terça-feira, 28 de junho de 2016

Elaine Tavares: O preço do feijão e o soylent green

Sanguessugado do PalavrasInsurgentes

Elaine Tavares


Poucas coisas exerceram tanta influência em mim como o filme de Richard Fleischer, Soylent Green, que no Brasil foi comercializado com o nome de “No mundo de 2020”. Lembro como se fosse hoje a matinê na qual o assisti, nas cadeiras vermelhas e confortáveis do então novíssimo Cinema Presidente, em São Borja. Fora ver o filme porque era com o ator Charlton Heston, pelo qual eu nutria profundo amor por conta de seus filmes bíblicos. Inesquecível Ben Hur. Mas, não estava preparada, nos meus alegres 15 anos para o que vi. Lembro que fiquei no escuro do cinema, depois que subiram as letras finais, com as lágrimas correndo devagarinho pelo rosto e ao longo dos dias que se passaram comecei a compreender que a vida humana não pode estar – jamais  - desconectada da natureza. Percebi que não existe uma natureza lá fora de mim, e eu, ser que domino e manipulo. Tudo é um.

Mais fortes ficaram as palavras do grande chefe Sioux Tatanka Yatanka (Touro Sentado)  que em carta ao presidente dos Estados Unidos ensinou:  “Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência”.

Creio que naquele domingo, no trajeto entre o cinema e a minha casa tornei-me ecologista. Não desses que olham a natureza como uma coisa externa ao humano, mas os que entendem que tudo é Pacha (o universo ordenado, o existente) e está interligado.

Falo tudo isso para comentar do preço do feijão e do leite, que nos últimos tempos tem se apresentado como elementos de exclusão. Nossa base alimentaria - o feijão – cada dia vai ficando mais longe da nossa mesa. Está caro demais. O leite custa seis reais o litro. Impensável. O que está acontecendo?

Ocorre que poucos são aqueles que estão produzindo comida mesmo. O sistema capitalista de produção que se apodera das terras para dar vazão ao plantio de monoculturas de exportação está destruindo o mundo camponês, esse que produz a comida nossa de todo dia. Isso vem de muito tempo, mas agora está chegando a níveis perigosos. Nosso estado de Santa Catarina é um exemplo desse terror. Quilômetros e mais quilômetros de pinus nas terras onde antes brotava o trigo, o feijão, a mandioca, o tomate, a maçã. A terra se exaurindo, uns poucos ganhando dinheiro e pequenos produtores iludidos com as parcerias das papeleiras.

O mundo capitalista não quer saber das gentes. O que precisa produzir é lucro. Se, para isso, for necessário massacrar milhões, que seja. No seu brilhante texto sobre acumulação primitiva Karl Marx descreve como, no início do capitalismo, os ingleses destruíram as propriedades produtoras de comida para criar as ovelhas que alimentariam com lã as máquinas das fábricas de tecido. Por conta disso gerou-se um gigantesco êxodo de gente para a cidade que, por sua vez, iria alimentar o monstro do capital, com seus corpos e os dos seus filhos.

Hoje, no Brasil e na América Latina vivemos novo ciclo de acumulação primitiva do capital. O campo vai se apequenando para as gentes e para a produção de alimentos. Produz-se a soja para exportação, cria-se gado ou então se expulsam as famílias para a extração de minérios. A terra especulada. E danem-se as pessoas. O que vale é a bolsa de valores e seu capital de mentira.
Mas, o fato é que as pessoas precisam comer e alguém tem de produzir comida. Senão, que vamos ingerir para manter a vida? Produtos criados em laboratório? Pílulas de energia? Quê?

O filme 2020 mostrava, nos anos 70, o que poderia acontecer no futuro se o homem seguisse com seu processo de destruição da natureza. Falava de um amanhã longínquo demais, pura ficção científica. E, como sempre acontece com a arte - que é a antena do humano – mostrava o quanto o sistema capitalista de produção pode ser engenhoso e sagaz nas soluções que encontra para continuar se reproduzindo e lucrando com a maioria.

A descoberta do detetive Robert Thorn, em meio a uma crise de fome na cidade onde vive, que naqueles dias me pareceu estarrecedora, hoje apareceria como estranhamente natural. Porque hoje eu já sei como é que funcionam as entranhas do sistema e o que efetivamente tem valor para os que dominam. Ao sistema capitalista e seus operadores, pouco importa o que acontece com a maioria das gentes. Esses seres que não conformam o topo da pirâmide social sempre serão usados pelos graúdos como carne moída para a manutenção do modo de vida atual. E o que é pior, serão a carne comida pelos seus próprios companheiros, garantindo a reprodução da vida dos que realmente produzem a riqueza, tal qual no filme.

Naquele dia perdido no passado, pelos olhos de Charlton Heston eu também me fiz comunista, mesmo sem saber. Saí dali disposta a não permitir que o ano de 2020 fosse como anunciava a ficção. Nenhuma pessoa teria que passar pela dor de comer seu irmão, seu pai, sua mãe, sua amiga, para seguir servindo os ricos. Haveria que salvar as gentes e a vida toda.

Hoje, passados tantos anos estou aqui, diante da tela do computador, com lágrimas nos olhos, lendo sobre o preço do feijão e do leite, sentindo o bafejo do ano 2020 no cangote, e pensando que talvez tudo seja como a ficção pensou. Sinto calafrios.


Mas, apesar do terror, não me imobilizo. Pelo contrário. Mais motivos tenho para seguir desvelando a realidade e lutando para que um novo jeito de viver seja construído pela ação das gentes. Há tempo ainda. Espero...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

OS NÚMEROS DE MAIO

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

Contrariando as "previsões" da mídia e do "mercado", o Brasil registrou, no mês passado, superávit de 1.2 bilhões de dólares em transações correntes, devido, principalmente, a um superávit de mais de 6 bilhões de dólares no comércio com outros países, que chegou a quase 20 bilhões de dólares nos primeiros 5 meses do ano.

Em maio, o Investimento Estrangeiro Direto também foi de mais de 6 bilhões de dólares, completando, nos últimos 12 meses, cerca de 79 bilhões de dólares, uma gigantesca soma de mais de 260 bilhões de reais.

Esse é o país - com 374 bilhões de dólares em reservas internacionais, quase um trilhão e quinhentos bilhões de reais guardados - que o  consenso de boa parte da mídia e da massa ignara que domina as redes sociais e o espaço de comentários dos jornais e portais aponta como um país destruído, economicamente  quebrado e sem credibilidade nos mercados internacionais.

Agora, resta saber se os "gênios" do PT - considerando-se que o partido estará sentado no banco dos réus, junto com ela,  no julgamento do impeachment pelo Senado -   vão aludir a dados como estes na defesa da Presidente Dilma, e outros, como o da diminuição da Dívida Pública Bruta e da Dívida Líquida de 2002 até agora, ou se vão continuar recorrendo ao "mimimi" e à retórica contraprodutiva na hora de defender a verdade dos fatos da massacrante consolidação dos mitos e paradigmas de seus inimigos junto à opinião pública.



O poder transformador da empatia nas relações humanas

Sanguessugado do RevistaPazes 



“A empatia é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações.” Segundo John Donne, nenhum homem é uma ilha, sendo cada indivíduo um pedaço do continente, uma parte do todo.

Durante muito tempo pensou-se que a empatia fosse uma capacidade exclusivamente humana. Hoje, sabemos que diversas espécies animais são capazes de sentir empatia e coordenar impulsos “levando em consideração” o outro. Assim, nossa capacidade de sentir empatia está ligada à herança genética, que é uma consequência evolucionista.

Segundo o autor (KRZNARIC, p. 28) do livro “O Poder da Empatia – A arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo”, a empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo, que herdamos do século passado. A necessidade de desenvolver empatia está no cerne do esforço de encontrarmos soluções para problemas mundiais como violência étnica, intolerância religiosa, pobreza extrema, fome, abusos dos direitos humanos, aquecimento global. O autor denomina esta capacidade como uma espécie de pílula da paz.

Historicamente, conseguimos enxergar alguns “impedimentos” que nos colocamos para usarmos intensamente a empatia: Preconceito, autoridade, distância e negação. O preconceito é como uma venda em nossos olhos, é um julgamento feito em um momento considerando informações superficiais, sem comprovação; é um estereótipo do qual devemos fugir. Ao exercer enorme influências sobre os indivíduos, a autoridade foi utilizada como desculpa para cumprir tarefas execráveis. Também, não só a distância física, mas a temporal e, principalmente, a social, nos induzem a ser menos empáticos. E ainda, após sermos bombardeados com imagens de problemas sociais em diversas partes do mundo, com o tempo vamos nos tornando insensíveis a elas, “negando’’ sua existência.

O uso de nosso eu empático pode também estar intrinsecamente ligado à resolução de questões do nosso dia a dia. Ao tentar se colocar no lugar do outro no ambiente de trabalho, temos muito a ganhar expandindo nossa capacidade de compreensão dos problemas que nos rodeiam. Este exercício nos proporciona experimentar outras visões diferentes das nossas e observar aspectos antes ignorados por nós, pela simples constatação que enxergamos tudo a nossa volta considerando nossas próprias experiências pregressas. Essas mesmas experiências nos moldam ao longo do tempo, desenvolvendo, mesmo que inconscientemente, o poder da empatia.

A habilidade de aceitar e conviver bem com a diversidade nos torna mais empáticos e tolerantes. É o que vai nos permitir entrar numa sala de reuniões de uma organização transnacional para uma apresentação a ser feita e transmitir a mensagem que queremos de forma adequada para cada membro da plateia.

Outro aspecto muito importante que a empatia contribui é para a liderança. Nos dias de hoje, e com o modelo dinâmico de organizações que vivemos, não cabe mais o líder autocrático, altamente técnico, mas que não consegue se comunicar bem com seus liderados. É um exercício diário observar os colegas, subordinados e superiores e desenvolver a habilidade de ser empático com cada um deles.

Isso significa compreender as demandas individuais e atendê-las de forma abrangente. Um subordinado demanda orientações para o desenvolvimento da tarefa de forma a contribuir com a meta do grupo em que está inserido. Um superior demanda informações já tratadas para o processo decisório. Mesmo tratando de um assunto comum, as abordagens são completamente diversas e cabe ao líder compreender essa diferença. Para isso, vai usar muito de sua capacidade de ser empático com ambos.

Ser empático não se restringe às pessoas que conhecemos, mas principalmente com os desconhecidos ou mesmo com personalidades antagônicas. Este é um grande esforço que demanda sensibilidade, inteligência emocional e vontade, para se colocar no lugar do outro e experimentar uma nova perspectiva. Esta é uma habilidade que pode ser aprendida, mas que precisa ser diariamente cultivada.

As organizações têm muito a ganhar desenvolvendo a empatia em seus colaboradores, que naturalmente passam a trabalhar mais alinhados com seus líderes, uma vez que se sentem compreendidos. Isso gera coesão na equipe, e é um diferencial de mercado, que impacta na rentabilidade, gerando mais resultados.

Precisamos reconhecer a empatia como uma força capaz de promover mudanças nos diversos meios onde atuemos. Podemos fazer esse exercício diariamente, em nossas famílias e em nosso ambiente de trabalho, melhorando nossas relações interpessoais.

Fazer esforço consciente para se colocar no lugar de outra pessoa – inclusive no de nossos inimigos – para rasgar rótulos, reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas: eis um dos grandes diferenciais daqueles que se esforçam para se destacarem em liderança.


* Este artigo é de autoria de Alzira Azeredo

Observção do bloguezinho mequetrefe:

Tem uma cara que falou há dois mil anos atrás: Não faça ao outro o que não queres que te façam a ti.


sábado, 25 de junho de 2016

Brexit: Mais do que nunca, uma ilha


Marcelo Manzano


Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo, depois da saída do Reino Unido da União Europeia. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande

Quem poderia imaginar que justamente da terra de Adam Smith e David Ricardo, berço do liberalismo econômico, viria o mais potente petardo contra o projeto de integração europeu? Mais do que isso, que os argumentos racionais e até certo ponto generosos dos clássicos da economia seriam suplantados pela retórica medíocre e oportunista de dois populistas de direita, duas figuras caricatas que parecem ter brotado entre os cogumelos nos jardins da rainha.

Ao que tudo indica – e as bolsas assim já precificam – a decisão tomada pelo povo britânico no dia 23, a favor do Brexit, ameaça desordenar o tabuleiro mundial e principalmente europeu com grande letalidade.

De cara, o mapa do resultado eleitoral da ilha revela um futuro sombrio e de inevitável desmantelamento do reino bretão. A começar pela impressionante unanimidade entre os eleitores da Escócia, onde nada menos que 100% dos distritos registraram maioria contrária ao rompimento com o bloco europeu.

Em contrapartida, no País de Gales e nas infinitas e bucólicas cidades do interior, o voto a favor da saída foi massivo, revelando que o eleitorado de mais idade, de renda média, com menor escolaridade e mais tradicionalmente “British” aposta no rompimento com a Europa como atalho para retomar a glória da Inglaterra vitoriana (silly boys!).

Já nas grandes e antigas cidades do cinturão operário do Norte (Liverpool, Manchester e Leeds), que pariram a Revolução Industrial e deram origem aos movimentos operários, prevaleceu o voto contrário ao Brexit, embora nas também importantes e ex-industriais Sheffield e Birmingham o mesmo não tenha ocorrido – o que é uma vergonha.

Londres, claro, cosmopolita e financista como nenhum outro rincão do planeta, votou majoritariamente pela continuidade da aliança com o continente – pesou também nessa tendência dos londrinos o grande número de jovens, universitários e imigrantes que se concentram na cidade e que enxergam na integração um horizonte mais vasto para seus projetos de vida.

Noves fora, o quadro de discórdia explicitado pelo referendo deverá ser sucedido por processos de cisões internas e externas de toda ordem. Não só os escoceses já anunciaram que querem um novo referendo para decidir o rompimento com o Reino (e aposto todas as fichas que sairão), como também os galeses, irlandeses do norte e até mesmo os ingleses do North (vermelho) deverão dar corda a movimentos separatistas que encontrarão cada vez mais motivos para romper os nexos com a asfixiante da City londrina.

Clique para contribuir!

É um vexame! Parece que os ilustrados da velha ilha meteram o sorvete no nariz e agora será difícil evitar o esfacelamento do que restava de vigor trabalhista e mesmo de uma direita conservadora mais responsável. Perdidos em infindáveis debates principistas sobre qual seria o melhor esteio da democracia (a tecnocracia do parlamento europeu ou a tradição secular do britânico) e reféns do oportunismo de curto prazo de Mr. Cameron (moleque que prometeu o referendo para vencer a eleição com o apoio dos xenófobos) as tradicionais forças políticas britânicas foram atropeladas por uma cambada de “homens médios”.

Sob a liderança do quase patológico Nigel Farage (líder do Ukip e inventor do Brexit) e do idiossincrático Boris Johnson (ex-prefeito de Londres, do Partido Conservador, que faz um tipo “família Adams”, mas que é esperto como um Eduardo Cunha sem contas na Suíça), os britânicos deverão assistir em breve o cenário político degenerar ainda mais.

Sem os votos progressistas dos escoceses e com o Labour Party em profunda crise de identidade, restará aos britânicos referendar a aliança entre o tinhoso e provável próximo Primeiro Ministro, Mr. Boris Johnson, e o infame Farage – a dupla terá que lidar com um dos momentos políticos mais turbulentos da vida britânica nas últimas décadas e certamente fará história.

Obviamente, essa maré de água azeda deverá cruzar o Canal da Mancha e disseminar as razões dos eurocéticos pelas terras do continente. Holanda, Dinamarca e República Tcheca já estão preparando seus plebiscitos – com o agravante de que nestes casos o rompimento deverá ser também com a moeda comum, o que coloca sérias dúvidas quanto à sobrevivência do Euro.

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande. Lamentavelmente, mais do que nunca, a frase do conservador Ortega y Gasset, escrita para o contexto europeu de 1927, parece fazer irritante sentido ainda em nosso tempo e lugar: “a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe a toda parte”.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Inacreditável: Teori Zavascki impede MPF de cobrar porcentagem por acordos na "lava jato"

Via CONJUR

Marcelo Galli

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal que o Ministério Público Federal ficasse com uma porcentagem dos R$ 79 milhões devolvidos pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Mas o ministro Teori Zavascki, relator da “lava jato”, não concordou com o pedido, por considerá-lo sem justificativa legal.

A devolução do dinheiro que estava no exterior faz parte do acordo de delação premiada que o executivo acertou com o MP no âmbito da operação, que apura fraudes em contratos e desvio de verbas da petroleira. 

Valor integral deve ser depositado na conta da Petrobras, julgou Teori.
Nelson Jr./SCO/STF

Conforme a petição da PGR, 80% dos R$ 79 milhões repatriados por Costa deveriam ir para a Petrobras, e o restante seria depositado em favor da União, “para destinação aos órgãos responsáveis pela negociação e pela homologação do acordo de colaboração premiada que permitiu tal repatriação”. Ou seja, para o Ministério Público Federal e para o próprio STF.

Na decisão, o ministro Teori afirma que o valor integral deve ser depositado na conta da Petrobras. Segundo o ministro, embora a Lei 12.850/2013 estabeleça, como um dos resultados necessários da colaboração premiada, “a recuperação total ou parcial do produto ou do proveito das infrações penais praticadas pela organização criminosa”, o diploma normativo deixou de prever a destinação específica desses ativos. A lacuna, diz, pode ser preenchida pela aplicação, por analogia, dos dispositivos que tratam da destinação do produto do crime cuja perda foi decretada em decorrência de sentença penal condenatória.

O artigo 91, II, b, do Código Penal estabelece, como um dos efeitos da condenação, “a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé, do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso”. Para o relator da “lava jato” no STF, a Petrobras é “sujeito passivo” dos crimes em tese perpetrados por Costa e pela suposta organização criminosa que integrava, e, por isso, o produto do crime repatriado deve ser direcionado à empresa lesada para a restituição dos prejuízos sofridos.

Ele explica também que a Petrobras é uma sociedade de economia mista, razão pela qual seu patrimônio não se comunica com o da União. Assim, continua o ministro, eventuais prejuízos sofridos pela empresa afetariam “indiretamente” a União, na condição de acionista majoritária. “Essa circunstância não é suficiente para justificar que 20% dos valores repatriados sejam direcionados àquele ente federado, uma vez que o montante recuperado é evidentemente insuficiente para reparar os danos supostamente sofridos pela Petrobras em decorrência dos crimes imputados a Paulo Roberto Costa e à organização criminosa que ele integraria”, diz a decisão.

Pet 5.210


Clique aqui para ler a íntegra da decisão.