quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Os ataques sobre Fallujah e Bassorá (crimes contra a humanidade)

Via O Diario.info

Ariel Millahüel (Sleepwalkings)

 

Enquanto o imperialismo abre novas frentes de guerra, para muitas famílias do Iraque a guerra e o sofrimento nunca terminaram. Sofrem, e continuarão a sofrer, as consequências dos ataques com fósforo branco e uranio contidos nas armas utilizadas pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos no devastador ataque sobre as cidades iraquianas de Fallujah e Bassorá durante o ano de 2003.

Para muitas famílias do Iraque a guerra e o sofrimento nunca terminaram. Sofrem até ao dia de hoje as consequências dos ataques com fósforo branco e uranio contidos nas armas utilizadas pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos no devastador ataque sobre as cidades iraquianas de Fallujah e Bassorá durante o ano de 2003.

Foram redigidos vários relatórios médico/científicos que demonstram os graves danos na saúde de milhares de habitantes das zonas em questão. As afecções vão desde malformações em crianças recém-nascidas até ao cancro em pessoas idosas, a tal ponto que de cada 1.000 bebés nascidos no Hospital de Al Basrah, 23 nascem com patologias relacionadas com a malformação dos seus corpos [1], provocadas pela exposição dos seus progenitores ao armamento ocidental.

O estudo que tomou a seu cargo documentar toda a informação relacionada com os ataques foi publicado no Boletim de Contaminação e Toxicologia Ambiental, inclui impressionantes imagens de crianças com malformações por todo o corpo que são de graficamente muito significativas, pelo que se convida o leitor a consultar as notas no final do artigo a dar-se o caso de querer observá-las. Por uma questão de lógica, as imagens não são aqui publicadas.

O estudo expõe diferentes tipos de análises dos níveis de metais tóxicos no ar do Iraque, e relaciona-os com um crescimento notável em transtornos físicos como a Hidrocefalia, Onfanocele [2], Anenfefalia [3] e múltiplos defeitos de nascimento nas crianças iraquianas.

Jawad al-Ali trabalhou desde 1991como especialista em Cancro no Hospital Universitário Sadr, época em que a Guerra do Golfo ainda ressoava por todo o Médio Oriente. A partir da sua experiencia como médico e actor principal de todas as emergências médicas que tratou, Jawad fala de “Cancros Duplos” ou triplos em pacientes ali tratados. Explica-o a Der Spiegel [4] da seguinte forma:

“ Não se trata apenas de que o número de casos de cancro aumentou repentinamente. Também tivemos cancros duplos e triplos, ou seja, pacientes com tumores em ambos os rins e no estômago. E havia também grupos familiares, isto é, famílias inteiras que se viram afectadas. “

Perante os estudos e as provas que demonstram as dificuldades com que se defrontam milhares de famílias do Iraque em matéria de enfermidades e deformações neonatais, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos veio defender-se de todas as acusações de que tem sido alvo, dizendo que as provas existentes não correspondem a relatórios oficiais [5], enquanto um porta-voz do governo britânico disse que não existe “evidência científica ou médica confiável para confirmar um vínculo entre a munição convencional e os defeitos de nascimento em Bassorá. Todas as munições utilizadas pelas forças armadas do Reino Unido estão dentro do direito internacional humanitário e estão em consonância com a Convenção de Genebra”. [6]

Para além da falta de sensatez demonstrada pelos mandatários bélicos do Ocidente, primeiro para atacar um país inocente e depois para desvalorizar relatórios com provas concretas que demonstram a veracidade dos ataques e seus posteriores efeitos negativos para as crianças de Bassorá e Fallujah, ainda se lhes vieram juntar na negação do inegável, entretanto, os meios de comunicação de massa alinhados com o conglomerado de países da OTAN que apoiam estes delitos de lesa-humanidade. Não deram a ver nem relatórios detalhados, nem reportagens jornalísticas ou análises televisivas que falassem honestamente sobre esta problemática, o que os transforma, uma vez mais, em cúmplices dos ataques contra estes cidadãos do Médio Oriente.

Apesar de o foco informativo estar agora concentrado sobre a Síria e o Irão, a guerra no Iraque continua para centenas de famílias que se vêm impotentes ao não poder fazer nada para melhorar a qualidade de vida das suas crianças e jovens. Não dispõem dos serviços em matéria de saúde que são comuns em outras partes do mundo, carecem do dinheiro suficiente para procurar um tratamento no estrangeiro que lhes proporcione alguma solução e muito menos possuem a esperança de algum dia poder ver os seus filhos sãos e sem nenhum tipo de afecção ou dor.

Procurar a verdade por detrás dos massacres em Fallujah e Bassorá deveria ser algo comum para todos, mas o mal do dinheiro, a ambição e o imperialismo esmagaram uma vez mais a moral, em mais uma nefasta página da história da humanidade.

Leandro N. Alem disse uma vez que “O desalento, o desânimo, a imoralidade, não surgem das camadas sociais baixa. Vêm das alturas. Hoje sacrifica-se tudo, a honra, a palavra, a fé jurada perante os filhos e a pátria, para baixar em seguida aos gozes materiais, para saborear com fruição de sibaritas os prazeres da sensualidade e do governo. Hoje não se procura a posição política para colocar ao seu serviço talento, carácter, patriotismo, mas para que ela sirva os fugazes caprichos de obscuros bens, de miseráveis sonhos…”

Lamentavelmente, hoje vemo-nos vítimas desses Miseráveis Sonhos.

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Notas

[1] M. Al-Sabbak, S. Sadik Ali, O. Savabi, G. Savabi, S. Dastgiri, M. Savabieasfahani “ Metal Contamination and the Epidemic of Congenital Birth Defects in Iraqi Cities” Bull Environ Contam Toxicol (2012) 89:937-944

[2] Wikipedia, Onfalocele .

[3] Wikipedia, Anencefalia.

[4] Alexander Smoltczyk “ Researchers Studying High Rates of Cancer and Birth Defects in Iraq ” Der Spiegel , Dezembro 12, 2012

[5] RT “Munições de EE.UU. y el Reino Unido ‘causam defeitos de nascimento em Iraque ‘” Rússia Today , Outubro 14, 2012

[6] Bis

Este artigo foi publicado em Rebelión com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.

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