quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Não há o que temer no comunismo

Sanguessugado do IELA

Elaine Tavares

Cuba: comunidades se reúnem e deliberam sobre suas prioridades


Já não é de hoje que toma corpo a esquerda paz e amor. Essa ideia insana de que é possível humanizar o capitalismo. E, nesse diapasão vamos vivendo lutas por políticas públicas, de apaziguamento da miséria, propostas alternativas isoladas que não enfrentam o capitalismo ou ainda a ingênua intensão de um desenvolvimento sustentável no rumo de uma nação com bem estar social. Tudo bem se essas batalhas forem encaradas como reformas necessárias num caminho para outra forma de organizar a vida. Mas, crer nessas propostas como um fim em si mesmas é ilusão. Há que avançar para a ruptura. O capitalismo – já nos mostra o alemão Karl Marx – tem determinações muito claras e nelas não cabem essas propostas. Sua característica principal é a exploração. Sem ela não há capitalismo. Logo...

Os últimos acontecimentos no Brasil, no que diz respeito às ações do judiciário, levaram muitas pessoas a perceber que o Estado existente é um estado de exceção. De repente, aquilo que só valia para os empobrecidos, os negros, os índios, os esquecidos, os trabalhadores assalariados, passou a valer também para os inimigos tradicionais. Quebrou-se o código que funcionava como um acordo tácito: os ricos e os que carregam algum poder tinham tratamento diferenciado. E, de repente começou a brotar o bordão de que “a lei é para todos”, como se isso fosse uma verdade. Não é. O estado de exceção é uma realidade desde a sua formação. Ou alguém acha que lá na Europa, onde essa forma de organização nasceu, o Estado existia ou existe para proteger as gentes. Não. Nunca foi assim. Foi sempre para proteger os que estão no comando, a burguesia, os ricos. E os que estão no comando pertencem a uma determinada classe, que não é a dos trabalhadores. Se, como agora no Brasil, há uma disputa intraclasse, é sempre conjuntural. Logo as abóboras de acomodam e os acordos são refeitos.

Foi Marx quem desvelou essa verdade oculta ao estudar as determinações dessa forma de produção chamada capitalismo. O Estado burguês é o balcão de negócios da classe dominante, é o responsável por fazer acontecer o processo de acumulação de riqueza apenas para alguns, tais como as grandes transnacionais, como a Monsando, a Odebrecht, as petroleiras e outras.  Ele existe para atender aos interesses da minoria que se encastela no poder e governa em nome de todos, sem que os interesses de todos sejam levados em conta. Só o que vale é o interesse da minoria que tem a propriedade privada dos meios de produção, os bancos, as terras, as máquinas, as indústrias, as grandes empresas.

Olhemos o Brasil. A quem representam os legisladores, os que fazem as leis? Representam interesses bem específicos: latifúndio, indústria, igreja. Apenas aqueles que produzem mercadorias, deixando claro que hoje inclusive a fé das gentes é uma mercadoria. A maioria fica de fora. Vez em quando ganha um afago, para aliviar a pressão. Mas, basta que se apresente algum risco aos lucros, e lá são tirados os direitos. Como agora, na reforma trabalhista, no congelamento dos gastos públicos, na reforma da previdência. “Tirem dos trabalhadores. Tirem dos mais empobrecidos. Tirem da maioria”. Essa é a regra. O Estado de exceção agindo, como é da sua natureza.

Qual a saída para isso? Melhorar o capitalismo? Humanizar? Clamar por compaixão? Não. Há que apostar na comunidade, na constituição comum dos bens.  O capitalismo é um metabolismo insaciável, precisa se expandir a todo custo. Não pode parar. Por isso vai passando por cima das gentes. Não há misericórdia.

Marx apontou uma possibilidade: o comunismo. E o que é isso que as pessoas tanto temem? É o uso comum das riquezas, das terras, das fábricas. Cada um recebendo conforme suas necessidades, sem acumulação ou exploração. É uma sociedade em que todos participam, a sociedade do comum, numa convivência em que os que produzem a riqueza também podem usufruir dela. O comunismo é um momento em que até a batalha pela democracia deixa de ser necessária porque ela será capilar. E nesse modo de organização da vida não haverá Estado, porque essa forma é, naturalmente, uma forma de exceção.

Não é sem razão que Marx aponta a necessidade de um processo de transição, no qual ainda haverá Estado. É o que ele chama de ditadura do proletariado, ou Estado proletário. Esse momento histórico seria o momento em que o poder troca de mãos. Sai do controle de uma minoria – como é hoje – para o controle da maioria, os trabalhadores. Ainda será Estado, mas toda a lógica já começará a mudar. Isso pode ser observado no processo cubano, por exemplo. Ainda há um Estado, mas as decisões são todas construídas desde baixo, de maneira coletiva, comunitariamente. E a população conhece e acompanha, deliberando, os destinos da nação. Outro exemplo é a Venezuela, que também exercita esse processo de democracia participativa. Lá, ainda bem menos profundo que Cuba, porque está no começo e não aconteceu uma revolução. As coisas estão sendo construídas no embate cotidiano com a burguesia que tem apoio internacional. Ainda assim, as experiências de construção de uma comunidade do comum acontecem e pululam nos bairros das grandes cidades e nos cantões do país.

No texto “A questão judaica”,  de Karl Marx, é possível observar o rico debate que ele levanta sobre a questão do Estado.  Ele mostra como, no capitalismo, o Estado aparece como algo exterior à nós, como se fosse alguma coisa distinta da sociedade civil, ou como se fosse ele o ente que organiza a sociedade civil.

Mas, para Marx essa divisão entre Estado e Sociedade Civil é mistificada, não é real. Segundo ele, a sociedade civil e o Estado não são coisas distintas. Pelo contrário. O estado é expressão das contradições políticas que estão postas pela sociedade civil. É toda a rede de comunicação – que envolve escola, igreja, família e mídia  - que cria a ideia de que é o estado quem comanda ou que deve comandar.

Mais uma vez voltamos a Cuba. Lá, é possível perceber com bastante clareza que o estado não é o balcão de negócios da burguesia e tampouco é um aparelho que define como a sociedade deve atuar. O processo é ao contrário. É a sociedade civil organizada que define como o estado tem de atuar, fazendo com que as prioridades da maioria sejam as prioridades do Estado. Por isso não há menino de rua, nem moradores de rua, nem guerra de gangues, nem violências desatadas. Há saúde, educação e moradia para todos. É a população que decide aonde vão os recursos. Apesar de ser um país pobre e cercado pelo imperialismo, esses são direitos dos quais os cubanos não abrem mão. É isso que Marx fala sobre o estado proletário, nele não há cisão, não há dicotomia entre a sociedade civil e estado. É o “mandar obedecendo” tão conhecido pelos povos originários.

Esse é o caminho que Marx aponta para a superação da exploração das gentes e da propriedade privada. Primeiro, uma transição do estado capitalista para o estado proletário. E, depois, o comunismo, esse momento superior no qual o estado passa a ser desnecessário.

Ah, mas como que as pessoas vão fazer sem um estado para organizar tudo? Ora, as pessoas vão organizar. Como vai ser? Bom, não há respostas prontas. Essa é uma estrada para ser aberta, pavimentada e embelezada. Cada povo haverá de encontrar, a partir de suas próprias especificidades, a maneira de organizar a vida. Isso não é um sonho. Tem sido real ao longo da história em muitas comunidades e em várias épocas. Propostas como o sumac kausai (o bem viver), ou o sumac qamaña (o viver bem), dos povos originários mostram que é possível constituir uma nova forma de organizar a vida, que não esteja fundada na exploração do trabalho alheio, muito menos na propriedade privada. É o retorno do comum, da vida boa para todos e não apenas para alguns.

Como é possível que se busque preservar uma sociedade na qual três ou quatro homens sejam donos de mais da metade das riquezas geradas pelos trabalhadores? Como pode ser considerada diabólica uma proposta que pretenda tornar comum a riqueza, que acabe com a fome, que torne desnecessária a fuga, a morte e o desespero?

O comunismo só é diabólico para esses e essas que acumulam a riqueza gerada pelos bilhões de trabalhadores. São eles os que têm medo. E como têm poder, eles divulgam esse medo como se tivesse de ser o medo de todos. Não tem! Os trabalhadores, os despossuídos, os migrantes, os empobrecidos não tem nada a perder a não ser os seus grilhões. É tempo de pensar sobre isso, entender a realidade e avançar para um tempo novo. 


Insisto. Não há o que temer. Pode ser um salto no escuro, pode ser difícil, mas, certamente será melhor do que é. O capitalismo é uma ilusão. Ele só produz morte e dor para a maioria. É tempo de virar esse jogo. Nós podemos.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dívida Pública chega a R$3,5 trilhões. Governo e "O Mercado" são os pais da criança

Via TV Gazeta

Bob Fernandes




Fernando Segóvia é o novo diretor da Polícia Federal. Segóvia disse que uma mala, só uma, não comprova crime e corrupção.
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A mala, aquela com 500 mil. Para Rocha Loures, aquele corredor assessor do Temer. Presidente que foi à posse do delegado e bateu palmas.
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Deforma Trabalhista aprovada com 60% da população contra. A da Previdência, em pauta com 71% da população contra.
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Para 64% dos brasileiros a decisão de abortar ou não é das mulheres.
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Mas a Câmara quer impor lei que impede aborto em qualquer circunstância. Inclusive estupro.
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Não sabia que isso seria assim só quem não tem como saber. Quem sabia, inclusive no jornalismo, embarcou nisso porque quis.
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Há um ano e meio o diálogo de Romero Jucá e Sergio Machado já explicitava:
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-Tem que mudar o governo (derrubar Dilma) pra poder estancar essa sangria.
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-Rapaz, a solução mais fácil é botar o Michel (Temer).
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Dilma derrubada, a transição. Entrevistas diárias com Geddel, Jucá, Padilha, Moreira Franco. Que pontificavam inclusive sobre corrupção. Sem ouvir a pergunta de volta:
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-Mas como o senhor fala em corrupção e vai ser ministro se é acusado e investigado por corrupção?
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Enquanto isso, como se não existisse, a Dívida Pública explode. Hoje, Três Trilhões e meio.
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Essa dívida, no Brasil, em resumo tem crescido basicamente assim ...
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...O governo se endividou? Corta no Social. E, como precisa de dinheiro para se financiar, emite papel, um Título do Tesouro.
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Pode ser comprado diretamente, mas bancos e setor financeiro têm sido intermediários na venda desses títulos. Compram para revender.
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Ao revender, bancos e setor financeiro ganham boa parte do dinheiro. E com isso fazem mais dinheiro. Daí o seu Poder extraordinário.
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Inclusive na definição de altíssimas taxas de juros. Que, claro, levam em conta também outros fatores.
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Quase metade do Orçamento tem sido usado para pagar juros e amortização dessa Dívida Pública. Cujos donos, basicamente, são bancos e setor financeiro.
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Por isso ouvimos falar tanto nessa entidade tornada sagrada chamada "O Mercado".

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O topete de um ministro sem decoro. Veja o video

Sanguessugado do Tijolaço

Fernando Brito


fuxtopete

Eu não sei se um juiz europeu teria condições de acreditar no que lê ao por os olhos na entrevista do senhor Luiz Fux à BBC, chamá-lo de ministro, após a leitura, é-me desconfortável –  onde ele viola da A a Z a lei orgânica da magistratura, que proíbe que juízes deem declarações sobre casos que estão ou virão a estar sobre sua jurisdição.

Faz isso sem o menor pudor. Diz que a decisão da Assembleia Legislativa sobre a revogação da prisão de Jorge Picciani – em tudo idêntica à que o STF autorizou o Senado a tomar em relação a Aécio Neves -é “lamentável”, “vulgar” e “promíscua”, sabendo que ele terá de agir como o magistrado que deveria ser diante dos argumentos para invalida-la ou confirmá-la.

Vai presidir o processo eleitoral  que escolherá o Presidente da República em 2018, dirigindo o TSE,  mas sente-se no direito de rasgar-se em elogios a uma possível candidatura de Joaquim Barbosa: “entendo que ele seja um grande nome nesse momento que o Brasil precisa de uma repercussão internacional de que seu dirigente é um exemplo de moralidade e de probidade”.

O que, no conceito dele, deve aplicar-se á decisão dele, Fux, que “liberou geral” o auxílio-moradia para juízes e promotores há três anos e, até hoje, não foi ao pleno do STF, certamente  para não fazer certos ministros terem de legitimar, de boca própria, a maracutaia que isso representa.

Para Lula, o tratamento é o inverso do de Barbosa: deixa claro que, cumprido o script da condenação insólita pelo apartamento-que-não-é-dele-mas-é-dele, será um “ficha suja” e não poderá concorrer.

O topete do sr. Fux, vê-se pela entrevista, não é apenas capilar. E não se desfaz, segundo o insuspeito Reinaldo Azevedo, por ter beijado os pés de Adriana Ancelmo, mulher de Sérgio Cabral , como gesto de agradecimento pela cátedra recebida de ministro recebida com o apoio do marido.

Fux é um arremedo de juiz. Este, julga nos autos. Ele, sem sequer ver os autos, já sentencia.


L’Etat c’est moi, mas agora a cabeleira não é uma peruca, como a de Luiz XIV.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Como os bandeirantes paulistas destruíram o Quilombo dos Palmares e mataram Zumbi

Sanguessugado do Socialista Morena

Qual seria o interesse da direita em desmerecer os quilombos como sociedades em que os negros podiam ser livres do domínio branco, chefiados por si mesmos e com suas próprias regras e leis?


A GUERRA DOS PALMARES, ÓLEO DE MANUEL VÍTOR, 1955



Cynara Menezes


Em seu afã de continuar a escrever a história sob a ótica dos vencedores, autores de direita têm se notabilizado por divulgar que no Quilombo dos Palmares também havia negros escravizados. Uma “descoberta” que não chega nem a ser novidade: já aparece no clássico O Quilombo dos Palmares, do baiano Edison Carneiro (1912-1972), publicado em 1947 (leia aqui). “Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos. Entretanto, tinham uma oportunidade de alcançar a alforria: bastava-lhes levar, para os mocambos dos Palmares, algum negro cativo”, diz o livro.

Mas qual seria o interesse da direita em desmerecer os quilombos, especialmente Palmares, como sociedades em que os negros podiam ser livres do domínio branco, chefiados por si mesmos e com suas próprias regras e leis? A primeira intenção certamente é fazer a abjeta escravidão de seres humanos negros parecer “menos cruel” e “normal” –afinal, se até nos quilombos havia escravos, não é? Um destes reaças travestidos de historiadores teve a pachorra de afirmar, por incrível que pareça, que existia a possibilidade de ascensão social para os africanos que vinham para cá à força, acorrentados em navios negreiros…

Deseja-se demolir, portanto, o mito fundador da “consciência negra” entre os negros: se o seu principal herói era um “escravocrata”, que sentido teria imaginar uma outra realidade possível, em que o negro estivesse livre dos grilhões impostos pelos brancos? Cairia por terra Palmares e com ele toda a concepção de um Estado negro para onde fugiam todos aqueles que não queriam viver nas senzalas e que alcançou, em seu auge, na segunda metade do século 17, uma população de cerca de 20 mil pessoas. Sem o Quilombo dos Palmares, sem Zumbi, a direita reforça a ideia do negro conformado com sua desgraça, de cabeça baixa, resignado com o “destino” que a história lhe reservou.

Menos óbvio, em minha opinião, é o propósito de tentar livrar a cara dos “heróicos” bandeirantes paulistas na destruição completa de Palmares, o maior dos quilombos e que existiu por quase um século, ameaçando a autoridade das elites açucareiras e da coroa portuguesa. Propagar que também havia escravos nos Palmares funciona como uma espécie de cortina-de-fumaça para o fato de os bandeirantes terem sido responsáveis pelo fim do mais próspero dos quilombos, pouco importa como fosse o seu funcionamento interno. Detalhe: as terras onde se situava Palmares eram consideradas as melhores da então capitania de Pernambuco, e até por isso cobiçadíssimas. E se Palmares tivesse sobrevivido?

“Os quilombolas viviam em paz, numa espécie de fraternidade racial. Havia, nos quilombos, uma população heterogênea, de que participavam em maioria os negros, mas que contava também mulatos e índios. Alguns mocambos dos Palmares, como o do Engana-Colomim, eram constituídos por indígenas, que pegaram em armas contra as formações dos brancos. O alferes Francisco Pedro de Melo encontrou, na Carlota, apenas seis negros entre as 54 presas que ali fez, pois 27 eram índios e índias e 21 eram caborés, mestiços de negros com índias cabixês das vizinhanças. E os negros chegaram a estabelecer comércio regular com os brancos das vilas próximas, trocando produtos agrícolas por artigos manufaturados. (…)

O motivo das entradas parece estar mais na conquista de novas terras do que mesmo na recaptura de escravos e na redução dos quilombos. (…)Era voz corrente que as terras dos Palmares eram as melhores de toda a capitania de Pernambuco –e a guerra de palavras pela sua posse só não foi menor, nem mais suave, do que a guerra contra o Zumbi. O quilombo do rio das Mortes ficava exatamente no caminho dos abastecimentos para as lavras de Minas Gerais, o que pode dar uma ideia do valor das suas terras e da riqueza econômica que representavam, e é nessa circunstância que se encontra a razão da crueldade de Bartolomeu Bueno do Prado, que de volta a Vila Rica trouxe 3900 pares de orelhas de quilombolas.” (Edison Carneiro)

A construção do mito do bandeirante como “herói” pela elite paulista passa, sem dúvida, pela destruição do Quilombo dos Palmares. Não à toa, Domingos Jorge Velho, algoz de Zumbi, foi eternizado numa pintura de Benedito Calixto, uma das muitas obras de arte encomendadas pelo governo de São Paulo no início do século 20 para enaltecer os bandeirantes como símbolo da “superioridade paulista”. Sintomaticamente, Velho, que era mameluco, foi pintado à imagem e semelhança dos barões do café, em pose idêntica à dos quadros que retratavam a monarquia europeia: branco, bem-vestido, bem-cuidado, altivo e robusto.

DOMINGOS JORGE VELHO MITIFICADO POR BENEDITO CALIXTO, 1903


Com uma estratégia digna de qualquer marqueteiro de hoje, implantava-se assim, no inconsciente coletivo, a ideia de que a elite cafeeira era descendente direta dos “valentes” bandeirantes e que o paulista seria, por natureza, mais “batalhador” que os demais brasileiros. Percepção que, pelo que temos visto, permanece viva na memória de boa parte dos habitantes do Estado até hoje.

Alcunhado mais tarde “herói dos Palmares”, o sanguinário Domingos Jorge Velho, atual nome de rua em 12 cidades de São Paulo, foi contratado pelo governador de Pernambuco para esmagar o Quilombo quando estava “aposentado” no Piauí, vivendo nas terras que tomara dos índios, cercado de concubinas. O governador deu plenos direitos ao “coronel”, como foi logo chamado, inclusive o de prender qualquer branco que ajudasse os negros do Quilombo dos Palmares. Se bem sucedidos, o bandeirante e seus homens seriam recompensados com dinheiro e terras, embora os vizinhos de Palmares preferissem os negros aos “bárbaros” paulistas por perto.

O bispo de Pernambuco assim descreveu o “heróico” bandeirante em carta ao rei: “Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua (intérprete), porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais”.

O que aconteceu em Palmares foi um banho de sangue e o aprisionamento de mulheres e crianças. “Foram tantos os feridos que o sangue que iam derramando serviu de guia às tropas que os seguiram”, escreveu o governador Caetano de Melo e Castro. Ficara acertado que as presas menores de 12 anos seriam vendidas aos paulistas. Os meninos menores de 12 anos ficariam em Pernambuco. Às negras com crias também foi permitido permanecer na capitania até que os rebentos chegassem à idade de três anos, quando “poderão viver sem o leite de suas mães”. Somente um ano depois da queda dos Palmares, porém, é que Zumbi foi capturado e morto.

Conta Edison Carneiro:

“Os moradores do Rio São Francisco (Penedo) conseguiram prender um dos auxiliares imediatos do Zumbi –’um mulato de seu maior valimento’, como dizia o governador Caetano de Melo e Castro.

O prisioneiro estava a caminho do Recife, sob escolta, quando o grupo deu com uma tropa, ‘que acertou ser de paulistas’, comandada pelo capitão André Furtado de Mendonça. Provavelmente os paulistas torturaram o mulato, pois este, ‘temendo… que fosse punido por seus graves crimes’, prometeu que, se lhe garantissem a vida em nome do governador, se obrigava a entregar o ‘traidor’ Zumbi. A oferta foi aceita –e o mulato cumpriu a palavra, guiando a tropa ao mocambo do chefe negro.

O chefe dos Palmares já se tinha desembaraçado da família e se encontrava apenas com 20 negros. Destes, distribuiu 14 pelos postos de emboscada e, com os seis que lhe restavam, correu a esconder-se num sumidouro ‘que artificiosamente havia fabricado’. A passagem, porém, estava tomada pelos paulistas. O Zumbi ‘pelejou valorosa ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns, e não querendo render-se, nem os companheiros, foi preciso matá-los…’.

Somente um dos homens do Zumbi foi apanhado vivo.

Domingos Jorge Velho, mais tarde, em requerimento a Sua Majestade, dizia, expressamente, que o Zumbi fora liquidado por ‘uma partida de gente’ do seu Terço, que topara com o chefe negro a 20 de novembro de 1695.

A carta do governador, em que contava detalhadamente o episódio, está datada de 14 de março de 1696, mas Caetano de Melo e Castro conhecia a notícia muito antes, pois já recebera dos Palmares a cabeça do Zumbi e a mandara espetar num poste, ‘no lugar mais público desta praça’ (o Recife), para satisfação dos ofendidos e para atemorizar os negros, que consideravam ‘imortal’ o chefe palmarino. O atraso certamente decorreu das dificuldades de navegação: o governador viu-se forçado a mandar a sua carta por um patacho que seguia para a ilha da Madeira, na esperança de que ali houvesse navio que ‘com maior brevidade’ chegasse a Lisboa, pois não queria ‘dilatar’ a nova a Sua Majestade.

A morte do Zumbi teve lugar, como o indicam esses documentos, a 20 de novembro de 1695 –quase dois anos depois de destroçado o reduto do Macaco.”

Diz-se que o negro Zumbi foi morto com 15 ferimentos a bala e mais de 100 golpes de armas brancas. Um de seus olhos teria sido arrancado, assim como a mão direita. O pênis foi cortado e enfiado em sua própria boca. A cabeça foi salgada e levada para o Recife para ser exposta em praça pública. O bandeirante Domingos Jorge Velho morreu em 1705, aos 64 anos, em sua fazenda na Paraíba.


Para mim, parece bem claro quem é o herói desta história. Para a direita, não.

Bob Fernandes/Diogo, negro, assaltado e espancado... Ainda frutos de 350 anos de escravidão


Bob Fernandes



Exibido nos últimos dias o vídeo do espancamento do ator Diogo Cintra, 24 anos.
Diogo foi assaltado por dois homens à entrada do terminal de ônibus Dom Pedro, em São Paulo. Diogo correu para dentro do terminal e pediu socorro.
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Uma segurança recomendou: "Corra". Com porretes nas mãos, três homens se juntaram aos assaltantes gritando que Diogo era "ladrão".
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O ator Diogo Cintra é negro. Seguranças e passageiros se limitaram a assistir Diogo, o assaltado, ser espancado. Vários dos espectadores, e seguranças, também negros.
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No Brasil, a cada 100 mortos por homicídio, 71 são negros. Quase sempre adolescentes ou jovens.
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Dos mortos pela polícia, 76% são negros. Que são 67% entre os mais de 620 mil presos.
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Manchetes nos últimos dias: IBGE mostra que "negros e pardos ganham o equivalente à metade dos salários dos brancos".
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A atriz Taís Araújo é casada com o ator Lázaro Ramos. Excelentes atores e, à revelia, definidos como isso que chamam de "celebridades".
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Ambos já sofreram injúria racial. Ambos são ativistas. E enfrentam a ignorância racista, quando não também fascista.
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Ignorância fascistóide que se expõe também quando zurra a expressão "vitimísmo". A atriz Taís Araújo resume:
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-No Brasil, a cor do meu filho (dela e de Lázaro Ramos) é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros.
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Ano que vem, 130 anos da Abolição da Escravidão.
As expressões "escravos", "escravidão", foram sendo naturalizadas. Os motivos para tanto são incontáveis. Mas num dia como hoje é importante recordar...
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...Imagine o que é você ter um dono. Que te espanca ou açoita quando quiser. Que te usa e aos seus filhos a vida inteira, para tudo. Como quiser, inclusive sexualmente.
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Assim foram mais de três séculos e meio de "Senhores" e seus escravos. Três quartos da história na formação da nação.
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A Casa Grande e a Senzala, nas suas mais amplas, diversas e complexas formas e derivações são definidoras do Brasil.