quarta-feira, 27 de julho de 2011

Carlos Lessa dignificou o BNDES, mas Luciano Coutinho preferiu colocar o banco a serviço das megagrupos nacionais e multinacionais. É lamentável.

Via Tribuna da Imprensa

Carlos Newton

É triste, mas absolutamente verdadeiro. O economista Carlos Lessa passou apenas dois anos na presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, mas fez uma gestão impecável. Tendo como vice-presidente o engenheiro Darc Costa, funcionário de carreira e profundo conhecedor do banco e da realidade do país, Lessa colocou o BNDES efetivamente a serviço do desenvolvimento nacional.

Na gestão deles, o “S” de Social passou a fazer sentido, as operações financeiras para micros, pequenas e médias empresas se multiplicaram. Expressiva parcela dos recursos passou a ser destinada ao financiamento de obras públicas de alcance social, foi uma verdadeira revolução, que recolocou o BNDES em seu verdadeiro papel, depois de oito anos de desvirtualização, no governo FHC, quando o banco se transformou em mero agente de uma privatização predatória, que deveria ter acontecido apenas em determinados setores pontuais da economia.

Logo após assumir, Lessa ficou estarrecido ao constatar que, em suas megaoperações, o BNDES agia através de agentes financeiros, ou seja, pagava alta comissão aos bancos comerciais nacionais e estrangeiros instalados no país, simplesmente para que “intermediassem” empréstimos à Petrobrás, à Vale, a Volkswagen, à Scania e a dezenas de outras gigantescas corporações nacionais e estrangeiras.

O BNDES recebia 6% ao ano por esses empréstimos, mas repassava 4% ao banco “intermediador”, ficando com apenas 2%. Lessa acabou logo com essa farra do boi. Determinou que só houvesse intermediação quando o financiamento do BNDES fosse inferior a R$ 10 milhões. Ou seja, o banco intermediador aprovava diretamente a operação, ficava com os 4%, mas passava a ser avalista, e o BNDES não corria nenhum risco de inadimplência.

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LESSA NA LISTA NEGRA DOS BANQUEIROS

Foi uma manobra ousada e radical. A Febraban – Federação Brasileira dos Bancos  colocou Lessa imediatamente na lista negra e passou a “plantar” notícias contra ele em toda a grande imprensa. Eram publicadas sucessivas notas anunciando a próxima demissão do presidente do BNDES. Foram mais de 200 notas, mas Lessa continuava no cargo, porque o próprio presidente Lula reconhecia que atuação dele no BNDES estava sendo fundamental para a retomada do desenvolvimento econômico.

Até que Lessa cometeu um erro de estratégia. Deu uma entrevista à Folha de S. Paulo, criticando a política de juros altos adotada pelo Banco Central e pela equipe econômica, e o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, exigiu a cabeça dele ao presidente Lula.

Nos dias de hoje, fica até ridículo imaginar que um corrupto desclassificado como Palocci pudesse ter cacife para demitir um homem íntegro como Lessa, mas foi exatamente o que aconteceu. E o BNDES acabou entregue a Guido Mantega, que era ministro do Planejamento e estava empenhado em usar o banco como trampolim e impulsionar sua carreira.

Assim, para agradar aos banqueiros e pavimentar sua trajetória rumo ao Ministério da Fazenda, que era o verdadeiro objetivo, Mantega restabeleceu os antigos privilégios dos bancos na intermediação dos financiamentos do BNDES. Tudo como dantes. E como diz o Lula, jamais neste país nenhum jornalista econômico escreveu uma mísera linha a respeito. Os banqueiros voltaram a mandar em tudo, e estamos conversados.

De lá para cá, nada mudou. Pelo contrário, tudo piorou.

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ATÉ O IPEA CRITICA A AÇÃO DO BNDES

Na gestão de Luciano Coutinho, o favorecimento do BNDES aos banqueiros e às grandes corporações nacionais e estrangeiras aumentou ainda mais. O mais estranho e lamentável é que Coutinho demonstra um verdadeiro furor uterino no que concerne a comprar participações em grandes sociedades, através do BNDESPAR.

São operações altamente duvidosas, que envolvem desde a polêmica capitalização da Petrobras, passando pela internacionalização de frigoríficos brasileiros, até a compra de ações de empresa do bilionário Eike Batista, um dos homens mais ricos do mundo. Essas jogadas acumulam uma “perda” de R$ 3,04 bilhões em valor de mercado, considerando o montante injetado pelo banco para comprar participação societária nessas companhias a partir de 2007, em comparação ao atual valor das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Essa estratégia de Coutinho não passa despercebida e é contestada dentro do próprio governo, pelo Instituto de Pesquisa Econômica (IPEA). Para bancar a compra de ações da Petrobras, por exemplo, o BNDES, que tem como fonte de recursos o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e o Tesouro, transferiu R$ 15 bilhões para a BNDESPar. “O governo usou riquezas do Brasil para aumentar sua participação numa empresa estatal que tem acionistas privados. É preciso se indagar se essa seria a destinação de recursos que o país precisa” – adverte o economista Mansueto de Almeida, pesquisador do IPEA.

Duas das seis maiores operações realizadas pela BNDESPar nos últimos anos foram orientadas para internacionalizar frigoríficos brasileiros, a Marfrig e o JBS. O banco gastou R$ 715,65 milhões e R$ 1,136 bilhão, respectivamente, na compra de ações das empresas para apoiar investidas das companhias no exterior. Essas operações registram perdas de R$ 201,4 milhões, caso da Marfrig, e de R$ 377,9 milhões, no do JBS.

Há outras perdas, com a atuação do BNDES como “hospital” de empresas, como ocorreu na fusão da Votorantim com a Aracruz, que teve grandes prejuízos com operações cambiais. A compra das ações para apoiar essa fusão, que resultou na criação da Fibria, registra perda acumulada de R$ 160 milhões para o banco.

“O problema é que o BNDESPar tem atuado como banco de investimento. Entra em grandes operações, sem benefícios claros para a sociedade. Estão sendo incentivados setores que já são competitivos, como de exportação de carnes, papel e celulose, energia” – afirma o pesquisador do Ipea.

No setor de energia, por exemplo, o BNDESPar investiu R$ 179,2 milhões na compra de ações da MPX, do bilionário Eike Batista. Essa operação resulta agora numa perda de R$ 71,3 milhões em valor de mercado na carteira do banco. O fato é que a MPX, como outras empresas incentivadas pela compra de participação societária, tem condições de levantar recursos entre investidores privados, no mercado de ações ou de dívida, sem a necessidade de recursos públicos.

Mais recentemente, pegou tão mal a decisão do BNDES de apoiar o Pão de Açúcar, na tentativa frustrada de incorporar o Carrefour, que a própria presidente Dilma Rousseff teve de intervir para afastar o banco desse tipo de negociação, que consumiriam R$ 3,9 bilhões.  

“O BNDES deveria focar sua atuação em empresas que têm dificuldade em conseguir dinheiro no mercado. É claro que todo empresário vai preferir recursos do banco, que são subsidiados. Mas nem todos precisam – avalia Samuel Pessôa, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio.

Era justamente esta a estratégia adotada por Carlos Lessa e Darc Costa, que só usavam o BNDESPAR quando era absolutamente necessário, como ocorreu no caso da operação que evitou a desnacionalizou da Vale, extremamente criticada na época, mas que se revelou de grande interesse nacional. Mas isso foi lá atrás, quando o governo do PT não estava afundado nesse mar de lama que hoje o caracteriza.

Por fim, vale lembrar a declaração da chefe da Casa Civil, defendendo o financiamento de R$ 3,9 bilhões a Abilio Diniz. “Não vai entrar nenhum dinheiro público”. Coitada da ministra, nem sabe de onde vêm os recursos do BNDES.

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