terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Vixi Maria, José e meu padim Padi Ciço: Benedito XVI descobre a luta de classes

Via Rebelion

Julia Evelyn Martinez

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Se algo não pode ser negado a respeito do papa Benedito XVI é a sua surpreendente capacidade de descobrir coisas sobre as quais 99% da humanidade não tem a menor dúvida. Recém chegando à sua atual posição de máximo hierarca da Igreja Católica, deu a conhecer ao mundo sua descoberta acerca da inexistência do purgatório, segundo a qual agora as pessoas interessadas agora podem ter a certeza de que se passa diretamente ao céu ou ao inferno sem nenhum tipo de escala. Mais recentemente, informou que tinha descoberto que no momento do nascimento de Jesus não estavam presentes nem a mula nem o boi, com o que se pôs em dúvida o costume de incluí-los nos presépios natalinos. Afortunadamente para os fabricantes de presépios e de textos litúrgicos, as notícias sobre essas descobertas não parecem viajar do Vaticano ao resto dos países com a rapidez esperada na era da globalização da informação. Até agora, os presépios colocados neste Natal nos lares e centros comerciais incluíram, na sua maioria, aos dois personagens da discórdia, e, nas novenas pelos mortos que ainda são rezadas nos povoados da América Latina, continua-se a se interceder pelas almas no purgatório.

Contudo, a mania descobridora de Benedito XVI deu um giro surpreendente. Na ocasião da apresentação do texto da mensagem da Jornada Mundial da Paz 2013, descobriu uma coisa que 95% da humanidade já sabia, mas que os 5% restantes resistem em reconhecer ainda. Descobriu, nada mais e nada menos, que o capitalismo é um sistema econômico que funciona na base da cobiça, que promove o consumismo e a competição, e que gera conflitos sociais (luta de classes) pelas desigualdades que provoca entre ricos e pobres.

Segundo suas palavras: “Causam alarma os focos de tensão e conflito provocados pela crescente desigualdade entre ricos e pobres, pelo predomínio de uma mentalidade egoísta e individualista, que se expressa também em um capitalismo financeiro não regulado (...). Para sair da atual crise financeira e econômica, - que tem como efeito o aumento das desigualdades –, necessita-se de pessoas, grupos e instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana, para aproveitar inclusive a crise como uma ocasião de discernimento e um novo modelo econômico. O que tem prevalecido nos últimos decênios postulava a maximização do proveito e do consumo, numa ótica individualista e egoísta, voltada para valorizar as pessoas somente conforme suas capacidades em responder às exigências da competividade”.

O que tem de novidade a “descoberta” de Benedito XVI das injustiças e da opressão que derivam do capitalismo e da responsabilidade do capitalismo na luta de classes? De novidade não tem nada, mas sim um grande significado em termos do debate político ideológico que está tendo relevância na conjuntura atual sobre as causas da crise econômica global e sobre as alternativas que existem para promover uma economia que esteja em função do bem-estar de toda a sociedade. Ou seja, é importante que um conservador do porte de Benedito XVI, a quem ninguém, em são juízo, acusaria de ser um instrumento de grupos marxistas ou de ter uma ideologia anti-sistema, diga ao mundo que a crescente conflagração social, ou luta de classes, está sendo alimentada pelas injustiças provocadas pelo sistema econômico capitalista.

Esperemos que os intelectuais orgânicos das elites empresariais e políticas de nossos países, que com tanta facilidade desqualificam a priori qualquer opinião contrária ao capitalismo e/ou aos princípios do que denominam “livre mercado” ou “livre iniciativa”, reservem um pouco de tempo para ler, nesta época, a mensagem de Benedito XVI. Quem sabe descobrem o que até o papa finalmente descobriu: que, na atualidade, o problema econômico fundamental é a crescente desigualdade entre ricos e pobres; e que essa desigualdade é responsabilidade direta do capitalismo e de sua racionalidade de morte, e que não é possível pensar em solucionar os conflitos sociais ou promover a coesão de uma sociedade em torno de um projeto de desenvolvimento nacional, enquanto não forem abordadas as causas estruturais que deram origem às brechas de desigualdade e à exclusão social de amplos segmentos da população.

E isso por que devem saber que a luta de classes não foi inventada por Marx nem por Lênin, e que sua existência não depende de se estar em acordo ou desacordo com ela. Já o disse o multimilionário Warren Buffet em uma oportunidade: “A luta de classes continua, mas é minha classe que a comanda e a que vai ganhando”.

A autora é professora da Escola de Economía da Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas” (UCA) de El Salvador.

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