domingo, 23 de dezembro de 2012

Os magos da mentira

Via Rebelion

Umberto Mazzei

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Alai Amlatina

Desde o século XX, controlar a informação sem usar uma constrição formal, para limitar o alcance da mente e do espírito, obceca os ambiciosos do lucro desmedido, como os chamou Adam Smith. Foi nos Estados Unidos que se elaborou esse modelo. Lá, reduziu-se ao mínimo, na educação de nível médio – a das massas – o ensino de temas humanísticos, como a história, a geografia ou a filosofia, que são a referência do pensamento crítico.

A idéia é distribuir somente o conhecimento necessário para que o trabalhador seja útil, mas ignorante no que toca ao que é político. Isso permite forjar na mente das maiorias uma visão uma visão de mundo distanciada da realidade, mas que a orienta segundo convenha à ambição dos dirigentes. O truque serve também a governos que, sem muita substância eleitoral, tem uma classe dirigente visível, embora é nas democracias onde é mais útil, porque ali, os que na verdade mandam são pouco vistos, mas usam a propaganda enganosa para promover seus títeres nos carnavais eleitorais.

Até o século XX, os meios de informação eram de propriedade difusa, cobertura regional e diferente percepção da realidade. Durante o século XX, a propriedade dos meios de comunicação se concentrou, a cobertura se ampliou a nível nacional e internacional, as versões da notícia passaram a ser mais coincidentes e foram instalados os meio audiovisuais, que estimulam a preguiça intelectual.

O século XXI começa com a propriedade dos meios muito concentrada e a difusão de notícias muito orquestrada. Há um cartel internacional cujos objetivos políticos vão além dos definidos pelo Consenso de Washington ou pela OTAN. Sua técnica básica é mentir por omissão. Partes essenciais da verdade ou da realidade história e política são amputadas, enquanto que se inventa ou se exagera o que se quer revelar. A finalidade é demonizar pessoas ou países e crenças ou ideologias, que molestem a ambição vagabunda.

A novidade típica do século é o uso da Internet para difundir notícias fora do cartel midiático. Essa informação é aproveitada pela crescente massa que usa a informática. É um grupo minoritário ainda, mas influente, por que é o estrato mais instruído da classe trabalhadora. Em sites virtuais da Internet são encontradas versões mais completas da realidade, mas o cartel midiático e agentes dos governos títeres também manipulam informação nesse meio, sobretudo nas chamadas redes sociais.

Debates sobre normas para o meio informativo

A concentração da propriedade e o anonimato dos acionistas dificultam a identificação específica dos interesses econômicos, políticos ou confessionais que orientam a manipulação da informação, mas a maneira com que os grandes grupos informativos coincidem em qualificar certas tentativas de democratizar a informação como atentados contra a liberdade de expressão indica o temor à transparência.

Dados europeus recentes mostram que a concentração aumenta, por que a crise afeta mais os órgãos de comunicação pequenos e independentes. Segundo El País, (14/12/2012), desde 2008 desapareceram, na Espanha, 132 Revistas e 22 jornais, e somaram-se 6300 jornalistas aos desempregados. Os investimentos em imprensa, radio e televisão caíram uns 45%, mas em troca, os feitos na internet aumentaram 171%.

Neste momento, há no mundo vários casos públicos relacionados com a concentração da distribuição da informação, os métodos de fazer notícias e a veracidade do seu conteúdo. Os que mais concentram a atenção acontecem na Argentina, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Na Argentina, a iniciativa se origina nos poderes executivo e legislativo, com tropeços diante do poder judiciário. Na Grã-Bretanha, é mais bem o inverso. Nos Estados Unidos, o julgamento contra o soldado Bradley Manning joga luz sobre o risco de violar o monopólio da informação.

Na Argentina, o governo introduziu uma lei para democratizar o fornecimento de informação, que foi aprovada por uma ampla maioria do Congresso. A nova lei permite que uma pessoa ou empresa possua até 24 sistema de televisão a cabo, 10 licenças de radiodifusão, - sejam de rádio AM, FM ou televisão aberta – e um sinal de conteúdos. A lei foi considerada como inconstitucional pelo Grupo Clarín, que com 250 licenças predomina entre os meios argentinos, tanto que, sem ser oficialmente um partido, exerce o papel de oposição política ao governo.

O Clarín alegou que a lei violava a constituição diante de um tribunal das áreas Cível e Mercantil. A Corte Suprema outorgou então ao Clarin uma medida cautelar que venceu em 7 de dezembro, mas a Câmara Cível e Comercial a renovou até que a sentença seja ditada, com o que atrasou a aplicação da lei somente para o Grupo Clarín. Os outros proprietários de meios já se adequaram à lei. O governo apelou diante da Corte Suprema, que ordenou ao tribunal da causa para que acelerasse os trâmites. O tribunal obedeceu e sentenciou em 15 de dezembro, julgando que a lei não é contrária à constituição.

Na Grã-Bretanha houve escândalos pela conduta dos meios durante todo o século XX. Apesar disso, aplica-se, como virtude, o princípio da “auto-regulação” desde 1953. Os resultados são indícios de que isso não funciona, e a Comissão presidida pelo juiz Levenson recomendou a elaboração de uma lei que regule a sua conduta. A lista de delitos cometidos pela imprensa sensacionalista inclui a interceptação de correios eletrônicos, a difamação de acusados inocentes e a perseguição de celebridades.

Contudo, há coisas de mais profundidade. A investigação descobriu cumplicidades entre a imprensa e a classe política, entre o Grupo Murdoch e os dois principais partidos políticos britânicos, com um clássico “understatement” britânico: “Durante os últimos 35 anos, houve, nessa relação, uma insalubre proximidade”.

Por essa proximidade é que o primeiro-ministro David Cameron rechaçou a elaboração de uma lei porque “poria em risco a liberdade de imprensa”, e conversa com os barões dos meios e os líderes dos partidos políticos, buscando um acordo que evite regulamentar a propriedade e a conduta dos meios. Cameron serve bem ao Grupo Murdoch, que tem a metade da imprensa a da cadeia de televisão Sky. É o modelo britânico do Clarín.

Ed Miliband, líder trabalhista, apoiou as recomendações do juiz Levinson, e propôs o retorno à lei sobre a propriedade dos meios que vigorava antes da desregulamentação promovida por Thatcher. Oxalá ele seja coerente com o que diz.

Nos Estados Unidos, o caso Manning mostra dois fatos: o controle quase total da notícia e o tratamento cruel a quem dê informações sobre crimes cometidos pelo governo. Lá os meios, como os políticos, cumprem ordens. Se quisermos saber o que foi dito por Manning ou por sua defesa nas audiências do pré-julgamento, devemos procurar meios estrangeiros, assim como sobre a crise econômica norte-americana, os assassinatos tele-dirigidos ou outros crimes oficiais.

Verdades e mentiras na Internet

A Internet cresce como fonte de informações, por que se pode escrever com liberdade. Um indício é que nos Estados Unidos, onde a informação está mais concentrada, é onde a informação através da internet cresce mais e onde podem ser lidos analistas muito lúcidos. Há vários sites gratuitos importantes com notícias e análises evitadas pela grande imprensa, como Information Clearing House ou Counter Punch, para citar um par conhecido.

Todo jornal ou revista de alguma importância tem agora uma edição digital na Internet. Os programas de televisão também seguem essa tendência. Em espanhol, há distribuidores de opiniões alternativas muito eficazes, com variedade de assuntos, projeção internacional e às vezes em vários idiomas, como ALAI, Argenpress ou Rebelión, para citar somente alguns.

As redes sociais, como Facebook ou Twitter não são usadas somente para conversar com amigos, também são usadas para expressar opiniões, mas aí começam as complicações. Nelas, é possível assumir identidades falsas, que são usadas para difundir falsos rumores e mentiras. Há perfis falsos que aparecem às centenas, simultaneamente, criados por robôs, que difundem alguns “eu gosto” ou comentários em apoio a uma causa ou pessoa política. Houve casos na campanha eleitoral dos Estados Unidos, com sites a favor de alguma coisa, e logo secomprovou que seu apoio vinha de locais improváveis, como Bangkok ou Vilna. Esse mesmo truque foi usado nas revoluções “coloridas” contra governos da Europa do Leste, e também para criar falsos apoios à revoltas no Irã ou durante a chamada “Primavera Árabe”, para justificar as guerras contra a Líbia e a Síria.

Na América Latina, se destaca o trabalho de Daniel Gabriel, especialista da CIA no uso subversivo nas redes sociais no Afeganistão e Iraque, que foi contratado por BBG(1) para dirigir um grupo de jornalistas em Cuba que entregariam cinco histórias por semana. A líder do grupo é Yoani Sánchez, que já trabalhava para Applied Memetics, a empresa de Gabriel. Yoani Sánchez é cubana e migrou para a Suíça em 2002. Regressou a Cuba em 2007, e abriu o blog “Geração Y”, que em pouco tempo teve grande reconhecimento internacional. Somente em 2008, obteve o Premio de Jornalismo Ortega y Gasset; a Time a colocou entre as 100 pessoas mais influentes do mundo; a CNN colocou seu blog entre os 25 melhores; Foreig Office a colocou entre as 10 intelectuais do ano, e a revista mexicana Gatopardo fez o mesmo. Seguiram-se mais galardões, e em 2012 a SIP(2) a nomeou vice-presidente de sua Comissão de Liberdade de Imprensa, para vigiar a liberdade de imprensa em Cuba. Agora é correspondente em Cuba do El País, jornal que na Espanha cortou metade dos seus funcionários.

A senhora Sánchez chama a atenção também por outras razões. Pode-se ver a qualidade das suas idéias quando disse que Gabriel Garcia Márquez jamais deveria ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura por ser amigo de Fidel Castro. No Le Monde Diplomatique perguntam-se como ela pode manter, de Havana, um blog em 18 idiomas. Perguntam-se também como sua conta no Twitter reivindica 214 mil seguidores – mas somente 32 em Cuba - , e diz comunicar-se com mais de 80 mil “por SMS, sem acesso à web”. Isso significa inscrever 200 contas por dia, uma atividade somente possível através de robôs e fora de Cuba, pelas dificuldades de conexão que existem ali. Com efeito, muitos perfis na conta @yoanisanchez não possuem foto nem atividades na rede.

Tenho assinalado o caso de Yoani Sánchez por ele ser de uma manipulação evidente, mas há muitos outros no mundo e na América Latina. Por isso, é preciso ler com cautela as notícias que circulam em blogs e redes sociais. A informática global dá a possibilidade de expor verdades, mas também aí há novos truques inventados pelos magos da mentira.

- Umberto Mazzei é doutor em Ciencias Políticas da Universidade de Florença. É Diretor do Instituto de Relações Econômicas Internacionais em Genebra.

Notas:

(1) Broadcasting Board of Governors, entidade responsável pelas transmissões internacionais não militares do governo norte-americano.

(2) Sociedade Interamericana de Imprensa. Agrupa 1300 donos de meios e tem sede em Miami.

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