sábado, 30 de julho de 2011

“O FUTEBOL SÓ EVOLUIU DA BOCA DO TÚNEL PARA DENTRO DO CAMPO”

Laerte Braga

A frase é de Flávio Costa, técnico da seleção brasileira na copa de 1950, várias vezes campeão carioca – torcedor do Flamengo – e personagem de uma célebre briga com o jogador Gerson quando quis escalá-lo como ponta esquerda. Gérson saiu do Flamengo e foi para o Botafogo, mesmo sendo torcedor declarado e ostensivo do Fluminense, onde, aliás encerrou sua carreira.

Flávio Costa fez essa declaração após a célebre derrota para a seleção do Uruguai e a perda do título. Às vésperas daquela final desde o prefeito do Rio, o truculento general Ângelo Mendes de Morais, aos dirigentes da antiga CBD – CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE DESPORTOS – hoje CBF (CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL), todos festejaram a conquista antecipada da copa, exigiam a presença dos jogadores nos eventos que muitas vezes se esticavam noite à dentro e no jogo, entre outras coisas, o peso das comemorações – peru não morre de véspera – juntou-se à falta de pernas para reagir ou definir a partida com um segundo gol.

E diga-se de passagem a seleção do Uruguai era de fato uma senhora seleção, mas ainda assim muito inferior à brasileira.

João Havelange trouxe para a CBD algo que não existia no futebol do Brasil. Planejamento. Banqueiro, empresário ligado ao grupo J.P. Morgan quando foi buscar Vicente Feola, em 1958, para técnico do que chamavam scratch brasileiro. A imprensa o crucificou. Feola era administrador do futebol do São Paulo Futebol Clube e poucos perceberam que pela primeira vez estava se formando uma comissão técnica. Um supervisor, Carlos Nascimento, um preparador físico de alta envergadura Paulo Amaral, um coordenador José de Almeida, o médico Hílton Gosling e mais dois ou três, inclusive um dentista, o célebre doutor Mário Trigo que deu um tapinha nas costas do rei da Suécia depois da vitória do Brasil na final.

Havelange ligado ao Fluminense pegou a estrutura do clube e acrescentou Feola e Paulo Amaral. Naquele tempo o tricolor era considerado um modelo de organização, hoje é um modelo de bagunça (sou tricolor, o atual presidente está fazendo das tripas o coração para tentar colocar a casa em ordem).

Campeão em 1958 com uma geração de jogadores notáveis (Newton Santos, Djalma Santos, Pelé, Didi, Garrincha – uma espécie de extraterrestre no futebol – Zito, etc, repetiu a dose em 1962 e o fracasso de 1966 foi conseqüência do tal negócio de sucesso subir à cabeça.

Figura fundamental em todo esse processo, percepção de Havelange, até nos equilibrismos políticos, foi levar Paulo Machado de Carvalho – empresário paulista – para a chefia da seleção.

Dono da antiga Tevê RECORD o empresário era de uma geração que fazia de São Paulo ainda integrante da federação brasileira. Hoje é um país vizinho que fala a mesma língua e tem a governá-lo um triunvirato tucano, FHC, Serra e um pastel chamado Geraldo Alckimin. Um condado da quadrilha FIESP/DASLU.

A eleição de Havelange para a presidência da FIFA foi uma espécie de mingau comido pelas beiradas (pegou os votos africanos, americanos, asiáticos e isolou a Europa). A ditadura militar colocou o Itamaraty como principal cabo eleitoral do brasileiro e a retribuição veio em 1978, quando a copa foi montada para a ditadura argentina triunfar. E curiosamente, Menotti, o técnico argentino, pertencia ao partido comunista daquele país e acabou sendo marginalizado após a conquista.

A vitória argentina em 1978 foi parte de um acordo entre o governo do ditador Médici e os generais argentinos. Havelange fora eleito em 1974.

Isso contribuiu para aumentar a aversão que o general Ernesto Geisel, que sucedeu Médice tinha pelo presidente da FIFA (acumulava a presidência da CBF). Forçou a renúncia de Havelange e colocou na CBF um almirante Heleno Nunes, que inventou um técnico chamado Cláudio Coutinho – capitão do exército –. Entre outras coisas Coutinho inventou o “ponto futuro”, escalou o quarto zagueiro Edinho de lateral esquerdo, barrou Nelinho e Rivelino. Ao final, como o Brasil não perdera proclamou-se “campeão moral”.

É que, no macete de diferenças de gols o goleiro argentino da seleção peruana tomou todos os gols necessários para que a Argentina fosse à final. O nome era Quiroga.

A volta do grupo de Havelange se deu com Ricardo Teixeira. Sucedeu a Otávio Pinto Guimarães, um ex-diretor do Botafogo, ora amigo, ora inimigo de Havelange.

Ricardo Teixeira foi eleito exclusivamente por ser genro e da estrita confiança de Havelange. Anos mais tarde teria sido afastado do cargo – em eleições -. É que se separou da filha de Havelange com a qual era casado, foi viver com uma cidadã norte-americana. A moça morreu num acidente de automóvel e para não perder a boca voltou à filha do sogro.

Conservou o cargo.

De lá para cá ganhou autonomia, a presença de Havelange é simbólica. Não apita mais nada.

Associou-se aos bandidos costumeiros do futebol (o primeiro tricampeonato do Vasco da Gama, único, foi arranjado entre Teixeira e Caixa D”Água, presidente da Federação Fluminense de Futebol e juízes, o que não difere muito de hoje). Eurico Miranda era um dos principais aliados de Teixeira. Num dos jogos o já falecido juiz Margarida deu mais dez ou doze minutos de acréscimo, até o gol do Vasco sair, acho que contra o Olaria.

Como se vê, máfia pra ninguém colocar defeito.

Os técnicos à época de Flávio Costa ficavam assentados nas escadas dos túneis utilizados pelos clubes para entrar em campo, falo da Maracanã, daí a frase do treinador.

Com uma incrível capacidade de colar-se a governantes (oferece entradas grátis, coloca nas delegações da seleção quando esta vai ao exterior, é useiro e vezeiro em fazer isso com desembargadores e juízes que julgam processos nos quais é réu) sobrevive e destrói o futebol no Brasil, agora em parceria exclusiva com a REDE GLOBO.

Torcidas organizadas dos grandes clubes começam a protestar contra os desmandos e a corrupção generalizada no futebol brasileiro sob a batuta de Ricardo Teixeira. Faz até doações para campanhas eleitorais. O que é corriqueiro.

A escorá-lo a GLOBO (corrupta na gênese, gambá cheira gambá) e toda essa corja de senadores, deputados, juízes, desembargadores, Gilmar Mendes etc, ávidos de um dinheirinho extra ou uma ajuda no período eleitoral.

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Tem um acordo com Blatter, atual presidente da FIFA, para sucedê-lo. Mas aí é outra história.

O futebol europeu é hoje o retrato da Europa, um continente em processo de extinção. A crise começa a afetar grandes clubes e os poucos sobreviventes já sabem que terão que diminuir o ímpeto de grandes concentrações (ainda que uma ou outra aconteça), mesmo porque as máfias russas que por lá lavam o seu dinheiro, os xeques árabes, não são tão idiotas assim, sentem o cheiro da falência.

A corrupção no futebol da Europa é semelhante à que acontece no Brasil.

Teixeira vai disputar a presidência da FIFA com um europeu qualquer, de olho, ambos, no tesouro que é o esporte mais visto em todo o mundo.

Neste momento precisa sobreviver na CBF, um problema que não contava.

A sorte dele é que a corrupção generalizada permeia as federações estaduais, vai fundo nos eleitores que compõem o colégio eleitoral da CBF e para derrubá-lo vai ser preciso mais que protestos.

Mas é importante afastá-lo. Se continuar, em breve, o futebol vira um esporte em extinção, só de cartolas corruptos e venais como ele.

Outro dia um desses juízes que “apitam” no campeonato nacional lembrou os ajustes para esse ou aquele ser campeão. Lá pelas tantas ninguém entendeu nada que o “magistrado” havia marcado e um locutor lembrou certinho uma frase, outra, essa de Leônidas da Silva – “apitou o que? Perigo de gol?”

É por aí que anda o futebol brasileiro. Como ano passado o Corinthians se indispusera com Teixeira andou tomando uns pênaltis um tanto esquisitos. Esse ano, até agora, a coisa está acerta direitinho.

Mas... Ah! O mas. Se Mano Menezes não der conta do recado e não vai dar, é tapa buraco, Teixeira quer mesmo é Felipão e aí o Palmeiras ou aceita, ou dança. Muricy segundo o presidente da CBF é “engenheiro de obras prontas, só pega clube montado e cheio de craques”.

Meu amigo Laerte,

Não precisava enfiar o meu Vasco nessa história suja. Lembre-se que o título mais expressivo do seu Fluminense nas décadas de ‘70/’80 foi o de Rei do Tapetão, não perdia uma nos tribunais esportivos. Isso até que foi café pequeno em vista da vergonhosa virada de mesa que tirou o seu Flu da 3ª divisão.

Só pra matar saudade veja o compacto da final Vasco x Flu,  tire o chapéu e reconheça que o Vasco foi muito superior.

Saudações vascaínas,

Gilson

 

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