sexta-feira, 29 de julho de 2011

Viúva de Augusto Boal quer falar com Dilma sobre acervo que vai aos EUA

Via Correio Braziliense

Sérgio Maggio

Um misto de vergonha e indignação. Foi assim, impotentes, que muitos brasileiros reagiram, nas redes sociais, à notícia de que o acervo do teatrólogo Augusto Boal estava destinado aos Estados Unidos por possível falta de apoio em terras brasileiras. Um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil e do mundo teria parte do material catalogado ao longo da vida nos palcos tutelado à New York University (NYU), instituição onde ele teve parceria afetiva e profissional, lecionando ao longo de quatro décadas. O sentimento de dor estava associado ao fato de que, nas reportagens, a viúva e guardiã da obra, a psicanalista Cecília Boal, teria revelado as negativas do governo brasileiro em recuperar e preservar documentos, vídeos e registros de interesse mundial.

Augusto Boal deu aulas na Universidade de Nova York (Paulo de Araújo/CB/D.A Press)

Augusto Boal deu aulas na Universidade de Nova York

— Nunca disse isso. Não acho de maneira alguma que o governo deva ser responsabilizado por essas situações. Apenas contei para uma pessoa amiga que a Universidade de Nova York tinha entrado em contato comigo e isso se transformou em notícia de jornal, coisa que me surpreendeu. Claro que concordei depois em ser entrevistada. Mas devo esclarecer que eu pessoalmente nunca procurei ninguém, nem ministro nem presidenta. Nem tenho como afirmar que recebi uma recusa. Boal sempre gostou do PT, sempre o apoiou e devo dizer que eu também sinto muita simpatia por esse governo. Talvez não tenha havido falta de apoio, senão de comunicação. Pretendo sim procurar agora, tendo constatado o grande interesse que existe pela obra do meu marido, coisa que muito me alegra, anuncia.

Encontro com Dilma

Diante da repercussão carinhosa e solidária da notícia da ida de parte do acervo para os Estados Unidos, Cecília Boal se enche de entusiasmo para procurar as autoridades máximas que podem inferir nesse assunto — a presidenta Dilma Rouseeff, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e o ministro da Educação, Fernando Haddad. Gostaria de tirar um tempo da agenda apertada de psicanalista para vir a Brasília expor a situação do acervo de Boal, que está guardado em condições adversas num quartinho alugado em Botafogo.

— A minha rotina? Não tenho! Trabalho muitíssimo no meu consultório e me ocupo do acervo em todos os momentos livres que tenho, ajudada pelo meu filho e outras pessoas da nossa família. Cuidei do meu marido durante 43 anos, é muito tempo! Vou continuar cuidando agora, conta Cecília, num apertado intervalo do trabalho.

Cecília está feliz com o carinho dos brasileiros à memória de Boal (Institutoaugustoboal.wordpress.com)

Cecília está feliz com o carinho dos brasileiros à memória de Boal

Cecília quer conversar sobre as possibilidades de parcerias institucionais que podem ser feitas entre a Universidade de Nova York e as instituições brasileiras para que esse acervo alcance a maior visibilidade possível, já que Augusto Boal é celebrado no mundo.

— Não quero ocupar a presidenta com esse assunto do acervo ficar ou não no Brasil. Mas adoraria apontar essas parcerias institucionais. Boal deu aula em todo o mundo, fez isso a vida inteira. Seria muito bom ir a Brasília e propor essa rede de instituições.

Em 22 de outubro, ela pretende vir à cidade para participar do projeto Mitos do Teatro Brasileiro em homenagem a Augusto Boal, no Centro Cultural Banco do Brasil, com as participações de Aderbal Freire-Filho e Amir Haddad. A missão de Cecília Boal neste momento é grandiosa: difundir outros aspectos da obra de Augusto Boal, já que considera o Teatro do Oprimido bastante conhecido e praticado no Brasil e no mundo. Hoje, está presente em mais de 70 países. Assim, a criação do Instituto Augusto Boal visa consagrar outros aspectos da construção artística do homem, eleito embaixador mundial da Unesco e indicado ao Nobel da Paz.

— Alem de cuidar do acervo, queremos resgatar o trabalho do Teatro de Arena, favorecer montagens de peças, algumas inéditas, e também a publicação de textos igualmente inéditos. É do nosso interesse chamar a atenção para as qualidades de Boal como escritor, por exemplo. Ele era fantástico, cheio de humor e criatividade.

Revolucionário dos palcos

Augusto Boal vinha com frequência a Brasília. Não só para expor o método do Teatro do Oprimido como para mostrar ao Congresso Nacional a eficácia da mistura entre ação social e teatro em realidades ditas caóticas, a exemplo do sistema prisional. O trabalho com os presos é uma das revoluções que o CTO (Centro do Teatro do Oprimido) realizava à época em que ele esteve aqui para uma audiência pública no Senado Federal.

O Teatro do Oprimido é a face mundial de Augusto Boal. Não tenha dúvida de que o diretor é mais conhecido mundo afora do que muitos políticos, que decidem o destino da verba pública no país. O método, que emancipa o cidadão por meio do teatro, faz com que as pessoas reflitam sobre suas realidades, apontando soluções sobre os problemas. Evolui e chega ao Teatro Legislativo, quando a experiência cênica proposta vira projeto de lei. Boal fez isso magistralmente quando foi vereador do Rio. A lei de proteção à testemunha nasce dessa experiência.

Até desenvolver o Teatro do Oprimido, método e jogos, Boal ajudou a modernizar o teatro brasileiro. Ele estava ao lado de José Renato Pécora na fundação do histórico Teatro de Arena, que mudou a forma de fazer teatro ao propor interpretações naturalistas para textos nacionais que refletiam a condição social do Brasil. Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri e direção de Zé Renato, encenado em 1957, consolida o caminho do grupo interrompido pela ditadura militar.

Boal se exilou para não ser trucidado pelo regime, que instaurou a censura brutal com o AI-5. No mundo, internacionalizou-se e hoje é um homem de teatro citado em qualquer universidade de artes cênicas que respeite a história da evolução teatral. Morreu em 2009 em consequência de leucemia, deixando um legado imaterial incalculável. O acervo físico estará bem guardado para a eternidade se depender da prontidão e lealdade de Cecília Boal.

Ouça a música Meu caro amigo, de chico Buarque e Francis Hime, feita para Augusto Boal durante o exílio

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