quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A mudança estará começando?

Via Olhar o Mundo

Os neoconservadores do Partido Republicano, os homens do Israel First, do Tea Party, e do war party (partido da guerra) estão escandalizados.

Obama, imagine, pretende nomear o ex-senador republicano Chuck Hagel para a Secretaria da Defesa.

Esse pessoal todo até que tem suas razões.

Em cada uma das grandes questões do Oriente Médio, Hagel tomou posições audaciosas, confrontando a maioria de babuinos que domina o Senado.

Marcou uma firme oposição a guerras, sanções, intervenções militares, violações das leis internacionais – em suma, um verdadeiro estranho no ninho republicano.

Vá lendo, só.

Hagel defendeu negociações com o odiado Hamas, por ser legitimo representante do povo palestino.

Declarou que não se poderia esperar reformas democráticas dos palestinos, enquanto Israel continuasse com os assentamentos e a ocupação militar. E que Telaviv precisava agir para mostrar seu comprometimento com a paz.

Ao invadir o Líbano em 2006, bombardeando alvos civis e matando milhares, Israel pretendia só parar de atirar quando destruísse o Hisbolá.

Enquanto o Presidente Bush dava seu irrestrito apoio a esse objetivo, Hagel exigia cessar fogo imediato.

A classificação do Hisbolá como movimento terrorista foi criticada por Hagel, já que se trata de um partido político legal, que lutou contra a invasão israelense e faz parte do governo do Líbano.

Pacifista, Hagel considera a diplomacia o jeito certo de resolver problemas internacionais, repelindo as soluções militares.

Para ele, os EUA devem fazer acordos inclusive com países considerados “párias” ou inimigos, como o Irã e a Coréia do Norte.

Hagel votou contra todas as sanções ao Irã apresentadas no Senado. Rejeitou também a proposta de classificar como organização terrorista a Guarda Revolucionária Iraniana.

E mostrou-se sempre contrário ao bombardeio das instalações do programa nuclear iraniano.

Tomou a mesma posição quanto a uma participação dos EUA na guerra civil da Síria, condenando os países que armam a oposição.

Quando Bush invadiu o Iraque, Hagel, como quase todos os senadores, foi a favor, apesar de seus princípios anti- intervencionistas.

Logo capacitou-se do seu erro, mudou de ideia e passou a atacar a ocupação americana.

Ele é favorável a Israel, mas não incondicionalmente.

Questionado, numa reunião com um grupo pró-Israel, porque não assinara um manifesto pedindo um ataque ao Irã, Hagel respondeu: “Deixem-me deixar uma coisa bem clara, eu não sou um Senador de Israel, sou um senador dos EUA.”

Afirmação chocante nos EUA que, segundo o jornalista Pat Buchanan “é território ocupado por Israel.”

Seus adversários chegam a acusá-lo de anti- semitismo pois Hagel , numa entrevista, usou o termo “lobbies judaicos” em vez de lobbies “pró-Israel”.

Argumento um tanto discutível uma vez que a maioria dos membros desses lobbies são mesmo judeus americanos, embora alguns contem também com  uma minoria de fundamentalistas cristãos.

Na verdade, o que pesou foi a denúncia, feita por Hagel, do poder de pressão desses grupos sobre os congressistas.

Referindo-se mais especificamente à AIPAC (o lobby maior de todos) ele declarou :”A AIPAC chega com uma carta pró-Israel e consegue que 80,90 senadores a assinem. Eu penso que jamais tenha assinado uma dessas cartas.”

Quando alguém o acusou de ter se negado a assinar por não ser favorável a Israel, Hagel contestou:”Não assinei porque eram cartas estúpidas.”

Richard Armitage, antigo Sub-Secretário de Estado do governo Bush, deu seu testemunho ao The Cable : “Eu convivi com ele (Hagel),  muito de perto, nos últimos 15 anos e nunca ouvi nada de anti- semita da sua parte .

E disse mais: “Conheço bem esse cara. Ele não é dominado por ninguém, ele pensa por si mesmo e isso aparentemente está causando medo a muita gente. E ele não tem receio de dizer qual é sua opinião.”

Essa firmeza, para Armitage, tornaria Hagel particularmente apto para lidar com os militares, no trato das questões da defesa.

Os adversários do senador republicano acham o contrário: sendo pacifista, Hagel seria favorável a reduções no orçamento militar. Portanto,  um obstáculo aos ‘interesses superiores da defesa’.

Armitage responde que, de qualquer maneira, a necessidade de fugir do “abismo fiscal” forçará cortes na defesa, com Hagel ou sem ele.

Apesar da pouca identificação de Hagel com a linha atual republicana, os senadores do partido, em sua maioria, devem aprovar sua eventual indicação, por esprit de corps.

Para muitos analistas, ao escolher Hagel para a pasta da defesa, Obama estaria dando o primeiro passo no caminho da prometida mudança de sua política internacional.

Tornar os EUA respeitado pela justiça de suas ações e não pelo poder dos seus exércitos.

O que incluiria necessariamente promover a paz com o Irã e a independência da Palestina.

Garantindo sempre a segurança de Israel, mas não suas violências contra os palestinos , violações de leis internacionais e desrespeitos às decisões da ONU.

Há quem discorde desta visão.

Hagel teria sido escolhido simplesmente para conquistar a boa vontade de seus colegas do Senado na aprovação das medidas da Casa Branca contra o “abismo fiscal.”

Claro, isso pesou, mas se fosse a razão principal, Obama teria optado por um senador republicano mais próximo a linha reacionária do partido. O que certamente contribuiria mais para que os republicanos fossem mais compreensivos ao votar as propostas de Obama para salvar o país do caos.

Argumenta-se também com ação dos EUA no Conselho de Segurança da ONU, bloqueando recomendação para Israel suspender os cerca de 10.000 novos assentamentos recentemente aprovados.

Dos 15 membros do Conselho, 14, inclusive 3 europeus, eram favoráveis.

Como os demais, os EUA já haviam se pronunciado  categoricamente contra os novos assentamentos, apontados como obstáculo à “solução dos 2 estados.”

Demonstraram  vergonhosamente sua sujeição a Israel ao impedir  a ONU de tomar uma atitude concreta contra algo que os próprios EUA também condenavam.

Portanto, onde está a mudança?

Aqui é preciso considerar dois pontos.

1-Um dos fatores que favorecerão uma nova política internacional  realmente justa é o fim do mandato do Congresso atual.

As bancadas republicanas representam o que há de mais reacionário no partido – muita  gente do Tea Party, defensores intransigentes de Israel e do uso da força militar como recurso normal, extremistas de direita.

Boa parte desse pessoal vai pra casa no fim do ano. Seu mandato terá acabado.

Até lá, Obama quer moderar sua oposição para poder aprovar as medidas que julga necessárias para os EUA não caírem no abismo.

Com a posse dos novos congressistas, a situação parece que será diferente.

Tanto entre  os novos deputados e senadores republicanos, quanto entre os democratas, há muitos políticos progressistas, liberais ou, pelo menos, realistas.

Não se pode prever se a maioria deles aceitaria o tipo de mudança que Obama faria na política  internacional.

Mas, na pior das hipóteses, não serão tão furiosos na sua condenação, quanto os atuais.

2-Obama fez três tentativas de cumprir suas promessas de mudança na política internacional, no  seu primeiro mandato.

Pressionou Netanyahu para interromper os assentamentos; no discurso do Cairo, prometeu uma nova relação com os islâmicos, através de uma atuação imparcial no Oriente Médio e solicitou negociações entre israelenses e palestinos para efetivar  a “solução dos 2 estados”, nas fronteiras de 1967.

Em todas, acabou arreglando, diante da reação  dos direitistas do Partido Republicano, dos lobbies pró-Israel e da indústria armamentista, principalmente.

Eles poderiam lhe tirar preciosos votos e recursos financeiros de campanha.

Agora, esse problema não existe.

Como no segundo mandato, os presidentes não podem mais se recandidatar, Obama não tem porque curvar-se a pressões de quem quer que seja.

Mas, veja bem, apesar do choro e ranger de dentes dos grupos que compõem a direita americana, eles ainda não perderam a partida.

Obama pode, mais uma vez, retirar o time de campo.

Que ele hesita, está na cara.

Mesmo que ele acabe encarando a Fox, o Washington Post e o Weekly Standard,  e substitua o previsível Paneta por Hagel, não é certo que as coisas  mudem,  mesmo.

Não se pode desprezar o punch do adversário.

Até agora Obama tem perdido quase todas contra Bibi e os lobbies que o apoiam.

Esta luta, porém, é diferente porque tem jeito de decisiva.

Nomear Hagel já é um desafio tão grande que erguer a bandeira branca agora  seria uma derrota estrondosa, que iria ecoar por toda América e até fora dela.

E faria Obama calar-se de vez.

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