sexta-feira, 29 de julho de 2011

Governo arranha os agiotas financeiros

Sanguessugado do Miro

Altamiro Borges

Depois de várias medidas que penalizam os trabalhadores – como os quatro aumentos consecutivos das taxas de juros e as duras restrições ao crédito –, o governo Dilma finalmente resolveu intensificar o ataque aos agiotas financeiros, os verdadeiros culpados pelos entraves ao desenvolvimento do país. Não dá nem para chamar de ataque, foi mais um pequeno arranhão, mas ele pode sinalizar uma mudança de comportamento diante das incertezas que atormentam a economia capitalista mundial.

“Vamos tirar a rentabilidade” dos rentistas

Na tarde de ontem, o Ministério da Fazenda anunciou um pacote de medidas para inibir a especulação com o dólar e a artificial valorização do real, que prejudicam a produção brasileira. A iniciativa afeta o chamado mercado de derivativos, um instrumento utilizado pelos agiotas para auferir altos lucros com as vantajosas taxas de juros do país. O impacto imediato da medida foi a contenção da queda do valor da moeda ianque, que subiu ontem 1,3% e atingiu R$ 1,557. Foi a maior alta observada em um ano.

O governo anunciou que cobrará 1% de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) nas negociatas nos mercados de derivativos, que exigirá o registro público de todos os contratos e que poderá impor limites de quantias e prazos às transações. “Vamos tirar a rentabilidade da especulação”, explicou o ministro Guido Mantega. Ele também garantiu que o governo poderá adotar outras medidas contra os ataques especulativos, inclusive com novos aumentos do IOF.

Chiadeira dos agiotas e da mídia

O anúncio incomodou os agiotas financeiros, que criticaram o “intervencionismo” do governo e renderam homenagens ao deus-mercado. “A medida autoriza uma ampla intervenção no mercado”, reclamou Sidnei Nehme, diretor da corretora NGO. A mídia rentista também não gostou, já lamentando a fuga do capital estrangeiro. “Muitos investidores se assustaram com o poder que as medidas dão ao governo para intervir de maneira agressiva nos negócios com derivativos”, concluiu a Folha.

Toda essa gritaria visa evitar que o governo adote medidas ainda mais duras contra a especulação. Nos últimos meses, ações ainda mais tímidas, como as pequenas taxações das aplicações financeiras e de empréstimos de curto prazo, tiveram pouco impacto na economia e não conseguiram evitar a valorização artificial do real em relação ao dólar. Os reflexos negativos se avolumaram, com o encarecimento das exportações e o aumento das importações – prejudicando a produção industrial e o emprego no país.

“Mundo de pernas para o ar”

Com o agravamento da crise capitalista nos EUA e Europa, o Brasil fica ainda mais vulnerável diante da gula dos especuladores. A presidente Dilma Rousseff, antes envolvida na “faxina” em seu governo, parece agora mais atenta aos rumos da economia. Em recente reunião, ela teria manifestado temor diante do risco de calote da dívida nos EUA, afirmando que “o mundo está de pernas para o ar”. Daí a idéia de conter a especulação financeira e mesmo a alta dos juros, como indica a recente ata do Banco Central.

O pacote anunciado por Guido Mantega ontem pode até aliviar a tensão, mas não resolve o problema. Sem outras ações, como a redução da taxa de juros e medidas mais duras de controle do fluxo de entrada e saída de capitais, os especuladores continuarão surfando na libertinagem financeira. Não dá para tratar os rentistas com arranhões. É preciso atacá-los de frente. Do contrário, com um solavanco maior na economia mundial, aí que o Brasil vai ficar mesmo de “pernas para o ar”.

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