sábado, 25 de abril de 2015

O primeiro terrorista

Sanguessugado do Bourdoukan

Georges Bourdoukan

"E foram muitos mais os que matou morrendo, do que os que matara antes quando vivo (Juízes 16,30)"

Esse trecho da Bíblia conta como Sansão, o hebreu (o que veio de fora) matou mais de três mil filisteus dando cabo à própria vida. Ou seja, sacrificar-se juntamente com o inimigo não é algo original no Oriente Médio.

Há mais de dois mil e quinhentos anos que isso acontece, mas coube a Sansão o mérito da primazia.

Para os raros leitores da Bíblia (apesar de ser o livro mais vendido no Ocidente) explica-se que Sansão era um sujeito inquieto que gostava de uma briga. Em Juízes 16,15 está escrito: “E pegando na queixada de um jumento, que achou à mão, e que jazia ali, matou com ela mil homens”.

A bíblia não explica quanto tempo ele levou para matar mil homens na base da porrada e nem como isso foi possível. O que não tem a menor importância porque todo mundo acredita no livro sagrado mesmo sem nunca tê-lo lido.

Sansão gostava de freqüentar o que as más línguas de hoje denominam de prostíbulos.

Seu nome em aramaico (Shamshum) significa pessoa ágil e vivaz, mas, infelizmente para ele, não tão ágil e vivaz quanto a belíssima Dalila, por quem se apaixonou perdidamente a ponto de lhe revelar a origem de sua força.

Dalila, cujo nome pode ser traduzido como Guia ou Orientadora, aproveitou-se para vingar o massacre de seu povo. Afinal, num mundo onde ainda prevalece o olho por olho, dente por dente, há pouco espaço para o amor, para o perdão e para a solidariedade. O resto da história todo mundo conhece, graças ao cinema.

Após sacrificar a própria vida para matar seus inimigos, Sansão foi enterrado no túmulo de seu pai Manué, “depois de ter sido juiz de Israel vinte anos (19-31)”.

Mais de dois mil e quinhentos anos depois, o número de adeptos de seu exemplo (matar o inimigo com o próprio sacrifício) cresce vertiginosamente.

O que não deixa de ser lamentável.

Será isto o que nos reserva o mundo?

 

Como não fazer política econômica

Via Brasil Debate

Fabrício Augusto de Oliveira

Na década passada, muito poucos brasileiros imaginariam que o Brasil voltaria a se defrontar, em tão pouco tempo, com problemas econômicos tão graves como os atuais, que solapam a imagem de competência da presidente Dilma Roussefff vendida por seu patrono, o ex-presidente Lula, e aumentam crescentemente a desconfiança da população e dos investidores em geral sobre o seu futuro.

Afinal, depois de um primeiro mandato em que rezou o terço neoliberal, Lula abriu o segundo acreditando ter concluído o ajuste exigido pela ortodoxia, e prometendo proporcionar ao País o “espetáculo do crescimento”, com significativos avanços no campo social, por muitas décadas.

Poucos também perceberam que tal promessa não passava de uma “ilusão”, à medida que as condições estruturais para se manter uma política de crescimento com inclusão social indefinidamente não haviam sido criadas, e que, sem a realização de reformas importantes na economia, capazes de aumentar o investimento, a produtividade do trabalho e reduzir o custo-Brasil, tal política seria insustentável em longo prazo.

Apenas a força do crescimento mundial à época, aliado aos efeitos positivos da economia chinesa que se irradiaram para o restante do mundo, especialmente para os países produtores de commodities, permitiu que o Brasil, além de alcançar taxas de crescimento mais expressivas, ainda conseguisse transferir parte de seus frutos para as camadas menos favorecidas da população. O que foi entendido, equivocamente, como resultado da competência da política econômica implementada, quando essa praticamente foi mantida na inércia em relação à construção das condições estruturais para se manter o equilíbrio entre o econômico e o social de forma sustentável.

A crise do subprime de 2008/2009 e, posteriormente, a da dívida soberana europeia, iniciada em 2010, começaram a desfazer essa ilusão e o Brasil teve de substituir os estímulos que vinham do exterior por um maior dinamismo de suas forças econômicas internas, implementando políticas contracíclicas de incentivo ao consumo, com a expansão do crédito, a expansão dos gastos do governo, a manutenção da política de aumento dos salários acima dos ganhos de produtividade, a ampliação das transferências diretas de renda etc., que lhe propiciou, inclusive, um crescimento excepcional de 7,5% em 2010, último ano do segundo mandato do governo Lula.

Tal trajetória não poderia ser mantida, no entanto, por muito tempo, caso não fossem adotadas também medidas para estimular os investimentos da economia, o que exigiria a realização de reformas estruturais, de forma a adequar a demanda em expansão à oferta, e sem se buscar novas fontes de financiamento do Estado que não impactassem negativamente sobre o desempenho da economia, como é o caso, por exemplo, da taxação sobre os níveis mais altos de renda e sobre o patrimônio. Este não foi, entretanto, o caminho percorrido.

A partir de 2011, os sucessivos erros cometidos pela política econômica não perdoaram o País, colocando o governo de joelhos para entregar à ortodoxia a pauta conservadora que hoje viceja no Ministério da Economia e no Congresso. No primeiro ano, à adoção de medidas restritivas para conter as pressões desencadeadas pelo robusto crescimento de 2010, somou-se a retomada da política de valorização do câmbio como instrumento de controle inflacionário, jogando por terra os ganhos que poderiam ser obtidos no front externo com o aumento da competitividade da produção nacional. E, isso, num contexto de desaceleração da economia mundial, o que levou o PIB a recuar para um baixo crescimento de 2,7% no ano.

Acreditando que este choque teria ido longo demais, o governo optou por soltar as rédeas do consumo, retomando a política expansionista para reativar o crescimento, mas novamente se esquecendo da outra lâmina da tesoura, a da oferta, e de que uma política redistributiva consistente tem de estar escorada no crescimento econômico para não se inviabilizar.

Contenção de tarifas, redução drástica das taxas de juros, aumento considerável dos gastos correntes do governo, desonerações tributárias, expressiva expansão do crédito público, foram alguns ingredientes que, num contexto de forte aquecimento do mercado de trabalho e de renda em ascensão do trabalhador, mantiveram elevado, embora cadente, o consumo, mas sem recuperar as forças do crescimento, como se acreditava.

Isso porque, além da desconfiança provocada por essa política nos investidores, implementada de forma autoritária, nenhuma medida, a não ser a caótica desoneração da folha de pagamentos, foi realizada para impulsionar a atividade produtiva e os investimentos, asfixiados por uma pesada carga tributária, falta de câmbio competitivo, infraestrutura cara e deficiente, deficiência de mão de obra qualificada, burocracia estatal paralisante etc.

Não poderia dar certo, e o resultado a que se chegou foi a desestruturação dos pilares centrais da economia, com alta inflação, forte desequilíbrio fiscal, crescente vulnerabilidade externa e, mais grave, com o País mergulhando numa recessão da qual não se verá livre em pouco tempo.

Tendo optado por transferir a pauta da economia para a ortodoxia, diante do desastre da política econômica que implementou, mas sem nunca ter reconhecido seus equívocos, encontra-se em curso um terceiro round de novos erros, pelos quais a população pagará muito caro e por um bom tempo.

Exclusivamente centrado no ajuste fiscal, embora nos últimos dias sensatamente o ministro da Fazenda venha ventilando a hipótese de adotar medidas mais estruturais, ele não representa, per si, uma saída para os problemas enfrentados pela economia e nem para resgatar a confiança e o crescimento econômico, embora possa até acalmar o mercado financeiro e as agências de rating. Outra lição a aprender, antes de podermos exportar nossa política econômica para a Europa.

Crédito da foto da página inicial: www.sinterc.org.br

A ÁFRICA E A TRAVESSIA DA MORTE

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

(Do Blog) - A "Primavera" Árabe, fomentada pelos EUA e pela União Europeia, com suas intervenções no Oriente Médio e no Norte da África, continua pródiga em produzir cadáveres, em fecunda safra, trágica e macabra.
Morre-se nas mãos do Exército Islâmico, que começou a ser armado para tirar do poder inimigos de Washington, como Kaddafi e Bashar Al Assad. Morre-se nas cidades destruídas da Síria, da Líbia e do Iraque. Morre-se no deserto, ou à beira mar, na fuga do inferno que se estendeu por países onde até poucos anos crianças iam para a escola e seus pais, para o trabalho, todas as manhãs.
Morre-se, também,  no Mar Mediterrâneo, quando naufragam embarcações frágeis e superlotadas a caminho de um destino incerto em um continente, a Europa, que odeia e rejeita os refugiados de seus próprios erros, alguns tão velhos quanto a política de colonização que adotou em um continente que ocupou, roubou e violentou, de todas as maneiras, por séculos a fio.
Para não escrever a mesma coisa, desta vez sobre os mortos de Catânia, reproduzo texto do final de 2013, sobre os mortos de Lampedusa, que pereceram em um dos mesmos inumeráveis naufrágios, nas mesmas circustâncias, nas mesmas geladas profundezas, em que recebem, agora, os corpos daqueles que, empurrados pelo desespero, a fome  e a violência, os seguiram para a morte, fazendo uma trágica travessia que, na maioria das vezes, não leva a lugar nenhum:
"Berço de antigas civilizações, o Mar Mediterrâneo abriu suas águas, por dezenas de séculos, para receber, em ventre frio e escuro, os corpos de milhares de seres humanos.

Mar de vida, morte e sonho, Ulisses, na voz de Homero, singrou suas águas. E tampando os ouvidos, para não escutar o canto das sereias, aportou em imaginárias ilhas, fugindo de Cíclope e Calipso, para enfrentar, a remo e vela, os ventos de Poseidon em fúria.

Por Troia, Cartago, nas Guerras Púnicas ou do Peloponeso, mil frotas cavalgaram suas ondas, pejadas de armas e guerreiros. E, no seu leito descansam, se não os tiver roído o tempo, comerciantes fenícios e venezianos, guerreiros atenienses e espartanos, os pálios e as espadas de legionários romanos, escudos e capacetes cartagineses, navegantes persas, cavaleiros cruzados, califas e sultões.

Os mortos do Mediterrâneo descansam sobre seu destino.

Suas mortes podem não ter sido justas, mas, obedeciam ao fado das guerras e do comércio, à trajetória do dardo ou da flecha que subitamente atinge o combatente, ao torpedo disparado pelo submarino, à asa, perfurada por tiros de artilharia, de um bombardeio que mergulha no mar a caminho da África do Norte, ao sabre que os olhos vêem na mão do inimigo e à dor do imediato corte.

De certa forma, elas obedeciam a uma lógica.

Mas não há lógica ou utilidade nas mortes que estão ocorrendo nestes dias, dos meninos e meninas que se afogam, em frente à costa italiana, na tentativa de chegar a solo europeu, depois de atravessar o Mediterrâneo.

Há anos, centenas de pessoas têm morrido dessa forma. No dia 3 de outubro, um naufrágio na ilha italiana de Lampedusa deixou ao menos 339 mortos – quando cerca de 500 imigrantes vindos da Eritreia e da Somália tentavam chegar à Itália. Oito dias depois, uma embarcação com 250 imigrantes africanos virou na mesma região e 50 pessoas morreram.

Que crime cometeram esses meninos e meninas? Nos seus barcos eles não levavam o ouro da Fenicia, nem lanças e escudos, nem mesmo comida, nem seda ou veludo, a não ser a sua roupa, seus pais e suas mães, sua pobre e corajosa esperança de quem foge da guerra e da miséria.

Mas, mesmo assim, a Europa os teme. A Europa teme a cor de sua pele, o idioma em que exprimem suas idéias e suas emoções, os deuses para quem oram, seus hábitos e sua cultura, sua indigência, sua humanidade, sua fome.

Se, antes, lutavam entre si, os europeus hoje, estão unidos e coesos, no combate a um inimigo comum: o imigrante.

O imigrante de qualquer lugar do mundo, mas, principalmente, o imigrante da África Negra e do Oriente Médio.

Barcos de países mediterrâneos, como os da Grécia, Espanha e Itália, patrulham as costas do sul do continente. Quando apanhados em alto mar, em embarcações frágeis e improvisadas, por sua conta e risco, mais náufragos que navegantes, os imigrantes são devolvidos aos países de origem.

Antes, a imigração era, principalmente, econômica.

Agora, a ela se somam as guerras e os deslocamentos forçados. São milhões de pessoas, tentando fugir de um continente devastado por conflitos hipocritamente iniciados por iniciativa e incentivo da própria Europa e dos Estados Unidos.

O Brasil está fazendo sua parte, abrindo nosso território para a chegada de centenas de refugiados sírios, como já o fizemos com milhares de haitianos e clandestinos  escapados da África Negra que chegam a nossos portos de navio.

A Itália lançou uma operação militar “humanitária”, para acelerar o recolhimento de imigrantes que estiverem navegando em situação de risco junto às suas costas, mas irá manter sua rigorosíssima lei de veto à imigração, feita para proibir e limitar a chegada de estrangeiros.

Como a mulher, amarga e estéril, que odeia  crianças, a Europa envelhece fechada em seus males e crises, consumida pela decadência e a maldição de ter cada vez menos filhos.

Mas prefere que o futuro morra, junto com uma criança árabe, no meio do mar, a aceitar a seiva que poderia renovar seu destino.

Sepultados pela água e o sal do Mediterrâneo, recolhidos, assepticamente, nas praias italianas, ou enterrados, junto com seus pais, em cemitérios improvisados da Sicília – ao imigrante, vivo ou morto, só se toca com luvas de borracha - a meio caminho entre a miséria e o terror e um impossível futuro a eles arrebatado pela morte - os fantasmas dos meninos e meninas de Lampedusa poderiam assombrar, com sua lembrança, a consciência européia.

Se a Europa tivesse consciência."

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Benayon: Quem manda no país?

Sanguessugado do Adriano Benayon

Enrolados por doutrinas e por distorções dos fatos, os brasileiros brigam por causa de opiniões e teorias, como o império anglo-americano mundial gosta, pois sempre investiu em dividir suas vítimas com antagonismos ideológicos e querelas religiosas, étnicas e outras.
Adriano Benayon

1. É importante, especialmente em situações críticas como a que vivemos no Brasil, atentar mais para os fatos que para ideologias. Não que teorias não possam ser úteis, mas, para gente honesta e consciente de seus interesses, elas só se validam se forem conformes à realidade.

2. Ao contrário, o sistema de poder concentrador – que objetiva, sobretudo, acumular mais poder – emprega intelectuais para criar teorias, que mistificam os povos, e, mercê do controle sobre a mídia, as transforma em “verdades”, aos olhos da maioria.

3. Não importa se você é de direita ou esquerda: se é brasileiro, está sendo brutalmente saqueado, salvo as infames exceções dos agentes e colaboradores da oligarquia financeira internacional.

4. Tampouco importa se você é militar ou civil ou, ainda, se é adepto da intervenção do Estado, ou se acredita numa quimérica livre iniciativa, praticamente inexistente onde se admitem e subsidiam carteis.

5. Enrolados por doutrinas e por distorções dos fatos, os brasileiros brigam por causa de opiniões e teorias, como o império anglo-americano mundial gosta, pois sempre investiu em dividir suas vítimas com antagonismos ideológicos e querelas religiosas, étnicas e outras.

6. É como uma cidade cujos residentes se digladiam, enquanto suas casas são ocupadas por assaltantes armados. E quanto mais se distraem nisso, mais aumenta o saqueio.

7. O colossal esbulho cresce e alcança novas áreas, sob um sistema político caracterizado pela corrupção sistêmica e no qual, em todas as instâncias, se verificam manifestações de acordo, ainda que implícito, com a dominação exercida pelos carteis transnacionais e por grupos financeiros concentradores.

8. Demonstra ser tal sistema imprestável, não haver nele partido político algum,  de expressão, que se oponha a esse estado de coisas.

9. O que a massa de trabalhadores, empresários, gerentes, técnicos, funcionários civis e militares não percebe – porque lhe é cuidadosamente ocultado – é que os políticos, como o gato da fábula milenar de Esopo, tiram as castanhas do fogo para a raposa, os carteis financeiros e econômicos transnacionais.

10. Grande quantidade de gente indigna-se contra alguns políticos e executivos, colocados na Petrobras, receptores de propinas de grandes empreiteiras, e reclama a privatização da estatal e/ou penas letais para essas empreiteiras.

11. Ressalvado que esses delitos envolvem quantias de menor monta, comparadas aos prejuízos que a corrupção sistêmica causa ao País, e mesmo a outros casos de corrupção derivada, a indignação é compreensível.

12. Porém, esse tipo de resposta aos escândalos da Operação Lavajato denota visão  obscurecida pela cobertura do assunto na grande mídia, sempre vinculada aos  interesses antinacionais.

13. Há verdadeira campanha midiática em cima dessa Operação, enquanto se oculta a corrupção sistêmica e as praticadas por empresas transnacionais, grandes bancos e políticos afinados com esses concentradores.

14. O trabalho da grande mídia é alimentado pelo tratamento dado ao inquérito pelo juiz que o preside, abusando da delação premiada, fazendo vazamentos à mídia e mantendo presos, indevida e prolongadamente, executivos das empreiteiras, postura com a qual colaboram membros do Ministério Público.

15. Em vez de haver investigação isenta e eficaz, vê-se desrespeito a direitos constitucionais dos acusados, o que é o oposto da propalada sede de justiça e pode frustrar, mais adiante, a punição dos responsáveis.

16. O resultado é que: a) as atividades da Petrobras e as da engenharia nacional privada são prejudicadas; b) são reforçados, na opinião pública, falsos conceitos, de há muito inculcados, de que estatais são inconvenientes e as empresas privadas nacionais são intrinsecamente corruptas, enquanto essa não seria a regra entre as estrangeiras.

17. Estando a maioria dos parlamentares alinhada com os financiadores de suas eleições, e a chefe do Executivo pouco resistente a pressões dos concentradores, fica claro o assalto transnacional às fabulosas reservas de petróleo descobertas pela Petrobras, tramado em Projeto de Lei do senador José Serra

18. Esse desempenhou, no governo de FHC, papel destacado nas privatizações, quando a União entregou setores inteiros e fabulosas estatais, gastando, para isso, dinheiro público em montante muito superior às receitas dos leilões.

19. O jornalista Motta Araujo observou, em artigo recente, no Jornal GGN, a inexistência atual, no Brasil, de um centro de poder político, como na antiga tradição presidencialista do país.

20. De fato, espaços de poder, antes do presidente,  vêm sendo ocupados pelo Legislativo e pelo Judiciário, e parte do Ministério Público e da Polícia Federal agem em aguda dissintonia com o Executivo.

21. Os países que caminharam na direção de se tornar potências, o fizeram havendo  harmonia entre os poderes e preponderância de uma só autoridade, fosse o presidente nos EUA, fosse o primeiro-ministro nos regimes parlamentaristas ou, ainda, o chefe do partido único, sob os regimes centralizados da Rússia e da China, respectivamente na primeira e segunda metades do século 20.

22. E mais letal que o esfacelamento do poder no âmbito interno, por si só suficiente para inviabilizar o desenvolvimento, é ser o poder real exercido de fora do Brasil.

23. Essa situação decorre das intervenções do império dirigido pela oligarquia financeira anglo-americana, através de golpes de Estado – coordenados pelos serviços secretos dos EUA, do Reino Unido e de potências coadjuvantes –, e mediante corrupção e cooptação de muitos nos setores público e privado, ademais de investimentos constantes para controlar os meios de comunicação social, desinformar, arrasar a cultura e abaixar os valores éticos e a qualidade da educação.

24. A estratégia da dominação teve por ponto de partida o controle dos meios de produção e financeiros. O primeiro e decisivo impulso foi dado, de 1954 a 1960, quando os governos egressos do golpe de agosto de 1954 e o da eleição de JK do final de 1955 proporcionaram às empresas multinacionais (transnacionais) colossais favorecimentos para assenhorear-se dos mercados no país, desde a Instrução 113 e seguintes da SUMOC, em janeiro de 1955.

25. Esse processo nunca mais foi estancado, e foi acelerado durante a maioria dos mandatos, pois a regra ficou sendo adotar políticas do agrado das transnacionais, que se haviam tornado a classe dominante.

26. Os EUA e seus parceiros impuseram, quando quiseram, golpes de Estado, em que a intervenção militar direta funcionou como ameaça, ou recurso em caso de o resultado não ser obtido sem ela.

27. A subida ao poder de líderes nacionalistas e dotados de atratividade eleitoral foi impedida através de medidas discricionárias nos 20 anos de governos militares e, novamente, sob a democracia de fachada instituída em 1988, mediante inúmeras jogadas e fraudes políticas e mediáticas, em prejuízo de Brizola e Arraes e, mais tarde, do Dr. Enéas.

28. Não é possível ignorar a ilegitimidade das “escolhas” de Collor e FHC para presidir a República, a não ser sob a ótica bitolada dos que não percebem as colossais manipulações e abusos de poder, nem os esquemas de corrupção praticados com esse fim.

29. Tampouco se pode entender a política dos governos encabeçados por Lula e Dilma, sem ter notícia dos acordos e conchavos destes com os mentores imperiais de seus predecessores.

30. Resumindo, os membros do Judiciário e do MP,  deslumbrados com os holofotes da mídia corrupta, que agem com desenvoltura e até contra a lei, só o fazem por estarem agradando às transnacionais e a oligarquia local a elas vinculada.

31. Ademais, o Executivo enfraqueceu-se e perdeu apoio popular e a confiança de entidades que o apoiavam, em consequência das concessões às oligarquias mundial e local.

32.  Desde Getúlio Vargas, faltou aos presidentes focados na realidade do país decisão para convocar o povo às ruas e mobilizar lideranças do Exército, a fim de ganhar condições de ocupar o poder real.

33. Carecem, por outro lado, de base as ilusões cultivadas a respeito de líderes como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves.

34. Neves derrotou Maluf, nas eleições indiretas de 1985, porque a oligarquia financeira o preferia. Tanto é assim que sua vitória se deveu à defecção no PDS para criar a Frente Liberal, liderada por Marco Maciel, tradicional articulador em favor das oligarquias.

35. Haja vista o ministério legado por Tancredo: Educação: o próprio Maciel; Comunicações: Antônio Carlos Magalhães (ACM), mantendo o feudo deste, associado a Roberto Marinho; Itamaraty: Olavo Setúbal, banqueiro do Itaú; no principal, Fazenda: Francisco Dornelles, defensor de políticas privatizantes e pró-capital estrangeiro.

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Adriano Benayon é doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

Mujica: 'Quem gosta de dinheiro tem que ser tirado da política'

Via BBC

Credito: BBC

Ex-presidente disse que uruguaios "não são afeitos à corrupção" e que tráfico de influência é "doença" no Brasil

Prestes a completar 80 anos, o ex-presidente uruguaio José Mujica diz que a corrupção afeta "a todos" na América Latina, mas que "quem gosta muito de dinheiro deveria ser afastado da política".

Em entrevista exclusiva à BBC Mundo, Mujica comentou a corrupção em países como México e Brasil, e afirmou que a "vontade de ter bens materiais" não se relaciona bem com o serviço público.

"Sempre disse aos empresários: se eu souber que pediram alguma propina a vocês e vocês não me avisaram, teremos uma relação péssima. Com essa declaração, não havia abertura para que me oferecessem nada."

"Se misturamos a vontade de ter dinheiro com a política estamos fritos. Quem gosta muito de dinheiro tem que ser tirado da política. É preciso castigar essa pessoa porque ela gosta de dinheiro? Não. Ela tem que ir para o comércio, para a indústria, para onde se multiplica a riqueza", declarou.

Agora senador, Mujica diz que não descartaria voltar à Presidência, caso sua saúde permitisse. Dá a impressão, no entanto, de que não acredita na possibilidade.

"Se eu tivesse o grau de saúde que tenho hoje, não teria nenhum problema. Mas estou quase com 80 anos, não acho que tenho idade adequada de resistir ao vaivém de uma Presidência."

O ex-presidente falou à BBC sentado sob uma árvore diante de sua casa nos arredores de Montevidéu. O ambiente tranquilo e silencioso, que sempre disse valorizar, agora é interrompido ocasionalmente pela chegada de crianças e adolescentes à escola rural que ele inaugurou recentemente do outro lado da rua.

Ele falou sobre narcotráfico e opinou sobre governos de outros países latino-americanos. Entre elogios a sua cadela Manuela ("o integrante mais fiel do meu governo") e comparações entre o mate argentino e o uruguaio, Mujica disse ainda que não considera ocupar um cargo internacional.

"Acredite, para mim seria uma tortura. Não sou afeito ao protocolo, não sou a pessoa mais indicada. Acho que as causas políticas têm muito fôlego e que é preciso incorporar gente mais jovem que nós, que nos supere."

'Doença' brasileira

"Algo doentio acontece na política brasileira", disse o ex-líder uruguaio sobre a cisão entre o governo de Dilma Rousseff, em seu segundo mandato, e o Congresso eleito em 2014. "O Brasil é um país gigantesco e cada Estado tem sua realidade, com partidos locais fortes. Conseguir a maioria parlamentar no Brasil é um macramé (técnica de tecelagem manual) onde pedem uma coisa aqui, outra ali."

Para Mujica, o tráfico de influência é "uma tradição" no país, já que os governos "têm que fazer o impossível para conseguir a maioria parlamentar de alguma maneira".

"Não digo que os fins justificam os meios, quem diz é Maquiavel. O que digo é que isso é uma doença que existe há muito tempo na política brasileira."

Ao mesmo tempo, ele afirma que o poder dos presidentes na democracia representativa é relativo e, por isso, demora para que uma vontade do poder Executivo torne-se realidade. "Não se deve confundir governar com mandar. Existe o papel da persuasão e do convencimento. Um presidente deve se cercar de gente útil e de gente boa."

Mujica diz ainda que é preciso considerar o papel dos agentes externos ao governo na corrupção. "Para que haja corruptos, também deve haver um agente corruptor. Não nos esqueçamos disso."

Quem gosta muito de dinheiro tem que estar na indústria, no comércio. Não na política."

Vizinhos

Durante a entrevista, Mujica evitou fazer críticas frontais aos governos latino-americanos. Questionado sobre seu apoio à administração de Nicolás Maduro, na Venezuela, ele afirmou que "não gosta da existência de presos políticos" no país, mas se posicionou contra possíveis intervenções em meio à crise.

"A Venezuela tem problemas, sim. Mas não vai sair deles a pauladas. Não é apoio, são as evidências. Porque não se ganham 14 eleições sucessivas só usando a força."

Apareceu aqui um rapaz, não sei de que país, com um baseado, e me convidou para fumar um baseado

Mujica chegou a chamar a presidente argentina Cristina Kirchner de "velha", mas, desta vez, também dedicou-lhe palavras mais suaves. "Não acho que seja uma presidenta maravilhosa, nem acho que seja uma bruxa. É uma mulher que teve de enfrentar todo o machismo arraigado em uma sociedade. Como muitos quiseram passar por cima dela, ela às vezes passa dos limites do outro lado."

Sobre o México, o ex-presidente voltou a afirmar que o tráfico de drogas é um problema maior no país por causa de sua proximidade com os Estados Unidos.

"Os Estados Unidos são o grande mercado consumidor das drogas e os que têm infinito poder aquisitivo e o México é o lugar de trânsito. Isso vem condicionando a vida deles e o México não teve a capacidade de resolver o problema da influência crescente do narcotráfico, não foi só esse governo."

"A combinação da ameaça e do dinheiro destroçou os poderes públicos, que não conseguiram enfrentar isso. Mas eu não estou criticando o México, acho que todos estamos expostos a isso hoje", afirmou, defendendo novamente a lei aprovada em seu governo, que tornou o Uruguai o primeiro país do mundo a regularizar a produção, a venda e o consumo de maconha.

"Curiosamente, eu que não sou neoliberal acho que a melhor fundamentação (para a lei) que encontrei é a de (Milton) Friedman (economista americano). Digo isso raramente, mas não tenho preconceito. Acho que é preciso roubar o mercado deles (dos narcotraficantes)."

Rolling Stones e baseado

José Mujica | Foto: ReutersMujica diz que sua cadela de estimação, Manuela, foi "integrante mais fiel" do governo

Centenas de perguntas foram enviadas para a entrevista com José Mujica, que foi transmitida ao vivo pela internet e acompanhada em seis idiomas pela BBC nas redes sociais. O ex-presidente teve que responder, por exemplo, sobre se já o convidaram a fumar maconha desde a descriminalização do consumo.

"Apareceu aqui um rapaz, não sei de que país, com um baseado, e me convidou para fumar. Eu não quis, mas eu também tenho meus vícios. De vez em quando fumo um cigarro comum. E quem vai dizer que o tabaco é saudável? O único vício bom é o amor, o resto são pragas. O problema está em quanto se consome e isso é um problema mental."

Algumas das perguntas mais frequentes eram sobre seu estilo de vida, ao que respondeu que "a humildade é uma filosofia que não pretende impor a ninguém".

"Não posso mudar a cultura do mundo em que vivemos, mas posso viver minha vida e dar minha opinião."

O ex-presidente também não se esquivou de questões mais difíceis – mesmo que fora do âmbito político – como a enviada por um participante argentino: Beatles, Pink Floyd ou Rolling Stones?

"Diga a ele que sou um analfabeto no tema, porque sou 'tangueiro' de alma. Mas feita essa ressalva, prefiro os Rolling Stones."