quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ensaio geral: o Melô da Melação na Lava Jato, veja com Gilmar e Janot

Via TV Gazeta

Bob Fernandes





A revista Veja noticiou: Dias Toffoli, ministro do Supremo, teria sido citado em pré-delação por Leo Pinheiro, da OAS.

A OAS, a pedido, identificou infiltração na casa de Toffoli. O ministro contratou uma empresa e pagou pelo conserto.

O ministro Gilmar Mendes acusou procuradores de vazarem esse enredo contra Toffoli. E atacou: procuradores se acham "o ó do borogodó" por terem "atenção" da Mídia.

Gilmar acrescentou: "Esses falsos heróis vão encher cemitérios". E cobrou:

-Estão (procuradores) possuídos por teoria absolutista, de combate ao crime a qualquer preço (...) Não se combate o crime cometendo crime.

Para Gilmar, quem defende validar provas ilegais desde que "obtidas de boa fé" é "cretino absoluto".

O juíz Moro defendeu tal tese no Congresso, assim como procuradores.

Na Teologia, Poder Infinito, Perfeito e Divino, quem tem é Deus. No céu.

Na Terra, a resposta do Procurador Janot para Gilmar é confissão para a História:

-A gente vaza aquilo que tem. Se não tem informação, não vaza.

No "Petrolão", no "Mensalão", tudo vazou e vaza. Sobre tanto, silêncio quase absoluto do ministro Gilmar... Até agora.

Dilma e Lula tiveram parte de conversa gravada ilegalmente, e vazada. Teori e Marco Aurélio Mello, ministros, criticaram o juiz Moro. E...seguiu o enterro.

Gilmar Mendes disse, então, que importante era discutir "o conteúdo", não o grampo e vazamento ilegais.

Claro. Porque ali se buscava, como no filme Casablanca, prender "os suspeitos de sempre".

"Tríplex do Lula". Meses de vazamentos. Manchetes estrondosas em telejornais, revistas, rádios, jornais... Lembram?

Bem, a Polícia Federal conclui inquérito e não incriminou, não indiciou Lula. E dai? Daí, serviço feito. O "Inimigo Número 1" que se dane.

Por ora, cancelada a delação da OAS; além dos "suspeitos de sempre", tem citação de doações ilegais para campanhas de Temer, Aécio, Serra, Marina...

Reveladora pergunta e resposta de Janot sobre esse Melô da Melação na Lava Jato:


-A quem e por que a Lava Jato está incomodando tanto? Essas reações nos últimos dias me fizeram pensar muito.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Carta a Jô Soares, por J. Carlos de Assis

Sanguessugado do GGN






Aliança pelo Brasil

Um procurador messiânico e um apresentador de boa fé

J. Carlos de Assis

Carta a Jô Soares:

Vi a gravação de sua entrevista com o procurador-chefe da força tarefa da Lava Jato, Dalton Dallagnol. Decidi procurá-la na rede depois que, em entrevista posterior, você apresentou uma carta do advogado de Lula protestando contra o uso de provas ilegítimas em processo penal. Voce desqualificou o advogado subscrevendo integralmente os conceitos do procurador, dados na véspera, segundo os quais provas obtidas ilicitamente poderiam ser aceitas no processo desde que produzidas de “boa fé”.

Argumento idêntico já havia sido adotado pelo juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, numa de suas palestras sensacionais. Neste caso, tratava-se de legítima defesa da audácia dado que o magistrado pretendia obviamente legitimar o uso judicial da gravação de Lula com a Presidenta Dilma, que ele liberou para a imprensa ilegalmente, agora incluída no processo de suposta obstrução da justiça. Temos agora três instâncias da legitimação da prova ilícita: o juiz, o procurador e a imprensa, esta representada por você, Jô Soares, em seu candente editorial. Poder-se-ia dizer que isso retrata uma conspiração para a obstrução não da justiça, mas da lei.

Não somos juristas. Sou jornalista, economista, doutor em Engenharia de Produção, hoje quase totalmente dedicado à economia política. Você é um dos homens sabidamente mais cultos do país. Entretanto, somos iguais num ponto: pertencemos a um mesmo ambiente histórico cujas raízes estão cravadas no início da era moderna da qual a característica mais marcante, no processo de construção de cidadanias, foi a consagração absoluta dos princípios jurídicos do habeas corpus, da presunção de inocência e do devido processo legal. Era a forma do cidadão escapar do sufocamento do Rei ou do Estado.

Não é difícil identificar no devido processo legal o imperativo inescapável da legalidade da prova. Isso não é Direito. Isso é civilização. O contrário seria deixar ao arbítrio do juiz, e na dependência de sua “boa fé”, aquilo que é a base factual dos julgamentos, ou seja, a prova material inequívoca. O juiz Moro e o procurador Dalton, e agora você, Jô, se tiverem realmente boa fé, devem à sociedade brasileira um esclarecimento franco sobre o que entendem por boa fé, e quem a determina num processo penal.

Sua explicação para acolher o argumento do promotor foi a imensa audiência que seu programa alcançou na data do programa. Trata-se de uma tautologia. Sua audiência lhe devolveu o que você deu a ela. Foram seus conceitos, e os conceitos expostos pelo procurador sem qualquer questionamento de sua parte, que refletiram na plateia e na tevê e lhe voltaram na forma de uma ovação geral. Pusesse você alguém de menos boa fé, que a sua, para entrevistar o procurador, alguém que não fosse dessa grande mídia sórdida, e ele seria massacrado.

Vou lhe dar apenas um exemplo da simplicidade idiota desse procurador de ares messiânicos. Ele disse ter estudado pós-graduação em Harvard e ali aprendeu métodos eficientes de combater a corrupção. Bom, terá ele aprendido em Harvard alguma coisa dos processos movidos, depois da crise de 2008, contra os fraudulentos Bank of America e o Citigroup, os maiores bancos norte-americanos? Acaso foi preso algum dos dirigentes desses maiores bancos americanos pelos golpes dados no mercado de subprime?

Bom, para que esse procurador, ou você mesmo não digam de novo que o escândalo da Petrobrás é o maior do mundo, vou lhe dar alguns dados que a grande imprensa omite: os dois bancos citados, para livrar seus executivos da cadeia, pagaram, cada um, cerca de R$ 70 bilhões, ou um total de R$ 140 bilhões em multas. Não é só isso. Ninguém pagou pela fraude da Libor, administrada pelos 14 maiores bancos do mundo, a despeito de bilhões e bilhões de dólares em prejuízos. Ninguém pagou pelas fraudes do Deutsche Bank e o UBS nos mercados mundiais de câmbio, também representando quantias bilionárias.

Se você me perguntasse se gostaria de ver esses bancos quebrarem da noite para o dia por causa da corrupção eu diria que você está louco. O grau de sofrimento no mundo seria intolerável. Aqui, entretanto, esses promotores messiânicos, movidos sobretudo por vaidade e nenhum escrúpulo social, não tomaram qualquer providência para salvar a parte sadia das empresas de engenharia, com centenas de milhares de empregos, envolvidas no escândalo. Ao contrário, embaraçaram como puderam os acordos de leniência. Que fizessem o que os americanos fazem: punam os executivos e salvem as empresas. De fato, eles salvam as empresas e sequer punem os executivos, que se safam com multas.

Seu procurador, Jô, não passa de um vaidoso. Ele se vê em vestes messiânicas para salvar o Brasil da corrupção. Sua entrevista é do tipo que agrada, pois ele se coloca na situação de um puro, um justo, um incorruptível e, sobretudo, como alguém que está sempre e absolutamente certo, combatendo os absolutamente maus com perfeita maestria. Você se revelou surpreendido com a audiência. Você se surpreenderia também, se estivesse lá, com Hitlter e Mussolni, ambos anunciando a grande solução para a Alemanha e Itália. Não passavam, como seu procurador messiânico, de demagogos ingênuos, talvez demagogos de boa fé.

Talvez as partes mais extraordinárias da entrevista, você se deve lembrar, foram aquelas em que o procurador se descreveu como alguém que não tem poder econômico ou poder político, e justamente por isso a forma que encontrou para avançar nas investigações foi uma aliança com a imprensa. Você percebeu o que isso significa? Fora nas ditaduras, onde no mundo o processo judicial se inicia com uma aliança entre a promotoria e a imprensa? É justamente isso que nos leva à investigação-espetáculo, em muitos casos configurando a mais abjeta violação de direitos humanos. É esta aliança a matriz da exibição pública de simples suspeitos, destruindo injustamente reputações, assim como a escolha “científica e democrática” entre as grandes mídias dos documentos e depoimentos que serão vazados, a isso se chamando liberdade de imprensa.

Jô, se pessoas, com seu alto nível cultural, não sabem distinguir o que é avanço e o que é regresso de civilização, estamos em maus lençóis. Vivemos uma situação mundial de crise aguda, com guerras em andamento, fricções entre grandes potências, dramas de refugiados. No nosso caso, vivemos um quadro legislativo podre, uma presidência ilegítima e virtual ditadura judicial que ignora o sistema econômico combalido – 8% de contração em dois anos, 13% de taxa média de desemprego -, e até mesmo o avanço sobre o pré-sal pondo em risco a nossa própria soberania. Sabe-se como começam as revoluções. Nunca como terminam. Para que ninguém se sinta impune ao abusar de autoridade, lembrem-se da experiência turca recente: em face de um golpe judicial instigado pelos americanos, promoveu-se um contragolpe que acabou com mais de 2 mil juízes e promotores na cadeia, sob risco de pena de morte por alta traição.


J. Carlos de Assis - Jornalista, economista, professor, doutor em Engenharia de Produção, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira.

Psicanálise: O Brasil e a “alucinação negativa”

Sanguessugado do Boitempo

goebbels secretary

Brunhilde Pomsel, ex-secretária de Joseph Goebbels.
Flávio Aguiar.

Nestes tempo de golpe de estado no Brasil as conversas podem ficar muito difíceis. Amizades podem virar pó de uma hora para outra. Conheço inúmeros casos.

Comigo também se passou algo parecido. Um amigo – ou ex-amigo, nesta altura – virou um anti-petista ferrenho, o que é, convenhamos, um direito dele. Ele já era de direita, o que também é um direito dele. Mas extrapolou.

Acontece que diante de afirmações como a de que “mas durante os governos de Lula e Dilma a situação dos pobres melhorou, a miséria diminuiu, o padrão de vida dos trabalhadores assalariados subiu, etc.”, ele passou a reagir raivosamente: “é tudo mentira”. “Nada disto aconteceu”.

Um dos problemas aí é que tal reação chama de mentirosos não só Lula, Dilma, o PT, os petistas, e eu de quebra, mas também a ONU, a OEA, a OIT, a UNESCO, a FAO, boa parte da União Europeia, a Itália, que recentemente adotou um projeto do tipo Bolsa Família, economistas indianos, a OCDE, além do IBGE, naturalmente, e etc.

O outro problema é que isto é repetido ad nauseam pelo exército de coxinhas e paneleiras(os) que infesta as ruas e nossos ouvidos de vez em quando (andam mais discretos, aliás…), além dos arautos do antipetismo distribuídos pela mídia conservadora, quando não estão ocupados em obter os vazamentos seletivos de quanta operação seja urdida por promotores que se arvoram a juízes, juízes que se adoram promotores e policiais federais que se arvoram a promotores e juízes.

Mutatis mutandis, isto me lembra o comportamento de gente que até hoje nega o Holocausto, por exemplo. Ou então a entrevista recente dada pela ex-secretária de Joseph Goebbels, hoje com 105 anos (!) e a única sobrevivente do círculo próximo do Führer. Nela, a entrevistada afirma , sobre os crimes genocidas dos nazistas, que “não sabia de nada”, que só datilografava o tempo inteiro. A provecta senhora que me desculpe, com todo o respeito, mas é mais fácil acreditar que ela simplesmente não queria saber de nada desde sempre. Posto que ela até se recorda do estranho sumiço de amiga judia. Sé depois da guerra ela ficou sabendo que esta pessoa fora levada para Auschwitz. O mesmo aconteceu e acontece com gente que até hoje nega que tenha havido tortura no Brasil durante o regime civil-militar de 1964. Ou os que o querem de volta, embora haja os que querem que ele volte com tortura e tudo.

Curioso, perguntei a um outro amigo meu, psicanalista, como se poderia chamar esta atitude de negação contumaz da realidade. Ele me disse que há uma qualificação clássica na psicanálise que se chama de “alucinação negativa”, em que as pessoas que dela são objetos se negam a ver uma coisa – até mesmo objetos concretos, por vezes, ou a ouvir algo que não querem admitir. Pesquisando mais um pouco, deparei com experiências mostrando que esta “alucinação negativa” pode ser induzida até por hipnose que, no fundo, é o que a nossa mídia tradicional costuma praticar, seguindo a orientação famosa daquele mesmo Goebbels acima lembrado, de se mentir tanto até que a mentira vire verdade. É claro que é necessário um tipo de consentimento por parte do objeto de tal manipulação.

Tudo isto vem na esteira do esforço de aleijar e alijar a esquerda na história não só futura – mas também do passado. Os governos de esquerda é que são os responsáveis pelo desarrazoado do mundo e das economias – da brasileira e da mundial. Eles nada fizeram senão cometer erros e mais erros; tudo não passou de uma “ilusão”. A “mentira” do meu amigo lá de cima.

O curioso é que existe também muito intelectual e analista de esquerda que pensa assim, inclusive aqui na Europa. Pululam os intelectuais que pregam que tudo o que a esquerda latino-americana, não só a brasileira, fez nos últimos anos foi só uma ilusão. E que eles, estes intelectuais e analistas, é que sabem o que nós, os latino-americanos, deveríamos ter feito, fazer e vir a fazer. Esquecem (será também uma alucinação negativa?) que aqui na Europa só há dois governos de esquerda: o de Portugal, com uma frente tripla reunindo o PS, os comunistas e verdes (hoje um partido só) e o movimento Bloco de Esquerda, e o do Vaticano, com o Papa mais à esquerda da história da Santa Madre. Nem na Espanha o Podemos e o PSOE conseguiram se juntar, ao invés de se bicar, para formar um governo. França, Alemanha, Itália, nem pensar. O governo de extrema-esquerda na Grécia foi dobrado a golpes de retórica. E aplicou o programa do Banco Central Europeu mais o Banco Central Alemão e o chanceler Wolfgang Schäuble, tão mau quanto Meirelles. A esquerda, aqui, virou um nicho universitário, em 95% dos casos.

Mas eles, os intelectuais europeus, é que sabem o que é melhor para o mundo.

***


Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A Besta da Mooca



Sociólogo Marcelo Zero diz que chamar documento da Corte de "besta e malfeito" é o cúmulo da diplomacia de asno



Marcelo Zero

Brasil 247

Zero lembra que, em 1998, o Brasil passou a reconhecer, como obrigatórias e vinculantes, as sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos 



A especialidade do ministério Temer é a destruição. Como um bando de hunos, dedica-se a pilhar o Estado e a implodir tudo o que foi feito com anos de trabalhos duro.

Ciência sem Fronteiras, FIES [Fundo de Financiamento Estudantil], Prouni [Programa Universidade Para Todos], Minha Casa Minha Vida, SUS [Sistema Único de Saúde], Cultura, etc., tudo está sendo "revisto", reduzido ou simplesmente destruído, de modo a que sobre dinheiro para pagar juros e a conta fisiológica do golpe. No ínterim, dedicam-se também a perseguir os que defendem a democracia ou os que tinham algum laço com o governo anterior. Afinal, os hunos, além de violentos, eram mesquinhos.

Nesse festival macabro de destruição de políticas e programas, há um ministério que tem destaque: o Itamaraty. Chefiado com mão de ferro pelo exuberante Barão da Mooca, o nosso MRE [Ministério das Relações Exteriores] dedica-se com afinco a destruir a política externa altiva e ativa que foi decisiva para superação da nossa vulnerabilidade externa e a elevação do nosso protagonismo internacional.

Quiçá tentando se converter numa espécie de Theodore Roosevelt tupiniquim, em apenas 100 dias nosso chanceler já distribuiu golpes de seu "grande porrete" para tudo quanto é lado.

Agrediu a Nicarágua e El Salvador por questionarem o golpe. Promoveu assaltos verbais contra a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] pelo mesmo motivo. Ameaçou o Caribe e a África com fechamentos de embaixadas, ofendendo países amigos que também abriram embaixadas no Brasil. Distribuiu pródigos coices contra o Mercosul e a integração regional, sem esconder seu desprezo por nossos vizinhos e sua intenção de recolocar o Brasil na órbita estratégica dos EUA.

Esse grande diplomata, um talento nato, conseguiu a fantástica proeza de brigar com o pequenino Uruguai, pois foi até Montevidéu tentar comprar o voto dos uruguaios para excluir a Venezuela do Mercosul.

Seus porretaços e coices são complementados com adequados zurros. Assim, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) criticaram a transformação da Controladoria-Geral da União (CGU) em ministério e a troca de comando da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Barão da Mooca afirmou que: "Isso não tem pé nem cabeça, nem importância. A maioria não sabe sobre o que está falando". A ONU e a OEA não sabem o que estão falando. Mas ele sabe.

Sabe tanto que, na sua visita ao México, ofendeu em público a chanceler mexicana com uma piadinha misógina. Sabe tudo de diplomacia o nosso Roosevelt.

Agora, entretanto, o Roosevelt tupiniquim se superou. Após receber documento oficial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA pedindo informações sobre o processo do impeachment sem crime, ele afirmou, com grande tato, que o documento é "besta e malfeito" e que "o Brasil não tem que responder nada".

O zurro surpreendeu pelos decibéis e pela ignorância em assuntos comezinhos de política externa.

A Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos da OEA, mais conhecida como Pacto de San José, foi promulgada na nossa ordem jurídica interna em 6 de novembro de 1992. Portanto, desde aquela data, ela tem força de lei no país. Além disso, em 1998, mediante a Mensagem nº 1070, enviada ao Congresso em regime urgência, o Brasil passou a reconhecer, como obrigatórias e vinculantes, as sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que é o órgão judicial que protege os direitos previstos na citada convenção. Saliente-se que os Estados que fazem parte da Convenção não são obrigados a reconhecer tais sentenças. Tal reconhecimento é facultativo. Assim, foi o governo tucano ao qual Serra serviu que tomou a decisão de reconhecer, como obrigatórias, tais sentenças.

Se a Corte decidir que houve violação aos direitos protegidos pela Convenção, ela determinará, através de sentença, "que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados". Ademais, a Corte poderá exigir dos Estados Partes a reparação das consequências ou o pagamento de indenizações às vítimas.

Portanto, a Corte da OEA pode, sim, pedir explicações ao Brasil. E o Brasil, graças a uma decisão tomada no antigo governo do nosso chanceler, está obrigado a responder. Mais: o Brasil está obrigado a cumprir as sentenças da Corte.

Observe-se que, pelo artigo 48 da Convenção, a solicitação de informações tem de ser enviada ao Governo do Estado, que será o responsável pela resposta.

É inacreditável que a diplomacia brasileira tenha caído tão baixo em tão pouco tempo. Mesmo para o folclórico ministério do governo golpista, trata-se de um recorde de inabilidade e incompetência. Como agravante, Serra agora terá de lidar com a greve dos servidores do MRE, agredidos em seus direitos trabalhistas.

Chamar o documento da Corte da OEA de "besta e malfeito" é o cúmulo da diplomacia asinina do coice.

Malfeita, muito malfeita, foi a sua nomeação para o Itamaraty. Trata-se de um caso clássico de "o homem errado no lugar errado".

E o documento da Corte da OEA não é "besta". Besta é ele.


*Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

"Contudo, diante da inominável deterioração moral em que estão mergulhados, o meu cuspe seria inócuo; não lavaria nada."

Via 247

Subprocurador-geral da República durante o governo FHC e AGU no governo Lula, Álvaro Ribeiro Costa escreve uma carta com críticas duríssimas aos golpistas que agem para derrubar a presidente Dilma Rousseff; "A História não esquecerá nem apagará o nome de vocês do rol das iniquidades e das vergonhas. E não adianta fingir que não há golpe; todo mundo já sabe", diz ele; para Costa, hoje procurador da República aposentado, "não importa se o arrombador dos pilares da ordem democrática possa eventualmente se valer de uma maioria parlamentar corrompida e mal-cheirosa ou de juízes parciais e desacreditados. Quando a injustiça e a corrupção se fantasiam de direito e moralidade, a justa indignação e a resistência se tornam obrigação"; ele faz, ainda, "uma brevíssima oração: que Deus não os perdoe; vocês sabem muito bem o que fazem!"

Carta a personagens imaginários

:

Álvaro Augusto Ribeiro Costa



Em primeiro lugar, por favor, ninguém pense que estou falando com seres reais, nem se considere ofendido em sua honra. É que, como meros e ocasionais personagens de uma extraordinária farsa que se desenrola num lugar também imaginário, não poderiam ter existência própria nem honra que se lhes pudesse atribuir.

Quem seria o autor de tão assombrosa tragicomédia? É difícil saber, até mesmo porque os atores trocam de papéis a cada momento, numa volúpia que uma única mente, por mais delirantemente criativa, não poderia conceber. De cúmplices ou co-autores de supostos delitos, passam de repente a acusadores, transmudam-se em seguida em juízes ou jurados, sob a fantasia da isenção ou integrando a claque dos que se aplaudem uns aos outros, cada um mais convencido da excelência de suas múltiplas e medíocres representações. Um de cada vez ou em grupos, todos muito cientes dos torpes proveitos que almejam.

Cabe, porém, oportuna advertência. Quando as buscas e apreensões invadirem de surpresa seus lares e as conduções coercitivas os expuserem com ou sem razão à volúpia sádica das multidões insufladas pela mesma mídia que hoje os incensa e amanhã os vilipendiarão, não invoquem a presunção de inocência nem o direito de saber do que são acusados; não peçam que lhes seja assegurado o direito de defesa e do contraditório, nem supliquem pela presença de um juiz imparcial. Mas antes que isso ocorra, não percam tempo nem gastem dinheiro promovendo a operação lava-memória. A História não esquecerá nem apagará o nome de vocês do rol das iniqüidades e das vergonhas. E não adianta fingir que não há golpe; todo mundo já sabe.

Penitencio-me por não haver percebido antes quão distante me acho de vocês. A rotina das chamadas boas maneiras esconde a essência das pessoas. De uma coisa, porém, não tenham medo. Não cuspirei em vocês. Não é que não lhes tenha nojo. Compartilho, quanto a isso, do mesmo sentimento que Ulisses Guimarães pronunciou e prenunciou em relação àqueles a quem se dirigiu em mensagem que as ondas do Atlântico ainda hoje – e com mais força agora – repercutem. Contudo, diante da inominável deterioração moral em que estão mergulhados, o meu cuspe seria inócuo; não lavaria nada.

Devo admitir, entretanto, que me fizeram um grande favor: o de me propiciarem vê-los e ouvi-los como realmente são: preconceituosos, convencidos ou convincentes propagadores do ódio e da mentira. Em suma, cúmplices entusiasmados do que há de pior no lastimável cenário escancarado ao mundo desde a tragicômica encenação do último 17 de abril e na farsa que dali para frente cada vez mais se desenvolveu como uma enxurrada de iniquidades.

Caiu a máscara dessa gente que lhes faz companhia, cujos rostos não conseguem ocultar a mais repugnante feiúra moral. Juntando-se ao painel de mentecaptos que a televisão sem qualquer sombra de pudor ou recato revelou para assombro, vergonha ou riso de brasileiros e outros povos do mundo, vocês estarão para sempre ligados. E dessa memória pegajosa nada os livrará.

Não me digam que estão surpresos com os termos desta carta. Posso até imaginar a cena em que estarão diante de seus queridos familiares, tentando justificar a própria conduta. Por isso, explico: não se pode ser tolerante com o delito e o delinqüente quando o crime é permanente e flagrante. Seria como dialogar com o ladrão que invade a nossa casa, rouba nossa liberdade, se apossa do nosso patrimônio e quer se fazer passar por mera visita, com direito a impor o que chama de ordem. A hipocrisia se mostra com sua mais indecente nudez. Não! O diálogo e a compreensão são naturais e necessários entre pessoas que se respeitam no ambiente democrático; não, entre o predador da democracia e sua presa, entre o ofensor e a vítima. As regras de civilidade, próprias da democracia, não socorrem quem contra elas atenta. Contra esses, todas as formas de resistência são necessárias e legitimas. Não há diálogo possível.

Não importa se o arrombador dos pilares da ordem democrática possa eventualmente se valer de uma maioria parlamentar corrompida e mal-cheirosa ou de juízes parciais e desacreditados.Quando a injustiça e a corrupção se fantasiam de direito e moralidade, a justa indignação e a resistência se tornam obrigação.


Por fim, uma brevíssima oração: que Deus não os perdoe; vocês sabem muito bem o que fazem! Mas os mantenha vivos e com saúde pelo tempo suficiente para a reflexão e o mais avergonhado arrependimento.