sábado, 23 de julho de 2011

A esquerda: entre a competência e a construção do novo

Via Revista Fórum

Denis Oliveira

Adorei a entrevista do Antonio Cândido no jornal Brasil de Fato. Embora discorde de algumas coisas ditas por ele, são discussões assim que elevam a alma da gente, coisa que está totalmente ausente da mídia hegemônica preocupada neste denuncismo seletivo que praticamente poupa as gestões demotucanas embora estas esteja cheias de indícios de irregularidades.

Cândido lembra a passagem do Ideologia Alemã, de Marx e Engels em que este fala das necessidades humanas serem cumulativas e irreversíveis – isto é, a medida que o ser humano vai incorporando novos artefatos produzidos pelo seu trabalho ao seu cotidiano, vai se transformando e também mudando as suas demandas. É nesta roda irreversível de criação de necessidades e sua superação que o capitalismo assenta suas bases de acumulação. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, apontam o grande potencial revolucionário do capitalismo ao incrementar este processo, mas ao mesmo tempo, os entraves causados pelo modo de produção baseado na expropriação da mais valia. Em outras palavras, o capitalismo e sua classe dominante, a burguesia, tem um limite no avanço deste processo, o que torna a ruptura para o socialismo como uma necessidade histórica.

Marx escreveu isto no século XIX, foi um visionário e até hoje um pensador de referência. Efetivamente, o capitalismo transformou sobremaneira o ser humano. As necessidades foram se acumulando a ponto de hoje determinados luxos do passado viraram verdadeiras necessidades, não só por status, mas por questões de trabalho, de exigência de mobilidade, de informação, entre outras coisas. Por isto, desconfio sempre daqueles discursos que tentam classificar necessidades reais e necessidades falsas. O que é uma necessidade falsa? Em um outro texto (clique aqui para ler), comentei sobre a questão do uso do automóvel em São Paulo muitas vezes tratada de forma extremamente generalista e que não dá conta das necessidades específicas de determinadas atividades profissionais que uma parte significativa dos cidadãos vive.

Mas o capitalismo hoje sobrevive, e a sua não superação por um outro tipo de sociedade tem trazido problemas sérios, aliás, situações que cada vez mais tornam-se insolúveis nos marcos do atual sistema. É a tal situação do interregno citado por Gramsci, como uma situação em que as estruturas dominantes não conseguem mais dar conta dos problemas surgidos e, ao mesmo tempo, não se vislumbra ou ainda não está totalmente desenhada uma estrutura nova de poder que possa substituir a anterior. Bauman fala disto no texto “O triplo desafio” publicado na revista Cult em 2010 (clique aqui para ler).

Um dos grandes problemas do mundo capitalista contemporâneo é a sustentabilidade do atual modelo de produção e consumo na desigualdade e na exclusão. A produção incessante de artefatos e as criações de novas necessidades geraram um tipo de consumo que só é sustentável se for realizado por poucos. Vamos ver alguns dados: a-) o lixo produzido pela população da metrópole de Londres necessita de uma área quatro vezes maior que a própria área ocupada pela cidade; b-) se todos os habitantes do planeta Terra tivessem o mesmo padrão de consumo do cidadão médio estadunidense seriam necessários cinco planetas Terra para dar conta. Tudo isto só se mantém porque uma parcela muito ínfima consome a esmagadora maioria dos artefatos. Gera-se, assim, um mundo do lixo onde estão a grande maioria da população e um mundo de produção deste lixo.

Por esta razão, um projeto utópico de superação do capitalismo não se restringe apenas a que todos tenham o mesmo padrão de vida das classes dominantes, mas que haja uma equidade de padrões de vida. Isto passa, necessariamente, em uma rediscussão dos padrões de vida da sociedade. Por exemplo, a utopia possível é que todos tenham automóveis e andem de automóvel, praticamente inviabilizando o trânsito e gerando mais poluição ou que se rediscutam os padrões de mobilidade para todos e também como a economia deve ser organizar para se adequar a isto? Será que para buscar um novo posicionamento geopolítico, os países da América Latina devem buscar um modelo de desenvolvimento idêntico aos seguidos pelos países centrais do capitalismo? Ou ainda, na busca de um desenvolvimentismo a todo custo, sequer pensar em alternativas propostas por grupos sociais locais que tem tradições e história fora dos processos civilizatórios do capitalismo?

Marx fala dos importantes repertórios de conhecimento construídos na aventura da modernidade. Efetivamente, as descobertas tecnológicas impactaram profundamente – e até positivamente – a vida da maioria das pessoas. Na busca de equidade, é preciso que todo este conhecimento seja aplicado para o bem estar de todos e não apenas de alguns. Principalmente em um país em que sequer serviços de saneamento básico estão universalizados. Ou ainda que o acesso universal ao ensino ainda engatinhe. Mas os conhecimentos ancestrais de determinados grupos sociais também tem contribuições importantes, como as relações com a terra para além da dimensão funcional-produtiva, os conhecimentos ancestrais das plantas e suas propriedades medicinais e, mais que isto, a experiência de construir conhecimento compartilhado em espaços diferentes das experiências da civilização ocidental.

A importância dos movimentos emancipatórios – de combate ao racismo, ao machismo e dos direitos dos povos originários – não se colocam apenas dentro de uma perspectiva ética e igualitarismo, mas de reconhecimento destes povos como protagonistas de uma nova sociedade a ser construída no continente latino-americano. Parte da esquerda que chega ao poder por vias eleitorais, muitas vezes, estão mais preocupados em se transformar em bons gerentes de um Estado capitalista do que aproveitar o espaço conquistado para dar passos importantes na construção de uma sociedade diferente. Por esta razão, papel importante cabe aos movimentos sociais e, principalmente, aos seus protagonismos midiáticos – o midiativismo, o midialivrismo, as mídias radicais e alternativas – na expressão destas necessidades. Os espaços – o institucional e a esfera dos movimentos sociais – são diferentes e apresentam possibilidades diferentes, mas não podem ser visto como antagônicos por uma esquerda que realmente quer construir uma sociedade diferente. Não perder o foco, o objetivo é fundamental para que a doce tentação dos cargos do aparelho de Estado não limite a ação a uma mera competência no gerenciamento dos negócios.

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