sábado, 30 de abril de 2011

Putin repudia ataques ao líder líbio: “quem deu mandato à Otan para assassinar Kadafi?”

GilsonSampaio

Três netos e o filho mais novo de Kadafi foram mortos por bombas lançadas pela quadrilha de saque e assalto – OTAN-EUA, contra Trípoli. Em 1986, os EUA atacaram a Líbia e mataram a filha adotiva de Kadafi.

Que futuro aguarda a Europa?

Via Zero Hora

Putin repudia ataques ao líder líbio: “quem deu mandato à Otan para assassinar Kadafi?”

O primeiro-ministro russo, Wladimir Putin, repudiou as ações dos EUA/Otan para assassinar o líder líbio, questionando “quem lhes deu mandato para justiçar Kadafi?” A afirmação foi feita na quarta-feira dia 27, durante visita à Suécia. “Falou-se de zona de exclusão aérea, mas não cessam os bombardeios dos palácios... Primeiro diziam que não desejavam a morte de Kadafi e agora dizem que sim. Mas, quem os autorizou? Por acaso houve um julgamento?”, acrescentou o dirigente russo.

Anteriormente, Putin já havia chamado a resolução da zona de exclusão aérea de “convocação para uma cruzada medieval”. O dirigente russo apontou que na Líbia “surgiram contradições externas que desembocaram em um conflito armado”. Mas – acrescentou – “por que se tem de intervir de fora no conflito?”. Ele registrou o quadro da Somália, em conflito interno há anos, e nada se passa, e o mesmo ocorre em outros países. “Então, o quê? Vamos bombardeá-los a todos?”, indagou. “O melhor seria deixar que eles mesmos resolvam seus conflitos”, ressaltou.

Na véspera, na visita à Dinamarca, Putin já havia destacado que o petróleo da Líbia era “o principal objetivo” da operação de guerra. Ele advertiu que a Líbia estava sendo ilegalmente destruída pela “assim chamada sociedade civilizada”. O primeiro-ministro russo disse, ainda, que a coalizão ocidental tinha ido além do mandato da ONU quando lançou bombas teleguiadas contra Kadafi. “Que espécie de zona de exclusão aérea é essa, se eles estão bombardeando palácios toda a noite?” “Para que eles precisam bombardear palácios? Para eliminar camundongos?”

“Tudo isso acontece apesar das preocupações humanitárias e dos direitos humanos que o mundo civilizado diz advogar”, ele registrou, sobre as mortes de civis sob as bombas da Otan e EUA. “Vocês não acham que existe uma séria contradição entre as palavras e a prática nas relações internacionais?”, concluiu Putin.

Não há negócio como a guerra

Via Correio Internacional

Pepe Escobar

Não há negócio como a guerra

Mentiras, hipocrisia e agendas às escondidas. Isso é o que o presidente dos Estados Unidos não fez bem ao explicar para os EUA e o mundo sua doutrina para a Líbia. A surpresa é grande ao se ver tantos buracos negros envolvendo essa esplêndida pequena guerra que não é uma guerra (uma “ação militar de duração e escopo limitados”, como é para a Casa Branca) – unida à inabilidade do pensamento progressivo de condenar ao mesmo tempo a crueldade do regime de Muammar Gaddafi e os bombardeios “humanitários” anglo-franco-estadunidenses.

A resolução 1973 Conselho de Segurança das Nações Unidas serviu como um cavalo de Troia, permitindo que o consórcio anglo-franco-estadunidense – e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – se tornasse a força aérea da ONU em apoio de um protesto armado. À parte de não ter nada a ver com a proteção de civis, esse acordo é absolutamente ilegal em termos de direito internacional. O objetivo embutido, como até as crianças africanas mal-nutridas sabem agora, mas que nunca foi ostentado, é a mudança do regime.

O tenente-general Charles Bouchard, do Canadá, comandante da OTAN para a Líbia, pode insistir que tudo o que quer é que a missão seja puramente designada para proteger civis. No entanto, os “civis inocentes” operando tanques e disparando Kalashnikovs como parte de um grupo selvagem e heterogêneo são soldados de verdade em uma guerra civil – e, o foco deveria ser sobre se a OTAN a partir de agora continuará sua força aérea, seguindo os passos do consórcio anglo-franco-americana. Aliás, a “coalizão dos wiling” combatendo a Líbia é composta por apenas 12 membros da OTAN (de 28) mais o Catar. Isto não tem absolutamente nada a ver com uma “comunidade internacional”.

[…]

Por um momento, é bastante fácil identificar os ganhadores.

O Pentágono

O chefe do Pentágono, Robert Gates, disse, com uma cara séria, que só existem três regimes repressivos em todo o Oriente Médio: Irã, Síria e Líbia. O Pentágono está tirando o elo mais fraco – a Líbia.

[…]

Quanto a essa guerra “agora você vê, agora você não vê”, o Pentágono está conseguindo combatê-la não uma, mas duas vezes. Tudo começou com o Africom [Comando Estadunidense para a África] – instituído pelo governo de George W Bush, reforçado com Obama e rejeitado por dezenas de governos africanos, acadêmicos e organizações de direitos humanos. Agora a guerra está em transição para a OTAN, que é essencialmente o controle do Pentágono sobre seus subordinados europeus.

Essa é a primeira guerra africana do Africom [...]. O Africom, como Horace Campbell, professor de estudos africanos americanos e da ciência política na Universidade de Syracuse, coloca, é uma farsa, “fundamentalmente uma frente para contratantes militares dos EUA como Dyncorp, MPRI e KBR operar na África.”

[...]

OTAN

O plano mestre da OTAN é governar o Mediterrâneo como um lago próprio. Nessas “ópticas” [...] o Mediterrâneo é infinitamente mais importante hoje em dia como um teatro de guerra do que Afeganistão e Paquistão.

Apenas três das 20 nações no Mediterrâneo não são membros de pleno direito da OTAN ou aliados a seus programas “parcerios”: Líbia, Líbano e Síria. Não se enganem, a Síria é o próximo. Líbano já está sob um bloqueio da OTAN desde 2006. Agora, o bloqueio se aplica também à Líbia. […]

Arábia Saudita

Que negócio. Rei Abdullah se livrar de seu eterno inimigo Gaddafi. [...] A atenção da opinião pública mundial é desviada dos sauditas invadindo o Bahrein para esmagar um movimento legítimo, pacífico, de protesto pró-democracia.

[…]

Os ‘rebeldes’

Não obstante todas as aspirações democráticas válidas do movimento juvenil da Líbia, o grupo de oposição mais organizado coincidentemente é a Frente Nacional de Salvação da Líbia – financiado há anos pela Casa de Saud, a CIA e o serviço secreto francês. O “Conselho Nacional de Transição provisório” rebelde é pouco mais do que a boa e velha Frente Nacional, além de alguns desertores militares. Essa é a elite dos “civis inocentes” que a “coalizão” está “protegendo”.

[…]

Os franceses

[…]

Sarkozy tem estado muito entusiasmado ao posar como o novo libertador árabe, [porque] foi o primeiro líder de uma potência europeia a reconhecer os “rebeldes” (para o desgosto de muitos na União Europeia) e foi o primeiro a bombardear forças de Gaddafi .

[…]

O exterminador Sarkozy é irrefreável. Ele advertiu cada governante árabe que eles enfrentarão bombardeio semelhante ao da Líbia se reprimirem seus manifestantes. Ele ainda disse que a Costa do Marfim era “próxima”. Bahrein e Iêmen, é claro, estão isentos.

[...]

Al-Qaeda

[…] O consórcio anglo-franco-estadunidense – e agora a OTAN – está (novamente) lutando ao lado da al-Qaeda, representada pela Al-Qaeda no Magreb (AQM).

[…]

No início de março, a AQM apoiou publicamente os “rebeldes”. O fantasma de Osama bin Laden deve estar puxando um gato Cheshire; novamente ele consegue que o Pentágono trabalhe para ele.

Os privatizadores de água

Poucos no Ocidente devem saber que a Líbia – juntamente com o Egito – está sobre o Aqüífero Arenito Núbia, isto é, um oceano de água doce extremamente valiosa. Então, essa guerra “agora você vê, agora você não vê” é uma guerra de água crucial. O controle do aqüífero é sem preço – como “resgatar” valiosos recursos naturais dos “selvagens”.

[...] A quantidade de água é estimada pelos cientistas em algo equivalente a 200 anos de água percorrendo o Nilo.

[...] Todos os olhos devem imperativamente se focar nos dutos e se eles são bombardeados. Um cenário muito possível é que, se eles forem bombardeados, ótimos contratos de “reconstrução” beneficiarão a França. Esse será o último passo para privatizar toda essa água – no momento livre. […]

Bem, isso é apenas uma pequena lista de especuladores – ninguém sabe quem vai ficar com o petróleo – e o gás natural – no final. Enquanto isso, o show (de bombardeios) deve continuar. Não há nenhum negócio como o negócio da guerra.

Tradução de Alexandre Piffero Spohr

Cuba denuncia en Ginebra manipulaciones sobre caso Siria

Via Tercera Información

Cuba denunció hoy la hipocresía y dobles raseros que motivaron a una Sesión Especial en el Consejo de Derechos Humanos (CDH) de Naciones Unidas para analizar el caso de Siria.

 

Durante su intervención, el embajador cubano en Ginebra, Rodolfo Reyes, señaló que “son los insaciables apetitos hegemónicos de un grupo de potencias, encabezadas por los Estados Unidos, que manipulan para justificar sus afanes intervencionistas”.

El diplomático apuntó que su país comparte la preocupación por las pérdidas de vidas inocentes en cualquier parte del mundo.

Deploró que la supuesta protección de vidas humanas se convierta en pretexto para la intervención extranjera y las aventuras bélicas, para luego añadir que lo ocurrido en Libia demuestra que se multiplican las muertes y siembran destrucción.

Reyes anotó que se manipula la resolución 1973 del Consejo de Seguridad de la ONU, y “se asesina desde el aire, con el armamento más moderno, a los propios civiles a los que supuestamente se defendería”.

Se entregan armas a una de las partes en el conflicto ; se declara abiertamente el “cambio de régimen” acorde con los intereses de la OTAN ; se anuncia el envío de asesores militares a las denominadas fuerzas insurgentes, añadió.

El embajador cubano subrayó que asimismo se hace caso omiso de las propuestas de la Unión Africana y de otros grupos de países dirigidas a buscar un cese de las hostilidades y el inicio de un proceso de diálogo.

“Nos preguntamos si se pretende ahora seguir el mismo curso y si veremos en los próximos días caer también bombas sobre Damasco y otras ciudades sirias”, inquirió.

Argumentó que tal vez se intenta condenar a Siria por su papel histórico de enfrentamiento a Estados Unidos y a su aliado israelí en la ejecución de la política de dominación de los pueblos árabes y de Palestina en particular.

La injerencia de las potencias occidentales en la presente situación que vive Siria, como la historia demuestra, solo busca socavar la independencia, la soberanía sobre sus recursos naturales y la libre determinación de los pueblos del Sur, explicó.

Reyes enfatizó que corresponde al pueblo sirio, junto a sus autoridades, determinar las vías y medios para atender y ejecutar la voluntad popular.

Cuba rechaza categóricamente cualquier tentativa de aprovechar la lamentable situación creada para desestabilizar el país y hacer avanzar los planes de dominación de Washington e Israel, acotó.

A República da Farinha – o momento dos grandes partidos políticos brasileiros

Via Correio da Cidadania

Alexandre Haubrich

A atuação dos partidos políticos brasileiros hoje pode ser explicada através da farinha. Já tivemos o Ciclo do Açúcar, o Ciclo do Ouro, o Ciclo do Café. Tivemos até a versão político-institucional mais chique, mais cheia de fricotes, o café-com-leite, assim com hífen e tudo. Pois hoje vivemos o Ciclo da Farinha. De sacos diferentes, mas ainda assim farinha.

Peguemos os mais encorpados partidos do país e vejamos se a farinha não é o elemento comum entre eles, se não é ela quem norteia os rumos da política nacional. A farinha, unida a doses variáveis de fermento, é a receita geral, ainda que um ou outro mestre-cuca da alta elite culinária prefira a farinha que passarinho não come.

O PSDB segue a receita da vovó estrangeira, que vem e volta ao Brasil de acordo com suas conveniências, mas não gosta muito daqui. De qualquer forma, ela está sempre em contato, enviando sua mais nova receita aos filhinhos tucanos, nova receita que é sempre a mesma. Está caduca ou apenas quer fixar bem seus ingredientes na nossa cabeça? Bondosa. Fato é que o contato é sempre através de cartas, para que venha junto seu cheiro de enxofre, tão agradável ao olfato das aves de bico longo que habitam essas paragens.

A receita do PSDB baseia-se, teoricamente, em fazer o bolo crescer para depois dividir. Mas, cozinheiros amadores que somos, sabemos que em qualquer casa que se preze quem está na cozinha acaba por decidir o quanto quer comer. Se muitos estão ajudando a fazer o bolo, muitos comem, irremediavelmente. Se poucos se fecham a sete chaves na cozinha, fazem um bolo enorme e comem tudo sozinhos.

Mas não veja no PSDB ou em sua avó estrangeira muita criatividade. Com problemas para manter o peso, os tucanos pouco mais fizeram do que deixar mais light a receita usada pelo seu primo DEM, receita essa criada pela querida vovó deste último, a Dona Arena. Essa rigorosa senhora passou a tal receita para o seu filho, o PFL, que a repassou para o DEM. Os passos são mais ou menos semelhantes aos da receita do PSDB, mas, para fazer o bolo como prefere o DEM, bata bastante. O bolo da Dona Arena também tem um gosto um tanto adstringente: enrola a língua do vivente, dificulta a fala. E é preciso comê-lo com cuidado, sem estardalhaço e com um ritual determinado anteriormente pelo cozinheiro. Caso contrário o cidadão ficará chocado com o que pode acontecer.

O PT, por sua vez, nunca teve muitas condições financeiras para comer bolo. Comia terra, mas comiam todos. Desde 2001, essa realidade mudou. O PT ascendeu à classe média, e ganhou até o direito a fazer seu próprio bolo. Fez, faz, e tem distribuído os pedaços para mais gente. Mas não deixa mais ninguém entrar na cozinha, e a receita, que pegou emprestada do PSDB, ganhou apenas um pouco mais de açúcar.

E o PMDB? Bom, esse não sabe cozinhar, mas come o que vier. E pede para repetir.

Alexandre Haubrich é jornalista e editor do blog Jornalismo B. www.jornalismob.wordpress.com

Alô, alô, Pernambuco: Odebrecht quer preservar praia pra ‘massa cheirosa’ e ameaça festa popular com 25 anos de tradição

Via Socialismo

Festa da Lavadeira não se curva ao poder da Odebrecht


Edilson Silva

A Festa da Lavadeira é manifestação de cultura popular que há 25 anos acontece sempre nos dias 1º de Maio. A Festa faz parte do calendário turístico de Pernambuco e é protegida por leis estaduais e municipal, que lhe conferiram a condição de patrimônio público cultural. Já escrevemos sobre o que representa esta manifestação popular para o povo pernambucano, nordestino e brasileiro, com seus mais de 80 mil visitantes em cada edição, de todo o Brasil e do exterior.

A Festa da Lavadeira acontece na praia do Paiva, onde um condomínio de luxo está sendo erguido pela empresa Odebrecht. Por isso, essa empresa quer expulsar a Festa da praia do Paiva. Para tanto, já fez de tudo, mas não conseguiu evitar que o povo corresse naturalmente para a Festa, assim como o rio corre para o mar.

Num último ato de desespero, o poder econômico desta grande empresa multinacional fez surgir uma Lei Municipal, vergonhosamente aprovada pela Câmara de Vereadores do município do Cabo de Santo Agostinho e mais vergonhosamente ainda sancionada pelo prefeito daquela cidade, Lula Cabral, no apagar das luzes do ano de 2010, mais precisamente no dia 20 de dezembro de 2010, às vésperas do Natal.

Nesta Lei institui-se um verdadeiro regime de apartheid social, somente imaginável nos mais distantes confins da nossa geografia. Privatiza-se uma praia inteira, em plena região metropolitana do Recife. Em pleno século XXI as pessoas estão proibidas de passear com seus animais de estimação na praia do Paiva. Os vendedores que ali quiserem trabalhar precisarão não só de registro na subprefeitura privada ali instalada, mas precisarão ter "irrepreensível compostura e polidez" no trato com o público (sabe-se lá o que isto significa!), ou seja, além do Código Civil brasileiro ali deve ser observado também um código de etiqueta social, caso contrário os "deseducados" terão seus registros cassados pelo poder privado investido ilegalmente de poder público.

Não acaba por aí. Qualquer "alteração" no interior da praia do Paiva, que é chamada na esdrúxula lei de Zona Especial de Turismo, Lazer e Moradia, poderá ser alvo de intervenção pela força de segurança privada que, a título de "colaboração" com o poder público, está instituída na praia do Paiva, segundo a referida lei. Para garantir que o povo se afaste mesmo do local, veículos particulares com mais de 9 metros de comprimento também estão proibidos, sendo barrados já na cancela do pedágio que protege os ricos dos pobres, ou seja, nada de excursão com farofeiros.

E se mesmo com tudo isto algum engraçadinho quiser tomar banho de mar, que não seja com bóia de câmara de pneu, pois a lei, em seu artigo 3º, Inciso I, veda expressamente esta "prática abusiva", esteticamente condenável, mas muito comum entre os pobres que insistem em respirar e ter vida social.

Lá em seu artigo 19 a tal lei diz que é proibido fazer eventos festivos ou religiosos na área. Uma lei sob medida: É proibido fazer a Festa da Lavadeira. E foi este artigo que a Odebrecht utilizou para afirmar junto ao Ministério Público que a Festa da Lavadeira é ilegal. Um escárnio. O Ministério Público entendeu que a manifestação religiosa não poderia ser cerceada com a Lei Anti-Festa da Lavadeira. Não entendeu, no entanto, que sagrado e profano, neste caso, são inseparáveis.

Diante de tamanha agressão à Constituição Federal, que guarda vários direitos fundamentais agredidos com esta legislação municipal fajuta; diante do desrespeito às leis que revestiram a Festa da Lavadeira de patrimônio público cultural da nossa gente e, mais ainda, diante do brutal desrespeito ao povo do nosso Estado e do nordeste, a sociedade pernambucana está se levantando contra a truculência insana da Odebrecht e contra a covardia e a pequenez moral e política do poder público municipal do Cabo de Santo Agostinho, que se permitiu transformar-se em mero preposto do poder econômico, dando as costas para a sua população.

Entidades de direitos humanos, fóruns temáticos, centrais sindicais, sindicatos, conselhos profissionais, conselhos públicos, entidades culturais, partidos políticos como o PSOL, movimentos estudantis, juventudes, estão irmanados para construir no dia 1º de Maio de 2011, Dia do Trabalhador, um grande ato político-cultural na Festa da Lavadeira. Enganam-se aqueles que querem propagar o seu fim.

A Festa vai acontecer sim, com a fé redobrada, com a alegria renovada e com a tradição mais fortalecida, pois o povo vai à Festa também para dizer que o dinheiro compra muita coisa, mas não compra a força da cultura popular. Vai pra dizer que a Festa da Lavadeira não é mero entretenimento, mas espaço de resistência popular, de trincheira cultural, ponto de encontro da história, dos símbolos, da identidade de nossa gente.

Maracatus, cocos, afoxés, escolas de samba, orquestras de frevo e outras manifestações de nossa tradição não nasceram e nem se fizeram expressão popular montados em palcos. O palco do povo é o asfalto, a areia da praia, a terra molhada, a lama, o poeirão. Todos à Festa da Lavadeira! Ela é do povo!

Edilson Silva é presidente do PSOL-PE

Mensalão do PiG e do PT não tem o mensaleiro: Dantas

Sanguessugado do ConversaAfiada

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À direita da foto, Dantas

O PiG (*) noticia confirmação que Delúbio Soares, Ministro das Finanças do PT no regime do “valeriodantas”, voltou ao partido gloriosamente.

A emoção que se observou no retorno de Delúbio só se compara à que acompanhou Kate e Wlliam ao altar.

Portanto, o PT recusou-se a esperar o julgamento do Supremo e readmitiu em seu seio, com Delúbio, o passador de bola apanhado no ato de passar bola, Daniel Dantas.

Os dois voltam triunfalmente ao PT.

Os três, na verdade.

Porque, na CPI dos Correios, Delúbio tratava o ex-cunhado e “abre-te Sésamo” do Dantas, Carlos Rodemburgo, de “dr Carlinhos”.

“Dr” !

O PT não fez autocrítica.

Usou argumento que provoca lágrimas copiosas: não há punição eterna.

Que pena que o Eichman não pudesse dizer isso em Jerusalém.

É tão convincente quanto o argumento do Ministro Napoleão Maia, do STJ.

O Ministro soltou a “louca” do mensalão do DEMO de Brasília – aquele grupo que ia dar o vice ao Cerra –,  porque é preciso assegurar o direito de ir e vir.

Clique aqui para ler “Ministro que soltou a “louca” quer sepultar a Satiagraha”.

Como não há punição eterna e se há de assegurar o direito de ir e vir, Daniel Dantas será sempre inocente (ou longe da cadeia ficará, ainda que condenado a dez anos pelo corajoso Juiz Dr Fausto De Sanctis).

Porém, tão comovente quanto a omissão do PT é a do PiG (*).

No Globo (Ler “Em tempo”), na Folha (**) e no Estadão a  readmissão de Delúbio não faz uma única referência ao passador de bola.

O PT dedica a Dantas o mesmo carinhoso tratamento que se dispensava às fogosas donzelas das fazendas de café da Velha República.

Elas davam “um mau passo”.

Delúbio deu “um mau passo” – leia-se, Dantas.

No PiG, Dantas não é responsável nem por um mau passo.

Ele simplesmente inexiste.

Não há menção a Dantas.

Delúbio cometeu o crime do mensalão, mas o PiG não se diz qual foi o crime: receber dinheiro do “valeriodantas”.

Para o PiG (*), “mensalão” é o log in para derrubar o presidente Lula e a presidenta Dilma.

É abrir a página em que se encontram, apenas, os crimes eleitorais do PT.

(Como diz o Mino Carta, o “mensalão”, a mensalidade, ainda está por provar-se. Está mais para a Caixa Dois velha de guerra.)

O PiG, é claro, ignora que o mensalão começou em Minas, na gestão do ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, aquele que vendeu a CEMIG a Daniel Dantas e a Elena Landau, e depois tentou promulgar um AI-5 Digital.

Gente finíssima.

Começou tudo ali.

Naquelas notas queimadas da Telemig Celular.

Queimadas e desaparecidas, por sinal.

Marcos Valério debutou com Eduardo Azeredo.

Ali fez seu business plan.

E, depois, o Dr Carlinhos o readaptou ao PT.

Delúbio voltou, apesar do mau passo.

Só que levou Dantas na sacola.

Dantas está instalado no coração do PT.

E o PiG (*) ignora Dantas.

Faz de conta que ele é o pote de ouro que se esconde no fim do arco-iris.

Uma quimera.

Mas, cheio de ouro.

Em tempo: o Globo de hoje dedica dezenas de páginas aos resultados catastróficos do Censo do IBGE do Haiti. Uma miséria só. Nada funciona. Tudo piorou. A passagem do terremoto pelo Haiti (da espécie “Lula Nunca Dantes”) teve efeitos irremediáveis.  O Haiti está perdido, segundo o levantamento do IBGE. Falta até penico no Haiti ! Ainda mais que, agora, o Haiti tem mais negros do que brancos.

O Globo não admite que isso tivesse acontecido, sem que medidas macro-prudenciais do Ali Kamel o tivesse impedido.  Como diz esse ansioso blogueiro, se você acordar com a urubóloga no “Mau Dia Brasil” e for dormir com o William Waack no jornal da globo, no dia seguinte você pede asilo à embaixada do Haiti.

Paulo Henrique Amorim

Los grandes riesgos en los gasoductos árabes

Via Rebelión

Pepe Escobar

Asia Times Online

Traducido del inglés para Rebelión por Germán Leyens

De nuevo esta semana hubo que cerrar el Gasoducto Árabe –lo que detuvo el flujo de gas a Israel y Jordania-. Una “banda armada desconocida” atacó con bombas el terminal de gas al-Sabil cerca de la ciudad costera de el-Arish, a menos de 350 kilómetros al noreste de El Cairo en la península Sinaí.

La península Sinaí es una zona roja de facto. Dominan los beduinos locales. La seguridad es irregular. Armas contrabandeadas a Gaza y otras partes de Medio Oriente pasan por Sinaí, es decir, dentro de una distancia alcanzable del Gasoducto Árabe.

El Gasoducto Árabe es la estrella del ‘ductistán’ árabe, lleva el gas egipcio al norte hacia Israel y al sur hacia el Golfo de Aqaba y de ahí a través de Jordania a Siria y vía Damasco al Líbano.

El Gasoducto Árabe tiene el potencial de crecer hacia el este y el oeste –si lo permiten las turbulencias políticas y la economía-. De Damasco podría ir al sur de Turquía y luego conectarse al eternamente atribulado, pero aún en progreso, proyecto Nabucco que exporta gas a Europa. La otra posibilidad es una extensión hacia Italia y España, incluyendo gas libio y argelino.

En el estratégico el-Arish, el Gasoducto Árabe se divide en dos; uno de los brazos va hacia el noreste, a la ciudad israelí de Ashkelón. El gasoducto el-Arish-Ashkelón ha estado suministrando a Israel desde 2008. Por el momento, Israel recibe 1.700 millones de metros cúbicos al año; antes de la Plaza Tahrir había planes de aumentar a 2.100 millones. Tal como están las cosas, Egipto provee cerca de un 10% del total de la energía de Israel, y es responsable de más de un 30% de la electricidad de Israel. Más de la mitad de todo el gas natural consumido en Israel proviene de Egipto.

Es posible que pocos sepan que Egipto –con 63.000 millones de metros cúbicos anuales- es uno de los mayores productores de gas natural en África. Solo está por debajo de Argelia (80.000 millones). Mientras Egipto aumenta la producción, Argelia la disminuye. El Cairo y Argel son feroces competidores en el mercado del gas natural. Al mismo tiempo, Egipto está invirtiendo considerablemente en gas natural licuado (GNL) –transportado por mar– para poder contrarrestar su peligrosa dependencia del ‘ductistán’ de Medio Oriente.

Las exportaciones egipcias de gas son de importancia estratégica regional –pero en especial para Israel-. El sabotaje puede afectar a la economía israelí y a su seguridad militar/energética. Pero también afecta la credibilidad regional e internacional de Egipto como un centro del gas; el régimen de Hosni Mubarak tenía mucho cuidado de cultivar esa imagen.

Como el presidente Anwar Sadat y luego Mubarak destruyeron todo intento de diversificar la economía egipcia, el país tiene que depender del turismo: de las remesas de trabajadores egipcios en el extranjero; de aranceles en el Canal de Suez; del pago por dudosas privatizaciones; de sus exportaciones de petróleo y especialmente de gas. Una buena parte de esos ingresos terminaron en las cuentas bancarias de Mubarak en Suiza.

No es ninguna maravilla que Israel haya defendido a Mubarak hasta el último minuto. Los hijos de Mubarak, Gamal y Alaa, se embolsaron cientos de millones de dólares en “comisiones” por la venta de gas egipcio a Israel. Tanto como Tel Aviv pagó esas “comisiones” para conseguir gas a un precio ridículamente bajo, los egipcios de a pie ni siquiera podían soñar con obtener al menos un cierto beneficio del trabajo en los campos de gas. No es sorprendente que a mediados de abril el nuevo primer ministro egipcio Essam Sharaf haya ordenado una seria investigación de la fijación de precios con Israel.

La nueva fiebre del gas

Actualmente hay otro inmenso negocio en juego en el ‘ductistán’ árabe: Nobel Energy, basada en Texas, ha encontrado masivos depósitos de gas natural –millones de millones de metros cúbicos– en el Mediterráneo oriental. Las aguas se extienden sobre toda una serie de protagonistas regionales esenciales: Israel, el Líbano, Chipre, Gaza, Egipto y Turquía. No existen tratados que demarquen esas aguas territoriales. Lo que todos podrían llegar a tener es nada menos de más de 300 años de energía asegurada; por lo menos en teoría, eso podría significar el fin de una guerra regional por la energía.

Turquía está involucrada actualmente en un complejo impulso para desarrollar un ‘ductistán’ regional no solo a lo largo de un eje este-oeste sino también norte-sur; esto significa que tiene que desarrollar una compleja red de relaciones con no menos de nueve países –Rusia, Azerbaiyán, Georgia, Armenia, Irán, Iraq, Siria, el Líbano y Egipto-. Antes de la Plaza Tahrir, ya se desarrollaban serias negociaciones con respecto a un ‘ductistán’ árabe ampliado que vincularía El Cairo, Amman, Damasco, Beirut y Bagdad. Eso haría ciertamente más por unificar y desarrollar Medio Oriente que cualquier “proceso de paz”.

Lo mismo vale para el gas recientemente encontrado en el Mediterráneo Oriental. Un mundo ideal se orientaría hacia una corporación multinacional a cargo de explotar esos nuevos hallazgos de gas, posiblemente con sede en Chipre que es neutral y miembro de la Unión Europea (UE). Eso simplificaría la venta de gran parte a Europa hambrienta de energía, aliviando así su dependencia del gas ruso.

Es seguro que el gigante energético ruso Gazprom no dejará de participar en la acción. Ya ha ofrecido al Líbano sus servicios de exploración. China ya está en el escenario, lista para comprar a cualquiera. Por el momento, el centro de la acción en esta nueva fiebre del gas es el aeropuerto de Chipre. La corporación Delek -que controla la segunda cuota por tamaño, después de Noble Energy, de los derechos de extracción en Israel– quiere instalar una refinería de GNL en Chipre, en un lugar estratégicamente ubicado entre dos bases navales de EE.UU.

Por lo tanto la realidad será un lío, en especial porque los intereses israelíes/estadounidenses tratan de llevar ventaja mientras los gobiernos árabes piensan que podrán utilizar este nuevo auge del gas como un camino para romper la hegemonía económica/militar de Israel.

Podría parecer que por lo menos un frente de la gran revuelta árabe de 2011 podría anunciar un futuro halagüeño en el “gas natural”: materia prima, capital e infraestructura que conduzcan a desarrollo para todos. O tal vez no; y eso sería otro capítulo letal en las continuas guerras por la energía.

Pepe Escobar es autor de “Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War” (Nimble Books, 2007) y “Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge”. Su último libro es “Obama does Globalistan” (Nimble Books, 2009). Puede contactarse con él en: pepeasia@yahoo.com.

Copyright 2011 Pepe Escobar

(Copyright 2011 Asia Times Online (Holdings) Ltd. All rights reserved.)

Fuente: http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MD30Ak03.html

O problema da dívida do Brasil não foi resolvido: no governo Lula agravou-se ainda mais

Via Resistir.info

por Maria Lucia Fattorelli [*]

entrevistada por Stéphanie Jacquemont

Stéphanie Jacquement (SJ): Esteve na Bélgica, como delegada da Auditoria Cidadã da Dívida , do Brasil, por 10 dias de atividades ao lado dos delegados da África, Europa, Ásia e América Latina. O que destaca destas reuniões com os membros da rede CADTM e das atividades em que participou?

Maria Lucia Fattorelli (MLF) : O que destaco, antes de tudo, é a semelhança do processo de endividamento em todas as experiências relatadas pelos representantes das diversas partes do mundo, e o impacto do endividamento nas economias, não somente nos países do Sul, aprisionados em um processo histórico de dominação e exploração, mas também, mais recentemente, nos países europeus. Além dos contatos e importante troca com as pessoas vindas das quatro partes do mundo – o que é fundamental para enriquecer nossas lutas – as atividades organizadas pelo CADTM permitiram ajudar a identificar tendências, tal como o avanço do privilégio do setor financeiro, e pontos importantes ao nível de análise política. O primeiro ponto, em minha opinião, é o processo global de transformação da dívida externa em interna. Esta dívida chamada de interna encontra-se, de fato, nas mãos dos estrangeiros, o que nos obriga a rever o conceito de dívida interna. A dívida interna é, de alguma forma, a nova face da dívida externa. Outro ponto a ser lembrado: a transferência líquida de capitais dos países do Sul para os países do Norte, o que mostra que a dívida não foi usada para financiar investimentos, mas que ela funciona, ao contrário, como um mecanismo de extração das riquezas do Sul, que em muitos casos, acabam nos bolsos dos bancos privados. Além disso, esses países do Sul sofreram e sofrem ainda os efeitos da crise financeira que exacerbou problemas sociais, como salientaram os testemunhos dos delegados do CADTM presentes.

Durante estes dias, grande ênfase foi colocada no tema da auditoria da dívida que, através dos exemplos da Auditoria Cidadã da Dívida do Brasil e da auditoria oficial realizada com a participação cidadã no Equador, que se apresenta como um poderoso instrumento nas mãos dos movimentos sociais. As reuniões destacaram também a importância da luta contra o câmbio climático [NR] e o modelo de exploração extrativista que estão estreitamente ligados ao endividamento público, em particular aos empréstimos do Banco Mundial destinados ao setor privado, responsável pela grande parte desta exploração extrativista. Outro tema discutido ao longo do programa é a relação entre o endividamento público e o sistema tributário, o que levanta a questão da justiça fiscal, que abrange tanto a arrecadação de impostos como a utilização das receitas arrecadadas, cabendo destacar os privilégios de que gozam os rentistas de títulos da dívida.

Dado o contexto atual, ficou evidente a gravidade da crise financeira, na esteira da qual se desenvolveu uma terrível crise da dívida em diversos países da Europa, principalmente em razão da ausência de regulação do sistema financeiro privado internacional. Assim, é necessário conduzir uma auditoria para determinar a origem desta dívida, que tem provocado tanto sacrifício aos povos da Europa de maneira injusta (aumento do desemprego, supressão de direitos, reduções nas aposentadorias, etc), pois não são os responsáveis por essa dívida! Uma auditoria permitirá identificar os verdadeiros culpados que devem responder pelos prejuízos causados. Não se pode permitir que setores – como estão fazendo atualmente os grandes bancos – continuem a embolsar lucros recordes, apesar da crise que abala outros setores.

Finalmente, quero enfatizar o envolvimento total dos membros do CADTM, particularmente dos jovens, o que nos dá confiança no futuro da luta por justiça social.

SJ: A sua organização tornou-se, oficialmente, membro da rede CADTM Internacional por ocasião da assembléia mundial da rede: como considera o trabalho na rede? O que acha que sua organização pode fazer para a rede e vice-versa?

MLF : Nossa organização – Auditoria Cidadã da Dívida do Brasil – mantém com o CADTM uma relação estreita desde o ano de 2002, data em que conheci Eric Toussaint e Denise Comanne no 2º Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Desde então, temos participado de vários projetos juntos. Agora que somos membros efetivos da rede CADTM, creio que podemos lançar iniciativas da auditoria cidadã da dívida em outros países onde o CADTM está presente. Com a nossa longa experiência de dez anos em auditoria cidadã da dívida no Brasil, da auditoria oficial da dívida equatoriana (2007-2008) e da recente experiência na CPI da Dívida (Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a dívida pública) no Brasil, programamos organizar conjuntamente grupos de trabalho para iniciar auditorias cidadãs, mas também impulsionar as auditorias oficiais, onde for possível.

A auditoria da dívida tem sido um instrumento importante para chegar à verdade dos fatos. É necessário difundir e reproduzir a experiência para que os Estados possam enfrentar o problema da dívida, devidamente amparados em provas de sua ilegitimidade e de sua ilegalidade. É importante lembrar que a experiência recente no Equador [2] permitiu uma revisão do orçamento e um aumento significativo dos recursos destinados aos setores sociais (saúde, educação, criação de empregos, construção de rodovias...).

SJ.: A propósito do Brasil, explicou-nos como o Lula chegou a divulgar a idéia que o problema da dívida foi resolvido. Eric Toussaint nos falou do sentimento de euforia injustificado de certos países devedores, entre os quais o Brasil figura em bom lugar. Pode nos explicar como Lula conseguiu essa proeza?

MLF: A parte da dívida externa que foi paga corresponde somente à que devíamos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras pequenas partes desta dívida, sendo que os laços com o Fundo não foram rompidos. Quando, em 2005, o Brasil saldou sua dívida com o FMI, o ministro das Finanças da época, Antonio Palocci, fez publicar no sítio da internet do ministério uma carta explicando que as obrigações relativas ao artigo IV [3] do estatuto do FMI permaneceriam na agenda, isto é, o Brasil manteria a agenda econômica imposta pelo FMI, permitindo que ele examine as contas do país a cada três meses. Em 2005, a dívida externa pública excedeu os 200 mil milhões de dólares e somente 15,5 mil milhões de dólares foram pagos antecipadamente ao FMI. É evidente, portanto, que toda a dívida não foi reembolsada. Ademais, este pagamento foi muito desfavorável em termos financeiros, dado que a dívida com o FMI era relativamente barata, com taxas de juros de 4% por ano. Para saldar esta dívida, o Brasil emitiu de maneira acelerada: títulos da dívida externa a taxas de juros bem mais elevadas, de 7,5 a 12% ao ano, e títulos da dívida interna, remunerada a taxas muito altas de 19% ou mais à época. Ocorreu, portanto, uma grande contradição, que qualificamos de inexplicável: pagamos antecipadamente, e sem qualquer benefício ou redução, uma dívida a 4% de taxa de juros e a substituímos por uma dívida muito mais onerosa (com taxas de 7,5% no mínimo para a dívida externa e mais de 19% para a dívida interna). Resumidamente, a dívida tem simplesmente mudado de mãos. Paramos de dever ao FMI para dever àqueles que adquiriram os títulos da dívida interna e externa. E como se não fosse o suficiente substituir uma dívida barata por uma dívida mais cara, não estamos livres dos ditames do FMI, tal como a obrigatoriedade de produzir um superávit primário [4] (que não visa outra coisa que a reserva de recursos para o pagamento dos juros da dívida), as privatizações, a manutenção da liberdade de circulação dos capitais, entre outros.

Continuamos a reembolsar uma dívida pública externa que se eleva atualmente a mais de 87 mil milhões de dólares – a total supera 340 mil milhões de dólares – enquanto a propaganda insiste que esta dívida está paga... No caso do FMI, o Brasil se comprometeu a emprestar até 10 mil milhões de dólares [5] . A propaganda política foi intensa. Na mente das pessoas, o FMI é o símbolo por excelência da dívida, sendo assim fácil acreditar que reembolsar sua dívida ao FMI equivalia a saldar a totalidade da dívida. O fato de que o Brasil dispõe de reservas cambiais de mais de 250 mil milhões de dólares aumenta a confusão. Estas reservas foram conseguidas de uma maneira muito onerosa. Primeiro, elas decorrem da entrada em grande quantidade de dólares, devido à valorização da moeda local, o real. Como o real ganha valor nominal em relação ao dólar, os especuladores internacionais compraram reais, para aproveitar as taxas de câmbio favoráveis. Assim, quando os dólares entram no Brasil, para limitar a quantidade de moeda em circulação e, portanto, a inflação, o Banco Central vende títulos da dívida interna emitidos com as taxas de juros mais elevadas do mundo. Com estes dólares, o Banco Central compra, principalmente, bônus do Tesouro dos Estados Unidos cuja remuneração é quase nula [6] . Por isso, o Banco Central acumula enormes perdas operacionais, que são em parte devido às taxas de câmbio e de outra parte à diferença entre os juros que paga e aqueles que recebe. Isso é extremamente grave; a dívida interna cresce de maneira exponencial e as reservas são expressas em uma moeda em depreciação, sem trazer qualquer benefício para o país.

SJ: É evidente então que a dívida é um assunto longe de ser concluído. Quais são as manifestações do problema do endividamento no Brasil e quais são os desafios nesta matéria?

MLF: Em primeiro lugar, é preciso assinalar que se a dívida externa é um assunto longe de ser concluído, o maior problema atualmente no Brasil reside na dívida interna que ultrapassa os dois trilhões de reais, ou seja, um milhão de milhões e duzentos mil milhões de dólares (ou 855 mil milhões de euros). Ela explodiu via mecanismos tais como a acumulação de reservas, como acabamos de explicar, ou ainda o anatocismo (pagamento de juros sobre juros, ou capitalização de juros), como comprovaram as investigações realizadas pela recente CPI na Câmara dos Deputados. O problema da dívida no Brasil salta aos olhos se observamos o orçamento nacional. As tabelas do orçamento são muito complexas, bem difíceis de compreender; há uma falta absoluta de transparência. É por isso que dentre os trabalhos da Auditoria Cidadã da Dívida nós traduzimos esta multidão de tabelas, buscando fazer um único gráfico, bastante esclarecedor. Este gráfico demonstra qual parte é destinada ao pagamento da dívida e qual parte é destinada ao social.

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Em 2009, por exemplo, o Brasil destinou 36% de seu orçamento ao pagamento dos juros e a uma pequena porção do reembolso do capital (ou amortização [7] ), quando somente 4,6% e 2,9%, respectivamente, foram alocados para a saúde e a educação. Um setor tão fundamental como a água e o saneamento representaram apenas 0,08% dos gastos em 2009! E isto levando em conta que mais da metade dos cidadãos(ãs) brasileiros(as) não têm acesso ao saneamento das águas utilizadas! É um verdadeiro escândalo. O Brasil não é um país pobre, sendo a oitava economia mundial, mas é também um dos países onde a desigualdade e a injustiça social são as mais fortes, e o país ocupa o 73º lugar na classificação das Nações Unidas, segundo o Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) [8] . Mas isso vai mais longe ainda: se levarmos em consideração o endividamento para o pagamento de amortizações, serão então engolidos 48% do orçamento no serviço da dívida! O governo brasileiro dissimula esta verdade constrangedora e apresenta os números de tal forma que a emissão da dívida para a amortização não seja incluída no orçamento. Portanto, se quisermos alcançar justiça social, não podemos deixar de enfrentar a dívida. Se observarmos, por um lado, a evolução da alocação de recursos para o serviço da dívida e, por outro lado, para a educação, cultura, saúde, saneamento, segurança social, salário dos funcionários públicos que prestam serviços à população, etc, vemos que a cada ano aumenta o serviço da dívida em detrimento destes gastos vitais. O absurdo maior é que a dívida continua a crescer, como uma bola de neve, apesar das somas cada vez maiores destinadas ao seu reembolso. E o governo Lula não reverteu essa tendência, longe disso: o problema tornou-se ainda mais grave durante o seu mandato. É preciso assim, para enfrentar o problema, realizar uma auditoria, tal como previsto pela Constituição de 1989, e que até hoje não foi cumprida.

SJ: Com relação a isto, já mencionou a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a dívida, que foi o resultado de uma grande batalha. Que conclusões tirou dessa experiência? Acha que a questão da luta contra o endividamento corre o risco de ser novamente enterrada ou existe ainda a possibilidade de que outros passos sejam dados na direção de uma verdadeira auditoria?

MLF: A CPI foi, de fato, o resultado de uma longa batalha. Conseguimos criar a CPI, mas não sem grandes dificuldades políticas: nem o governo de Lula, nem a oposição de direita queriam abordar o assunto. Apenas alguns raros parlamentares apoiaram realmente a CPI. Esta comissão foi importante, na medida em que introduziu o tema da dívida na pauta de debates e na agenda política. A cada semana, tivemos uma reunião pública da CPI com professores e especialistas convidados pela Comissão. Estas reuniões foram transmitidas pela televisão da Câmara dos Deputados e na web. Durante a Auditoria Cidadã da Dívida, começamos a receber mensagens de todo o país, com pedidos de explicações, esclarecimentos, entrevistas, etc. Houve um grande interesse, particularmente por parte dos estados brasileiros, devido ao fato de que, entre 1996 e 1998 (sob o governo de Fernando Henrique Cardoso), as dívidas de estados e municípios com o governo federal foram renegociadas. Após esta renegociação, as entidades federais e municipais viram-se pesada e injustamente endividadas, com as taxas de juros muito elevadas. O governo federal fez com que, de alguma maneira, os componentes da federação sofressem do mesmo mal sofridos por ele próprio a partir dos mercados financeiros. Após a conclusão da CPI, dois relatórios foram produzidos [10] . Um relatório oficial que, embora aponte para uma série de ilegitimidades e ilegalidades no seu diagnóstico, não faz as recomendações que teríamos o direito de esperar. O relatório reconhece que as taxas de juros vigentes no Brasil não são "civilizadas" e que são um dos fatores-chave no aumento da dívida, tanto do governo federal quanto dos estados e municípios do país; que a dívida interna aumentou para financiar a acumulação de reservas cambiais em dólares, resultando em um custo significativo para as finanças públicas; que o Senado Federal renunciou à sua competência ao permitir a emissão de títulos da dívida externa sem especificar suas características; que há uma falta de transparência na divulgação dos valores da dívida e que estão faltando certos documentos e informações solicitados pela CPI; que o total dos juros pagos anunciado pelo governo é inferior ao total dos juros efetivamente pagos, pois somente são tomados em consideração os juros que ultrapassam a taxa de inflação, ou seja, as taxas de juros chamadas "reais", sendo o restante dos juros contabilizados equivocadamente como se se tratasse da amortização do principal. O relatório oficial destaca, portanto, coisas graves, mas sem tirar daí as recomendações claras e decisivas que se impõem. O relatório nem sequer recomenda a realização de uma auditoria que, no entanto, é prevista nos termos da Constituição. Ele não considerou desejável a transmissão de informações ao Ministério Público para o aprofundamento das investigações. Graças à pressão de alguns setores da sociedade civil (sobretudo das entidades de servidores públicos), que foram ao encontro dos parlamentares, participando das reuniões públicas da CPI, agitando cartazes, etc, o relatório oficial foi aprovado por apenas oito votos. É o mesmo número de votos que aprovou o relatório paralelo elaborado pelo membro do PSOL – deputado federal Ivan Valente [11] , e que integrou ao seu relatório todas as oito análises técnicas que apresentei, na qualidade de assessora técnica da CPI. Este relatório alternativo tem, portanto, o mesmo peso político que o relatório oficial. O relatório de Ivan Valente revela muitos indícios de ilegalidades, todas devidamente documentadas, sendo os principais: o pagamento de juros sobre juros, dito "anatocismo", que foi considerado ilegal pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil; os juros flutuantes da dívida externa, que podem ser considerados como ilegais, segundo a Convenção de Viena sobre o direito dos Tratados de 1969; a ausência de contratos e outros documentos; a ausência de conciliação de cifras (por exemplo, falta de identificação das dívidas objeto de renegociações desde a década de 70); o caráter ilegal da livre circulação de capitais, que está na origem do aumento da dívida interna a partir de 1995; a violação dos direitos humanos garantidos pela Constituição, em função dos imensos recursos destinados ao pagamento da dívida; o conflito de interesses entre o Banco Central e o setor bancário privado e outros detentores de títulos da dívida, que se reúnem para definir as previsões de inflação e que determina, por sua vez, a taxa de juros. O relatório alternativo foi apresentado ao Ministério Público Federal e agora há uma pressão da sociedade civil para que um grupo de trabalho seja formado, a fim de que as investigações sejam mais aprofundadas. A CPI constituiu, portanto, uma etapa extremamente importante, uma vez que, além de reabrir o debate sobre a dívida, nos permitiu ter acesso a diversos documentos relevantes. Mas a luta não acabou. Continuamos a exigir o respeito à Constituição de 1988 através da realização de uma auditoria.

SJ: Dilma Roussef, do PT (Partido dos Trabalhadores), sucederá a Lula a partir de janeiro de 2011. O balanço do governo Lula é pelo menos decepcionante: nenhum progresso na reforma agrária, busca de um modelo extrativista e agro-exportador destrutivo para a natureza, de uma política fundamentalmente pró-capitalista, para não mencionar o imperialismo brasileiro na América Latina ou na África. Dilma vai seguir os passos de Lula?

MLF: Durante a campanha, Dilma disse que iria continuar a política de Lula, e suas declarações sobre a política econômica e monetária são consistentes com o regime de cumprimento das metas de inflação. É uma forma de tranquilizar os mercados em relação à continuidade do endividamento, pois o sistema de metas de inflação é a garantia de que o Banco Central compre o excedente de dinheiro em circulação para conter a inflação. Um controle dos capitais que entram no país poderia ser criado para limitar a inflação, mas não é esse o caminho escolhido. Permite-se a entrada de capitais especulativos, seja qual for a quantidade, e depois compra-se o excedente transformando-o em reservas de um lado e de outro em dívida interna. É realmente lamentável, porque as coisas poderiam ter mudado no governo Lula, que se beneficiou do apoio popular e teve o mandato para fazê-lo. Mas Lula tem seguido a política de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Infelizmente, acho que Dilma vai fazer o mesmo. Mas ela não tem o mesmo carisma que Lula, por isso tenho mais esperanças nas atividades dos movimentos sociais que foram extremamente enfraquecidos durante a era Lula. Acho que os movimentos sociais serão mais ativos e menos complacentes do que o foram com Lula. Daí a esperança por uma luta mais intensa, de uma pressão maior em favor de uma mudança progressiva.

08/Fevereiro/2011

Notas

[1] Ver por exemplo o Power Point em inglês realizado para IX Seminário internacional sobre o direito e a dívida, no Senado belga: www.cadtm.org/9th-CADTM-International-Seminar

[2] A partir de Novembro de 2008 o Equador suspendeu o pagamento sobre grande parte da sua dívida comercial, constituída por títulos (títulos Global 2012 e 2030), cuja auditoria havia provado que estava pejada de fraudes e de numerosas irregularidades. Em Junho de 2009, os detentores de 91% dos títulos em causa aceitaram a proposta de recompra dos mesmos a 35% do seu valor nominal. Isto representa par o governo uma economia de 300 milhões de dólares por ano ao longo de 20 anos. Ver www.cadtm.org/Les-experiences-en-cours-au

[3] Pelo artigo IV dos seus estatutos, o FMI efectua consultas periódicas com os países membros, analise a sua política económica e faz-lhes recomendações.

[4] Nos acordos efectuados com os países membros que solicitam seu apoio financeiro, o FMI geralmente exige a realização de excedentes orçamentais primários, ou seja, que o orçamento, antes do pagamento dos juros da dívida, seja excedentário, mesmo se isso implicar cortes claros nas despesas sociais.

[5] Em Janeiro de 2010 o Brasil e o FMI assinaram um acordo pelo qual o Brasil se compromete a emprestar até 10 mil milhões de dólares através da compra de obrigações emitidas pelo Fundo. Ver o comunicado de imprensa do FMI: www.imf.org/external/np/sec/pr/2010/pr1014

[6] Para mais pormenores sobre este mecanismo, ver Éric Toussaint, Banque du Sud et nouvelle crise internationale. Paris/Liège : Syllepse/CADTM, 2008, capítulo 1, p. 38-39 e "Banque du Sud, contexte international et alternatives", www.cadtm.org/Banque-du-Sud-contexte,1998 http://www.cadtm.org/Banque-du-Sud-...

[7] O serviço da dívida, ou seja, as quantias consagradas ao seu reembolso, compreende por um lado o reembolso do capital emprestado (diz-se amortização) e, por outro, o pagamento dos juros.

[8] O IDH é um índice composto que faz a síntese dos indicadores de esperança de vida, de nível de instrução e de rendimento.

[9] O artigo 26 do Acto sobre as disposições da Constituição de 1988, adoptado após duas décadas de ditadura, dispõe que: "Num prazo de um ano a contar da promulgação da presente Constituição, o Congresso da Nação promoverá, através de uma comissão mista, a análise e a perícia dos actos e factos geradores do endividamento". Ele precisa que esta comissão terá o carácter legal de comissão de inquérito parlamentar associada ao Tribunal de Contas e que, em caso de irregularidade, o Congresso emitirá uma declaração de nulidade e a transmitirá ao Ministério Público.

[10] Para um balanço da CPI, ver igualmente "Brasil: que contribuições da Comissão de parlamentar de inquérito sobre a dívida?", por Virginie de Romanet: www.cadtm.org/Bresil-Quels-apports-de-la

[11 Ivan Valente do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) foi do deputado na origem da criação da CPI. Ver www.cadtm.org/Bresil-la-Commission-d-enquete

[NR] Um falso problema, como já foi mostrado numerosas vezes por resistir.info.

[*] Coordenadora da organização brasileira Auditoria Cidadã da Dívida. Foi membro da Comissão de Auditoria Integral da Dívida Pública (CAIC) no Equador em 2007-2008 e participou ativamente nos trabalhos da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre a dívida realizada no Brasil. A entrevista foi realizada durante a sua permanência na Bélgica. Ver também o seu Power Point (em inglês) apresentado no IX Seminário Internacional sobre o Direito e a dívida no Senado belga

O original encontra-se em http://www.cadtm.org/O-problema-da-divida-no-Brasil-nao

Ninguém aprende samba no colégio, infelizmente

Este bloguezinho mequetrefe recomenda a leitura do OH! GranDIOso Fá. Só pra fugir da monotonia.

Sanguessugado do NoVo CINEclub ismo

de OH! GranDiOso FÁ

A alusão ao samba de Noel Rosa, no título deste artigo, não é sem propósito. Sendo o samba, e o futebol, um dos componentes do DNA da identidade brasileira, a ironia do poeta da Vila é de deixar triste e cabisbaixo qualquer um que ame a cultura popular. Noel não se fez de rogado ao expor ao ridículo a tendência das elites culturais tupiniquins da época em afrancesar-se ou americanizar-se para se parecerem sofisticadas. Dizia ele num de seus sambas, eternizado na voz de Aracy de Almeida:

Amor lá no morro é amor pra chuchu

As rimas do samba não são I love you

E esse negócio de alô,

Alô boy, alô Johny

Só pode ser conversa de telefone

Ao mesmo tempo que faz galhofa do vazio moral dessas elites, acusa também a cultura oficial escolar, preocupada em macaquear uma tradição que pouco lhe diz respeito e que, em contato com a realidade social brasileira, figura-se ridícula, porque postiça: não se aprende samba no colégio não porque não seja legítimo, mas porque o colégio está atolado no pedantismo que rejeita o Brasil real, com sua originalidade, em favor de um “glacê” simbólico que, deslocado do país de origem, não significa nada, ou antes, indica uma moléstia congênita e atroz, que Nelson Rodrigues definiu agudamente como “complexo de cachorro vira-lata”.

Ora, que nos idos dos anos 20 do século passado não se ensinasse samba no colégio é compreensível, embora não justificável. Agora, que depois da Revolução de 30, do golpe do Estado Novo, da redemocratização pós Segunda Guerra, dos anos JK, de uma nova ditadura ainda mais cruel que a primeira, de novo período de redemocratização dos anos 80, que depois de Noel Rosa e Nelson Rodrigues, para não estender demais a lista de citações, ainda não se ensine samba no colégio é pra lá de lamentável.

Quem não sabe que em sociedade letrada a cultura apóia-se no sistema educacional? Grande parte da vida de crianças e adolescentes é, nos dias atuais, vivida no interior da escola, o que significa dizer que aquilo que é experimentado no âmbito dela tem peso decisivo na formação de gerações e gerações de brasileiros.

Porém, qual é mesmo a atenção que se tem dado a que nosso sistema educacional volte-se para elementos formativos do povo brasileiro? Reclama-se do mau gosto generalizado o qual crescentemente propicia o sucesso de lixo cultural em volumes astronômicos, a congestionar a programação de rádio e TV. A que se deve essa situação senão ao fato de que hoje não se aprende samba nem no colégio nem em praticamente nenhum outro canto? A música brasileira sobrevive à margem da mídia e do sistema educacional oficial graças a gênios surgidos fora do colégio, a maioria já passada dos 50 anos e que vai deixando raros herdeiros.

Num momento em que a luta contra o analfabetismo e pela consolidação de uma cultura escolar mais consistente ganha relevo, seria alvissareiro que o Brasil pulasse os muros da escola de fora para dentro, porque, parafraseando agora Simone de Bouvoir, quer era francesa, mas nunca foi glacê cultural, não se nasce brasileiro: torna-se brasileiro.

É preciso, sim, ensinar samba no colégio (samba, aqui, é metáfora, colégio não): sua história, suas narrativas, seus temas e formas, seus poetas e intérpretes, pois a função da escola no Brasil não é formar um cidadão abstrato, ascético e anticéptico – que é o que se depreende da maioria dos atuais projetos pedagógicos das instituições de ensino oficial –, mas formar um cidadão brasileiro, cuja identidade é hoje indissociável da música brasileira, das cantigas de ninar à música instrumental.

Falei disso tudo para falar de outra coisa, o que dá na mesmo: se não é possível ser brasileiro sem o condimento da música brasileira, que dizer do nosso patrimônio audiovisual? Se é uma aberração que não se ensine samba nas escolas básicas brasileiras, é também anomalia bizarra que brasileiros, mergulhados numa cultura cada vez mais audiovisual, saiam analfabetos dessa gramática ao fim de 11 (agora 12) anos de escolarização – isso porque a expressão “inclusão digital” anda na moda... Crianças e adolescentes passam horas preciosas de suas vidas em frente de uma TV e não são capazes de saber se os estão fazendo de idiota ou outra coisa – e outra coisa, aqui, seria uma bênção.

Quem é que não sabe que o audiovisual é um setor estratégico para uma nação? Como é que se quer formar um “cidadão crítico” (os projetos pedagógicos amam essa expressão), se crianças e adolescentes são privados do be-a-bá da gramática audiovisual? Como ser crítico, ou antes, como ser cidadão, estando-se condenado ao analfabetismo desse idioma que já é mais universal que o inglês?

Formar público para nossa música e para nossas produções audiovisuais, de TV e de cinema, é, sim, obrigação de nossas escolas de ensino Fundamental e Médio. E se esses dois componentes genéticos do Brasil ainda não foram incorporados aos currículos oficiais, agradeçamos aos nossos sonolentos legisladores e aos nossos governantes faltos daquilo que Machado de Assis chamou “instinto de nacionalidade”, todos eles discípulos do malandro ironizado por Noel Rosa que: “Deixou de sambar dando pinote/ na gafieira dançando o foxtrote”.

E ninguém tasca, segundo Aracy de Almeida.

O que o diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, faz DoLaDoDeLá pesquisando sobre maconha?

Sanguessugado do Mello

Meu xará Marco Aurélio Mello (não o juiz, o jornalista e responsável pelo ótimo blog DoLaDoDeLá) escreveu hoje que Ali Kamel anda pesquisando em seu blog. E que o Ratzinger global está muito interessado em duas postagens dele. Fui verificar quais eram, e o tema comum às duas era a maconha.

Reproduzo a seguir o texto do meu xará para que vocês apreciem seu texto elegante. Depois eu volto.

A descoberta que acabo de fazer é surpreendente. Meu modesto blog, que recebe pouco mais de mil visitantes ao dia tem um leitor muito especial: o diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel. Para quem DoLaDoDeLá se dedica modestamente à filosofia, política, economia, família, curiosidades e sobretudo à ficção, a notícia me enche de orgulho. Significa que Ali encontra tempo todos os dias para conhecer melhor o meu trabalho. Está certo que ele não faz parte da Central Globo de Produção, que é o departamento que cuida da linha de shows, novelas e minisséries, sonho de todo ficcionista, mas já é um bom começo. Nos vimos algumas vezes, na época que eu era funcionário da emissora, mas acho que, por nunca ter me dirigido a palavra, talvez por timidez de parte a parte, ele não teve oportunidade de me conhecer melhor. Também porque Ali está baseado no Rio de Janeiro e eu em São Paulo. Uma pena... Graças à internet, hoje meu trabalho autoral pode alcançá-lo aí no Rio, sem intermediários. Soube por fonte segura que ele se interessou muito por textos que escrevi aqui em agosto do ano passado. Dois em especial: aqui e aqui. Achou até que pudessem guardar semelhança com a realidade. Lamento dizer Ali, estas são obras de ficção, qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência. Não costumo nominar personagens, não tenho interesse em atingir a honra e reputação alheias. Meu único intuito é tentar compreender a fraqueza moral de todo ser humano, sobretudo quando no exercício do poder, mesmo que para isso seja necessário criar um enredo cheio de fantasias e personagens hiperbolizados. Fico feliz com a sua companhia e espero compartilhar meu trabalho com você aqui por muitos e muitos anos. Obrigado pela frequência!  [Fonte: DoLaDoDeLá, Ali Kamel, um leitor muito especial]

Talvez interessado em colher material para a passeata da maconha que está para acontecer no Rio de Janeiro, Kamel pesquise na blogosfera informações que não pode colher (muitos menos plantar ou fumar - de jeito nenhum tragar) na "grande imprensa", que é (pelo menos editorialmente) contra qualquer pitada naquela que já foi conhecida como erva maldita.

Mas o Blog do Mello não vive só de críticas à direção do jornalismo da Globo. Por isso, generosamente, contribuo com a pesquisa de Kamel republicando postagem de 23 de maio de 2007 aqui do blog. Depois, volto.

Maconha não faz mal, o que faz mal é fumá-la

Pelo menos é o que afirma um estudo, publicado domingo numa matéria do Portal Terra:

Vaporizar folhas da cannabis ao invés de queimá-las pode liberar os ingredientes eficazes da droga de forma mais efetiva, mostrou um estudo piloto realizado na Universidade da Califórnia. Segundo o trabalho, essa forma de consumo evita as toxinas prejudiciais da maconha inaladas por meio do fumo. O resultado pode beneficiar o uso medicinal da droga.

Segundo a revista Nature, o pesquisador Donald Abrams e sua equipe decidiram investigar os benefícios do "Vulcão", um vaporizador comercialmente disponível nos EUA. O aparelho esquenta as folhas de maconha a uma temperatura que fica entre 180ºC e 200ºC sem que aconteça combustão. Esse processo libera o THC (tetrahydrocannabinol), o princípio ativo da maconha, em forma de óleo na superfície das folhas.

Estudos anteriores mostraram que as toxinas maléficas liberadas quando a maconha é queimada, como o monóxido de carbono e substâncias cancerígenas, não são produzidas por esses aparelhos. O estudo de Abrams foi o primeiro a comparar em humanos os efeitos do ato de fumar e de vaporizar a cannabis. "A vaporização é capaz de entregar de forma mais rápida o THC no fluxo sanguíneo", disse.

A maconha é utilizada principalmente para aliviar as dores de pacientes de esclerose múltipla e no tratamento do glaucoma, além de estimular o apetite em pacientes com aids e diminuir as náuseas para pessoas em processo quimioterápico. No entanto, segundo os médicos, fumar não é um bom método de fornecimento da droga por causa dos seus efeitos maléficos - ela pode causar câncer de pulmão e doenças do coração.

Quem não estiver acreditando, basta ir ao site da Nature e pagar para ler o estudo na íntegra. Muito embora eu acredite que boa parte de meus leitores esteja mais interessada é no tal “Vulcão”, o vaporizador utilizado no experimento.

Como o Blog do Mello também é serviço, fiz a pesquisa pra vocês. O produto chama-se Volcano, e este é o site de seu fabricante. Se desejar comprá-lo na internet, é só ir a este endereço. Custa 398 euros. Ou seja: o barato sai caro.

Se está em dúvida, veja este pequeno tutorial sobre como utilizar o Volcano, retirado da página do fabricante.

1. Se coloca el material vegetal triturado en la cámara de relleno.

2. El globo se infla con los vapores de los aromas y de los principios activos.

3. El sistema "clic" del VOLCANO: simplemente se introduce la boquilla o la cámara de relleno en la válvula ¡y listo!

4. Gracias a la válvula del globo es posible inhalar cómodamente los vapores.

"El Globo se infla", "válvula del Globo"... Será que é atrás disso que Kamel anda?

Dá-lhe, Vascão. Dá-lhe, Juninho

 

Solidaridad con Joaquín Pérez Becerra y el sentido común

Via Rebelión

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Uno de los mayores crímenes de Estados Unidos

Via Rebelión

Amy Goodman

Democracy Now!

La causa relacionada con la condena a pena de muerte de Mumia Abu-Jamal dio un giro inesperado esta semana cuando un tribunal federal de apelaciones declaró por segunda vez que la condena a muerte de Abu-Jamal fue inconstitucional. El Tribunal Federal de Apelaciones de Filadelfia halló que las instrucciones para la condena recibidas por el jurado y la forma del veredicto que tuvieron que utilizar en la condena no fueron claras. A pesar de que la controversia acerca de la culpabilidad o inocencia de Abu-Jamal no se trató, el caso pone en evidencia los problemas inherentes a la pena de muerte y al sistema de justicia penal, especialmente el papel que juega la cuestión racial.

El 9 de diciembre de 1981, el oficial de policía de Filadelfia Daniel Faulkner detuvo un automóvil conducido por William Cook, el hermano de Abu-Jamal. Lo que sucedió a continuación todavía es motivo de disputa. Hubo disparos y tanto el oficial Faulkner como Abu-Jamal recibieron impactos de bala. Faulkner murió y Abu-Jamal fue hallado culpable de homicidio en un proceso judicial presidido por el juez Alberto Sabo considerado ampliamente racista. En apenas uno de numerosos ejemplos nefastos, una taquígrafa del tribunal afirmó en una declaración jurada que oyó a Sabo decir en la antesala del tribunal “Voy a ayudarlos a ejecutar al negro”.

Este último dictamen del tribunal de apelaciones está directamente relacionado con la conducta del Juez Sabo en la fase de condena del juicio de Abu-Jamal. La Corte Suprema de Pensilvania está considerando varios argumentos sobre si Abu-Jamal recibió o no un juicio justo. Lo que el tribunal de apelaciones halló de forma unánime esta semana es que no recibió una condena justa. El Fiscal de Distrito de Filadelfia, Seth Williams, decidió apelar el nuevo fallo ante la Corte Suprema de Estados Unidos. Al respecto, Williams dijo:

“No voy a pedir que se revise todo el dictamen del Tribunal de Apelaciones, pero creo que a esta altura le pediré a la Corte Suprema que aclare y tome una decisión sobre qué deberíamos hacer en este momento”.

Como consecuencia de este fallo, Abu-Jamal podría obtener una audiencia de revisión completa de la sentencia en el tribunal, ante un nuevo jurado. En dicha audiencia, se darían instrucciones claras al jurado acerca de cómo decidir entre aplicar una condena a cadena perpetua o la pena de muerte, algo que el tribunal de apelaciones consideró que no recibió en 1982. En el mejor de los casos, Abu Jamal podría salir de la cruel reclusión y aislamiento del “corredor de la muerte” de la prisión de máxima seguridad SCI-Greene de Pensilvania. John Payton, abogado director del Fondo de Defensa Legal de la Asociación Nacional para el Progreso de las Personas de Color (NAACP, por sus siglas en inglés), y representante legal de Abu-Jamal, dijo: “El fallo es un paso importante en la lucha para corregir los errores de un capítulo lamentable de la historia de Pensilvania... y ayuda a relegar a un pasado lejano el tipo de injusticias en las que se basó esta condena a muerte”.

Su otra abogada Judith Ritter, profesora de la facultad de derecho de la Universidad Widener, me dijo: “Esto es extremadamente importante. Es literalmente una decisión de vida o muerte, y ratifica la desición de principios de la década de 2000 de dejar en suspenso la pena de muerte. En ese momento el Fiscal de Distrito impugnó el fallo de que la pena de muerte se había emplementado de forma inconstitucional, y ahora una vez más logramos la victoria judicial con respecto al fallo de que el jurado dictó una condena inconstitucional”

Le pregunté a la abogada Ritter si había hablado con Abu-Jamal luego de que el tribunal emitiera el fallo, y me dijo que la prisión no había aprobado su solicitud de una llamada legal de emergencia. No me sorprendió, considerando la cantidad de años que llevo cubriendo este caso.

Abu-Jamal tuvo que enfrentarse a muchos obstáculos para conseguir que se oyera su voz. El 12 de agosto de 1999, mientras estábamos en plena emisión de Democracy Now!, Abu-Jamal llamó a nuestro programa para que le entrevistásemos. Cuando comenzó a hablar, un guardia de la prisión arrancó el teléfono de la pared. Mumia Abu-Jamal volvió a llamar un mes después y nos contó:

“Otro guardia apareció en la puerta de la celda gritando a viva voz, '¡Esta llamada se terminó!' Cuando exigí saber por qué, respondió 'esta orden vino desde arriba'. Inmediatamente llamé al sargento que estaba parado vigilando, 'Sargento, ¿de dónde vino esta orden?' Se encogió de hombros y respondió: 'No lo sé. Simplemente recibimos una llamada para cortarle la comunicación'”.

Abu-Jamal presentó una demanda por la violación de sus derechos y la ganó.

A pesar de permanecer en aislamiento, Mumia Abu-Jamal continuó durante todo este tiempo con su trabajo como periodista. Sus comentarios de radio semanales se transmiten a lo largo y ancho del país. Así cierra su programa cada semana: “Desde el corredor de la muerte, soy Mumia Abu-Jamal”. Mumia Abu-Jamal es autor de seis libros y recientemente fue invitado a presentar una ponencia sobre encarcelamiento racial en la Universidad de Princeton. Allí dijo (desde su teléfono celular conectado a un micrófono): “Muchos hombres, mujeres y jóvenes... pueblan el complejo industrial carcelario de Estados Unidos. Como muchos de ustedes saben, Estados Unidos, con apenas el 5% de la población mundial, alberga el 25% de los presos del mundo... la cantidad de personas negras en prisión aquí supera la del régimen del apartheid en Sudáfrica en su peor momento”.

Estados Unidos se aferra a la pena de muerte y está solo en esta materia entre los países del mundo industrializado. De hecho se encuentra entre los países del mundo que realizan ejecuciones con mayor frecuencia junto a China, Irán, Corea del Norte, Arabia Saudí y Yemen. El fallo de esta semana en el caso de Mumia Abu-Jamal es una razón más para abolir la pena de muerte.

Denis Moynihan colaboró en la producción periodística de esta columna.

Texto en inglés traducido por Mercedes Camps y Democracy Now! en español

Fuente: http://www.democracynow.org/es/blog/2011/4/28/pena_de_muerte_uno_de_los_mayores_crmenes_de_estados_unidos

Alô, dona ONU, olha os direitos humanos aí

Via Rebelión

Bahréin sentencia a muerte a cuatro manifestantes

Al-Jazeera

Un tribunal militar de Bahréin ha condenado a muerte a cuatro manifestantes chiíes y a otros tres a penas de cadena perpetua por el asesinato de dos policías durante las manifestaciones del mes pasado, según ha informado la prensa estatal.

Los veredictos del jueves son los primeros relacionados con el levantamiento iniciado en febrero contra la familia gobernante del reino del Golfo.

Los siete acusados fueron juzgados a puerta cerrada bajo la acusación de asesinato premeditado de funcionarios del gobierno, lo que sus abogados han negado.

Un representante de la oposición chií ha dado los nombres de los condenados a muerte: Ali Abdulá Hasan, Qasim Hasan Matar, Said Abdul Jalil Said, y Abdul Aziz Abdulá Ibrahim. Informó asimismo a la agencia de noticias AFP de que Issa Abdulá Kazem, Sadiq Ali Mahdi y Husein Yafar Abdul Karim han sido condenados a cadena perpetua.

El sheij Ali Salman, presidente de Al-Wifaq, el principal grupo político chií del país, ha declarado a Al-Yazira que los castigos no se ajustan al delito. “Creo que estas sentencias deben revisarse y que la comunidad internacional debe intervenir para detener esto”. Ha añadido que los procedimientos no “tienen precedentes” y que siguen existiendo dudas sobre las condiciones de los detenidos.

Los funcionarios del gobierno han informado de que un total de cuatro policías fueron asesinados durante los disturbios que se apoderaron del país en febrero y marzo: al menos tres de ellos fueron atropellados por coches alrededor del 16 de marzo.

Cientos de miles de opositores chiíes de Bahréin han reclamado más derechos y libertades a la monarquía suní.

Las autoridades han detenido a centenares de personas desde que el mes pasado se declaró la ley marcial para sofocar a la disidencia.

El miércoles, un funcionario de Bahréin afirmó que 405 detenidos habían sido remitidos a los tribunales militares y que otros 312 habían sido liberados.

“Sesenta y dos causas penales y 343 casos de delitos menores se han remitido a los tribunales de seguridad nacional”, según el sheij Fawaz bin Mohamad Al-Jalifa, jefe de la Autoridad de Asuntos de Información. Otros 312 detenidos han sido puestos en libertad “algunos por razones de salud” y otros después de considerar que su período de detención ha sido suficiente.

Las autoridades de Bahréin han sido objeto de fuertes críticas por parte de organizaciones internacionales de derechos humanos por la dura represión contra los manifestantes.

A principios de esta semana Estados Unidos ha expresado su preocupación por la suerte de los detenidos, señalando que algunos han muerto bajo custodia.

Fuente: http://english.aljazeera.net/news/middleeast/2011/04/201142881322769709.html

Sempre o trabalho

Via Correio da Cidadania

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D. Demétrio Valentini

Por mais que o Primeiro de Maio tenha perdido sua fisionomia de luta social, o trabalho permanece na ordem do dia. Nas palavras do Papa João Paulo Segundo, em sua Encíclica Laborem Exercens, o trabalho continua sendo " uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social"

Em seguida, acrescenta que a questão social vai se tornando cada vez mais complexa, e dentro dela "a realidade do trabalho humano assume uma importância fundamental e decisiva."

Acontece que o trabalho voltou à ordem do dia, na encruzilhada dos debates políticos e econômicos.

A recente onda de "desregulamentação social" atingiu o trabalho de maneira frontal. Algumas conquistas conseguidas a duras penas, durante décadas de lutas sindicais, se diluem hoje e perdem força social.

O descanso semanal ficou seriamente comprometido. É crescente o número de empresas que nem interrompem suas atividades nos finais de semana. Ou até fazem dos finais de semana a oportunidade para suas promoções especiais. Desta maneira, é relegado a segundo plano o direito do trabalhador ao descanso coletivo.

Desta maneira, até a programação pastoral fica comprometida. É cada vez mais difícil encontrar um horário que seja propício à comunidade, pois a necessidade do trabalho para a sobrevivência inviabiliza a participação nos encontros de pastoral.

Outra realidade que emerge hoje, e atinge diretamente o trabalho humano, é o ritmo alucinante na execução das grandes obras de infra-estrutura, onde se fazem os contratos coletivos de trabalho, que acabam esgotando rapidamente a capacidade do trabalhador e sua resistência física.

Basta lembrar, recentemente, os problemas acontecidos nas obras das represas de Jirau e Santo Antonio, no Rio Madeira.

A exploração do trabalho é uma tendência que emerge, sob formas novas, de diversas maneiras. Já acabou o tempo da escravidão. Mas ainda encontramos em nosso país situações de trabalho escravo, que o poder público procura combater com severidade. As grandes fazendas no interior do Brasil são os lugares mais propícios para estas aberrações que ainda existem.

Elas se tornam mais graves ainda, quando são escravizadas crianças e adolescentes, como recentemente a Pastoral dos Migrantes denunciou nas carvoarias do Mato Grosso.

São todas realidades que mostram como não podemos arriar a bandeira da luta pelo trabalho livre, digno e remunerado com justiça.

Por outro lado, graças a Deus estão surgindo formas de colocar em comum, livremente, o trabalho feito em mutirões, visando o bem coletivo, em múltiplas formas de economia solidária, onde o fruto do trabalho deixa de ser alienado para outros interesses, mas é colocado a serviço dos próprios promotores desta solidariedade que se expressa pelo trabalho, colocado como contribuição pessoal ao bem coletivo.

Por aí podemos perceber como é mutante a realidade do trabalho humano. Mas ele sempre vem ligado à sua finalidade precípua, de meio de sobrevivência, e de atividade que desabrocha as capacidades das pessoas, e as habilita para sua contribuição pessoal ao progresso da sociedade.

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales.

Capitalismo e luta de classe

Via Resistir.info

James Petras

Ruídos de bolsa, gravados em 1928.. A luta de classe continua a desempenhar um papel central no processo da acumulação capitalista, embora assuma formas diferentes consoante o contexto sócio-económico. Para analisar a situação da luta de classes é necessário especificar conceitos chave relacionados com (a) as diversas condições e os sectores dominantes do capital na economia global, (b) a natureza da luta de classe, (c) os principais protagonistas das lutas de classe, (d) o carácter das exigências e (e) as lutas de massas.

A acumulação capitalista desenrola-se num padrão muito desigual com consequências importantes para a natureza e a intensidade da luta de classe. Além disso, as reacções particulares dos trabalhadores, e principalmente do estado capitalista, à situação geral da economia moldam o grau em que a luta de classe se intensifica e definem qual dos dois principais 'pólos' (capital ou trabalho) assume a ofensiva.

Clarificação de conceitos

Ao analisar o capitalismo contemporâneo, a distinção mais flagrante é entre três condições radicalmente diferentes que o capitalismo enfrenta. Dizem respeito à experiência dos países quanto a (a) alto desenvolvimento, (b) estagnação, (c) crises profundas.

Os países capitalistas de alto crescimento dividem-se acentuadamente entre (a) os que têm um alto crescimento do consumo, são grandes exportadores de produtos agro-minerais-energia, na sua maioria situados em África e na América Latina, (b) e os que são exportadores de produtos fabricados – situados principalmente na Ásia (China, Índia, Coreia do Sul).

As economias em crise podem subdividir-se em três grupos.

(a) Economias em recuperação rápida , que incluem a Alemanha e os países nórdicos, e que, depois de se afundarem num crescimento negativo, alargaram as suas exportações industriais e estão a crescer rapidamente desde 2010.

(b) Economias em recuperação lenta ou em estagnação , que incluem os EUA, a Grã-Bretanha, a França e a Itália, e que bateram no fundo, recuperaram lucros, em especial no sector financeiro, mas têm feito pouco ou nenhum progresso na redução do desemprego, na expansão das manufacturas e no crescimento em geral.

(c) Economias em crise prolongada e profunda , que incluem Portugal, Espanha, Grécia, os países bálticos e balcânicos, que estão na bancarrota, com um desemprego crescente entre 15% a 20% e um crescimento negativo. Têm um pesado fardo de endividamento e estão a implementar fortes programas de austeridade destinados a prolongar a sua depressão económica durante os próximos anos.

Assim como há padrões desiguais no desenvolvimento capitalista, o mesmo acontece no que se refere à luta de classes. Há vários conceitos chave que é preciso ter em consideração na análise da luta de classes.

Em primeiro lugar, há a distinção entre luta de 'classes' e luta de 'massas'. Na América Latina há muitas situações de lutas de trabalhadores polivalentes, de camponeses ou do sector público, lideradas por organizações ligadas a classes. Por vezes estes movimentos baseados em classes tornam-se em 'lutas de massas' e incorporam grupos heterogéneos (vendedores ambulantes, trabalhadores independentes, etc). As revoltas árabes contemporâneas são sobretudo lutas de massas, geralmente sem liderança ou organizações de classe, ou nalguns casos lideradas pela 'juventude' ou por 'organizações religiosas'.

Em segundo lugar, há a distinção entre lutas de classe 'ofensivas' e 'defensivas', em que as organizações de classe lutam para aumentar os seus direitos sociais e aumentar salários ou lutam para preservar ou limitar a perda de salários e dos níveis de vida.

A luta de classe é uma proposta com dois sentidos: enquanto os trabalhadores e outras classes exploradas lutam a partir de baixo, as classes dirigentes e os seus estados empenham-se na luta de classes a partir de cima para aumentar os seus lucros, produtividade e poder.

A luta de classe assume formas diversas. A maior parte das lutas de classe de hoje é sobre 'questões económicas', incluindo uma fatia maior do rendimento nacional. Há meia dúzia de anos, em toda a América Latina, tal como hoje nos países árabes, a luta de classes ou de massas era/é principalmente política, uma luta para derrubar regimes neoliberais opressivos e regimes repressivos.

Com estes conceitos clarificados, podemos agora analisar a relação entre países e regiões com diversos graus de crises ou de crescimento e a sua relação com os diversos graus e tipos de luta de classes.

Desenvolvimento desigual e luta de classe

Os países que experimentam um alto crescimento, quer na Ásia com base na produção, quer na América Latina com base na explosão das exportações agro-minerais, enfrentam uma crescente luta de classes económica ofensiva por uma fatia maior do bolo económico em crescimento. Na década passada, na China, sob a pressão das bases, os salários ultrapassaram um aumento de 10%, e nalgumas regiões de 20% [1] , enquanto que na América Latina os trabalhadores da Bolívia e doutros países exigem mais de 10% [2] . Em grande parte, o alto crescimento é acompanhado pela inflação [3] que corrói os aumentos nominais oferecidos pelo estado e pelos empregadores. Especialmente provocadores são as fortes subidas nos preços dos alimentos básicos, da energia e dos transportes que afectam a vida quotidiana dos trabalhadores.

Entre os sinais mais promissores do avanço da luta de classes estão as conquistas sócio-económicas reais e substanciais conseguidas pelos trabalhadores na década passada na América Latina. Na Argentina o desemprego diminuiu de mais de 20% para menos de 7%, os salários reais aumentaram mais de 15%, o salário mínimo, as pensões e a cobertura médica aumentaram substancialmente e a filiação sindical aumentou. No Brasil ocorreram processos semelhantes, embora numa escala menor: o desemprego passou de 10% para 6,5% (Março de 2011), o salário mínimo aumentou mais de 50% nos últimos 8 anos e várias centenas de terrenos foram ocupados e expropriados sob a acção directa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Na América Latina, embora a política social revolucionária tenha diminuído desde a primeira década de 2000, a luta de classes económica tem tido êxitos na obtenção de reformas substanciais que melhoram a vida da classe trabalhadora e impõem algumas restrições à exploração desenfreada da força de trabalho pelo neoliberalismo, em profundo contraste com o que está a passar-se na Inglaterra-América e na Europa do Sul.

Nos países imperialistas 'desenvolvidos' em estagnação, o estado tem vindo a atirar o custo total da 'recuperação' sobre os ombros dos trabalhadores e dos funcionários públicos, reduzindo o emprego, os salários e os serviços sociais, enquanto enriquece os banqueiros e a elite empresarial. Os EUA, a Inglaterra e a França têm assistido a uma aguda ofensiva de classe a partir de cima que, perante a fraca oposição de um aparelho sindical anquilosadamente burocratizado, tem derrubado muitas das conquistas sociais anteriores dos trabalhadores [4] . Na essência, as lutas dos trabalhadores são defensivas, na tentativa de limitar o recuo mas falta-lhes a organização política de classe para contra-atacar as medidas orçamentais reaccionárias que cortam os programas sociais e reduzem os impostos aos ricos, aprofundando as desigualdades de classe.

As lutas de classe mais intensas ocorreram nos países em que se verificam as crises económicas mais profundas, nomeadamente, na Grécia, em Espanha, na Irlanda e em Portugal. Nestes países, a classe dirigente recuou meio século de conquistas sociais e de salários no decurso de três anos a fim de satisfazer os critérios dos banqueiros ocidentais e do FMI. A ofensiva de classe a partir de cima, liderada pelo Estado, tem enfrentado uma série de greves gerais, numerosas manifestações e montes de protestos mas tudo em vão [5] . A elite industrial-estatal, liderada na maior parte dos casos pelos políticos sociais-democratas, privatizaram empresas públicas, cortaram milhões de empregos públicos, elevaram os níveis de desemprego a níveis históricos (Espanha 20%, Grécia 14%, Portugal e Irlanda 13%) e canalizaram dezenas de milhares de milhões para pagamentos da dívida [6] .

As crises têm sido aproveitadas pela classe dominante como arma para reduzir os custos da mão-de-obra, para transferir receitas para os 5% do topo da hierarquia de classes e para aumentar a produtividade, sem reactivar a economia no seu todo. O PIB continua 'negativo' para o futuro previsível, enquanto que a austeridade corrói a procura interna, e os pagamentos da dívida impedem o investimento local de reactivar a economia.

As crises políticas dos regimes clientes árabes, rentistas, autocráticos e corruptos, manifestam-se nos movimentos democráticos populares de massas – na ofensiva – que derrubaram os regimes no Egipto e na Tunísia, para começar, e desafiam o aparelho de estado pró-imperialista [7] . No Egipto e na Tunísia, foram derrubadas as autocracias pró-imperialistas mas ainda não estão no poder regimes democráticos populares que correspondam aos novos protagonistas de massas da alteração política. No resto do mundo árabe, surgiram revoltas de massas no Iémen, no Bahrein, na Argélia, na Jordânia, na Síria e noutros locais, contra autocracias imperialistas armadas, levantando o espectro de alterações democráticas e sócio-económicas.

As potências imperiais, EUA e UE, inicialmente apanhadas desprevenidas, acabaram por desencadear um contra-ataque, intervindo na Líbia, apoiando a junta militar no Egipto e tentando impor 'novos' regimes colaboracionistas para bloquear uma transição democrática [8] . A luta de massas, influenciada pelas forças islâmicas e seculares, tem um claro programa de rejeição da actual situação política, mas, na falta de uma liderança de classe, não tem sido capaz de apresentar uma estrutura política e económica alternativa para além de vagas noções de 'democracia' [9] .

Em resumo, o crescimento, acompanhado de um rápido aumento no rendimento nacional e de uma inflação crescente, tem sido muito mais mobilizador para a luta de classes ofensiva a partir de baixo do que as 'crises' ou a 'estagnação' que, quando muito, são acompanhadas por lutas 'defensivas' ou de retaguarda. Em parte, a teoria da 'privação relativa' parece adequada à ideia duma crescente luta de classes, mas esse tipo de luta é principalmente 'economicista' e visa menos o estado propriamente dito. Além disso, os métodos de luta são normalmente greves por salários mais altos. Isto é sobretudo evidente na Argentina, no Brasil, no Chile e no Peru, onde ocorreram intensas lutas por exigências economicistas diminutas. A excepção são as lutas da comunidade índia no Peru e no Equador contra as companhias mineiras estatais e estrangeiras que exploram e poluem as suas terras, o ar e a água.

No entanto, há várias advertências a fazer. A classe trabalhadora na Bolívia, que goza de um dinâmico e forte crescimento nas exportações agro-minerais, lançou uma greve geral de dez dias (6 a 16 de Abril de 2011) pelos salários [10] . A prolongada greve no tempo acabou por levantar dúvidas 'políticas' sobre a legitimidade do regime de Morales nalguns sectores. Isto deve-se, em parte, ao facto de que os aumentos de salários são fixados pelo governo. Segundo a principal organização de trabalhadores (COB), os aumentos ditados pelo regime ficaram abaixo do aumento dos preços do cesto alimentar básico das famílias. Daí que, o que começou como uma luta económica, acabou por se politizar. Da mesma forma, no caso do Peru, com uma dinâmica economia de exportação de minério, o regime neoliberal de Garcia enfrentou agudos confrontos económicos e ecológicos com os mineiros e as comunidades índias. Na campanha eleitoral presidencial de 2011, a luta tornou-se fortemente política, com uma pluralidade de eleitores trabalhadores e camponeses a apoiar Humala, o candidato centro-esquerda [11] . Em países de alto crescimento, que dependem de grandes companhias mineiras de propriedade estrangeira e possuem substanciais comunidades índias, o conflito de classe alia-se a exigências ecológicas, de classe, nacionais e etnocomunitárias.

Por outras palavras, a distinção traçada acima entre lutas de classe ofensivas/defensivas e económicas/políticas é fluida, está sujeita a alterações, consoante muda a luta e o seu contexto.

A terrível agudização da luta de classe numa China em forte crescimento reflecte a crescente falta de trabalho nas regiões costeiras, os enormes lucros duma nova classe de multimilionários, a intensa exploração da mão-de-obra e a entrada de uma 'nova geração' de jovens trabalhadores com opções alternativas de trabalhar numa 'fábrica única' [12] . A 'socialização' de grandes concentrações de trabalhadores em grandes fábricas, em proximidade estreita, facilita a acção colectiva. Profundas desigualdades, especialmente à luz do rápido crescimento dos capitalistas super ricos, ligados a funcionários políticos corruptos e a sindicatos irresponsáveis controlados pelo estado, levaram a uma 'espontânea' acção directa de classe [13] . O impacto radicalizador da inflação é evidenciado pelo surto duma greve de grande nível de camionistas em Baoshan, o maior porto da China, em Xangai: os trabalhadores protestaram contra o aumento dos custos do combustível e das taxas portuárias. Segundo uma notícia, "Funcionários chineses alertaram para que a brusca alta de preços e a crescente inflação da corrupção oficial constitui a maior ameaça ao governo do Partido Comunista". ( Financial Times 4/23-24/11 p1)

As lutas sindicais orientadas politicamente apareceram recentemente na Venezuela, onde o governo de Chavez tem sublinhado o 'conteúdo operário' da 'revolução socialista bolivariana'. Isto encorajou os trabalhadores a entrar em greve nas empresas privadas para exigir a expropriação de capitalistas intransigentes assim como a alteração na gestão de empresas públicas substituindo tecnocratas burocráticos por trabalhadores [14] .

A luta de classe menos desenvolvida passa-se nos Estados Unidos 'em estagnação'. Uma combinação da baixa densidade sindical (93% dos trabalhadores do sector privado não estão sindicalizados) com uma legislação laboral altamente repressiva e uma liderança sindical milionária auto-perpetuadora, totalmente dependente do Partido Democrático capitalista, inibem o desenvolvimento da consciência de classe, com excepção de algumas 'bolsas locais' de resistência [15] . A rápida erosão dos salários tem sido acompanhada por uma exploração acrescida (menos trabalhadores e uma produção reforçada) e pela redução dos últimos vestígios da rede social (segurança social e planos médicos para a população acima dos 65 anos) [16] .

Podíamos argumentar que o alto rendimento per capita, só por si, não é uma razão bastante para pressupor um enfraquecimento da luta de classe, já que a França e a Itália normalmente têm mais greves gerais do que a Inglaterra apesar de o rendimento per capita ser mais alto. O que é fundamental são os laços institucionais entre os sindicatos e os partidos democráticos laborais/sociais, por um lado, e a livre associação de assembleias de trabalhadores nas fábricas, por outro. Nos EUA e no Reino Unido a estagnação e a reacção estão ligadas à subordinação da força de trabalho aos partidos neoliberais sociais-democratas/democratas, enquanto que em França e na Itália os sindicatos têm laços mais estreitos com as assembleias de fábrica e mantêm um grau mais alto de autonomia de classe [17] .

Por outras palavras, não há uma regra de ferro que ligue formas particulares da luta de classe ao dinamismo ou à estagnação da economia – o que tem que ser incluído é o grau de organização independente de classe capaz de elevar o nível da luta no meio das voláteis alterações económicas e políticas.

Imperialismo, luta inter-capitalista e luta de classe

Apesar das crises económicas de 2007-2009, que abalaram a maioria – mas não todos – dos principais centros capitalistas neo-liberais – a classe capitalista na Europa e na América do Norte ficou mais forte do que nunca. Seguindo as prescrições estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional, os principais bancos privados de crédito e os Bancos Centrais, toda a carga de pagamentos da dívida, de défices fiscais e de desequilíbrios comerciais, da responsabilidade dos regimes neoliberais, foi atirada para cima das classes trabalhadoras e assalariadas. Em toda a 'periferia' da Europa de Leste e do Sul foram aplicadas selectivas medidas de austeridade semelhantes. O resultado foi uma reestruturação radical de pensões, de salários, de relações sociais de produção – todo o conjunto de relações de classe estatais. Em consequência, ocorreu uma verdadeira contra-revolução 'pacífica' sócio-económica 'eleitoral' a partir de cima, que aprofunda a exploração da força do trabalho pelo capital enquanto concentra a receita nos 10% do topo da pirâmide social.

Os países imperialistas dos EUA e da Europa que enfrentam uma competição cada vez mais intensa dos BRICs (em especial da China) e dos países em vias de industrialização da Ásia e os crescentes preços dos bens, viraram-se para a procura de 'competitividade' através duma exploração interna intensificada, duma maior pilhagem do erário público e de guerras imperialistas.

Apesar disso, esta competição inter-capitalista está a ter um efeito inverso, aumentando os rendimentos dos trabalhadores dos BRICs e baixando os padrões de vida nos centros imperialistas instituídos. Isto porque os BRICs investem na economia de produção enquanto que os centros imperialistas esbanjam milhões de milhões nas forças armadas e na actividade especulativa [18] .

É preciso fazer um reparo no que se refere à competição entre os países imperialistas e os BRICs, na medida em que há milhares de fios financeiros, comerciais, tecnológicos e de produção que os ligam uns aos outros. Apesar disso, os conflitos entre formações sociais são reais, tal como o é a natureza das clivagens internas de classes e das suas configurações. O imperialismo, tal como existe hoje, é um fardo para o avanço da classe trabalhadora [19] . Por agora a dinâmica interna das potências económicas emergentes parece dotá-las com a capacidade de financiar o crescimento interno expandindo o comércio ultramarino e as concessões de salários à classe trabalhadora emergente que exige um quinhão do bolo de receitas em crescimento.

Conclusão

Embora à superfície haja um declínio da luta de classe revolucionariamente política, a partir de baixo, há potencial para que as lutas económicas se tornem políticas no caso de a inflação corroer os ganhos e de os líderes políticos poderem fixar 'linhas de orientação' rígidas sobre os aumentos salariais. Em segundo lugar, tal como ilustra a Venezuela, os líderes políticos podem proporcionar as condições que favorecem o avanço da luta de classe do económico para o político.

Actualmente, a luta de classe política mais dinâmica vem de cima – o assalto sistemático a salários, à legislação social, às condições de emprego e de trabalho lançado nos EUA, na Espanha, na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Inglaterra e nos estados bálticos/balcânicos. Nestes países as crises económicas ainda não provocaram a revolta das massas; em vez disso assistimos a acções defensivas, a greves de grande escala até, tentando defender conquistas históricas. Tem sido uma luta desigual em que a classe capitalista manobra as alavancas institucionais, políticas e económicas, apoiada pelo poder internacional dos bancos e estados imperialistas. A classe trabalhadora não tem o que se lhe compare em termos de solidariedade internacional [20] . Os sinais mais promissores na luta de classe global encontram-se na acção directa dinâmica da classe trabalhadora latino-americana e asiática. Aí, conquistas económicas sólidas levaram ao reforço do poder e organização de classe. Além disso, os trabalhadores podem basear-se em tradições revolucionárias para criar as bases para o relançamento de um novo projecto socialista [21] . Poderá isso detonar um novo ciclo de guerra de classe, política e económica, a partir de baixo? O reaparecimento da inflação, da recessão, da repressão e de cortes ainda mais profundos poderá obrigar a força de trabalho a agir independentemente e contra o estado como personificação deste período regressivo.

25/Abril/2011

Notas

[1] Sobre a luta dos trabalhadores na China ver "Os trabalhadores é que mandam" Financial Times (FT) 22/2/11, p. 3 e também FT 16/2/11 "Salários chineses aumentaram 12,6% entre 2000-2009 segundo o ILO"

[2] La Jornada 9/4/11 - A Confederação dos Trabalhadores Bolivianos exigiu um aumento de 15% nos salários. Em 2010, a Bolívia teve o maior número de conflitos em 41 anos El Pais 16/4/11.

[3] "Explosão da Inflação nos mercados emergentes" (Financial Times) 14/4/2011, p. 1 "Beijing obrigada a deixar subir o renminbi para combater a inflação" ( FT 17/4/2001) p. 3.

[4] Sobre o orçamento para o ano fiscal de 2012, de Obama, comparar New York Times 13/4/11 e 14/2/11. O último discurso sobre o orçamento sublinha mais de 4 milhões de milhões de dólares em cortes durante 10 anos, que afectam em grande medida a rede social, uma importante concessão aos extremistas republicanos da ala direita.

[5] Os trabalhadores gregos organizaram mais de seis greves gerais entre 2009 e 2011 (ver o semanário ateniense DROMOS desse período). Os trabalhadores espanhóis organizaram duas greves gerais em 2010. Portugal uma e a Irlanda uma importante manifestação.

[6] Dados compilados a partir dos Relatórios sobre o Emprego da Organização Internacional do Trabalho 2010-11.

[7] Ver All Jazeera Fev–Março 2011. Sobre o papel repressivo da nova junta militar, ver Al Jazeera 7/4/2011.

[8] Reuters 14/2/11. Washington, nos bastidores, a manobrar a instalação de um antigo lealista de Mubarak, Field Marshall Tatawi, para chefe da junta é um exemplo flagrante.

[9] A incapacidade dos movimentos sociais árabes para assumir o poder repete um problema semelhante da década anterior na América Latina. Ver James Petras e Henry Veltmeyer Social Movements and State Power (London: Pluto 2005).

[10] Sobre a greve geral na Bolívia, ver "Central Obrera declaran huelga general" La Jornada (Cidade do Mexico)], 8 e 16 de Abril, 2011.

[11] Sobre a primeira volta das eleições presidenciais no Peru e do vencedor populista centro esquerda Ollanta Humala, ver BBC "Peru facing polarizing election as populists face off", 12/4/2011.

[12] Segundo uma notícia "discute-se a subida dos custos da mão-de-obra (na China). Há oportunidades de emprego por todo o lado, há muito menor necessidade de emigração" Financial Times 18/3/11, p. 22.

[13] Sobre os multimilionários chineses ver Forbes Março 2011. Em consequência de "disputas irreflectidas entre Maio e Agosto (2010) os patrões foram atingidos por greves ou outros problemas. Isso resultou em aumentos de salários, nomeadamente um aumento de 30% na Foxcomm, um fabricante de Taiwan". Financial Times 16/2/11, p. 3.

[14] Correo de Orinoco, Caracas, Venezuela (English edition weekly) 3-9 de Abril, 2010.

[15] A greve geral dos trabalhadores do sector público de Wisconsin em Março de 2011 foi a excepção à regra, a primeira do seu género, induzida pelo governador republicano e pela abolição efectiva da legislação de direitos de negociação colectiva. Com excepção de uma greve de um dia dos estivadores de São Francisco e de alguns protestos esporádicos noutros estados, a confederação americana do trabalho AFL-CIO não organizou uma única manifestação pública nacional, mantendo-se dependente do financiamento de muitos milhões de dólares dos políticos Democratas.

[16] O congressista Republicano Ryan propôs a privatização da segurança social e do programa de saúde sénior (Medicare) e uma redução draconiana das despesas com os cuidados de saúde aos pobres e deficientes. O presidente Obama prosseguiu com a sua versão de cortes sociais regressivos embora numa escala menor mas na mesma direcção. Ver o discurso de Obama ao povo americano no comunicado de imprensa da Casa Branca em 3 Abril, 2011. New York Times 14 Abril, 2011, p. 1.

[17] Discussões com delegados de fábricas e Luciano Vasapolla, secretário do movimento sindical italiano militante "Reto di communisti", Roma, Itália. 1 Maio, 2009.

[18] Sobre o impacto negativo da financiarização do capital e das despesas militares na economia produtiva, ver Michael Chossudovsky e Andrew Gavin Marshall ed The Global Economic Crises (Montreal: Global Research 2010) ESP. Cap. 3, PP. 72-101 e Cap. 9, pp. 181-211.

[19] Para uma exposição clara da relação entre imperialismo e decadência interna, ver James Petras and Morris Morley, Empire or Republic? American Global Power and Domestic Decay (New York: Routledge 1995).

[20] O "Fórum Social Mundial" e outros ditos "fóruns de esquerda" são essencialmente constituídos por discursos que criam oportunidades para as classes palradoras constituídas por académicos e membros das ONG. Na maior parte dos casos as fundações e os patrocinadores proíbem-nos explicitamente de assumir uma posição política, e muito menos organizar apoio material para as lutas de classes existentes. Nenhuma das principais greves gerais da classe trabalhadora na Europa, na América Latina ou na Ásia recebeu jamais apoio material dos eternos assistentes dos fóruns de esquerda. O declínio do internacionalismo operário não foi compensado sob qualquer aspecto pela solidariedade internacional destas forças díspares.

[21] Apesar da diabolização da Revolução Cultural e social na China e na Indochina, muitos gestores, líderes de grupos e até mesmo intelectuais liberais, têm consciência e receiam as consequências de "empurrar a classe trabalhadora longe demais". Na América Latina o legado revolucionário das revoluções do passado e o exemplo de Cuba e da Venezuela ainda servem como uma herança viva das lutas revolucionárias.

O original encontra-se em: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=24487

Tradução de Margarida Ferreira.