sexta-feira, 25 de julho de 2014

TALVEZ VOCÊ SEJA UM EXPERIMENTO DE POPPER. TALVEZ A RAQUEL DE BLADE RUNNER

Via Jornal O Rebate

“…Para aqueles sem nenhuma consciência de como seus anseios pessoais são usados em benefício de algumas experiências de negócios lucrativas, e de sobrevida do sistema, abrindo novos parceiros em nações que serão mais dependentes, gerar mais empréstimos e menos cooperação com parceiros próximos geográfica e culturalmente. O sucateamento da memória de um povo é condição sem a qual ao se crer independentes e em novos movimentos " supostamente" sem lideres, sem partidos e sem fins objetivos se repetem alguns eventos ”

Camille Helena Claudel

Quando ocorreram as trágicas, (agora sabemos devido ao retrocesso e condenações à morte) jornadas da primavera árabe, fui tomada por um senso de Déjà Vu, confesso. Durante minha estadia na Europa, tive a oportunidade de conviver com vários ucranianos e outros imigrantes, seja em instituições de ensino ou ajuda humanitária. Perguntados sobre a vida em seu país, reportavam-me uma realidade dura e as novidades no lado da União Europeia (UE) eram consideradas a certeza de uma vida melhor.

Já em 2012, uma pesquisa revelava que 80% dos imigrantes ucranianos eram mulheres envolvidas em trabalho doméstico, um fenômeno recente se comparado aos países da área. (fontehttp://www.eastjournal.net/ucraina-donne-emigrate-in-italia-ma- chi-bada-alle-loro-famiglie/21336) As ucranianas que conheci, faziam tarefas como cidadãs de” segunda classe” ilegais. Elas estavam no centro da economia informal junto com polonesas e romenas, sejam como babás, cuidadoras ou faxineiras e outros. Muitas delas possuíam curso superior e estavam na maturidade dos seus 40 anos fazendo cursos extensivos e graduação. Questionadas, os discursos eram sempre de mandar dinheiro para família ou comprar um celular. Depois disso, voltar para o país de origem após algumas temporadas de trabalho " in nero " (ilegal). Penso (conhecendo bem) em como estas pessoas se decepcionaram com a não entrada da Ucrânia na UE quando esta acenou com “tamanha benevolência’. Ali, estava a solução para anos de trabalho análogo a escravidão. Dentro deste contexto, fica claro parte dessas forças externas que atuaram na Ucrânia sem uma visão mais amiúde de tudo que estaria em jogo. Entretanto, devido as circunstâncias atuais, parece que os cidadãos ucranianos estão descobrindo que a União Europeia não é aquela que o marketing e a idealização inicial "contou". Dados recentes comprovam a mudança inevitável:

TAXA DE DESEMPREGO MENORES DE 25 ANOS

Alemanha - 7,8%
Espanha - 54%
Eurozona - 23,3%
França - 22,5%
Grécia 57,7%
Itália - 43%
Portugal - 34,8%
Fonte: Eurostat - Maio/14

Essa é a realidade da UE hoje. Os dados acima, tornam muito compreensível que o governo ucraniano à época dos eventos fizesse a escolha pela estabilidade russa e não entrada na União Europeia. Trata-se de objetividade e realismo diante de um novo contexto. Se agrava também uma espécie de conjunção profana no encontro da esquerda e direita radicais em diversos eventos da atualidade, festejadas inclusive na arte geral, obras digitais a exemplo da recente exposição em Viena, reunindo várias obras sob o título de "EU SOU UMA GOTA NO OCEANO" [sic] e cinema, além de obras não tão diretamente ligadas a Ucrânia.

Esse fato, tem enfim despertado a atenção de muitos para a propagação de um determinado conceito, dito isso, volto a uma afirmação vista em alguns jornais: a parte ocidental da Ucrânia é mais propensa a receber influências externas além de ser mais jovem. Os jovens são mais propensos a esse contato midiático. Talvez sejam, mas de um fascínio fugaz e pouco analítico. Os jovens vivem um desejo por realizações pessoais e embevecidos por fazer história. No entanto, o enredo se assemelha as telenovelas na sua produção, visto que os atores muitas vezes não sabem o que o autor lhes reserva, utilizando-os ao sabor da audiência e interesses momentâneos dos anunciantes. Tal fato, pode ser comparado à formação vista na Ucrânia, em um estado que se aproxima cada vez mais de ser um grande conglomerado financeiro sem regras claras para a população e instituições democráticas. Devido a isso, o país enfrenta uma longa crise onde surge a necessidade e já pré-acordada na transição de mais empréstimos para pagar dívidas já “insolventes”, deixando de se investir no país. Dentro deste contexto, agentes externos pedem mais das antigas e escabrosas alianças ucranianas com o fascismo. O Estado Russo que pague a conta, passivamente, dos acordos desfeitos, mas isto não vai acontecer. Agora, não há mais espaço para opiniões ou dissidências entre todos os desiguais envolvidos, imersos num mesmo poço inesperado. Mergulhados em uma crise de morte e vida barbaresca, a Ucrânia sedimenta o modus operandi percebido já no Egito, Líbia (salvo particularidades culturais, obvio). Aos poucos, vai tomando corpo a teoria que muitos desconhecem e insistem em repetir mundo afora, sem perceber que sufocará o direito a manifestação e escolha chamados por muitos de democracia. Um dado importante nos últimos acontecimentos dessa novela que tem sido escrita em várias partes do planeta é um filosofo nascido em1902 em meio a efervescência cientifica do período, Karl Popper. Para ele uma teoria só é considerada cientifica se puder ser contestada. Popper talvez não seja tão conhecido nestas sociedades, mas teve como seu discípulo o magnata George Soros. Ele junto a outros agentes mais ou menos conhecidos, leva às últimas consequências (como sociopatas, digamos) os conceitos de Popper na vida das massas. A teoria só é cientifica se possibilita a contestação exitosa ou não. Mas como isso se aplica na Ucrânia? A resposta é Open Society Fondation (OSF).

Nome originário de um conceito do filósofo francês, estudioso da memória, o que é imensamente relevante para nosso argumento já que a memória é uma construção mental e sofre diversas influências nessa construção, entre outras coisas Henri Bergson. A primeira fase da OSF foi como organização criada para fazer a transição comunista para um sistema de capital. A Open Society tem muitos serviços prestados com esse fim, ela pertence a Soros, “muito entusiasta dos movimentos sociais” e com muitos tentáculos em países no Oriente Médio, África e emergentes. Ao todo 60 países no mundo. Soros é também um hábil homem de negócios. Soros, tem textos onde exorta jovens ucranianos por volta de 07 abril deste ano: Mantenha o Espírito do Maidan vivo.

07 de abril de 2014 por George Soros (Mantenha o Espírito de Maidan Vivo ) direcionado aos jovens da Ucrânia http://www.opensocietyfoundations.org/voices/ keep-spirit-maidan-alive.

Conclama pessoalmente ucranianos a contestar. George Soros, aproveita essa sede de contestação natural que é parte da busca da identidade, inerente ao jovem e na ideia dessa “Sociedade Aberta" um conceito social de Karl Popper seu mentor a “resistência” é contraditório sua vida e ações ao discurso que faz, é maleável em diversos momentos. Investe em várias ações para alcançar seus objetivos. Se vale de diferentes abordagens, métodos, paradigmas e muitos formadores de opinião sempre “ uns jovens contestadores”, “repetidores independentes”, ligados a sua obra. Não à toa o nome dado a esse organismo criado por Soros teve em suas duas edições, mudando o nome, mas mantendo sempre a “ Open Society”: é o conceito do mestre Popper, que definiu assim a sociedade aberta: “Um lugar em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais". Distanciando por fim das escolhas tradicionais e coletivas do tribal, o que seria uma evolução natural segundo ele. Voltando a Bergson, o estudioso da memória, podemos encontrar a conclusão que definem as ações de cidadãos ucranianos (ou não pelo mundo das manifestações) simples, jovens e criando sociedades convulsionadas pelos agentes da tese de Popper que se regozija no túmulo. O capitalismo sempre se utilizou dessas maquinações e do desconhecimento de propagação de conceitos. Soros parece negar Popper para um leitor menos atento, mas muito pelo contrário, o utiliza para um mais perspicaz observador de forma sistemática e coerente. Quando se ver o filósofo porém, não o identificará com sociedade aberta democrática ou capitalismo laissez-faire, mas sim com um "quadro crítico de espírito por parte do indivíduo" (nem esquerda, nem direita o q eu quero é “liberdade’?). Os manifestantes agem de acordo a interesses comuns, em um grupo de qualquer espécie ao utilizar um discurso de sociedade que se rebela, de forma criticar, e despreza o conceito de esquerda ou direita para aderir a só sua individualidade, e mistura diferentes ideologias. Cria-se então, uma pasta humana que serve aos aliciadores e multiplicadores de organizações como a OSF, mas não ao público.

́É uma mudança rumo ao desconhecido. Aplicado tão bem por Soros quando "reconhece a força emocional de continuar”, do que o filósofo chamou de "espírito de grupo perdido do tribalismo", tal como se manifesta por fim, por exemplo, nos totalitarismos do século passado. Isso que na prática foi a aposta no Egito e está se dando na Ucrânia por exemplo. Para aqueles sem nenhuma consciência de como seus anseios pessoais são usados em benefício de algumas experiências de negócios lucrativas, e de sobrevida do sistema, abrindo novos parceiros em nações que serão mais dependentes, gerar mais empréstimos e menos cooperação com parceiros próximos geográfica e culturalmente. O sucateamento da memória de um povo é condição sem a qual ao se crer independentes e em novos movimentos " supostamente" sem lideres, sem partidos e sem fins objetivos se repetem alguns eventos .Para articuladores financistas ainda é prazeroso poder olhar as teorias apreendidas na juventude sendo provadas (implementadas) arriscar em meio aos momentos de lazer com as massas, entre os negócios, a sociedade aberta e o seu teste sendo aplicado como teoria social em constante aperfeiçoamento ao sabor do contexto em que se aplica. O discípulo nega e se mostra critico, mas está aplicando perfeitamente seu mestre que se sentiria homenageado.

Ps: Quando criança pensava e dizia à minha mãe que tudo que repetimos massivamente já foi pensado e disposto por algum professor em uma universidade pelo mundo.

Mário Neira: "Não sabíamos que a operação tinha a morte de Jango como objetivo"

via feicibuqui da Flávia Leitão

Depoimento Mário Neira, ex-agente do serviço de inteligência uruguaio, afirma que participou de operação que teria resultado na morte de João Goulart na Argentina.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Marco Aurélio Garcia: relevância genocida nazi-sionista, dispensamos

O título da postagem é desse bloguezinho mequetrefe.

Via Opera Mundi

O que está em jogo na Faixa de Gaza

Marco Aurélio Garcia

Em artigo exclusivo a Opera Mundi, Marco Aurélio Garcia defende condenação de ofensiva israelense por parte do governo brasileiro

Esta nota estará seguramente desatualizada quando for publicada. Mais de setecentos palestinos – grande parte dos quais mulheres, crianças e anciãos – foram mortos nos bombardeios das Forças Armadas israelenses na Faixa de Gaza desde que, há duas semanas, iniciou-se uma nova etapa deste absurdo conflito que se arrasta há décadas. A invasão do território palestino provocou também mais de 30 mortos entre os soldados de Israel.
Agência Efe

Dezenas de palestinos morreram apenas com os ataques de Israel desta quinta-feira (24/07)
O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel.
Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza. Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.
A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”.

É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.
Não é muito difícil entender, igualmente, que está cada dia mais complicado ser “parte da solução” neste trágico contencioso. Foi o que rapidamente entenderam o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, depois de suas passagens por Tel Aviv, quando tentaram sem êxito pôr o fim às hostilidades.
Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio – reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança – temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.

Estive, mais de uma vez, em Israel e na Palestina. Observei a implantação de colônias israelenses em Jerusalém Oriental, condenadas mundialmente, até por aliados incondicionais do governo de Tel Aviv. Vi a situação de virtual apartheid em que vivem grandes contingentes de palestinos. Constatei também que são muitos os israelenses que almejam uma paz duradoura fundada na existência de dois Estados viáveis, soberanos e seguros.
É amplamente conhecida a posição que o Brasil teve no momento da fundação do Estado de Israel. Não pode haver nenhuma dúvida sobre a perenidade desse compromisso.
Temos reiterado que a irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial. Não se trata, assim, de um conflito regional, mas de uma crise de alcance global.
Agência Brasil

É preocupante que os acontecimentos atuais na Palestina sirvam de estímulo para intoleráveis manifestações antissemitas, como têm ocorrido em algumas partes, felizmente não aqui no Brasil.
A criação do Estado de Israel, nos anos quarenta, após a tragédia do Holocausto, foi uma ação afirmativa da comunidade internacional para reparar minimamente o horror provocado pelo nazi-fascismo contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e socialdemocratas.  Mas o fantasma do ressurgimento ou da persistência do antissemitismo não pode ser um álibi que justifique o massacre atual na Faixa de Gaza.

O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira.  Foi esse sentimento que Lula expressou em seu discurso, anos atrás, na Knesset, quando evocou, por exemplo, o papel de um Carlos e de um Moacir Scliar ou de uma Clarice Lispector para a cultura brasileira. A lista é interminável e a ela se juntam lutadores sociais como Jacob Gorender, Salomão Malina, Chael Charles Schraier, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski e tantos outros.
Nunca os esqueceremos.
(*) Marco Aurélio Garcia é assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais

IDH: Cidadania não é ter educação e saúde. É poder comprar TV LED de 60″

Sanguessugado do Sakamoto

Leonardo Sakamoto

Você comprou uma TV LED de 60 polegadas e, por isso, sente-se – finalmente – no mesmo patamar dos seus vizinhos que já tinham uma em casa. Consegue se enxergar como um cidadão como nunca antes. Mas está endividado por ter que pagar o plano de saúde mequetrefe que te deixa na mão (porque subiu um pouco na vida, não é mais “pobre'' e não quer enfrentar a fila do SUS).

E, ao mesmo tempo, com a corda no pescoço pela dívida contraída com a sua faculdade caça-níqueis de qualidade duvidosa (educação básica universalizou, mas a qualidade não acompanhou). Afinal, você não tinha dinheiro para pagar um colégio particular e, portanto, não conseguiu entrar em uma universidade pública para fazer aquele sonhado curso de medicina.

Você acredita que qualidade de vida significa apenas ter acesso a eletrodomésticos, carros populares e iogurte?

De acordo com relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), nesta quinta (24), o Índice de Desenvolvimento Humano Brasil subiu (0,744) e superou a média da América Latina e Caribe. Mas o país ainda ocupa o 79º lugar no ranking mundial com 187 países. A desigualdade de renda e de oportunidades ainda impedem que avancemos mais rapidamente no acesso à saúde e à educação de qualidade – elementos considerados na construção do indicador.

Fazemos parte do seleto grupo de países ricos com altíssima concentração de riqueza e respeito insuficiente aos direitos humanos. Situação que não vai mudar tão cedo, tendo em vista que a estrutura que a sustenta muda muito lentamente. Não importa o quão forte torturemos os números, fazendo leituras descontextualizadas, para acelerar o processo.

Na média, o Brasil é um país rico. O problema é que ele continua na mão de poucos: a) O PIB sobe (mesmo que menos que o esperado) e fluiu mais para as mãos dos que puderam comprar ações do que daqueles que dependeram de salário mínimo ou de programas de distribuição de renda; b) A educação está sendo universalizada – contudo a extensão de sua abrangência não é acompanhada pela sua qualidade, nem de longe; c) Vive-se mais, mas não necessariamente melhor. Posso debater com quem discorda disso na fila de um hospital público enquanto aguardamos uma consultinha.

Quando tratamos do tema por essa ótica, sempre aparece a cantilena que “a população tem que entender que o crescimento vai beneficiar a todos. Não agora. Em algum momento''. Os economistas da ditadura falavam a mesma coisa, mas de uma forma diferente, algo como “é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois distribui-lo''. Por isso, apesar de você ter ajudado a produzir o doce tira a mão dele que não é hora de você consumi-lo. Hoje, são alguns que vão comer. Vai chegar a sua vez de provar do bom e do melhor. Algum dia.

Considerando que a desigualdade social por aqui, que cai ano a ano, continua uma das altas do mundo, percebe-se o tipo de resultado dessa fórmula. O melhor de tudo é o tom professoral (“A população tem que entender''), como se o especialista fosse um ser iluminado, dirigindo-se para o povo, bruto e rude para explicar que aquilo que sentem não é fome. Mas sim sua contribuição com a geração de um superávit primário para que sejam honrados os compromissos do país. Agora, fazer uma auditoria da dívida brasileira que é bom, governo nenhum, tucano ou petista, topou fazer.

O debate sobre desenvolvimento é uma discussão sobre a qualidade de vida. Que só será efetivo caso não exclua a população mais pobre dos benefícios trazidos por ele e não seja resultado da dilapidação dessa mesma população. A pergunta que temos que fazer é: estamos conseguindo dividir o bolo, não por igual, mas com ênfase em quem mais precisa por ter sido historicamente dilapidado?

Estamos conseguindo diminuir a concentração de renda na maior velocidade possível ou poderíamos ir além e implementar medidas para que não apenas os filhos dos mais pobres usufruam de uma boa vida em um futuro distante, mas eles próprios, aqui e agora? Pois esse é o tipo de situação em que não dá para perder peões a fim de ganhar o jogo.

Você se importa com tudo isso ou se preocupa apenas em comprar um home theater para a sua TV nova?

As entrelinhas das guerras por alimentos

Via Rebelión

A Rússia proibiu completamente os OGM; o primeiro ministro Dmitry Medvedev advertiu: “se os norte-americanos gostam dos produtos OGM, que os comam. Nós não precisamos deles; temos espaço e oportunidades suficientes para produzir comida orgânica”. A China proibiu os OGM em produtos alimentícios militares. A Itália acaba de promulgar uma lei, a Campo Livre, que castiga com prisão de um a três anos e multa de 10 mil a 30 mil euros a semeadura de cultivos OGM. A ministra italiana da Agricultura, Nunzia de Girolamo, assinalou em um comunicado: “Nossa agricultura se baseia na biodiversidade e na qualidade, e devemos continuar a elas sem aventuras que, sob o ponto de vista econômico, não nos tornariam mais competitivos”.

Vandana Shiva(*)

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

A Monsanto e seus amigos na indústria biotecnológica, seus lobistas e seus representantes pagos nos meios de comunicação continuam incentivando o controle monopólico dos alimentos no mundo mediante sua oferta de sementes.

Esse império é construído sobre argumentos falsos: que a Monsanto é a criadora/inventora da vida, e portanto pode ser a proprietária das sementes através de patentes, e que a vida pode ser produzida com engenharia e máquinas, como um iPhone.

Pela ecologia e pela nova biologia sabemos que a vida é uma complexidade organizada por si mesma: ela se constrói sozinha, e não é possível manufatura-la. Isso se aplica também à produção de alimentos mediante a nova ciência da agroecologia, a qual nos brinda com um conhecimento científico mais profundo sobre os processos ecológicos a nível do solo, as sementes vivas. As promessas da indústria biotecnológica – maiores rendimentos, redução do uso de agrotóxicos e controle de ervas daninhas e pragas – não se cumpriram. No mês passado, um fundo de investimentos processou a DuPont em um bilhão de dólares por promover cultivos resistentes a herbicidas sabendo que não poderiam controlar as ervas daninhas, que por sua vez  contribuíram para o surgimento de “super-ervas-daninhas”.

Ao criar a propriedade das sementes mediante patentes e direitos de propriedade intelectual, e impô-la ao planeta através da Organização Mundial do Comércio, a indústria biotecnológica estabeleceu um império monopólico sobre as sementes e os alimentos. Além de reclamar a propriedade das sementes que vende e cobrar royalities, em matérias de controles e equilíbrios sobre a segurança a indústria biotecnológica destrói sistematicamente leis nacionais e internacionais relativas à biosegurança, afirmando que “seus produtos são como a natureza os criou”. É esquizofrenia ontológica!

A biosegurança é a avaliação multidisciplinar do impacto da engenharia genética sobre o ambiente, a saúde pública e as condições sócioeconômicas. No âmbito internacional, a biosegurança é direito internacional consagrado pelo Protocolo de Cartagena sobre Biosegurança. Eu fui designada por um grupo de especialistas para elaborar a base do programa ambiental das Nações Unidas, com a finalidade de por em vigor o artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB).

A Monsanto e seus amigos têm tentado negar aos cidadãos o direito à alimentação saudável opondo-se ao artigo 19.3 desde a Cume da Terra no Riod e Janeiro, em 1992. Nestes dias, eles tentam desmantelar as leis nacionais sobre biosegurança na Índia, Paquistão, União Européia e em toda a África e América Latina. Nos Estados Unidos, distorcem a Constituição ao entrar com demandas contra governos estaduais que tem promulgado leis para etiquetar os alimentos geneticamente modificados, alegando que o direito dos cidadãos de saber o que consomem está abaixo do direito da indústria biotecnológica de impor alimentos perigosos para os consumidores desinformados, o que manejam como liberdade de expressão da empresa, como se esta fosse pessoa física. Deslocam sua maquinaria de propaganda para atacar com argumentos não científicos os pesquisadores que trabalham com biosegurança, como Árpad Pusztai, Ignácio Chapela, Irina Ermakova, Eric Séralini e eu.

Muitos jornalistas sem conhecimentos científicos se alinharam como soldados nesse assalto propagandístico. Homens brancos privilegiados, como Mark Lynas, Jon Entine e Michael Specter, sem experiência prática em agricultura, munidos somente com graus de bacharelado e vinculados a meios controlados pelos consórcios são usados para solapar as verdadeiras descobertas científicas sobre os impactos dos OGM em nossa saúde e ecossistemas.

A indústria biotecnológica usa seus títeres propagandistas para sustentar a falácia de que os OGM são a solução para a fome no mundo. Essa negativa a um autêntico debate científico sobre como os sistemas vivos evoluem é respaldada por um assalto intensivo e maciço de propaganda, que incluem a utilização de agências de inteligência como a Blackwater.

Em 2010, a Forbes citou-me como uma das sete mulheres mais poderosas do planeta, “por colocar as mulheres à frente e no centro da solução do assunto da segurança alimentar no mundo em desenvolvimento”. Em 2014, o jornalista Jon Entine escreveu um artigo de opinião, no qual sustentava que eu não tinha estudado física. Além de ter feito um pós-graduação em física e realizado meu doutorado sobre os fundamentos da teoria quântica, passei 40 anos estudando ecologia em granjas e florestas da Índia, onde a natureza e os sábios camponeses foram meus mestres. Essa é a base da minha experiência e agroecologia e segurança alimentar.

A boa ciência e as tecnologias aprovadas não necessitam propaganda, agências de inteligência e governos corruptos para demonstrar fatos. Se os ataques infundados de um não cientista a uma cientista de um país em desenvolvimento são um de seus instrumentos de dar forma ao futuro, erraram completamente. Eles não se dão conta da crescente indignação cidadã contra o monopólio da Monsanto.

Em nações soberanas, onde o poder da Monsanto e de seus amigos é limitado, o povo e os governos rechaçam seu monopólio e sua tecnologia fracassada, mas a máquina de propaganda suprime essa notícia.

A Rússia proibiu completamente os OGM; o primeiro ministro Dmitry Medvedev advertiu: “se os norte-americanos gostam dos produtos OGM, que os comam. Nós não precisamos deles; temos espaço e oportunidades suficientes para produzir comida orgânica”. A China proibiu os OGM em produtos alimentícios militares. A Itália acaba de promulgar uma lei, a Campo Livre, que castiga com prisão de um a três anos e multa de 10 mil a 30 mil euros a semeadura de cultivos OGM. A ministra italiana da Agricultura, Nunzia de Girolamo, assinalou em um comunicado: “Nossa agricultura se baseia na biodiversidade e na qualidade, e devemos continuar a elas sem aventuras que, sob o ponto de vista econômico, não nos tornariam mais competitivos”.

As peças de propaganda na Forbes e no New Yorker não podem deter o despertar de milhões de agricultores e consumidores sobre os verdadeiros perigos dos organismos geneticamente modificados em nossa comida, e as desvantagens e defeitos do sistema de alimentos industriais que destrói o planeta e nossa saúde.

(*) Diretora executiva do Fundo Navdanya