sábado, 29 de dezembro de 2012

A indústria açucareira move os fios da escravidão

Via Rebelion

Nazaret Castro/Laura Villadiego

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Marea

Não é nenhuma novidade que cortar cana é um dos trabalhos mais duros que existem. Já era assim nos tempos da colonização das Américas, quando os navios negreiros transladavam ao trópico americano a mão de obra das plantações. Séculos depois, há coisas que não mudaram muito: na América Latina de hoje, “o latifúndio multiplica os famintos, mas não os pães”, como escreveu Maza Zavala há quarenta anos.

O crescimento da demanda de açúcar como conseqüência do auge do biodiesel transforma a cana num dos cultivos em alta, que junto à soja e poucos produtos mais se repartem o pastel de uma terra que, como ontem, vive entre o latifúndio e a monocultura. Cada vez que se expande a fronteira desses cultivos, freqüentemente geridos pelo capital estrangeiro, dezenas, centenas ou milhares de famílias camponesas são expulsas de suas casas para ir parar, quase sempre, nas imensas favelas das grandes urbes.

No Brasil, maior produtor de açúcar do mundo, a indústria açucareira desde os anos 70 vem anunciando a mecanização do setor; contudo, desde então a mão de obra não fez outra coisa que tornar-se mais barata, desestimulando as empresas a levar adiante esses investimentos. Nesse país, como na maioria das plantações do planeta, o pagamento é por peso colhido, o que obriga a extenuantes jornadas de trabalho por um soldo miserável, que freqüentemente não ultrapassa o salário mínimo (pouco mais de 200 euros por mês).

Algumas estimativas calculam que, para cortar uma média de 12 toneladas de cana por dia, o trabalhador deve caminhar mais de 8 quilômetros, dar 130 mil golpes de facão e perder 8 litros de água. Não é de estranhar, então, que em muitos casos os cortadores consumam drogas como crack e maconha para aliviar suas jornadas. Tampouco surpreende que, depois de poucos anos trabalhando nas plantações, desenvolvam doenças em função da dureza do trabalho, da exposição aos agrotóxicos e às queimadas, além das nefastas condições de higiene e segurança do trabalho.

Camponeses despejados

Em outra esquina do mundo, na Tailândia, segundo exportador mundial de cana de açúcar, a realidade não é muito diferente: por jornadas de trabalho extenuantes recebe-se, em função do peso colhido, entre 2,5 e 7,5 euros/dia em troca. Ali, freqüentemente são usados imigrantes ilegais, vindos principalmente da Birmânia: sua vulnerabilidade os torna ainda mais maleáveis.

No vizinho Camboja, o auge da exportação açucareira tem significado um aumento das áreas de cultivo, e com isso a ocupação de terras que supõe o deslocamento de centenas de famílias camponesas. Varias ONGs assinalam como culpado o Everything but Arms (Tudo exceto Armas), um acordo preferencial assinado entre o Camboja e a União Européia, que permite isenções de impostos sobre as exportações cambojanas; o suposto objetivo é contribuir para o crescimento econômico do país asiático, mas o acordo está provocando tais violações dos direitos humanos que o próprio Parlamento Europeu solicitou uma investigação sobre as conseqüências do tratado com o Camboja.

A localidade de Srae Ambel, no sul do país, é um triste exemplo. Ali, o governo cambojano outorgou uma área a uma companhia tailandesa de exploração de terras, onde até o momento subsistiam centenas de famílias de pequenos camponeses. Desprovidos de sua fonte de alimentos, muitos deles se vêem obrigados a pedir trabalho nos canaviais. “O trabalho é muito duro; consigo realizá-lo por apenas três dias seguidos”, assegura Chea Cheat, um robusto homem de 38 anos que cobra uns 5 dólares diários se trabalha de sol a sol a pleno rendimento. Até então, nessas mesmas terras Chea Cheat cultivava arroz; hoje, carrega fardos de cana 15 dias por mês, tempo que consegue suportar, e procura outros trabalhos para complementar um salário de subsistência.

Chea Cheat é exceção, pois a companhia prefere contratar trabalhadores de outras áreas do país por medo do ressentimento dos locais. Os campos estão cercados e suas entradas vigiadas. “Sabemos que os trabalhadores vivem em condições de semi-escravidão. Eles são recrutados nas zonas rurais de todo o país e são impedidos de sair das plantações”, assegura Mathieu Pelligrin, pesquisador da ONG local de direitos humanos LICADHO. Também tem havido indícios de trabalho infantil dentro dos campos. De fato, 13 países do mundo empregam mão de obra infantil nas plantações, segundo ima investigação do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos.

O dano ambiental

Camboja e Brasil são somente alguns exemplos. 130 países no mundo produzem açúcar, e por todo o planeta se repetem as péssimas condições de trabalho dos jornaleiros e as expropriações forçadas de terras. Além dos efeitos sociais, a cana-de-açúcar implica em devastadoras conseqüências ambientais, desde o desmatamento até o uso intensivo de agrotóxicos – no Brasil, os canaviais absorvem 13% dos pesticidas utilizados no país -, passando pelas tóxicas queimadas da cana. E isso citando apenas o primeiro passo da cadeia produtiva; ao açúcar ainda resta um longo caminho até chegar a nosso café e nossas sobremesas: refinação, transporte, embalagem, distribuição e marketing.

A pergunta é: não há uma maneira menos danosa, ambiental e socialmente, de produzir açúcar? Obviamente sim, mas deixaria menos margens de lucros aos oligarcas produtores e distribuidores. Desde o projeto de consumo responsável Carro de Combate, cremos que a mudança começa com a conscientização sobre o problema, para juntos buscarmos soluções que nos façam o açúcar um pouco menos amargo. Por isso, buscamos financiamento através de uma campanha de micro-apoiadores para realizar uma investigação em profundidade sobre a cadeia produtiva do açúcar, por que o consumo é, cada vez mais, um ato político.

Nazaret Castro é correspondente na América Latina e Laura Villadiego, no Sudeste Asiático. Ambas fundaram o blog sobre consumo responsável Carro de Combate.

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