domingo, 29 de agosto de 2010

São Paulo, o PSDB e os seus homens-de-palha

Muito bom este artigo de Pedro Ayres.

Sanguessugado do Crônicas e Críticas da América Latina

Mercadante, Netinho e Marta, surfam na crista da Onda Dilma

 

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São Paulo, o PSDB e os seus homens-de-palha

Pedro Ayres

A atual crise do capitalismo neoliberal globalizado tem contribuído para iluminar um crescente número de escândalos de corrupção nas mais diversas partes do planeta, a tal ponto que é difícil que alguém ainda sustente que se trata de um fenômeno conjuntural ou limitado a uma região determinada. Pelo contrário, a corrupção é intrínseca ao sistema e tem proliferado ao calor da "globalização feliz", do "capitalismo popular", da "economia criminosa" (narcotráfico, comércio de armas e um longo etcétera) e das sucessivas bolhas especulativas que vêm explodindo desde 2005.

Dentre as mais graves corrupções que aconteceram no mundo, houve uma que pode ser considerada como a corrupção-mor, que foi a quase destruição de Estados e povos, pela política desnacionalizadora e destruidora de direitos sociais, como aconteceu, por exemplo, na Argentina de Menem. Só não foram ainda consideradas como crimes lesa-pátria, porque isso significaria questionar a essência da economoa política do império e a moralidade de seus cúmplice nacionais. Dai que até hoje há quem digam que tais atos foram atos administrativos normais e constitucionais, embora a legitimidade ética inexista em todos os seus aspectos.

Um dos mais insidiosos meios que o sistema capitalista usa para evitar que a sua nudez seja denunciada, é o consumismo. Uma prática que se transforma em substrato individual, quase que uma aspiração espiritual, onde Ter é mais importante que Ser. Assim, ao se processarem essas alterações no comportamento do homem comum, também houve a necessidade de um especial tipo de homem público ou político - o homem de palha. Ou seja, um indivíduo que guarda semelhanças aos homens ocos, empalhados do poema do poeta americano T. S. Eliot, The Hollow Men.

Um homem de palha, no sentido descrito por Eliot é o candidato ideal para a manutenção do sistema pois, como não tem nenhuma capacidade crítica além dos limites do transitório tempo presente, é dócil a quem o comanda - o poder econômico - e muito hostil a quem lhe adversa. Entretanto, como em todo o processo, houve um período em que faziam experiências e até ousavam tentativas para a reprodução de famosos homens-de-palha da História, como Mussolini, Hitler, Pinochet e outros menos votados ditadores latino-americanos. Foi assim que surgiram políticos da linhagem de um Uribe, de um Fujimori , de um Menem .

Aqui no Brasil, esse procedimento obedeceu a um esquema menos ortodoxo, pois, quando o sistema sentiu que a estrutura ditatorial que tinham criado em 1964 estava a se tornar contraproducente, tomando o exemplo da farsa espanhola do "Pacto de Moncloa", em que todos fizeram um acordo, com exceção dos diversos povos que conformam a Espanha, também aqui no Brasil se forjou um "pacto" que iria ser consolidado por uma Assembléia Nacional Constituinte mista, que funcionou entre 1987/88. E a partir daí, surgiram nomes para dar continuidade ao que na época consideravam perene e imutável.

Como São Paulo era um Estado chave, não porque tivesse o maior parque industrial do país e uma agricultura já adaptada aos novos reclamos capitalistas, mas, principalmente, por deter a maior massa operária e trabalhadora sindicalizada do país, a luta pela conquista das mentes e corações dessa massa foi travada em dois claros movimentos táticos.

O primeiro deles, através da cooptação de amplos segmentos acadêmicos, dando sequência ao que o império já fazia desde os idos de 1960, gerava "formuladores" teóricos do que já fora elaborado por Friedrich von Hayek e Milton Friedman, ora no campo da economia, ora no campo das ciências sociais, criava as justificativas para esse novo tipo de Pasárgada ou de Terra da Promissão, em que todos seriam ricos, belos e felizes, bastando ter a coragem e a audácia sufientes para a todos derrotar nesta "selva" que é a vida.

O segundo, mais objetivo e concreto em termos políticos, porém talvez mais difícil e complicado, que era dar factibilidade à teoria, foi a conquista de quadros para viabilizar o projeto. Um projeto que precisava ter uma roupagem com cheiro e cara de novidade, quase que na mesma linha traçada pela alegoria carnavalesca da "terceira via" do Labour Party de Tony Blair, um falso êmulo da Dama de Ferro.

Como resultante desses dois movimentos táticos surgiu o PSDB e o ilusionismo da social-democracia brasileira, com abre-alas e tudo, com os ofuscantes adereços moralistas para disfarçar a sua já desmedida ambição pelo poder.

Embora muitos teóricos acadêmicos discordem, o fenômeno Collor fez parte desse processo de aggiornamento do imperialismo e de fortalecimento das principais linhas teóricas e práticas do PSDB. Foi um incrível período político, quando num curto espaço de tempo, fez-se o aprofundamento das teses reducionistas do Estado e da desnecessidade de existir um patrimônio público produtivo ou capaz de gerar renda. Paralelo a isso, como não poderia deixar de ser, ao sentirem que o eixo político poderia provocar modificações no eixo econômico-financeiro do país, coube aos políticos paulistas, numa exacerbação moralista quase ao estilo Jânio Quadros, decidir pela palavra de ordem - Delenda est Collor.

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Havia uma característica bem singular em todos esses novos Catões, tudo era motivo de crítica e condenação, excepto a pregação contra o Estado Brasileiro e seu patrimônio, quando, a bem da verdade, alí é que estavam as bases da imensa corrupção, pois, significava a eliminação de qualquer destino soberano para o país e seu povo. E aí, como diz Chico Buarque, no seu Vai Passar, veio uma das páginas mais infelizes de nossa história: "dormia a nossa Pátria Mãe tão disatraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações." Pululavam as doutas explicações e até se forjavam "teorias" justificadoras da recém-extinta ditadura e da importância da rápida e pronta configuração desse novo pacto das classes dominantes brasileiras e o império. É quando o PSDB, já dentro das sinalizações do Consenso de Washington, passa a operar em dois campos: um, do conchavo político, que ficou a cargo de FHC, ungido como mentor intectual da inteligentsia nacional e o outro, de ação política junto às massas coube a Mario Covas, que personificava um símbolo liberal e democrata. Tudo para facilitar a vida dos interesses das empresas transnacionais financeiras, energéticas, de comunicações e de exploração mineral.

O poder político neoliberal-tucano paulista vai se tornar quase inamovível, pois, unia o imenso poder econômico e propagandístico do sistema aos dotes de Mario Covas, uma liderança nos moldes dos líderes do Partido Democrata dos Estados Unidos: simulação de competência e excelente marketing. Entretanto, como sempre há a necessária reposição de quadros e militantes, Mário Covas logo viu quem poderia servir de esteio e instrumento para futuras aventuras políticas em que pensava se lançar - o escolhido, Geraldo Alckmin. Era o vice-governador perfeito, não só por uma longa tradição política oligárquica familiar que unia São Paulo e Minas Gerais, porém, acima de tudo, por seu rígido treinamento para ser um homem de palha.

Todavia, como o destino, normalmente tem planos bem diferentes daqueles que as pessoas traçam para si mesmas, Geraldo Alckmin, com a morte de Covas, chegou ao poder de seu Estado mais do cedo do que pensava e embora tivesse aprendido algo com Covas, faltava-lhe a experiência e o faro político do santista. Porém, mesmo assim, com a ajuda de alguns seguidores, gradual e seguramente deu continuidade ao plano político de desmonte do Estado de São Paulo e à criação de uma rede de apoios, tendo o Tesouro e o Erário estaduais como suporte. Bases que lhe garantiram sair vencedor em alguns embates internos do PSDB paulista. Foram vitórias bem exclusivas e de uso quase doméstico, pois, nada produziram para a melhoria da administração pública do Estado, ao contrário, ampliaram-se algumas benesses como prêmio para aliados e reduziram-se serviços, para garantir com esses cortes de despesas, os meios para assegurar a continuidade dessas gentilezas.

Como Geraldo Alckmin é um fiel seguidor das teses de José Maria Escrivá, em que a obediência está acima de qualquer coisa, e as teses de José Maria Escrivá justificam e quase divinizam a sociedade de classes, portanto, o capitalismo, Alckmin era e é "the right man in the right place". É sempre bom lembrar, que um homem de palha, embora possa ter múltiplas utilidades para a sua ordem ou classe social, carece daquilo que dá ao homem o direito e o poder de ser livre, que é a visão crítica. Desse modo, mesmo que sejam enormes e poderosas as forças econômicas que lhe dão suporte, como é incapaz de compeender o mundo fora dos ínfimos limites da prisão ideológica em que vive, é alguém mais fácil de ser derrotado, da mesma forma que o outro homem de palha, José Serra, está sendo desfeito.

Basta uma forte ventania para que os homens de palha do PSDB se desfaçam. E essa mesma ventania serve para afastar os corvos. E desta vez, quem faz o vento é a força do povo. Ventos que encrespando as águas do mar, criaram a Onda Dilma Rousseff, que de embolada vem trazendo para o centro da cena política paulista, Aloizio Mercadante, para Governador do Estado de São Paulo e Netinho e Marta, para o Senado Federal por São Paulo.

Pedro Ayres

Jornalista

2 comentários:

  1. Que tal uma artigo sobre os homens-de-palha do partido que o Estadão chamou de "da Bandidagem"? Daria muita palha para manga!

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  2. Anônimo/Anônima,
    Não sei porque minha orelha está cheia de pulgas. Acho que nos falamos em outro comentário. Mas, vamos lá.
    Repetindo a resposta do outro comentário: Porque a ditadura midiática nunca publica escândalos dos tucanos como Alstom, educação paulista/Abril, privatizações tenebrosas...? Por exemplo, porque não publica que a filha do Serra violou o sigilo de 60 milhões(!) de brasileiros?
    Para de ler Veja, foia ditabranda e quetais, isso emburrece.
    Já não basta o que a ditadura midiática faz e ainda você quer impor o pensamento único na rede?
    Vai votar na Opus Dei, vai.

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