazem parte da ABR Telecom as seguintes empresas: Algar, Cabo Telecom, Claro, Embratel, GVT, NET, Nextel, Oi, Sercomtel, Telefônica, TIM e Vivo.

Esquerda social e esquerda política

Via La Jornada

Tradução Renzo Bassanetti

Raul Zibechi

O aprofundamento das diversas crises e a entrada em cena de novos movimentos estão promovendo um debate sobre o papel da esquerda nas mudanças possíveis e desejáveis. Muitos apostam numa profunda renovação ou na unidade como forma de encontrar uma forma de quebrar a hegemonia do setor financeiro,

Em geral, os debates apontam para o papel da esquerda política, ou seja, os partidos que se proclamam de esquerda. Superar as divisões históricas, supostamente alimentadas por diferenças ideológicas, seria um passo decisivo para ir além da situação atual. A unidade entre as três grandes correntes, socialistas e social democratas, comunistas e anarquistas ou radicais, seria um passo imprescindível para que esse setor esteja em condições de ter um papel decisivo na superação da crise atual.

Contudo, a experiência histórica diz outra coisa. A primeira é que os partidos de esquerda não se unem se não existir um poderoso movimento de baixo que lhes imponha uma agenda comum. Ou seja, quero dizer que os partidos de esquerda dependem do estado de ânimo e da disposição dos trabalhadores para resistir ou acomodarem-se ao sistema. Para as pessoas comuns, os debates ideológicos são coisa de pouca importância.

As experiências da Frente Popular, na Espanha republicana, da Unidade Popular no Chile de Salvador Allende e da Frente Ampla no Uruguai, indicam que é a pressão dos diversos “abaixo” que termina por derrubar os sectarismos e impõe, no mínimo, a unidade de ação. Foi a potência do movimento operário que fez os anarquistas apoiarem nas urnas os candidatos da Frente Popular, vencendo suas resistências às eleições.

A segunda é que esses 99%, dos quais se supõe que fazemos parte, diante do um por cento que detém o poder e a riqueza, têm interesses diversos e, nesta etapa do capitalismo, contraditórios. Em linhas gerais, há dois “debaixos”, como dizem os zapatistas. Os mais debaixo, os do porão – índios, afros, imigrantes, clandestinos e informais – compõem o setor mais oprimido e explorado do amplo mundo do trabalho, Esse mundo é composto basicamente por mulheres e jovens pobres, geralmente de pele escura, que vivem em áreas rurais e periferias urbanas. São os mais interessados em mudar o mundo, por que são os que não tem nada a perder.

O outro “debaixo” é diferente. Em 1929, somente um por cento dos norte americanos tinhas ações cotadas na Bolsa de Valores de Wall Street. Em 1965, já eram 10 por cento e, em 1980, 14 por cento. Entretanto, em 2010, 50 por cento dos americanos eram proprietários de ações. Com a privatização do sistema de aposentadorias e a criação dos fundos de pensões, todo um setor da classe trabalhadora ficou vinculado ao capital. A General Motors e a Chrysler foram salvas da quebra em 2009 pelas contribuições de fundos controlados pelos sindicatos.

A segunda empresa mineradora em tamanho no mundo, a brasileira Valle, rechaçada por ambientalistas e sem-terra, é controlada pelo Previ, fundo de pensões dos funcionários do Banco do Brasil, que tem junto ao BNDS uma sólida maioria no conselho de administração da multinacional. Os fundos de pensões do Brasil tem investimentos que representam quase 20% do PIB desse país emergente, e controlam enormes empresas e grupos econômicos. Os fundos são o núcleo da acumulação de capital, e são geridos por sindicatos, empresas e Estado.

Trata-se apenas de dois exemplos bem distantes para ilustrar o fato de que a esquerda social, ou os movimentos, supostamente anti-sistema, tem interesses contraditórios.

A terceira questão é que, se reconhecemos que essa diversidade de interesses é para construir estratégias de mudanças que estão enraizadas na realidade e não em declarações ou ideologias. Como unir trabalhadores braçais que ganham uma miséria com empregados de colarinho branco, que se sentem mais perto dos patrões do que seus irmãos de classe?

Os operários que constroem a gigantesca hidrelétrica de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo, se lançaram à greve em dezembro por que ganham 500 dólares mensais por 12 horas diárias de trabalho e a comida que lhes servem está estragada. Os representantes sindicais foram até a obra para convencer os operários à voltarem ao trabalho. Os fundos de pensão de três empresas estatais tem 25% das ações do consórcio que constrói Belo Monte.

Os trabalhadores da Petrobrás, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil estão interessados no sucesso de Belo Monte, já que seus fundos de pensões, em grande parte controlados por delegados sindicais, repartirão mais dinheiro às custas da exploração dos operários, da natureza e dos índios deslocados pela hidrelétrica.

A quarta é que toda a estratégia para mudar o sistema deve instalar-se solidamente entre aqueles que mais sofrem com esse sistema, ou seja, os do porão. Pensar na unidade orgânica dos debaixo é colocar no timão de controle os que falam e negociam melhor, os que tem mais meios para estar onde se tomam as decisões, ou seja, acima dos debaixo.. São os que se movimentam melhor nas organizações formais, as que contam com locais amplos e confortáveis, funcionários e meios de comunicação e de transporte.

Os do porão se reúnem onde podem, freqüentemente na rua, que é o espaço mais democrático, como os Occupy Wall Street,, os indignados da Espanha e da Grécia e os rebeldes da cidade do Cairo. Não o fazem em torno de um programa, mas sim de um plano de ação. E, é claro, são desorganizados, falam toda hora e aos borbotões.

As estratégias para mudar o mundo devem partir, do meu modo de ver, na criação de espaços para que os diferentes “debaixo” ou esquerdas se conheçam, encontrem formas de se comunicar e fazer as coisas, e estabeleçam laços de confiança. Pode parecer pouco, mas o primeiro passo é compreender que ambos ou setores ou trajetórias precisam um do outro, já que o inimigo concentra mais poder do que nunca.

A ‘engenharia da cooptação’ e os sindicatos no Brasil recente

A QUEIMA DO ALCORÃO E OS MANDAMENTOS DA PAZ

Sanguessugado do Mauro Santayana

   (JB) -         A queima, ainda que tenha sido acidental, de exemplares do Corão por soldados norte-americanos no Afeganistão,  talvez tenha sido o mais grave problema para os Estados Unidos, desde a invasão do país. Os homens não podem viver sem alguma fé e, nesse raciocínio, a negação de Deus é, em si mesma,  manifestação de crença. A fé é inerente ao espírito do homem, como o sangue ao corpo. O Ocidente pode, com seu racionalismo, negar a sabedoria do Livro Sagrado dos muçulmanos, da mesma forma que há os que negam importância transcendental à Bíblia e aos livros das religiões asiáticas – mas não convém desprezar a fé alheia.

           Se há uma religião que, ao longo da História, teve conhecida tolerância para com as crenças alheias, foi a muçulmana. A Espanha medieval é disso uma prova. Judeus, cristãos e muçulmanos puderam viver em paz na Andaluzia islâmica, apesar da hostilidade entre os estados católicos e o Crescente. Tal como ocorre em nossos tempos, o que determinava a paz e a guerra eram os interesses do poder.

           Os muçulmanos têm um grande respeito pelos povos do Livro, ou seja, da Bíblia,  mesmo porque se consideram provindos da mesma raiz hebraica. É inimaginável que venham a queimar as Escrituras Sagradas. Não é a primeira vez que essa afronta é cometida pelos norte-americanos. Se os soldados agiram sem a intenção da ofensa (o que parece improvável), outro foi o propósito de episódios anteriores. Em setembro de 2010, o pastor protestante Terry Jones anunciou o seu projeto de promover a queima de exemplares do livro em todo o território americano. Houve protestos, e ele prometeu que não o faria. Mas, em março do ano passado, em sua igreja de Gainesville, na Flórida, promoveu o julgamento do livro e - considerando-o culpado pela queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 - queimou um exemplar, durante dez minutos, sob o aplauso frenético de seus fiéis.

          O momento é difícil para os Estados Unidos (e para Obama, que disputa a reeleição este ano) e seus aliados no mundo inteiro. A desastrada intervenção na Líbia, no ano passado, está sendo avaliada pelos comentaristas internacionais como um grande erro. Sob a mentira de que defendiam os direitos humanos naquele país, os europeus, sob as ordens de Washington, e o apoio de mísseis norte-americanos,  arrasaram a nação árabe, e cometeram crimes muito mais estúpidos dos que se atribuíam a Kadafi. Os que caçaram e mataram o líder líbio, da forma que o fizeram, sob os aplausos histéricos da Sra. Hillary Clinton, continuam a matar todos os que podem. Os negros, que viviam e trabalhavam na Líbia, sob a proteção do Estado, estão sendo escorraçados e mortos como bichos pelas tropas do frágil governo de transição. Há cidades que se organizam para defender-se dos novos donos do país.

           E temos a situação da Síria, em que islamitas e cristãos convivem, sem atropelos, da mesma forma que no Líbano. Os Estados Unidos estimulam uma intervenção militar no país, com a mesma desculpa da defesa dos direitos humanos. Relatório recente de observadores da ONU denuncia que os opositores ao regime cometem as mesmas atrocidades atribuídas às tropas de Assad. E, na mesma região, encontra-se o Irã. Uma pergunta se faz necessária: devemos e podemos invadir um outro país, a fim de impor, ali, a ordem que nos parece melhor? A paz entre as nações repousa nesse princípio elementar, o da autodeterminação de seus povos e, em conseqüência, da não intervenção, seja a que pretexto for.

          Essa doutrina foi admiravelmente resumida por Benito Juarez, o grande líder mexicano, como resposta aos que lhe pediram perdoar Maximiliano, que invadira seu país e se proclamara imperador: el derecho ajeno es la paz.

          Como se sabe, Maximiliano comandou tropas expedicionárias européias, apoiadas por traidores internos,  que pretenderam assenhorear-se do México, a fim de cobrar dívidas, e foram vencidas pela resistência comandada pelo índio Juarez, que prendeu, julgou e mandou fuzilar o invasor em Querétaro, em 1867. Se cada povo pudesse decidir, ele mesmo, seus problemas internos, as guerras seriam mais difíceis.

         Há várias formas de ingerência, e a América Latina conhece algumas delas, incluídos os golpes sistemáticos, ao longo da História, insuflados, financiados e comandados pelos Estados Unidos – além da intervenção direta dos marines. Os tempos mudam, e não parece que Washington se disponha a correr riscos maiores nessa fase da história do mundo. De qualquer forma, se queremos manter inviolável  nosso território e  nossa soberania política, devemos rechaçar a intervenção estrangeira em qualquer país do mundo, a que pretexto for. Como se sabe, há congressistas norte-americanos que recomendam uma ação militar na Tríplice Fronteira, entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai, a pretexto de combate ao “terrorismo muçulmano”. 

          O presidente Obama pediu desculpas aos afegãos pelo incidente, segundo ele, involuntário. O que já era difícil torna-se ainda mais difícil agora: a retirada dos norte-americanos daquele país com um mínimo de ordem e de dignidade.

De: Augusto dos Anjos Para: Serra

Sanguessugado do Tijolaço

Serra e suas quimeras

Fernando Brito

Se, como disse hoje Fernando Henrique Cardoso ao Estadão, a candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo “dá a ele uma revitalização política” porque a estaria comemorando justamente aquele que, faz tempo, quer jogar ao mar qualquer chance de que Serra continue a  encarnar a neodireita da qual FHC se acha Pater supremo e Deus reverencial?

Porque Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e Aécio Neves querem, antes e acima de tudo, livrar-se da maldição – e rejeição – que Serra representa hoje, em toda parte do Brasil. Seja amarrando-o à cadeira de prefeito ou, como preferem, afundando-o definitivamente numa derrota eleitoral (fatal) no centro tucano do Brasil.

FHC acha que Serra já teve suas chances e não o acha capaz intectual e emocionalmente de enfrentar Lula.

Alckmin, depois de ter sido empurrado às feras por Serra em 2006, levado dele uma rasteira em 2008 e vencido em 2010 com mais folga que Serra teve nas paulistas e paulistanas, ve a chance de darle um daqueles quadrinhos de botequim, onde está escrito: “Deus te dê em dobro tudo aquilo que me desejares”.

E Aécio, este sabe que, em 2014, o “velhinho” FHC não lhe causará mossa significativa, mas Serra, sim. Mesmo preso à cadeira de prefeito e não conseguindo – embora ninguem duvide de que vai  tentar – estragar suas pretensões presidenciais, terá de ser parte destacada de seu palanque e fonte de antipatia e rejeição.

Serra, assim, vai para a candidatura, ao que parece, como nos versos de Augusto dos Anjos:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Não há dúvida de que será interessante ver o jogo de bicadas, rasteiras e falsidades que marcará essa campanha.

Serra anuncia candidatura e o PT entra em parafuso. Porquê?

Afeganistão em chamas

Via Direto da Redação

Eliakim Araújo

Não sei como agiria um fervoroso católico se descobrisse que queimaram a bíblia sagrada e a jogaram numa lixeira. Mas o mundo inteiro sabe da gravidade do que significa a queima do Alcorão para o mundo muçulmano, ainda mais quando praticada por invasores.

Foi o que aconteceu no início da semana passada no Afeganistão e transformou o país em um barril de pólvora, de difícil controle.

A irresponsabilidade de militares estadunidenses que atearam fogo a exemplares do Alcorão dentro da Base Aérea de Bagram – a maior no Afeganistão - conseguiu incendiar o país e unir todo o povo afegão contra os soldados estrangeiros, sobretudo os de Tio Sam,  que ocupam o país. Os livros queimados estavam em uma lixeira e foram descobertos por um trabalhador local que cuidava de recolher o lixo da base.

Pronto. Daí em diante, se havia entre o povo afegão alguém que ainda simpatizasse com as forças militares que combatem os insurgentes do Talibã, agora não há mais.  Há sete dias multidões iradas ocupam as ruas de várias cidades do Afeganistão protestando e pedindo “morte aos estrangeiros” e “fora ianques”.

Os pedidos de desculpas partiram de vários setores, inclusive do presidente Obama, mas pelo visto não conseguiram aplacar o sentimento de revolta do povo afegão contra a queima do livro sagrado dos muculmanos.

No sábado, dois altos oficiais estadunidenses, um tenente-coronel e um major,  foram assassinados dentro do prédio do Ministério do Interior afegão, em Kabul, onde trabalhavam como conselheiros militares. Os dois estavam no chão do escritório onde só entram pessoas que sabem o código numérico de segurança. Imediatamente, as suspeitas recaíram sobre um jovem oficial de inteligência do Afeganistão,  que trabalhava com os dois e está desaparecido.

Um general senior do Afeganistão disse à BBC que o “virus do sentimento traduzido em ódio se espalhou como um câncer de difícil cura”. De fato, os manifestantes estão cada vez mais ousados e ameaçam até invadir bases estrangeiras no país.

Depois de dez anos de guerra, o incidente chega em um momento crucial no relacionamento entre o governo afegão e seus parceiros estrangeiros. Hamid Karzai, o presidente afegão, pede calma à população, mas no fundo ninguém sabe de que lado ele está. Talvez torcendo pela saída dos gringos de seu território e pronto para oferecer um ombro amigo aos dissidentes talibãs. Ele não é flor que se cheire.

Até agora, cerca de trinta pessoas morreram nas manifestações de protesto e, pelo visto, não tem data para acabar. Até agora são quatro os militares estadunidenses mortos e outros sete feridos em um atentado no último domingo.

Está mais do que na hora da Casa Branca tomar uma drástica decisão: retirar incondicionalmente suas tropas do Afeganistão.  Vários generais que lá estiveram no comando já deixaram claro que uma vitória militar é impossível. O negócio é achar uma saída diplomática.

Difícil é avaliar como o eleitor estadunidense veria essa tomada de posição de Obama em um ano eleitoral:  derrota ou vitória?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Serra anuncia candidatura e o PT entra em parafuso. Porquê?

GilsonSampaio

Eu e minha ameba lobotomizada estamos meio que absurdados com a notícia de que Serra, o Mitômano, será candidato a prefeito de São Paulo. Ainda não conseguimos apreender o significado real de tão tresloucada notícia. Vamos a pergunta que não quer calar.

Como que um político que tem a família denunciada em roubalheira monumental no livro Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, pode aspirar a qualquer cargo eletivo? Ainda por cima, sob ameaça de ter a vida devassada e devastada por uma CPI.

Tá certo que os paulistas têm predileção por políticos tipo “rouba, mas faz” como Adhemar de Barros e Maluf, em compensação, esses dois são ladrões de galinha quando comparados à quadrilha familiar do Mitômano. Com 35% de rejeição e com acusações inevitáveis durante a campanha é um risco alto confiar na predileção paulista, fora a declaração registrada em cartório de que não renunciaria à prefeitura para concorrer à presidência, promessa essa que não se cumpriu e, não fosse a mídia tão golpista, o Mitômano sequer se elegeria síndico de conjunto habitacional.

Estaria a tucanalhada se vingando e descartando  para todo o sempre o desagregador?

E o PT?

O PT tem medo de quê?

Porquê, num quadro como esse, o PT se alvoroçou e entrou em prontidão?

A conclusão a que chegamos, eu e minha ameba lobotomizada que não fomos dotados de muitas luzes, é a única possível que nos coube: a CPI da Privataria foi pras calendas em troca do fogo baixo da tucanalhada no julgamento do mensalão.

Alguém tem outra explicação para um partido que tem a oportunidade de pulverizar o adversário, temer esse mesmo adversário?

As ficções políticas e as realidades do mundo

 

Via Jornal do Brasil

 Mauro Santayana

Faz parte da história política de São Paulo a aparente indecisão de muitos de seus líderes. O senhor Jânio Quadros, que tinha dias de Hamlet e dias de MacBeth, subordinava suas decisões a dois pontos geográficos da cidade: Vila Maria e Sapopemba. Vila Maria é a região de classe média emergente e Sapopemba, área mais pobre. Ele costumava consultar os dois eleitorados. De Vila Maria vinha a esperança da vitória, uma vez que, desde sua eleição para vereador, contara com o apoio de seus eleitores. Sapopemba era o teste de popularidade. Antes de candidatar-se a esse ou àquele cargo, aferia, nos comícios, o apoio de seus moradores.

José Serra não chega à tragédia de MacBeth mas se aproxima, em seu “ser e não ser”, do príncipe da Dinamarca

O ex-governador José Serra não chega à forte tragédia do escocês MacBeth, mas se aproxima, em seu “ser e não ser”, do príncipe da Dinamarca. Não que Hamlet disputasse uma eleição, a não ser a do destino, e que a sua dúvida fosse muito além de sua própria tragédia, ainda que nela amarrada. Mas se Jânio e Serra estão muito distantes da essência do caráter que Shakespeare dá aos dois personagens, e que ele pintara como antípodas morais, os dois paulistas começam a se assemelhar.

Jânio adorava que fossem bater à sua porta, apelar para a sua taumaturgia populista. Serra, ao desconfiar de que não o procurariam, como a boia salva-vidas na tempestade (mesmo porque os ventos políticos sopram brandos, por enquanto), resolveu aceitar, de bom grado, os ralos apelos que lhe chegam.

Os paulistas começam a dar à eleição para a prefeitura de São Paulo importância maior do que ela realmente tem, e os comentaristas políticos, próximos dos tucanos bandeirantes, avançam sobre a lógica, dizendo que ela terá efeitos nacionais. Não há dúvida de que a cidade é a mais importante do país, no que se refere à economia e à cultura, de maneira geral, mas está distante da realidade política e social do Brasil como um todo. Os paulistanos atuam como se fossem o sol, em torno do qual os planetas menores orbitam e de cuja luz dependem.

Na noite de sábado para domingo, em uma cidade satélite (das mais pobres) de Brasília, Santa Maria, alguns rapazes atearam fogo a moradores de rua. Um deles morreu, e o outro se encontra seriamente ferido, com poucas possibilidades de sobrevivência. Há dois fatos, relacionados com essa tragédia, que devem ser ponderados. Até há algum tempo, os pobres costumavam ser solidários entre eles.

Agora, no entanto, submetem-se à cultura, made in USA, da intolerância, da violência pela violência, da discriminação e do desprezo pela vida. Talvez — e as investigações continuavam — os incendiários de fim de semana sejam dos “emergentes” das cidades satélites, filhos de pais bem empregados, moradores em casas confortáveis. E, talvez, não — o que será pior.

O outro ponto de reflexão é o da impunidade. Há quase quinze anos, cinco rapazes, filhos de famílias da elite de Brasília, atearam fogo ao índio Galdino, dirigente da etnia pataxó da Bahia, que dormia em um ponto de ônibus. Presos, graças ao testemunho de um rapaz da mesma idade, que passava de carro pelo local, os culpados foram defendidos com veemência. Seus pais, e os advogados que contrataram, tentaram desqualificar o crime — tratara-se, segundo a desculpa, de uma brincadeira que dera errado. Não tinham a intenção de matar, só a de assustar com o fogo. Foram presos e julgados. Condenados, em 2001, a 14 anos de prisão — menos um deles, que era adolescente — não passaram mais de quatro anos na prisão, onde gozaram de todas as regalias, entre elas a de sair para estudar e trabalhar, quando aproveitavam o tempo para beber e namorar, chegando frequentemente muito depois da hora de recolher.

 Todos somos iguais diante da lei, embora alguns sejam muito mais iguais que outros

As denúncias de que estavam sendo privilegiados de nada adiantaram. Eles eram enteados e filhos de juízes. Como sabemos, todos somos iguais diante da lei, embora alguns sejam muito mais iguais.

É neste país, em que as leis são meras declarações de intenção, e apenas 3% dos responsáveis pelos crimes de homicídio são julgados e cumprem penas, que temos de pensar. Não entendem os legisladores e administradores públicos que a impunidade dos poderosos estimula a criminalidade geral.

Assim, enganam-se os tucanos da maior cidade brasileira. São Paulo, com toda sua opulência (mesmo com a maior população de moradores de rua de todo o país), não é a estrela em torno da qual circula o sistema planetário nacional. Mesmo porque as elites de São Paulo, salvo poucas exceções, exercem uma cidadania off-shore, desligada do destino do país.

O nosso futuro está sendo construído em todo o território nacional, pela inteligência, pelo esforço e pelo patriotismo de seus trabalhadores, incluídos os de São Paulo — e não pelos senhores da Febraban, das corporações multinacionais, empenhadas em novo e cômodo colonialismo.

Sobre "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" e sobre porque eu torço por Cuba

Via Rita de Cássia de Almeida

Rita de Cássia de Araújo Almeida - psicanalista

Os Últimos Soldados da Guerra Fria de Fernando Morais é um livro extraordinário. Caso não soubéssemos que tudo que está sendo contado nele é fruto de anos de trabalho de campo feito pelo autor, poderíamos considerá-lo apenas um excelente romance de espionagem. Entretanto, não se trata de uma ficção. A intenção do autor é retratar (partindo de evidências, registros, documentos, notícias de jornal e relatos dos próprios personagens) o cenário político mundial no final da Guerra Fria, tendo Cuba e Estados Unidos como protagonistas, o que torna a obra ainda mais cativante.

Conta a história que, após a queda da União Soviética, Cuba se dedicou a estimular o turismo, numa tentativa de minorar a crise econômica que se agravava na ilha, já que aquele país era seu principal parceiro comercial. Durante esse período, grupos anticastristas radicais da Flórida aproveitaram para promover atentados terroristas a Cuba com a clara intenção de assustar os turistas enfraquecer o Governo de Fidel Castro. Em cinco anos foram 127 ataques e apesar das dezenas de reclamações oficiais enviados por Cuba ao Governo Americano, nenhuma medida foi tomada para reprimi-los. Fidel chega a enviar uma carta a Bill Clinton, então presidente, denunciando organizações de extrema direita que funcionavam em território americano, tendo como pombo-correio ninguém menos que Gabriel Garcia Marques. Nesta carta Fidel faz praticamente uma profecia. Ao pedir que Clinton se empenhe em abortar as ações terroristas que estão sendo maquinadas em território americano, Fidel defende que se medidas não forem tomadas, “em breve qualquer país do mundo poderá ser vítima de tais atos”. Anos mais tarde, como sabemos, os Estados Unidos seriam a vítima de atentados terroristas.

Sem o apoio dos EUA e das organizações internacionais, Cuba decide tomar providências por si e cria a Rede Vespa: um grupo seleto de doze homens e duas mulheres que recebem a missão de se infiltrarem em algumas das 41 organizações terroristas de extrema direita nos EUA, a fim de colherem informações que pudessem antecipar possíveis ataques. O livro conta, justamente, a incrível história desses “soldados” enviados por Fidel aos EUA, todos travestidos de desertores do regime cubano.

O livro de Morais nos provoca inúmeras emoções, sendo que algumas delas atingirão com mais força a nós, militantes ou partidários de esquerda. E o maior mérito do livro é contar a história das relações entre EUA e Cuba de uma outra perspectiva, diferente da americana que a grande maioria acredita ser a única versão, apenas por ser considerada a versão oficial. Terminada a leitura, mesmo os menos críticos ou pouco entendedores de política internacional, vão compreender melhor os motivos de algumas conduções do Governo Cubano, e o bloqueio americano a Cuba lhes soará ainda mais insano e cruel.

O livro também lança luz sobre uma questão que intriga a muitos de nós: porque essa pobre e minúscula ilha do caribe, sem nenhum poder no cenário político internacional incomoda tanto o poderoso EUA? E que ninguém venha me dizer que o interesse americano é pela “defesa da democracia”. Todos sabemos que esse mesmo governo defendeu e sustentou, durante muito tempo, a ditadura cruel de Fulgêncio Batista na ilha caribenha, assim como fez por outras ditaduras pelo mundo.

Depois de ler Os Últimos Soldados da Guerra Fria, meu respeito por Cuba e pela Revolução Cubana aumentou ainda mais. A despeito de todos os erros que o Governo Cubano possa ter cometido, não podemos deixar de respeitar um país minúsculo, pobre e desprovido de poder político no cenário mundial que, mesmo com toda a pressão e perseguição sofrida e vítima de um bloqueio econômico de meio século, tem conseguido manter índices de desenvolvimento humano de fazer inveja a qualquer país do mundo. Pra quem não sabe: Cuba tem uma taxa de alfabetização de 99,8% (a maior do mundo segundo as Nações Unidas), uma taxa de mortalidade infantil de um para cada 5.000.000 nascidos (inferior a do EUA) e uma expectativa de vida média de 78 anos (maior que a dos EUA). 98% dos cubanos recebem energia elétrica e tem acesso a água potável e saneamento básico, e o acesso à saúde e a educação é universalizado e gratuito. Não fosse a medição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) levar em conta o PIB per capta (e nesse caso, Cuba perde pontuação por ter um PIB baixo), Cuba estaria entre os primeiros no IDH. Ou seja, ainda tem o mérito de conseguir fazer mais que o próprio EUA, com muito, muito menos.

Depois de alguns dias necessários para digerir o impacto desse livro sobre minhas convicções o que posso dizer hoje é que eu torço imensamente por Cuba. Torço por esse país que tem se mantido como o único ponto de resistência ao capitalismo liberal, praticamente hegemônico no mundo atual. Torço pelo povo cubano que tem suportado com força e altivez meio século de embate e embargo, lutando contra um império. Torço para que Cuba continue na sua busca por melhores condições para seu povo, e que o faça como tem feito, a seu próprio modo, a partir de suas próprias convicções e ideologias e não por influência de outrem.

Marx concebia o comunismo como movimento que reage aos antagonismos do capitalismo e não como um modelo de sociedade ideal. Sendo assim, enquanto o capitalismo existir, com suas contradições e desigualdades, a “hipótese comunista”, como diz Alain Badiou, permanecerá viva. Badiou afirma ainda: “se essa hipótese tiver de ser abandonada, então não vale mais a pena fazer nada na ordem da ação coletiva. (...) Cada indivíduo pode cuidar de sua vida e não se fala mais nisso.”

É importante esclarecer que não se pode confundir a “hipótese comunista” com quaisquer atrocidades cometidas em nome do comunismo. Também, vale lembrar que inúmeras atrocidades têm sido cometidas ao longo da história em nome das mais nobres causas; em nome da paz, em nome de Deus ou Alá, em nome da democracia...a lista é longa.

Sendo assim, não existe sociedade ideal, todas, a seu modo, possuem suas virtudes e pecados. Mas a maior virtude de Cuba, a meu ver, é a de ainda se manter como esse ponto de resistência; uma “pedra no sapato” do capitalismo mundial. Cuba cumpre a missão de ainda manter acesa a hipótese de um mundo no qual somos considerados seres humanos e não apenas consumidores, onde a natureza seja vista como uma Mãe Generosa e não como matéria prima para ser moída na máquina consumista (segundo o último relatório do WWF Cuba é o único país do mundo com desenvolvimento sustentável), e no qual a noção de solidariedade não seja engolida pela sua versão pervertida: a caridade – quem tem mais (dinheiro) dá a quem tem menos (a mídia não divulga, mas, depois do terremoto que devastou o Haiti em 2008, apesar das nações mais ricas do mundo prometerem missões humanitárias monumentais, depois de alguns meses, só continuaram por lá os Médicos Sem Fronteiras e a brigada de 1.200 médicos cubanos, especializada em desastres e emergência, brigada que foi rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina e a primeira a chegar e última a sair do Paquistão, após o terremoto de 2005).

É por tudo isso que reforço aqui minha torcida por Cuba, torço para que esse minúsculo e grandioso país continue nos livrando de um mundo onde o capitalismo seja a única hipótese possível.