terça-feira, 25 de novembro de 2014

Comvenssa-ce di veis: na ditadura militar num tinha corrupissão

Via Aluizio Palmar

Itaipu - a quem interessa a escuridão?

 

Denuncia do Instituto João Goulart a respeito da morte do Embaixador José Jobim, assassinado quando iria divulgar documentos sobre as falcatruas e sobrepreços praticados na hidroelétrica de Itaipu, na sua construção pelo regime ditatorial que sepultou o projeto original do Governo João Goulart que já estava pronto sob o desígnio de "Represa Sete Quedas", por um preço de obra dez vezes menor.

José Jobim, ex-embaixador, foi sequestrado em frente à sua casa em 22 de março de 1979. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado em Itanhangá, bairro da Zona Oeste do Rio. Segundo a versão policial, Jobim se enforcou com uma corda. A hipótese é refutada pela família que, na figura de sua filha, Lygia Jobim, dedicou os últimos 34 anos buscando a verdade sobre a morte do pai.
Segundo Lygia, a família foi ainda mais prejudicada com a versão de suicídio, porque companhias de seguro não queriam pagar o que era de direito. O Instituto Médico-Legal (IML) propôs um acordo com os parentes: se eles não continuassem com as investigações, o órgão daria um novo atestado de óbito. Lygia recusou a proposta. Outro fato curioso é que a corda, usada no suposto enforcamento, teria sido comprada por Jobim em uma loja no Alto da Boa Vista. O vendedor, entretanto, era cego e não pôde confirmar a versão da polícia.
Em 1983, quatro anos após a morte do diplomata, a então promotora Telma Musse Diuana (hoje desembargadora aposentada) foi designada para cuidar do caso. Solicitou novas investigações à polícia, baseando-se na "dubiedade do laudo que concluiu pelo suicídio". Reaberto o caso na esfera policial, foi finalmente instaurado um inquérito (antes havia apenas uma sindicância), o qual considerou os fatores da morte do embaixador "todos incompatíveis com a hipótese adotada pelos legistas oficiais". O processo acabou arquivado em 1985, sendo morte de Jobim qualificada de "homicídio por autor desconhecido".

José Luis Rodríguez: 'A proposta de Cuba para o seu futuro não é um socialismo de mercado'

Via Diário Liberdade

José Luis Rodríguez, ministro de Economia de Cuba entre 1995 e 2009, é um dos poucos especialistas da ilha que mantém publicamente uma análise sistemática e rigorosa, partindo de posições socialistas, sobre as transformações que agitam a ilha.

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Cuba - La Jornada - [Rosa Miriam Elizalde, Tradução do Diário Liberdade]

Em um país que acorda quase todos os dias com um novo decreto na Gazeta Oficial que avança em direção a mudanças estruturais do modelo econômico, escuta-se apenas os funcionários explicando as medidas em linguagem popular, enquanto que no espaço digital – com uma altíssima presença na ilha apesar da frágil infraestrutura de internet – floresce todo o tipo de análise especulativa, frequentemente puxando a brasa para propostas neoliberais.

De qualquer forma, a economia é o principal tema no país. Cuba enfrenta um dilema complicado: ou atualiza, revisa e reconstrói sua estrutura econômica ou a Revolução corre o risco de sucumbir diante da pressão combinada de seus próprios erros e as agressões do bloqueio dos Estados Unidos, em um momento delicadíssimo de reacomodação do Consenso de Washington em relação à ilha.

Rodríguez, assessor do Centro de Investigações da Economia Mundial (CIEM), de Havana, responde a algumas perguntas de La Jornada, nas vésperas da última sessão plenária do ano no Parlamento cubano, que tem na agenda a análise dos resultados do chamado "processo de atualização" e os planos para 2015.

Qual será o caminho escolhido por Cuba

Por que atualização e não reforma econômica?

Isso pode ser explicado por duas razões. Por um lado, foi preciso enfatizar que todas as mudanças que estão sendo propostas supõem a atualização de um modelo socialista, classificado também como socialismo possível. Por outro lado, optou-se por tomar distância das reformas, em que em nome do aperfeiçoamento, o socialismo foi levado ao seu colapso na Europa.

Qual é exatamente o modelo econômico escolhido? Qual rumo tomará Cuba?

O modelo escolhido do socialismo cubano supõe o aperfeiçoamento da sociedade que se construiu até aqui e tem vários eixos fundamentais que reiteram sua matriz socialista.

Em primeiro lugar mantém-se a propriedade social sobre os meios de produção fundamentais, ou seja, os que são determinantes para o desenvolvimento do país. Se estabelecem limites ao desenvolvimento da propriedade não estatal ao reduzir sua capacidade de acumulação e se assegura a prestação de serviços sociais básicos universal e gratuitamente.

Ao mesmo tempo, abrem-se espaços à pequena propriedade privada – como autoemprego ou trabalho por conta própria –, a propriedade cooperativa agropecuária e não agropecuária e as empresas mistas com capital estrangeiro. Se parte assim do conceito que outras formas de propriedade não estatal podem contribuir para o desenvolvimento do país, sem ser predominantes e sem se converter em preponderantes.

Esta é uma mudança significativa, mas se chegou a ela partindo de que, por um lado, uma propriedade unicamente estatal não assegura o êxito do socialismo na fase de construção socialista em que nos encontramos; por outro lado, durante anos tratou-se de seguir esse caminho e o balanço não foi favorável.

Por último, já faz um tempo que a teoria marxista chegou à conclusão de que a existência de relações de mercado no socialismo obedece a um determinado grau de desenvolvimento no qual o trabalho individual dos produtores não pode ser socializado diretamente, e precisa-se das categorias mercantis para fazer isso. Pelo que se impõe a necessidade de reconhecer essa realidade se queremos avançar a um desenvolvimento mais racional. Isso não significa que a presença das relações de mercado – no grau em que elas se reconhecem – não tenham que ser monitoradas e submetidas a controle social para compensar seus efeitos socialmente negativos. Eu falei anteriormente de uma ideia de que em nossas condições isto é o que pode nos assegurar um desenvolvimento socialista possível de acordo com as circunstâncias de subdesenvolvimento em que se desempenha nossa economia, ainda que desde já não seja nada simples.

Socialismo de mercado?

Na chamada "cubanologia" há uma interpretação de que o que está ocorrendo em Cuba é uma "transição para uma economia socialista de mercado", que necessariamente deve ser acompanhada de mudanças estruturais no sistema político do país. Qual a sua opinião?

Qualquer um que estude a evolução histórica das experiências do chamado socialismo real entenderá claramente que nós não estamos nos propondo um socialismo de mercado.

Esta foi uma apelação para caracterizar as reformas econômicas empreendidas nos anos 1960, que propiciaram uma ampla introdução de mecanismos de mercado em países como Iugoslávia, Hungria e também na URSS com a Perestroika. Essas reformas supunham que a atuação do mercado não era contraditória ao socialismo, o que fez com que se ampliasse cada vez mais a presença desses mecanismos para fazer mais "eficiente" a gestão econômica, sem levar em conta a conotação social dos mesmos e sem monitorar e compensar seus efeitos perversos. A história mostrou que do socialismo de mercado restou somente o mercado sem socialismo.

As críticas da cubanologia seguem a lógica de que se o mercado é introduzido, deve se chegar até as últimas consequências, ou seja, ao capitalismo, para conseguir uma eficiência superior. Daí que pressuponham eufemisticamente mudanças políticas para moderar essa tendência, o que não é outra coisa senão provocar a transição para o capitalismo. Por mais que eles digam o contrário, é isso o que está por trás de suas "recomendações".

São muitos os que exigem rapidez nas mudanças e inclusive os que se pronunciam por um "shock". É possível impor maior ritmo às transformações?

Não podemos perder de vista que após muitos anos de Período Especial as expectativas da população são muitas e em vários casos muito intensas. No entanto, as mudanças necessárias no funcionamento da economia para satisfazer as necessidades da população são de uma grande magnitude e complexidade. Trata-se inclusive de implementar medidas sobre as quais não existem experiências em nosso meio, pelo que é necessário um período de testes para validá-las e inclusive avaliar não só seu impacto econômico, mas também sociopolítico, sabendo da grande importância dos fatores subjetivos neste processo.

Uma decisão precipitada neste sentido pode comprometer o processo de atualização. Isto não significa que não se avance em tudo o que seja possível e que não comprometa os objetivos estratégicos a serem alcançados. Por exemplo, foram adotadas decisões que flexibilizam a venda de casas particulares, o acesso a instalações turísticas internacionais e se admite a recontratação de aposentados que podem também cobrar um salário sem perder sua pensão.

Em suma, a afirmação do presidente Raúl Castro de avançar sem pressa mas sem pausa acredito que seja a mais correta.

Difícil precisar os ritmos de mudança na economia

Onde não se produziu a mudança que se esperava ao se aprovar as diretrizes há dois anos e meio?

Em primeiro lugar é preciso lembrar que as diretrizes têm um período de implementação de cinco anos ou mais em alguns casos, por isso muitos impactos esperados no cronograma de aplicação podem estar ainda em processo de realização.

Por outro lado, a concreção de resultados na economia cubana – que tem um nível de abertura superior a 47%, por isso depende muito do que ocorre na economia internacional – está submetida a um elevado nível de incerteza. Se a esta realidade acrescentarmos a presença do bloqueio econômico dos Estados Unidos, é muito difícil conseguir uma elevada precisão nos ritmos de mudança na economia.

Também há medidas que originalmente se prenderam sob determinadas premissas e ao longo do tempo tiveram que ser complementadas com outras decisões. Um exemplo está na entrega de terras ociosas para a produção agropecuária, que foi normatizada originalmente pelo Decreto de Lei 259 e depois foi complementada com o Decreto de Lei 300, assim como por outra série de medidas para facilitar a gestão do setor. Também a experimentação de novas formas de gestão do poder popular nas províncias de Artemisa e Mayabeque tiveram o tempo extendido para mais além do prazo original, a partir da análise das experiências de sua complexa implementação.

Quais foram os benefícios das transformações iniciadas em 2011?

O ordenamento do modelo econômico cubano teve que começar necessariamente pelas grandes decisões que modificam a estrutura de gestão na macroeconomia, por isso logicamente é nessa esfera onde podemos ver alguns resultados importantes.

Se nos voltarmos aos problemas mais significativos de que cuidam as diretrizes da política econômica e social observaremos que esses são o desequilíbrio financeiro externo e a baixa produtividade presentes no país.

No primeiro aspecto se observa como se passou de um saldo comercial negativo em relação ao PIB que era -5% em 2008 para um saldo positivo de 1,6% em 2013 graças à expansão das exportações e à substituição das importações e da poupança.

Em outras palavras, o saldo positivo do comércio exterior contribui com recursos que permitem iniciar um processo gradual de renegociação e pagamento da dívida externa. Neste último aspecto percebe-se como se obteve recentemente o perdão de 90% da dívida da antiga URSS com a Rússia – dívida registrada no Club de Paris – e também se conseguiu o perdão de 70% da dívida com o México, enquanto se dedicou um volume importante de recursos para liquidar as dívidas externas a partir de 2009.

Tudo isso é de importância estratégica, pois permite criar melhores condições para ampliar o investimento estrangeiro, elevar a taxa de investimento do país e aumentar os ritmos de crescimento até alcançar em poucos anos cifras em torno de 6 a 8 por cento.

Em relação à produtividade do trabalho, esta cresceu 7,8% nos últimos cinco anos, ritmo que, se não foi muito elevado, permitiu na última etapa que este indicador cresça mais rápido que o salário médio para evitar pressões inflacionárias.

Não obstante, resta ainda muito por fazer para se conseguir um crescimento equilibrado e autosustentável, mas isso também requer tempo e recursos.

Fim da moeda dupla, ajuste cauteloso

A maioria da população ainda não percebe melhoras na microeconomia. Como manter o consenso em tais circunstâncias?

Todo processo de ajuste econômico – ainda que se faça com critérios essenciais para preservar o alcançado por nossa sociedade – enfrenta desafios inevitáveis a curto prazo.

Provavelmente um dos maiores desafios está em como realizar as mudanças estruturais indispensáveis para que o país se desenvolva e, ao mesmo tempo, conseguir melhorar o nível de satisfação das necessidades da população, que – como já foi apontado – acumulam carências próprias do período especial.

Algumas decisões adotadas apontam nessa direção. Por exemplo, o processo de reestruturação das empresas estatais permite que as mesmas ajustem o pagamento de salários aos resultados produtivos, o qual – onde foram aplicadas as medidas propostas – possibilitou incrementar substancialmente os salários sem provocar pressões inflacionárias, o que potencialmente abre novas alternativas para 49% dos ocupados no setor estatal que trabalham em empresas.

A situação é mais complexa no setor orçamentado, mas também, sem afetar o equilíbrio fiscal indispensável, foram aumentados os salários no setor da saúde e aos esportistas. Do mesmo modo, no setor não estatal da economia – onde trabalham cerca de 26% dos ocupados – se obtêm rendas mais elevadas.

Não obstante, apesar desses avanços e as potencialidades que se percebem, a deterioração do salário real e as restrições para expandir serviços como o transporte e a construção de moradias, constituem fatores a se levar em conta na luta pelo indispensável equilíbrio que se deve ir alcançando entre a satisfação das expectativas e a criação de condições para conquistá-la.

Junto a esse avanço, necessariamente gradual, deve se conseguir um maior nível de informação e participação dos trabalhadores em todo este processo, o que constitui, na minha opinião, um elemento essencial para manter o consenso indispensável.

Qual a importância da unificação monetária para o êxito global da transformação da economia em Cuba?

A dualidade monetária que levou à circulação paralela do peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC), que se implementou em 1993, permitiu evitar uma desvalorização da taxa de câmbio oficial que, se tivesse se efetuado, teria levado a uma situação muito difícil de controlar. Do mesmo modo, no setor empresarial permitiu implementar em paralelo um processo de descentralização na tomada de decisões, que hoje podemos avaliar positivamente a partir da distância que nos separa dos anos 90.

Por meio da criação das Casas de Cambio (CADECA), a dualidade monetária também permitiu drenar uma parte significativa do excesso de liquidez que se acumulou nas mãos da população nesses anos e chegou a 73% do PIB. Ao mesmo tempo se abria um consumo em divisas – também taxado por um imposto sobre a venda – pelo menos para a parte da população que tinha acesso à mesma, que chegou a ser estimada em aproximadamente 60% da população no final da última década.

Todos esses impactos positivos foram se perdendo na mesma medida em que a dupla circulação monetária e a dupla taxa de câmbio associada a esta foi fazendo cada vez mais complexo o manejo da contabilidade em duas moedas, o que fazia com que fosse muito difícil conhecer a real situação econômica no país.

Portanto, um processo de mudanças como o atual tem como requisito indispensável ordenar nossa contabilidade e as estatísticas retornando a um sistema monetário único com o peso cubano como centro.

Também se trata de um processo de grande complexidade que necessariamente demorará algum tempo, já que se trata de desvalorizar a taxa de câmbio oficial que se mantém hoje em 1 CUP = 1 CUC ou peso conversível (equivalente a 1 dólar) e fazer convergir a taxa de câmbio entre o Estado e a população onde se troca 1 CUC por 25 CUP. Sem dúvidas é uma operação em que é preciso avançar cautelosamente para que tenha êxito.

Atualmente se trabalha no grupo de transformações de maior complexidade em meio a uma conjuntura externa que não é favorável. Além disso, o mapa que foi traçado com as Diretrizes aprovadas em 2011 assegura as mudanças indispensáveis para avançar estrategicamente na criação de condições para um desenvolvimento sustentável a médio prazo.

A atualidade de Dom Hélder Câmara para as novas gerações e a Igreja de Francisco

Via Adital

Natasha Pitts

A comunhão entre a vida de Dom Hélder Câmara e suas pregações é seu maior trunfo contra os que o acusam de ter sido demagogo. A afirmação é da professora Lucy Pina Neta, historiadora do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC), sediado em Recife, Estado de Pernambuco. Em entrevista à Adital, ela discute o contexto sociopolítico e cultural que permeou a atuação de Dom Hélder e que fez dele uma referência ainda bastante atual para as novas gerações.

Segundo ela, para além dos muros da Igreja Católica, o trabalho de Dom Hélder alcança grandes proporções, atuando em especial pela promoção e respeito ao ser humano. Tal postura fez com que o sacerdote deixasse uma marca indelével no serviço ao próximo, em defesa dos direitos básicos e dos mais necessitados, no qual se considera que existe a presença de Jesus Cristo.

A historiadora destaca que seu trabalho nos bastidores ajudou a tecer a trama que deu uma nova roupagem à Igreja Católica, articulando diferentes realidades sociais, políticas e culturais. Por isso, a figura de pastor que se soma às ovelhas em fraquezas e virtudes é a que mais inspira as atuações sociais e pastorais. Dom Helder, para Lucy Pina Neta, contribuiu para que, hoje, o Papa Francisco possa reviver um modelo de Igreja mais humano e verdadeiramente cristão.

Arquivo pessoal

Lucy Pina Neta é historiadora do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC). Foto: Arquivo pessoal.

ADITAL - O que a figura de Dom Hélder Câmara representa, hoje, dentro e fora da Igreja? Quais são seus aspectos mais marcantes?

Lucy Pina - Dom Hélder é atual. Embora, para compreendê-lo, é sempre necessário lê-lo em seu contexto sociopolítico-cultural e, sobretudo, eclesial. Isso nos leva a reconhecer o quão visionário (ou profético) ele foi, desde suas primeiras atuações sociais até os últimos anos. A coerência entre sua vida e suas pregações é seu maior trunfo, contra os que o acusam de ter sido demagogo. Dentro da Igreja, uma lembrança recorrente associada a seu nome é a colegialidade, um modelo de gestão democrática que tem recebido certa notoriedade com o pontificado do Papa Francisco.

A colegialidade que ele traz de sua formação no Seminário da Prainha [em Fortaleza, Estado do Ceará] e que ele consolida durante suas experiências sociais e pastorais em todas as fases de sua vida, que ganha forma institucional com a ideia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), se pensarmos a Igreja brasileira e os trabalhos realizados durante as sessões do Concílio Vaticano II [realizado em 1962] com os padres conciliares da América do Sul, Ásia, África e parte da Europa, quando tomamos a dimensão da Igreja Católica mundial. Isso não esgota, absolutamente, sua representação, mas são exemplos claros da colegialidade a que me referi no começo, como aquela que classifico como a marca ou, melhor dito, como a memória mais recorrente associada à imagem de Dom Hélder.

Para além dos muros da Igreja, o trabalho do Dom Hélder alcança grandes proporções, seu empenho pela promoção e respeito ao ser humano — aqui se entenda a criatura criada à imagem e semelhança de seu Criador, não importando credo, cor, raça, nacionalidade ou qualquer outra forma de classificação. Chama a atenção um aspecto próprio da formação recebida no Seminário da Prainha, à época dirigido por padres lazaristas, seu trabalho social.

Esses trabalhos produziram no jovem Hélder uma marca indelével, como ele mesmo dizia, "padre não existe no vácuo. Só existe padre para a glória de Deus, servindo ao próximo”. Este serviço consistiu em resguardar a dignidade humana, no respeito a seus direitos básicos, na luta em defesa dos mais necessitados, no amor ao Cristo que vive no pobre, na necessidade sempre presente de lembrar, a todo instante, a presença viva de Jesus.

Nesse sentido, justificam-se as memórias feitas aos seus trabalhos junto aos operários e professores católicos, no Ceará, à frente da Cruzada de São Sebastião e do Banco da Providência, no [Estado do] Rio de Janeiro, e todos os seus esforços empenhados em acudirem as vítimas das cheias do rio Capibaribe, trabalhadores rurais e presos políticos, em Olinda e Recife [Pernambuco].

Reprodução

Era forte a atuação de Dom Hélder nos bastidores da Igreja. Foto: Reprodução.

ADITAL – Você poderia falar sobre a importância da atuação de Dom Hélder durante o Concilio Vaticano II?

LP - Não acredito ser possível escrever a história do Concílio sem, ao menos, mencionar o nome de Dom Hélder. Embora ele nunca tenha falado durante as sessões conciliares, seu trabalho nos bastidores ajudou a tecer a trama que deu uma nova roupagem à Igreja Católica. Seu empenho pode ser dividido em três fases distintas e complementares: os trabalhos pré-conciliares, como consultor da Comissão dos Bispos e do Governo das Dioceses, e na organização do episcopado brasileiro para a viagem à Roma, providenciando documentos pessoais e passagens para que a Igreja do Brasil comparecesse com o maior número possível de padres conciliares.

Depois, já durante o Concílio, seu trabalho é classificado como o de um articulador de bastidores. Entre as sessões conciliares, Dom Hélder promoveu reuniões menores na residência do Episcopado brasileiro em Roma, a Domus Mariae. Seu objetivo era trazer até os padres e bispos, não só os brasileiros, mas todos os que assistiam a essas reuniões, os melhores elementos para discutir a nova proposta de Igreja anunciada por João XXIII e seguida por Paulo VI, corroborando a tese de que, além de um formador de espíritos, Dom Hélder também foi um formador de intelectos.

É claro que seu trabalho está para além dessas reuniões. Ele teceu, não sozinho, uma teia de relações, que possibilitou aos episcopados dos cinco continentes pôr sobre a mesa seus problemas e, juntos, construírem suas soluções. Este é um assunto que, naturalmente, não se esgota nessas palavras (...). Mas, em linhas gerais, eu considero essas duas marcas, a colegialidade e capacidade de articular com diferentes realidades sociais, políticas e culturais.

ADITAL - Qual a influência do Pacto das Catacumbas em sua vida religiosa e pastoral?

LP - O Pacto [documento redigido e assinado por 40 padres participantes do Concílio Vaticano II, no dia 16 de novembro de 1965, pouco antes da conclusão do Concílio, que continha 13 itens, com os signatários comprometendo-se a levarem uma vida de pobreza, rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral, entre outros pontos] se traduziu na experiência de vida de Dom Hélder. Em suma, o documento fala sobre a necessidade de uma Igreja pobre e servidora, que começa a partir de seus bispos, que devem abrir mão do título de "Príncipes da Igreja”, e, por conseguinte, de tudo o que ele representa: palácios, carros oficiais, contas em bancos, para citar os exemplos mais recorrentes.

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Por isso, a primeira imagem que vem a cabeça quando pensamos em Dom Hélder é a de um bispo franzino, de batina bege, com uma cruz simples pendurada no pescoço. Isso o traz para perto de seu rebanho; nele, a figura de admistrador eclesiastico é ofuscada pela, sempre mais aparente, figura de pastor, que se soma às suas ovelhas em fraquezas e em virtudes.

Outra marca dessa vivência é a forma como nós o chamamos: "Dom”. Assim, simples, uma vez perguntado porque as pessoas o chamavam assim, ele respondeu que alguém nos soprou que "dom” era uma fineza, um presente de Deus, e que ele era nosso presente. Quiçá ele tivesse razão; em obscuros anos de repressão, ele tenha sido realmente essa luz, esse dom para a Igreja do Brasil.

Se pensarmos do ponto de vista pastoral-social, caímos num campo bastante amplo. Dom Hélder, ao propor a reforma agrária a governos e até a segmentos da Igreja, não a faz apenas como uso de um tema que começava a se tornar popular, mas como alguém que já havia experimentado os alcances práticos, fazendo ele mesmo, seja com terras da Arquidiocese de Olinda e Recife, seja destinando dinheiro de prêmios que ganhou pelo mundo, para a compra de áreas agrícolas, relativamente próximas as cidades, e as redistribuindo entre os trabalhadores do campo. O Pacto [das Catacumbas] se tornou uma espécie de segunda regra de vida!

ADITAL - Como Dom Hélder se relaciona com a Teologia da Libertação?

LP - Eu, sinceramente, não consigo ver Dom Hélder como um teólogo da libertação. Mas reconheço que há, sim, traços do modelo de Igreja que ele viveu, desejou e sobre o qual escreveu que permeiam a teologia da libertação. Mas não saberia lhe dizer mais sobre o tema.

ADITAL - Por que a espiritualidade helderiana vive e é significativa e atual ainda hoje?

LP - Há sobre Dom Hélder dois tipos de memórias: uma afetiva, geralmente associada ao grupo de pessoas que viveram com ele ou próximas a ele. O que reforça um saudosismo do bom pastor, de sua forma humanizada de experiência de igreja. Esse tipo de memória é importante; ela faz com que as gerações que não conviveram fisicamente com ele se interessem, que o busquem.

Grosso modo, é como se fizessem uma grande propaganda boca a boca da melhor experiência que já tiveram e, logo, a curiosidade brota e daí o interesse sempre recorrente pela figura de Dom Hélder. A outra memória vem, exatamente, desse grupo que se aproxima pelo "ouvir falar” e encontra a coerência entre as memórias, a documentação e a vida de Dom Hélder.

Seu maior trunfo para continuar atual é que ele foi real, foi verdadeiro, seus pecados são confessados ou, melhor dito, assumidos; suas fraquezas são humanas, seu amor pela Igreja se traduz num amor que vê a Cristo no irmão. Por isso sua espiritualidade não "cai de moda”.

Reprodução

Dom Hélder foi liderança também no trabalho social. Foto: Reprodução.

ADITAL - A chegada de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, para ocupar a chamada "cadeira de São Pedro” é um impulso para o resgate e fortalecimento das ideias defendidas por Dom Helder?

LP – Particularmente, eu tenho muitas esperanças! Acho que Francisco, à sua maneira e a seu tempo, tem mostrado que é possível reviver, em parte, o modelo de Igreja que Dom Hélder viveu na segunda metade do século passado. Fico feliz por minha geração, que lotou a Praia de Copacabana [no Rio] para ouvir as palavras do Santo Padre, que se inspira em Francisco para uma Igreja mais pobre, mais servidora, mais humana e mais próxima. Espero que ele viva por muitos anos para alcançar fazer as transformações possíveis dentro da Igreja.

ADITAL - O livro "Novas Utopias”, ditado pelo espírito de Dom Hélder e psicografado pelo médium Carlos Pereira, da Sociedade Espírita Ermance Dufaux, de Belo Horizonte (Estado de Minas Gerais) é reconhecido como uma obra do religioso?

LP - Pelos adeptos da doutrina espírita e pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

ADITAL - Alguns historiadores e jornalistas descrevem Dom Hélder não apenas como uma figura popular, mas sim exibicionista, que gostava de estar em frente às lentes dos fotógrafos, além de ser portador de uma vaidade brutal. De onde vem isso?

LP - Talvez eu não esteja apta a responder esta última pergunta, pois não vejo Dom Hélder dessa forma. O que posso lhe dizer é que a censura nos meios de comunicação causou a ele muita pena, que as notícias falaciosas o lastimaram; e que não poder respondê-las o fez sofrer. Apesar dessa fase, sua relação com os meios de comunicação foi respeitosa; ele sempre soube o alcance de um microfone e uma câmera. Por isso, ao fazer uso deles, tinha muito cuidado. Mas a vaidade é própria de nossa condição humana e algumas coisas que contam sobre ele, se não são verdade, ele as toma como anedotas para ensinar alguma coisa.

Colaborou Marcela Belchior.

DIFERENÇAS ENTRE MILITONTOS E MILITANTES PRÓ-DILMA

Via Opera Mundi

O militonto é superlativo e hiperbólico em relação aos líderes do governo e do partido. Sua frase estruturante: “eles sabem o que fazem…”

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O militante respeita e admira os chefes históricos da esquerda, mas a vida já ensinou que também são passíveis de erros e confusões. Considera, portanto, que os instrumentos coletivos são mais qualificados que as clarividências individuais e esses só podem ser construídos pelo debate franco e desabrido de todos os temas.

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Breno Altman

O militonto recebe as decisões da presidente da República e não admite qualquer crítica. Quem ousar fazê-lo, é aliado objetivo da direita.

O militante não vacila em apoiar o governo e defender a presidente, especialmente diante da escalada reacionária. Mas não abdica do direito e do dever de pensar com a própria cabeça, criticando o que lhe parece errado na estratégia adotada e concebendo essa atitude como indispensável na ação política.

O militonto tudo explica e justifica através de um pacote fechado e imutável: a correlação de forças no parlamento. Serve como uma espécie de álibi para defender o governo de qualquer crítica por adotar políticas conciliatórias, mesmo as que podem ser um tiro no pé.

O militante encara com seriedade a tal correlação de forças, mas com o objetivo de alterá-la a favor da esquerda. Sabe que negociações e composições são inevitáveis, necessárias, mas deseja forçá-las ao limite.

O militonto ficou acostumado a pensar correlação de forças apenas ou principalmente como uma questão institucional, parlamentar. A mobilização social e a luta de massas não entram de verdade em seu cálculos como hipótese para pressionar as instituições desde seu exterior.

O militante não descuida da governabilidade institucional. Mas aprendeu, nesses doze anos e várias crises, que também é imprescindível a construção de governabilidade social. Sabe, a propósito, que as maiorias parlamentares de orientação progressista somente foram formadas, na história do Brasil, quando o povo organizado e mobilizado obrigou o Parlamento a dançar sua música.

O militonto costuma achar que divide a esquerda quem entra em desacordo com ações do governo. Não admite que, às vezes, pode ser o governo quem divida a esquerda com suas ações.

O militante quer a unidade da esquerda e das forças progressistas. Mas acha que a pedra angular desse processo vai além de apoiar ou não o governo: depende de um programa unificador e de uma estratégia de coalizão do campo popular.

O militonto acha que o passado fornece crédito infinito, no presente e no futuro. Por tudo o que foi feito, e definitivamente não é pouco, o governo deveria ser defendido incondicionalmente e qualquer crítica seria descabida por princípio.

O militante reivindica os enormes avanços promovidos pelo governo e se mobiliza para defendê-los, mas não acha que o passado basta para garantir o presente e o futuro, que devem ser discutidos sempre com espírito crítico e aberto.

O militonto é superlativo e hiperbólico em relação aos líderes do governo e do partido. Sua frase estruturante: “eles sabem o que fazem…”

O militante respeita e admira os chefes históricos da esquerda, mas a vida já ensinou que também são passíveis de erros e confusões. Considera, portanto, que os instrumentos coletivos são mais qualificados que as clarividências individuais e esses só podem ser construídos pelo debate franco e desabrido de todos os temas.

O militonto é governista e acha que isso basta para resolver todos os problemas.

O militante defende o governo contra a direita, mas busca ser um revolucionário, um lutador social, para quem governar é apenas parte, ainda que imprescindível, de um processo estratégico mais amplo, o da transformação do país.

Golpe, modelo e dívida

Sanguessugado do redecastorphoto

[*] Adriano Benayon

Texto enviado pelo autor

Ilustrações catadas na internet pela redecastorphoto

A imprensa-empresa SEMPRE golpista e CANALHA

1. O Brasil vive momento grave, com a grande mídia, pedindo golpe de Estado para derrubar a presidenta recém-reeleita.

2. Os golpes em nosso País são recorrentes, e já houve muitos além dos mais conhecidos, que são os de caráter predominantemente militar: 1937, 1945, 1954, 1961 e 1964.

3. O jornalista Luiz Adolfo Pinheiro intitulou seu bom livro, “A República dos Golpes”, publicado em 1993, que abrange somente os anos de Jânio Quadros a Sarney.

4. Não só no Brasil historicamente, mas cada vez mais no mundo atual, os instrumentos principais dos golpes inspirados pelas potências imperiais têm sido instituições civis, como o legislativo e o judiciário.

5. Foi no âmbito da polícia civil que se articulou a conspiração concluída na área militar, que depôs o presidente Vargas em 1954.

6. A famigerada, desde o Estado Novo, Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS, chefiada pelo simpatizante nazista, Cecil Borer, foi que armou o atentado da rua Tonelero, envolvendo a guarda pessoal do presidente e a ela atribuindo o crime.

7. O alvo era o próprio major Vaz, para acender a revolta Aeronáutica e na opinião pública, e não, Carlos Lacerda, o encarniçado adversário de Vargas, com o simulado e inexistente tiro em seu pé.

8. Por que o DOPS? No auge da Guerra Fria, os nazistas e simpatizantes foram recrutados em massa pelos serviços secretos das potências angloamericanas, para reprimir os “comunistas”, rótulo ao qual buscavam associar todos os que, como os nacionalistas, desagradassem àquelas potências.

9. Voltemos a 2014: no período eleitoral, delegados da polícia federal, a que se atribui serem simpáticos ao PSDB, vazaram informações do inquérito (operação Lavajato), em que investigam irregularidades em contratos entre a Petrobrás e grandes empreiteiras de obras de infra-estrutura.

10. Há poucos dias, acabam de prender executivos dessas empreiteiras, as quais, além de atingidas pelo escândalo, com repercussões sobre futuras contratações, serão provavelmente condenadas ao pagamento de pesadas multas.

11. Desavisados moralistas exultam com essa suposta demonstração de que as instituições do País estejam combatendo eficientemente a corrupção. O PT louva a presidenta por ter sancionado nova lei, que permite agir também contra os corruptores.

12. O povo ilude-se e acredita que seja isso mesmo que está em causa. Desconhece a natureza do jogo prevalecente nas altas esferas do poder, notadamente as do poder mundial. Para isso concorre o tsunami de ignorância gerado pelos investimentos que nela faz a oligarquia concentradora transnacional, há um século.

13. A mega-corrupção exercida por essa oligarquia coopta colaboradores em todas as estruturas econômicas e institucionais e, ironicamente, usa, a seu serviço, a corrupção derivada, a de menor porte, aumentada inclusive em decorrência do investimento na anticultura e na destruição dos valores éticos.

14. É essa, a derivada, a que aparece, quando sua exposição serve aos objetivos da estratégia imperial, produzindo grande comoção em amplos segmentos da população e desviando o foco dos reais problemas e de suas fontes geradoras.

15. Sem acesso às informações sobre como a oligarquia financeira envolve os poderes constituídos do Estado, infiltrados por seus interesses, o povo concentra seu ódio sobre os corruptos expostos pela corruptíssima grande mídia. Deveria desconfiar de que, se são expostos, é porque são os que estão causando menor dano ao País.

16. Por que as grandes empreiteiras estão sob o fogo da repressão? Elas constituem o principal núcleo de poder econômico no País que ainda não foi controlado pelo capital estrangeiro. São exportadoras de serviços, ocupam pessoal qualificado e se tornaram conglomerados que investem até mesmo em tecnologia de uso militar.

17. Ademais, o escândalo que domina as atenções envolve também a principal estatal do País, ou seja, uma das poucas empresas gigantes sob controle nacional, apesar de infiltrada por quadros ligados às transnacionais do setor e a bancos da oligarquia financeira angloamericana.

18. Para fechar, convém ter presente a penetração de ideias e a cooptação por parte de entidades estrangeiras na Polícia Federal, notória desde que a Delegacia Antitóxicos recebe ajuda de sua congênere norte-americana.

19. Não se deveria tampouco ignorar a política das numerosas agências de inteligência dos EUA de atrair as simpatias de quadros das instituições-chave do País, como a Polícia Federal.

20. O foco na corrupção, ignorando a fonte da mega-corrupção, é instrumento do poder oligárquico mundial. Em geral, estão alinhados com este, os que mais gritam contra a corrupção.

21. Um dos fatos fundamentais obliterados é que, no âmbito dos carteis financeiros e econômicos, a ética pode ser tema de discurso, mas não faz parte do objetivo central, o poder, nem do objetivo imediato, o lucro, independentemente de como seja obtido.

Corrupção INSTITUCIONAL

22. Expor as reais razões do escândalo das relações entre grandes empreiteiras e a Petrobrás não é dizer que nelas houve corrupção. Isso, porém, está sendo usado para favorecer grupos transnacionais, tradicionais comitentes de n tipos de corrupção.

23. Entre eles, os permitidos pelas leis e políticas impostas aos países, tais como tolerar as práticas monopolistas e demais formas de abuso do poder econômico.

24. Não menos danoso para o Brasil é ferir de morte as empresas privadas e públicas em que se mantém os últimos bastiões de autonomia tecnológica no País, alvo que é do “apartheid tecnológico”, decorrente de os carteis transnacionais dominarem o mercado, reforçado por acordos internacionais, como o TRIPS no âmbito da OMC.

25. Os promotores da desestabilização da presidenta da República e do golpe em curso são de dois tipos:

a) os colaboradores do sistema imperial, que nos impõe, desde 1954, o modelo de dependência financeira e tecnológica, e utilizam hipocritamente o pretexto da moralidade para desnacionalizar e desindustrializar ainda mais a economia;

b) os enganados pelo alienado discurso moralista e são arregimentados para solidarizar-se com a repressão destinada a eliminar as empreiteiras e acabar de desnacionalizar a Petrobrás.

Nos tempos do antipátria FHC...

26. Isso não significa que não se deva expurgar a estatal de seus quadros corruptos. Se isso for feito, como se deve, vai-se notar que a maior parte deles é ligada a grupos e a interesses das transnacionais estrangeiras, lá colocados.

27. Isso ocorreu principalmente no governo antipátria de FHC, e a maior parte dos corruptos permaneceu na Petrobrás e na ANP, nos governos petistas, conciliadores em relação àqueles grupos. Esse é o caso, inclusive, do pivô do escândalo, o delator premiado.

28. Enquanto a operação Lavajato ocupa o centro das atenções, e avança em direção favorável ao objetivo de enfraquecer o já fragilizado poder econômico nacional, são esquecidas as causas fundamentais dessa fraqueza.

29. Estas se situam no binômio modelo pró-imperial-envidamento público. A propósito, o Brasil está com déficit recorde no balanço de transações correntes com o exterior: US$ 85 bilhões por ano.

30. Essa sempre foi a causa do crescimento da dívida externa, desde que JK (1956-1960) aplicou a política entreguista do golpe udenista-militar de 1954, que cumulou de favores os carteis transnacionais para monopolizarem os mercados industriais do País.

31. A dívida externa ascendeu a US$ 541,42 bilhões, em agosto último (R$ 1,4 trilhões ao câmbio atual). A dívida pública interna, a R$ 3,067 trilhões.

32. O serviço da dívida (juros e amortizações) consome 42% das despesas da União, e realimenta-se com as taxas de juros absurdamente altas e que, por isso, não podem ser pagas só com recursos dos tributos.

Dívida Pública - Causa da pobreza

33. A parte do serviço da dívida que o Tesouro paga com as receitas corresponde ao “superávit primário”. Elaborei uma tabela, no programa Excel, lançando o montante da dívida pública interna em 1994, e taxa de juros de 3% aa..

34. Por que 3% aa.? Essa taxa supera a de muitos países, e não há base para a ideia, sempre impingida ao público, de que se têm de combater a inflação com juros elevados.

35. No Brasil, os preços são altíssimos, porque os carteis impõem os que desejam, mais ainda que em outros países. Fosse outra a política, a inflação seria moderada, e não ficaria ao sabor de farsas, como a do Plano Real.

36. Além dos juros 3% aa., inseri na tabela os montantes do primário, para resgatar dívida, implicando que não haveria novas emissões de títulos para isso.

37. Resultado: mesmo sem superávit primário de 1995 a 1997, pois ele só ocorreu em 1994 e de 1998 a 2001, a União já teria eliminado a dívida interna, e sobrariam R$ 22 bilhões, em 2001.

38. Ora, com as absurdas taxas de juros comandadas pelo cartel dos bancos e cumpridas pelo BACEN e, apesar de superávits primários totalizando, de 2002 a 2013 em valores correntes, R$ 1,082 trilhões, a dívida interna cresceu para quase R$ 3 trilhões.

 

[*] Adriano Benayon: Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica e tecnológica. Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.

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