quarta-feira, 27 de maio de 2015

Só o Marin? Injustiça!

GilsonSampaio
Minha ameba lobotomizada está revoltada. Tem gritado até quando dormindo:
Porquê, ó meu Deus, porquê, não há um, só unzinho, galeguinho de zoinho azul europeu entre os presos por corrupção na FIFA!”
Na caixa de pesquisa desse bloguezinho mequetrefe digite CBF para ver uma coleção de denúncias contra a CBF, Ricardo Teixeira e Globo.
Quem elege Ricardo Teixeira para a holding CBF?
GilsonSampaio
As denúncias apontam que a famiglia Havelange/Teixeira tornou a CBF numa holding de corrupção, segundo um Globo Repórter exclusivo sobre o todo poderoso da segunda dinastia. Fica subentendido na entrevista à tucana revista Piauí que esta será a definitiva tacada de Ricardo Teixeira – a Copa do Mundo e seus negócios multi-milhardários.
As denúncias datam de mais de 10 anos e até um CPI da NIke foi criada para apurar a bandalheira. Da CPI, dizem que restou somente o ódio de Teixeira por São Paulo, tudo o mais foi … foi … foi …, bem, os parlamentares deram um jeitinho.
Me intriga na nossa brava imprensa o não questionamento dos cartolas do futebol, responsáveis pelas seguidas re-eleições do capo da CBF.
Será que Eurico Miranda, Kléber Leite, Andres Sanches, Zezé Perrela e Dualib, entre outros menos votados, teriam algo de interessante a dizer?
A música do vídeo é a A Taça do Mundo é Nossa de Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô e acabou se consagrando como o hino da primeira conquista do Brasil em 1958. O texto no final foi extraído da Revista Piauí.

As denúncias da grobo contra Ricardo Teixeira estão aqui.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Fora Levy é a palavra de ordem

Via Brasil de Fato

Os trabalhadores não devem pensar que o ajuste é apoiado por toda a burguesia e que será aplicado com facilidade. A correlação de forças não é assim tão desfavorável. Dentro do próprio governo, ministros ligados mais diretamente aos segmentos da classe capitalista manifestaram reservas e mesmo críticas ao ajuste fiscal proposto por Joaquim Levy

Armando Boito Jr.*

A luta contra o ajuste fiscal ganhou força. O prefeito do Rio de Janeiro obteve na Justiça o direito de pagar a dívida da cidade que administra dentro da legislação estabelecida e que vem sendo burlada pelo Ministério da Fazenda. Para não ficar para trás, o prefeito Fernando Haddad, que tinha aceito passivamente o arrocho imposto pelo ministro Joaquim Levy à cidade de São Paulo, entrou com ação na Justiça apresentando o mesmo pleito.

Não bastasse isso, os governadores do Paraná e do Rio Grande do Sul estão seguindo o mesmo caminho. A Associação Nacional dos Prefeitos está aconselhando a cerca de 180 municípios do país que façam o mesmo. Para usar a conhecida frase da piada em que alguém tenta amenizar uma notícia de falecimento, digamos que o ajuste fiscal subiu no telhado.

Desde que Levy foi empossado, os movimentos populares têm denunciado e combatido o ajuste fiscal. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) tem denunciado o ajuste como responsável pelo atraso do lançamento da terceira fase do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. Muitos sindicatos do setor público já estão sentindo, diretamente, o impacto dessa política contracionista e no setor privado as demissões crescem.

Os trabalhadores não devem pensar que o ajuste é apoiado por toda a burguesia e que será aplicado com facilidade. A correlação de forças não é assim tão desfavorável. Dentro do próprio governo, ministros ligados mais diretamente aos segmentos da classe capitalista manifestaram reservas e mesmo críticas ao ajuste fiscal proposto por Joaquim Levy.

Dezenas de associações empresariais, embora proclamem apoio genérico ao ajuste fiscal, estão lutando abertamente contra as medidas do ajuste que atingem os segmentos que representam. Uma luta que tem unificado esses segmentos é a luta contra o fim da desoneração da folha de pagamento. Essa não é uma luta que interesse aos trabalhadores, porque ela ameaça os fundos da Previdência Social. Porém, interessa aos trabalhadores saber que mesmo na classe capitalista o ajuste fiscal está longe de obter apoio unânime.

A política neodesenvolvimentista dos governos liderados pelo PT propiciou melhorias nas condições de trabalho, de vida e, também, nas condições de luta de amplos segmentos das classes populares – o que é muito importante. Isso foi muito claro no período em que a economia mundial crescia. Como é sabido, hoje a situação é outra.

Contudo, no decorrer do primeiro Governo Dilma, principalmente a partir de 2013, começou a se desenhar uma nova conjuntura. A situação da economia mundial mudou e o capital estrangeiro forâneo ou aqui investido, juntamente com os segmentos da burguesia brasileira que se integraram a esse capital, perceberam na queda do crescimento econômico a oportunidade de desencadearem uma ofensiva restauradora, visando obter um governo que realizasse uma nova onda de reformas neoliberais. Mobilizaram a alta classe média, que é a sua base de massa, e o PSDB e a mídia, seus representantes partidário e ideológico, organizaram essa ofensiva.

Como todos sabem, o Governo Dilma decidiu, então, recuar. Fez uma campanha eleitoral de esquerda, para mobilizar a militância para a “guerra”, e implantou a conciliação com o inimigo da véspera assim que obteve a vitória eleitoral. Joaquim Levy é o nome que representa esse recuo.

A partir das iniciativas das prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo, e dos governos do Paraná e do Rio Grande do Sul, além das novas ações que seguramente virão, o ajuste fiscal de Joaquim Levy e toda a política de conciliação com o campo neoliberal ortodoxo estão em risco.

Se o movimento popular já vinha batendo no ajuste fiscal, agora tem motivo para se animar e bater mais pesado ainda. O movimento popular tem dispensado apoio crítico aos governos liderados pelo PT. Porém, o equilíbrio entre a ação de apoio e a ação de crítica é precário e dinâmico. À medida que o Governo Dilma concilia com os principais inimigos das classes trabalhadoras, será o termo “crítica” e não o termo “apoio” da equação que deverá, paulatinamente, prevalecer.

Está na hora de levantar a palavra de ordem “Fora Levy”.

*Armando Boito Jr. é Professor de ciência política na Unicamp.

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila”

Via El País

No Rio de Janeiro, revela a história de sua família e sua oposição à ditadura

ANTONIO JIMÉNEZ BARCA Rio de Janeiro 25 MAY 2015 - 22:00 BRT

Chico Buarque, "um sujeito magro e tímido, simples e sorridente". / LUIZ MAXIMIANO

Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.

Sobre uma mesa repousa o novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge aditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.

Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?

Com 20 anos, você tem um milhão de ideias para compor. Depois, tudo torna-se mais insípido

Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: "Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos... Foi para a Alemanha, teve aquele filho...”. E aí soltou isso.

P. O que você fez?

R. Então lhe disse: "Mas que filho?". E aí o Vinicius respondeu: "Mas você não sabia disso, do filho?". E eu: "Não". Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.

O cantor e escritor Chico Buarque. / LUIZ MAXIMIANO

P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.

R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.

P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.

R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.

É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio àconvulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso "Heil Hitler!") pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.

P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor...

R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.

P. Tinham mais coisas em comum?

R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?

Demorei para descobrir que tinha um irmão. Era um segredo de família

P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?

R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.

P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?

R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante..., enfim, dei muito trabalho para minha família.

P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?

R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.

P. Mas são atividades assim tão diferentes?

R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas... E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.

P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.

R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.

P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?

R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.

P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?

R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.

P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?

R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.

P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?

R. Ah! Eles... eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da cançãoChega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.

P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?

R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.

P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.

R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.

P. E como o senhor vê a situação atual?

R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula;têm medo que Lula volte a se candidatar.

P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?

R. Isso já faz muito tempo.

P. E continuam dizendo.

R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.

A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. "Minha neta sabe, mas eu não aprendo", explica. Observa o bonito entardecer e diz: "Eu o acompanho." Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

Chico Buarque

Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas como Apesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

Janio de Freitas: a ditadura sem ditadura

Sanguessugado do Outro Lado da Notícia

 

cunhanapa

Previsto para hoje e tido como início do processo de votação da reforma política, seja o que for que se passe na Câmara será o ponto culminante, por ora, do período mais desrespeitoso da maioria dos deputados com o país nos anos sem ditadura.

O que está para ser votado são escolhas tão importantes como o sistema eleitoral para compor a própria Câmara. De onde e como deve vir o dinheiro para financiar as campanhas eleitorais. A validade ou extinção das coligações de partidos. A duração do mandato de senador. O número de eleitores necessários para apresentação de um projeto de iniciativa popular, e ainda mais. Questões todas muito importantes para melhoria ou maior degradação da política e da democracia por aqui.

Foi feito um relatório a ser votado, como resultado de mais de três meses de discussões em uma comissão especial. Algumas conclusões não coincidiram com o desejo pessoal do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. O relator Marcelo Castro fez alterações obedientes, mas sobrou alguma coisa inalterada.

Eduardo Cunha não admitiu que a comissão votasse o relatório, levando-a a adiar a decisão. Já que o relator se recusava aos gestos finais de servidão, Eduardo Cunha fez saber que iria substituí-lo. Logo, porém, optou por outra exorbitância: levaria o projeto para votação direta do plenário, com a já conhecida manipulação de sua tropa, desprezando o relatório e a opção final da comissão sobre os temas nela discutidos.

Nada do que tenha sido negociado ontem, sobre o encaminhamento a prevalecer, merece confiança até hoje. A vontade de Eduardo Cunha, já se viu bastante, não tem admitido concessões mais do que aparentes.

O PT, boquiaberto, tem dois ou três deputados em luta contra o presidente da Câmara, e o restante com participação, no máximo, pela distante periferia. O PSDB, com indigestão de impeachment, não se mexe, mas, como em expectativas anteriores, dirige a Eduardo Cunha acenos de simpatia significativa. A divergência começou entre peemedebistas, e peemedebistas vão fazer o número para decidi-la. Nele, Eduardo Cunha não opina: manda na maioria. Como se dá com quase todas as bancadas pequenas.

E pronto. Temos um instantâneo da republiqueta que, desse modo, define a cara de sua democracia.

PALOCCI

Joaquim Levy acrescentou, ao seu diga ao povo que fico, a informação de que considera estar o corte de R$ 69,9 bilhões do Orçamento “na medida adequada” e “sem risco para o crescimento econômico”.

Se essa é a medida adequada, por que batalhou pelo corte de R$ 80 bilhões, no início, e “entre R$ 70 e R$ 80 bilhões”, depois? E que crescimento econômico? Só se não tem risco porque não existe, nem em perspectiva.

No Brasil, a hipocrisia é uma forma de governar a economia. Joaquim Levy: uma saudade de Palocci.

QUE JUSTIÇA

O ministro Luiz Fux reivindica, para si e para seus pares no Supremo Tribunal Federal, vencimentos (no funcionalismo não se chamam salários) e benefícios que restauram um multissecular: nababesco. Mas os acompanha de uma razão solene: “a necessidade de valorização institucional da magistratura”. Não, é mesmo e só de valorização financeira e patrimonial.

Institucional talvez seja esta outra reivindicação: se condenados por improbidade, magistrados não perderiam o cargo. Ou seja, continuariam magistrados para condenar também acusados de improbidade.

As migrações não caem do céu

Via O Diário.info

Fernando Buen Abad Domínguez

A burguesia derrama lágrimas de crocodilo pelos mortos no Mediterrâneo. Finge ignorar que os principais responsáveis por essas mortes são o capitalismo e o imperialismo, as suas agressões militares, a exploração desenfreada, o bárbaro saque que prosseguem das riquezas e dos recursos dos países de onde fogem esses migrantes.

Urge a unidade Sul-Sul

Todos os dias milhões de pessoas expulsas das suas terras por variadas e intermináveis razões vão, condenados pelo capitalismo, em busca de migalhas laborais e de esmolas políticas. Vão com a sua descomunal carga de miséria planetária aos ombros e com a esperança de que a sorte os acompanhe para que não morram na tentativa. Na Alemanha, em Itália, em França, em Espanha… e nos EUA, por exemplo, políticos, clérigos e empresários reúnem-se para ensaiar gestos de perplexidade e consternação. Aplaudem-se entre si, dão palmas nas costas, reúnem algumas dádivas e regressam satisfeitos ao sonho uterino mass media com suas câmaras e os seus microfones treinados em inocular um pouco de tranquilidade aos seus chefes bancários e aos seus pares empresários. “Já foram tomadas as medidas pertinentes para atender a esta emergência”.

Em um sector nada pequeno da burguesia planetária vive a ideia de que a “Gente que Faz”, quer dizer a que é realmente útil e produtiva, é aquela que “faz” negócios, que acumula propriedades e que “faz” dinheiro. Dizem-no sem se engasgar em público e em privado, é uma convicção enraizada e é um pilar da ideologia dominante. Todos os demais são um lastro, são um estorvo ou são inimigos do “fazer”. E custam caro. Em Espanha já se organiza a rapaziada enamorada da limpeza… étnica. Na Argentina a direita conta com poucos, estão emocionados.

Esse sector sente e crê que o mundo foi feito por eles e para eles, é o seu mundo. Sentem e crêem que tudo o que os “outros” fazem e exigem é um abuso, um furto, um parasitismo da maioria que não só exerce de lastro como desfeia torna perigosa a “paisagem”. Consola-se a burguesia mirando-se no espelho de uma arrogante ideologia baseada na exclusão e no desprezo. É a irracionalidade funcional da propriedade privada.

A tal ponto chega a petulância e o engano que se convencem a si mesmos - e a outros - de que o Trabalho são eles, de que são eles quem mais trabalha e que sua “missão salvífica” é “dar trabalho” aos “mais necessitados”. Vão à missa, comem a hóstia e sentem-se bons. Depois não sabem explicar a si próprios como há gente que abandona os seus países para ir padecer, como imigrante, as injustiças que isso trás consigo. ¡Não conseguem explicá-lo!

Fica debaixo do tapete do cenário histórico oligarca, escondido com vassouras ideológicas, militares e policiais, o horror do saque, a monstruosidade do despojo e desde logo o fluxo de lucros que transita de um país saqueado para os bancos dos paraísos “centrais” onde a “tele” exibe estupefacta toda essa gente empoleirada em barcos tratando de colar-se ao “primeiro mundo”. O burguês assusta-se, sente-se encurralado, não quer tanto pobre próximo dos seus bairros e toma decisões nazi-fascistas disfarçadas de filantropia.

Entretanto o saque não cessa nem na Líbia, nem no Iraque. Tão-pouco cessa a escravatura e o despojo em África nem na India, nem na China. Nem no México nem na América Central… “Nos anos 60 do século passado, em pleno processo descolonizador, a África exportava alimentos à razão de 1,3 milhões de toneladas anuais. Na actualidade, a África tem que importar 25% dos alimentos que consome, enquanto as mortes por fome são algo de corrente.”…“E os lucros destas empresas são exorbitantes. Temos uns dados de 2007: ― Cargill aumentou os seus lucros 36 por cento; ADM, 67 por cento; ConAgra, 30 por cento; Bunge, 49 por cento; Dreyfus, 77 por cento, no último trimestre de 2007. Monsanto obteve 44 por cento mais do que em 2006 e Dupont-Pioneer 19 por cento. ”… “ ― Liderando o saque internacional de negócios agrícolas africanos encontram-se bancos de investimento, fundos de cobertura, comerciantes de matérias-primas e fundos soberanos que entesouram riqueza, bem como fundos de pensões britânicos, e fundações e indivíduos atraídos por obter algo da terra mais barata do mundo. Juntos estão prejudicando Sudão, Quénia, Nigéria, Tanzânia, Malawi, Etiópia, Congo, Zâmbia, Uganda, Madagáscar, Zimbabwe, Mali, Serra Leoa, Gana e outras nações africanas. Só a Etiópia aprovou 815 projectos agrícolas estrangeiros desde 2007 ‖ (43). Multinacionais como as norte-americanas ADM (Archer Daniels Midland) ou a britânica Actis estão a destinar milhões de dólares para a aquisição de terras no Terceiro Mundo.” [1]

Poderíamos afogar-nos com números e dados no inventário do horror planetário desencadeado pelo capitalismo. Poderíamos paralisar-nos e deprimir-nos se não acontecesse que no próprio centro desse inferno explorador e desumano os povos lutam a seu modo, e como podem, contra a barbárie que os esmaga.

Não é coisa de apenas ter em vista o “festim da besta” para, com isso, esperar um salto da consciência e um sobressalto organizado e revolucionário.

Nenhuma revolução se comporta linearmente nem opera com manuais do “feliz usuário”. Os métodos emergem das condições objectivas e do grau de consciência que ascende delas, questionando-as para as superar na prática. Isso a burguesia sabe-o também.

É uma tarefa crucial não engolir as “lágrimas de crocodilo” com que a ideologia da classe dominante surge na cena mediática a proporcionar-nos o seu rosto compungido pelos milhares de mortos no Mediterrâneo ou pelos pobres que buscam pão em “terras boas” levados por não se sabe que aventura ou que ilusão. É parte da Batalha de las Ideias explicar a nós próprios - e explicar - que antes de que esses milhares joguem a vida em migrações criminosas ocorreram nos seus países saques, crimes e despojos à rédea solta e que o capitalismo, simplesmente, não tem saídas.

Nota
[1] http://resistir.info/livros/el_saqueo_de_africa.pdf

Rebelión publicou este artigo com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.