segunda-feira, 28 de julho de 2014

Wikileaks revela gravíssima sabotagem dos EUA contra Brasil com aval de FHC

Sanguessugado do Pragmatismo Político

Telegramas revelam intenções de veto e ações dos EUA contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro com interesses de diversos agentes que ocupam ou ocuparam o poder em ambos os países

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Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedir, dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional da grande mídia brasileira, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira. Segue o artigo do jornalista Beto Almeida.

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 – de fabricação ucraniana – no Centro de Lançamentos de Alcântara , no Maranhão.

Veto imperial

O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não quer” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Guinada na política externa

O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registrada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja, finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, atuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no seleto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração econômica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, a mídia nacional que não destacou a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria sua linha editorial historicamente refratária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.

Bomba! Bomba!

O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pelo Wikileaks e que também revela intenções de veto e ações contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio a tona de forma torta pela Revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearenseDalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Giráo publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a ótica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas , os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil , chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em atividades acadêmicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do setor militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral

A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irã. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projeto que poderia ser facilmente direcionado para a produção de uma bomba atômica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pelo Wikileaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ajmadinejad , presidente do Irà, apresentou à Assembléia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente

O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de um candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial da grande mídia em sustentação às diretrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso esses pólos midiáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise se encontram tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pelo Wikileak

Leia com atenção

FHC entrega Base de Alcântara a Tio Sam

José Arbex Jr.

A TRAGÉDIA PALESTINA E A VITÓRIA DOS “ANÕES DIPLOMÁTICOS” SOBRE OS ISRAELENSES NA ONU.

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

(Jornal do Brasil) - O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, deve estar achando o máximo ter sido repentinamente elevado, pela rançosa e entreguista direita latino-americana - como o Sr. Andrés Oppenheimer - à condição de “superstar”, depois de ter chamado o Brasil de “anão diplomático” e de ter nos lembrado, com a autoridade moral de um lagarto, que “desproporcional é perder de 7 x 1”, referindo-se à Copa do Mundo, e não, matar e ferir mais de 3.000 pessoas e desalojar quase 200.000, para “vingar” um número de vítimas civis que não chegam a cinco.

Com acesso a drones e a sofisticados satélites de vigilância norte-americanos, e a compra de espiões em território “controlado” pelo Hamas – traidores e mercenários existem em todos os lugares - Israel poderia, se quisesse, capturar ou eliminar, com facilidade, em poucos meses, os responsáveis pelo lançamento de foguetes contra seu território, assim como alega contar com eficaz escudo que o protege da maioria deles.

O governo de Telaviv - e o Mossad - não o faz porque não quer. Prefere transformar sua resposta em expedições punitivas não contra os responsáveis pelos projéteis, mas contra todo o povo palestino, matando e mutilando - como fizeram os nazistas com os próprios judeus na Segunda Guerra Mundial- milhares de pessoas, apenas pelo fato de serem palestinos.     

Essa atitude, no entanto, não impediria que surgissem novos militantes dispostos a encarar a morte, para continuar afirmando – pelo único meio que bélico lhes restou - que a resistência palestina continua viva.

Do meu ponto de vista, nesse contexto de cruel surrealismo e interminável violência do confronto, para chamar a atenção do mundo, os palestinos, principalmente os que não estão ligados a grupos de inspiração islâmica, deveriam não comprar mais pólvora, mas tecido.

Milhares e milhares de metros de pano listrado, como aqueles que eram fabricados por ordem doKonzentrationslager Inspetorate, e das SS, na Alemanha Nazista, para vestir entre outros, os prisioneiros judeus dos campos de extermínio.

Os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza poderiam - como fez Ghandi na Índia - adotar a não violência, raspar as suas cabeças, as de suas mulheres e filhos, como raspadas foram as cabeças dos milhões de judeus que pereceram na Segunda Guerra Mundial, tatuar em seus braços, com números e caracteres hebraicos, a sua condição de prisioneiros do Estado de Israel, costurar, no peito de seus uniformes, o triângulo vermelho e as três faixas da bandeira palestina, para ser bombardeados ou morrer envoltos na mesma indumentária das milhões de vítimas que pereceram em lugares como Auschwitz, Treblinka e Birkenau.

Quem sabe, assim, eles poderiam assumir sua real condição de prisioneiros, que vivem cercados dentro de campos e de guetos, por tropas de um governo que não é o seu, e que, em última instância, controla totalmente o seu destino.

Quem sabe, despindo-se de suas vestimentas árabes, das barbas e bigodes de seus homens, dos véus e longos cabelos de  suas mulheres, despersonalizando-se, como os nazistas faziam com seus prisioneiros, anulando os últimos resquícios de sua individualidade, os palestinos não poderiam se aproximar mais dos judeus, mostrando-lhes, aos que estão do outro lado do muro e aos povos  do resto do mundo - com imagens semelhantes às do holocausto – que pertencem à mesma humanidade, que são, da mesma forma,  tão vulneráveis à doença, aos cassetetes, às balas, ao desespero, à tristeza e à fome, quanto aqueles que agora os estão bombardeando.

As razões da repentina e grosseira resposta israelense contra o Brasil - que ressaltou, desde o início, o direito de Israel a defender-se - devem ser buscadas não no “nanismo” diplomático brasileiro, mas no do próprio governo sionista.

É óbvio, como disse Yigal Palmor, que no esporte bretão 7 a 1 é um número desproporcional e acachapante.

Já no seu campo de trabalho - a diplomacia –como mostrou o resultado da votação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou, há três dias, a investigação das ações israelenses em Gaza, os “anões” diplomáticos - entre eles o Brasil, que também votou contra a posição israelense - ganharam por 29 a 1, com maioria de países do BRICS e latino-americanos. Só houve um voto a favor de Telaviv, justamente o dos EUA.

Concluindo, se Palmor – que parece falar em nome do governo israelense, já que até agora sequer foi admoestado - quiser exemplo matemático ainda mais contundente, bastaria  lembrar-lhe que, no covarde “esporte” de matar seres humanos indefesos – entre eles velhos, mulheres e crianças –  disputado pelo Hamas e a direita sionista israelense, seu governo está ganhando de goleada, desde o início da crise, pelo brutal - e desproporcional placar - de quase 300 vítimas palestinas para cada civil israelense.

Por que o sistema de educação da Finlândia é tão reverenciado

Sanguessugado do Diario do Centro do Mundo

Paulo Nogueira

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Saiu há pouco tempo um levantamento sobre educação no mundo feito pela editora britânica que publica a revista Economist, a Pearson.

É um comparativo no qual foram incluídos países com dados confiáveis suficientes para que se pudesse fazer o estudo.

Você pode adivinhar em que lugar o Brasil ficou. Seria rebaixado, caso fosse um campeonato de futebol. Disputou a última colocação com o México e a Indonésia.

Surpresa? Dificilmente.

Assim como não existe surpresa no vencedor. De onde vem? Da Escandinávia, naturalmente – uma região quase utópica que vai se tornando um modelo para o mundo moderno.

Foi a Finlândia a vencedora. A Finlândia costuma ficar em primeiro ou segundo lugar nas competições internacionais de estudantes, nas quais as disciplinas testadas são compreensão e redação, matemática e ciências.

A mídia internacional tem coberto o assim chamado “fenômeno finlandês” com encanto e empenho. Educadores de todas as partes têm ido para lá para aprender o segredo.

Se alguém leu alguma reportagem na imprensa brasileira, ou soube de alguma autoridade da educação que tenha ido à Finlândia, favor notificar. Nada vi, e também aí não tenho o direito de me surpreender.

Algumas coisas básicas no sistema finlandês:

1)Todas as crianças têm direito ao mesmo ensino. Não importa se é o filho do premiê ou do porteiro.

2)Todas as escolas são públicas, e oferecem, além do ensino, serviços médicos e dentários, e também comida.

3) Os professores são extraídos dos 10% mais bem colocados entre os graduados.

4) As crianças têm um professor particular disponível para casos em que necessitem de reforço.

5) Nos primeiros anos de aprendizado, as crianças não são submetidas a nenhum teste.

6) Os alunos são instados a falar mais que os professores nas salas de aula. (Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostrou que 85% do tempo numa sala é o professor que fala.)

Isto é uma amostra, apenas.

Claro que, para fazer isso, são necessários recursos. A carga tributária na Finlândia é de cerca de 50% do PIB. (No México, é 20%. No Brasil, 35%.)

Já escrevi várias vezes: os escandinavos formaram um consenso segundo o qual pagar impostos é o preço – módico – para ter uma sociedade harmoniosa.

Não é à toa que, também nas listas internacionais de satisfação, os escandinavos apareçam sistematicamente como as pessoas mais felizes do mundo.

Para ver de perto o jeito finlandês de educar crianças, basta ver um documentário que está no youtube.

Todos os educadores, todas as escolas, todas as pessoas interessadas na educação, no Brasil, deveriam ver e discutir o documentário.

Quanto antes

O primeiro terrorista

Sanguessugado do Bourdoukan

Georges Bourdoukan

 

"E foram muitos mais os que matou morrendo, do que os que matara antes quando vivo(Juízes 16,30)".


Esse trecho da Bíblia conta como Sansão, o hebreu (o que veio de fora) matou mais de três mil filisteus dando cabo à própria vida. Ou seja, sacrificar-se juntamente com o inimigo não é algo original no Oriente Médio.

Há mais de dois mil e quinhentos anos que isso acontece, mas coube a Sansão o mérito da primazia.

Para os raros leitores da Bíblia (apesar de ser o livro  mais vendido no Ocidente) explica-se que Sansão era um sujeito inquieto que gostava de uma briga. Em Juízes 16,15 está escrito: “E pegando na queixada de um jumento, que achou à mão, e que jazia ali, matou com ela mil homens”.

A bíblia não explica quanto tempo ele levou para matar mil homens na base da porrada e nem como isso foi possível. O que não tem a menor importância porque todo mundo acredita no livro sagrado mesmo sem nunca tê-lo lido.

Sansão gostava de freqüentar o que as más línguas de hoje denominam de prostíbulos.

Seu nome em aramaico (Shamshum) significa pessoa ágil e vivaz, mas, infelizmente para ele, não tão ágil e vivaz quanto a belíssima Dalila, por quem se apaixonou perdidamente a ponto de lhe revelar a origem de sua força.

Dalila, cujo nome pode ser traduzido como Guia ou Orientadora, aproveitou-se para vingar o massacre de seu povo. Afinal, num mundo onde ainda prevalece o olho por olho, dente por dente, há pouco espaço para o amor, para o perdão e para a solidariedade. O resto da história todo mundo conhece, graças ao cinema.

Após sacrificar a própria vida para matar seus inimigos, Sansão foi enterrado no túmulo de seu pai Manué, “depois de ter sido juiz de Israel vinte anos (19-31)”.

Mais de dois mil e quinhentos  anos depois, o número de adeptos de seu exemplo (matar o inimigo com o próprio sacrifício) cresce vertiginosamente.

O que não deixa de ser lamentável.

Será isto o que nos reserva o mundo?

Os sem-candidato

Sanguessugado do Cinema & Outras Artes

Mauricio  Caleiro

“Ao contrário: a hesitação (para regulamentar a atividade midiática, por exemplo), os avanços e recuos (como na tentativa, logo abandonada, de reduzir os juros a níveis civilizados) e a sensação de improviso e de imediatismo eleitoral têm dado o tom das administrações Lula e Dilma, que têm o mérito de se diferenciar das anteriores por priorizarem o social – notadamente o combate à pobreza -, mas mantendo intacto o lucro dos situados no topo da pirâmide e sem reestruturar efetivamente as áreas sociais sob alçada do Estado.”

As eleições presidenciais deste ano apresentam uma peculiaridade que suscita preocupações: nunca, no período pós-ditadura, um número tão grande de eleitores vê-se desprovido de candidaturas que atendam às suas prioridades políticas.

Embora tal fenômeno seja mais perceptível entre parcelas à esquerda – desde ex-comunistas e brizolistas, passando por adversários históricos do neoliberalismo e por desencantados com o "novo PT" -, ele está longe de se restringir a tais estratos, incorporando desde tecnocratas e administradores com perfil mais conservador até pessoas sem coloração política, mas que têm, em comum, a ânsia por uma maior clareza de prioridades e planificação efetiva na administração do Estado, a médio e longo prazos.

Como demonstram as pesquisas, soma-se a esse grupo um volumoso contingente de jovens entre 16 e 22 anos, que se sentem atraídos à política, mas não se identificam nem com os partidos mais conservadores nem com a autointitulada esquerda capitaneada pelo PT, a qual assomou ao poder quando ainda eram crianças e tende a lhes parecer parte integrante do establishment.

Carência de planejamento

Para além da diferentes visões de mundo e da orientação que cada grupo gostaria que fosse dada às principais políticas públicas, os une a exasperação com o eterno improviso, a postura meramente reativa que tem caracterizado as políticas federais desde a volta da democracia, seguida da convicção de que se faz necessário, para o próprio avanço institucional desta, que ao menos os setores prioritários – Saúde, Educação, Segurança, Economia, Transportes – passem a ser objeto de políticas e metas predeterminadas, para além do imediatismo estatístico e dos resultados forjados para efeitos eleitorais.

Embora, como já sugerido, a insatisfação reprimida que gerou tal demanda – explicitada nas Jornadas de Junho – seja da responsabilidade de todas as forças políticas que se revezaram no poder ao menos desde a redemocratização, ela é particularmente aguda no que se refere ao PT, já que a aliança comandada pelo partido, que se elegeu prometendo grandes mudanças, está prestes a completar 12 anos no comando do país, porém sem efetivar transformações estruturais em nenhuma dessas áreas, quanto mais planejadas a médio e longo prazos.

Ao contrário: a hesitação (para regulamentar a atividade midiática, por exemplo), os avanços e recuos (como na tentativa, logo abandonada, de reduzir os juros a níveis civilizados) e a sensação de improviso e de imediatismo eleitoral têm dado o tom das administrações Lula e Dilma, que têm o mérito de se diferenciar das anteriores por priorizarem o social – notadamente o combate à pobreza -, mas mantendo intacto o lucro dos situados no topo da pirâmide e sem reestruturar efetivamente as áreas sociais sob alçada do Estado.

O caso da Saúde

Tomemos o exemplo da Saúde, cuja profunda crise é admitida até por José Gomes Temporão, ministro da pasta durante todo o segundo governo Lula: a prometida reforma e expansão do SUS, de forma a torná-lo um sistema verdadeiramente universal de saúde pública de qualidade, foi deixada de lado como projeto, substituído pela adoção do Mais Médicos. Este programa tem o mérito de levar atendimento básico a regiões historicamente desassistidas, mas está longe de configurar um avanço tanto na estrutura laboratorial e hospitalar quanto no tratamento sistêmico e avançado de patologias de média e alta gravidades (sem deixar de frisar que se vale de condições empregatícias sui generis, que clamam pela ação do Ministério Público do Trabalho, se este tivesse independência e coragem para tal).

Para completar, concomitantemente à implementação do Mais Médicos, teve lugar, no interior do sistema público de saúde, uma questionável reformulação de prioridades e de horários de atuação de profissionais, além de um claro retrocesso em áreas que o Brasil vinha tendo um desempenho acima da média - como o combate à AIDS ou o fornecimento contínuo e gratuito de medicamentos de primeira necessidade. Hoje, ao contrário do resto do mundo, os casos de AIDS crescem no Brasil e abundam relatos de falta de medicamentos, inclusive daqueles usados para dores crônicas em pacientes com câncer.

Concomitante a tais problemas, há a negligência governamental com os planos de saúde para os quais são impelidos setores que vão da baixa classe média pra cima, temerosos do festival de horrores do SUS, com suas macas em corredores e óbitos à porta de hospitais. Tornaram-se rotina, nos últimos anos, os aumentos abusivos, muito acima da inflação, que levam ao desespero a clientela de aposentados cujos rendimentos são reajustados a conta-gotas. Também tornou-se rotina, entre conveniados, a necessidade de se recorrer à Justiça para conseguir a autorização para cada exame ou procedimento mais caro que o paciente vier a necessitar. E são frequentes as denúncias de que as administradoras dos planos retaliam os clientes que as processam judicialmente. Tudo isso sob a vista grossa do Ministério da Saúde de um governo dito de centro-esquerda e trabalhista.

Mais do mesmo

Esse processo ao qual se assiste no campo da Saúde – da abdicação de um projeto verdadeiramente democratizante e reestruturador em prol de medidas de baixo custo, porém de impacto eleitoral – se repete, em formatos diferentes mas dinâmica similar, em todas as outras áreas sociais ditas prioritárias. No ensino superior, por exemplo,, ao aumento exponencial do número de universitários - alardeado como intrinsecamente positivo - não corresponde um aumento minimamente proporcional de professores, laboratórios e bibliotecas, num modelo que, a pretexto de expandir o ensino superior, o está, na prática, sucateando. Colabora para tanto a defasagem salarial dos professores universitários, tratados a pão e água pelo governo Dilma desde que ousaram se valer do direito constitucional à greve para obrigar a mandatária a dialogar. Em vão.

Ao eleitor que hoje desaprova esse estado de coisas na Saúde e na Educação não é oferecida alternativa pelos candidatos oposicionistas. E é isso que torna as eleições em curso particularmente frustrantes: nenhum dos três candidatos hoje competitivos – Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos – apresenta, em seus respectivos programas de governo, um planejamento efetivo para Saúde, Educação e demais áreas sociais que se diferencie, em linhas gerais, das práticas governamentais correntes para tais setores. É inevitável a sensação de mais do mesmo.

Sob o jugo do neoliberalismo

Mas a área que mais evidencia a ausência de propostas alternativas de governo é a economia. Enquanto Aécio encarna o retorno ao neoliberalismo mais estreito, cujos efeitos sociais devastadores sentiram na carne os brasileiros que viveram a presidência Fernando Henrique, os discursos da dupla Eduardo Campos e Marina Silva parecem antes apontar para o retorno à ortodoxia de manual do que oferecer uma alternativa ao "neoliberalismo arrependido" praticado pelos governos petistas. Estes podem até eventualmente ter ousado expandir o investimento público, mas, ante o mínimo rugido do mercado, se apressaram a reafirmar a fidelidade ao tripé econômico neoliberal – altos superávits primários, dólar flutuante e metas de inflação - e demais badulaques herdados do Consenso de Washington os quais o PT, na oposição, sempre abominou.

O eleitor que vislumbra na atual crise mundial a oportunidade da ascensão de um modelo de gerenciamento econômico que supere a orientação neoliberal e o que ela significa de submissão estrutural da América Latina à "ordem" imperial se vê, uma vez mais, em estado de orfandade, em um cenário eleitoral intrinsecamente conservador.

E isso é particularmente grave não apenas pelos efeitos em si de tais orientações macroeconômicas – e pelas questões de submissão colonialista mencionadas - , mas porque delas derivam a forma como serão tratados temas de suma importância neste momento do país, com destaque para aqueles derivados da relação entre modelo de desenvolvimento, direitos humanos e políticas públicas.



Retrocesso democrático

Com efeito, o (primeiro?) governo Dilma chega ao fim com um grave déficit na área dos Direitos Humanos, derivado de um modelo de desenvolvimento no pior estilo "Brasil Grande", arcaico e impositivo, que legou ao país um genocida indígena extemporâneo e forneceu o combustível que alimentou os protestos de Junho. E a truculência com a qual os protestos foram tratados pelo governo federal desde então, sob o patrocínio do ministério da Justiça de Cardozo e o uso indiscriminado da Força Nacional e das Forças Armadas contra a população desdobra-se, hoje, numa criminalização dos moimentos sociais incompatível com a democracia e patrocinada, nos âmbitos estadual e federal, por partidos e políticos que orbitam (ou até há pouco orbitavam) tanto em torno da situação petista quanto da oposição tucana. Campos e Marina, de sua parte, têm sido pouco claros e enfáticos em condenar tal retrocesso democrático.

Inclusive e para além do que significam como retrocesso institucional, afetando a própria evolução da democracia brasileira, a soma de tal repressão com o conservadorismo atávico no trato das politicas púbicas torna a um tempo mais evidente e mais intensa o viés retrógrado que hoje afeta a relação entre política e cidadania no país. Ao impedir a renovação da prática administrativa no interior do campo político institucional e a, ao mesmo tempo, cercear a plena incorporação da política pelos cidadãos, tal mecanismo revela-se o grande responsável pela manutenção estrutural de nossa democracia em termos precários e relativos.

Pois a concepção da política como arena de choques, alianças e inter-relações entre micropoderes, forjada por Foucault, implica não somente na expansão de seu locus para além dos limites da política institucional, mas na atomização e inter-relação de seus próprios entes (e temas) no interior desta. Foi no bojo de tal processo que a dicotomias básicas do cardápio político-eleitoral – destacadamente comunismo x capitalismo, ou marxismo x liberalismo – vieram a se somar, ao longo dos anos 70, na forma de partidos ou organizações, plataformas ecológicas ou feministas, entre outras de menor destaque.

Políticas arcaicas

De tal cadinho de cultura deriva a expansão da plataforma política para além dos temas sociais clássicos mencionados parágrafos acima, com a incorporação de demandas conectadas à sexualidade, ao corpo, ao comportamento, à apreensão estético-biológica do social em sua mediação com as Leis e a Política. Eis porque, enquanto boa parte da arena pública do mundo civilizado debate temas como isonomia de direitos ente heterossexuais e homossexuais, legalização da maconha ou descriminalização do aborto, entre tantos outros, no Brasil tal agenda vem sendo sistematicamente travada por todos os partidos e seus candidatos, temerosos do poder do voto religioso.

Que isso ocorra com a maioria dos candidatos competitivos nas eleições 2014 é algo lastimável, mas até certo ponto compreensível. Que não haja sequer uma candidatura competitiva capaz de ousar um programa que inove quanto aos temas clássicos e, ao mesmo tempo, dê a devida atenção à biopolítica, é revelador de nosso atraso institucional e do quanto a democracia pós-ditadura tem falhado em fazer avançar a prática política no pais.

Tudo somado, no pleito atual os eleitores parecem condenados a optar entre a manutenção do poder pelo poder nas mãos petistas, sua outorga à oposição tucana elitista e de proverbial insensibilidade social, ou ao museu de grandes novidades da dupla Campos/Marina, que até anteontem compartilhavam o poder de turno. É isso ou o voto nulo de protesto.