sexta-feira, 30 de abril de 2010

Israel es la sexta potencia nuclear, sin ningún control internacional

Via Web Islam

El Estado Judío tiene entre 100 y 300 ojivas nucleares
El Estado Judío tiene entre 100 y 300 ojivas nucleares

En un escenario de creciente presión para que Israel declare su arsenal nuclear, analistas de defensa de la agencia británica Jane, estiman que el Estado Judío tiene entre 100 y 300 ojivas nucleares, poniéndolos entre los Estados con armas nucleares más avanzadas a la par con Gran Bretaña.

Según Jane, el poder estratégico de Israel se centra en el misil Jericó 2, que tiene un alcance de hasta 4.500 kilómetros, o el Jericó 3, que alcanza hasta 7.800 kilómetros.

También se cree que es capaz de desplegar por el aire, utilizando aviones F-16 de combate, e incluso por mar a través de su flota de submarinos, proporcionando una oportunidad para un segundo ataque, si sus sistemas de tierra son atacados.

"Algunos analistas creen que Israel mantiene probablemente la mayoría, si no la totalidad, de su arsenal nuclear desmontado", según la última conferencia de Jane, y agrega que "en cuestión de días podría contar con las armas en pleno funcionamiento".

La sede en Londres del Instituto Internacional de Estudios Estratégicos (IISS) calcula que Israel tiene "hasta 200" ojivas repartidas entre misiles terrestres de corto alcance Jericó 1 y misiles de mediano alcance Jericó 2.

La Nuclear Threat Initiative, un grupo de defensa de EE.UU. co-creada por Ted Turner, el fundador de CNN, estima que la cifra es de 100 a 200. Países vecinos como Egipto y Turquía exigieron que también Israel sea puesto bajo control del Organismo Internacional de la Energía Atómica (OIEA), por lo que el gobierno de Netanyahu teme que la demanda vuelva a surgir y que el presidente estadounidense, Barack Obama, la respalde de alguna manera.

En una actitud de desafío e impunidad, la primera potencia militar de Medio Oriente, se niega a asistir a la Cumbre Nuclear convocada por EEUU en Washington. De esta manera, el Estado sionista elude revelar su poderoso arsenal nuclear no declarado ni sujeto a ningún control internacional.

En lugar del jefe del Gobierno participará en la cumbre nuclear de Washington el viceprimer ministro y ministro israelí de Servicios de Inteligencia, Dan Meridor, así como el director de la Agencia Israelí para la Energía Atómica, Shaul Horev, y el asesor de Seguridad Nacional de Netanyahu, Uzi Arad.

"En los últimos días hemos tenido información de que hay algunos interesados en aprovechar la cumbre para atacar a Israel y por eso el primer ministro ha decidido no participar", señaló una fuente del gobierno israelí ciada por la prensa judía.

La decisión fue tomada el viernes por Netanyahu tras asesorarse con su equipo, en una reunión a última hora en la que, surgió que varios países árabes y musulmanes también invitados tienen la intención de exigir a Washington la inclusión de Israel en el Tratado de No Proliferación de Armas Nucleares (TNP).

Tomado de  http://www.matrizur.org/index.php?option=com_content&view=article&id=5748

A cristianização de Serra

aécio repulsa

GilsonSampaio

Já escrevi aqui sobre o dedo polegar opositor de Aécio Pirlimpimpim Neves indicar ação de repulsa ao beijo de Serra. Uma semana depois, Aécio Pirlimpimpim Neves deixou a barba crescer. Entendam como quiserem. As montanhas mineiras formaram seu entendimento e ficaram silentes como convém às montanhas. O Caminho Real e as águas de Minas concordam em silêncio.

Quem não resistiu ao silêncio foi o candidato de Aécio a governador. Anastasia liberou geral e antecipou o perdão para os prefeitos que cristianizarem Serra e apoiarem Dima Rousseff.

Aécio Pirlimpimpim Neves tentou consertar, mas pelas palavras que o diário oficial extra-oficial de Minas publicou, foi sem muita convicção.

No nordeste a situação é mais dramática. Com a popularidade de Lula nas alturas, que Sérgio ‘babaca’ Guerra da vida terá coragem de bater na candidata do presidente?

 

Via O Tempo

Anastasia e Aécio não se entendem sobre o Dilmasia

Ex-governador vai se esforçar para convencer prefeitos a votarem no tucano

Rafael Gomes Flávia MArtins Y Miguel

O governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), deu sinal verde aos prefeitos de partidos que compõem sua base para fazer campanha também para a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Porém, à noite, o ex-governador Aécio Neves (PSDB) disse que não existe hipótese de adesão ao voto casado chamado de Dilmasia por qualquer tucano no Estado.

Durante apresentação do cronograma de projetos para a Copa do Mundo de 2014, o pré-candidato tucano disse que não haverá retaliação para os aliados que preterirem o tucano José Serra. "A política em Minas Gerais é feita sempre com base no entendimento, do convencimento com as ideias. É claro então que é difícil falar em retaliação", disse ele, quando questionado sobre o Dilmasia.

Anastasia afirmou ainda que quando a campanha começar oficialmente, em julho, haverá um "esforço" em favor de Serra, mas completou dizendo que "as lideranças políticas, bem como a população, vão ter condição de escolher".

Apesar disso, o governador mineiro reafirmou seu apoio a Serra. "Nosso grupo político, liderado pelo governador Aécio Neves, tem, no governador José Serra, o seu nome como candidato à Presidência da República".

Ontem à noite, em visita a Anastasia na Cidade Administrativa, Aécio fez questão de negar qualquer hipótese do Dilmasia. "Farei o possível para convencê-los (prefeitos que apoiam Dilma) que o melhor para Minas Gerais é a eleição do ex-governador José Serra", disse o pré-candidato ao Senado, argumentando que é importante o encerramento do ciclo de governo do PT.

¿Cómo es el primero de Mayo en Cuba?

Via CubaDebate

Mayo entre la gente

¿Cómo es el primero de Mayo en Cuba? Sencillamente una fiesta.

Y, así a pocas horas de volver a colmar la plaza, les va esta historia conformada con instantáneas de diferentes años atrás. No escribo más. Solo miren estos rostros, estas calles, esta CUBA que, seguramente, no será noticia dentro de 24 horas en los poderosos medios de comunicación que a diario la calumnian.

PD: La historia de lo sucedido este año, se las traigo luego que desfile. Un abrazo a todos.

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

Cuba: desfile del 1ro de mayo. Foto Kaloian

O fio da história na ponta de nossos dedos

Sanguessugado do Tijolaço

 

Deformações ideológicas não se acabam do dia para a noite.
Vivemos, mais de uma década, sob a ditadura do pensamento único, do “politicamente correto”.
A paixão política passou a ser um “defeito”, aliás quase todas as paixões passaram a ser um defeito, um “fanatismo”.
Claro que não se está louvando aqui a irracionalidade, o sectarismo, a imbecilidade.
Mas a história humana é feita de paixão.
Ou será que não foi preciso paixão para os homens que deram a vida nas barricadas da Revolução Francesa, para que aquele país e o mundo pudessem gritar “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”?
Faltou paixão, aqui, aos Henriques Dias, negros, aos Felipes Camarão, índios, para lutarem em Guararapes ao lado do português João Fernandes, fundando o sentimento nacional?
Ou a Tiradentes, para enfrentar o cadafalso? A Getúlio, para a bala no coração?
O neoliberalismo pretendeu reduzir o desejo humano a um “negócio”, material ou sentimental, que deve trazer vantagens. Era a “lei de mercado” transposta para a existência do ser humano. Um verso de uma música dos Titãs, fora do contexto, servia de “hino” desta anulação da paixão: “eu só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder”.
A história das lutas sociais, das lutas que ao longo de milhares de anos, homens e mulheres de todas as partes do globo terrestre fizeram em busca da liberdade, da justiça, da dignidade, não importava muito. Era tempo perdido. Era o passado, e o passado, passou. Era “o fim da história” que o tal Francis Fukuyama, aquele historiador a quem a história já quase esqueceu, proclamava, sob o aplauso dos medíocres.
Virou algo “arcaico”, “jurássico”, anacrônico ter paixão pelo Brasil e pelo povo brasileiro.
Importante era ser certinho, arrumadinho, “preparadinho” e fazer “o dever de casa” direitinho, como os nossos comentaristas políticos e econômicos pregavam nos jornais e na televisão. Nenhuma atenção era dada a que este “dever de casa” vinha de professores de fora, que queriam ensinar-nos a ser como convinha a eles, não a nós mesmos.
Mas a história não acabou.
A realidade, o processo social, retornou, com suas voltas caprichosas e tantas vezes incríveis, o fio desta história.
Lula, o sindicalista que surgiu condenando Vargas, virou o estadista que repetiu seu gesto de banhar de petróleo sua mão e, mais ainda, praticou uma política de composição, tolerância e alianças como a do velho Getúlio, a quem chamavam de “pai dos pobres e mãe dos ricos”. Embora os pobres tenham ganho muito no Governo Lula, a verdade é que os ricos não perderam, não é? Está aí o lucro dos bancos que não nos deixa enganados.
Apesar disso, porém, como a Getúlio, a Jango, a Brizola, os ricos o odeiam. Odeiam não apenas porque ele vem da pobreza. Odeiam porque ele não a abandonou, não lhe virou as costas. As elites brasileiras só admitem a entrada dos pobres nos seus salões se for para servir-lhes obsequiosamente, como mucamas ou garçons.
A história seguiu, e o povo brasileiro viu, com Lula, que podia dirigir seu país. Viu mais: que este país, invadido economicamente, culturalmente e polticamente pelos “monitores” daqueles professores que lhe cobravam, ferozes, “o dever de casa” , não precisava ser como lhe diziam que deveria ser.
Eu vejo com tristeza muitos homens e mulheres das gerações mais velhas tornarem-se tíbios, medrosos, a encherem de vírgulas e concessões o que dizem, para deixar aceitáveis pela ditadura da mídia a verdade que já não sabem dizer de forma aguda e cortante.
Falta-lhes já a pureza e a sinceridade do menino que, na praça cheia, rasgou o véu do temor e da conivência gritando que o rei estava nu.
Com mais tristeza ainda vejo outros, que eram jovens abandeirados de paixões e amor a este povo se converterem em instrumentos de seus algozes, com a pífia desculpa de que os tempos são outros, quase a dizer que aquele mundo de opressão e dominação acabou. Talvez tenha acabado, sim, mas só para eles, não para as imensas massas humanas a que um dia disseram servir.
Não são todos, talvez não sejam sequer muitos, mas foi a eles que o sistema deu luz e notoriedade e fez aos outros temer não serem aceitos, acolhidos, amados, porque teimavam em ser, mesmo que por dentro e silenciosamente, o que eram.
Que lindas as supresas da história, porém.
Dos frangalhos de Brasil que a ditadura e, depois, a mediocriade e o entreguismo dos governos neoliberais nos deixaram, rebrotamos, como nos versos de Neruda sobre a Espanha destruída pela barbárie franquista:
“mas de cada buraco da Espanha, sai Espanha, e de cada criança morta nasce um fuzil com olhos”.
Pois correndo o risco de parecer primário, poderíamos dizer que sai agora um fuzil com teclas. Esta nova “arma”, a internet, foi posta à prova, nestas semanas, em rápidas escaramuças: o clipe serrista da Globo e as manipulações difamatórias dos tucanos. Os tanques pesados da grande mídia continuam rolando, potentíssimos. Mas nós já podemos fustigá-los e fazer recuar.
Nós, os que estamos ainda no começo da caminhada, que temos o coração em chamas pelo Brasil, precisamos muito dos corações que nunca deixaram esta brasa apaixonada se apagar. Precisamos de sua sabedoria e de sua coragem, que certamente é maior que a nossa, pois já passou por batalhas mais longas e mais duras.
Somos soldados deste combate pelo povo brasileiro. Precisamos de comandantes que nos ajudem a lutar e vencer. A paixão e o amor não nos faltam.
Então, quem sabe, juntos, poderemos soprar as brasas que se reduziram pela descrença, pelas decepções, pelas derrotas e, finalmente, em nome de milhões de nossos irmãos que nada têm de rico, senão a esperança, em nome de um país que não quer mais viver na barbárie de uma condição colonial, possamos enfim dar ao Brasil o destino próprio que uma nação e um povo como o nosso merecem.

5ª FEIRA NEGRA: STF AVALIZOU A LEI DO MAIS FORTE

Celso Lungaretti via ComTextoLivre

STF e a Anistia

 

A Folha de S. Paulo mente descaradamente:

O Estado de S. Paulo mente descaradamente:

O Globo, quem diria, foi o jornalão que relatou corretamente o ocorrido:

Pois, exibicionismos retóricos e penduricalhos ideológicos à parte, o que o STF realmente decidiu foi: não cabe ao Judiciário alterar a Lei da Anistia, pois esta tarefa compete ao Congresso Nacional. Só isto. Quem ler com atenção o relatório do ministro Eros Grau constatará que é este o verdadeiro fulcro da questão.

Portanto, se o Congresso Nacional decidir revogar a anistia de 1979 e substitui-la por outra Lei, ou simplesmente alterá-la, poderá fazê-lo quando bem lhe aprouver. E, nesse caso, seria, sim, possível “processar penalmente e punir os agentes de Estado”.

Conforme venho afirmando desde agosto de 2008, o grande erro da esquerda foi ter tirado esta discussão dos trilhos: o que havia a se fazer com a anistia imposta em 1979 pela ditadura de 1964/85 era dar-lhe o mesmo tratamento do restante do entulho autoritário. Deveria ser deletada pela democracia e substituída por outra, a ser gerada em liberdade.

Mas, para tal parto, era fundamental a anuência do Executivo, com seu formidável poder de fogo, e do Legislativo, que é quem dá a formatação.

Havia, entretanto, obstáculos intransponíveis:

  • no Ministério prevalecia a corrente reacionária de Nelson Jobim, cuja função tem sido muito mais a de porta-recados dos comandantes militares do que a de seu superior;

  • o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre preferiu deixar tudo como estava, desautorizando duas vezes a ala então encabeçada por Tarso Genro e Paulo Vannuchi, daí a orientação que a Advocacia Geral da União tem seguido, de endossar a impunidade dos torturadores;

  • não se vislumbrava possibilidade nenhuma de o Congresso sequer aceitar mexer na anistia de 1979 sem um empenho do Governo neste sentido (as bancadas direitistas seriam naturalmente contrárias e a governista estaria, no mínimo, dividida, daí resultando um cenário óbvio de derrota).

O que a esquerda poderia ter feito em 2008?

Agir como esquerda: iniciar essa cruzada nas ruas e nas praças (além da web, claro...), convencendo primeiramente a sociedade, para que esta pressionasse os Poderes, de baixo para cima.

O que a esquerda fez?

Escolheu a opção menos trabalhosa, mas que manteve a luta restrita a uma minoria politizada: desencadeou uma guerrilha jurídica, utilizando o subterfúgio de descaracterizar os genocídios e atrocidades perpetrados pela ditadura militar, ao apresentá-los como se fossem iniciativa espontânea de subalternos e não ordens recebidas dos superiores, começando pelos generais ditadores.

Ou seja, na vã esperança de colocar uns velhos caquéticos na prisão, a esquerda se dispôs a avalizar uma das grandes falácias da ditadura: a de que aquele festival de horrores nos porões nada mais seria do que excessos cometidos por alguns aloprados, ao invés de constituir a própria essência do regime.

Resultado: nossa pior derrota política desde a redemocrdão do Brasil.

Pois a leitura que a indústria cultural está martelando do julgamento no STF, com recursos infinitamente superiores aos nossos para fazer a cabeça da maioria da população, embaralha algozes e vítimas, sem deixar claro quem foi o quê.

Parecerá ao cidadão comum que os dois lados extrapolaram os limites civilizados e a melhor solução é passar-se uma borracha em cima.

É o que sempre alegaram as viúvas da ditadura: não tendo como negar a ocorrência de execuções, torturas, estupros, ocultação de cadáveres e outros crimes bestiais cometidos pelos verdugos e seus sicários, passaram a imputar práticas semelhantes aos resistentes, pinçando um ou outro episódio infeliz e trombeteando-o ad nauseam em sua propaganda goebbeliana.

Ou seja, tentam fazer com que a exceção tenha o mesmo peso da regra, omitindo que em todas as lutas contra a tirania através dos tempos foram cometidos erros, sem que isto descaracterizasse o fundamental em tais confrontos: uns lutam para perpetuar o arbítrio e outros para dar-lhe fim.

De resto, em seu interminável e chatíssimo blablablá, os ministros do Supremo não deram resposta satisfatória a uma questão crucial: leis votadas por Congressos que funcionam precariamente em regimes de exceção têm o mesmo peso das produzidas na vigência plena das liberdades democráticas?

Pois o Congresso que pariu a anistia de 1979 era aquela casa da sogra que os militares fechavam tantas vezes quantas quisessem, cassando seus membros a bel-prazer, dissolvendo e/ou reorganizando partidos na marra e impondo restrições as mais arbitrárias a quem pretendesse se candidatar a uma cadeira.

Ou seja, tratava-se de um Congresso purgado, manietado e intimidado, que funcionava como Poder de fachada, pois o verdadeiro e único Poder estava na caserna.

Pretender que o mostrengo engendrado nessas condições – a anistia que igualou algozes e vítimas – tenha sido um pacto sagrado de conciliação nacional, desculpem-me os doutos ministros, é simplesmente risível.

No fundo, os parlamentares estavam pisando em ovos e a esquerda anuiu sob chantagem, pagando o preço que lhe impuseram para a libertação de presos políticos e o retorno seguro dos exilados.

A anistia que os algozes concederam a si próprios foi uma aberração jurídica, inclusive, porque nenhum deles tinha sido ou estava sendo punido de forma nenhuma. Colocou-se no mesmo plano a anistia das vítimas e o habeas corpus preventivo dos criminosos.

O julgamento da  5ª feira Negra  nada fez para desestimular a eventual repetição de tais farsas.

Se é para avalizar o que a lei do mais forte determinou, para que precisamos de uma corte suprema?

By: Celso Lungaretti

Pão, circo e mídia venal

GilsonSampaio
Mais do que impor o terror ao país, a ditadura militar deixou como legado pior, a alienação política/cultural da população. Pensamento e crítica desapareceram das universidades e das escolas.
O neoliberalismo com seu pensamento único completou o desastre com a adoção pelos sindicatos e entidades estudantis das políticas de resultados.
Sem a participação intensa do povo não há como sair desta armadilha tão ao gosto das oligarquias e das elites que compactuam com a ideologia obscura da direita.
A decisão do stf de perpetuar proteção jurídica a torturadores e assassinos é o quadro de mau gosto que retrata bem a "democracia" e o "estado de direito" que nos é oferecido.
Pão e circo.
Pão, circo e mídia venal.

Opus Dei não quer o juiz Garzón na mídia brasileira

Via Observatório da Imprensa

Por Alberto Dines em 27/4/2010

A Espanha rachou novamente e o protagonista é um de seus heróis. Não se trata do cineasta Pedro Almodóvar, nem do ex-tenor agora barítono Plácido Domingo, do piloto Fernando Alonso ou do tenista Rafael Nadal.

Aos 55 anos, traços de galã, precocemente grisalho, o juiz espanhol Baltasar Garzón é o novo tipo de herói num mundo dominado pela banalidade e pela complacência. Destemido, pertinaz, incorruptível, conseguiu colocar o ditador chileno Augusto Pinochet em prisão domiciliar, obteve altíssimas penas de prisão para dois facínoras da repressão argentina, tentou quebrar as imunidades do premiê Silvio Berlusconi, acusou formalmente o segundo maior banco espanhol, o BBVA, de lavagem de dinheiro, investiu contra os terroristas do ETA, contra o sistema de torturas do governo Bush, derrubou o seu próprio partido, o PSOE, e mais recentemente assumiu as investigações contra a alta direção do PP, Partido Popular, de direita, envolta numa incrível rede de corrupção.

Garzón está sacudindo a Espanha por causa de uma sangrenta conflagração encerrada há 71 anos. No sábado (24/4), em 21 cidades do país e em sete do exterior, entre 60 e 100 mil pessoas saíram à rua para protestar contra renascimento do furor fascista, 31 anos depois da morte do caudilho – parceiro de Hitler e Mussolini – Francisco Franco.

Falanges histéricas

Apesar do seu acervo de façanhas, o magistrado Garzón corre o risco de sentar no banco dos réus e ser destituído de sua função na Audiência Nacional (a mais alta corte criminal espanhola) justamente porque não reconhece os limites impostos pela Lei de Anistia e iniciou as investigações sobre os terríveis crimes praticados pelos fascistas espanhóis durante a Guerra Civil (1936-1939) e os 37 anos seguintes da ditadura de franquista.

Seu acusador, Luciano Varela, juiz de instrução do Tribunal Supremo, quer enquadrá-lo por "abuso de poder" porque não teria competência para iniciar essa investigação. A direita espanhola (que compreende um pool de interesses empresariais, ideológicos e religiosos) quer vingar-se de Garzón porque suas investigações sobre os escândalos do PP desmoralizam não apenas os projetos eleitorais do partido, mas a herança reacionária firmemente encastelada na sociedade espanhola.

Garzón alega que a Lei de Anistia e a Lei de Memória Histórica não impedem investigações de crimes de lesa-humanidade. O Ministério Público (Fiscalia) não endossa as acusações de prevaricação manifestadas pelos juízes franquistas. Mas o Partido Popular investigado por Garzón corre o risco de desaparecer se as investigações de corrupção forem adiante – e suas falanges estão histéricas.

Fantasmas do passado

O caso do Quixote togado ameaçado de punição por um judiciário infiltrado pelo totalitarismo dos anos 1930-40 está apaixonando a Espanha, comove a Europa, mexe com a América do Sul, porém não toca nem anima os álgidos "porteiros" de nossas redações.

Explica-se: mencionar a direita espanhola significa mencionar a Opus Dei. E a prelazia queridinha do papa João Paulo II, firmemente infiltrada na mídia brasileira, sobretudo nos escalões intermediários, abomina holofotes. Prefere operar na sombra.

A mídia européia e americana solidarizou-se com Balta Garzón: para o New York Times, The Guardian, The Economist, o Liberation e Le Monde investigar os desaparecimentos durante a Guerra Civil não é delito, delito é perseguir um juiz que vai às últimas conseqüências em busca da verdade.

O cerco a Garzón dificilmente empolgará nossa mídia e não apenas por causa do embargo da Opus Dei nativa, mas porque o recente imbróglio em torno do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) foi resolvido com um acordo entre as partes: o governo retira do programa os itens que desagradam à mídia e esta não insiste na reabertura das investigações sobre as violências cometidas pelos órgãos de segurança durante o regime militar.

O franquismo estaria hoje esquecido na Espanha se o establishment direitista – ao contrário do que aconteceu na Alemanha – não teimasse em ressuscitar e reabilitar os fantasmas que criou no passado.

Escreva ao seu jornal ou revista, caro leitor. Cobre deles um mínimo de informações sobre a perseguição a Baltasar Garzón. Você tem esse direito. Pergunte por que razão o cidadão brasileiro deve ser narcotizado pelas irrelevâncias e mantido à margem das trepidações que estão mudando o mundo.

O cara mais influente do Brasil



Chico Buarque

Sanguessugado do Viomundo

“Meu caro amigo, as coisas estão melhorando”

By adminPublished: 29/04/2010Posted in: CapaTags:

“Meu caro amigo, as coisas estão melhorando”

Por Daniel Cariello e Thiago Araújo, da revista Brazuca | Foto: Jorge Bispo

“Se tiver bola, eu dou a entrevista”. Essa foi a única exigência do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa caminhada entre o metrô e o campo. Uma bola. E eu acabara de informar que o dono da redonda não viria à pelada de quarta-feira. Éramos dez amantes do futebol, órfãos.

Sem saber se esse era um gol de letra dele para fugir da solicitação de seus parceiros jornalistas, ou uma última esperança, em forma de pressão, de não perder a religiosa partida, eu, que não creio, olhei para o céu e pedi a Deus: uma pelota!

Nada de enigma, oferenda ou golpe de Estado. Ele estava ali, o cálice sagrado da cultura brasileira, que sucumbiu ao ver não uma, mas duas bolas chegarem à quadra pelas mãos de Mauro Cardoso, mais conhecido como Ganso. A partir daí, nada mais alterou o meu ânimo e o da minha dupla de ataque-entrevista, Daniel Cariello. Apesar de termos jogado no time adversário do ilustre entrevistado, tomado duas goleadas consecutivas de 10 x 6 e 10 x 1, tínhamos a certeza de que ele não iria trair dois dos principais craques do Paristheama, e sua palavra seria honrada.

Mas o desafio maior não era convencer o camisa 10 do time bordeaux-mostarda parisiense a ceder duas horas de sua tarde ensolarada de sábado. O que você perguntaria ao artista ícone da resistência à ditadura, parceiro de Tom Jobim, Vinicius de Morais e Caetano Veloso, escritor dos best sellers “Estorvo”, “Benjamin”,“Budapeste” e “Leite Derramado”, autor de “A banda”, “Essa moça tá diferente”, “O que será”, “Construção” e da canção de amor mais triste jamais escrita, “Pedaço de mim”?

Admirado e amado por todas as idades, estudado por universitários, defendido por Chicólatras, oráculo no Facebook, onipresente nas manifestações artísticas brasileiras – sua modéstia diria “isso é um exagero”, mas sabemos que não é –, sua reação imediata ao ser comparado a Deus foi “em primeiro lugar, não acredito em Deus. Em segundo, não acredito em mim. Essa é a única coisa que pode nos ligar. Então, pra começo de conversa, vamos tirar Deus da mesa e seguir em frente”.

Enfim, ainda não creio que entrevistamos Deus, quase sem falar de Deus. Mas foi com ele mesmo que aprendi uma lição, talvez um mandamento: acreditar em coisas inacreditáveis. (Thiago Araújo)


Você assume que não acredita em Deus, mas existem trechos nas suas músicas como “dias iguais, avareza de Deus” ou “eu, que não creio, peço a Deus”. No Brasil, é complicado não acreditar em Deus?

Eu não tenho crença. Eu fui criado na Igreja Católica, fui educado em colégio de padre. Eu simplesmente perdi a fé. Mas não faço disso uma bandeira. Eu sou ateu como o meu tipo sanguíneo é esse.

Hoje há uma volta de certos valores religiosos muito forte, acho que no mundo inteiro. O que é perigoso quando passa para posições integristas e dá lugar ao fanatismo. O Brasil talvez seja o pais mais católico do mundo, mas isso é um pouco de fachada. Conheço muitos católicos que vão à umbanda, fazem despacho. E fica essa coisa de Deus, que entra no vocabulário mais recente, que me incomoda um pouquinho. Essa coisa de “vai com Deus”, “fica com Deus”. Escuta, eu não posso ir com o diabo que me carregue? (Risos). Tem até um samba que fala algo como “é Deus pra lá, Deus pra cá – e canta – Deus já está de saco cheio” (risos).

Você já foi em umbanda, candomblé, algo do tipo?

Já, eu sou muito curioso. A mulher jogou umas pipocas na minha cabeça, sangue, disse que eu estava cheio de encosto. Eu fui porque me falaram “vai lá que vai ser bom”. Passei também por espíritas mais ortodoxos, do tipo que encarnava um médico que me receitou um remédio para o aparelho digestivo. Aí eu fui procurar o remédio e ele não existia mais. O remédio era do tempo do médico que ele encarnava (risos).

Já tive também um bruxo de confiança, que fez coisas incríveis. Aquela música do Caetano dizia isso muito bem, “quem é ateu, e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar.” Eu vi cirurgias com gilete suja, sem a menor assepsia, e a pessoa saía curada. Estava com o joelho ferrado e saía andando. Eu fui anestesista dessa cirurgia. A anestesia era a música. O próprio Tom Jobim tocava durante as cirurgias. Eu toquei para uma dançarina que estava com problema no joelho. Ela tinha uma estreia, mas o ortopedista disse “você rompeu o menisco”. Ela estreou na semana seguinte, e na primeira fila estavam o ortopedista e o bruxo (risos).

Uma vez, estava com um problema e fui ao médico. Ele me tocou e não viu nada. Aí eu disse “olha, meu bruxo, meu feiticeiro, quando ele apertava aqui, doía”. Ele começou a dizer “mas essa coisa de feitiçaria…” e atrás dele tinha um crucifixo com o Cristo. Daí eu perguntei “como você duvida da feitiçaria, mas acredita na ressurreição de Cristo?”. Eu acho isso uma incongruência. Gosto de acreditar um pouco nisso, um pouco naquilo, porque eu vejo coisas inacreditáveis. Eu não acredito em Deus, acredito que há coisas inacreditáveis.

De vez em quando você dá uma escapada do Brasil e vem a Paris. Isso te permite respirar?

Muito mais. Eu aqui não tenho preocupação nenhuma, tomo uma distância do Brasil que me faz bem. Fico menos envolvido com coisas pequenas que acabam tomando todo o meu tempo. Aqui, eu leio o Le Monde todos os dias, e fico sabendo de questões como o Cáucaso, os enclaves da antiga União Soviética, que no Brasil passam muito batidos. O Brasil, nesse sentido, é muito provinciano, eu acho que o noticiário é cada vez mais local.

Meu pai, que era um crítico literário e jornalista, foi morar em Berlim no começo dos anos trinta. Foi lá, onde teve uma visão de historiador, de fora do país, que ele começou a escrever Raízes do Brasil, que se tornou um clássico. A possibilidade de ter esse trânsito, de ir e voltar, eu acho boa. É como você mudar de óculos, um para ver de longe e outro para ver de perto.


Nesse seu vai e vem Brasil-França, o que você traria do Brasil para a França, e vice-versa?

Eu traria pra cá um pouquinho da bagunça, da desordem. Os nossos defeitos, que acabam sendo também nossas qualidades. O tratamento informal, que gera tanta sujeira, ao mesmo tempo é uma coisa bonita de se ver. Você tem uma camaradagem com um sujeito que você não conhece. Aqui existe uma distância, uma impessoalidade que me incomoda.

Para o Brasil, eu gostaria de levar também um pouco dessa impessoalidade. Da seriedade, principalmente para as pessoas que tratam da coisa pública. Não que não exista corrupção na França.

Outra coisa que eu levaria pra lá é o sentimento de solidariedade, que existe entre os brasileiros que moram fora. Isso eu conheci no tempo que eu morava fora, e vejo muito aqui através das pessoas com as quais convivo. Eles se juntam. Como se dizia, “o brasileiro só se junta na prisão”. Os brasileiros também se juntam no exílio, na diáspora.

Falando em exílio, tem uma história curiosa de Essa moça tá diferente, a sua música mais conhecida na França.

É. A coisa de trabalho (N.R.: na Itália, onde Chico estava em exílio político, em 1968) estava só piorando e o que me salvou foi uma gravadora, a Polygram, pois minha antiga se desinteressou. A Polygram me contratou e me deu um adiantamento. E consegui ficar na Itália um pouco melhor. Mas eu tinha que gravar o disco lá. Eu gravei tudo num gravador pequenininho. Um produtor pegou essas músicas e levou para o Brasil, onde o César Camargo Mariano escreveu os arranjos. Esses arranjos chegaram de volta na Itália e eu botei minha voz em cima, sem que falasse com o César Camargo. Falar por telefone era muito complicado e caro. Então foi feito assim o disco. É um disco complicado esse.


Você acabou de citar o

Le Monde. Para nós, que trabalhamos com comunicação, sempre existiu uma crítica pesada contra os veículos de massa no Brasil. Você acha que existe um plano cruel para imbecilizar o brasileiro?

Não, não acredito em nenhuma teoria conspiratória e nem sou paranoico. Agora, aí é a questão do ovo e da galinha. Você não sabe exatamente. Os meios de comunicação vão dizer que a culpa é da população, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo está instalada no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser tão poderosa, isso sim eu acho nocivo. Não se trata de monopólio, não estou querendo que fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.


Você acha que a mídia ataca o Lula injustamente?

Nem sempre é injusto, não há uma caça às bruxas. Mas há uma má vontade com o governo Lula que não existia no governo anterior.

E o que você acha da entrevista recente do Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo desautorizado pela própria mãe?

Nossas mães são muito mais lulistas que nós mesmos. Mas não sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim, pois conheço o Lula mesmo antes de existir o PT, na época do movimento metalúrgico, das primeiras greves. Naquela época, nós tínhamos uma participação política muito mais firme e necessária do que hoje. Eu confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença.

O que você tem escutado?

Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado de tanta música que eu acho que não entra mais nada. Na verdade, quando estou doente eu ouço. Inclusive ouvi o disco do Terça Feira Trio, do Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido formação assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor.

A música francesa te influenciou de alguma maneira?

Eu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir muita música, as rádios tocavam de tudo. Muita música brasileira, americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha mãe tinha loucura por Edith Piaf e não sei dizer se Piaf me influenciou. Mas ouvi muito, como ouvi Aznavour.

O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um compacto duplo com Ne me quitte pas,La valse à mille temps, quatro canções. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa nova, que me conquistou para a música e me fez tocar violão. As letras dele ficaram marcadas para mim.

Eu encontrei o Jacques Brel depois, no Brasil. Estava gravando Carolina e ele apareceu no estúdio, junto com meu editor. Eu fiquei meio besta, não acreditei que era ele. Aí eu fui falar pra ele essa história, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse “é, faz muito tempo”. Isso deve ter sido 1955 ou 56, esse disquinho dele. Eu o encontrei em 67. Depois, muito mais tarde, eu assisti a L’homme de la mancha, e um dia ele estava no café em frente ao teatro. Eu o vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem graça, pois não o queria chatear. Ele estava ali sozinho, não queria aborrecer. Mas ele foi uma figuraça. Eu gostava muito das canções dele. Conhecia todas.

Falando de encontros geniais, você tem uma foto com o Bob Marley. Como foi essa história?

Foi futebol. Ele foi ao Brasil quando uma gravadora chamada Ariola se estabeleceu lá e contratou uma porção de artistas brasileiros, inclusive eu, e deram uma festa de fundação. O Bob Marley foi lá. Não me lembro se houve show, não me lembro de nada. Só lembro desse futebol. Eu já tinha um campinho e disseram “vamos fazer algo lá para a gravadora”. Bater uma bola, fazer um churrasco, o Bob Marley queria jogar. E jogamos, armamos um time de brasileiros e ele com os músicos. Corriam à beça.


Vocês fumaram um baseado juntos?

Não. Dessa vez eu não fumei.


E essa sua migração para escritor, isso é encarado como um momento da sua vida, já era um objetivo?

Isso não é atual. De vinte anos pra cá eu escrevi quatro romances e não deixei de fazer música. Tenho conseguido alternar os dois fazeres, sem que um interfira no outro.

Eu comecei a tentar escrever o meu primeiro livro porque vinha de um ano de seca. Eu não fazia música, tive a impressão que não iria mais fazer, então vamos tentar outra coisa. E foi bom, de alguma forma me alimentou. Eu terminei o livro e fiquei com vontade de voltar à musica. Fiquei com tesão, e o disco seguinte era todo uma declaração de amor à música. Começava com Paratodos, que é uma homenagem à minha genealogia musical. E tinha aquele samba (cantarola) “pensou, que eu não vinha mais, pensou”. Eu voltei pra música, era uma alegria. Agora que terminei de escrever um livro já faz um ano, minha vontade é de escrever música. Demora, é complicado. Porque você não sai de um e vai direto para outro. Você meio que esquece, tem um tempo de aprendizado e um tempo de desaprendizado, para a música não ficar contaminada pela literatura. Então eu reaprendo a tocar violão, praticamente. Eu fiquei um tempão sem tocar, mas isso é bom. Quando vem, vem fresco. É uma continuação do que estava fazendo antes. Isso é bom para as duas coisas. Para a literatura e para a música.

Tanto em Estorvo quanto em Leite derramado o leitor tem uma certa dificuldade em separar o real do imaginário. Você, como seus personagens, derrapa entre essas duas realidades?

Eu? O tempo todo, agora mesmo eu não sei se você esta aí ou se eu estou te imaginando (gargalhadas).

Completamente. Eu fico vivendo aquele personagem o tempo todo. Entrando no pensamento dele. Adquiro coisas dele. Você pode discordar, mas chega uma hora que tem que criar uma empatia ou uma simpatia. Você cria uma identificação. E alguma coisa no gene é roubado mesmo de mim, algumas situações, um certo desconforto, não saber bem se você é real, se você está vivendo ou sonhando aquilo. Por exemplo, agora que ganhamos de 10 a 1 (referência à pelada que jogamos três dias antes), eu saí da quadra e falei: “acho que eu sonhei. Não é possível que tenha acontecido” (risos).

Você é fanático por futebol?

Não sou fanático por nada. Mas eu tenho muito prazer em jogar futebol. Em assistir ao bom futebol, independentemente de ser o meu time. Quando é o meu time jogando bem, é melhor ainda, pois eu consigo torcer. Agora mesmo, no Brasil, tinha os jogos do Santos.

Mas eu vou menos aos estádios. Eu não me incomodo de andar na rua, mas quando você vai a alguns lugares, tem que estar com o cabelo penteado, tem que estar preparado para dar entrevistas. Aqui, eu estou dando a minha última (risos). Aqui, é exclusiva. Fiz pra Brazuca e mais ninguém. Eu quero ver o pessoal jogar bola. Então eu vejo na televisão. E quando não estou escrevendo, aí eu vejo bastante.


É verdade que um dia o Pelé ligou na sua casa, lamentando os escândalos políticos no Brasil, e disse “é, Chico, como diz aquela música sua: ‘se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão’”?

É verdade (risos). Eu falei “legal, Pelé, mas essa música não é minha”. O Pelé é uma grande figura. Nós gravamos um programa juntos. Brincamos muito. Conheci o Pelé quando eu fazia televisão em São Paulo, na TV Record, e me mudei para o Rio. Os artistas eram hospedados no Hotel Danúbio, em São Paulo. O mesmo onde o Santos se concentrava. Então, eu conheci o Pelé no hotel. E sempre que a gente se encontra é igual, porque eu só quero falar de futebol e ele só quer saber de música. Ele adora fazer música, adora cantar, adora compor. Por ele, o Pelé seria compositor.

E você, trocaria o seu passado de compositor por um de jogador?

Trocaria, mas por um bom jogador, que pudesse participar da Copa do Mundo. Um pacote completo. Um jogador mais ou menos, aí não.

Você ainda pretende pendurar as chuteiras aos 78 anos, como afirmou?

Não. Já prorroguei. Tava muito cedo. Agora, eu deixei em aberto. Podendo, vou até os 95 (risos).

O Niemeyer está com 102 anos e continua trabalhando. Aliás, não só trabalhando como ainda continua com uma grande fama de tarado (risos).

Ele me falou isso. Eu fui à festa dele de 90 anos e ele me disse: “o importante é trabalhar e ó (fez sinal com a mão, referente a transar)”. Aí eu falei “é mesmo?” e ele respondeu “é mesmo”.

Falando nisso, o Vinícius foi casado nove vezes. Você acha a paixão essencial para a criação?

Sem dúvida. Quando a gente começa – isso é um caso pessoal, não dá pra generalizar – faz música um pouco para arranjar mulher. E hoje em dia você inventa amor para fazer música. Se não tiver uma paixão, você inventa uma, para a partir daí ficar eufórico, ou sofrer. Aí o Vinícius disse muito bem, né? “É melhor ser alegre que ser triste… mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”.

Quando eu falo que você inventa amores, você também sofre por eles. “E a moça da farmácia? Ela foi embora! Elle est partie en vacances, monsieur!”. E você não vai vê-la nunca mais. Dá uma solidão. Eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. Você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí você cria uma história e você sofre. E fica feliz e escreve músicas.

Pra finalizar. Se você fosse escrever uma carta para o seu caro amigo hoje, o que você diria?

Volta, que as coisas estão melhorando!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Arthur Virgílio acusa Serra de relapso, inepto e corrupto

GilsonSampaio

As acusações foram publicadas no jornal O Tempo, diário oficial extra-oficial de Aécio Pirlimpimpim Neves, de Belzonte.

Minha ameba lobotomizada, não me perguntem por quê meios, disse-me que os minérios de Minas avisaram que Zé Aluvião será cristianizado nas terras das Geraes.

Desta vez, num colóquio civilizado, pude acrescentar que o Nordeste deve seguir o mesmo caminho, onde Lula ostenta índices de aprovação perto de 100,01% da população. Como, por exemplo, o Sérgio ‘babaca’ Guerra vai fazer campanha, pra deputado federal segundo o Ancelmo Goes, defendendo Zé Aluvião. Este raciocínio pode ser estendido a toda a tucanalhada nordestina. Pro nordeste não vai ser difícil cristianizar Zé Aluvião, não é lá que tem todo ano o espetáculo global “A Paixão de Cristo”, é só aproveitar a performance de Judas. Talvez uma pequena semântica, no lugar de cristianizar, jadascizar.

E pra fechar com laço de ouro esse assunto de traição, temos agora o tucano pit-bull dizendo cobras e lagartos de Zé Aluvião num jornal mineiro!

Ou o que serve para Cabral não serve pra Serra?

Mais fácil e “vantajoso” é dizer “sim”

O dever de dizer "não"

As tragédias se repetem: várzeas se alagam, encostas de morro deslizam, barracos são inundados ou soterrados pela lama, em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e outros lugares, contando-se os mortos por dezenas; no Rio, desta vez, passando de 250.

Acabam pondo a culpa nos fenômenos naturais. É a fórmula mais fácil de políticos relapsos, governantes ineptos e agentes públicos corruptos se escafederem dos problemas previsíveis que deveriam ter enfrentado.

Na verdade, isso é fruto de outra mazela muito presente na política brasileira: o populismo. Essas mortes, deploráveis, resultam da troca de barracos e outros favores por votos. No Rio, liberaram encostas de morros por votos, deram autorização para construção até sobre antigo e desativado lixão, pondo em risco a saúde pública, sem falar nas vidas que acabaram sendo levadas. Na ânsia eleitoreira, instalaram até equipamentos públicos, como escolas e iluminação, num local onde não poderia ter sido erguido um barraco sequer.

O populismo é mal enraizado nas práticas brasileiras. Poucos políticos ousam impedir construções em locais impróprios ou perigosos porque isso pode significar impopularidade, antipatia, perda de densidade eleitoral. Mais fácil e "vantajoso" é dizer "sim".

O "não" também precisa integrar o vocabulário da política. Um bom governante tem, por vezes, de agir com mão de ferro, ainda que isso represente prejuízos eleitorais - que podem até ser afastados se o governante tiver capacidade de liderança e souber explicar as razões das suas atitudes.

Não admiro esse gênero de governante Xuxa da política, que pretende obter 250% de aprovação popular. Prefiro o que é capaz de dizer que não pode construir na encosta nem na área do lixão.

Digo isso com a autoridade de quem já enfrentou esse tipo de problema. Quando fui prefeito de Manaus, precisei tomar medidas duras, mas o fiz, convencido de que agia em benefício da população e da cidade. Enfrentei, por exemplo, a ameaça do cólera. A Organização Mundial da Saúde alertava que 10 mil manauaras poderiam morrer. Disse para mim mesmo que não morreria nenhum. Retirei feiras de alguns lugares, ganhei a antipatia de uma porção de feirantes, mas, com medidas de saneamento básico, afastei a ameaça. Desmentimos, graças a Deus, a OMS.

Quando houve drástica queda na arrecadação da prefeitura, em decorrência da passagem da hiperinflação do governo Sarney para a recessão do governo Collor, comerciantes punham camelôs nas ruas para vender sem notas. Não hesitei em tirá-los do centro da cidade. Quando tive de optar entre o desastroso e o desagradável, fiquei com o desagradável para evitar o desastroso. Se fosse governar pensando na próxima eleição, não teria dado a Manaus o meu coração.

Faltou alma às pessoas que fizeram tanta maldade com o Rio de Janeiro. Faltou-lhes caráter para dizer "não".

Arthur Virgílio no O Tempo

Washington: “Estado palestino” significa “galinha morta”

Via Rede Castor Filho

De: Caia Fittipaldi (tradutora)

Data: 29 de abril de 2010 16:06

Oriente Médio: a paz que poderia ser (mas não será)

No fala-fala de Washington, “Estado palestino” significa “galinha morta”

27/4/2010, Noam Chomsky, Tom Dispatch

[excerto de Hopes and Prospects, a ser lançado na primeira semana de maio, pela editora Haymarket Books].

Há quem estranhe que o conflito Israel-Palestina siga sem solução. Mas, para muitos conflitos mundiais, é difícil até imaginar algum acordo viável. Nesse caso, o acordo é não só possível, como, mais que isso, todo o planeta sabe o que fazer, pelo menos nos contornos gerais básicos: um acordo que institua dois Estado e a fixação das fronteiras internacionalmente reconhecidas de antes de junho de 1967 – com “modificações menores e mutuamente acordadas”, para repetir a terminologia oficial dos EUA antes que Washington se separasse da comunidade internacional, em meados dos anos 70s.

Os princípios básicos já foram aceitos por virtualmente o mundo inteiro, inclusive os Estados árabes (os quais continuam a clamar por plena normalização de relações), a Organização dos Estados Islâmicos (inclusive o Irã) e vários atores não-estatais relevantes (inclusive o Hamás). Acordo que seguia essas linhas foi proposto pela primeira vez em reunião do Conselho de Segurança da ONU em janeiro de 1976, pelos principais Estados árabes. Israel nem compareceu à reunião. Os EUA vetaram a resolução e outra vez a vetaram em 1980. Desde então, a mesma cena tem-se repetido também na Assembleia Geral.

Houve uma quebra importante e reveladora no rejeicionismo de EUA e Israel. Depois dos fracassados acordos de Camp David em 2000, o presidente Clinton reconhece que os termos que ele e Israel haviam proposto eram inaceitáveis para qualquer palestino. Em dezembro daquele ano, Clinton apresentou seus “parâmetros”: imprecisos, mas mais promissores. E em seguida declarou que os dois lados haviam aceito aqueles parâmetros, com reservas.

Os negociadores israelenses e palestinos encontraram-se em Taba, Egito, em janeiro de 2001, para resolver as diferenças; e estavam fazendo consideráveis progressos. Na conferência de imprensa final, disseram que, com um pouco mais de tempo, provavelmente alcançariam um pleno acordo. Mas Israel interrompeu prematuramente as negociações, e o progresso oficial obtido até ali, embora tenham continuado as discussões informais de alto nível que levaram ao Acordo de Genebra, foi rejeitado por Israel e ignorado pelos EUA.

Desde então, negociou-se muito, e algum acordo que considere aquelas linhas continua possível –, desde que, é claro, Washington volte a aceitar a ideia. Infelizmente, não se vê qualquer sinal disso, por mínimo que seja.

Criou-se considerável mitologia em torno de todo o caso, mas os fatos básicos são bem claros e estão fartamente documentados.

EUA e Israel têm trabalhado alternativamente para estender e aprofundar a ocupação. Em 2005, reconhecendo que não valia a pena subsidiar alguns poucos milhares de colonos israelenses em Gaza, os quais se estavam apropriando de quantidade substancial de recursos, e sob proteção, em boa medida, do exército israelense, o governo de Ariel Sharon decidiu transferi-los para região muito mais valiosa, a Cisjordânia e as colinas de Golan.

Em vez de levar adiante a operação, como teria sido bem fácil, o governo decidiu montar uma cena de “trauma nacional”, que virtualmente reproduziu a farsa que acompanhara a retirada do deserto do Sinai, depois dos acordos de Camp David de 1978-79. Nos dois casos, a retirada gerou clamores de “Nunca mais”, que, na prática, significava: não podemos ceder uma polegada dos territórios palestinos que queremos tomar em violação flagrante da lei internacional. A farsa foi representada com muita competência no Ocidente, por mais que tenha sido ridicularizada por comentaristas israelenses astutos, entre os quais o proeminente sociólogo, já falecido, Baruch Kimmerling.

Depois da retirada formal da Faixa de Gaza, Israel de fato nunca mais cedeu um milímetro no total controle sobre o território, muitas vezes descrito, com realismo, como “a maior prisão do mundo”. Em janeiro de 2006, poucos meses depois da retirada, houve eleições na Palestina, reconhecidas eleições livres e limpas por observadores internacionais. Mas os palestinos votaram “errado” e elegeram o Hamás. Instantaneamente, EUA e Israel intensificaram os ataques contra Gazan – como punição pelos “erros” eleitorais. Nem fatos nem causas foram ocultados; ao contrário, tudo foi largamente divulgado, sempre acompanhado de comentários reverenciais sobre o sincero apego de Washington à democracia. Os ataques, apoiados pelos EUA, de Israel, contra Gaza, intensificaram-se cada vez mais desde então, provocado pela violência disseminada e pelo estrangulamento econômico, cada vez mais selvagens.

Simultaneamente, na Cisjordânia, e sempre com decidido apoio dos EUA, Israel continuou a implantar programas de longo prazo, jamais suspensos, para roubar terra e outros recursos valiosos dos palestinos e confiná-los em cantões inviáveis, praticamente longe dos olhos do mundo. Comentaristas israelenses falam abertamente dessas metas como “projetos neocoloniais”. Ariel Sharon, principal arquiteto do programa de colônias exclusivas para judeus em terras palestinas, chamou aqueles cantões de “bantustões”, embora o termo não caiba. A África do Sul carecia da força de trabalho da maioria negra; Israel dar-se-ia por muito satisfeita se os palestinos sumissem da face da Terra; todas as políticas israelenses, pois, visam a esse objetivo.

Bloquear Gaza por terra e mar

Passo importante rumo à cantonização e para minar sempre mais as esperanças de sobrevivência nacional para a Palestina é a separação de Gaza, da Cisjordânia. Essas esperanças já estão quase completamente esquecidas, atrocidade que não poderíamos ter aceito sem protestar. A jornalista israelense Amira Hass, das principais especialistas em Gaza, escreve que:

As restrições ao direito de ir e vir dos palestinos, impostas por Israel em janeiro de 1991, reverteu um processo iniciado em junho de 1967. Naquele momento, e pela primeira vez desde 1948, muitos palestinos estavam voltando a viver em território uno – território ocupado, é verdade, mas, pelo menos, território sem divisões (...). A total separação entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia é dos movimentos mais bem sucedidos da agressão israelense, cujo principal objetivo é evitar qualquer solução baseada em decisões e acordos internacionais e, em vez disso, ditar soluções baseadas na superioridade militar de Israel (...).

Desde janeiro de 1991, Israel tem exclusivamente, burocraticamente e logisticamente aperfeiçoado a divisão e a separação: não só entre palestinos nos territórios ocupados e seus irmãos que vivem em Israel, mas também entre os palestinos que vivem em Jerusalém e os que vivem nos demais territórios, e entre gazenses, cisjordanienses e jerusalemitas. Os judeus vivem em território contínuo, sob sistema exclusivo de direitos, leis, serviços, infraestrutura física e de liberdade de movimento. [1]

Sara Roy, importante professora de Harvard e especialista em Gaza, acrescenta:

Gaza é exemplo de sociedade que foi deliberadamente reduzida a estado de miséria abjeta, homens e mulheres sempre produtivos foram transformados em miseráveis dependentes de caridade. (...) A ocupação israelense – hoje já praticamente esquecida e sempre negada pela comunidade internacional – devastou a economia e o povo de Gaza, sobretudo depois de 2006. (...) Rebanhos, residências e toda a infraestrutura de serviços públicos foram ou danificados ou destruídos em escala tal que até o exército de Israel reconheceu que foi excessiva e inadmissível.

Em Gaza hoje já não há setor privado propriamente dito e nenhuma indústria. 80% das colheitas agrícolas foram destruídas e Israel continua a perseguir palestinos que insistem em semear nos campos próximos à fronteira murada e super vigiada. Extinguiu-se praticamente toda a atividade produtiva.

Hoje, 96% dos 1,4 milhões de habitantes de Gaza são dependentes de ajuda humanitária para atender necessidades básicas. Segundo o World Food Programme, a Faixa de Gaza requer um mínimo de 400 caminhões de alimento por dia, apenas para atender as necessidades nutricionais básicas da população. Mas, apesar da decisão de 22 de março, do Gabinete israelense, de levantar todas as proibições à entrada de alimentos em Gaza, apenas 653 caminhões de alimentos e outros itens foram admitidos na semana de 10 de maio [2], equivalente a menos de 23% do necessário. Atualmente, Israel só permite a entrada em Gaza de 30-40 itens comerciais, dos 4.000 produtos aprovados antes de junho de 2006. [3]

Jamais será excessivo repetir que Israel não tinha qualquer motivo ou pretexto verossímil para o ataque de 2008-9 contra Gaza, com pleno apoio dos EUA e usando – ilegalmente – armas norte-americanas. Praticamente todo o planeta diz o contrário, e repete que Israel estaria agindo em legítima defesa. Absolutamente falso, dado que Israel claramente rejeitou todos os meios pacíficos sempre acessíveis – o que Israel e seu cúmplice no crime, os EUA, sabem perfeitamente. À parte isso, o sítio de Israel contra Gaza é, ele só, ato de guerra – o que Israel e todos os países sabem e reconhecem –. Mas esse tem sido o pretexto de que se serve Israel para inúmeros ataques, porque Gaza impediria o acesso ao mundo externo, o que todos sabemos perfeitamente que é falso e nem de longe corresponderia, em termos de violência, ao sítio de Gaza.

Um dos elementos do sítio criminoso que Israel impõe a Gaza, de que pouco se fala, é o bloqueio naval.

Peter Beaumont relata, de Gaza, que “no litoral, as limitações impostas a Gaza são marcadas por outro tipo de muro, formado de barcos armados israelenses, que impedem o trabalho de todos os pesqueiros palestinos e evitam que alcancem mar alto, além da área delimitada pelos barcos de guerra de Israel”. Segundo testemunhos, o sítio naval vem sendo reforçado desde 2000. Os pesqueiros são expulsos de águas territoriais israelenses, quase sempre sem qualquer aviso e violentamente, sempre causando feridos e não raras vezes, mortos. Resultado dessas ações no mar, a indústria palestina da pesca entrou em colapso total; não há como pescar junto à costa, por causa da contaminação das águas, outro resultado dos ataques israelenses, que destruiu as instalações de esgoto e tratamento de água.

Campos de gás natural 1

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(se a imagem não abrir, clique em:

http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=11680 )

Campos de gás natural 2

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(se a imagem não abrir, clique em

http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=11680 )

Esses ataques navais israelenses começaram depois da descoberta, pelo grupo BG (British Gas Group), do que parecem ser campos de gás natural em águas territoriais de Gaza. Jornais da indústria informaram que Israel já se apropriou desses recursos para uso próprio, importantes no esforço para converter a economia, do petróleo, para o gás natural. Fontes da indústria do gás natural noticiaram:

O ministro das Finanças de Israel autorizou o Israel Electric Corp (IEC) a comprar maiores quantidades de gás natural do BG do que originalmente acordado. Fontes israelenses disseram que seriam negociados cerca de 1,5 bilhão de metros cúbicos de gás natural do campo marítimo localizado na costa mediterrânea controlada da Faixa de Gaza.

Ano passado, o governo de Israel aprovara a compra de 800 milhões de metros cúbicos de gás do campo pela IEC ... Recentemente, o governo israelense alterou sua política e decidiu que a estatal poderia comprar todo o gás extraído do campo marítimo de Gaza. Anteriormente, o governo dissera que a estatal IEC só seria autorizada a comprar metade do total extraído, ficando o restante reservado para ser negociado com produtores do setor privado. [4]

A pilhagem do que poderia ser a principal fonte de rendimentos para Gaza é, com certeza, bem conhecida das autoridades dos EUA. Deve-se supor que a intenção de apropriar-se desses recursos limitados, só por Israel ou por alguma associação entre Israel e a Autoridade Palestina colaboracionista, é a causa do bloqueio aos barcos pesqueiros palestinos, absolutamente impedidos de navegar em águas territoriais da Faixa de Gaza.

Há alguns precedentes instrutivos. Em 1989, o ministro das Relações Exteriores da Austrália Gareth Evans assinou tratado com seu contraparte da Indonésia Ali Alatas, que assegurava à Austrália direitos sobre substanciais reservas de petróleo na “província indonésia do Timor Leste”. O chamado Indonesia-Australia Timor Gap Treaty, que não garantia nem um vintém ao povo cujo petróleo o tratado assaltava “é o único tratado considerado legal em todo o mundo que efetivamente reconhece o direito da Indonésia sobre o Timor Leste” – nos termos em que noticiou a imprensa australiana.

Interrogado sobre se estava disposto a reconhecer a conquista indonésia e o assalto aos recursos do território conquistado, o qual havia sofrido ataque genocida pelo invasor indonésio, com decidido apoio da Austrália (além do apoio, também, de EUA, UK e outros), Evans explicou que “não há obrigação legal de não reconhecer a aquisição de território conquistado pela força”. E acrescentou que “o mundo não lugar muito injusto, cheio de exemplos de aquisição pela força.”

Nenhum problema, portanto, para Israel fazer o mesmo, em Gaza.

Alguns anos antes disso, Evans convertera-se em figura de proa na campanha para introduzir o conceito de “responsabilidade de proteger” – conhecido pela sigla R2P – na legislação internacional. O R2P visa a estabelecer a obrigação internacional de proteger populações contra crimes graves. Evans é autor do principal livro sobre o tema e é co-diretor da Comissão Internacional de Intervenção e Soberania do Estado, que editou o que se considera o documento base do R2P.

Em artigo devotado a esse “esforço idealista para estabelecer novo princípio humanitário”, o jornal London Economist retratou Evans e seu “firme mas apaixonado clamor em nome de uma expressão de três palavras que (em boa parte graças ao seu trabalho), está incorporada à linguagem da diplomacia: a ‘responsabilidade de proteger’.”

A matéria é ilustrada com imagem de Evans e a seguinte legenda: “Evans: paixão de uma vida a serviço da proteção”. Evans tem as mãos na cabeça, em desespero ante as dificuldades para alcançar seu desejo idealista. O jornal optou por não publicar outra foto, que circulava na Austrália, na qual se viam Evans e Alatas apertando mãos e em exuberante alegria, brindando a assinatura do Tratado do Timor.

Embora seja “população protegida” pela legislação internacional, os habitantes de Gaza não recebem os benefícios da “responsabilidade de proteger” – como inúmeros outros desgraçados cidadãos em todo o mundo, nos termos precisos do que Tucídides ensinou, com o acerto costumeiro: “[Questões de justiça, como sabe o povo, só se acertam entre iguais em poder;] os fortes fazem o que podem fazer; os fracos sofrem o que têm de sofrer”. [5]

Obama e as colônias exclusivas para judeus

Há todo tipo de restrições ao movimento dos cidadãos, medidas usadas para destruir Gaza e implantadas também na Cisjordânia, com menos crueldade, mas com efeitos igualmente destrutivos para a vida e a economia. Relatório do Banco Mundial fala de “um complexo regime de fechamento, que restringe o acesso dos palestinos a vastas áreas da Cisjordânia, [como causa de] a economia ter permanecido estagnada, além da rápida deterioração de Gaza, e de Israel manter continuadas restrições ao comércio palestino e a qualquer movimento na Cisjordânia.”

O Banco Mundial fala de “bloqueios e pontos de controle nas estradas, que impedem o livre comércio e as viagens, além do total impedimento de palestinos construírem na Cisjordânia, onde o governo de Mahmoud Abbas, apoiado pelo ocidente, garante a obediência às regras.” Israel permite – de fato, encoraja – a existência de uma elite em Ramallah e em alguns outros pontos, sempre confiando no financiamento por fontes europeias, traço e prática tradicionais de épocas coloniais e neocoloniais.

Tudo isso constitui o que o ativista israelense Jeff Halper chama de “matriz de controle” para manter subjugada a população colonizada. Esses programas sistemáticos continuados por mais de 40 anos visam a implantar as recomendações do ministro da Defesa Moshe Dayan, pouco depois das conquistas israelenses de 1967, sobre o que dizer aos palestinos nos territórios: “Não temos solução. Vocês terão de continuar a viver como cachorros. Quem não gostar pode sair. Vamos ver no que dá esse processo.”

Considerada outra parte da disputa – as colônias exclusivas para judeus –, há algum confronto entre Israel e EUA, mas bem menos dramático do que é pintado. A posição de Washington foi exposta claramente pela secretária de Estado Hillary Clinton, em frase muito citada na qual exclui “as exceções do crescimento natural” da política de oposição a novas construções. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o presidente Shimon Peres e, de fato, todo o espectro político israelense insistem na liberação do “crescimento natural” das colônias, invadindo áreas que Israel planeja anexar, reclamando que os EUA estariam desrespeitando a autorização dada por George W Bush para as expansões, nos termos de sua “visão” de um Estado palestino.

Alguns altos membros do gabinete de Netanyahu foram mais longe. O ministro dos Transportes Yisrael Katz anunciou que “o atual governo de Israel não aceitará de modo algum o congelamento dos ‘assentamentos’ legais na Judeia e em Samaria”. O termo “legal”, no discurso EUA-Israel significa “ilegal, mas autorizado pelo governo de Israel e acobertado pelo governo dos EUA”. Nesse sentido, instalações avançadas, de abertura para a implantação de novas colônias “legais” só na fala dos poderosos, jamais são legais e são tão ilegais quanto as colônias protegidas por Israel segundo a “visão” de Bush e a atentíssima omissão de Obama.

A formulação dita “firme” de Obama-Clinton nada tem de novidade. Repete, palavra a palavra, o que se lia na primeira formulação do “Mapa do Caminho” de Bush de 2003, que estipulava, na Fase I, que “Israel congelará toda a atividade de construção de ‘assentamentos’ novos (inclusive o crescimento natural de ‘assentamentos existentes).” Todos os lados aceitam formalmente o Mapa do Caminho (modificado para excluir a expressão “crescimento natural”) – e todos, unanimemente, fingem que não veem que Israel, apoiado pelos EUA, incluiu, de uma penada, 14 “ressalvas”, que tornam o documento absolutamente imprestável e inviável.

Se Obama fizesse oposição real e séria à expansão das colônias, poderia introduzir medidas concretas. Por exemplo, poderia diminuir a ajuda financeira dos EUA, no item correspondente a construções nas colônias. Ninguém o acusaria de radicalismo, nem o movimento seria dito “corajoso”. Bush fez isso no primeiro mandato. Depois do acordo de Oslo de 1993, contudo, o presidente Clinton entregou a tarefa de fazer os cálculos ao governo de Israel. Sem surpresa para ninguém, “o fluxo dos empréstimos para as colônias manteve-se inalterado”, como noticiou a imprensa israelense. “[O primeiro-ministro] Rabin não precisará reduzir as construções nos assentamentos”. E a matéria conclui “Quanto aos norte-americanos? Eles compreenderão.”

Altos funcionários do governo Obama disseram à imprensa que as medidas de Bush “não estão sendo discutidas”, e que a pressão será “sobretudo simbólica”. Em resumo, Obama compreende, exatamente como Clinton e Bush compreenderam.

Norte-americanos visionários

Na melhor das hipóteses, a expansão das colônias exclusivas para judeus é questão secundária, como os “postos avançados ilegais” – os postos que são construídos para demarcar áreas para a construção de novas colônias, quando não autorizados pelo governo de Israel. Concentrar-se nessas questões desvia a atenção do fato de que não existem “postos avançados legais” e que o problema central a ser considerado são as colônias já existentes e implantadas.

A imprensa nos EUA noticia que “está acontecendo congelamento parcial [de novas construções] já há vários anos, mas os colonos têm conseguido burlar a proibição (...) A construção nos ‘assentamentos’ diminuiu mas jamais parou completamente, mantendo-se um ritmo anual de cerca de 1.500-2.000 novas unidades ao longo dos últimos três anos. Se a construção se mantiver ao ritmo de 2008, a meta de construir as 46.500 novas casas já aprovadas será alcançada em 20 anos (...). Se Israel construir todas as unidades de moradia exclusivas para judeus já aprovadas no plano nacional de novas unidades habitacionais nos ‘assentamentos’, o número de casas exclusivas para judeus quase dobrará na Cisjordânia”.[6]

Peace Now, que monitora a atividade nas colônias, vai além e estima que as duas maiores colônias tenham dobrado de tamanho: Ariel e Ma’aleh Adumim, a maior parte das quais foram construídas nos anos de Oslo, nos cantões nos quais a Cisjordânia estava sendo dividida.

“Crescimento populacional natural” é, em grande extensão, mito – como argumenta o principal jornalista correspondente diplomático em Israel, Akiva Eldar, citando estudos demográficos do coronel (da reserva) Shaul Arieli, assessor militar do ex-primeiro-ministro e atual ministro da Defesa Ehud Barak. O crescimento das colônias acontece, principalmente, como efeito de grande número de imigrantes israelenses, que violam a Convenção de Genebra, premiados com generosos subsídios. Em muitos casos, há clara violação de decisões governamentais, mas que acontecem com a autorização do governo – especificamente de Barak, considerado “pomba” [em oposição aos “falcões”] no espectro político israelense.

O correspondente Jackson Diehl zomba da “fantasia palestina há muito tempo adormecida”, revivida pelo presidente Abbas, de que “os EUA simplesmente forçarão Israel a fazer concessões cruciais, com ou sem a concordância do governo israelense democrático”. Não explica por que a recusa a participar na expansão ilegal de Israel – a qual, se fosse séria, poderia, sim, “forçar Israel a fazer concessões cruciais” – implicaria algum tipo de interferência indevida na democracia israelense.

De volta à realidade, todas essas discussões sobre ‘os assentamentos’ encobrem a questão crucial sobre os próprios ‘assentamentos’: o que os EUA e Israel já estabeleceram na Cisjordânia. Esse encobrimento implica tacitamente que os programas ilegais de colonização já implantados seriam de algum modo aceitáveis (esquecendo as colinas de Golan, anexadas em violação a resoluções do Conselho de Segurança) – dado que a “visão” de Bush, aparentemente aceita por Obama, está transformada, de apoio tácito a apoio explícito a essas violações do que determina a lei. O que já está implantado basta para assegurar que a Palestina não tenha nenhuma autodeterminação. Assim sendo, há claros sinais de que, ainda que o “crescimento natural” seja contido, o rejeicionismo EUA-Israel continuará, como antes, a bloquear o efeito democratizatório do consenso internacional.

Depois disso, Netanyahu declarou suspensas por 10 meses as novas construções, com inúmeras exceções, e excluída a área da Grande Jerusalém, onde continuam a passo acelerados as expropriações em áreas árabes e as construções de moradias exclusivas para judeus. Hillary Clinton elogiou essas concessões “sem precedentes” relacionadas às construções (ilegais), o que fez aumentar tanto o ridículo das “concessões” e do elogio quanto a ira, em boa parte do mundo.

Tudo poderia ser diferente se se estivesse considerando uma legítima “troca de terras”, solução que chegou a surgir em Taba e foi mais claramente exposta no Acordo de Genebra. O acordo foi apresentado em Genebra em outubro de 2003; foi bem recebido pelo mundo, rejeitado por Israel e ignorado pelos EUA.

A “mediação equilibrada” de Washington

O Discurso do Cairo, dia 4/6/2009, quando Obama dirigiu-se ao mundo muçulmano, não fugiu ao azeitado estilo “lousa” – com quase nada de substância humana, mas apresentado em fala personalizada e em fórmulas que permitem que o ouvinte anote, da lousa, o que deseja ouvir. A CNN capturou esse espírito, como se viu pela chamada “Obama quer tocar a alma do mundo muçulmano”. Obama anunciou os objetivos do discurso em entrevista a Thomas Friedman, do New York Times. “Temos uma piada na Casa Branca”, disse o presidente. “Vamos continuar a dizer a verdade, até que deixe de funcionar. Em nenhum outro lugar é mais importante insistir em dizer a verdade, que no Oriente Médio”. O empenho da Casa Branca é muito bem-vindo, mas será útil prestar atenção para ver como traduz-se na prática.

Obama criticou seu público: “é fácil apontar o dedo (...) mas se vemos esse conflito só de um ou de outro lado, encobrimos a verdade: a única resolução depende de atenderem-se as aspirações dos dois lados mediante dois Estados, nos quais israelenses e palestinos possam viver em paz e segurança.”[7].

Mudando-nos da Verdade Obama-Friedman para a verdade, há um terceiro lado, que tem tido papel decisivo: os EUA. Mas Obama omitiu um dos agentes do conflito. Entende-se que a omissão seja normal e apropriada, apesar de escondida: a coluna de Friedman ganhou a seguinte manchete: “Discurso de Obama visa a árabes e israelenses”. Na primeira página do Wall Street Journal em matéria que comentava o discurso, lia-se, em manchete: “Obama admoesta israelenses e árabes, no discurso aos muçulmanos”. Outros jornais acompanharam.

Pode-se explicar as reações convencionais, porque se regem pelo princípio doutrinal segundo o qual, embora os EUA errem vez ou outra, suas intenções são por definição benignas, pode-se dizer, nobres. No mundo do imaginário de atração, Washington sempre busca desesperadamente ser mediador honesto, na luta por mais paz e mais justiça. A doutrina alardeia a verdade como trunfo seu, mesmo que não haja nem um fiapo de verdade nem no discurso nem na cobertura do discurso pela mídia dominante.

Mais uma vez, Obama fez-se caixa de eco da “visão” de Bush, de dois Estados, sem jamais dizer o que significaria a expressão “Estado palestino”. Podem-se entender as intenções desse discurso se se consideram as omissões cruciais já comentadas; mas também pela única crítica explícita a Israel: “Os EUA não aceitam a legitimidade dos continuados assentamentos israelenses. Essa construção viola acordos anteriores e mina os esforços para alcançar a paz. É hora de esses assentamentos pararem.” Quer dizer: Israel tem de satisfazer o acordado na Fase I do Mapa do Caminho de 2003, que Israel já rejeitou com o apoio tácito dos EUA, como já vimos. – Obama descartou até alguns passos do primeiro governo Bush, para encenar sua ‘não-participação’ nos mesmos crimes.

As palavras operativas são “legitimidade” e “continuados”. Pela omissão, Obama indica que aceita a visão de Bush: as vastas colônias e os projetos de infraestrutura já existentes são “legítimos”; por isso, exatamente, a expressão “Estado palestino” significa, nesse contexto, “galinha morta”.

Sempre imparcial, Obama ofereceu reprimenda também aos Estados árabes: caberia a eles “reconhecer que a Iniciativa de Paz Árabe foi começo importante, mas não é o fim de suas responsabilidades.” Tampouco, contudo, pode-se dizer que aí haja algum “começo” significativo, se Obama continua a rejeitar os princípios: é necessário implementar o consenso internacional. Fazê-lo, evidentemente, não é “responsabilidade” dos EUA na visão de Obama. E fim. Ninguém percebeu, ninguém pediu explicações, ninguém explicou.

Sobre democracia, Obama disse que “não presumimos que se possa contestar o resultado de eleições pacíficas” – como em janeiro de 2006, por exemplo, quando Washington contestou o resultado e vingou-se, convertendo o resultado em castigo aos palestinos, porque Washington não gostou do resultado de eleições pacíficas, e sempre com a aparente aprovação de Obama, se se consideram suas palavras prévias e ações posteriores à posse na presidência.

Polidamente, Obama nada disse sobre seu anfitrião, o presidente Hosni Mubarak, ditador dos mais brutais da Região; teve até palavras iluminadoras sobre ele. Ao embarcar no avião que o levaria à Arábia Saudita e ao Egito, os dois Estados árabes “moderados”, “o presidente Obama disse que, apesar de registrar a preocupação dos EUA com os direitos humanos no Egito, não confrontaria diretamente o presidente Mubarak, porque seria ‘uma força a favor da estabilidade e do bem’ no Oriente Médio. (...) O presidente Obama disse não considerar o presidente Mubarak líder autoritário. ‘Não. Tendo a não rotular as pessoas’, disse o presidente. Registrou que sabia de críticas ‘ao modo como a política opera no Egito’, mas disse também que [Mubarak] sempre fora aliado confiável, em muitos aspectos, dos EUA’.”

Sempre que um político usa a palavra folks [ing. coloquial; equivalente a “amigos”, “pessoal”, “vocês aí”], todos temos de nos preparar, porque lá vêm falsidades, ou pior. Fora desse contexto, há “vocês aí”, quase sempre “os vilões”; e é altamente meritório rotulá-los sempre, bem rotulados. Mas Obama acerta ao não empregar o adjetivo “autoritário”: seria rótulo muito suave para seu amigo.

Como no passado, apoiar a democracia e os direitos humanos é conservar-se afinado com o padrão que a academia vária vezes descobriu, intimamente correlacionado aos objetivos estratégicos e econômicos. Não será difícil compreender por que os que não tenham os olhos firmemente fechados por doutrinas rígidas consideram piada de mau gosto a pregação de Obama a favor de direitos humanos e democracia.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: http://www.tomdispatch.com/post/175239/tomgram%3A_noam_chomsky%2C_eyeless_in_gaza___/

A eleição de Lula e a piripaque do Farol

 

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GilsonSampaio

Em Higienópolis e arredores caiu um sepulcral silêncio, só quebrado por lancinantes urros de indignação eivados de inveja: “Assim não dá. Assim não pode” – berrava o proprietário do luxuoso apartamento para depois mergulhar num profundo estado de prostração. Amigos e amigas, da imprensa ou não, acudiam atabalhoadamente o príncipe num afã frenético para servi-lo de substâncias diversas, tais como, opiáceos e diazepínicos, houve até quem lembrasse da velha maconha, no que foi repreendido severamente pelos presentes pelo de vocabulário chulo, popular, o correto, no caso, seria cannabis sativa.

Para evitar um gesto tresloucado do “ex”, os amigos e amigas, da imprensa ou não, mandaram os serviçais esconderem todos os possíveis objetos perfuro-cortantes dos banheiros e que não se esquecessem de esvaziar os cristais com remédios tarja preta no vaso sanitário e dar descarga. Decidiram também que os grupos que formariam plantões de solidariedade, a palavra vigilância foi proibida atendendo aos clamores da mídia esclarecida, não poderiam exceder em 45 o número de solidários.

Cansados e cansadas, com suas finésimas e carésimas vestimentas contrabandeadas by DASLU, amigos e amigas do “ex”, da imprensa ou não, por fim, talvez devido ao esgotamento intelectual gasto na contenção de seu líder, foram acometidos de um extraordinário despertar espiritual coletivo e foram iluminados pela mesma mensagem divinal e designaram um petit comité que buscassem o cacique da Fundação Cacique Cobra Coral para desobnubilar a aura outrora radiosa do “ex”.

Nota: Os amigos e amigas da imprensa garantiram que a origem do achaque do ego do “ex” só veiculariam hoje, portanto, seria recomendável a contínua exibição dos discursos de Bill Clinton ou as cerimônias de outorga de diplomas Doutor Honoris Causa para o “ex”.

Entrevista com João Pedro Stédile

Via AgênciaBrasil

MST propõe aliança com a cidade por uma agricultura sustentável

Vinicius Konchinski

Repórter da Agência Brasil

São Paulo - Há cerca de 30 anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começou a se organizar nacionalmente com um propósito: promover a reforma agrária no Brasil. Os anos passaram, o movimento se consolidou, milhares de militantes foram assentados, e o foco de atenção do MST se ampliou.
Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, João Pedro Stédile, um dos líderes nacionais do movimento, afirmou que é hora de os sem-terra lutarem por uma agricultura mais fraterna e sustentável. Segundo ele, os militantes devem agora buscar diferentes alianças, principalmente com a população da cidade, para alcançar dois novos objetivos: a redução do uso de agrotóxicos nas lavouras e o fim do domínio de empresas multinacionais sobre a agricultura nacional.
“O MST percebeu que não basta você ser contra o latifúndio e a favor da distribuição de terra. Você tem que lutar também pela mudança do modelo agrícola.”
Stédile disse que, atualmente, três ou quatro empresas de atuação global dominam o mercado nacional de sementes, insumos e fertilizantes. “Isso subordinou a agricultura brasileira. Elas controlam o mercado mundial, controlam os preço e impõem o que querem à nossa agricultura.”
Ele disse também que poucas companhias incentivam os produtores rurais brasileiros a ser os que mais consomem agrotóxicos no mundo. São 720 milhões de litros por ano. “É impossível que isso tenha futuro. Os venenos destroem a fertilidade do solo, contaminam a água, ou então ficam nos alimentos que vão para o nosso estômago.”
Acompanhe abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Stédile à Agência Brasil:


Agência Brasil: O MST espera conseguir o apoio de outros setores da sociedade com essa nova política de atuação contra os agrotóxicos e multinacionais?
João Pedro Stédile: Nós temos certeza de que a imensa maioria da sociedade brasileira também defende este programa. Já, agora, em movimentos pontuais, nós atuamos com o Greenpeace, com o movimento ambientalista e com os setores de defesa do consumidor. O próprio Idec [Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor] tem nos apoiado na questão dos agrotóxicos.


ABr: Essa nova política pode ajudar a mudar a imagem negativa do MST com alguns segmentos?
Stédile: A ampla maioria da sociedade brasileira nos apoia. Se o MST não tivesse apoio já teria sido destruído. Agora, queremos dar um passo a mais. Temos que nos aliar ao povo da cidade. Veja a situação dos agrotóxicos: quem come os produtos cheios de venenos? O povo pobre da cidade. Então, quando nós vamos resolver isso? Quando as massas da cidade tomarem consciência desse problema e resolverem se mobilizar.


ABr: A mudança de foco de atenção significa a redução das ocupações de terra?
Stédile: A ocupação faz parte da história da humanidade. Sempre que um território é apropriado apenas por uns poucos e nesse mesmo território convivem milhares de pessoas sem acesso à terra, é evidente que haverá ocupação. A política do MST é de organizar os pobres para que lutem por seus direitos. Em alguns lugares, serão passeatas. Em outros, ocupações.


ABr: Essa nova política é consenso no MST? Não seria uma proposta de parte do movimento que já foi assentada e, por isso, não milita mais pela terra?
Stédile: Consenso é a pior palavra. O consenso é burro. Em qualquer movimento social, há opiniões diferentes. Mas essa política que eu expressei aqui é da ampla maioria. Evidentemente, por causa da natureza da nossa luta, em cada região há um grupo que prioriza um aspecto. Se um sujeito está acampado, ele tem que lutar para conquistar terra o quanto antes. Se ele já está assentado há vinte anos e está enfrentando o problema do agrotóxico, é claro que o agrotóxico é o centro da luta dele.


ABr: O MST pretende apresentar essas propostas aos candidatos à Presidência?
Stédile: Nós estamos pensando em apresentar essas propostas para todos os candidatos, não só a presidente como a governos estaduais. Daqui até maio, eu acredito que esse processo de discussão das sugestões já vai estar concluído e, quando começar a campanha, vamos contribuir.


ABr: Já existem sugestões?
Stédile: Sim. Nós achamos que temos de transformar a Conab [Companhia Nacional de Abastecimento] numa grande empresa estatal. Ela deve garantir a compra de produtos dos camponeses e abastecer mercados populares com produtos de qualidade. Nós também temos que controlar o ingresso de multinacionais no Brasil. Estes dias eu li no jornal que uma empresa chinesa quer comprar 100 mil hectares de terra aqui. Isso é um absurdo. Não pode acontecer.

O PSDB, o FMI e a turma dos 30%

Via Carta Maior

 

O PSDB de hoje olha a economia e o Brasil com o viés do mundo internacional das finanças e a propensão a pensar em pedaços, em satisfazer-se com políticas que miram só um terço dos brasileiros – os mais ricos – e só uma parte de nosso território – o sul-sudeste. É a turma dos 30%. Expansão de consumo, crescimento de salários, ampliação da produção, desenvolvimento da infraestrutura, inclusão e capacitação das pessoas, todos esses são temas ausentes de suas formulações – ou vistos como “aleijões”. O artigo é de Artur Araújo.

Artur Araújo

O espectro de uma pergunta ronda as redações e, se formulada, desnudará o que realmente separa as duas principais candidaturas à presidência. Basta indagar de José Serra: “o senhor propõe parar o Brasil?”
Explico-me, a partir de três exemplos muito recentes: um artigo de Luis Carlos Mendonça de Barros, os 50 anos de Brasília e as manchetes sobre a orientação do FMI para que o Brasil reduza sua taxa de crescimento.
Em artigo publicado na FSP de 16/04, Mendonça de Barros , o ex-ministro de FHC de volta a sua vida de financista, revela o que é o centro da "economia política" do PSDB. Tido e havido como desenvolvimentista, anti-Malan, da escola de Sérgio Motta e José Serra, Mendonça expõe uma tese: "a euforia pelo crescimento nos levará a bater no muro das restrições econômicas; esse filme tem final triste". E para quem esperava as clássicas formulações – sobre os gargalos de infraestrutura, a baixa taxa de expansão da capacidade instalada, a "gastança” em custeio que impede o investimento público – ele abre seu coração e surpreende:
“A maior parte da oferta na economia brasileira é constituída por bens e serviços que não podem ser importados. O mais importante deles é o mercado de trabalho e nele é que está a componente mais ameaçadora que vejo para a frente. [...] Poderemos chegar ao fim deste ano com uma taxa de desemprego da ordem de 6%, mantido o crescimento atual da geração de postos de trabalho. Em março, o número de empregos formais aumentou em 266 mil, número muito forte para o mês.
[...] A pressão sobre os salários desse segmento dos trabalhadores já está ocorrendo e deve se acelerar. [...] São evidências de instabilidade grave. Dou um exemplo: a produção de caminhões da Mercedes-Benz brasileira em março foi o dobro da matriz na Alemanha. Mesmo com a crise na Alemanha esse número é um aleijão para mim.”

Trocando em miúdos: crescer rápido é um "problema", porque pode gerar aumentos salariais para os trabalhadores e reduzir a taxa corrente de lucros. A ótica do imediatismo salta aos olhos; nem mesmo de relance, o articulista se refere a um ciclo virtuoso, em que o crescimento real da massa salarial implica ampliação da demanda efetiva, cria as condições para expansão da capacidade produtiva (e da formação de mão-de-obra) e para a expansão da própria acumulação de capital, pelo crescimento do volume produzido e realizado.
O seu negócio é o aqui e agora, é o lucro já; e o futuro, provavelmente, nem a Deus pertence. O espantalho que agita é o da inflação de demanda, que se recusa a atacar pela via do choque de oferta, do mercado interno de massas e da expansão das exportações de maior valor agregado. Sua panacéia é o aumento dos juros.
Já na cobertura dos jornais paulistas sobre os 50 anos de Brasília, um velho espectro ressurgiu, explicitamente referido, por exemplo, em editorial de “O Estado de São Paulo”: Brasília, entre outras mil de suas supostas mazelas, estaria na origem da espiral inflacionária do início dos anos 1960. Sem, até hoje, compreender o que de fato Brasília operou, como meta-síntese do programa de desenvolvimento nacional de Juscelino, as vozes do passado afloram, opondo-se às obras públicas, à ação do Estado na criação de infraestrutura, na indução econômica e na integração democrática de todos os brasileiros e de todo o território nacional.
A rádio CBN tem apresentado uma ótima série de reportagens sobre a história da criação de Brasília. Em um dos programas, o tema era o debate na imprensa daquela época. A matéria narrava a campanha cerrada que o engenheiro da UDN Gustavo Corção, guru de Carlos Lacerda, movia contra a construção da cidade. Um de seus temas preferidos era o Lago Paranoá que, do alto de sua sapiência, o Dr. Corção garantia que nunca ficaria cheio, dados o regime de chuvas e as características do solo do cerrado.
No dia em que o lago ficou completo, JK, pleno de mineirice e bom humor, telegrafou para a redação do jornal em que Corção escrevia. Usou uma só palavra: “Encheu”.
O que Juscelino enfrentava era uma herança maldita, um Brasil litorâneo que só via a si mesmo, que desprezava mais de dois terços de seu território. A Marcha para o Oeste significou, muito além de Brasília, a experiência pioneira de Ceres, cidade-modelo agrícola implantada em Goiás, em que se desenvolveram as técnicas de correção de solo que permitiram a expansão agrícola, que hoje faz do Brasil um ator mundial em alimentos e biomassa para geração de energia. Significou, também, a abertura da rodovia Belém-Brasília (aquela que Jânio e a UDN chamavam de estrada para onça), articulando os eixos Norte e Oeste do nosso desenvolvimento.
E significou, mais do que tudo, para todos os brasileiros, trabalhadores ou empresários, uma mudança de postura e ângulo; Brasília permitiu que olhássemos mais e melhor para os nossos próprios potenciais e capacidades.
O FMI, que não é daqui, ecoa a lógica de Mendonça. Seu mais recente relatório, diz a FSP em manchete, “vê economia brasileira ‘no limite’”. Forçado pelos fatos a revisar – para cima – sua estimativa de crescimento da economia do Brasil, o Fundo “aponta demanda ‘em estágio avançado’ e espera medidas para desacelerar crescimento de 5,5% neste ano para 4,1% em 2011.” Tanta coincidência, até nas palavras, é sintoma de um alinhamento automático, de um modo de ver e conduzir o país.
O PSDB de hoje, por vezes até mais que os “demos”, olha a economia e o Brasil com esse viés. O que o orienta é o mundo internacional das finanças e a propensão a pensar em pedaços, em satisfazer-se com políticas que incluem só um terço dos brasileiros – os mais ricos – e só uma parte de nosso território – o sul-sudeste. É a turma dos 30%.
Expansão de consumo, crescimento de salários, ampliação da produção, desenvolvimento da infraestrutura, inclusão e capacitação das pessoas, todos esses são temas ausentes de suas formulações – ou vistos como “aleijões”. Aumento continuado e real do salário mínimo, instituição de pisos salariais nacionais, redução de jornada de trabalho, diminuição de desemprego, PAC, PROUNI, são pautas que os levam à beira do pânico. Tudo que seja para todos é risco, não oportunidade.
Ainda que se dê a José Serra o benefício da dúvida, do quanto ainda preserva de seu suposto desenvolvimentismo, não é despropositado indagar como ele “resistiria” à pressão combinada do tucanato econômico, do udenismo paralisante e elitista e da banca mundial, falando pela boca do FMI. A experiência FHC não traz muitas esperanças quanto a isso. Um jornalista arguto qualificaria a pergunta que abre este texto e questionaria o que o candidato fará com a turma dos 30%, aqueles que, há décadas, estiveram do seu lado e sempre quiseram que o Brasil pudesse menos.
(*) Artur Araújo é consultor especializado em gestão pública e empresarial